28.12.09

Telefascinatus - O monstro da televisão




Apesar da sua aparência lerda, o Telefascinatus é uma criatura poderosa. Ele esconde-se por entre as almofadas do sofá, nas cadeiras e perto dos bancos e, logo que te sentas, entrega-te o telecomando. Ele obriga-te a ligar a televisão e a ficar especado a olhar para ela. Foste apanhado! O Telefascinatus mantém-te em frente do ecrã durante horas a fio a devorar programa atrás de programa. Sob a sua influência, não conseguirás fazer nada, porque ele impede-te de estudar ou de brincar. Apesar de os cientistas estudarem há anos as diabruras deste monstro, ninguém descobriu, até agora, um antídoto. Uma das defesas mais eficientes é também a mais simples: desligar a televisão assim que o programa terminar.

Stanislav Marijanovic, Monstros lá de casa


1. De que assunto trata este texto?

2. Explica por palavras tuas as expressões:
a) aparência lerda
b) criatura poderosa
c) ficar especado a olhar
d) devorar programa atrás de programa

3. Onde se esconde este monstro?

4. Qual é a defesa mais eficiente que deves usar para o monstro não te atacar?

5.
5.1. Costumas ser atacado por este monstro muitas vezes?
5.2. Em que dias da semana e porquê?
5.3. O que é que ele te impede de fazer?

6.
6.1. Que programas de televisão vês durante a semana?
6.2. E ao fim-de-semana?

7. Dá a tua opinião acerca da televisão apontando as principais vantagens e desvantagens.



25.12.09

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom. 

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, 

de falar e de ouvir com mavioso tom, 

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças. 



É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem, 

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, 

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, 

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria. 



Comove tanta fraternidade universal. 

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos, 

como se de anjos fosse, 

numa toada doce, 

de violas e banjos, 

entoa gravemente um hino ao Criador. 

E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor 
anuncia o melhor dos detergentes. 



De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético. 

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? 

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.) 

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas. 

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante. 

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas 

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates, 

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica, 

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates, 

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica. 



Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito, 

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores. 

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito, 

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores. 

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento. 

Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar. 

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento 

e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar. 



Mas a maior felicidade é a da gente pequena. 

Naquela véspera santa 

a sua comoção é tanta, tanta, tanta, 

que nem dorme serena. 



Cada menino 

abre um olhinho 

na noite incerta 

para ver se a aurora 

já está desperta. 

De manhãzinha 

salta da cama, 

corre à cozinha 

mesmo em pijama. 



Ah!!!!!!!!!! 



Na branda macieza 

da matutina luz 

aguarda~o a surpresa 

do Menino Jesus. 



Jesus, 

doce Jesus, 

o mesmo que nasceu na manjedoura, 

veio pôr no sapatinho 

do Pedrinho 

uma metralhadora. 



Que alegria 

reinou naquela casa em todo o santo dia! 

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas, 

fuzilava tudo com devastadoras rajadas 

e obrigava as criadas 

a caírem no chão como se fossem mortas: 

tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá. 



Já está! 

E fazia-as erguer para de novo matá-las. 

E até mesmo a mamã e o sisudo papá 

fingiam 

que caíam 

crivados de balas. 



Dia de Confraternização Universal, 

dia de Amor, de Paz, de Felicidade, 

de Sonhos e Venturas. 

É dia de Natal. 

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade. 

Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão



1. «Hoje é dia de ser bom» é o 1º verso deste poema, que encerra imediatamente uma das suas ideias centrais.
1.1 Identifique essa ideia central.
1.2 Faça o levantamento de outros versos que se relacionem com a mesma ideia.

2. «É dia de pensar nos outros -coitadinhos -nos que padecem» (v. 5). O poeta coloca-se aparentemente do lado oposto ao dos que padecem. Na sequência desta ideia
2.1 Comente a intenção do vocábulo «coitadinhos».
2.2 Comente também a sua posição no verso -entre travessões.
2.3 Refira-se ao valor do diminutivo.

3. Todo o poema está repassado de ironia, como por exemplo no verso 6: «de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria».
3.1 Explique em que consiste a ironia do verso.
3.2 Escolha e transcreva outros versos que também se encontrem carregados de ironia.
3.3 Apresente as razões da sua escolha.

