30.7.10

A Palavra Mágica


Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava, com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência. Viúvo, sem filhos, dono de umas leiras herdadas, o que mais parecia inquietá-lo era a maneira de alijar bem depressa os dinheiros das rendas. Semeava tão facilmente as economias, que ninguém via naquilo um sintoma de pena ou de justiça — mesmo da velha —, mas apenas um desejo urgente de comodidade. Dar aliviava. Pregavam-lhe que o Paulino ia logo de casa dele derretê-lo em vinho, que o Carmelo não comprava nada livros ou cadernos ao filho que andava na instrução primária. Silvestre encolhia os ombros, não tinha nada com isso. As moedas rolavam-lhe para dentro da algibeira e com o mesmo impulso fatal rolavam para fora, deixando-lhe, no sítio, a paz.
Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da loja. Fora o caso que ao falar-se, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia da vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
- Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão?
- Homem! - clamava o Silvestre, de mão pacífica no ar. - Calma aí, se faz favor. Falei por falar.
- E a dar-lhe. Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
- Faço o que posso - desabafou o outro.
- E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre-diabo, Silvestre. Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é.
Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra "inócuo", estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
- Inoque será você.
Também o Ramos não via o fundo ao significado de "inócuo". Topara por acaso a palavra, num diá-logo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferro, cravada de puas. Dois homens que assistiam ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia:
- Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um inoque.

Vergílio Ferreira, "A Palavra Mágica", in Contos



I

1. Em que pessoa acontece a narração?
1.1. Como classificas o narrador por esse motivo?

2. Redige o segundo parágrafo e a primeira fala do Ramos, iniciando-os assim: "Ora um Domingo, eu e o Silvestre..."
2.1. Que transformações se operaram:
2.1.1. a nível da morfologia?
2.1.2. a nível do narrador?

3. No decorrer do diálogo, uma das personagens manifesta uma alteração do seu estado de espírito.
3.1. Identifica-a.
3.2. Refere o vocábulo que nos ajuda a compreender essa mudança.
3.2.1. Classifica-o morfologicamente.

4. Transcreve a frase que nos permite concluir que o Ramos e o Silvestre estão de acordo em alguma coisa.

5. Explica, por palavras tuas, as expressões:
5.1. "ferido de espora";
5.2. "com o vocábulo ainda quente da refrega";
5.3. "era um paz-de-alma".

6. A que conto pertence este excerto?
6.1. Para que problemas sociais nos remete esse conto?
6.2. Considera-lo actual? Justifica.

7. Transcreve do texto:
a) um substantivo concreto;
b) um substantivo abstracto;
c) um adjectivo (refere o seu grau);
d) um adjectivo substantivado.

8. "Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação."
8.1. Transforma a expressão sublinhada numa palavra só que lhe seja equivalente.

9. Escreve a palavra "folhetim" no diminutivo.
9.1. Explica o processo de formação da nova palavra.

10. Por que razão a palavra "diálogo" é acentuada?


II

O texto refere-nos que muitas vezes as pessoas tentam impor as suas ideias, mesmo sem coerência.
Relata uma situação em que tenhas assistido a um diálogo "vivo" e no qual intervieste para os acalmar.


Calçada de Carriche



Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'



1. Explica as principais ideias do poema.

2. Este poema apresenta um cariz de empenhamento social.
2.1. Refere a crítica que é feita ao longo do mesmo.

3. Enumera as actividades que Luísa tem de realizar em cada dia da sua vida.
3.1. Indica as formas verbais que traduzem essas actividades.
3.1.1. Assinala o significado do modo e do tempo verbais em que se encontram.

4. O poema apresenta um ritmo cadenciado, de acordo com os vários quadros que preen-chem o dia de Luísa.
4.1. Aponta os fenómenos fónicos que contribuem para a construção desse ritmo.

5. Explicita o valor da aliteração, ao longo do poema.

6. Faz a caracterização física e psicológica de Luísa.

7. Explica o significado da repetição dos versos: " puxa que puxa, / larga que larga" , tendo em conta a leitura global do poema.

8. Emite a tua opinião sobre a dimensão pessoal e humana da mulher, tendo como referência a visão que é retratada no poema.



