27.6.10

A Fuga de Wang-Fô


Chegaram à entrada do palácio imperial. As paredes violetas insinuavam em pleno dia um tom crepuscular. Os soldados obrigaram Wang-Fô a atravessar salas redondas ou quadradas cujas formas simbolizavam as estações, os pontos cardeais, a Lua e o Sol, a longevidade e a Omnipotência. As portas giravam sobre si próprias emitindo notas musicais e o seu encadeamento era de forma a permitir que quem atravessasse o palácio do nascer ao pôr-do-sol ouvisse a escala toda. Por fim, o silêncio tornou-se tão grande que mal se ousava respirar; um escravo soergueu um reposteiro, e o pequeno grupo entrou na sala onde reinava o Filho do Céu.
Era um imenso aposento sustentado apenas por grossíssimas colunas de pedras azuis. Desabrochava a toda a volta um jardim, cada flor dos seus bosques pertencia a uma espécie rara vinda do outro lado dos oceanos. No exalavam, porém, qualquer perfume, receando, se o fizessem, perturbar os pensamentos do Dragão Celeste. (...)
O Mestre Celeste estava sentado num trono de jade, e, cobertas de rugas, as mãos dele assemelhavam-se às dum ancião, se bem que ele ainda mal tivesse vinte anos. Como os seus cortesãos, de pé junto às colunas, estendiam o ouvido para não perder a mais pequena sílaba saída dos seus lábios, ele tinha-se habitua- do a falar sempre em voz baixa.
— Dragão Celeste, disse Wang-Fô prosternado, sou velho, sou pobre, sou fraco. Tu és como o Verão; eu sou como o Inverno. Tu tens Dez Mil Vidas; eu tenho apenas uma, e que vai acabar. Que mal é que eu te fiz? Ataram as minhas mãos, que nunca te causaram nenhum dano.
— Perguntas-me o que é que me fizeste, velho Wang-Fô?, disse o Imperador.
A voz dele era tão doce que dava vontade de chorar. Ergueu a mão direita, que os reflexos do pavimento de jade faziam parecer verde como uma planta submarina, e Wang-Fô, maravilhado com o tamanho daqueles dedos delicados, esquadrinhou a memória para ver se não teria desenhado do Imperador, ou dos seus antepassados, retrato medíocre que o fizesse merecer a morte. (...)
— Perguntas-me o que é que me fizeste, velho Wang-Fô?, recomeçou o Imperador, inclinando o pescoço encarquilhado para o velho que o ouvia. Vou dizer-to. O meu pai reuniu uma colecção de pinturas tuas no fundo do palácio, e foi nessas imensas salas que eu fui criado, velho Wang-Fô, porque não me deixavam sair, com medo de que ver os infelizes me afligisse o espírito ou agitasse o coração. (… De noite, quando não conseguia dormir, ficava a olhar para os teus quadros, e, durante dez anos, no houve uma só noite em que eu os não tenha contemplado. De dia, sentado num tapete de que já sabia de cor todos os desenhos, descansando as mãos nos meus joelhos de seda amarela, eu imaginava o mundo — com o país de Han no meio — semelhante à planície concava e monótona da mão profundamente atravessada pelos Cinco Rios. A toda a sua volta, o mar onde os monstros nascem, e, mais longe ainda, as montanhas onde assenta o céu. Tudo isto eu imaginava com a ajuda dos teus quadros. Aos dezasseis anos, reabriram-se as portas que me separavam do mundo; subi ao terraço do palácio para ver as nuvens, mas elas não se comparavam com as dos teus crepús-culos. Mandei vir uma liteira, sacudido através de estradas atulhadas de lama e pedras com que eu não contava, percorri as províncias do Império sem encontrar os teus jardins repletos de mulheres parecidas com flores e as tuas florestas cheias de antílopes e de pássaros. Os calhaus da beira-mar fizeram com que eu me enjoasse dos oceanos; a fealdade das aldeias impede-me de ver a beleza dos arrozais, e o riso áspero dos meus soldados dá-me vómitos. Mentiste-me, Wang-Fô, velho aldrabão: o reino de Han não é o mais maravilhoso dos reinos e não sou eu o Imperador. O único império onde vale a pena reinar é aquele onde tu entras, velho Wang, pelo caminho das Mil Curvas e das Dez Mil Cores. Só tu reinas em paz sobre as planícies onde a neve não derrete e sobre campos de flores que nunca morrerão. E é por isso, Wang-Fô, que eu encontrei o suplício que te estava reservado, a ti cujas pinturas me fizeram detestar o que possuo, e desejar o que jamais possuirei. E, para te fechar na única prisão de onde não poderás sair, decidi queimar-te os olhos, já que os teus olhos são as duas portas mágicas por onde tu penetras no teu reino. E, já que as tuas mãos são as duas estradas de dez ramificações que vão até ao coração do teu império, também decidi cortar-te as mãos. Percebes tu agora, velho Wang-Fô?
Ouvindo esta sentença, o discípulo Ling arrancou da cintura uma faca amolgada e precipitou-se sobre o Imperador. Dois guardas sustiveram-no. O Filho do Céu sorriu e acrescentou com um suspiro:
— Também te odeio, velho Wang-Fô, por te saberes fazer amar. Matem esse maltrapilho.
Ling deu um salto para a frente, a fim de evitar que o sangue sujasse a roupa do seu mestre. Um carrasco decapitou-o com um sabre. Os criados levaram os restos mortais, e Wang-Fô, desesperado, admirou a lindíssima mancha escarlate que o sangue do discípulo deixara no pavimento de pedra verde.
O Imperador fez um sinal, e dois escravos enxugaram os olhos de Wang-Fô.
— Ouve, velho Wang-Fô, disse o Imperador, e pára de chorar, porque não é este o momento mais apropriado. Há na minha colecção das tuas obras um quadro admirável onde as montanhas, o estuário dum rio e o mar se reflectem, é claro que infinitamente reduzidos, mas com uma intensidade que ultrapassa a dos próprios objectos, como as figuras reflecti-das na superfície duma esfera. Mas não terminaste esse quadro, Wang-Fô, e eu quero que consagres as horas de luz que te restam a acabar a tua obra-prima. … Se te recusares, mando queimar todas as tuas obras antes do teu suplício…

