31.1.09

Salmo

Ávida
é o bago de uva
macerado
nos lagares do mundo
e aqui se diz
para proveito dos que vivem
que a dor
é vã
e o vinho
breve.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético


I

1. Atenta na definição da palavra "salmo" que constitui o título do poema que leste: "Hino em que se enaltece ou agradece algo".
1.1. Partindo dessa definição, pronuncia-te acerca da adequação do título ao conteúdo do texto.

2. Refere a figura de estilo em que assenta o desenvolvimento do poema, justificando a tua resposta.

3. Apresenta a expressividade do adjectivo "macerado" («. 3), justificando a tua resposta.

4. Explica a expressão "a dor / é vã / e o vinho / breve", tendo por base a ideia geral do texto.

5. Transcreve todas as formas verbais do poema e refere o tempo e o modo em que se encontram flexionadas.
5.1. Apresenta uma justificação para a sua utilização, tendo em conta a temática do texto.

6. Atenta no elemento "que" (vv. s e 7).
6.1. Identifica a classe de palavras a que pertence em cada uma das suas utilizações.
6.2. Classifica as frases introduzidas por cada uma destas palavras.





30.1.09

Roi Queimado morreu con amor
en seus cantares, par Sancta Maria,
por Da dona que gran ben queria:
e, por se meter por mais trobador,
porque lhe ela non quis ben fazer,
feze-s'el en seus cantares morrer,
mais resurgiu depois ao tercer dia!

Esto fez el por üa sa senhor
que quer gran ben, e mais vos en diria:
por que cuida que faz i maestria,
enos cantares que faz, á sabor
de morrer i e des i d'ar viver;
esto faz el que x'o pode fazer,
mais outr'omem per ren' nono faria.

E non á já de sa morte pavor,
senon sa morte mais la temeria,
mais sabe ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for,
e faz-[s'] en seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, mais que non cuidaria.

E, se mi Deus a mim desse poder
qual oj'el á, pois morrer, de viver,
já mais morte nunca temeria.

Pêro Garcia Burgalês


I

1. Há, nesta composição poética, urna sátira ao trovador Rói Queimado.
1.1. Identifique o objecto da sátira.
1.2. Identifique, a partir de expressões do poema, elementos que revelam mordacidade e ironia.

2. Classifique a cantiga e justifique.

3. Identifique os recursos estilísticos em:
- «feze-s'e! em seus cantares morrer, /mais ressurgiu depois ao tercer dia";
- "á sabor / de morrer i e dês i d'ar viver-.

4. Faça a análise formal da cantiga (não esqueça o artifício utilizado na última estrofe e a importância no poema).


II

1. Assinale todas as frases pertencentes ao conjunto de quatro que se segue e que contenham uma oração subordinada com valor condicional. Sublinhe, em todos os casos, essa oração subordinada.
1. O Paulo não sabe se o livro ia foi publicado.
2. O Paulo teris ido à festa se a Ana o tivesse convidado.
3. Ainda não se conhece o motivo que levou o ministro a demitir-se.
A. Se todos colaborarem, ainda será possível impedir a extinção das baleias.
(in Prova Especifica de Português 1998)





Ilha dos Amores




54
Três fermosos outeiros se mostravam,
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramíneo esmalte se adornavam,
Na fermosa Ilha, alegre e deleitosa.
Claras fontes e límpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viçosa;
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa linfa fugitiva.

55
Num vale ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras águas ajuntar-se,
Onde ũa mesa fazem, que se estende
Tão bela quanto pode imaginar-se.
Arvoredo gentil sobre ela pende,
Como que pronto está pera afeitar-se,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em si o está pintando propriamente.


70
«Sigamos estas Deusas e vejamos
Se fantásticas são, se verdadeiras.»
Isto dito, veloces mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras,
Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando.

71
De ũa os cabelos de ouro o vento leva,
Correndo, e da outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alves carnes, súbito mostradas.
Ũa de indústria cai, e já releva,
Com mostras mais macias que indinadas,
Que sobre ela, empecendo, também caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.
88
Assi a fermosa e a forte companhia
O dia quási todo estão passando
Nũa alma, doce, incógnita alegria,
Os trabalhos tão longos compensando.
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo está guardando
O prémio lá no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido.

89
Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,
Tétis e a Ilha angélica pintada,
Outra cousa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas preminências gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glória e maravilha,
Estes são os deleites desta Ilha.

Lusíadas, canto IX

I


O episódio da Ilha dos Amores traduz a compensação das descobertas e a necessidade da harmonia no mundo.
Após a leitura atenta das estâncias apresentadas, desenvolva os seguintes tópicos:
• A importância das sensações na descrição da ilha.
• Os valores fónicos e semânticos ao serviço da descrição.
• O jogo da sedução entre ninfas e nautas.
• O descanso e a recompensa dos navegadores.
• O significado da Ilha dos Amores.
• Os recursos estético-estilísticos.


II

Num breve apontamento, não excedendo o limite de 10 linhas, aborde a singularidade da novela sentimental Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.


III

Escolha um dos temas abaixo enunciados.

A. Faça uma dissertação cuidada acerca da seguinte afirmação de Sophia de Mello Breyner Andresen:
"Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. (...) Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo."

B. "O desafio de Dona Inês e D. Pedro arrastam-nos fatalmente para o trágico castigo."
Num texto expositivo-argumentativo, aborde a temática da Castro, de António Ferreira, a obra-prima do teatro clássico nacional.


Uma mulher quase nova...




Uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

Mário Dionísio


Quem excederá...

Quem excederá tua bondade
Ao dares-me aquilo que te não pedi,
Um colar de pérolas para a minha vaidade
Como hei-de expressar gratidão por ti?

Por este dom eu fico orgulhosa
E sou, entre todas, a mais leda.
Ó esplêndida alma generosa
Torrente de rio e frágil fio de seda


Maryam Al-Ansãrï

Rajput Beauty

I

Leia, com atenção, os poemas transcritos e desenvolva os seguintes aspectos:
1. A oposição aparência / realidade, nos dois poemas.
2. A importância das categorias morfológicas.
3. Os processos estético-estilísticos principais, não esquecendo o aspecto tónico.
4. Os elementos semântico-simbólicos que remetem para a idade da mulher, no poema de Mário Dionísio.
5. O sentido da afirmação "torrente de rio e frágil fio de seda", no poema de Maryam Al-Ansãrí.


II

Num breve apontamento, não excedendo o limite de 10 linhas, justifique a seguinte afirmação:
A cultura portuguesa e a literatura, que a exprime, receberam as mais diversas influências, mas também deram o seu contributo para o que acontece em muitas outras paragens.


III

Elabore um texto crítico sobre a intervenção comprometida da literatura contemporânea.

28.1.09

Nós

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população com um terror de lebre,
Fugiu da capital como a tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!
Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.
(…)
Que de fruta! E que fresca e têmpora.
Nas duas boas quintas bem muradas,
Em que o Sol, nos talhões e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manhã!

O laranjal de folhas negrejantes,
(Porque os terrenos são resvaladiços)
Desce em socalcos todos os maciços,
Como uma escadaria de gigantes.
[...]
Entretanto, não há maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!

Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
Seca o rio! Em três meses de estiagem,
O seu leito é um atalho de passagem,
Pedregosíssimo, entre dois lugares.

Como lhe luzem seixos e burgaus
Roliços! E marinham nas ladeiras
Os renques africanos das piteiras,
Que como aloés espigam altos paus! [...]

Cesário Verde, Nós


I

1. O poema Nós de Cesário Verde é composto por cento e vinte e oito quadras distribuídas por três partes. Estes extractos permitem reflectir sobre algumas das intenções do Poeta.
1.1. Caracterize os cenários apresentados nestes excertos da l e da II partes.
1.2. Conclua da intenção subjacente à caracterização analisada.

2. Atente no verso 3: "Que esta população com um terror de lebre".
2.1. Explicite o sentido da expressão.
2.2. Mostre em que medida Cesário Verde integra o ser humano nos espaços da cidade e do campo.

3. "Entretanto, não há maior prazer / Do que, na placidez das duas horas, / Ouvir e ver, entre o chiar das noras, / No largo tanque as bicas a correr!"
3.1. Identifique os sentimentos evidenciados e as sensações sugeridas.
3.2. Identifique os recursos estilísticos utilizados.

4. Demonstre a presença da estética parnasiana nos excertos transcritos.








História da Gata Borralheira

Verificação de leitura do conto "História da Gata Borralheira" de Sophia de Mello B. Andresen, in Histórias da Terra e do Mar, Texto Editora, 1992


Lê atentamente o conto "História da Gata Borralheira" de Sophia de Mello B. Andresen.
Lê, agora, as afirmações aqui inscritas e coloca à frente das mesmas a resposta " Verdadeiro" ou "Falso" consoante o que leste no conto.

