28.4.11

Sei dumas locas



Ele tinha descoberto umas locas onde havia peixe como no mar. E vai daí meteu-se a fazer uma caniçada toda bem acabadinha, amarrando bem as canas com arame de fardo. (...) procurou o Salamim para entrar na pescaria.
(...) Despiram-se num instante; vá então de procurar o peixe nas locas. Punham a caniça-da debaixo de água, o Constantino ficava na parte mais larga e aconchegava-a à margem, metendo uma das mãos nas casas dos peixes. Sentia-os e eles escapavam-se - eram peixes à ufa! E gordos!... Peixe quase igual ao que as varinas vendem.
Mas os malditos pareciam pressentidos, os peixes são espertos, olha pois não, já andavam por ali há um bom bocado e só tinham agarrado uns quatro ou cinco bordalos, apesar de na caniçada terem entrado muitos que se esgueiravam depois, pela parte mais estreita, à guarda do Salamim. Aquilo começava a danar o Constantino. Deu-lhe uma ira das suas: meteu a caniçada à loca maior e toca de enfiar a mão por ali dentro.
- Isto agora ou vai ou racha! - garantiu ao companheiro.
Logo de seguida, porém, atirava-se para trás num salto espavorido, a queixar-se dum dedo.
- Foi uma rata... Mordeu-me uma rata!
E mostrava ao amigo o dedo molestado, embora se empinasse de brios quando o outro deduziu que ganhara medo. Qual medo qual coisa! Foi maneira de se atirar à faina, mais presto do que nunca, fazendo andar o amigo num virote.
O peixe nem assim se convenceu, o maldito! Ao cabo de três horas dentro de água, já ambos batiam o queixo, já tocavam castanholas, como o Salamim gracejou, e a pescaria pouco adiantava. Enxugaram-se ambos ao sol, depois de esconderem a caniçada numa das margens, e entenderam que chegara a hora de regressar com o produto do trabalho. Dividiram como dois ourives -bordalo a um, bordalo a outro, bem medidos e quase passados a balança fina. Sete peixes para o Constantino, sete peixes para o companheiro.
Para não dar o braço a torcer, entrou em casa num alarido.
- Há aqui peixe para a ceia. Frito em azeite é melhor que galinha...
Logo acorreram a mãe mais a irmã para avaliarem a pescaria. A irmã olhou-o e começou num sorriso de troça que o arrenegou. Pôs-se a mãe do lado dele, garantindo que "aquilo dava bem para três pessoas comerem".
Mas, quando o rapaz se virava pimpão para a Ana Maria, todo ancho com o testemunho da mãe, esta passou os dedos pelos sete bordalos e acrescentou:
- Sim, dá à vontade para três pessoas, se duas não gostarem de peixe frito...

Alves Redol, Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos,
Publ. Europa-América


Notas:
locas: esconderijos de peixe.
caniçada: sebe de canas ou caniços.
varinas: peixeiras (ou vareiras da cidade de Ovar).
pressentidos: que percebem qualquer pequeno barulho ou rumor
espavorido: com pavor; aterrorizado.
molestado: maltratado; magoado.
empinasse de brios: aprumasse com dignidade.
alarido: gritaria; algazarra.
arrenegou: fez zangar; aborreceu.
pimpão: altivo; garboso; valentão.
ancho: cheio de vaidade; soberbo.



1. Atenta no primeiro parágrafo.

1.1. Quem descobriu as locas?

1.2. Transcreve uma palavra cognata de canas e indica outras.

2. A expressão do segundo parágrafo "ò ufa" é uma locução adverbial e significa ò farta. Escreve uma frase em que "ufa" seja uma interjeição.

3. Atenta no início do sétimo parágrafo "E mostrava ao amigo o dedo molestado (...)".

3.1. Transcreve da oração subordinante complemento directo e indirecto:

4. Substitui o adjectivo "fina" do oitavo parágrafo por uma expressão equivalente, formada por preposição e nome:

"(...) bem medidos e quase passados a balança (...)"

5. Presta atenção ao penúltimo parágrafo.

5.1. Classifica morfologicamente a palavra "esto" e diz qual o referente que está a substituir

6. Completa a frase:

A última fala do texto, para o Constantino, foi pois não estava à espera que a mãe se pusesse do lado da irmã.

7. Observa a expressão sublinhada no texto. Transcreve outras expressões utilizadas pelo narrador para dar um tom coloquial ao discurso.

8. O narrador contou a história de Constantino, mas pouco o caracterizou, reser­vando-nos essa possibilidade. Anota as acções de Constantino que permitem esquematizar o quadro seguinte:


persistente

orgulhoso

explorador

engenhoso