29.7.10

O grilo




1. No poema «O grilo», com que sentidos se joga em «cri-qu'ria»?

2. O sujeito poético não quer conhecer do grilo apenas a sua voz. Que mais pretende ele?

3. O que te sugere a mudança de verso, interrompendo as palavras «cativá-lo» e «dactilografá-lo»

4. Faz a análise formal do poema.

22.7.10

Raul Brandão, Memórias



1 de Fevereiro de 1908

Está uma tarde linda, azul, morna, diáfana. Converso na livraria Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e pálido o pintor Artur de Melo, que conheço do Porto, e diz num espanto, ainda transtornado: - Acabam de matar agora o rei1! - O quê?! - Eu vi, ouvi os tiros, deitei a fugir...
Fecham-se à pressa os taipais das lojas. Uma mulher do povo exclama: - Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram três. Dois lá estão estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça despedaçada!... Há palmas para o lado da Praça da Figueira. Anoitece. Um esquadrão desemboca da Rua da Mouraria... Mais tarde, no comboio, um empregado do Jorge O'Neill confirma: - Vi do escritório um polícia correr atrás dum dos assassinos. A certa altura caiu-lhe o chapéu: era calvo. O polícia varou-o com um tiro.
E pela narração do Melo, do Armando Navarro e de outros que assistiram, reconstituo assim a tragédia:
O comboio descarrilara. Seguia atrasado. Durante o trajecto, o rei não fumou nem jogou, como costumava. Vinha apreensivo.
O Malaquias de Lemos contou que na véspera, em Vila Viçosa2, o rei jogava com o príncipe3. Era ao entardecer. Na chaminé um grande braseiro. Trouxeram-lhe uma carta. Para a ler melhor levantou-se, chegando-se à janela. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois ras-gou-a em bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na sombra... - El-rei não joga? - perguntou o príncipe. - Jogo, jogo... - Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quase não jantou nesse dia.
Nem uma nuvem. «Tarde sem par» - escreveu Ramalho.
- Linda tarde para uma bomba - exclama uma menina da alta, na ponte da estação.
Havia, é natural, um certo receio, e a duquesa de Palmeia, ao ouvido de João Franco1: -Não haverá perigo? - V. Ex.a vai ver que ovação! - Tinha-lha preparada para a récita da noite, em S. Carlos2. O rei e a rainha detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcelos Porto, que queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D. Carlos opôs-se. O carro descoberto partiu a chouto3, com toda a família real junta. Ao pé da estátua um grupo... Disseminados pela Arcada alguns polícias e, sentado num banco da praça um homem de varino4, que veio, sem precipitação, colocar-se à porta do Ministério do Reino.
Os empregados da Fazenda5 tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram tantos, que se não conheciam uns aos outros. -«Eu assisti - diz o Navarro. -Fui para lá urna hora antes fumar o meu charuto. Três descargas cerradas partiram da Arcada do Ministério da Fazenda. Ficou tudo desorientado. Os polícias deitaram a fugir...» Um negociante da Rua de S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro passos - confirma o pintor Melo. - Um homem subiu às traseiras do carro, olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de revólver. Vi um fumozinho branco sair-lhe do pescoço. O rei voltou--se, e, cem anos que eu viva, nunca mais me esquece a expressão de espanto daquela máscara. Disse uma palavra que não percebi bem ...» - «Ao primeiro tiro - continua o Navarro - a cabeça do rei descaiu para a frente, ao segundo tombou para o lado.» O Buíça6, que tirara a carabina debaixo do gabão7, apontava e descarregava. O príncipe real ergueu-se - caiu varado. A rainha8, louca de dor, sacudia o Alfredo Costa9 com um ramo de flores. - «Então não acodem?! Não há quem me acuda?!» - Ninguém. Um cartucho falhara ao Buíça: sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu à cutilada.
Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguém procurara intervir - mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Sucederam-se então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A polícia disparava os revólveres a torto e a direito. O Correia de Oliveira esteve para ser morto: - Vinha de chapéu alto e foi o que me valeu!... Um polícia avançou direito a mim com o revólver apontado, exclamando como um doido: - Matei agora um! Matei agora um!


Raul Brandão, Memórias (tomo I),
Obras Completas, vol. l, Lisboa, Relógio d'Água, 1998




Notas:
1 João Franco (1855-1929): presidente do Ministério no reinado de D. Carlos, desde 1906; em 1907, com o apoio do Rei, faz um golpe de estado e inicia uma ditadura, facto que está na origem do regicídio.
2 S. Carlos: teatro de ópera lírica, em Lisboa.
3 a chouto: espécie de trote miúdo dos cavalos e mulas.
4 varino: espécie de capote.
5 Fazenda: Ministério das Finanças.
6 Manuel dos Reis da Silva Buíça: um dos regicidas, morto na ocasião do atentado (1876-1908).
7 gabão: espécie de capote.
8 a rainha: D. Maria Amélia (1865-1971), mulher de D. Carlos l, mãe de D. Luís Filipe e de D. Manuel.
9 Alfredo Costa: um dos regicidas, morto na ocasião do atentado.



