31.1.11

Ato II, cena XIV e XV


JORGE - Sois português?
ROMEIRO - Como os melhores, espero em Deus.
JORGE - E vindes?
ROMEIRO - Do Santo Sepulcro de Jesus Cristo.
JORGE - E visitastes todos os Santos Lugares?
ROMEIRO - Não os visitei; morei lá vinte anos cumpridos.
MADALENA - Santa vida levastes, bom romeiro.
ROMEIRO - Oxalá! Padeci muita fome, e não a sofri com paciência; deram-me muitos tratos, e nem sempre os levei com os olhos n’Aquele que ali tinha padecido tanto por mim... Queria rezar e meditar nos mistérios da Sagrada Paixão que ali se obrou... e as paixões mundanas, e as lembranças dos que se chamavam meus segundo a carne, travavam-me do coração e do espírito, que os não deixavam estar com Deus, nem naquela terra que é toda sua. Oh! eu não merecia estar onde estive: bem vedes que não soube morrer lá.
JORGE - Pois bem: Deus quis trazer-vos à terra de vossos pais; e quando for Sua vontade, ireis morrer sossegado nos braços de vossos filhos.
ROMEIRO - EU não tenho filhos, padre.
JORGE - No seio da vossa família...
ROMEIRO - A minha família... Já não tenho família.
MADALENA Sempre há parentes, amigos...
ROMEIRO Parentes!... os mais chegados, os que eu me importava achar... contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ela; hão-de jurar que me não conhecem.
MADALENA - Haverá tão má gente... e tão vil, que tal faça?
ROMEIRO - Necessidade pode muito. Deus lho perdoará, se puder!
MADALENA - Não façais juízos temerários, bom romeiro.
ROMEIRO - Não faço. De parentes, já sei mais do que queria. Amigos, tenho um; com esse, conto.
JORGE - Já não sois tão infeliz.
MADALENA - E O que eu puder fazer-vos, todo o amparo e agasalho que puder dar-vos, contai comigo, bom velho, e com meu marido, que há-de folgar de vos proteger...
ROMEIRO - EU já vos pedi alguma coisa, senhora?
MADALENA - Pois perdoai, se vos ofendi, amigo.
ROMEIRO - Não há ofensa verdadeira senão as que se fazem a Deus. Pedi-lhe vós perdão a Ele, que vos não faltará de quê.
MADALENA - Não, irmão, não, decerto. E Ele terá compaixão de mim.
ROMEIRO - Terá...
JORGE - (cortando a conversação) - Bom velho, dissestes trazer um recado a esta dama: dai-lho já, que havereis mister de ir descansar...
ROMEIRO (sorrindo amargamente) Quereis lembrar-me que estou abusando da paciência com que me têm ouvido? Fizestes bem, padre: eu ia-me esquecendo... talvez me esquecesse de todo da mensagem a que vim... estou tão velho e mudado do que fui!
MADALENA Deixai, deixai, não importa, eu folgo de vos ouvir: dir-me-eis vosso recado quando quiserdes... logo, amanhã...
ROMEIRO - Hoje há-de ser. Há três dias que não durmo nem descanso, nem pou¬sei esta cabeça, nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado... e morrer depois... ainda que morresse depois; porque jurei... faz hoje um ano... quando me liber-taram, dei juramento sobre a pedra santa do Sepulcro de Cristo...
MADALENA - Pois éreis cativo em Jerusalém?
ROMEIRO - Era; não vos disse que vivi lá vinte anos?
MADALENA - Sim, mas...
ROMEIRO - Mas o juramento que dei foi que, antes de um ano cumprido, estaria diante de vós e vos diria da parte de quem me mandou...
MADALENA - (aterrada) - E quem vos mandou, homem?
ROMEIRO -Um homem foi, e um honrado homem... a quem unicamente devi a liberdade... a ninguém mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.
MADALENA - Como se chama?
ROMEIRO - O seu nome, nem o da sua gente nunca o disse a ninguém no cativeiro.
MADALENA - Mas enfim, dizei vós...
ROMEIRO -As suas palavras, trago-as escritas no coração com as lágrimas de san¬gue que lhe vi chorar, que muitas vezes me caíram nestas mãos, que me correram por estas faces. Ninguém o consolava senão eu... e Deus! Vede se me esqueceriam as suas palavras.
JORGE - Homem, acabai.
ROMEIRO Agora acabo; sofrei, que ele também sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: "Ide a D. Madalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis... aqui está vivo... por seu mal... e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas de há vinte anos que o trouxeram cativo."
MADALENA (na maior ansiedade) - Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem, esse homem... Jesus! esse homem era... esse homem tinha sido... levaram-nos aí de donde?... de África?
ROMEIRO -Levaram.
MADALENA - Cativo ?...
ROMEIRO - Sim.
MADALENA - Português?... cativo da batalha de?...
ROMEIRO - De Alcácer Quibir.
MADALENA (espavorida) - Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo de meus pés?... Que não caem estas paredes, que me não sepultam já aqui?
JORGE - Calai-vos, D. Madalena! A misericórdia de Deus é infinita; esperai. Eu duvido, eu não creio... estas não são cousas para se crerem de leve. (reflecte, e logo como por uma ideia que lhe acudiu de repente) Oh! Inspi¬ração divina... (chegando ao romeiro) Conheceis bem esse homem, romeiro, não é assim?
ROMEIRO - Como a mim mesmo.
JORGE - Se o víreis... ainda que fora noutros trajos... com menos anos, pinta¬do, digamos, conhecê-lo-eis?
ROMEIRO Como se me visse a mim mesmo num espelho.
JORGE Procurai nesses retratos, e dizei-me se algum deles pode ser.
ROMEIRO (sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João) - É aquele.
MADALENA (com um grito espantoso) — Minha filha, minha filha, minha filha!... (em tom cavo e profundo) Estou... estás... perdidas, desonradas... infames! (com outro grito do coração) Oh! minha filha, minha filha!... (foge espavorida e neste gritar)