4. O poema debruça-se sobre problemas de solidariedade universal.
4.1 Identifique a opinião do poeta sobre o entendimento universal
4.2 e sobre a sinceridade com que os homens vivem certos momentos.
4.3 Dê razões para as suas respostas e apoie-as com versos do poema.

5. «E mal se extinguem os clamores plangentes / a voz do locutor / anuncia o melhor dos detergentes» (vv. 15-17).
5.1 Comente o valor do contraste inesperadamente apresentado: hino ao criador -publicidade.
5.2 Poderá ver-se, no passo transcrito, uma crítica aos meios de comunicação.
5.2.1 Apresente as razões dessa crítica.

6. Atente num outro passo do poema que aponta para essa crítica:
«Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? Não seja estú-pido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético»> (vv. 20-21).
6.1 Refira-se à possibilidade ou impossibilidade desse anúncio na radiodifusão.
6.2 Identifique a intenção do poeta com a inclusão desse anúncio no poema.
6.3 Comente ainda a intenção específica do contraste de tratamento: Vossa Excelência / não seja estúpido.

7. A sociedade de consumo aparece duramente criticada na 4ª estrofe do poema.
7.1 Através do levantamento de vocábulos ou expressões, indique nessa estrofe
7.1.1 classes sociais especificamente referidas
7.1.2 O aproveitamento comercial do Natal
7.1.3 os mil artifícios que nos levam a comprar «belas coisas inúteis».
7.2 Na estrofe seguinte, observam-se os efeitos da sociedade de consumo. Refira-se-lhes.

8. Em dado passo, o poema deixa de se centrar no mundo dos adultos, para focar o da gente pequena.
8.1 Localize o passo a que nos referimos.
8.2 Indique as razões que levam o poeta a desviar-se (agora) para os pequeninos.

9. «Naquela véspera santa / a sua comoção é tanta, tanta, tanta, / que nem dorme serena.» (vv. 39-41).
9.1 Divida e classifique as orações do período transcrito.
9.2 Classifique morfologicamente o vocábulo «tanta».
9.3 Comente o valor estilístico da repetição do vocábulo.

10. A sétima estrofe do poema apresenta uma mudança de ritmo.
10.1 Indique as razões dessa total mudança de ritmo.

11. «Ah!!!!!!!!!!!» (v. 51)
11.1 Classifique morfologicamente o vocábulo.
11.2 Comente o seu valor estilístico, bem como o da pontuação utilizada.

12. Leia, com a máxima atenção, a penúltima estrofe: «Jesus [...] / crivados de balas».
12.1 De Jesus, diz o poeta que é «doce» e «o mesmo que nasceu na manjedoura».
12.1.1 Identifique a intenção que presidiu à escolha dessas expressões atribuídas a Jesus.
12.1.2 Mencione a intenção do contraste estabelecido pelo poeta entre esses atributos e o presente que o Pedrinho recebeu em nome do Menino Jesus: uma metralhadora.
12.2 Refira-se ao valor dos diminutivos em «sapatinho» (v.59) e «Pedrinho» (v.60).
12.3 Comente o contraste existente entre esses diminutivos e o vocábulo «metralhadora» (v. (1).

13. «Que alegria / reinou naquela casa em todo o santo dia!» (vv. 62-63).
13.1 Para o significante «santo» poderemos encontrar dois significados. Identifique-os.
13.2 Classifique o signo linguístico que possui um só significante e mais que um significado.

14. Transcreva, da estrofe em questão (penúltima), todos os vocábulos que pertencem ao campo lexical de «guerra}}.

15. Registe a presença de uma onomatopeia referente a esse campo lexical.

16. Verifique a existência de rima no poema.
16.1 Apresente um exemplo de
16.1.1 rima interpolada
16.1.2 rima cruzada
16.1.3 rima emparelhada.

17. A última estrofe é uma conclusão do poema que, aparentemente, parece interromper a sequência até então estabelecida.
17.1 Explique porque é apenas aparente essa interrupção.
17.2 Comente, finalmente, a intenção dessa estrofe.