1. O Baile ocorreu numa noite de Agosto. ____

2. Do jardim via-se a casa, grande, cor-de-rosa e antiga. ____

3. Lúcia era uma jovem de dezasseis anos. ____

4. Lúcia foi ao baile com os pais e irmãos. ____

5. A filha da dona da casa não apresentou Lúcia às amigas. ____

6. Lúcia ficou só, ninguém a convidou para dançar. ____

7. O vestido de Lúcia era de seda azul. ____

8. Lúcia achou o seu vestido muito bonito. ____

9. Lúcia sempre sonhara ir a um baile. ____

10. Lúcia encontrou no sótão uns sapatos rotos. ____

11. Um rapaz alto e moreno sorriu para Lúcia. ____

12. Lúcia dançava no meio da sala quando caiu. ____

13. Com vergonha, Lúcia decidiu ir viver só. ____

14. Depois Lúcia casou com um homem muito rico. ____

15. E passaram 15 anos. ____

16. Numa manhã de Maio Lúcia recebe um convite. ____

17. Lúcia mandou fazer uns sapatos bordados a ouro. ____

18. A meio da noite ela voltou à sala onde se escondera há anos atrás. ____

19. Ao clarear do dia, encontraram Lúcia desmaiada no chão. ____

20. Lúcia tinha um sapato esfarrapado no pé direito. ____


27.1.09

Praia



Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repense.
Atirados contra a luz como pedradas.
Sobem c morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.

Sophia de Mello Breyner Andresen,



I

Faça um comentário global ao poema, não esquecendo os níveis tónico, morfo-sintáctico, semântico e estilístico.
Entre outros aspectos que considere pertinentes, desenvolva, de forma integrada, os seguintes:
• Estrutura lógica do discurso.
• A harmonia e as marcas de negatividade.
• O caos e o cosmos.
• Mar como símbolo da vida.
• A evocação nostálgica.


II

Sophia cantou a vida e a passagem do caos ao cosmos; uma boa parte da poesia de Bocage exprime o desejo da morte, associada ao símbolo da noite, e a violência do que o amor.

Num conciso apontamento, que não ultrapasse 10 linhas, aborde criticamente a poesia de Bocage.

Nunca te resignes



A minha sina era subir e descer várias vezes ao dia a Rua do Salitre para trazer e levar recados e para receber a encomenda de pequenas compras das mulheres de alguns militares que ali moravam. Toda a gente gostava de mim, porque era ágil e alegre e dava sempre muito boa conta daquilo que me mandavam fazer. Se não descobria à primeira aquilo que me encomendavam, ia tentando até encontrar. Por isso recebia sempre mais umas moedas, para além daquelas com que o meu trabalho devia ser pago. Tinha ficado órfão de pai e, naquela Lisboa, que, depois da invasão dos franceses, conhecia agora a autoridade e o mau feitio dos ingleses, eu era obrigado a fazer pela vida se queria ter uma sopa quente ao fim do dia, com umas rodelas de chouriço e urnas fatias de broa de milho a acompanhar. A minha mãe, padecendo de reumatismo que lhe fazia doer os ossos das mãos e das pernas, lavava o soalho de algumas casas e costurava por encomenda vestidos e casacas de homens. Quando o dia era de descanso, e havia muito poucos que o fossem, nem paciência tinha para ir comigo passear para as bandas do rio. Havia uma grande tristeza nos seus olhos (...). Naquele ano de 1817, já com quinze anos feitos, seco de car¬nes e nervoso como um rato do campo, eu não tinha mãos a medir: limpava montadas de militares e magistrados, dava polimento a arreios, levava e trazia cartas de namorados. Como aprendi a ler já tarde, com a ajuda de um frade dominicano que também me ensinou um pouco de latim, não perdia a oca¬sião de ler tudo aquilo que me vinha parar às mãos, fosse folheto de cordel, daqueles que os cegos contavam, recitavam e vendiam nas ruas, fosse livro ou papel anónimo com rimas de pé-quebrado. Lembro-me que um dia, um desses papéis me trouxe grandes dissabores. Encontrei-o na entrada de uma das casas onde costumava ir fazer recados, na Rua do Salitre, e dizia qualquer coisa como isto:
"Quem perde Portugal? O marechal. / Quem sanciona a Lei? O Rey. / Quem são os executores? Os governadores. / Para o marechal, um punhal, / para os governadores, os executores."
Confesso que logo na primeira leitura me agradou a rima, mas não percebi quem eram as pessoas de quem os versos falavam, pois eu de política nada sabia. Só sabia que as pessoas andavam descontentes, com pouco dinheiro e cansadas de serem mandadas por estrangeiros, fossem eles franceses ou ingleses. A minha opinião, ninguém a queria saber, mas, se me perguntassem, eu
respondia logo que deviam ser os portugueses a mandar em Portugal. Na altura não podia imaginar até que ponto era arriscado ter opiniões destas e ser capaz de as defender em voz alta. Eu era ainda muito novo e inexperiente e sabia muito pouco da vida e do mundo. Tinha, pela frente, muita, muita coisa para aprender.

José Jorge Letria, A Teia de um Segredo



Notas:
ágil: que se move com facilidade; leve; vivo.
dominicano: da ordem de S. Domingos.
folheto de cordel: livro de poucas folhas atado com um fio.
anónimo: não assinado.
rimas de pé-quebrado: versos com irregularidade rítmica ou métrica (cada parte rítmica em que se divide um verso é um pé).
dissabores: desgostos.



I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.
1.1. A mãe do rapaz:
a. passava fome
b. trabalhava muito
c. não se importava com ele

1.2. A acção passa-se:
a. no século XIX
b. durante as invasões francesas
c. no século passado

2. Há passagens no texto que caracterizam o rapaz de forma directa e indirecta.
2.1. Selecciona as que caracterizam o rapaz de forma directa.
2.2. Selecciona as que caracterizam o rapaz de forma indirecta.
2.3. Constrói o retrato da mãe do narrador a partir das informações contidas no texto.

3. Identifica as duas primeiras formas verbais do último parágrafo e faz-lhes corresponder os respectivos sujeitos.

4. Sintetiza por palavras tuas as informações que o texto fornece sobre a sociedade lisboeta da época.


II

Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a seguinte afirmação:

O narrador mostra-se muito observador e empenhado.

Janelas abertas


Passo todos os dias por uma casa de muitas janelas viradas para a rua. Estão sempre abertas as janelas. De lá de dentro saem aromas de pétalas de flores, um cheiro assim que não sei descrever.
Olho para a janela e digo: vive ali alguém feliz. Porque há janelas que s merecem que, por trás delas, vivam pessoas felizes...
Porque há janelas com o rosto feliz de quem habita por trás delas...
E agora acabo de descobrir: vive lá, por detrás da tal janela de rosto de menina bem penteada e feliz, uma velhota que todos os dias abre a janela, rega vasos de flores maravilhosas, que sorri como se fosse sempre Verão, mesmo que o dia esteja forrado de cinza e chumbo e água desprendida dos olhos lacrimejantes do céu.
É uma velhota, convém notar, destacar, esclarecer - até porque dá outro sabor, misterioso mesmo a tudo isto - a quem chamam bruxa, maga, feiticeira, que sorte se fosse realmente assim, quantas vezes já sonhei ah, se eu tivesse poderes mágicos! Chamam-lhe assim, e por razões menores; dizem que as flores nas mãos dela renascem, que os pássaros vêm tocar-lhe de leve os cabelos e debicar as migalhas do pão que lhes estende, dizem até que tocou por dentro certas pessoas e as trouxe de volta para caminhos iluminados...
Ela própria, a velhota-risonha-bruxa, tem nome de flores, que eu fui perguntar, nome de flores num único cacho, num molho, num ramo...
É uma velhinha doce, cantinhos de olhos risonhos, mãozinhas de criar sonhos para oferecer aos outros... é uma velhota que... fica bem com uma música de guitarra. Com uma canção de pássaros, com uma habilidade qual¬quer e dizem-me que das suas mãos saíam as peças mais finas e mais raras, de uma entranhada alma que só existe em pessoas especiais, que fazem correr os poemas à tona da pele mas são, inteiros, um poema mergulhado dentro do peito, dentro do que sentem, dentro do que agem... ah, como sabe bem passar todos os dias por uma casa com muitas janelas floridas, todas abertas para a rua e a rua a entrar e a sair livremente por elas...