I

1. Identifica o acontecimento central narrado no texto e justifica a data de 1 de Fevereiro de 1908, por que começa o texto.

2. Delimita no texto:
2.1. a introdução, o desenvolvimento e a conclusão;
2.2. os momentos em que se organiza o desenvolvimento.

3. O discurso do narrador é, por mais de uma vez, interrompido por falas, em discurso directo.
3.1. Faz o levantamento dessas falas e identifica quem as emite.
3.2. Explicita os efeitos produzidos pelo uso do discurso directo e pela diversidade de falas.

4. O acontecimento central é narrado por duas vozes e segundo duas perspectivas.
4.1. Localiza no texto as duas narrativas desse acontecimento.
4.2. Refere as vozes que o relatam e caracteriza a perspectiva de cada uma.

5. Memórias é o título da obra a que pertence o texto. Consideras que o excerto exemplifica as características de um texto de memórias? Justifica a resposta.


II

1. Atenta nas frases seguintes:
a. «Está uma tarde linda, azul, morna, diáfana»
b. «Acabam de matar agora o rei!».
c. «O quê?!».
d. «Eu vi, ouvi os tiros, deitei a fugir...».
e. «El-rei não joga?».
f. «Jogo, jogo...».

Identifica os actos ilocutórios presentes nestas frases.


III

Redige um texto de cerca de duzentas palavras, em que, à semelhança de Raul Brandão, dês o teu testemunho sobre um acontecimento contemporâneo marcante, que acompanhaste directamente ou através dos media. Dá um título ao teu texto.


21.7.10

Velha fábula em Bossa Nova



1. O poema baseia-se numa velha fábula bem conhecida. Faz o seu resumo.

2. Atenta na figura da formiga.
2.1. Faz a sua caracterização, considerando os processos de caracterização directa e indirecta.
2.2. Faz um levantamento de todos os diminutivos relacionados com a formiga e refere o sentimento que lhes está subjacente.

3. Caracteriza a figura da cigarra por oposição à formiga.

4. Com qual dos dois insectos se identifica o poeta?

5. Que razões estão na origem da sua preferência?



15.7.10

Análise de Mestre Poupa

(clique para ampliar)


(clique para ampliar)

Manuel da Fonseca: O Fogo e as Cinzas

14.7.10

Os Vizinhos - análise

(clique para ampliar)


