28.12.12

Absurdo e burocracia




Mas, inexplicavelmente, ele manteve-se. Ele, o sinal dos dez quilómetros à hora. Inexplicavelmente para o público em geral, claro, para o "homem da rua", para o "país real", e para outros interlocutores inexistentes e sempre amplamente nomeados e citados quando cada um quer provar suas razões particulares. Para as elites informadas, para os iniciados nos circuitos do poder, não havia nada de inexplicável, nem sequer de explicável. Acontecia, diziam, que as autoridades nunca tinham feito tenções de mudar o sinal, até ao final dos trabalhos da tal comissão que estava a receber chorudos honorários, e a manobra da medida prévia experimental fora pura demagogia, poeirã nos olhos dos crentes.
As autoridades justificavam-se: circunstâncias burocráticas, diziam, falhas de comunicação ainda não corrigidas. Um funcionário das Finanças veio à televisão escla-recer que o dinheiro dos contribuintes não podia ser delapidado à toa, e que, portanto, seriam necessários orçamentos de três empresas do ramo para a execução de novos sinais. Só assim, concluiu, se podem evitar os abusos e os nepotismos.
Com toda esta publicidade à volta do assunto, apareceu alguém que resolveu conduzir as suas próprias investigações pelo método mais absurdo. (...) Houve então um homem que resolveu segui-lo, cumpri-lo à risca: a ele, sinal.
Abrandou na entrada da ponte para dez quilómetros horários, e arrastou-se como pôde, em primeira, fazendo o possível por não deixar o carro soluçar, num jogo delicado de embraiagem e acelerador, ponte fora. (...) Queres que vá telefonar à tua mulher para ela te trazer o jantar?, diziam. Depois cessaram os risos, as vaias, as chalaças. A meio da ponte o homem desapareceu. (...)
Desapareceu, diziam todos. É inexplicável, é terrível, gritavam, e torciam as mãos de desespero e medo. (...)
No dia seguinte, os jornais publicaram as fotografias: última fotografia do carro; segundos depois, o mesmo local, nem vestígios do carro. Mas foi inútil, porque quem não tinha lá estado insistia em achar que se tratava de truque fotográfico, brincadeira de mau gosto, nada mais, e os que lá tinham estado não precisavam de ver as fotografias.
Os sinais foram então mudados, rapidamente. Para cinquenta à hora, porque era a velocidade mínima praticada pelos desobedientes, segundo se apurou num inquérito de rua. Não houve mais resistências surdas, oposições misteriosas, entraves burocráticos e funcionários das Finanças; nem se ouviu falar mais na comissão. Tudo indicava que mais ninguém queria responsabilidades naquilo, as mais elementares e necessárias decisões ficaram trancadamente anónimas. Até a mudança dos sinais foi feita de noite. E os desastres por excesso de velocidade acabaram.

Maria Isabel Barreno, "A Ponte",
in Os Sensos Incomuns, Ed. Caminho



Notas:
elites: minorias prestigiadas.
circuitos do poder: meios onde se movem as minorias do poder
chorudos honorários: vencimentos elevadíssimos.
burocráticas: relativas a rotinas e formalismos.
delapidado: esbanjado.
nepotismos: favoritismos.
vaias: apupos; chacotas; zombarias.
chalaças: gracejos.



1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O que o funcionário das Finanças veio dizer destinava-se a:

atrasar o processo

dar honestidade ao processo

gastar o menos possível

fazê-lo de noite

a comissão acabar o trabalho

que um homem desaparecesse

2. Completa o esquema apresentado, procedendo à delimitação das partes e à ela­boração das respectivas sínteses.

1.a parte (…. parágrafos):

2.a parte (...... parágrafos):

3.a parte (........ parágrafos):

3. Explica por palavras tuas o motivo pelo qual o sinal não foi mudado tão depressa como tinham prometido as autoridades.

4. Completa as frases para esclarecer aspectos relacionados com a investigação.

O homem pretendia saber quais as

A investigação teve como consequência directa

A investigação teve como consequência indirecta

5. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Às vezes só mesmo o absurdo!