A Fuga de Wang-Fô, Marguerite Yourcenar


I

1 – Explica o que a arquitectura do palácio revela acerca do Imperador e do modo como governa.

2 – Faz a descrição do Imperador de acordo com:
- as expressões usadas para o nomear,
- o seu aspecto físico,
- os seus hábitos.

3 – Refere as razões invocadas pelo Imperador para prender e castigar Wang-Fô.

4 – Como se refere o Imperador às mãos e aos olhos do pintor?

5 – Como reagiu Ling à decisão do Imperador?

5.1 – Diz o que revela esta atitude de Ling relativamente aos seus sentimentos por Wang-Fô.

6 – Qual foi a última exigência imposta pelo Imperador a Wang-Fô?

7 – O que aconteceria no caso de Wang-Fô não obedecer ao Imperador?


II

1 – Pontua devidamente o excerto que se segue.

Era mesmo Ling trazia a roupa de todos os dias e na manga direita viam-se ainda as marcas de um rasgão que ele não tivera tempo de coser essa manhã antes da chegada dos soldados mas á volta do pescoço trazia um estranho lenço encarnado sem deixar de pintar Wang-Fô disse-lhe docemente julgava-te morto

2 – Coloca no discurso indirecto.
- Que mal é que eu te fiz? – perguntou Wang-Fô.
- Enganaste-me com as tuas pinturas e por isso te odeio - respondeu o Imperador.

3- Conjuga os verbos entre parênteses no presente ou no pretérito imperfeito do conjuntivo.
3.1 . Se eu (ser) pintor, gostaria de conhecer Wang-Fô.
3.2. Embora o Imperador não (acreditar) em Wang-Fô, lamentava ter de o matar.
3.3. Ling prepara bem as tintas para que tudo (correr) bem.
3.4. Vou confirmar a viagem antes que me (mudar) os planos.

4- Indica das frases anteriores aquelas em que o conjuntivo exprime
a. anterioridade
b. concessão
c. finalidade
d. condição


III

Imagina que tinhas a oportunidade de interceder a favor de Wang-Fô junto do Imperador. Redige o discurso que farias de modo a convencer o Imperador a não matar o pintor.


