30.5.11

O colar


Bonina (entrando): Senhora, está ali a vossa amiga D. Giovanna Alvisi.
Vanina: Diz-lhe que suba, que suba. (Bonina sai) Ai, vou mandar uma carta por ela ao Pietro, a explicar tudo e a agradecer-lhe.
Giovanna: Querida Vanina!
Vanina: Querida Giovannna! Gosto tanto de te ver!
Giovanna: Gosto tanto de te ver. E gosto de te ver tão bonita e com tão boa cara. Passei por aqui porque ouvi dizer que no dia do meu baile tinhas saído a correr. Mas vejo que já estás ótima. Também me disseram que o meu primo Pietro te deu uma rosa vermelha, mas que tu não agradeceste, nem abriste a boca, nem fizeste um sorriso e saíste muito depressa. Penso que, de facto, não te sentiste bem.
Vanina: Pois, pois, não sei explicar, não me senti bem. Senti-me tonta.
Giovanna: Também me disseram que tinhas ficado muito pálida.
Vanina: Foi o perfume da rosa que era tão forte.
Giovanna: Ai, pobre Vanina, não resistes ao perfume de uma rosa, mas é verdade que a rosa era perfumada demais. Ai de ti, Vanina!
Vanina: Estou tão aflita por não ter agradecido ao teu primo. Vou escrever já.
(Corre para a mesa, pega num papel e começa a escrever)
Giovanna: Calma, não tenhas pressa, não é preciso, eu levo o teu recado e explico tudo ao Pietro.
Vanina: (enquanto escreve): Diz-lhe tudo, diz-lhe que a voz dele me maravilhou, mas que o perfume da rosa me estonteou. Fiquei incapaz de falar e de agradecer. Minha garganta ficou seca.
Giovanna: Digo tudo, sossega. O pobre Pietro, coitado, está afogado em problemas.
Vanina: Ai, que aconteceu?
Giovanna: O pai dele morreu arruinado. Ele teve de vender o palácio, a quinta, os quadros, as joias. Reuniu-se a família para arranjar um remédio. Um tio nosso que é embaixador convidou-o para ser seu secretário. Mas ele respondeu que não queria trabalhar para a senhoria de Veneza, porque a senhoria tinha uma grande prisão escura e húmida, onde os presos desaparecem e nunca mais voltam à luz do sol. Então outro tio, que é general, convidou-o para se alistar no seu regimento. Mas o Pietro respondeu que não podia passar a vida a matar homens e que detestava música militar.Declarou que ia trabalhar como músico a troco de dinheiro; cantar em concertos, em festas, em serões, a troco de dinheiro e cantar serenatas que os apaixonados com má voz ou mau ouvido encomendassem.
Vanina: Ai que vida divertida! (bate palmas)
Giovanna: Divertida, sim, mas impossível, indigna, vergonhosa e escandalosa.
Vanina: Mas porquê? Eu não acho! Acho uma vida ótima.
Giovanna: Ser cantor errante é um ofício indigno de um fidalgo. Não queremos que o Pietro seja um desclassificado.
Vanina: Então, que há de ele fazer?
Giovanna: Tem de se casar já, já, muito depressa, com uma herdeira muito rica.

Sophia de Mello Breyner Andresen, O colar


1. Quem é D. Giovanna Alvisi?
1.1. Qual é a sua relação com Vanina? Transcreve uma frase que comprove a tua resposta.
1.2. Por que motivo foi visitar Vanina?
1.3. Que explicação deu Vanina a D. Giovanna sobre o que aconteceu no baile?

2. Giovanna estava preocupada com o seu primo Pietro, porquê?
2.1. Enumera as soluções que os vários familiares de Pietro arranjaram para o ajudar.
2.2. Que opção escolheu Pietro?
2.3. O que pensa a sua família da solução apresentada?

3. Transcreve uma frase/expressão que comprove que:
3.1. Vanina e Giovanna discordam no que respeita à solução encontrada por Pietro.
3.2. a família de Giovanna já encontrou uma solução aceitável para o problema de Pietro.

4. Encontra no texto as palavras a que se referem os seguintes pronomes.
a. ela (l. 3)
b. –lhe (l. 3)
c. te (l. 5)


II

Vanina vive com o seu tutor que quer que ela se case com um homem muito mais velho do que ela. No entanto, Vanina está apaixonada por Pietro. Continua a história tendo em mente esta informação.

A tua história deverá mostrar:
• de que forma Vanina reagiu à notícia de Giovanna;
• se o amor que ela sentia era ou não correspondido;
• o que fez o tutor de Vanina quando soube que ela estava apaixonada por Pietro;
• se Pietro e Vanina acabam ou não por se casar.

Não te esqueças de:
• respeitar a estrutura do texto dramático;
• incluir indicações entre parênteses, além das falas das personagens.

28.5.11

Os Doze de Inglaterra


A história conta que doze damas inglesas tinham sido acusadas por doze cavaleiros ingleses de falta de virtude, honra e nobreza. As damas insultadas pediram aos seus parentes que as defendessem, mas a reputação dos difamantes1, de grandes guerreiros, esmoreceu qualquer vontade de defender a honra das senhoras, por parte das respetivas famílias.
As damas apelaram, então, ao Duque de Lencastre, sogro do Rei de Portugal (D. João I), para que as ajudasse a encontrar defensores para o pleito2. O Duque de Lencastre solicitou a ajuda dos portugueses, pois conhecia as qualidades cavaleirescas deste povo, quando andara em guerra
na Península Ibérica. O pedido foi imediatamente aceite pelos doze cavaleiros, que se propuseram a partir, o mais cedo possível, em defesa das damas inglesas. O navio que transportou os doze portugueses partiu do Porto, no entanto, um dos cavaleiros, D. Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço, decidiu ir por terra, para ter oportunidade de alcançar grandes glórias e fama, e juntar-se, mais tarde, aos companheiros.
No dia do combate, em Inglaterra, os cavaleiros portugueses, quando se alinharam perante os doze cavaleiros ingleses, repararam na desigualdade entre os dois partidos, pois Magriço ainda não tinha chegado. Estava a justa3 para iniciar-se, quando a população começou a produzir grande burburinho pela aproximação do Magriço, que se juntava, então, aos companheiros.
Primeiro combateram a cavalo e, depois, a pé, terminando a contenda4 com a vitória dos portugueses que, perante a sociedade inglesa, recuperaram a honra e a nobreza das damas. Os valorosos portugueses ficaram, a partir daquele momento, conhecidos como os Doze de Inglaterra.

www.infopedia.pt


VOCABULÁRIO
1 Que faz criar má fama a.
2 Ajuste
3 Duelo entre dois cavaleiros
4 Luta


Ordena os acontecimentos de acordo com o texto.

a. Como conhecia as qualidades do povo português, pediu ajuda a este povo.
b. Ninguém, em Inglaterra, foi capaz de defender a sua honra.
c. Destes doze cavaleiros, um decidiu ir por terra. Os restantes onze partiram do Porto de barco.
d. Por isso, pediram ajuda ao Duque de Lencastre.
e. No dia do combate, D. Álvaro Gonçalves Coutinho ainda não chegara, por isso os portugueses estavam em desvantagem.
f. Os ingleses são derrotados e a honra e nobreza das damas é recuperada.
g. De repente, ouve-se um burburinho: Magriço acabara de chegar.
h. Doze damas inglesas foram insultadas por doze cavaleiros.
i. Inicia-se o combate.
j. Doze cavaleiros partiram de imediato para Inglaterra para defenderem as damas inglesas.