13.7.10

O Pássaro e a Pedra




Era uma montanha à beira-mar, alta, tão alta que parecia tocar o céu, áspera, abrupta, medonha, com ravinas negras, cheias de rochas escalvadas onde não nascia uma árvore, nem uma flor, c onde não chegavam homens nem animais.
Todos os dias, fizesse sol ou tempestade, com vento ou chuva, um pássaro, tão negro como as ravinas, voava constantemente da terra para o mar e do mar para as rochas, onde parecia impossível qualquer ave procurar abrigo ou fazer ninho.
Talvez por isso ele era o único pássaro que vivia nessas paragens solitárias, pairando lá no alto. Cão alto que mal se via do chão, como se quisesse alcançar o infinito.
E olhando lá de cima tudo quanto abarcava o seu voo e o seu olhar agudo e penetrante sete léguas em redor, o pássaro dizia para com as suas penas:
- Sou senhor de tudo isto, deste reino imenso de pedra e água.
Ninguém me pode fazer sombra, atacar-me ou roubar os meus domínios. Por isso sou forte, e poderoso e único.
- E grasnava, grasnava, com uma voz rouca que parecia a gargalhada de um ser diabólico.
Havia na mesma montanha à beira-mar uma pedra tão negra como o pássaro que, arrancada às rochas abruptas, viera a rolar aos trambolhões por ali abaixo, e ficara em equilíbrio entre dois pedregulhos, em risco de cair à menor enxurrada ou sopro de vento.
E pelos dois buracos disformes que lhe serviam de olhos, a pedra observava o pássaro que todos os dias voava cada vez mais alto, descrevendo curvas cada vez maiores para aumentar os seus domínios.
Sem se poder desviar nem um palmo do sítio onde o acaso a pusera, a pedra invejava aquela coisa voadora, a vida voadora, que podia ir onde quisesse, sem dar satisfações a ninguém.
- Maldito sejas, pássaro do mar e das tempestades - gritava a pedra pelo buraco disforme que lhe servia de boca. - Ave de mau agoiro, que voas em redor como se fosses dona de tudo isto, enquanto eu não sou ninguém, e às vezes até chego a pensar que não existo. - E chorava baixinho: - Ai, quem me dera ter asas que me levassem daqui para fora a correr mundos que devem existir para além desta montanha e deste mar!
Quando passava perto dela, o pássaro orgulhoso ouvia às vezes estes queixumes, e, grasnando com a tal voz rouca, dizia-lhe:
- Não voa quem quer, minha rica! É um dom da natureza. E mesmo assim, não é nada fácil. É preciso fazer esforço. Tu, alguma vez te esforçaste por alguma coisa?
-Eu? Como é que eu posso? - lamentava-se a pedra. - Sem patas nem asas, nem coisa parecida, nem alguém que me ajude?
- Nunca tentaste fazer nada pêlos teus próprios meios, sempre à espera que te empurrem, aos trambolhões da sorte. Ainda por cima és pequena, feia, disforme...
- É dos encontrões que tenho levado - gemeu a pedra.
- Enquanto eu, com as minhas asas abertas, lá no alto, sou forte, belo, superior, e invulnerável.
- Não és tão invulnerável como julgas - tornou-lhe a pedra. - Também estás sujeito à tua sorte, e não sabes qual possa ela ser quando menos esperas. Eu própria, apesar de pequena, posso matar-te com uma pedrada.
- Tu? Grande atrevida! - grasnou o pássaro. - Não sabes, minha parva, que para uma pedrada não basta a pedra? É preciso haver quem a atire. E por estes sítios, desde que eu me lembro, nunca passou ninguém.
- E ria, ria, fazendo muita troça da pedra.
- Ah, que se eu um dia te puder ser boa - rosnou a pedra entre dentes -, conta com a minha pedrada.
E eram sempre conversas deste género, cheias de ódio, inveja, orgulho, ironias e ameaças, quando afinal um pássaro do mar ou uma pedra da montanha não valem grande coisa, porque existem na terra e no mar mil outras coisas mais importantes, e o tempo tudo destrói.
E o tempo que tudo destrói foi passando, até que um dia apareceu por ali um homem vindo não se sabe de onde nem porquê.
Viu o pássaro, num sítio onde não havia mais nenhum e quis caçá-lo. Mas como não levava qual¬quer arma, apanhou uma pedra - a tal pedra - e, segurando-a com força, esperou que o pássaro lhe ficasse ao alcance quando descesse para pousar nas rochas. Fez a pontaria e, zás!, assobiando ao vento e descrevendo uma curva no ar como se voasse, a pedra foi bater em cheio no coração do pássaro.
Berrou o pássaro com a dor, e a pedra riu desta vez, satisfeita porque chegara a hora da vingança.
- Então - gritou a pedra -, qual de nós dois é agora o mais forte?
A história podia acabar aqui. Mas não, porque o pássaro, embora ferido, continuou o seu voo alto, enquanto a pedra caiu na vertical sobre as rochas mais além, onde rolou um bocado, e ficou outra vez parada, não sabemos para quanto tempo mais. E depois de o homem se ir embora, o pássaro descreveu uma larga curva, e com os olhos agudos viu onde tinha caído a pedra. E descendo sobre ela numa fúria, segurou-a nas garras e, afastando-se outra vez para o largo, deixou-a cair no abismo, onde ela mergulhou, descendo devagar, devagar, durante muito tempo, até ao fundo do mar, que era dos mais fundos.
E a pedra lá ficou, desta vez para sempre, e agora nem sequer vê a luz do Sol, nem ouve o assobio do vento, nem a tempestade, e muito menos pássaros ou homens.
A história também podia acabar aqui.
Não acaba. O pássaro, ferido de morte, ainda voou o mais alto que pôde, numa despedida, soltando gritos de dor - desta vez não ria - até esgotar as forças e cair também, longe, lá longe, devagarinho até ao fundo do mar, onde ficou para sempre, e onde não se vê o céu, nem as montanhas, nem as pedras, e onde muito menos pode voar.
Agora sim, acabou a história. É uma história triste. Se o pássaro e a pedra quisessem, não poderia ter sido tudo de outra maneira?


Ricardo Alberty, Fábulas que Ninguém me Contou



O+Passaro+e+o+ninho.jpg (image)
LEITURA ORIENTADA
1. É realmente uma história triste a que acabaste de ler. Vais agora analisá-la, de acordo com os parâmetros propostos na "Ficha da Narrativa".
1.1. Elabora um questionário de análise, no qual contemples cada uma das categorias da narrativa (acção, personagens, espaço, tempo, narrador).
1.2. Depois de devidamente corrigido, usa o teu questionário, respondendo a cada uma das perguntas.
2. É uma história de "proveito e exemplo" a que acabaste de ler e analisar - uma fábula da qual poderemos retirar uma boa lição.
• Que lição dela retiras?


