28.11.09

Cap. II

Interprete o texto com base nos seguintes tópicos de análise:

1. Identificação do par amoroso.

2. Caracterização dos protagonistas, salientando os aspectos românticos dessa carac-terização.

3. Concepção romântica do amor.

4. Natureza do conflito que desde logo se esboça.

5. Exploração das oposições:
-violência vs. amor;
- ódio vs. amor;
- direitos do amor vs. deveres filiais;
- o indivíduo vs. a sociedade.

6. Natureza das intromissões do narrador.



A Noite e a Madrugada

Quando os homens partiram da vila, em grupos separados, disfarçando o seu propósito por atalhos, ainda a noite se escondia na espessura das nuvens. Chegariam, dia claro, perto do rio Erges e aí deviam aguardar novamente a cumplicidade das trevas. Arriscavam-se vinte e seis cargas de estanho, distribuídas por trinta homens de alugo; mesmo assim, cabia a todos um peso que vergava bem os costados: apesar de as mãos se arroxearem de frio, as camisas colavam-se ao suor dos músculos. Iam distanciados uns dos outros, numa fila sinuosa, por vezes interrompida nas ravinas e nas gargantas dos ribeiros. O nevoeiro cortejava a coroa das serras paralelas à raia, esbatendo-se sobre a planície enregada de alqueives, para encordoar de novo junto à vila.
As cargas de estanho seriam negociadas na mina espanhola de Pelares del Puerto, e os homens, no regresso, teriam de alombar com fardos de fazenda. Se as coisas se arrumassem sem fugas e sem tiros, o esforço dobrado de um par de noites valia um mês de enxada nas herdades.
(is pés iam ficando encortiçados, as horas aproximavam a alvorada, o vento, às vezes, rasgava estradas no céu escuro; a marcha abrandava de entusiasmo. O Pencas ia no grupo da frente e foi percebendo o companheiro da retaguarda a encurtar rapidamente a distância entre ambos: ainda quis aceitar o desafio desse passo vigoroso, mas parou, exausto, a resfolegar. O outro, com o suor morno e salgado a escorrer-lhe para a boca, disse:
— Arreaste. Pesam-te as banhas...
— Vomecê vai com um nervo...
— Tens o corpo lambão, é o que é.


Fernando Namora, A Noite e a Madrugada



I

1. Apresenta o trajecto que as personagens têm que percorrer para levarem a cabo a sua missão.

2. Refere a função da noite.

3. Indica as características da actividade que envolve as personagens e ilustra cada uma delas com uma frase do texto.

4. "[...] o vento, às vezes, rasgava estradas no céu escuro."
4.1. Explica esta frase.
4.2. Identifica o modo de expressão narrativo que esta frase exemplifica.
4.3. Analisa sintacticamente os elementos da oração apresentada.

5. Identifica o registo (nível) de língua que está presente no diálogo contido no texto.

6. Classifica o narrador do texto quanto à sua ciência. Justifica.


II

Relaciona o conto Fronteira, de Miguel Torga, com o texto de Fernando Namora, salientando as ideias que apresentam em comum.







25.11.09

Cap. X




1. Neste capítulo é atingido o ponto culminante da acção. Justifique situando o texto no desenvolvimento da intriga da obra.

2. Atente, agora, no tempo e no espaço.
2.1. Situe a acção no tempo e no espaço.
2.2. Explique as referências sucessivas ao avanço do tempo cronológico nos parágra-fos que fazem essa marcação do tempo.
2.3. Saliente, no espaço psicológico do herói, a função dos variados e angustiados pensamentos que o dominam.

3. Relacione a breve descrição da natureza com:
- o momento da acção;
- a referência explícita ao "moço poeta" nessa madrugada "fatal".

4. Centre a sua atenção no fluir da acção.
4.1. Justifique que, no extracto, se dê particular relevo ao fluir rápido da acção.
4.2. Neste contexto, adiante a função do diálogo entre Simão e Baltasar Coutinho.
4.3. Indique aspectos relevantes da expressão linguística (características do discurso, adequação da linguagem ao momento particularmente tenso da acção, pontuação, etc.).
4.4. Comente a conclusão do capítulo em termos de acção e de personagem.


O Velho Palácio, Gomes Leal



Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira-mar...
Donde se avistam lívidas colinas,
E se ouve o vento nos pinhais pregar.
Houve outrora um palácio, hoje em ruínas.

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite, em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável...

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida de chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta,
Como nessa varanda apodrecida...

