28.7.12

O mês das revelações


Nessa manhã do primeiro dia de Maio havia uma surpresa para mim: no rectângulo da janela, o mar era azul.
O calor tinha vindo de supetão e selvagem como fera esfomeada. Sob o mosquiteiro de cassa, a noite passara-a eu insone e febril. Manhãzinha, contudo, o quadro da janela, uma compensação.
Sempre vestido de burel, o mar de Macau. Mar de olheiras de pranto e palidez de penitências, este austero, este seráfico mar, naquela manhã, quem diria, trajando de festa.
Lembrei-me que talvez Nossa Senhora de Maio lhe houvesse emprestado o manto de seda. Um presente assim azul-claro, cintilante, áureo, de quem um presente assim senão de sagrado presenteador? Fosse como fosse, fiquei contente para o dia todo.
Não obstante, só agora que estamos agora é que começo mesmo a compreender o milagre: Maio, neste lugar, o mês das revelações. A chuva, uma chuva pesada e morna, apareceu. Nada que se compare à chuva de Angola a correr mato fora, rápida e livre de pernalta, de palanca prateada. (...) Aqui uma chuva ensimesmada, quase silenciosa, um ping-ping persistente e vagaroso de um mundo quatro vezes milenário.
Também trovoada com o primeiro de Maio. Após tão muda humidade e tanto marasmo, a trovoada rebentou, poderosa, a sacudir os ares, a rasgar as nuvens em lampejos de aço. Azul, todo azul de relâmpagos, o meu acanhado quarto. E a noite em êxtase. Como se alguma misteriosa força abalasse o Cosmo. Talvez o Dragão Long que tem o dom de se desenvolver até abarcar, inteira, a abóbada celeste. Ou Fong-Song, o vento-água, que habita os recessos do chão e é feroz. Algum ser sobrenatural, enfim, fatigado da indiferença dos homens e da face esfíngica do firmamento. Um ente divino, ou, quem sabe, demoníaco. O mesmo que mais tarde, já em pleno Verão, há-de largar a fúria dos ventos em frenéticos tufões?
Vai entretanto aumentando o calor. Os juncos partem cedo para a pesca: 30 velas escuras, remendadas, quadradas, em leque, e no topo do mastro a bandeira rubra da Revolução: uma diplomacia dos pescadores de Macau no fito de pescarem em águas continentais?
Já a paisagem vai perdendo o azul.
E a gente pensa na Europa, a civilizada, a florescente Europa cada dia mais longe e mais incerta. Pensamos na pedra rendada das catedrais, nas amplas avenidas, nos comboios subterrâneos, nos palácios pejados de preciosidades: Chartres, Versalhes, Paris, Londres...

Maria Ondina Braga, Passagem do Cabo, Ed. Caminho


Notas:
de supetão: repentinamente.
cassa: tecido de algodão ou linho transparente (homófona de caça).
insone: sem dormir
burel: escuro (tecido grosseiro de lã).
seráfico: místico; calmo.
áureo: da cor do ouro.
palanca: estaca.
ensimesmada: (concentrada em si mesma); pouco perceptível.
marasmo: apatia profunda.
recessos: recantos.
esfíngica: enigmática; misteriosa; (relativo a esfinge).
ente: criatura; ser
frenéticos: que têm frenesi; violentos.
rubra: vermelha.




1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. A expressão "um mundo quatro vezes milenário" remete para:

Angola

França

China

1.2. A expressão "em lampejos de aço" significa:

com relâmpagos

com trovões

afectivo

2. Este texto pode ser dividido em três partes, na perspectiva do tempo.

2.1. Sintetiza o conteúdo de cada parte:

Manhã do dia l de Maio:

Noite do dia l de Maio:

15 de Maio:

3. Segundo o texto, quais são os fenómenos meteorológicos mais característicos da Primavera e do Verão?

4. No sexto parágrafo, para apresentar a realidade da trovoada, são usados verbos que, de algum modo, transmitem uma sensação de ruído.

4.1. Indica-os.

4.2. Faz o levantamento de expressões que, no mesmo parágrafo, remetam para sensações visuais.

5. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

O que aquele Maio revelou!