29.11.11

O Disco Voador


O Ministro do Turismo, chegado à pressa, anunciava:
– Viajantes extraterrestres, um autocarro de luxo está à vossa disposição para visitarem os monumentos de Lisboa. Façam turismo! Tragam gente de todos os planetas para passar férias em Portugal!
Um cozinheiro fardado resolveu imitá-lo com a sua propaganda:
– Senhores marcianos, provem os melhores frangos no churrasco! Batatinhas fritas a
estalar no restaurante da esquina!
Mas a nave continuava hermeticamente fechada.

Luísa Ducla SOARES, O Disco Voador, Vega


Notas:
assegurar – certificar
empunhar – pegar
ensurdecedor – atroador
extraterrestre – criatura de fora da Terra
fluorescente – amarelo-esverdeado
galhofar – troçar
hermeticamente – de modo a não deixar entrar o ar
rodopiar – girar constantemente



1. Um acontecimento bastante fora do vulgar ocorreu naquele dia.
a. Qual foi o primeiro sinal de presença de algo fora do normal?
b. Essa presença começou por ser detectada através de que sentido?

2. Aquela estranha presença não deixou ninguém indiferente.
a. Que reacções provocou nos alunos?
b. E na professora?

3. A presença do estranho objecto alterou também a vida fora da escola.
a. Como era esse objecto?
b. Onde aterrou?


4. A presença do disco voador provocou outras reacções.
a. Refere quais escolhendo, no texto, as expressões correspondentes.
b. De todas estas reacções, quais te parecem ser as mais inesperadas? E as mais previsíveis?
Não te esqueças de justificar as tuas respostas.

5. O que leva a professora a concluir que os marcianos gostam da escola?

6. Usando a tua imaginação, ou procurando inspiração num filme ou num livro de ficção científica, escreve uma composição que comece assim:

Muitas e muitas horas tinham decorrido desde que o disco voador aterrara no pátio da escola. Mas ninguém arredava pé.
Quando finalmente as portas se abriram...

28.11.11

Foi remédio santo


Para que a catástrofe fosse total, o tal pontapé em cheio foi reforçado por uma presença detestável, ali mesmo, na "minha" paragem de autocarro, com cara de iogurte com pedaços, uma cara cheia de altos e baixos, borbulhas que lembram a paisagem rugosa e pedregosa, árida e fria, da superfície de Marte, gigantescas crateras com 24 metros de diâmetro, resultantes do impacto de um meteorito, há 23 milhões de anos, montanhas de acne com 48 metros de altura, o ar mais imbecil da via láctea, o rapaz mais parvalhão, aborrecido, incómodo e feio da escola: o Falinhas Mansas. Estava lá, mas não devia - ele usa habitualmente a paragem do autocarro do bairro dele que, felizmente, fica a mais de dez minutos de distância, e usa-a por mero bom senso, já que passa à porta de casa dele e pára à porta da Escola. Deve ter acordado antes do mundo nascer para estar ali àquela hora - e, mal me viu, saiu de transe ou acordou, sacudiu as borbulhas, arrastou o esqueleto, avançou dois passinhos, pôs-me a mão no ombro, repelente, só não parecia uma cobra porque as cobras não têm mãos.
Notei que ao falar deixava sair pela boca um cheiro esquisito, flocos de aveia australianos, leite gordo holandês, talvez uma fatia de pão com manteiga açoriana e pasta de dentes com hortelã serrana, à mistura com uma coisa qualquer, pastilha elástica ou isso, americana ou dessas que não têm marca nem origem, mas que eu acho que são feitas numa terra chamada Formosa, ou na China, por operários que trabalham a troco de pouco salário e muito sofrimento, que usam os restos das bolas de basquete e das solas dos ténis de boa marca, que também fazem.
Dei dois passos atrás, com pavor, e ele deu três passos à frente, com descaramento e determinação e eu gritei: "este rapaz quer passar à frente. Está a furar a fila!".
Foi remédio santo, logo uma senhora gorda começou a protestar, um homem magro deu-lhe um abanão, uma mulher carregada com malas e sacos pregou um tabefe ao Falinhas Mansas, que, com falinhas mansas, explicou-se, desfazendo-se em sorrisos e saltitando ora num ora noutro pé, como se estivesse se aflito para ir à casa de banho ou atrás da árvore mais próxima, sanitário público de muitos rapazes como ele:
- Sou colega dela, andamos na mesma escola, quero apenas (...).

Alexandre Honrado, Uma Argola no Umbigo, Ed. ÂMBAR


Notas:
crateras: aberturas no solo produzidas por um rebentamento ou impacto de um meteorito.
via láctea: galáxia constituída por milhões de estrelas, entre elas o Sol.
transe: estado de êxtase.
pavor: grande medo acompanhado de espanto; terror; grande susto.



1. Presta atenção ao primeiro parágrafo, em especial à caracterização do Falinhas Mansas.

1.1. Por que motivo foi usada a expressão "cara de iogurte com pedaços"?

1.2. Que outras expressões remetem para a caracterização da cara do rapaz?

1.3. Explica o sentido da expressão "o ar mais imbecil da via láctea".

1.4. Como se designa estilisticamente o exagero da expressão anterior?

1.5. Indica o substantivo que o adjectivo "repelente" está a qualificar

2. Para responderes a estas questões, tem em atenção o segundo parágrafo.

2.1. Faz o levantamento de palavras que referem países ou regiões.

2.2. As referências a países ou regiões põem em evidência a globalização em que vivemos. Explica esta afirmação.

3. Presta atenção ao terceiro parágrafo.

3.1. Explica o motivo da reacção inicial da narradora.

3.2. Procura completar os dois conjuntos de substantivos que designam:

Sentimentos indesejáveis - pavor,

sentimentos agradáveis - alegria,

4. A explicação final do Falinhas Mansas não está completa. Imagina-a e regista-a, mas tem em atenção que ele vai dar uma explicação falsa.