31.1.12

A débil

Lê o poema abaixo e, em seguida, responde às questões que te são colocadas.



A débil


Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca1.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba2 ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias3 dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares4;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma5 de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia6 estes fáceis esbocetos7,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil8,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida, E
u, que sou hábil, prático, viril.

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde,
Lisboa, Edições Ática, 1992.


1patriarca: chefe de família.
2turba: magote de gente; multidão.
3exéquias: cerimónias religiosas fúnebres:
4titular: que tem título de nobreza; que é fidalgo com título.
5chusma: multidão.
6urdir: imaginar.
7esboceto: pequeno esquema ou desenho utilizado para desenvolver mais tarde numa obra maior, mais extensa; curto esboço.
8varonil: másculo.



I

1. Neste poema, o sujeito poético refere uma mulher do campo que se encontra na cidade.
1.1. Demonstra que o poema apresentado está construído com uma estrutura de diálogo.
1.2. Caracteriza o espaço citadino descrito pelo sujeito poético.
1.3. Identifica a figura de retórica presente em «nesta Babel tão velha e corruptora» (2.a quadra, 3.° verso), explicando a sua importância para o sentido que se pretende construir.
1.4. Indica o tipo de relação que é possível estabelecer entre o perfil da mulher e o espaço em que ela se encontra.
2. O sujeito poético apresenta-se bastante vulnerável em relação à mulher descrita.
2.1. Identifica a figura de retórica presente em «sentado à mesa dum café devasso» (2.a quadra, 1.° verso) e explica em que medida serve a caracterização do sujeito poético.
2.2. Explica, de modo fundamentado, o tipo de influência que a mulher avistada exerce sobre o sujeito poético.
3. Faz a análise da estrutura formal do poema.

II

1. Observa os versos a seguir transcritos:

«Eu, que sou feio, sólido, leal,

A ti, que és bela, frágil, assustada,»

1.1. Classifica as duas orações destacadas a negrito.

1.2. Indica a classe e a subclasse das palavras «feio», «sólido», «leal», «bela», «frágil», «assus­tada».

2. Indica a classe de palavras a que pertence o termo sublinhado no verso a seguir transcrito: E, quando socorreste um miserável.

3. Refere o valor semântico do advérbio «talvez» no enunciado «talvez não o suspeites!»


III

Elabora um texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas palavras e um máximo de trezentas palavras, em que expresses a tua impressão relativa a um quadro representativo de uma figura feminina.

A apreciação crítica deve ser feita em relação ao quadro que deves escolher como o teu preferido, fundamentando devidamente o teu ponto de vista.

28.1.12

Obrigada!


As surpresas não acabavam para a Sementinha. (...)
Dando mais atenção às suas raízes, a Sementinha reparou que nelas tinham nascido umas coifas para lhes protegerem as pontas, não as quebrassem os obstáculos da terra, ao mesmo tempo que lhes orientavam o cresci¬mento. Isto envaideceu-a. Sentiu-se munida de uma bússola e de um escudo de guerreiro. O pior é que notou que nas hastezinhas das raízes lhe nasciam pelos.
"Querem ver que vou ter barba? Que coisa feia!... Uma menina de barba!..."
E a Sementinha choramingou a sua triste sorte. A Terra sorriu daquele desabafo e não se deu ao cuidado de a sossegar.
Uma das raízes é que lhe falou:
- Ouve lá! Que disparate é esse de estares aí com lamúrias? Estamos nós aqui a trabalhar... (...)
Entretidas nesta conversa, nem reparavam que o Sol se apagara e que nuvens negras carregavam o céu. Já os trovões ameaçadores ralhavam ao longe, chegando-se pouco a pouco, e depois tão apressadamente, que a chuva desabou, cerrada e áspera, tocada por um vento agreste.
A primeira sensação foi de prazer - o prazer de quem toma um banho.
Mas a chuvada prosseguiu durante horas, até que a água começou a entrar aos jorros pelas fendas da terra, e em tal abundância que o ar foi desaparecendo. (...)
Sempre ameaçador, o céu parecia indiferente à angústia dos campos e dos homens. (...)
As folhas verdes não podiam ver a batalha aguerrida que se travava no céu entre as nuvens negras e o Sol. E por isso se abandonavam, sem esperança, àquela terrível morte por asfixia.
Embora fraco! o Sol não deixava de apontar as suas lanças de fogo ao corpo espesso das nuvens, querendo rasgá-las para ir em socorro da Sementinha e dos seus companheiros. Num momento parecia-lhe que a luta iria acabar a seu favor; mas logo uma nova massa de nuvens o enrolava e envolvia, tornando inútil o seu esforço. (...)
Num adeus exausto, as folhas verdes sussurraram-lhe: "Obrigada."
Quando as viu assim, o Sol arranjou novas forças e luziu mais, atirando calor sobre a terra, empapada de chuva. As folhas tentaram respirar, mas a seiva já mal corria no seu corpo.
Foi nesse instante que o Vento Bonançoso veio também em auxílio da seara para lhe enxugar as folhas, levando consigo o hálito das suas milhentas bocas.
Numa ressurreição, as hastes delgadas engrossaram mais, sempre protegidas pelas bainhas das folhas, que as defendiam das geadas e dos insectos.
Dias depois, como para festejar o esplendor da seara revivida, veio um rancho de raparigas fazer a monda, arrancando as ervas ruins que roubavam ao trigo a seiva da terra.


Alves Redol, A Vida Mágica da Sementinha, Ed. Caminho


Notas:
coifas: protecção das raízes.
munida: provida.
lamúrias: lamentações.
jorros: esguichos.
asfixia: sufocação ou sufoco.




1. Aponta a razão pela qual o título se encontra no género feminino.

2. A acção do texto centra-se num conflito iniciado por um fenómeno meteorológico.

2.1. Indica esse fenómeno.

2.2. Detecta e transcreve a frase do texto que se lhe refere.

2.3. Da frase transcrita, indica a oração cuja forma verbal expressa uma personifica­ção.

3. O décimo primeiro parágrafo termina com a expressão "morte por asfixia".

3.1. Indica a realidade anterior que já indiciava a possibilidade de as folhas pode rem morrer asfixiadas.

4. Atenta na série de palavras que traduzem vivências interiores. Encontra para cada palavra o elemento do texto adequado. Desta forma, encontrarás as principais personagens que intervieram na acção.