Gomes Leal

I

1. “Outrora”, “hoje” são advérbios que introduzem a oposição passado/ presente.
1.1. Demonstra que, no poema, o tempo repetidamente afirmado é o presente.
1.2. Demonstra que esse é um tempo de tristeza e destruição.

2. A partir da terceira estrofe, o poeta detém-se num elemento do palácio em ruínas.
2.1. Que elemento?
2.2. Como é caracterizado?

3. A última estrofe é iniciada com um recurso estilístico. Identifica-o.

4. “Em minha alma uma flor também vegeta...”
4.1.Qual o sentido do verbo sublinhado?

5. O poema é dominado por um tom de tristeza e morte que as palavras usadas lhe conferem.
5.1. Identifica todas as palavras que te pareçam conter uma conotação negativa.

6. Justifica a utilização de reticências em vários momentos do poema.

7. Um dos recursos estilísticos mais usados no poema é a adjectivação.
7.1. Aponta exemplos.


II

1. Análise formal do poema
1.1. Apresenta o esquema rimático.
1.2. Classifica as rimas presentes.
1.3. Faz a escansão do último verso do poema.


III

1. As frases seguintes usam incorrectamente os pronomes. Reescreve-as de forma correcta.
1.1. Vi a professora e cumprimentei-lhe.
1.2. Para não incomodar-lhe, saí do quarto.

2. Substitui as expressões sublinhadas por um advérbio:
2.1. Vou ao clube de fotografia muitas vezes.
2.2. Não consegues fazer o trabalho de modo calmo?

3. Indica o grau normal de cada um dos adjectivos:
3.1. atrocíssimo
3.2. sapientíssimo
3.3. libérrimo

4. Identifica os nomes abstractos presentes nas frases:
4.1. A inveja é má conselheira.
4.2. A saudade roubou-lhe o brilho dos olhos.

5. Identifica as preposições nas expressões seguintes:
5.1. Remava contra ventos e marés.
5.2. Andou de cavalo para burro.
5.3. Com papas e bolos se enganam os tolos.


IV

Imagina uma notícia que tenha como título, tal como no poema, “Velho Palácio”.

23.11.09

Cena Introdutória

I

1. A iniciar a peça, assistimos a um animado diálogo entre duas personagens — o Diabo e o Companheiro. De que falam eles?
2. O Diabo não pára de falar. Como caracterizas o seu estado de espírito?
2.1. A que se deve essa disposição?
3. Na tua opinião, qual será o objectivo desta cena inicial? Repara que, por enquanto, nada se passa na barca do Anjo.


II

1. Repara que. no texto, são usadas muitas interjeições.
1.1. Sublinha-as.
1.2. Explica de que forma elas são importantes para revelar o estado de espírito das personagens em cena.

2. O Diabo utiliza vários verbos conjugados no imperativo.
2.1. Sublinha-os.
2.2. Justifica o uso repetido deste modo verbal, no contexto do diálogo Diabo — Companheiro.
3. Auto - uma palavra que caiu em desuso, significava, na Idade Média, representação teatral. Provem do mesmo étimo latino que acto.
3.1. Como se chamam estas duas palavras, auto e acto, no que diz respeito à sua origem e evolução?
3.2. Qual delas terá chegado à Língua Portuguesa por via erudita? E por via popular? Justifica.




21.11.09

Realismo, Naturalismo


I - Realismo

Surgido em meados do séc. XIX, o Realismo foi uma nova proposta artística que se declarou antiacadémica, objectiva e enquadrada nos interesses do mundo contemporâneo.

1. O progresso da ciëncia e da tecnologia, bem como a filosofia positivista tinham ditado alterações políticas e sociais que contagiaram os meios culturais e artísticos. Refere essas alterações na sociedade e os reflexos que tiveram nos movimentos artísticos que surgem cerca de 1845.

2. Daumier foi um dos artistas que mais aprofundou o sentido político e social da estética realista. Explica a relação existente entre o Realismo e as questões sociais e políticas, referindo o modo como esses aspectos se reflectem nas temáticas e na plástica realista.

3. Ao ver as suas obras excluídas da Exposição Universal de Paris de 1855, Courbet construiu um pavilhão alternativo em madeira para expor as suas obras, no qual afixou a inscrição Le Réalisme, G. Courbet. Refere a importância da obra de Courbet para a afirmação do programa artístico do Realismo.

4. Na figura abaixo podemos observar uma obra de Millet, típica do seu programa artístico, dando-nos uma imagem áspera e desolada da vida dos camponeses. Analisa a obra e refere os aspectos que a inserem no Realismo.


