28.11.12

Dez quilómetros por hora


Velocidade máxima, dez quilómetros por hora, comandava o sinal no começo da ponte. (...)
Ali, no início de ambos os sentidos da ponte, que tinha muito trânsito, nada podia passar despercebido. Nem o impraticável limite fixado, que fazia os automobilistas rir, concluir rapidamente pela estupidez das autoridades e determinar a sua própria versão da velocidade possível e desejável. Como essas versões eram tão variadas quanto a personalidade dos condutores, indo desde os razoáveis cinquenta quilómetros até aos psicóticos cem quilómetros por hora, passando por muitas outras velocidades e modos de conduzir saudáveis e neuróticos, os desastres ocorriam diariamente. Tão diariamente que a ponte deixou de ser notícia. Os repórteres na televisão limitavam-se a dizer mais um morto na ponte, ou mais dois, ou mais cinco. Sem detalhes, passando adiante, quase encolhendo os ombros.
Depois houve um jornalista que resolveu fazer uma grande reportagem.
Contou a história toda, desde o princípio. Desde que o sinal ali fora posto em 1933. As eficácias primeiras, os desastres seguintes, o imobilismo dos responsáveis que consideravam como única causa de todos os acidentes e atropelos - fossem físicos, fossem psicológicos - o excesso de velocidade. As autoridades abriram então um olho. Só um, não os dois. Uma pálpebra preguiçosamente erguida, um olhar mole. Sim, é possível, talvez o sinal, convidando ao desrespeito, seja contraproducente. Poderá pensar-se em alterá-lo, talvez para o dobro, saltos bruscos de mais de cem por cento não nos parecem aconselháveis. Vinte à hora, indignava-se o jornalista que fora recolher estas reacções sucintas à reportagem acusatória. Um estudo vai ser feito, uma comissão vai ser nomeada, não podemos precipitar-nos, concluía a autoridade tanto quanto possível contactada.
Houve uma manifestação, promovida pelas famílias de todos os acidentados, mortos e feridos. Foi concorridíssima, encheu várias ruas da cidade. Os sinais da ponte saltaram para a ordem do dia, faziam cabeçalhos muito vendáveis nos jornais.
As autoridades resolveram então mudá-los. Como medida prévia e experimental, sem prejuízo do que viesse a ser decidido pela comissão. Isto mesmo viera dizer o primeiro-ministro, claramente, para evitar que alguém fosse desautorizado, ou que alguém se sentisse desautorizado, ou que alguém pensasse que poderia desautorizar alguém ou, enfim, para que nenhum jornalista atrevido pretendesse encontrar no caso qualquer sintoma de vício e corrupção.

Maria Isabel Barreno, "A Ponte",
in Os Sensos Incomuns, Ed. Caminho



Notas:
psicóticos: que sofrem de doenças mentais graves.
neuróticos: diz-se de quem sofre do sistema nervoso.
imobilismo: aversão ao progresso; inacção.
contraproducente: que produz efeitos contrários aos esperados.
sucintas: resumidas, breves.
prévia: antecipada.


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Face ao sinal, os automobilistas:

transgrediam o limite de velocidade

decidiam a velocidade mais apetecível

respeitavam o limite de velocidade

1.2. A velocidade praticada era:

igual para todos

razoável

dependente da personalidade do condutor

2. Completa o esquema apresentado, elaborando a síntese de cada parte.

1.a parte (1.° e 2.° parágrafos):

2.a parte (3.° a 5.° parágrafos):

3.a parte (6.° parágrafo):

3. Reescreve o terceiro período do segundo parágrafo, iniciando-o pela oração subordinante e fazendo as adaptações exigidas para não alterar o sentido.

4 Como reagem os meios de comunicação aos acontecimentos rotineiros?

5. O texto encerra uma crítica feita com humor

5.1. Objectivamente, o que é criticado?

5.2. Indica uma situação em que há humor

6. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Conduzir em Portugal.


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Face ao sinal, os automobilistas:

transgrediam o limite de velocidade

decidiam a velocidade mais apetecível

respeitavam o limite de velocidade

1.2. A velocidade praticada era:

igual para todos

razoável

dependente da personalidade do condutor

2. Completa o esquema apresentado, elaborando a síntese de cada parte.

1.a parte (1.° e 2.° parágrafos):

2.a parte (3.° a 5.° parágrafos):

3.a parte (6.° parágrafo):

3. Reescreve o terceiro período do segundo parágrafo, iniciando-o pela oração subordinante e fazendo as adaptações exigidas para não alterar o sentido.

4 Como reagem os meios de comunicação aos acontecimentos rotineiros?

5. O texto encerra uma crítica feita com humor

5.1. Objectivamente, o que é criticado?

5.2. Indica uma situação em que há humor

6. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Conduzir em Portugal.