Alexandre Honrado, Sentados no Silêncio


Notas:
passo: forma verbal no presente do modo indicativo que é homófona de paço (palácio).
saem: de igual modo se escreve coem, subtraem, contraem.
convém: no pi. convêm; de igual modo as formas verbais: contém/contém; provém/provêm e retém/retém.
entranhada: dedicada (entranha tanto se pode referir ao interior do corpo como a sentimento profundo).
tona: camada fina.


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.
1.1. As janelas atraíam o narrador:
a. pelo estilo arquitectónico
b. por mostrarem vida
c. pela cor

1.2. No último parágrafo os diminutivos da primeira linha transmitem:
a. afectividade
b. idade
c. depreciação

2. Explica o sentido que atribuis à expressão do quarto parágrafo "janela de rosto de menino bem penteada e feliz". Da expressão utiliza apenas a palavra "janela".

3. Na primeira linha do quinto parágrafo, sucedem-se várias formas verbais sinónimas, como processo de intensificação de sentido.
3.1. Identifica-as.
3.2. Nesse mesmo parágrafo, selecciona um outro exemplo de repetição de sinónimos como processo de intensificação de sentido.

4. Que feitiços fazia a velhota?

5. Encontra uma explicação para o facto de o narrador ter utilizado hífenes na expressão "velhota-risonha-bruxa".

II

Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a seguinte afirmação:

O narrador mostra-se muito observador.



26.1.09

Sobre estas duras, cavernosas fragas




Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n'alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas;

Razão feroz, o coração me indagas.
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas.

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objectos de horror co'a ideia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo.

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

Bocage


I

Tendo em conta os níveis tónico, morfossintáctico e semântico, redija um comentário global ao soneto transcrito, pondo em destaque os seguintes aspectos:

• Estado de alma do poeta, « A "luta" Razão / Coração.

• Expressividade da linguagem.

• Recursos estético-estilísticos.

• Marcas pré-românticas.

23.1.09

Mistério decifrado

O Álvaro obedeceu, retirou a mão que mantinha sobre o "rato". Então, o Tio murmurou:
- Duas vezes na terceira. Hmmm... só pode ser...
E levou a seta do "rato" à terceira ameia a contar da esquerda e fez "clique" duas vezes... e logo se abriu um quadrado no cenário. Todos batemos palmas.

Escreva a nova palavra-chave e carregue na tecla de execução.
(...)

Rapidamente, escreveu a palavra "Benfica" e carregou na tecla de execução.
De repente, o monitor ficou todo negro, depois ficou azul e começou a aparecer um texto em letras brancas:
Assalto à sede do Banco Sequeira Pinto no Porto. Por favor, entregar COMA MAIOR URGÊNCIA estes dados à Polícia Judiciária. Os dados foram-me confiados pelo agente Luís Ferreira antes de ser alvejado pelos assaltantes.
O Tio João soltou um longo assobio - longo mas um bocado fanhoso, porque não sabe assobiar muito bem. E a seguir apareceu uma palavra: Gás. E depois uma série de números e letras, que me pareceram fórmulas químicas e que eu não entendi. E a seguir vinha uma lista de nomes de pessoas. Eram todos nomes de homens, uns portugueses e outros estrangeiros. No fim, havia uma frase: Para sair, carregue nas teclas ALT+S.
Nós estávamos todos calados, com os olhos fixos no monitor, como se estivessem hipnotizados. Passado um momento, o Tio João murmurou:
- Então, era isto. A fórmula do gás desconhecido que adormeceu toda a gente no Banco e os nomes dos membros da quadrilha.
E eu acrescentei: - O tal agente Luís Ferreira era o amigo do Sr. Garcia. Com certeza, antes de ser abatido conseguiu entregar-lhe esta informação...
- É isso mesmo, Carlos. Por uma razão que ainda desconhecemos mas que não é difícil de adivinhar, esse agente entregou ao seu amigo Garcia os dados que permitem deitar a mão aos bandidos. Muito provavelmente, como estava infiltrado na quadrilha, o que aconteceu foi que os outros, a certa altura, descobriram que ele não era um seu "camarada" e sim um polícia disfarçado e então...
(...)
Calou-se de repente e levantou-se.
- Mas estou para aqui a falar e o tempo urge. É preciso avisar a Judiciária. Vou telefonar para Lisboa.

João Aguiar, O Jogo Misterioso



Notas:
murmurou: disse em voz baixa (outros verbos caracterizadores do discurso directo: dizer, responder, segredar, retorquir, inquirir, gritar, berrar, observar...).
ameia: abertura no alto da muralha de uma fortificação com o objectivo de avistar o inimigo.
monitor: ecrã.
fanhoso: roufenho; que fala como se tivesse o nariz tapado.
hipnotizados: sem vontade própria.
urge: requer pressa; aperta.


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.
1.1. O nome do narrador é:
a. Carlos
b. Álvaro
c. Luís Ferreira

1.2. Ao todo, as personagens são:
a. Três
b. Cinco
c. em número indeterminado

2. Faz o levantamento das palavras ou expressões que te permitem saber que as personagens estão a jogar um jogo num computador

3. O que se passou de extraordinário no jogo?

4. Indica quais as personagens intervenientes na acção do texto.

5. O que aconteceu ao agente infiltrado?

6. Arquitecta uma explicação que relacione o Sr Garcia com o jogo que foi parar às mãos do tio João e dos sobrinhos.

II

Com base no excerto analisado, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a seguinte afirmação:

O agente Ferreira e o seu amigo Garcia foram bastante engenhosos.



20.1.09

Da minha aldeia vejo





DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.


Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"



I

1. Divide o texto em duas partes lógicas, referindo o assunto de cada uma delas.

2. Refere as especificidades da aldeia, justificando com expressões textuais.

3. o que quer dizer o poeta nos versos 3 e 4? Apresenta a tua interpretação.

4. Caracteriza a cidade, de acordo com o olhar do poeta.

5. Identifica dois recursos de estilo presentes na última estrofe.
5.1.Comenta a sua expressividade.

6. Mostra em que medida este poema é representativo da poética de Alberto Caeiro.


II

Para Ricardo Reis, a vida não é triste nem alegre, é uma curta passagem.

Partindo da afirmação transcrita. expõe a tua opinião sobre características da poesia de Ricardo Reis, num texto de 80 a 120 palavras.



19.1.09

Tragédia «Castro»






CASTRO
Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura, e livre te esperar,
Em ti, e em minha inocência confiada.
Escusaras, Senhor, todo este estrondo
De armas, e Cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça.
E quando meus pecados me acusaram,
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
Reais tão piedosas: pois quiseste
Por ti vir-te informar de minhas culpas.
Conhece-mas, Senhor, como bom rei,
Como clemente, e justo, e como pai
De teus vassalos todos, a quem nunca
Negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, Senhor? que vês em quem
Em tuas mãos se mete tão segura?
Que fúria, que ira esta é, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
Te andassem tuas terras destruindo
A ferro, e fogo. Eu tremo, Senhor, tremo
De me ver ante ti, como me vejo.
Mulher, moça, inocente, serva tua,
Tão só, sem por mim ter quem me defenda.
Que a língua não se atreve, o esprito treme
Ante tua presença, porém possam
Estes moços, teus netos, defender-me.
Eles falem por mim, eles sós ouve:
Mas não te falarão, Senhor, com língua,
Que inda não podem: falam-te co as almas,
Com suas idades tenras, com seu sangue,
Que é teu, te falarão: seu desamparo
Te está pedindo vida; não lha negues.
Teus netos são, que nunca até aqui viste:
E vê-los em tal tempo, que lhes tolhes
A glória, e o prazer, que em seus espritos
Lhe está Deus revelando de te verem.

REI
Tristes foram teus fados, Dona Inês,
Triste ventura a tua.
(…)

CASTRO
Que achará vosso pai, quando vier?
Achar-vos-á tão sós, sem vossa mãe:
Não verá quem buscava: verá cheias
As casas, e paredes de meu sangue.
Ah vejo-te morrer, senhor, por mim,
Meu senhor, já que eu mouro, vive tu.
Isto te peço, e rogo: vive, vive,
Empara estes teus filhos, que tanto amas.
E pague minha morte seus desastres,
Se alguns os esperavam. Rei senhor,
Pois podes socorrer a tantos males,
Socorre-me, perdoa-me. Não posso
Falar mais. Não me mates, não me mates.
Senhor, não te mereço.

REI
Ó mulher forte!
Venceste-me, abrandaste-me. Eu te deixo.
Vive, em quanto Deus quer.