Pastora com seu rebanho, Millet


II - Naturalismo

O interesse pela realidade visível motivou alguns artistas a olharem a natureza com o mesmo rigor e precisão que outros olhavam a sociedade. O Naturalismo surge, assim, como uma tendëncia deliberadamente direccionada para a temática da paisagem através da observação directa da natureza.

1. A paisagem tinha sido um tema que já os românticos, como por exemplo Constable, tinham abordado num determinado sentido. Apresenta as diferenças fundamentais entre o tratamento da “paisagem romântica” e a “paisagem naturalista”.

2. A Escola de Barbizon reuniu um grupo de pintores que partilhavam dos mesmos interesses artísticos e dos mesmos valores estéticos. Apresenta as características principais das propostas deste grupo e a sua importância para a evolução da pintura nas últimas décadas do séc. XIX.

3. Se bem que centrado na análise da natureza, o Naturalismo abordou assuntos muito diversos mas sempre inscritos no seu ideário estético. Refere esses assuntos e explica de que forma se relacionam com o programa naturalista.

4. Observa a imagem reproduzida abaixo e refere os aspectos temáticos, plásticos e estéticos que a relacionam com o Naturalismo.


A Ponte de Mantes, Corot


Cena Introdutória


Relê a primeira cena que funciona como introdução uma vez que precede a chegada do primeiro passageiro.

1. Antes de começar o desfile das personagens, assistimos a um animado diálogo.
1.1 Que personagens estão presentes em cena?
1.2 Qual é o teor da conversa?
1.3 O que estão a fazer?
1.4 Que atitudes do Diabo revelam que ele é um barqueiro experiente?
1.5 Qual é o estado de espírito do Arrais Infernal? Justifica a tua resposta com duas expressões textuais.

2. No cais encontram-se duas barcas: a do Inferno e a da Glória.
2.1 Por que motivo o Diabo não pára de falar e de dar ordens ao Companheiro?
2.2 Por que razão na barca do Anjo não há ambiente de festa, nem preparativos para a viagem?
2.3 Qual é o objectivo desta cena inicial?

3. O cómico está presente nesta cena.
3.1 Indica o tipo de cómico patente e apresenta dois exemplos.

4. O uso de termos náuticos é uma constante nesta primeira cena.
4.1 Faz um levantamento dos mesmos.
4.2 Com que finalidade são utilizados?

5. Ao longo do texto são usadas várias interjeições.
Retira do texto três exemplos. Refere o seu significado.

6. O diálogo travado entre as duas personagens é muito sugestivo.
6.1.Qual é o registo de língua predominante? Justifica.

7. Retira do texto algumas formas verbais utilizadas pelo Diabo.
7.1. Em que modo se encontram? Justifica o seu emprego.
7.2. Identifica, justificando, o tipo de frase mais recorrente.






Surpresa!





— Surpresa! - gritou o senhor Afonso mal entrou pela porta de casa.
O Luís pensou que ia no domingo ao futebol. A Ana que ia finalmente ao Teatro de Marionetas. O Daniel pensou que ia ter um jogo novo. O Paulo sorriu para o Marco e a mãe pensou que era melhor não pensar em coisa nenhuma...
— Surpresa! Surpresa! - gritava excitado o senhor Afonso.
— Hoje fui a uma agência de viagens e...
— E... - repetiram todos em uníssono.
— E marquei uma semana de férias nos Açores.
— Não acredito! - exclamou a mulher com duas lágrimas nos olhos.
— Foi lá que comecei a dar aulas. Que saudades! O silêncio, as flores, o azul e o verde das lagoas...
— Pois é... Vi no jornal que a agência de viagens fazia umas promoções, o preço era convidativo e…
— O pai é o maior!!! - gritavam os miúdos.
— Meninos, vamos já preparar a viagem.


Rui Pedro Monteiro (adaptado)




I

1. Porque é que o senhor Afonso chegou a casa tão entusiasmado?
2. O que pensou o Luís? E a Ana?
3. Porque é que a mãe ficou emocionada quando soube que ia passar uma semana aos Açores?
4. Qual era a profissão da mãe?


II

1. Escreva o significado das seguintes palavras.
a. excitado
b. uníssono
c. exclamou

2. Retira do texto uma frase com…
a. Reticências
b. Travessão

4. Retira do texto uma frase…
a. Exclamativa
b. Imperativa

5. Escreve 5 palavras da família de “flor”.

6. Escreve palavras da área vocabular de “viagem”.


III

Como terá sido a viagem desta família aos Açores?
Num texto cuidado, descreve as peripécias vividas.