18. Procure estabelecer o estrato social a que pertence o Pedrinho, com base nos elementos fornecidos pelo poema.

19.
19.1 Indique os versos que correspondem à gravura
19.2 Observe e indique a única «liberdade» que o ilustrador tomou, introduzindo determi-nado pormenor que não aparece explicitamente referido no poema.
19.3 Relacione o objectivo da gravura com a intenção do poema.

20. Em conclusão, refira-se ao valor do Natal para o poeta.



21.12.09

A forma da terra


O vento afastou as folhas da laranjeira e deixou à mostra o céu verdadeiro, lá em cima. Estava polvilhado de estrelas até ao infinito. E a formiga não tirava os olhos daquela amplidão, extasiada, murmurando:
- Era isto que a minha avó chamava o firmamento!
De repente ouviu por trás dela, mas vinda de muito longe, do alto, uma gargalhada que ficou a ribombar pelos céus fora como um trovão.
E, olhando o céu, a formiga viu uma estrela mais brilhante que as outras, que lhe disse:
- Eu sou um astro! Sou um planeta, o mais brilhante do firmamento!
- Julguei que eras uma estrela! Assim tão brilhante!
- Não, não sou. Mas eu e o Sol vivemos muito perto um do outro, somos vizinhos. Ele empresta-me a luz, à noite quando se deita, até ao outro dia de manhã, quando se levanta, para eu ficar toda a noite no meu giro.

Ricardo Alberty



I

1. O texto está escrito em prosa ou em verso?
2. Identifica o autor do texto.
3. Quais são as personagens principais do texto?
4. De que nos fala o texto?
5. Em quem pensou a formiga quando viu o céu cheio de estrelas?
6. De quem era a voz que a formiga ouviu?
7. O texto fala-nos de um astro. Quem é esse astro?
8. Em quantos parágrafos se divide o texto?
9. Explica por palavras tuas, o significado do último parágrafo.


II

1. Procura no texto palavras com acento agudo.
2. Copia do texto palavras com significado oposto a estas.
baixo - perto - cá em baixo - deitar

3. Escreve na forma negativa o primeiro período do texto.
4. Reescreve o mesmo período na forma interrogativa.
5. Indica o grupo nominal, o grupo verbal e o grupo móvel da frase:
“ Ele empresta-me a luz, à noite quando se deita”
6. Muda, na frase anterior, o grupo móvel.
7. Observa a seguinte frase e escreve o grau em que se encontra o adjectivo:
“ Sou um planeta, o mais brilhante do firmamento.”
7.1 Classifica, quanto ao grau, o adjectivo “brilhante”.
O mais brilhante
Tão brilhante como
Brilhantíssimo
Muito brilhante
Menos brilhante que
O menos brilhante
Mais brilhante que
8. Escreve o primeiro parágrafo no Presente do indicativo.


III

Imagina que és um ser de outro planeta (extraterrestre) e que te correspondes com um menino da terra.
Na carta que lhe escreves, diz-lhe como te chamas; em que planeta vives; como és fisicamente; o que costumas fazer nos teus tempos livres; etc.

18.12.09

Estes sítios

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro...
Ai! o negro dos montes erguidos,
Ai! o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos...
Que saudade! ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos.
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh! aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh! deixar tais delícias como esta!!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura.
Ir saudar a mentira em sua corte.
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai! não, não... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta rude, feroz soledade.
Paraíso onde livres vivemos,
Oh! saudade que deles teremos,
Que saudade! ai, amor, que saudade!

Almeida Garrett, Folhas Caídas



I

1. Assunto e tema
1.1. Refere o assunto deste poema.
1.2. Indica o tema numa curta frase.

2. Estrutura externa
2.1. Faz o esquema rimático dos dez primeiros versos.
2.2. Classifica estes versos quanto a esse esquema.

3. Estrutura interna
3.1. Delimita as partes em que o texto se estrutura.
3.2. Justifica a tua divisão.

4. O espaço e o tempo
4.1. Caracteriza o duplo espaço e o duplo tempo.

5. Sentimentos expressos
5.1. Caracteriza o estado de espírito do sujeito poético
5.2. Indica os principais sentimentos expressos, apoiando-te em expressões textuais.

6. Expressividade da linguagem
6.1. Encontra uma personificação, uma antítese e uma metáfora.
6.2. Explica a expressividade destas figuras de estilo.