CORO
Rei piedoso,
Vive tu, pois perdoas: moura aquele,
Que sua dura tenção leva adiante.

António Ferreira, Castro


I

Inês de Castro, perante o Rei, defende-se invocando a sua situação e provando a sua inocência. Recorde a obra e faça uma análise dos excertos da tragédia, de acordo com os seguintes tópicos:
• Caracterização da Castro.
• Argumentos utilizados em sua defesa.
• As reacções do Rei e o conflito que se percebe.
• Os sentimentos manifestados pelos intervenientes.
• Os valores estéticos e estilísticos.


II

Utilize um máximo de 10 linhas para abordar, de forma sumária, as razões que conduzem Inês à morte, na tragédia Castro de António Ferreira.


III

Vários autores, como, por exemplo, Camões n'0s Lusíadas, se interessaram pelo drama de Inês de Castro e ainda há quem se inspire nele.
Elabore um texto de opinião sobre o significado e o interesse deste episódio.



Manifesto Anti-Dantas




MANIFESTO ANTI-DANTAS E POR EXTENSO
por José de Almada-Negreiros
POETA D'ORPHEU FUTURISTA e TUDO

BASTA PUM BASTA!
UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PROA É UMA CANÔA UNI SECO!
O DANTAS É UM CIGANO!
O DANTAS É MEIO CIGANO!
O DANTAS SABERÁ GRAMMÁTICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ MEDICINA, SABERÁ FAZER CEIAS P'RA CARDEAIS SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLLE FAZ!
O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ SONETOS COM LIGAS DE DUQUEZAS!
O DANTAS É UM HABILIDOSO!
O DANTAS VESTE-SE MAL!
O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!
O DANTAS ESPECÚLA E INÓCULA OS CONCUBINOS!
O DANTAS É DANTAS!
O DANTAS É JÚLIO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS FEZ UMA SORÔR MARIANNA QUE TANTO O PODIA SER COMO A SORÔR IGNEZ OU A IGNEZ DE CASTRO, OU A LEONOR TELLES, OU O MESTRE D'AVIZ, OU A DONA CONSTANÇA, OU A NAU CATHRINETA, OU A MARIA RAPAZ!
E O DANTAS TEVE CLÁQUE! E O DANTAS TEVE PALMAS! E O DANTAS AGRADE-CEU!
O DANTAS É UM CIGANÃO!
NÃO É PRECISO IR P'RÓ ROCIO P'RA SE SER UM PANTOMINEIRO, BASTA SER-SE PANTOMINEIRO!
NÃO É PRECISO DISFARÇAR-SE P'RA SE SER SALTEADOR, BASTA ESCREVER COMO DANTAS! BASTA NÃO TER ESCRÚPULOS NEM MORAES, NEM ARTÍSTICOS, NEM HUMANOS! BASTA ANDAR CO'AS MODAS, CO'AS POLÍTICAS E CO'AS OPINIÕES! BASTA USAR O TAL SORRISINHO, BASTA SER MUITO DELICADO E USAR CÔCO E OLHOS MEIGOS! BASTA SER JUDAS! BASTA SER DANTAS!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS NASCEU PARA PROVAR QUE, NEM TODOS OS QUE ESCREVEM SABEM ESCREVER!
O DANTAS É UM AUTOMATO QUE DEITA PR'A FÓRA O QUE A GENTE JÁ SABE QUE VAE SAHIR... MAS É PRECISO DEITAR DINHEIRO!
O DANTAS É UM SONETO D'ELLE-PRÓPRIO!
O DANTAS EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECCA E EM TALENTO É PIM-PAM-PUM!
O DANTAS NÚ É HORROROSO!
O DANTAS CHEIRA MAL DA BOCA!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS É O ESCARNEO DA CONSCIÊNCIA!
SE O DANTAS É PORTUGUEZ EU QUERO SER HESPANHOL!
O DANTAS É A VERGONHA DA INTELLECTUALIDADE PORTUGUEZA! O DANTAS É A META DA DECADÊNCIA MENTAL!
E AINDA HÁ QUEM NÃO CÓRE QUANDO DIZ ADMIRAR O DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM LHE ESTENDA A MÃO!
E QUEM LHE LAVE A ROUPA!
E QUEM TENHA DÓ DO DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM DUVIDE DE QUE O DANTAS NÃO VALE NADA, E QUE NÃO SABE NADA, E QUE NEM É INTELLIGENTE NEM DECENTE, NEM ZERO!
VOCÊS NÃO SABEM QUEM É A SOROR MARIANNA DO DANTAS? EU VOU-LHES CONTAR:
A PRINCÍPIO, POR CARTAZES, ENTREVISTAS E OUTRAS PREPARAÇÕES COM AS QUAES NADA TEMOS QUE VÊR, PENSEI TRATAR-SE DE SORÔR MARIANNA ALCOFORADO A PSEUDO AUCTORA D'AQUELLAS CARTAS FRANCEZAS QUE DOIS ILLUSTRES SENHORES D'ESTA TERRA NÃO DESCANÇARAM ENQUANTO NÃO ESTRAGARAM P'RA PORTUGUEZ, QUANDO SUBIU O PANNO TAMBÉM NÃO FUI CAPAZ DE DISTINGUIR PORQUE ERA NOITE MUITO ESCURA E SÓ DEPOIS DE MEIO ACTO É QUE DESCOBRI QUE ERA DE MADRUGADA PORQUE O BISPO DE BEJA DISSE QUE TINHA ESTADO À ESPERA DO NASCER DO SOL!
A MARIANNA VEM DESCENDO UMA ESCADA ESTREITÍSSIMA MAS NÃO VEM SÓ. TRAZ TAMBÉM O CHAMILLY QUE EU NÃO CHEGUEI A VER, OUVINDO APENAS UMA VOZ MUITO CONHECIDA AQUI NA BRAZILEIRA DO CHIADO. POUCO DEPOIS O BISPO DE BEJA É QUE ME DISSE QUE ELLE TRAZIA CALÇÕES VERMELHOS. A MARIANNA E O CHAMILLY ESTÃO SÒZINHOS EM SCENA, E ÀS ESCURAS DANDO A ENTENDER PERFEITAMENTE QUE FIZERAM INDECÊNCIAS NO QUARTO. DEPOIS O CHAMILLY, COMPLETAMENTE SATISFEITO DESPEDE-SE E SALTA P'LA JANELLA COM GRANDE MAGUA DA FREIRA LACRIMOSA. E ANDA HOJE OS TURISTES TEEM OCCASIÃO DE OBSERVAR AS GRADES ARROMBADAS DA JANELLA DO QUINTO ANDAR DO CONVENTO DA CONCEIÇÃO DE BEJA NA RUA DO TOURO, POR ONDE SE DIZ QUE FUGIU O CÉLEBRE CAPITÃO DE CAVALOS EM PARIS E DENTISTA EM LISBOA.
A MARIANNA QUE É HISTÉRICA COMEÇA DE CHORAR DESATINADAMENTE NOS BRAÇOS DA SUA CONFDENTE E EXCELLENTE PAU DE CABELEIRA SORÔR IGNEZ.
VEEM DESCENDO P'LA DITA ESTREITÍSSIMA ESCALA (sic), VARIAS MARIANNAS TODAS EGUAES E DE CANDEIAS ACESAS, MENOS UMA QUE USA ÓCULOS E BENGALLA E AINDA (sic) TODA CURVADA P'RÁ FRENTE O QUE QUER DIZER QUE É ABBADESSA.
E SERIA ATÉ UMA EXCELENTE PERSONIFICAÇÃO DAS BRUXAS DE GOYA SE QUANDO FALLASSE NÃO TIVESSE AQUELLA VOZ TÃO FRESCA E MAVIOSA DA TIA FELICIDADE DA VIZINHA DO LADO, E REPARANDO NOS DOIS VULTOS INTERROGA ESPAÇADAMENTE COM CADÊNCIA, AUSTERIDADE E IMMENSA FALTA DE CORDA...
QUEM ESTÁ AHI?... E DE CANDEIAS APAGADAS?