Cena XV
Jorge e o Romeiro, que seguiu Madalena com os olhos, e está alçado no meio da casa com aspecto severo e tremendo.
JORGE - Romeiro, romeiro, quem és tu?
ROMEIRO (apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal) - Ninguém!
(Frei Jorge cai prostrado no chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente.)

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa


I

Depois de ter lido com toda a atenção o excerto da obra Frei Luís de Sousa acima transcrito, e tendo em conta o estudo que fez da obra integral, responda com clareza e correcção às questões a seguir colocadas.

1. Contextualize o excerto acima transcrito na obra a que pertence.

2. A revelação do Romeiro é feita de forma gradativa.
2.1. Indique o percurso utilizado pelo Romeiro para atrasar a revelação da sua verdadeira identidade.
2.2. Refira passagens em que o Romeiro aponta factos que são indícios e a que D. Madalena não atribui importância.
2.3. Explique qual o objectivo do Romeiro ao demorar-se em comentários laterais antes de se revelar.

3. O crescendo da acção, na cena XIV, reflecte-se no estado de espírito de Madalena.
3.1. Justifique a afirmação anterior.
3.2. Aponte as marcas discursivas que traduzem o(s) seu(s) estado(s) de espírito.
4. A cena XIV constitui o clímax da acção dramática.
4.1. Explique esta afirmação.

5. Atente agora na cena XV.
5.1. Interprete o sentido de “Ninguém” que constitui a fala do Romeiro.
6 – De acordo com o estudo que fez da obra em análise e dos conhecimentos adquiridos sobre a unidade temática, identifique a veracidade e falsidade das seguintes afirmações, corrigindo as falsas:


A. O espaço físico tem, em Frei Luís de Sousa, uma função opressiva e anunciadora da fatalidade.
B. Relativamente ao tempo da acção, podemos afirmar que respeita a duração de vinte e quatro horas, característica clássica.
C. As personagens que na obra simbolizam o sebastianismo são Madalena de Vilhena e Telmo Pais.
D. Manuel de Sousa é uma personagem que, no momento crítico, perde o equilíbrio, a calma e as atitudes calculadas dos dois primeiros actos.


II

Leia atentamente o texto seguinte.

“Esta é uma verdadeira tragédia - se as pode haver e como só imagino que as possa haver sobre factos e pessoas comparativamente recentes não lhe dei todavia esse nome porque não quis romper de eira com os estafermos respeitados dos séculos que formados de peças que nem ofendem nem defendem no actual guerrear inanimados ocos e postos ao canto da sala para onde ninguém vai de propósito -ainda têm contudo a nossa veneração ainda nos inclinamos diante deles quando ali passamos por acaso.”

Almeida Garrett, Memória ao Conservatório Real

Pontue correctamente este excerto.


III

“Esta é uma verdadeira tragédia”.
Tendo em conta a afirmação anterior e o que estudou sobre Frei Luís de Sousa, construa um texto coeso e coerente, entre 150 e 200 palavras, onde refira as características da tragédia clássica e do drama romântico presentes na obra.