26.6.10

A menina do mar


REENCONTRO

Numa manhã de nevoeiro o rapaz sentou-se na praia a pensar na Menina do Mar.
E enquanto assim estava viu uma gaivota que vinha do mar alto com uma coisa no bico. (…) A gaivota chegou junto dele, deu uma volta no ar e deixou cair a coisa na areia.
O rapaz apanhou-a e viu que era um frasco cheio duma água muito clara e luminosa.
- Bom dia, bom dia – disse a gaivota.
- Bom dia, bom dia – respondeu rapaz. – Donde é que vens e porque é que me dás este frasco?
- Venho da parte da Menina do Mar – disse a gaivota. – Ela mandou-me dizer que já sabe o que é a saudade. E pediu-me para te perguntar se queres ir ter com ela ao fundo do mar.
- Quero, quero – disse o rapaz. – Mas como é que eu hei-de ir ao fundo do mar sem me afogar?
- O frasco que te dei tem dentro suco de anémonas e suco de plantas mágicas. Se beberes agora este filtro passarás a ser como a Menina do Mar. Poderás viver dentro de água como os peixes e fora de água como os homens.
- Vou beber já – disse o rapaz.
E bebeu o filtro.
Então viu tudo à sua roda tornar-se mais vivo e brilhante. Sentiu-se alegre, feliz, contente como um peixe. (…)
- Ali no mar – disse a gaivota – está um golfinho à tua espera para te ensinar o caminho.
O rapaz olhou e viu um grande golfinho preto e brilhante dando saltos atrás da rebentação das ondas. Então disse:
- Adeus, adeus, gaivota. Obrigado, obrigado.
E correu para as ondas e nadou até ao golfinho.
- Agarra-te à minha cauda – disse o golfinho.
E foram os dois pelo mar fora.
Nadaram muitos dias e muitas noites através de calmarias e tempestades.
Atravessaram o mar dos Sargaços e viram os peixes voadores. E viram as grandes baleias que atiram repuxos de água para o céu e viram os grandes vapores que deixam atrás de si colunas de fumo suspensas no ar. E viram os icebergues majestosos e brancos na solidão do oceano. E nadaram ao lado dos veleiros que corriam velozes esticados no vento. E os marinheiros gritavam de espanto quando viam um rapaz agarrado à cauda dum golfinho. Mas eles mergulhavam e desciam ao fundo do mar para não serem pescados. (…)
Depois de nadarem sessenta dias e sessenta noites chegaram a uma ilha rodeada de corais. O golfinho deu a volta à ilha e por fim parou em frente duma gruta e disse:
- É aqui: entra na gruta e encontrarás a Menina do Mar.

Sophia de Mello Breyner ANDERSEN, A Menina do Mar




I

Lê atentamente o texto e responde, de forma completa e correcta, às questões que se seguem.

1. “Numa manhã de nevoeiro o rapaz sentou-se na praia a pensar na Menina do Mar.”
1.1. Situa a acção no espaço e no tempo.
1.2. Identifica o tipo de narrador.

2. Entretanto, uma gaivota chegou perto dele.
2.1. Vinha da parte de quem?
2.2. O que é que a gaivota perguntou então ao rapaz?
2.3. Este ficou muito contente...No entanto, mostrou-se também preocupado. Porquê?
2.4. Como é que ele conseguiria ir ao fundo do mar, sem se afogar?

3. “Foram os dois pelo mar fora...chegaram a uma ilha rodeada de corais.”
3.1. Foi uma longa viagem. Quanto tempo durou?
3.2. Como reagiam os marinheiros ao avistar o golfinho e o rapaz?

4. Indica um sinónimo de veloz

II

1. Um grande golfinho preto e brilhante estava à sua espera...
1.1. Classifica morfologicamente as palavras:
Um
golfinho
brilhante
estava

2. “Mas eles mergulhavam e desciam ao fundo do mar...”
2.1. Reescreve a frase, colocando a forma verbal...
...no pretérito perfeito do indicativo.
...no futuro do indicativo.
…no presente do indicativo.