- FOI O VENTO, DIZEM AS POBRES INNOCENTES VARADAS DE TERROR... E A ABADESSA QUE SÓ É VELHA NOS ÓCULOS, NA BENGALA E EM ANDAR CURVADA P'RÁ FRENTE MANDA TOCAR A SINETA QUE É UM DÓ D'ALMA O OUVI-LA ASSIM TÃO DEBILITADA, VÃO TODAS P'RÓ CÔRO, MAS EIS QUE, DE REPENTE BATEM NO PORTÃO E SEM SE ANNUNCIAR NEM LIMPAR-SE DA POEIRA, SOBE A ESCADA E ENTRA P'LO SALÃO UM BISPO DE BEJA QUE QUANDO ERA NOVO FEZ BRÉGEIRICES CO'A MENINA DO CHOCOLATE.
AGORA COMPLETAMENTE EMENDADO REVELA À ABBADESSA QUE SABE POR CARTAS QUE HÁ HOMENS QUE VÃO ÀS MULHERES DO CONVENTO E QUE AIN-DA HÁ POUCO VIRA UM DE CAVALLOS A SALTAR P'LA JANELLA. A ABADESSA DIZ QUE EFFECTIVAMENTE JÁ HÁ TEMPOS QUE VINHA DANDO P'LA FALTA DE GALLINHAS E TÃO INNOCENTINHA, COITADA, QUE N'AQUELLES OITENTA ANNOS AINDA NÃO TEVE TEMPO P'RA DESCOBRIR A RAZÃO DA HUMANIDADE ESTAR DIVIDIDA EM HOMENS E MULHERES.
DEPOIS DE SÉRIOS EMBARAÇOS DO BISPO É QUE ELLA DEU COM O ATREVI-MENTO E MANDOU CHAMAR AS DUAS FREIRAS DE HÁ POUCO CO'AS CANDEIAS APAGADAS. N'ESTA ALTURA ESTA PEÇA POLICIAL TOMA UM PEDAÇO D'INTERESSE PORQUE O BISPO ORA PARECE UM POLÍCIA DE INVESTIGAÇÃO DISFARÇADO EM BISPO, ORA UM BISPO COM A FALTA DE DELICADEZA DE UM POLÍCIA D'INVESTIGAÇÃO, E TÃO PERSPICAZ QUE DESCOBRE EM MENOS DE MEIO MINUTO O QUE O PÚBLICO JÁ ESTÁ FARTO DE SABER - QUE A MARIANNA DORMIU CO'O NOEL. O PEOR É QUE A MARIANNA FOI À SERRA CO'AS INDISCREÇÕES DO BISPO E DESATA A BERRAR, A BERRAR COMO QUEM SE ESTAVA MARIMBANDO P'RA TUDO AQUILLO. ESTEVE MESMO MUITO PERTO DE
SE ESTRElAR COM UM PAR DE MURROS NA CORÔA DO BISPO NO QUE (SE) MOS-TROU DE UM ATREVIMENTO, DE UMA INSOLÊNCIA E DE UMA DECISÃO REFILONA QUE EXCEDEU TODAS AS EXPECTATIVAS.
OUVE-SE UMA CORNETA A TOCAR UMA MARCHA DE CLARINS E MARIANNA SENTINDO NAS PATAS DOS CAVALLOS TODA A ALMA DO SEU PREFERIDO FOI QUAL PARDALITO ENGAIOLADO A CORRER ATÉ ÀS GRADES DA JANELLA A GRITAR DESALMADAMENTE P'LO SEU NOEL. GRITA, ASSOBIA E REDOPIA E PIA E RASGA-SE E MAGÓA-SE E CAE DE COSTAS COM UM ACCIDENTE, DO QUE JÁ PREVIAMENTE TINHA AVISADO O PÚBLICO E O PANNO TAMBÉM CAE E O ESPECTADOR TAMBÉM CAE DA PACIÊNCIA ABAIXO E DESATA N'UMA DESTAS PATEADAS TÃO ENORMES E TÃO MONUMENTAES QUE TODOS OS JORNAES DE LISBOA NO DIA SEGUINTE FORAM UNÂNIMES N'AQUELLE ÊXITO TEATRAL DO DANTAS.
A ÚNICA CONSOLAÇÃO QUE OS ESPECTADORES DECENTES TIVERAM FOI A CERTEZA DE QUE AQUILLO NÃO ERA A SORÔR ALCOFORADO MAS SIM UMA MERDARIANNA ALDANTASCUFURADO QUE TINHA CHELIQUES E EXAGEROS SEXUAES.
CONTINUE O SENHOR DANTAS A ESCREVER ASSIM QUE HÁ-DE GANHAR MUITO CO'O ALCUFURADO E HÁ-DE VER, QUE AINDA APANHA UMA ESTÁTUA DE PRATA POR UM OURIVES DO PORTO, E UMA EXPOSIÇÃO DAS MAQUETES P'RÓ SEU MONUMENTO ERECTO POR SUBSCRIÇAO NACIONAL DO SÉCULO A FAVOR DOS FERIDOS DA GUERRA, E A PRAÇA DE CAMÕES MUDADA EM PRAÇA DO DR. JULIO DANTAS, E COM FESTAS DA CIDADE P'LOS ANNIVERSÁRIOS, E SABONETES EM CONTA «JULIO DANTAS» E PASTAS DANTAS P'RÓS DENTES, E GRAXA DANTAS P'RÁS BOTAS, E NIVEINA DANTAS, E COMPRIMIDOS DANTAS E AUTOCLISMOS
DANTAS E DANTAS, DANTAS, DANTAS, DANTAS... E LIMONADAS DANTAS - MAGNESIA.
E FIQUE SABENDO O DANTAS QUE SE UM DIA HOUVER JUSTIÇA EM PORTUGAL TODO O MUNDO SABERÁ QUE O AUTOR DOS LUZÍADAS É O DANTAS QUE N'UM RASGO MEMORÁVEL DE MODÉSTIA SÓ CONSENTIU A GLÓRIA DO SEU PSEUDÓNIMO CAMÕES.
E FIQUE SABENDO O DANTAS QUE SE TODOS FÔSSEM COMO EU, HAVERIA TAES MUNIÇÕES DE MANGUITOS QUE LEVARIAM DOIS SÉCULOS A GASTAR.
MAS JUYGAES QUE N'ISTO SE RESUME A LITTERATURA PORTUGUEZA? NÃÓ! MIL VEZES NÃO!
TEMOS, ALÉM D'ISTO O CHIANCA QUE JÁ FEZ RIMAS P'RA ALUBARROTA QUE DEIXOU DE SER A DERROTA DOS CASTELHANOS P'RA SER A DERROTA DO CHIANCA.
E AS PINOQUICES DE VASCO MENDONÇA ALVES PASSADAS NO TEMPO DA AVÔSINHA! E AS INFELICIDADES DE RAMADA CURTO! E O TALENTO INSÓLITO DE URBANO RODRIGUES! E AS GAITADAS DO BRUN! E AS TRADUCÇÕES SÓ P'RA HOMEM (D) O ILLUSTRÍSSIMO EXCELENTÍSSIMO SENHOR MELLO BARRETO! E O FREI MATTA NUNES MÔXO! E A IGNEZ SYPHILITICA DO FAUSTINO! E AS IMBECILIDADES DO SOUSA COSTA! E MAIS PEDANTICES DO DANTAS! E ALBERTO SOUSA, O DANTAS DO DESENHO! E OS JORNALISTAS DO SECULO E DA CAPITAL E DO NOTICIAS E DO PAIZ E DO DIA E DA NAÇÃO E DA REPUBUCA E DA LUCTA E DE TODOS, TODOS OS JORNAES! E OS ACTORES DE TODOS OS THEATROS! E TODOS OS PINTORES DAS BELLAS ARTES E TODOS OS ARTISTAS DE PORTUGAL QUE EU NÃO GOSTO. E OS DA AGUIA DO PORTO E OS PALERMAS DE COIMBRA! E A ESTUPIDEZ DO OLDEMIRO CESAR E O DOUTOR JOSÉ DE FIGUEIREDO AMANTE DO MUSEU E AH OH OS SOUSA PINTO HU HI E OS BURROS DE CACILHAS E OS MENÚS DO ALFREDO GUISADO! E (O) RACHITICO ALBINO FORJAZ SAMPAIO, CRITICO DA LUCTA A QUEM O FIALHO COM IMMENSA PIADA INTRUJOU DE QUE TINHA TALENTO! E TODOS OS QUE SÃO POLITICOS E ARTISTAS! E AS EXPOSIÇÕES ANNUAES DAS BELLAS ARTE(S)! E TODAS AS MAQUETAS DO MARQUEZ DE POMBAL! E AS DE CAMÕES EM PARIS! E OS VAZ, OS ESTRELLA, OS LACERDA, OS LUCENA, OS ROSA, OS COSTA, OS ALMEIDA, OS CAMACHO, OS CUNHA, OS CARNEIRO, OS BARROS, OS SILVA, OS GOMES, OS VELHOS, OS IDIOTAS, OS ARRANJISTAS, OS IMPOTENTES, OS SCELERADOS, OS VENDIDOS, OS IMBECIS, OS PÁRIAS, OS ASCETAS, OS LOPES, OS PEIXOTOS, OS MOTTA, OS GODINHO, OS TEIXEIRA, OS DIABO QUE OS LEVE, OS CONSTANTINO, OS GRAVE, OS MANTUA, OS BAHIA, OS MENDONÇA, OS BRAZÃO, OS MATTOS, OS ALVES, OS ALBUQUERQUE, OS SOUSAS E TODOS OS DANTAS QUE HOUVER POR AHI!!!!!!
E AS CONVICÇÕES URGENTES DO HOMEM CHRISTO PAE E AS CONVICÇÕES CATITAS DO HOMEM CHRISTO FILHO!
E OS CONCERTOS DO BLANCH! E AS ESTATUAS AO LEME, AO EÇA E AO DESPER-TAR E A TUDO! E TUDO O QUE SEJA ARTE EM PORTUGAL! E TUDO! TUDO POR CAUSA DO DANTAS!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA - SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!