20.11.09

Gil Vicente e o Auto da Barca do Inferno




1. Para compreendermos o teatro de Gil Vicente precisamos de situá-lo dentro das condições em que surgiu.
1.1. Que tipo de manifestações teatrais surgiram durante a Idade Média?
1.2. Em que ocasiões eram feitas estas representações?

2. Em que época viveu e escreveu Gil Vicente?

3. Qual a intenção da sua obra?

4. Que tipo de recursos utiliza Gil Vicente na sua crítica?

5. Tal como acontece na maioria das suas peças, Gil Vicente recorre ao cómico.
5.1 Quais os tipos de cómico presentes neste auto?

6. Identifica o tema deste auto.

7. Qual a estrutura interna do Auto?

8. Na acção deste Auto intervêm várias personagens.
8.1 Identifica aquelas que, do princípio ao fim se mantêm em cena.
8.2 Diz qual a função que essas personagens têm.
8.3 Quais são as outras personagens que interferem na acção?
8.4 Cada personagem é portadora de um objecto simbólico. O que representam esses objectos?
8.5 As personagens deste auto são tipos. Porquê?
8.6 Quanto ao Diabo e ao Anjo são personagens alegóricas. Porquê?

9. A linguagem utilizada por Gil Vicente é rica e variada, utilizando vários processos estilísticos.
9.1 Diz em que consiste a ironia.
9.2 "Vai pêra a ilha perdida" - que figura de estilo está aqui presente e em que consiste?


19.11.09

Cena introdutória


Após a leitura do diálogo entre o Diabo e o Companheiro responde às seguintes questões:

1. O Diabo aparece-nos como um barqueiro experiente e conhecedor do seu ofício.
1.1. Faz o levantamento do campo lexical de faina marítima.

2. Caracteriza o estado de espírito do Diabo, explicando as razões que o justificam e retirando do texto as expressões mais relevantes.

3. Caracteriza, agora, o estado de espírito do Companheiro.

4. Que tipo de clima existe na barca do Inferno?
4.1. A partir da análise deste clima, como prevês o desenrolar da acção?


II

1. O Diabo utiliza vários versos conjugados no imperativo.
1.1. Sublinha-os.
1.2. Justifica o uso repetido deste modo verbal, no contexto de diálogo Diabo – Companheiro.






Auto da Barca do Inferno (global)


Relembra o estudo do Auto da Barca do Inferno!

1. Em que época da nossa história nacional se integra esta peça?
2. Qual a principal intenção do autor ao escrevê-la?
3. Quais os principais recursos de que se serviu para atingir o seu objectivo?
4. Poder-se-á falar em teatro antes de Gil Vicente? Justifica.
5. A quem se destinou a primeira representação do Auto da Barca do Inferno?
6. Qual o cenário onde se passa a acção?
7. Quem são as personagens intervenientes no diálogo iniciai?
8. O Diabo revela-se um experiente barqueiro, conhecedor deste ofício.
8. 1 Que atitudes comprovam esta faceta da personagem?
8.2 Que preocupações tem o Diabo?
8.3 Caracteriza o seu estado de espírito com base nas expressões mais significativas do texto.
9. A primeira personagem que se apresenta a julgamento é o Fidalgo.
9. 1 Refere os símbolos cénicos desta personagem e o seu significado.
10. Delimita no texto três momentos correspondentes ao percurso cénico do Fidalgo.
11. Explica o significado de "ilha perdida" e identifica o recurso expressivo utilizado.
12. Indica os argumentos apresentados pelo Diabo para condenar o Fidalgo.
13. Como se defende o Fidalgo?
14. Perante o Anjo o Fidalgo apresenta um novo argumento para a sua salvação. Qual?
15. Identifica a classe social que Gil Vicente pretende criticar nesta cena.
15.1 Transcreve uma expressão que mostre que Gil Vicente visa toda uma classe social e não apenas o Fidalgo Dom Anrique.



18.11.09

Um jovem caranguejo...