3. Os marinheiros gritavam espantados.
3.1. Reescreve a frase, colocando o adjectivo no grau superlativo absoluto sintético.

4. A gaivota deu o frasco ao rapaz.
4.1. Faz a análise sintáctica da frase.


III

A amizade é muito importante para o rapaz. Diz o que é para ti a amizade (escreve entre 15 e 20 linhas).


25.6.10

Manuel Bandeira



Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.

Sophia de Mello Breyner Andresen


I

1. Este poema pode dividir-se, globalmente, em três momentos.
1.1 Delimita-os, estabelecendo a correspondência com as frases que os resumem.
a) O «eu» poético recorda a juventude e os sentimentos provocados pela extraordinária criação poética de Manuel Bandeira, representada por três poemas.
b) O «eu» reconhece a influência benéfica e harmoniosa da poesia do poeta brasileiro na sua vida.
c) O sujeito poético presta sentida homenagem ao poeta Manuel Bandeira.

2. Da primeira estrofe, transcreve as expressões que afirmam:
a) Manuel Bandeira não é um poeta de nacionalidade portuguesa.
b) O «eu» poético guarda na memória a poesia exemplar de Manuel Bandeira.

3. Caracteriza o ambiente propício à declamação de poemas nesse «jovem tempo».

4. Identifica o sentimento que a avó experienciava ao ouvir a neta recitar poemas de Manuel Bandeira.

5. «No quarto já então pleno de futura / Saudade» (vs. 14-15)
5.1 Explicita a simbologia do espaço referido no verso 14.
5.2 Interpreta a intensa saudade antecipada temporalmente.

6. Na penúltima estrofe, o «eu» poético detém-se particularmente nesse tempo passado.
6.1 Refere as recordações que guarda na memória.
6.2 Esclarece o facto de «As três mulheres do sabonete Araxá» estarem «Tão visíveis / Que um eléctrico amarelo as decepava» (vs. 24-27).

7. Selecciona duas personificações da última estrofe, avaliando o seu valor expressivo.


II

1. Transcreve os adjectivos presentes nas 2.ª e 3.ª estrofes.
1.1. Escreve os antónimos correspondentes.

2. Classifica o vocábulo «Relembrando» (v. 5).
2.1 Explicita o valor aspectual que ele assume no poema.

3. Faz o levantamento das formas verbais, completando o quadro:

Modo Indicativo

1.a estrofe

Presente

está,

Pretérito Imperfeito

Pretérito Perfeito Simples

2.a estrofe


recitava,


3.a estrofe


era,


4.a estrofe



deixei,

5.a estrofe



caminharam,


3.1 Interpreta a relação estabelecida entre o tempo presente e o passado.

4. Estabelece a correspondência correcta entre as orações e a sua classificação sintáctica:
a) «Mas reconheço a sua voz» (v. 3)
b) «Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira» (v. 20)
c) «Que um eléctrico amarelo as decepava» (v. 27)
d) «E foram parte do tempo respirado» (v. 31)

1. oração subordinada adverbial consecutiva
2. oração coordenada copulativa
3. oração coordenada adversativa
4. oração subordinada adverbial temporal

4.1 Atenta nas palavras sublinhadas nas frases e selecciona a função sintáctica correcta:
a) predicado
b) complemento directo

20.6.10

Conto da Ilha Desconhecida



O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a ideia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.
Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero. Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um ao pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mini, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela.

José Saramago, Conto da Ilha Desconhecida



I

1. Atenta nas frases seguintes:
a) A mulher informa o homem do estado da embarcação.
b) Os dois comem o farnel no castelo da popa do barco.
c) O homem enuncia as condições necessárias para navegar em busca de uma ilha desco-nhecida.
d) O homem e a mulher da limpeza dialogam filosoficamente sobre o sentido metafórico do vocá¬bulo «ilha».
e) O homem revela um estado de espírito dominado pelo desânimo.
f) A mulher faz uma proposta que desconcerta o homem.
g) O homem e a mulher identificam os mestres da arte de navegar.
1.1 Ordena-as, de acordo com a sequencialização lógica das ideias do texto transcrito.