José de Almada-Negreiros

POETA D'ORPHEU
FUTURISTA
e
TUDO




I

1. O texto transcrito da obra de Almada Negreiros, satiriza o escritor Júlio Dantas.
1.1. Identifique os assuntos que surgem nesta sátira.
1.2. Explicite a intenção que se percebe existir no texto.

2. Identifique os valores representados por Júlio Dantas.

3. "/"...] nos braços da sua confidente e excelente pau-de-cabeleira soror Inês."
3.1. Explique o significado da expressão "excelente pau-de-cabeleira", tendo em conta o con-texto em que é produzida.
3.2. Recolha do texto exemplos de ironia e de caricatura que tornam a sátira mais incisiva e provocadora.

4. Explicite os elementos constitutivos da argumentação, presentes nos excertos.

5. Faça uma análise da expressividade do vocabulário e do valor da pontuação.


II

No Ultímatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, Almada Negreiros afirma:
«Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva.»
Num texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras, refira-se às figuras de vanguarda que surgem com as gerações do Orpheu e da Presença.








16.1.09

Autobiografia


Meu pai era a maior bondade que há no mundo. Mas não queria parecer bondoso para não parecer fraco, ele que era também um forte e o maior trabalhador que tenho conhecido. Nunca deu uma esmola diante de gente; mas nunca recusou uma esmola (quantas vezes maior que as suas posses !) estando sozinho; e os pobres, os abonados e os ricos todos lhe deviam, e o seu maior prazer era obsequiar, e a sua maior alegria era ser útil a alguém. Toda a gente morria por ele, até as crianças, e ainda hoje se diz lá na minha terra nalguma grande dificuldade ou precisão, porque era também muito inteligente e a tudo acudia: - «Se fosse vivo o Sr. João Trindade...»
Mas ele está inteiro naquela frase com que acolheu o meu nascimento e que a minha tia repetia a rir: - «Olha a grande coisa !» - porque era doido pelos filhos sem o querer dizer, e a esse tempo tinha três vivos: duas meninas e um menino, e já lhe tinha morrido uma filhinha, e depois de mim ainda veio um menino: - todos filhos da mesma mãe, com quem se tinha casado, sendo rapaz, na cidade do Porto, e que diz todo o povo que era uma santa e de quem todos se lembram ainda hoje, e por quem choram ainda hoje olhos de pobres, e já morreu há trinta e dois anos...
De minha mãe eu pouco me lembro com a memória; mas eu quando quero muito a uma pessoa pouco me lembro dela senão com o coração – e não sou capaz de me representar mentalmente a sua figura, ainda que a veja a toda a hora.
Só me lembro de que me bateu uma vez, e que ao bater-me estava a chorar e a rir-se e a beijar-me ao mesmo tempo. Eu tinha-lhe aparecido em casa sem camisa, por a ter tirado atrás de uma parede, no campo, para a dar a uma criança da minha idade que a não tinha, e fazia muito frio porque era Inverno.

Trindade Coelho, Os Meus Amores



1. Depois de teres lido o texto com muito atenção, encontra um título adequado para ele e justifica a razão da tua escolha.

2. «Não queria parecer bondoso para não parecer fraco». Que te parece a forma de proceder do pai do autor ?

3. «Se fosse vivo o Sr. João Trindade...». Que diriam as pessoas para concluir a frase, se o quisessem fazer ? Explica a tua resposta, com fundamento no texto.

4. «Toda a gente morria por ele». Explica o sentido destas palavras.

5. «De minha mãe eu pouco me lembro com a memória» Tenta explicar como será lembrar-se de alguém com o coração.

6. «Ao bater-me estava a chorar e a rir-se e a beijar-me ao mesmo tempo». Explica este comportamento da mãe do autor.

7. Coloca o acento gráfico onde achares que é necessário.
HALITO PERU PAU JUIZ NUVEM
ANEL FACIL ANEIS JURI TINHAMOS
RAIZ ANGULO DEVIAMOS FACILMENTE HINO
ALGUEM PAISES DISTRAIDO AMENDOA LAVADO


8. Passa para o discurso indirecto:
- No próximo Natal irei a casa dos meus avós, pois ontem pensei na possibilidade de lhes oferecer estas fotografias que aqui tenho.

9. Classifica, quanto ao processo de formação, as palavras seguintes:
a) Surdo-mudo:
b) Aeronave:
c) Pneu:
d) Desgraça:
e) Planalto:





Silka, Ilse Losa

O Visitante da Noite



Numa daquelas casinhas, ali em baixo na praia, vivia Silka com os pais e os dois irmãos. Era uma rapariga tão linda que, pela manhã, quando saía de casa, o céu e o mar se doiravam de satisfação e os vizinhos assomavam à janela para a verem, pois diz-se por estas bandas que “encher, pela manhã, os olhos de beleza é começar o dia com uma festa.”
Os pais tinham grande vaidade na filha. Além de ser bonita, trabalhava com o afinco da formiga e cantava com a doçura do rouxinol. Diziam eles que só um príncipe ou um rapaz famoso da cidade seriam dignos dela e que não consentiriam nunca que ela casasse com um dos pobretões da aldeia. Silka não ligava a tais conversas. Despreocupada, trabalhava, cantava melodias alegres, banhava-se na água do mar e estendia-se ao sol.
Ora, certa tarde de Verão, vinha ela de uma aldeia das proximidades carregando um cesto de fruta, sentiu-se atraída pela frescura do mar. Despiu-se por detrás de um rochedo, saltou para a água e chapinhou alegremente nas ondas que vinham lentas e brandas como uma carícia de amor. Assim se deixou ficar um bom bocado e só quando o sol baixou no horizonte se tornou a vestir e regressou a casa.
Nessa mesma noite, no seu quarto, saltou-lhe da blusa um estranho bicho, meio cobra, meio peixe, dum azul transparente como o das pedras- marinhas. Assustada, correu para a porta, mas nisto ouviu uma voz quente a suplicar-lhe:
- Não fujas, bela Silka. Eu não te quero mal, acredita. Não vês que sou insignificante e indefeso?
Ainda desconfiada, Silka aproximou-se de novo e olhou de soslaio para tão exótica criatura do mar, que então lhe pediu:
- Toca-me, Silka.
-Não, isso não! - exclamou a rapariga.
-Não sou frio nem escorregadio. Não tenhas medo. -voltou aquela voz quente.
Um tanto por piedade, um tanto por curiosidade, ela passou-lhe rapidamente a mão sobre as escamas azuis e, para surpresa sua, sentiu-as cálidas e macias como a pele dum ser humano.
-Pobrezinho - disse - como aconteceu perderes-te na minha blusa?
-Não perdi - confessou ele e ouviu-se-lhe um riso. Estava perto de ti quando te banhaste no mar. Vi-te tão linda, mais linda que o próprio mar, que senti desejo de ficar junto de ti. Saltei para terra e escondi-me na toalha que tinhas deixado com as tuas roupas ao pé do rochedo. Tu própria trouxeste-me contigo.

Ilse Losa, Silka


I

1.Deste texto, indica o autor e a obra.

2.Classifica o narrador desta história. Justifica a tua resposta.

3. Indica as personagens intervenientes na acção.

4.“... vivia Silka com os pais ...”
Constrói uma frase em que uses a palavra homógrafa de “pais”.

5.Localiza a acção no tempo.

6.A acção desta história desenrola-se em dois espaços diferentes. Indica-os e retira do texto as expressões que te permitem chegar a essa conclusão.

7.Baseando-te nas informações dadas pelo narrador, caracteriza física e psicologicamente Silka.