7. Aponta alguns elementos românticos do texto.


Romantic Meeting Giclee Print

A M. C.


Pôs-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
O que fada o poeta e o soldado
Volveu a ti o olhar, de amor velado,
E disse-te: «vai, filha, sê formosa!»

E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste neste solo angustiado,
Estrela envolta num clarão sagrado,
Do teu límpido olhar na luz radiosa...

Mas eu... posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! deu-te o Senhor um mundo à parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais... a mim o que me há dado?
Voz que te cante e uma alma para amar-te!

Antero de Quental



Antero canta os seus amores, espiritualizados como os de Petrarca. Neles não há sensualidade à vista, como nas poesias de Anastácio da Cunha ou Garrett; há de preferência uma adoração abnegada do Eterno Feminino.

António Barreiros, História da Literatura Portuguesa



Comente o poema, tendo em conta:
- a angelização da amada;
- a aproximação/distanciamento eu/tu;
- a espiritualização dos dados sensoriais(no 2.° terceto);
- o tipo de amor subjacente à relação eu/tu;
- os aspectos formais mais relevantes.



15.12.09

Destino

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett, Folhas Caídas



Após uma leitura atenta do poema, faz a sua análise tendo em conta os seguintes aspectos:

1. Limitação dos vários momentos do texto e sua justificação

2. Justificação da escolha dos elementos: estrela, ave, planta, verme (bicho-da-seda) e abelha

3. Valor expressivo da anáfora

4. Importância da apóstrofe

5. Concepção de mulher

6. Relação eu-tu

7. Tema

8. Justificação do título

9. Características românticas do texto


Getting Dressed, 1869 Giclee Print


14.12.09

Cap. XX – partida para o degredo




1. Situe o capítulo no desenvolvimento da intriga.

2. Justifique a presença das personagens em cena.

3. Comente a técnica narrativa utilizada pelo narrador, nesta fase final do drama amoroso dos protagonistas.

4. Indique os aspectos românticos na caracterização do par amoroso.

5. Atente no desenrolar da acção dramática.
5.1. Destaque as sequências claramente narrativas dos momentos de paragem na acção dramática.
5.2. Comente o interesse desse abrandamento narrativo.

6. Aponte as características principais da linguagem romântica.
Atente:
- na escolha vocabular;
- nas funções da linguagem;
- nos aspectos morfossintácticos;
- nos recursos estilísticos;
- na pontuação;
-etc.

7. O tempo é romântico. Justifique.

8. Descubra as formas de intromissão do narrador no relato.






12.12.09

O Palácio da Ventura


SONHO que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, tora a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão  e nada mais!

Antero de Quental


1. Salienta a estrutura narrativa do poema, fazendo referência:
- ao protagonista;
- ao espaço físico;
- ao espaço psicológico;
- a um «antes», um «durante» e um «depois».

2. Delimita no poema os versos correspondentes a estes quatro momentos:
- o entusiasmo da partida;
- o desalento;
- o renascer da esperança;
- a desilusão.

3. Faz o levantamento do campo lexical de «cavaleiro andante».

4. Associa um vocábulo do poema a cada um destes tópicos:
-a imensidade do mundo físico;
- a profundidade da vida psíquica.

5. Para conseguir os seus objectivos, o cavaleiro tem de ultrapassar várias etapas. Quais?

6. Refere-te ao percurso de vida que subjaz o poema.

11.12.09

NOX


Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

Antero de Quental



I

Elabore um comentário do excerto que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
• Divisão do texto em partes lógicas;
• Relação passado / presente
• Relação Noite /Dia
• Funções da Noite
• Antero nocturno vs Antero Apolíneo
• Recursos estilísticos relevantes.


II

Dos temas seguintes escolha apenas um:

A - «A poesia é a voz da Revolução.»
Antero de Quental, Odes Modernas

Evocando a sua experiência de leitura, comente, num texto expositivo argumentativo bem estruturado de duzentas a trezentas palavras, o excerto transcrito.

