30.12.11

Viagens na Minha Terra, cap. II




(...) Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de além-Reno, que escreveu uma obra sobre a marcha da civilização, do intelecto - o que diríamos, para nos entenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que há dois princípios nó mundo: o espiritualismo, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do Cavaleiro da Mancha, D. Quixote; - o materialismo, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, iam desencontrados, andam contudo juntos sempre; ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.
E aqui está o que é possível ao progresso humano.
E eis aqui a crónica do passado, a história do presente, o programa do futuro.
Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho.
Depois há-de vir D, Quixote.
O senso comum virá para o milénio: reinado dos filhos de Deus! Está prometido nas divinas promessas... como el-rei da Prússia prometeu uma constituição; e não faltou ainda, porque... porque o contrato não tem dia; prometeu, mas não disse para quando.
Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso progresso social: espero que o leitor entendesse agora. Tomarei cuidado de lho lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça.
(...)
Estamos em Vila Nova e às portas do nojento caravançarai, único asilo do viajante nesta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.
Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruínas este asqueroso lugarejo, desde que ali ao pé tem a estação dos vapores, que são a comodidade, a vida, a alma do Ribatejo. Imagino que uma aldeia de Alarves das faldas do Atlas deve ser mais limpa e cómoda.
Oh! Sancho, Sancho, nem sequer tu reinarás entre nós! Caiu o carunchoso trono de teu predecessor, antagonista e as vezes amo; açoitaram-te essas nádegas para desencantar a famosa de Toboso, proclamaram-te depois rei em Barataria, e nesta tua província lusitana nem o paternal governo de teu estúpido materialismo pode estabelecer-se para cómodo e salvação do corpo, já que a alma... oh! a alma...
Falemos noutra coisa.
Fujamos depressa deste monturo. - É monótona, árida e sem frescura de árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal medrada, a longos e desiguais espaços, mostra o seu tronco raquítico e braços contorcidos, ornados de ramúsculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é mais alvacento e desbotado do que o costume. O solo, porém, com raras exceções, é ótimo, e a troco do pouco trabalho e insignificante despesa, daria uma estrada tão boa como as melhores da Europa.
Dizia um secretário de Estado meu amigo que, para se repartir com igualdade o melhoramento das ruas por toda a Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os três meses. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as calendas gregas, eu hei-de propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada ano, como a desobriga.
Aí está a Azambuja, pequena mas não triste povoação com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas casas. É a primeira povoação que dá indício de estarmos nas férteis margens do Nilo português.
(...)

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, cap. II

I

1. Em «Viagens na Minha Terra» há, com frequência, uma ironia e uma crítica às institui­ções, ao poder político, à literatura...

A "marcha da civilização, do intelecto", ou seja, "o Progresso" implica forcas contrá­rias.

1.1. Explique o simbolismo das figuras de D. Quixote e de Sancho Pança, como representantes de cada uma das forças necessárias ao progresso.

1.2. Indique em que medida o predomínio de uma das forcas sobre a outra con­diciona a civilização.

1.3. De acordo com o texto, indique de que modo se realiza o progresso humano.

2. «...o contrato não tem dia»

2.1. Explique o sentido da expressão, de acordo com o contexto em que é produ­zida.

2.2. Tendo em conta todo o parágrafo, identifique a intenção do autor.

3. Retire do texto exemplos:

3.1. da descrença irónica do narrador;

3.3. da visão negativista da paisagem.

4. «Fujamos depressa deste monturos»

4.1. Identifique a classe morfológica de cada uma das palavras da frase trans­crita.

4.2. Comente a expressividade do substantivo utilizado.

5. Observe o discurso constante neste excerto.

5.1. Indique de que modo se mantêm o contacto com o leitor.

5.2. Caracterize a linguagem garrettiana e a sua modernidade, tendo em conta algumas características aqui presentes.

II

Escolha um dos temas abaixo enunciados. Desenvolva-o, de forma clara e correta.

  1. Recordando o que leu da obra «Viagens na Minha Terra», e partindo da oposição entre espiritualismo e materialismo, refira quais as personagens da novela que simbolizam a conversão ao materialismo dominante na época.

  1. Tendo em atenção os textos de Garrett e das leituras extensivas (Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis...), reflita sobre o seguinte tema: A literatura e a intervenção pela crítica e pela sátira.