8." ... trabalhava com o afinco da formiga ..."
8.1. Explica o sentido desta expressão.

9.De que forma Silka ocupava o seu tempo?

10.“ ... saltou-lhe da blusa um bicho estranho...”
10.1. Indica o tempo e o modo da forma verbal.
10.2. Reescreve a frase no pretérito mais-que-perfeito.
10.3. Por que razão aquele bicho era estranho?

11. Como reagiu Silka logo que o viu?

12. Nessa mesma noite, no seu quarto, Silka viu um bicho estranho.
12.1. Faz a análise sintáctica da frase.
12.2. Indica a subclasse do verbo da frase.

13. “ -Não fujas, bela Silka. Eu não te quero mal, acredita. Não vês que sou insignificante e indefeso? ”
13.1. Identifica o tipo de frase acima sublinhada.
13.2. Estas frases reproduzem a fala do bicho. Passa-as para o discurso indirecto.

14. Este bicho produziu em Silka sentimentos variados. Ordena-os de 1 a 4 de acordo com a sua sequência
Desconfiança
Medo
Espanto
Pena e curiosidade

15. Identifica os recursos de estilo presentes nas seguintes frases:
1. “... o céu e o mar se doiravam de satisfação...”
2. “...nas ondas que vinham ... como uma carícia de amor...”
3. “... sentiu-as cálidas e macias...”

16. Explica como conseguiu o bicho chegar ao quarto de Silka.

17. Qual a razão que o levou a tomar tal atitude?

18.Do primeiro parágrafo do texto, retira:
um nome próprio
um determinante numeral cardinal
uma preposição simples
um adjectivo

19. Classifica as seguintes palavras quanto ao processo de formação:
pedras- marinhas
despreocupada

20. A história que acabaste de ler é uma narrativa aberta. Vais transformá-la numa narrativa fechada, imaginando o que terá acontecido àquele estranho bicho.

11.1.09

A Galinha



I

Recorda a leitura do conto de Vergílio Ferreira, A Galinha.

1. Aquilo que começou por uma pequena zanga acabou quase numa “guerra civil”.
1.1 Comprova esta afirmação com passagens do texto.

2. A história narrada começa com a compra de uma galinha de barro e termina com a des-truição de outra.
2.1 Que período de tempo decorre entre estes dois momentos?
2.2 Transcreve as marcas temporais.

3. Observa os elementos indicadores do espaço em que decorre a acção.
3.1 Transcreve algumas expressões que melhor o identifiquem.
3.2 Identifica o espaço social.

4. Classifica o narrador deste conto, quanto à sua presença, ciência e posição.
4.1 Por vezes o narrador assume a posição de um espectador que se diverte com o ridículo da cena. Identifica passos do texto que comprovem esta situação.
4.2 Outras vezes, é um espectador que toma partido. Aponta personagens que o narrador apoia.

5. A mãe e a tia do narrador são as duas personagens femininas principais.
5.1 Com base no texto, faz o seu retrato psicológico.
5.2 Quanto aos maridos, que assistiram à compra das galinhas, estes não intervieram, se bem que por motivos diferentes. Tal atitude que traços de carácter revelam?

10.1.09

O Mistério do Falcão Azul

Perseguição

À noite, e principalmente aos sábados, a feira era, se possível, ainda mais animada. Parecia um mar de gente.
A Maria David e o Gabriel não perdiam uma oportunidade de se divertir.
Então junto dos carrosséis, a maré galgava o areal pedregoso do recinto, ultrapassava o estreito dique onde muitas mãos trocavam bilhetes coloridos por. notas desbotadas, e ia desaguar sobre estribos, pescoços de girafas esguias, jubas de leões deslavados, bossas de camelos e carrinhos de choque, e aviões e cadeiras estonteadas.
O difícil estava na escolha. Contadas e recontadas as notas, havia que fazer opções.
- Eu vou dar só mais uma voltinha na minha zebra. Anda daí - exclamou a Maria David muito espevitada.
-Querias mais nada?! Eu vou mas é para os carrinhos! - repontou o Gabriel.
-Então vai tu. De carrinhos estou farta!
A confusão era total na pista dos automóveis: não havia regras, sinais, semáforos, stops, nem polícias a apitar. Os carros todos num molho entrechocavam-se radiantes pelos encontros imediatos e muito esperados!
O nº7, pilotado pelo Gabriel, não parava de cumprimentar as traseiros do nº10, tripulado por um rabo-de-cavalo muito sedutor. Mas atravessara-se obliquamente o nº5, interrompendo um diálogo que se esboçava com algum sentido.
- Ó homem, sai-me da frente! Não me atrapalhes a manobra!
O sorriso mau do piloto do nº5 alargou-se, com uma presença cada vez mais irritante.
O nº10 e o seu rabo-de-cavalo iam-se distanciando, e o Gabriel não compreendia aquela teimosia colada ao carro, sempre com toques hábeis e muito inoportunos que o faziam perder o norte e o rumo.
Outra viagem, outra corrida.
A última ficha entrou, numa raiva de se querer aproximar e segredar algumas palavrinhas. Mas o nº10 tinha mudado de dono: agora em vez do rabo-de-cavalo, um bigode farfalhudo.
A perseguição já não tinha graça nenhuma.

Carlos Correia, Maria Alberta Menéres, Natércia Rocha, O Mistério do falcão Azul




I

1. Do texto indica os autores e a obra.

2. Esta história decorre num determinado espaço. Diz que espaço é esse.

3. Localiza também esta narrativa no tempo.

4. Classifica o tipo de narrador do texto. Transcreve uma frase que justifique a tua resposta.

5. «Parecia um mar de gente.» Explica, por palavras tuas, o sentido da expressão.

6. Identifica a personagem principal do texto.

7. «A Maria David e o Gabriel não perdiam uma oportunidade de se divertirem».
7.1. Indica três dos divertimentos que ambos tinham à sua disposição.

8. «O difícil estava na escolha»
8.1. Por que razão era difícil a escolha?
8.2. Que divertimento escolheu cada um dos amigos?
8.3. Se tivesses também que escolher um divertimento, qual seria? Justifica a tua resposta.

9. «A confusão era total na pista dos automóveis.»

10. «O nº7, pilotado pelo Gabriel, não parava de cumprimentar as traseiras do nº10...»
10.1. O Gabriel estava muito animado. Por que razão?

11. «Ó homem, sai-me da frente! Não me atrapalhes a manobra!»
11.1. Identifica o emissor desta frase.
11.2. Por que razão terá ele dito estas frases?
11.3. Estas frases estão no discurso directo. Passa-as para o discurso indirecto.

12. Que obstáculo lhe apareceu?

13. «A perseguição já não tinha graça nenhuma.»
A perseguição deixou de ter graça. Porquê?

14. O narrador desta história recorreu a diferentes recursos expressivos e a diferentes sensações para descrever a feira. Quais?

15. A Maria David deu uma ficha ao Gabriel
1. Faz a análise sintáctica da frase.
2. Reescreve a frase, empregando o verbo no futuro do indicativo.

16. Achas que o título está relacionado com o texto? Justifica a tua resposta.

9.1.09

Livre


Não há machado que corte
A raiz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte

Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida
Sem razão seria a vida
Sem razão

Nada apaga a luz que vive
Num amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre

Carlos Oliveira


1. Que sentido conotativo podem ter as expressões:
a) “machado”
b) “vento”

2. Diz, justificando, qual te parece ser o assunto central do poema: a morte, o amor, a liberdade, a natureza ?

3. Repara agora na estrutura formal do poema.
3.1 Apresenta o esquema rimático.
3.1 Classifica a rima.
3.3 Indica uma rima consoante.
3.4 E uma rima toante.
3.5 Indica uma rima rica e uma pobre.

4. Repara agora na estrutura métrica do poema.
4.1 Faz a escanção do 3º verso.
4.2 Procura uma elisão e transcreve-a.
4.3 Faz o mesmo relativamente a uma crase.
4.4 Classifica quanto ao número de sílabas:
O primeiro verso da terceira estrofe.
O quarto verso da segunda estrofe.

5. Analisa morfologicamente as palavras (entre parênteses o número dos versos):
não (1)
que (1)
para (3)
amor (10)
porque (11)

II

Faz uma composição curta em verso, de acordo com as seguintes instruções:
Pelo menos uma quadra; versos livres; rima externa cruzada; uma comparação, pelo menos. Podes escolher o tema.



7.1.09

O Colar


As afirmações que se seguem podem ser verdadeiras ou falsas. Assinala, à frente de cada uma, com V as verdadeiras e com F as falsas.