29.1.11

Ato II, cena XIV e XV



CENA XIV

ROMEIRO — Hoje há-de ser. Há três dias que não durmo nem descanso nem pousei esta cabeça nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado… e morrer depois… ainda que morresse depois; porque jurei… faz hoje um ano… quando me libertaram, dei juramento sobre a pedra santa do Sepulcro de Cristo…
MADALENA — Pois éreis cativo em Jerusalém?
ROMEIRO — Era; não vos disse que vivi lá vinte anos?
MADALENA — Sim, mas…
ROMEIRO — Mas o juramento que dei foi que, antes de um ano cumprido, estaria diante de vós, e vos daria da parte de quem me mandou…
MADALENA (aterrada) — E quem vos mandou, homem?
ROMEIRO — Um homem foi, e um honrado homem… a quem unicamente devi a liberdade… a ninguém mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.
MADALENA — Como se chama?
ROMEIRO — O seu nome, nem o da sua gente nunca o disse a ninguém no cativeiro.
MADALENA — Mas, enfim, dizei vós…
ROMEIRO — As suas palavras trago-as escritas no coração com as lágrimas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me caíram nestas mãos, que me correram por estas faces. Ninguém o consolava senão eu… e Deus! Vede se me esqueceriam as suas palavras.
JORGE — Homem, acabai!
ROMEIRO — Agora acabo; sofrei, que ele também sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: «Ide a D. Madalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis… aqui está vivo… por seu mal… e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas, de há vinte anos que o trouxeram cativo».
MADALENA (na maior ansiedade) — Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem, esse homem… Jesus! esse homem era… esse homem tinha sido… levaram-no aí de donde?… de África?
ROMEIRO — Levaram.
MADALENA — Cativo?
ROMEIRO — Sim.
MADALENA — Português!… cativo da batalha de?…
ROMEIRO — De Alcácer-Quibir.
MADALENA (espavorida) — Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo de meus pés… Que não caem estas paredes, que me não sepultam já aqui?…
JORGE — Calai-vos, D. Madalena! A misericórdia de Deus é infinita. Esperai. Eu duvido, eu não creio… estas não são cousas para se crerem de leve. (Reflecte, e logo como por uma ideia que lhe acudiu de repente.) Oh ! inspiração divina… (chegando ao romeiro). Conheceis bem esse homem, romeiro, não é assim?
ROMEIRO — Como a mim mesmo.
JORGE — Se o víreis… ainda que fora noutros trajos… com menos anos, pintado, digamos, conhecê-lo-eis?
ROMEIRO — Como se me visse a mim mesmo num espelho.
JORGE — Procurai nesses retratos, e dizei-me se algum deles pode ser.
ROMEIRO (sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João) — É aquele.
MADALENA (com um grito espantoso) — Minha filha, minha filha, minha filha!… (Em tom cavo e profundo.) Estou… estás… perdidas, desonradas… infames! (Com outro grito do coração.) Oh! minha filha, minha filha!… (Foge espavorida e neste gritar.)

CENA XV
JORGE e o ROMEIRO, que seguiu MADALENA com os olhos, e está alçado no meio da casa, com aspecto severo e tremendo

JORGE — Romeiro, romeiro, quem és tu?
ROMEIRO (apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal) — Ninguém!
(Frei Jorge cai prostrado no chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente.)

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa



I

1 - Localiza as cenas na estrutura interna da obra, indicando também os acontecimentos posteriores aos apresentados nas cenas transcritas.

2 - Explica a importância destas cenas no conjunto da acção da obra.

3 - Considera a opinião de Garrett sobre a sua obra, segundo a qual “pela índole” esta há-de sempre ser uma tragédia. Indica e justifica com que parte da tragédia as cenas transcritas se identificam.

4 - A chegada do Romeiro é desencadeadora de consequências importantes para a intriga da obra.

4.1 - Caracteriza e justifica o estado de espírito e as reacções de Madalena à chegada do Romeiro.
Apresenta três exemplos.

4.2 - O Romeiro “vem do passado”. Como se identifica no presente? Interpreta o simbolismo de tal designação.


II

A obra de Almeida Garrett FREI LUÍS DE SOUSA tem apaixonado muitos críticos desde que foi feita e inúmeras têm sido as opiniões sobre ela. Tendo em conta os textos lidos na aula e extra-aula sobre a obra em questão, demonstra a veracidade da afirmação seguinte num texto com 200 palavras:

“Tal como na tragédia clássica, também o fatalismo é uma presença constante. O Destino acompanha todos os momentos da vida das personagens, apresentando-se como uma força que as arrasta de forma cega para a desgraça. É ele que não deixa que a felicidade daquela família possa durar muito.”