Um jovem caranguejo pensou: "Porque é que na minha família todos andam para trás? Quero aprender a andar para a frente, e que a cauda me caia se não o conseguir."
Começou a exercitar-se às escondidas, entre os seixos do ribeiro natal, e nos primeiros dias a tarefa causou-lhe uma enorme estafa. Chocava contra tudo, machucava a carapaça e atropelava as pernas uma na outra. Mas, a pouco e pouco, as coisas começaram a correr melhor, pois tudo se pode aprender, quando se quer.
Quando se sentia bem seguro de si, apresentou-se à família e disse:
- Vejam isto.
E deu uma magnífica corridinha em frente.
- Meu filho - desatou a chorar a mãe -, deram-te a volta ao miolo? Reconsidera, anda como o teu pai e a tua mãe te ensinaram, anda como os teus irmãos, que te querem tanto.
Os seus irmãos, porém, não faziam outra coisa senão troçar.
O pai, depois de ter estado a observá-lo severamente por um bocado, disse: - Basta. Se queres continuar connosco, anda como os outros caranguejos. Se queres fazer as coisas à tua maneira, o ribeiro é grande: vai-te e nunca mais voltes.
O bravo caranguejinho estimava os seus, mas estava demasiado seguro da sua justiça para ter dúvidas: abraçou a mãe, despediu-se do pai e dos irmãos e partiu ao encontro do mundo.
A sua passagem logo despertou a surpresa de um grupo de rãs que, como boas comadres, se haviam reunido para dar dois dedos de conversa em volta de um folha de um nenúfar branco.
- O mundo anda às avessas - disse uma rã - olhem-me para aquele caranguejo e digam lá se não tenho razão.
- Já não há respeito - disse uma outra rã.
- Apre! - disse uma terceira.
Mas o caranguejo seguiu em frente, é mesmo caso para dizê-lo, no seu caminho. A certa altura, ouviu chamar por ele: era um velho caranguejo solitário, de expressão melancólica, que se encontrava encostado a um seixo.
- Bom dia - disse o jovem caranguejo.
O velho observou-o prolongadamente, depois disse:
- Onde pensas tu que vais chegar com isso? Também eu, quando era jovem, pensava ensinar os caranguejos a andar para a frente. E eis o que recebi em troca: vivo completamente só, as pessoas preferiram cortar a língua a dirigir-me a palavra. Presta atenção ao que te digo, enquanto é tempo: resigna-te a fazer como os outros e um dia agradecer-me-ás o conselho.
O jovem caranguejo não sabia o que responder e ficou calado. Mas dentro de si pensava: "Eu tenho razão."
E, despedindo-se do velho com gentileza, retomou orgulhosamente o seu caminho.
Irá longe? Fará fortuna? Endireitará todas as coisas tortas deste mundo? Não o saberemos, porque ele ainda não parou de caminhar com a coragem e firmeza do primeiro dia. Apenas lhe podemos desejar de todo o coração: - Boa viagem!

RODARI, Gianni, Histórias ao telefone, Ed. Teorema


I

1. Identifica as personagens do texto.
1.1. Destaca a personagem principal.

2. Centra-te no protagonista e caracteriza-o psicologicamente.

3. Perante a actuação do protagonista, podemos dizer que algumas personagens se opõem a ela - os pais, as rãs e o "velho caranguejo solitário".
3.1. Indica os motivos dessa oposição.
3.2. Como vai reagir o protagonista a essa oposição?
4. Ao longo do texto, é possível encontrarmos momentos em que o narrador exprime uma

certa simpatia pela personagem principal. Transcreve duas passagens textuais que comprovam
esta afirmação.

5. O que representará a personagem "velho caranguejo solitário" nesta história? Justifica a
tua resposta.

6. Atribui um título sugestivo ao texto.


II

1. Classifica morfologicamente as palavras presentes nas seguintes frases :
a) "O bravo caranguejinho estimava os seus (...)."
b) "A sua passagem logo despertou a surpresa de um grupo de rãs (...)."

2. Indica o tempo e o modo das seguintes formas verbais:
a) "começou";
b) "anda" ;
c) "sabia" .


III

Escolhe uma das seguintes opções e redige um pequeno texto com as tuas ideias:

A) É fácil ser-se "diferente"? Podes contar um episódio, uma história que conheças, cujo protagonista se tenha destacado pela sua luta pela diferença. Ou podes simplesmente exprimir a tua opinião sobre o tema "afirmação da diferença".

B) Dá sequência e um outro desenlace, a teu gosto, à história do caranguejo. Como terá corrido a viagem do caranguejo? Terá ele tido sucesso, terá atingido o(s) seu(s) objectivo ( s)?








17.11.09

Auto da Barca do Inferno: geral



Agora que já leste e estudaste o Auto da Barca do Inferno, responde:


1. Esta obra é um texto dramático.
1.1 Justifica esta afirmação, indicando as razões que nos permitem considerá-la como tal. Se necessário, relembra o que aprendeste na unidade Observar...