1. A acção do texto dramático passa-se em Itália.

2. A obra de teatro divide-se em apenas três actos.

3. Vanina é uma jovem rica e independente.

4. Bonina é uma dama que vai a todo o lado, acompanhando Vanina.

5. No primeiro acto, Vanina afirma que irá passear até à Praça de S. Marcos.

6. O nome “Geraldina” identifica-se perfeitamente com o dinamismo da personagem.

7. Vanina apaixonou-se por Pietro, depois deste lhe ter oferecido uma rosa em casa de Giovanna.

8. O casamento de Vanina com o Comendador surge como solução para os problemas financeiros da personagem.

9. No contexto da peça, a frase de Vanina “O mundo é um jogo trocado” aplica-se à situação de Vanina, Pietro e o Comendador.

10. Pietro é considerado um galanteador.

11. À noite, Vanina foi alvo de uma serenata cantada pelo Comendador, a mando de Pietro.


12. Vanina aparece à janela com o colar oferecido por Pietro, para o iludir.

13. No jantar oferecido pelo Comendador, Vanina comporta-se como uma dama sensata, agradando ao seu noivo.

14. A condessa Zetti é de opinião de que o casamento do sobrinho é um teatro de ilusões e desilusões, de iludidos e desiludidos.

15. É visível a preferência da condessa por Geraldina para casar com o seu sobrinho.

16. Entre Vanina e o Comendador é notória uma grande empatia, comungam de opiniões semelhantes.

17. No final do jantar, o Comendador retira-se por se sentir muito cansado.

18. Vanina e Pietro encontram-se no jardim, depois do jantar, e beijam-se.

19. O Comendador envia uma carta a Vanina dizendo-lhe que encontrou alguém por quem sente grande afinidade e que a deixa livre para o amor.

20. Quando Vanina se sabe livre, fala em casamento a Pietro e ele concorda.

21. Para Pietro, Vanina é o grande amor da sua vida.

22. No final, Vanina sofre uma grande desilusão de amor.

23. Antes de sair da casa do Comendador, Vanina despede-se da condessa.

24. Do diálogo entre a condessa e Lord Byron depreende-se que ambos já sofreram por amor.

25. O texto termina com uma música de Lord Byron.


A Fuga de Wang-Fô



— Perguntas-me que foi que me fizeste, velho Wang-Fõ? — tornu o Imperador, inclinando o pes-coço delicado para o velho que o escutava. — Vou-to dizer. Mas como o veneno dos outros só pode penetrar em nós pelas nossas nove aberturas, para te conduzir à presença dos teus erros tenho de passear-te pelos corredores da minha memória e contar-te toda a minha vida. Meu pai reunira uma colecção das tuas pinturas no aposento mais secreto do palácio, pois entendia que as personagens dos quadros devem ser subtraídas à vista dos profanos, na presença dos quais não podem baixar os olhos. Foi nestas salas que fui criado, velho Wang-Fô, pois haviam organizado a solidão à minha volta para me permitirem crescer nela. Para evitar à minha candura o contágio das almas humanas, haviam afastado de mim a agitada torrente dos meus futuros súbditos, e não era permitido a ninguém passar à soleira da minha porta, não fosse a sombra desse homem ou dessa mulher estender-se até mim. Os poucos velhos servos que me haviam destinado mostravam-se o menos possível; as horas giravam em círculo; as cores das tuas pinturas acendiam-se com a alvorada e empalideciam ao crepúsculo. De noite, quando não conseguia dormir, olhava-as e, durante cerca de dez anos, olhei-as todas as noites. De dia, sentado num tapete cujo desenho conhecia de cor, repousando as minhas mãos vazias nos meus joelhos de seda amarela, sonhava com as alegrias que o futuro me traria. Imaginava o mundo, com o país de Han ao meio, semelhante à cava e monótona planície da mão sulcada pelas linhas fatais dos Cinco Rios. A toda a volta, o mar onde nascem os monstros e, mais longe ainda, as montanhas que sustentam o céu. E para me ajudar a 25 imaginar todas estas coisas, servia-me das tuas pinturas. Levaste-me a crer que o mar era semelhante à imensa toalha de água desdobrada nas tuas telas, tão azul que pedra que nele caísse só em safira se podia tornar, que as mulheres se abriam e fechavam como flores, iguais às criaturas que avan-çam, levadas pelo vento, nas áleas dos teus jardins, e que os jovens 30 guerreiros de corpo esguio postados nas fortalezas das fronteiras eram flechas capazes de trespassar corações. Aos dezas-seis anos vi abrirem-se as portas que me separavam do mundo: subi ao terraço do palácio para olhar as nuvens, mas eram menos belas do que as dos teus crepúsculos.

In A Salvação de Wang- Fô, de Marguerite Yourcenar



I

1. Selecciona para cada palavra, atendendo ao contexto em que ocorre, um significado equivalente.

1.1. Subtraídas
a) diminuídas
b) visíveis
c) levantadas
d) afastadas

1.2. Candura
a) tranquilidade
b) pureza
c) simplicidade
d) beleza

1.3. Cava
a) funda
b) longa
c) cultivada
d) deserta

1.4. Sulcada
a) cortada
b) escondida
c) banhada
d) envolvida

1.5. Áleas
a) árvores
b) penedos
c) casas
d) fontes

1.6. Postados (
a) móveis
b) fixos
c) colocados
d) calados


II

Responde, agora, às seguintes questões.

1. O texto que acabaste de ler é um excerto do discurso do Imperador, personagem do conto A Salvação de Wang-Fô, de Marguerite Yourcenar.
1.1. O que conta ele neste discurso?
1.2. Por que motivo o faz?

2. O pai do Imperador reunira ao longo da sua vida uma colecção.
2. l. Em que consistia essa colecção?
2.2. Que relação existe entre a colecção e Wang-Fô?
2.3. Qual o local escolhido para a guardar?
2.4. Explica a razão dessa escolha.

3. A juventude do imperador foi marcada pela solidão. Transcreve uma frase do texto que confirme esta afirmação.

4. Explica por palavras tuas a seguinte frase:
As cores das tuas pinturas acendiam-se com a alvorada e empalideciam ao crepúsculo.

5. Durante cerca de dez anos o que fazia o Imperador todas as noites?

6. Como imaginava ele o mundo?

7. Qual a influência de Wang-Fô para a visão que o Imperador tinha do mundo?

8. Aos dezasseis anos o Imperador saiu, finalmente, das salas onde cresceu. Atendendo ao conhe-cimento que tens acerca do conto indica:
a) O que é que mudou na sua visão acerca do mundo.
b) De que forma esta mudança contribuiu para o final da história.


III

1. Atenta na seguinte frase.
Imaginava o mundo, com o país de Han ao meio, semelhante à cava e monótona planície da mão sulcada pelas linhas fatais dos Cinco Rios.
1.1. Identifica quais os adjectivos nela presentes.
1.2. Refere quais os que são uniformes quanto ao género.
1.3. Diz qual o nome que cada um dos adjectivos caracteriza.

2. Indica em que grau se encontram os adjectivos secreto e belas nas frases que se seguem.
a) Meu pai reunira uma colecção das tuas pinturas no aposento mais secreto do palácio.
b) Subi ao terraço do palácio para olhar as nuvens mas eram menos belas do que as dos teus cre-púsculos.

3. Redige uma frase em que o adjectivo antigo apareça no feminino plural, no grau superlativo absoluto sintético.

4. Coloca os verbos entre parênteses no Pretérito Perfeito do Indicativo.
Ling ______ (nascer) no seio de uma família rica e _____ (ser) educado para viver sem preocu-pações. Quando _________ (encontrar) Wang-Fô, as coisas ________ (mudar). A sua vida nunca mais _______ (voltar) a ser a mesma.

5. Coloca os verbos entre parênteses no Pretérito Imperfeito do Indicativo.
_______ (estar) um lindo dia. Os pássaros __________ (cantar) e as flores ________ (ter) uma cor especial. Wang-Fô _______ (pintar) a natureza tal
como a ________ (ver).

6. Coloca os verbos entre parênteses no Pretérito Mais-que-Perfeito do Indicativo.
Wang-Fô ________ (ser) o pintor mais famoso do seu tempo. ________ (nascer) com um dom que mais ninguém possuía e __________ (pintar) os quadros mais belos do mundo. Este homem __________ (deixar) a sua família e __________ (dedicar-se) apenas à sua arte.


IV


Num texto bem estruturado e com correcção gramatical, inventa outro final para o conto A Salvação de Wang- Fô, de Marguerite Yourcenar.