B - «com Pedro da Maia assistimos ao enunciar, por parte do narrador, dos factores tradicionalmente evocados sob a vigência do cânone naturalista..»
Carlos Reis, Introdução à leitura d’ Os Maias

Evocando a sua experiência de leitura, refira-se, num texto expositivo argumentativo bem estruturado de duzentas a trezentas palavras, à influência da tese naturalista na intriga secundária de Os Maias.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por duzentas e quarenta e sete palavras, num texto de setenta e cinco a noventa palavras. Antes de iniciar o seu resumo, leia atentamente as observações apresentadas no final da página.

No caso particular do Orpheu, há [...] duas circunstâncias de curiosa cronologia. O Orpheu de 1915 tornou-se simbólico do lançamento do modernismo em Portugal. Mas, sem falarmos de anteriores manifestações nas artes plásticas e mesmo na literatura, há que ter presente que Mário de Sá-Carneiro publicara importantes obras modernas em 1914. Assim, um espírito moderno, que se vinha processando, apenas encontrou no Orpheu aquele escândalo momentâneo que justifica os «nascimentos» convencionais. A outra circunstância é altamente importante, e modifica radicalmente a maneira como Orpheu tem sido visto. Na verdade, após essa revista e outras igualmente efémeras (ou que não chegavam sequer à informação da grande imprensa e ao público em geral), o Modernismo foi longamente ofus-cado pela continuidade literária anterior que a aventura modernista não tinha abalado. A chegada dos grandes nomes identificados com Orpheu ao público leitor e à crítica não identificada com o Modernismo só se processou nos fins dos anos 30 e nos anos 40: a poesia de Sá-Carneiro só foi reeditada ou primeiro publicada em volume em 1937-39, e a poesia de Fernando Pessoa só começou a aparecer em volume em 1942 (e ainda está em curso a publicação). Com raríssimas excepções, a obra vanguardista de Almada Negreiros só em anos recentíssimos chegou ao grande público em obras completas. É de há pouquíssimos anos a publicação de Tempo de Orpheu, de Alfredo Pedro Guisado. Só há poucos anos se publicou em volume a obra poética do Ângelo de Lima que o Orpheu acolhera.

Jorge de Sena, «O significado histórico do Orpheu – 1915/1975»,
in Colóquio Letras, nº 26, Julho, 1975


10.12.09

SOLEMNIA VERBA


(palavras solenes)

DISSE ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andamos! Considera
Agora, d’esta altura fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E noite, onde foi luz de primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do penar tornado crente,

Respondeu: D’esta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.


I

1. O poema apresenta um carácter de diálogo.
1.1. Indica os pólos da comunicação.
1.2. Mostra como a comunicação não sai do sujeito poético.

2. Analisa a confissão que o enunciador faz, tendo em conta o espaço e o tempo.

3. O coração foi também companheiro de viagem.
3.1. Como é possível o desdobramento da personalidade?

4. Explica o sentido da expressão: "desta altura fria e austera".

5. O enunciador culpabiliza o coração. De quê?

6. Evidencia como os transportes (encavalgamentos) da 1.a quadra realizam também o sentido da mesma.

7. A decepção é o estado de espírito do poeta nas quadras.
7.1. Agrupa as palavras que o manifestam.
7.2. Explica a expressividade dos recursos de estilo utilizados para salientar esse estado de espírito.

8. Qual é a palavra que, interrompendo a sequência de sentido, inicia o segundo momento do texto?
8.1. Classifica-a morfologicamente e indica o seu sentido.

9. Explica o sentido do verso: "Na escola da tortura repetida".

10. Mostra como o objecto da visão é diferente conforme se trate do acusador e do acusado.

11. O título foi escolhido de acordo com os últimos versos.
11.1. Demonstra esta afirmação.

12. Qual o conceito de vida desenvolvido no final do soneto?
12.1. O que é que dá sentido à vida segundo o coração?
12.2. Estás de acordo com esse sentido? Justifica a tua resposta.


8.12.09

Não és tu

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai!, não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

Almeida Garrett, Folhas Caídas



1. O poema organiza-se na base da oposição entre passado e presente.
1.1. Faz a caracterização da mulher vista no passado e vista no presente.
12. Encontra uma palavra para caracterizar cada visão.
1.3. Delimita os momentos em que o texto se estrutura, justificando a divisão.
1.4. Atenta nos verbos principais. Explica o valor do imperfeito, do pretérito perfeito e do presente.