2. Gil Vicente utilizou uma alegoria ''' para criticar os defeitos e vícios do seu tempo.
2.1 Explica esta opção.
2.2 Indica as razões para a existência de duas barcas, uma do Inferno e uma do Paraíso.
2.3 O que simboliza cada barca? Através delas, o que é posto em causa, no Auto?

3. Há um princípio latino que afirma «ridendo castigat mores» (a rir, corrigem-se os costumes).
3.1 Em lua opinião, este princípio poderá adaptar-se ao Auto da Barca do Inferno?
3.2 Em que medida?

4. Esta obra é, no seu todo, um «auto de moralidade».
4.1 Qual o motivo dessa classificação?

5. Comenta a seguinte frase:
«O Auto da Barca do Inferno é um espelho triste onde Gil Vicente reflecte o rosto de uma noção em crise.»

13.11.09

Cap. XX


1.1. Resuma o assunto do capítulo XX.
1.2. Situe a acção no tempo e no espaço.
1.3.Comente essas coordenadas, associando-as simultaneamente ao momento da intriga e ao romantismo na obra.

2. Ao contrário de Teresa, definitivamente distanciada de Simão, Mariana encontra-se próxima do protagonista nesta derradeira hora das suas existências:
2.1. Identifique os papéis desempenhados por esta figura feminina junto de Simão moribundo.
2.2. Destaque do texto os elementos que anunciam a morte de Mariana.
2.3. Confirme com este excerto final a extraordinária densidade psicológica desta "irmã" de Simão.
2.4. Caracterize o conceito de amor que Mariana encarna.

3. "Viram-na, um momento, bracejar [...] para abraçar-se ao cadáver de Simão."
3.1. Interprete o "abraço" entre as duas personagens.
3.2. Atribua um significado ao facto de "à flor da água" (à superfície) ter ficado o rolo de cartas de Teresa.

4. A narração é predominante neste texto.
4.1. Justifique, apontando as marcas linguísticas e de estilo mais marcantes da organização da narrativa.




12.11.09

Cap. VII (no convento)


Analise o excerto com base nos seguintes tópicos:

1. Concepção romântica do amor, expressa no desabafo de Teresa, para quem "a liberdade do coração é tudo".

2. Função dos diálogos travados entre os vários interlocutores.

3. Aspectos da crítica social e instituição e classe visadas.

4. A ironia e o sarcasmo do narrador ao serviço da crítica social.

5. Coexistência do cómico e do trágico.

6. Importância da presença permanente de Teresa em cena.

7. Contraste entre a heroína romântica e o ambiente descrito.

8. Aspectos linguísticos relevantes.

9. Função do episódio na economia da obra.






Amor de Perdição




Ao anoitecer daquele dia, pediu Teresa os sacramentos, e comungou à grade do coro, onde se foi amparando à sua criada. Parte das horas da noite passou-as sentada ao pé do santuário de sua tia, que toda a noite orou. Algumas vezes pediu que a levassem à janela que se abria para o mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo por seu pé às celas das senhoras entrevadas para lhes dar o beijo da despedida.
Todas cuidavam em reanimá-la, e Teresa sorria, sem responder aos piedosos artifícios com que as boas almas a si mesmas queriam simular esperanças. Ao abrir da manhã, Teresa leu uma a uma as cartas de Simão Botelho. As que tinham sido escritas nas margens do Mondego enterneciam-na a copiosas lágrimas. Eram hinos à felicidade prevista: eram tudo que mais formoso pode dar o 10 coração humano, quando a poesia da paixão dá cor ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscências daqueles dias: a sua alegria doida, as suas doces tristezas, esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colóquios com a irmã querida de Simão, o céu aromático que se lhe alargava à aspiração sôfrega de vagos desejos, tudo, enfim, que lembra a desgraçados.
Emaçou depois as cartas, e cintou-as com fitas de seda desenlaçadas de raminhos de flores murchas, que Simão, dois anos antes, lhe atirara da sua janela ao quarto dela.
As pétalas das flores soltas quase todas se desfizeram, e Teresa, contemplando-as, disse: -"Como a minha vida..." - e chorou, beijando os cálices desfolhados das primeiras que recebera.
(...)
Ouviu-se a voz de levar âncora, e largar amarras. Simão encostou-se à amurada da nau, com os os olhos fitos no mirante.
Viu agitar-se um lenço, e ele respondeu com o seu àquele aceno. Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente Simão viu um rosto e uns braços suspensos das reixas de ferro; mas não era Teresa aquele rosto: seria antes um cadáver que subiu da clausura ao mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.
- É Teresa? - perguntou Simão a Mariana.
- É senhor, é ela - disse num afogado gemido a generosa criatura, ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no seguimento daquela por quem se perdera.
De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e entreviu Simão um movimento impetuoso de alguns braços, e o desaparecimento de Teresa e do vulto de Constança, que ele divisara mais tarde.
A nau parou defronte de Sobreiras. Uma nuvem no horizonte da barra e o súbito encapelamento das ondas causaram a suspensão da viagem anunciada pelo comandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia com o piloto-mor, que mandava lançar ferro até novas ordens. Mais tarde, adiou-se a saída para o dia seguinte.
E, no entanto, Simão Botelho, como o cadáver embalsamado, cujos olhos artificiais rebrilham cravados e imotos num ponto, lá tinha os seus imersos na anterior escuridade do miradouro. Nenhum sinal de vida. E as horas passaram até que o derradeiro raio de sol se apagou nas grades do mosteiro.
Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou, com os olhos embaciados de lágrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras estrelas iminentes ao mirante.
- Procura-a no Céu? - disse o nauta.
- Se a procuro no Céu! - repetiu maquinalmente Simão.
- Sim!... no Céu deve ela estar.
- Quem, senhor?
- Teresa.
- Teresa!... Morreu?!
- Morreu, além, no mirante, donde ela estava acenando. Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O comandante lançou-lhe os braços e disse:
- Coragem, grande desgraçado, coragem! Os homens do mar também crêem em Deus! Espere que o Céu se abra para si pelas súplicas daquele anjo!

