29.8.11

Animalose

1 Lê atentamente o seguinte texto.


ANIMALOSE

«Tem a minha juba»
— bisbilhotou o leão.

«E os meus dedos»
— barafustou o macaco.

«E as minhas unhas»
— balbuciou o gato.»

«E as minhas pernas»
— berrou a avestruz.

«E os nossos rabos»
— bradaram as raposas.

«E as nossas peles»
— blasfemaram o tigre,
a cobra e o crocodilo.

«Calma bicharada»
— bramiu o guarda do Zoo.

«É só a D. Preciosa Faria
com os seus casacos,
carteiras e sapatos,
pois acertou na lotaria…»

TERESA GUEDES, Palavromanias,
Porto Editora, 1993


1.1 Copia todos os verbos do segundo verso de cada um dos dísticos do poema.

1.2 Identifica a característica comum a todas essas formas verbais.

1.3 Substitui-as por outras, mantendo o mesmo sentido do texto.
Verso 2.
Verso 4.
Verso 6.
Verso 8.
Verso 10.
Verso 15.

28.8.11

Não se entendiam


- É o Kurika, pai!
-O Kurika?!...
Na verdade, era o Kurika... Não podia deixar de ser!... Mas com aquela juba - um tamanhão!
Avançou cautelosamente, a arma sempre aperrada.
O leão olhava agora para ele, com tal expressão de ternura no olhar e tão alvoroçada alegria no abanar da cauda, que o funante, mais confiado, chamou:
- Kurika!... Kurika!...
Não havia dúvida! (...)
No alto da escarpa, a leoa, tão assombrada como, lá em baixo, o Conceição, os filhos colados às ilhargas e tremendo de ansiedade, seguia todos os passos do companheiro. (...)
Compreendeu tudo a leoa:
- Tem feitiço!... Anda com os homens! Aí estava desvendado o mistério a razão, os motivos, da sua ignorância quando o encontrara, das suas surpresas na caça e no amor. Vinha dos homens!
Subiu-lhe à garganta uma onda, uma náusea. Fez sinal aos filhos e, sem mais cuidados, assim em pleno dia, subiu a escarpa e enfiou através da floresta. Abandonava o lar.
Quando, ao anoitecer, farto de retoiçar com os homens, o Kurika voltou ao antro, deu com a casa vazia e triste, fúnebre e gelada como túmulo. (...)
O leão, solitário e inconformado com a solidão, denunciado à malta dos
seus, pelas vozes do mato, como bicho enfeitiçado pelos homens - e portanto banido das sociedades, muito rigorosas, dos leões - assentara por aqueles sítios e vinha, de tempos a tempos, quando as saudades e a solidão mais lhe pesavam, conviver durante algumas horas da noite com o Janota. (...)
O cão, como se esperasse a chamada, largava a correr e ia ter com ele. (...) Quando altas horas, quase ao romper do dia, os galos anunciavam a alvorada, aliciava o cão:
- Vem comigo. Terás carne todos os dias, quanta quiseres. O Janota respondia:
- Volta a casa. O Conceição é o melhor dos homens. Não há homem nem bicho que o valha. Fazes-nos falta.
Não se entendiam. E o Janota regressava à varanda, enquanto o Kurika, a passos lentos, refazia o caminho que uma noite trilhara, em corrida ofegante, com a Paulina, em busca dos duendes do sertão.
Se não fora a coleira e a corrente de ferro - quem sabe! - talvez seguisse a tentação do Janota.


Henrique Galvão, Kurika, Livr. Popular de Francisco Franco


Notas:
aperrada: engatilhada.
funonte: comerciante do mato (noto do autor).
escarpa: declive; encosta.
náusea: nojo; asco.
retoiçar: correr brincando; traquinar
antro: caverna; cova.
fúnebre: sombria; triste; tétrica.
trilhara: seguira.
duendes: fantasmas que, segundo a crença popular; fazem travessuras de noite.



1. Faz o levantamento das personagens do texto, distinguindo-as através de alguns aspectos.

2. Esclarece o motivo pelo qual a leoa estava "tremendo de ansiedade".

3. Após o abandono da companheira, Kurika não conseguiu integrar-se. Porquê?

4. O que impedia Kurika de aceitar o convite do janota?

5. Este parágrafo contém críticas ao comportamento de Kurika que são, sobretudo, críticas aos homens. Faz o levantamento dos defeitos referidos.