2. Há uma diferença entre a imagem do tu no passado e no presente.
2.1. Como se justifica essa diferença?
2.2. Comprova que o tipo de conhecimento utilizado pelo eu para conhecer o tu é
importante para detectar as diferenças.

3. Como nos poemas já analisados, a mulher aparece sempre idealizada.
3.1. Encontra no texto palavras ou expressões que comprovem essa idealização.
3.2. Que figura de estilo suporta a idealização da mulher?

4. Há no poema várias figuras de estilo que geram a expressividade da linguagem.
4.1. Descobre os segmentos de discurso que realizam a anáfora, a antítese, a comparação e
a sinestesia.
4.2. Explica o sentido e a expressividade dessas figuras de estilo.

5. A oposição fogo/luz é recorrente na poesia de Garrett.
5.1. Para que tipos de amor apontam esses dois vocábulos?
5.2. Qual é o amor considerado mais perfeito? Porquê?

6. A parateatralidade ou a tendência para a oralidade é urna das características do discurso de Garrett.
6.1. Indica os elementos que realizam a parateatralidade, neste texto.

7. Caracteriza, finalmente, a mulher na base da oposição “ter coração” / “não ter coração”.


Secret Liaison Giclee Print


Piloto


Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que o João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e de sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corri-das, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações; partia então como um raio, para escoltar as vacas que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.
Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade: um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
O Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outro, o guarda vigilante, agarrou-o pela blusa, sem o largar.
Era como se dissesse: Aonde vais tu com o trigo do meu dono?
O ladrão quis pôr outra vez o saco donde o tinha roubado; mas o Piloto não deixou, e teve-o em guarda, sem o morder nem ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso, para o não desonrar.
O homem, porém, ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e dos filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o à margem do ribeiro.
Atou à outra ponta da corda um grande calhau, e, levantando o animal, arrojou-o à água; mas arrasta-do ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador, e desembaraçando-se da pedra mal atada, não mergulhasse duas vezes, trazendo para terra o seu mortal inimigo.
Este, que já estava quase desmaiado, compreendeu, quando voltou a si, que o cão, que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Envergonhou-se do acto miserável: e desde esse dia, violentando-se, combateu as suas más inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.


I

1. Qual era a brincadeira preferida do Piloto?
2. Que outras ocupações tinha Piloto? Justifica com expressões textuais.
3. Qual a peripécia que no texto mostra a esperteza deste cão?
3.1. Qual é a expressão do texto que se refere a esse facto?
4. De que forma tentou o homem vingar-se do cão? Conseguiu? Porquê?
5. Explica de que forma este conto ilustra a máxima popular de que o cão é o melhor amigo do homem!


II

A aproximação das férias coloca sempre muitos animais de estimação no abandono.
Elabora um comentário sucinto a este deplorável acto praticado por tantos portugueses.



6.12.09

Apontamento



A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que era um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.


Álvaro de Campos, 1929


I

1. Encontra uma razão plausível para a comparação presente no verso inicial.
2. O poeta sente-se mais completo agora que está em cacos. Posiciona-te criticamente em relação à afirmação anterior.
3. Procura explicar a benevolência dos deuses face ao descuido da criada.
4. Demonstra que os cacos são um símbolo da fragmentação que o sujeito poético sente.
5. Como explicas a atenção dada pelos deuses ao caco que brilha “do exterior lustroso, entre os astros.”
6. Analisa a linguagem e o estilo do poema.
7. Comenta o título do poema.


II

“Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.”
Fernando Pessoa


A frase de Pessoa refere-se a Alberto Caeiro. Elabora uma dissertação sobre a importância deste heterónimo, assim definido como “mestre”, no conjunto da obra heterónima do poeta. Apresenta o plano da dissertação.
[200 a 250 a palavras]

5.12.09

Amor de Perdição

«A 17 de Março de 1807, saiu dos cárceres da Relação Simão António Botelho, e embarcou no cais da Ribeira, com 75 companheiros. O filho do ex-corregedor de Viseu, a pedido do desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não ia amarrado com cordas ao braço de algum companheiro. Desceu da cadeia ao embarque, ao lado de um meirinbo, e seguido de Mariana, que vigiava os caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da nau, e recomendou ao comandante que distinguisse o condenado Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o à sua mesa. Chamou Simão de parte, e deu-lhe um cartucho de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e, na presença de Mourão Mosqueteira, pediu ao comandante que fizesse distribuir pelos seus companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.
- E demente o senhor Simão?! disse o desembargador.
- Tenho a demência da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi; quero agora ver a que extremo de infortúnio ela pode levar os seus amantes. A caridade só me não humilha quando parte do coração e não do dever. Não conheço a pessoa que me remeteu este dinheiro.»

