28.10.12

Retrato a óleo


Os retratos a óleo fascinam-me. E ao mesmo tempo assustam-me. Sempre tive medo que as pessoas saíssem das molduras e começassem a passear pela casa. Para falar verdade, estou convencido que isso aconteceu algumas vezes. Em certas noites, quando eu era pequeno, ouvia passos abafados e tinha a sensação de que a casa ficava subitamente cheia de presenças. Ainda hoje não gosto de atravessar os longos corredores das velhas casas com grandes retratos pendurados nas paredes. Há olhos que nos seguem do alto e nunca se sabe o que de repente pode acontecer.
Havia na casa da tia Hermengarda um quadro deslumbrante. Ficava ao cimo das escadas, à entrada do corredor que dava para os quartos de dormir. Mesmo assim, rodeado de som-bras, irradiava uma luz que só podia vir de dentro da dama do retrato. (...)
Mas havia um mistério. Ninguém me dizia quem era a senhora do retrato. Arminda, a criada velha, benzia-se quando passava diante do quadro. Às vezes fazia figas e estranhos sinais de esconjuração. (...)
Um dia, farto já de tanto mistério e ralhete e, sobretudo, das gaifonas da Arminda e do ar empertigado da prima Luísa, não me contive e perguntei-lhe. A minha tia sorriu. Depois levantou-se, pegou no molho de chaves que trazia preso à cintura, abriu uma gaveta da escrivaninha e tirou um álbum muito antigo. Voltou a sentar-se e lentamente começou a mostrar-me as fotografias. Eram quase todas da senhora do retrato e do meu primo Bernardo, que há muito tinha partido para a África do Sul. (...)
- Ela chama-se Natália, mas eu gosto mais de Natacha, sempre a tratei assim. (...)
- Ela gostava do teu primo. Mas era uma pessoa muito viva. Tão viva que parecia sempre perto da morte. As pessoas assim acabam por morrer ou partir. Ela foi-se embora para não morrer.
Tinha sido no dia seguinte ao do terceiro aniversário do casamento. Deixou uma carta a Bernardo que ele nunca mostrou a ninguém. E um bilhete para a minha tia, apenas com três versos de Florbela Espanca. (...)
A minha tia morreu no dia em que entrei para a universidade. Três dias depois o retrato desapareceu. Ou melhor: desapareceu Natacha. A moldura do quadro ficou. Eram três da tarde. Ouviu-se um grito de aflição no andar de cima. Foi-se a ver e Arminda estava des-maiada, caída no chão, ao pé da moldura que enquadrava o fundo branco da parede. O retrato não estava lá. (...)
Ninguém acreditou na Arminda, que estava um pouco taralhouca. Mas hoje, passados muitos anos, eu creio que ela dizia a verdade. Aquele retrato era talvez a parte de Natacha que não se tinha perdido. Por isso ela precisava de recuperá-lo para recuperar a sua própria inteireza. Para ser inteira na morte, já que não tinha conseguido sê-lo em vida.

Manuel Alegre, "A Senhora do Retrato",
in O Homem do País Azul, Publ. Dom Quixote



Notas:
fazia figas: punha os dedos na posição de figa, em sinal de repúdio ou esconjuro.
esconjuração: maldição.
gaifonas: negaças; caretas.
empertigado: altivo.
taralhouca: senil; desmemoriada por motivo da idade.




1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. A senhora do retrato chamava-se:

Natália

Hermengarda

Luísa

1.2. Natacha foi-se embora:

porque estava para morrer

porque não queria morrer

para não morrer

2. Para dividir o texto em partes, completa o esquema apresentado, delimitando e sintetizando.

1.a parte (..... parágrafo): Relação do narrador com os retratos a óleo em geral.

2.a parte (...... parágrafo):

3.a parte (....... parágrafo):

3. Relê o primeiro parágrafo e explica em que consistia o medo do narrador.

4. Esclarece os mistérios e as relações entre as personagens, completando as frases:

A relação entre a tia e Natacha…

Possivelmente o ar empertigado da prima Luísa devia-se…

Natacha terá ido embora porque…

5. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Ser inteiro na vida.