QUESTÕES DE LINGUAGEM
1. "Sem se poder desviar nem um palmo do sítio onde o acaso a pusera, a pedra invejava aquela coisa voadora, a vida voadora, que podia ir onde quisesse, sem dar satisfações a ninguém."
1.1. Sublinha todos os determinantes e pronomes utilizados no parágrafo transcrito.
1.2. Distingue e classifica determinantes e pronomes.
2. "Ódio, inveja, orgulho, ironias e ameaças"
2.1. Identifica a classe gramatical a que pertencem as palavras transcritas.
2.2. Indica um adjectivo da família de cada um dos signos referidos.
2.3. Constrói cinco frases em que incluas os adjectivos que indicaste; as frases deve-rão estar relacionadas com o texto.


OUTRAS ACTIVIDADES
1. MODIFICAÇÃO DE NARRATIVA
"Se o pássaro e a pedra quisessem, não poderia ter sido tudo de outra maneira?"
Claro que poderia. É o que vais demonstrar, modificando o conto, a partir do momento em que, em cena, aparece o homem "vindo não se sabe de onde nem porquê".


2. LEITURA / RECOLHA DE FÁBULAS
A história do pássaro e da pedra poderá, com certeza, ser considerada uma fábula. A fábula é um tipo de narrativa que não te é estranho, pois tu já leste e/ou já ouviste contar muitas dessas histó-rias em que os animais actuam como se de pessoas se tratasse.
2.1. Em livros de que disponhas em casa ou na Biblioteca de Escola, faz uma recolha das fábulas que mais te agradaram. Expõe as razões das tuas escolhas.


[O+Passaro+e+o+ninho.jpg]


12.7.10

Miguel Torga, Diário




Coimbra, 4 de Junho de 1992 - Conferência internacional no Rio de Janeiro para defesa do ambiente físico. Do metafísico já ninguém cuida. E, do outro, mais valia que os delegados, em vez de discursos sujos, lavassem a hipocrisia nas águas ainda lustrais de Guanabara. O mundo está irremediavelmente perdido, porque é incorrigível a voracidade capitalista e a nossa obstinação consumista. Queremos, queremos, queremos. E os abnegados senhores do progresso fabricam, fabricam. Saturam, diligentes, os mercados do útil e do inútil. Atravancam o planeta das suas sedutoras mercadorias. Para tanto, esventram-no, derrubam-lhe as florestas, empestam-lhe os rios, os mares e os ares. Poucos dos que assistem ao colóquio estão ali de boa fé ou em nome dela. Quando a farsa terminar, nenhum petroleiro vai recolher ao estaleiro, nenhum alto forno deixará de arder, nenhum motor de rodar.
Contemporâneos passivos de uma civilização técnica e industrial, que nos serve o necessário poluído e o supérfluo esterilizado, já nem sequer nos indignamos de a ver acabar assim, pletórica e podre. Sornamente, vamos vegetando intoxicados, na esperança secreta de que o dilúvio não acontecerá na nossa vida, e, se acontecer, haverá sempre na Arca de salvação lugar para mais um.

Miguel Torga, Diário
vol. XVI, Coimbra, 1993



I

1. Surgem no texto as palavras: «lustrais», «voracidade», «consumista», «Saturam», «esventram-no», «pletórica», «Sornamente». Numa primeira leitura do texto, localiza-as e associa cada uma delas a um dos significados seguintes: avidez; cheia; enchem; indolentemente; purificadoras; rasgam-lhe as entranhas; relativo ao hábito de comprar em demasia.

2. Identifica o acontecimento referido no texto.

3. Apresenta os traços que caracterizam «eles» («os delegados» e os «senhores do progresso») e «nós».

4. Observa que o sujeito textual é um «nós», ao invés do «eu», habitual na escrita de diário. Comenta a razão de ser desta opção.

5. Neste registo diarístico, o «eu» centra a sua atenção sobre si ou sobre o mundo? Justifica a resposta.

6. Concordas com as opiniões nele expressas? Todas? Algumas? Aponta duas que consideres importantes e explica porquê.

7. Relê o texto. Faz o levantamento das formas verbais no presente e no futuro e explica a relação estabelecida entre estes dois tempos.