As autoridades justificavam-se: circunstâncias burocráticas, diziam, falhas de comunicação ainda não corrigidas. Um funcionário das Finanças veio à televisão escla-recer que o dinheiro dos contribuintes não podia ser delapidado à toa, e que, portanto, seriam necessários orçamentos de três empresas do ramo para a execução de novos sinais. Só assim, concluiu, se podem evitar os abusos e os nepotismos.
Com toda esta publicidade à volta do assunto, apareceu alguém que resolveu conduzir as suas próprias investigações pelo método mais absurdo. (...) Houve então um homem que resolveu segui-lo, cumpri-lo à risca: a ele, sinal.
Abrandou na entrada da ponte para dez quilómetros horários, e arrastou-se como pôde, em primeira, fazendo o possível por não deixar o carro soluçar, num jogo delicado de embraiagem e acelerador, ponte fora. (...) Queres que vá telefonar à tua mulher para ela te trazer o jantar?, diziam. Depois cessaram os risos, as vaias, as chalaças. A meio da ponte o homem desapareceu. (...)
Desapareceu, diziam todos. É inexplicável, é terrível, gritavam, e torciam as mãos de desespero e medo. (...)
No dia seguinte, os jornais publicaram as fotografias: última fotografia do carro; segundos depois, o mesmo local, nem vestígios do carro. Mas foi inútil, porque quem não tinha lá estado insistia em achar que se tratava de truque fotográfico, brincadeira de mau gosto, nada mais, e os que lá tinham estado não precisavam de ver as fotografias.
Os sinais foram então mudados, rapidamente. Para cinquenta à hora, porque era a velocidade mínima praticada pelos desobedientes, segundo se apurou num inquérito de rua. Não houve mais resistências surdas, oposições misteriosas, entraves burocráticos e funcionários das Finanças; nem se ouviu falar mais na comissão. Tudo indicava que mais ninguém queria responsabilidades naquilo, as mais elementares e necessárias decisões ficaram trancadamente anónimas. Até a mudança dos sinais foi feita de noite. E os desastres por excesso de velocidade acabaram.
in Os Sensos Incomuns, Ed. Caminho
Notas:
elites: minorias prestigiadas.
circuitos do poder: meios onde se movem as minorias do poder
chorudos honorários: vencimentos elevadíssimos.
burocráticas: relativas a rotinas e formalismos.
delapidado: esbanjado.
nepotismos: favoritismos.
vaias: apupos; chacotas; zombarias.
chalaças: gracejos.
1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.
1.1. O que o funcionário das Finanças veio dizer destinava-se a:
atrasar o processo
dar honestidade ao processo
gastar o menos possível
fazê-lo de noite
a comissão acabar o trabalho
que um homem desaparecesse
2. Completa o esquema apresentado, procedendo à delimitação das partes e à elaboração das respectivas sínteses.
1.a parte (…. parágrafos):
2.a parte (...... parágrafos):
3.a parte (........ parágrafos):
3. Explica por palavras tuas o motivo pelo qual o sinal não foi mudado tão depressa como tinham prometido as autoridades.
4. Completa as frases para esclarecer aspectos relacionados com a investigação.
O homem pretendia saber quais as
A investigação teve como consequência directa
A investigação teve como consequência indirecta
5. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:
Às vezes só mesmo o absurdo!