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição



I

Faça a análise global ao excerto, tendo em atenção os seguintes tópicos:
• Assunto e sua inserção na estrutura narrativa do Amor de Perdição.
• Dramatismo da cena e sentimentos expressos.
• A importância das cartas.
• Linguagem e estilo.
• Marcas da estética e da sensibilidade românticas.


II

No Amor de Perdição, o narrador alude ao «fatal destino», à «má estrela». Redija uma curta mas cuidada composição em que demonstre que o destino fatalista é uma das molas motoras do desenvolvimento da acção da novela de Camilo.


10.11.09

Cap. X



1. Relacione a carta com o momento da intriga que Simão filtra pela violência do seu discurso.

2. Caracterize a personagem Simão, referindo os valores que, na sua própria expressão, norteiam a conduta do herói.

3. Comente os aspectos linguísticos e as funções da linguagem mais importantes neste texto.

4. Inventarie os aspectos românticos desta carta dirigida a Teresa.

5. Explique a relação amor-poeta - religião enquanto valor romântico.

6. Defina, ilustrando com exemplos, o conceito de amor presente neste texto.

7. Detecte no texto as expressões que apontam para o sentido de uma fatalidade inelutável para as personagens.

8. Mostre como "a presença de Mariana" se vai tornando cada vez mais importante para Simão, determinando até, na parte final da obra, o comportamento e opções do herói.

9.11.09

O Velho do Restelo (C.IV, 94-97)


94
«Mas um velho, de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95
"Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cüa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!

96
"Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana;

97
"A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IV



I

1. Que representa o velho do Restelo em Os Lusíadas?

2. Que desgraças o velho vaticina se os Portugueses fizerem a viagem para a Índia?

3. A que é que o velho atribui a ânsia dos Portugueses de partir em busca de novas terras? Justifique.

4. Que razões levam o velho a referir-se a um «nome preminente» e que responsabilidades poderá este ter na provável desgraça dos Portugueses?

5. Diga o que entende por «saber só de experiências feito» e «povo néscio».

6. Identifique a figura de estilo presente a partir da estância 95 e comente o seu valor expressivo.

7. Faça a análise formal (estrofe, métrica e rima) da estância 94.

8. Atente no seguinte verso: «Tais palavras tirou do experto peito».

8.1. Identifique na frase o verbo, os substantivos e o adjectivo.

8.2. Faça a análise sintáctica da frase.

8.3. Dê um sinónimo de experto.


II

Numa composição cuidada, relacione aquilo que o velho do Restelo vaticina para os Portugueses com o que actualmente sabemos acerca dos Descobrimentos, referindo a sua opinião acerca das vantagens e desvantagens dos mesmos.





8.11.09

Amor de Perdição

Lê atentamente o texto antes de responderes às questões com clareza e rigor.