2. Transcreve as expressões que permitem situar a acção no tempo e no espaço.

3. Refere três traços caracterizadores do homem e da mulher da limpeza.

4. Identifica a figura de estilo presente na expressão «todo o homem é uma ilha».
4.1 Explicita o significado da resposta do homem: «Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós.»

5. Interpreta a afirmação da mulher «Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões»

6. Classifica o narrador, quanto à presença, à ciência e à posição.


II

1. Identifica os co-referentes de barco desde «Em menos de um quarto de hora» até «terei de ir dizer ao rei que já não a quero»
1.1 Classifica-os.

2. Considera as expressões:
a) «Como foi que aprendeste estas coisas»;
b) «É bonita».
2.1 Classifica os actos ilocutórios nelas presentes, esclarecendo a sua intencionalidade comunicativa.

3. «Primeiro tens de ver o teu barco, só o conheces por fora».
3.1 Integra os vocábulos destacados na classe e subclasse a que pertencem,

4. Reescreve no discurso indirecto o texto desde «Primeiro tens de ver o teu barco» até «que aprendeste essas coisas».

5. «Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois».
5.1 Divide e classifica sintacticamente as orações.
5.2 Refere as funções sintácticas de:
a) «marinheiros»
b) «que»
c) «cá»


III

Escreve um texto narrativo, de 150 a 200 palavras, com o título: O importante é partir, não é chegar...

19.6.10

Perplexidade


A criança estava perplexa. Tinha os olhos maiores e mais brilhantes do que nos outros dias, e um risquinho novo, vertical, entre as sobrancelhas breves. «Não percebo», disse.
Em frente da televisão, os pais. Olhar para o pequeno ecrã era a maneira de olharem um para o outro. Mas nessa noite, nem isso. Ela fazia tricô, ele tinha o jornal aberto. Mas tricô e jornal eram alibis. Nessa noite recusavam mesmo o ecrã onde os seus olhares se confundiam. A menina, porém, ainda não tinha idade para fingimentos tão adultos e subtis, e, sentada no chão, olhava de frente, com toda a sua alma. E então o olhar grande, a rugazinha e aquilo de não perceber. «Não percebo», repetiu.
«O que é que não percebes?», disse a mãe por dizer, no fim da carreira, aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso em que alguém espancava alguém com requintes de malvadez.
«Isto, por exemplo.»
«Isto o quê?»
«Sei lá. A vida», disse a criança com seriedade.
O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de 8 anos, tão subitamente.
Como de costume preparava-se para lhe explicar todos os problemas, os de aritmética e os outros.
«Tudo o que nos dizem para não fazermos é mentira.»
«Não percebo.»
«Ora, tanta coisa. Tudo. Tenho pensado muito e., i não matar, para não bater. Até não beber álcool, E depois a televisão... Nos filmes, nos anúncios... afinal?"
A mãe largou o tricô e engoliu em seco. O pai respirou fundo como quem se prepara para uma i corrida difícil.
«Ora vejamos,», disse ele olhando para o teto em busca de inspiração. «A vida...»
Mas não era tão fácil como isso falar do desrespeito, do desamor, do absurdo que ele aceitara i como normal e que a filha, aos 8 anos, recusava. «A vida...», repetiu.
As agulhas do tricô tinham recomeçado a esvoaçar como pássaros de asas cortadas.

MARIA JUDITE DE CARVALHO, in O Jornal (02.10.1981]



1. Identifique o facto noticioso referido na crónica de Maria Judite de Carvalho.

2. Resuma, por palavras suas, a apreciação crítica que faz a autora.

3. Observe as expressões idiomáticas «engoliu em seco» e «respirou fundo».
3.1 Explique o sentido que encerram.
3.2 Justifique estas reações da mãe e do pai.

4. Explique o significado da expressão: «aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso».
4.1 Identifique o recurso estilístico utilizado.

5. Considere a frase: «O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de 8 anos, tão subitamente.»
5.1 Identifique e classifique as frases que a compõem.
5.2 Identifique as funções sintáticas presentes em «qual era o problema que preocupava tanto a filha de 8 anos, tão subitamente».
5.3 Identifique a classe e a subclasse das palavras destacadas.