27.2.10

Carta




Meu amigo:

Sete horas da manhã. Pela janelinha sem vidro do meu quarto entra uma coluna de sol que empoeira de oiro o sobrado. As pedras, de que é construído este casebre, são mal unidas e toscas. Dum lado arrima-se aos penedos: sinto palpitar o coração dos montes. Do outro lado abre para o panorama, píncaros sobre píncaros, fragas revolvidas e um ar tão fino que me farto de o beber.
Cheira bem. Pela fresta vejo pedras, montes cobertos de neve, o céu, coisas grandes e eternas... Porque fugi ao ódio, aos desesperos, aos mil nadas que complicam a vida?... Para ter este pão negro, que tão bem me sabe, este ar e esta paz que me penetram. Sou feliz. Vivo!...
Cismo e a paz é tanta neste triste casebre onde o pão não sobra, que o não trocaria pelas maiores riquezas do mundo. O meu sonho corre, incha, transborda. Ninguém o tolda. Farto-me...
Esta gente que me rodeia, pobres cavadores, pastores, homens que se parecem um pouco com as árvores pela sua simplicidade e grandeza - e porque dão sombra também, são criatu¬ras diferentes das que tu conheces... Sombra, perguntas? Não é a bondade das árvores - a sua sombra? Nunca sentiste, junto a um velho sobro, a simpatia e frescura de que seus ramos se evolam?
Pois muitos homens dão sombra como as árvores: acolhem; estendem os ramos, protegendo os que se aproximam; a simpatia que de certas criaturas se exala é uma frescura só compará¬vel à frescura das árvores.

Raul Brandão, A Farsa, Ferreira e Oliveira Ed., 1903



1. Na carta, existem referências concretas ao interlocutor.
1.1 Transcreve marcas deíticas que o comprovam.

2. Identifica os atos ilocutórios presentes nas expressões «Cheira bem» e «Sombra, perguntas?» .
2.1 Explicita a sua intencionalidade comunicativa.

3. Seleciona, do primeiro parágrafo, os nomes no grau diminutivo.

4. Considera as expressões: «pão negro» e «pobres cavadores».
4.1 Esclarece o valor (restritivo / não restritivo) dos adjetivos.
4.2 Refere o grau superlativo absoluto sintético de: «tosca», «negro», «feliz», «pobre» e «grande».

5. Clarifica as diferentes asserções do vocábulo «pão» nas seguintes frases:
a) Comeu o pão que o diabo amassou.
b) O pão de centeio é o que mais aprecio.
c) Sai, de madrugada, para ganhar o pão de cada dia.
d) A cultura é o pão do espírito.
5.1 Constrói três frases onde utilizes a palavra «coluna» com diferentes aceções.