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição


I

Faça o comentário global do texto, tendo em conta os seguintes tópicos de análise textual:

- Importância da referência precisa ao tempo diegético;
- Caracterização de Simão enquanto herói anti-social;
- Ritmo narrativo;
- Recursos estilísticos;
- Léxico e seu valor



II

A propósito de Mariana, figura feminina de Amor de Perdição, o narrador interroga: «Que anjo te fadou o coração para a santidade desse obscuro martírio?»

partir da frase acima transcrita, redija uma pequena composição a respeito da complexidade desta personagem.


1.12.09

A minha vida é um barco abandonado



A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da acção sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.


Fernando Pessoa, Antologia poética,
sel. e apresentação de Isabel Pascoal,
Ed. Bibl. Ulisseia


I

1. Identifica os recursos expressivos presentes nos dois primeiros versos e explicita o seu contributo para a construção de sentidos no poema.
1.1. Comenta o valor expressivo da interrogação.
1.2. Identifica aquilo de que o sujeito poético parece ter abdicado, referindo a lacuna que detecta em si próprio.

2. Comenta o valor expressivo da caracterização do “corpo” presente na 3.ª estrofe.
2.1. Explicita o contributo da forma verbal “Boiando” para o sentido da estrofe.

3. Identifica a figura de estilo que, na 4.ª estrofe, veicula a estagnação interior do sujeito.

4. Demonstra que este poema exemplifica o efeito paralisante da auto-análise característica da poesia de Fernando Pessoa ortónimo.

5. Analisa os aspectos formais do poema (composição estrófica, métrica, rima).


II

Lê atentamente o texto seguinte.


Surpreendidos pelo fenómeno literário insólito de uma constelação de poetas, reivindicando pela boca do seu criador ou deles mesmos um direito à existência (...), os primeiros intérpretes tentaram tudo o que estava em seu poder para reduzir a estranheza desse desdobramento artístico. Essa redução tomou três direcções principais, mas finalmente complementares: a primeira consistiu em encontrar na vida do Poeta, na sua psicologia real ou suposta, as motivações dessa diversificação em poetas, característica da sua criação literária; a segunda, em mostrar, através da análise de cada um dos poetas que Pessoa pretendeu ser, que a apregoada autonomia não resiste a um exame, nem dos temas, nem das particularidades estilísticas; a terceira, finalmente, reenvia essa estranheza, diagnosticada como simples difracção de um comportamento histórico absurdo característico de uma classe sem futuro inteligível para essa mesma história de que é reflexo. Assim se utilizaram as três perspectivas que, segundo o autor da “Nova poesia portuguesa no seu aspecto psychologico”, se impõem na análise de uma obra: a psicológica, a literária, a sociológica, respectivamente representadas por João Gaspar Simões, Jacinto do Prado Coelho e Mário Sacramento. Por maiores que sejam as diferenças entre elas (...) uma coisa as unifica: mau grado o contributo histórico que cada uma representa e as inúmeras questões que debateram ou resolveram em relação à génese ou interpretação dos poemas, mau grado mesmo a subjectiva vontade de tentar erguer um monumento ao Poeta (salvo Mário Sacramento), tido como “genial”, o perfil último que da sua poesia (e mesmo do homem) se destaca é, paradoxalmente, negativo. De uma maneira, por assim dizer, fatal, passou-se insensivelmente do campo da análise da heteronímia ao do seu desmascaramento, já com forte coloração pejorativa e, em seguida, à desmistificação não só do jogo heteronímico como do processo poético que ele estrutura, finalmente submetido a uma espécie de desmistificação.
Tudo se passa como se os críticos, inconscientemente, tivessem querido punir Pessoa de ter levado consigo a chave de um labirinto onde eles se perdem.


Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva (texto com supressões)
1 In A Águia, 2.a série, 1912, p. 86.