A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão.
— Não foi nada boa esta praga que lhe caiu em casa, Mariana!
— Que -se me dá a mim disso? — respondeu ela, sacudindo o avental, e baixando os cós ao lugar da cintura.
— Sente-se, Mariana. Vá buscar a sua costura, e dê-me dali uma folha de papel e um lápis que está na carteira.
— Veja lá o que faz... Olhe se alguma carta se perde, e se descobre tudo...
— Tudo o quê, Mariana? Pois sabe alguma coisa?!
— Parece que vossa senhoria está a querer guardar um segredo que eu tomam que ninguém sou-besse, para que meu pai e o senhor Simão não tenham alguns trabalhos maiores...
— Tem razão, Mariana; eu não devia esconder de si o mau encontro que tivemos.
— E Deus queira que seja o último!... Tanto tenho pedido ao Senhor dos Passos que lhe dê remédio a essa paixão!... O pior futuro é o que ainda está por passar...

CAMILO CASTELO BRANCO, Amor de Perdição



I


1. Faça a integração do texto na obra Amor de Perdição.

2. Com base na informação recolhida do texto, proceda a caracterização da personagem Mariana.

3. Saliente o valor da pontuação das frases da figura feminina.

4. Recordando a obra Amor de Perdição, confirme a previsão apontada na última frase do texto.


II

Amor de Perdição é uma obra romântica.
Numa cuidada composição, comente a afirmação anterior, considerando as situações, os ambientes e a linguagem da obra mencionada





Seus olhos

Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett, Folhas Caídas



1. Que características do olhar da amada são destacadas pelo sujeito poético?

2. Explica a oposição estabelecida entre luz de brilhar e chama de queimar.

3. Que tipo de sensações/emoções se associam a cada uma destas expressões?

4. Tendo em conta que “os olhos são o espelho da alma”, que sentimento denunciam os olhos da mulher amada?
4.1 Qual a palavra usada pelo sujeito poético para se referir a esse sentimento?
4.2 Identifique o recurso estilístico aí presente.

5. O momento do encontro dos olhares foi decisivo na vida do sujeito poético.
Que consequências teve para ele?

6. Estabelece a relação de ideias que existe entre “facho do destino” e “fatal poder”.

7. Considera que este poema de Folhas Caídas é ilustrativo da concepção romântica do Amor e Mulher? Justifique a sua resposta.



Summer Rose Giclee Print

Onzeneiro

(...)

Vai-se à barca do Anjo e diz:
Hou da barca! Houlá! Hou!
Haveis logo de partir?
ANJO E onde queres tu ir?
ONZ. Eu pera o Paraíso vou.
ANJO Pois cant’eu mui fora estou
de te levar para lá.
Essa barca que lá está
vai pera quem te enganou.
ONZ. Porquê?
ANJO Porque esse bolsão
tomará todo o navio.
ONZ. Juro a Deus que vai vazio!
ANJO Não já no teu coração.
ONZ. Lá me fica de ródão
minha fazenda e alhea.
ANJO Ó onzena, como és fea
e filha de maldição!

Torna o Onzeneiro à barca do Inferno e diz:
ONZ. Houlá! Hou demo barqueiro!
Sabês vós no que me fundo?
Quero tornar lá ao mundo
e trarei o meu dinheiro.
Aqueloutro marinheiro,
por que me vê vir sem nada,
dá-me tanta borregada
como arrais lá do Barreiro.
DIA. Entra, entra! Remarás!
Nom percamos mais maré!

(…)
Entrando o Onzeneiro no batel, que achou o o Fidalgo embarcado, diz, tirando o barrete:
ONZ Santa Joana de Valdês!
Cá é vossa senhoria?
Fid. Dá ò demo a cortesia!
DIA. Ouvis? Falai vós cortês!
Vós fidalgo, cuidareis
que estais na vossa pousada?
Dar-vos-ei tanta pancada
Com um remo, que renegueis!

Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente



1. O Onzeneiro, tal como os outros réus, é alvo de acusações, das quais tenta desculpar-se.
1.1. Refere, por palavras tuas, os argumentos de acusação.

2. Parece-te que o Onzeneiro compreendeu as palavras do Anjo? Justifica com base no texto.

3. Atenta no último diálogo.
3.1. Como explicas as reacções do Onzeneiro e do Fidalgo relativamente um ao outro?
3.2. O Diabo acusa mais uma vez o Fidalgo.
3.2.1. Que aspecto é insinuado?

4. Que pretendeu Gil Vicente ao colocar esta personagem em cena?





O Torneio


Aquilo durava há duas horas. O ruído seco dos tiros ia embater contra a ribanceira da estrada, repercutindo com surdos fragores no cavername das pedreiras. O vento dispersava o cheiro da pólvora, e trazia também, dispersos, os aromas das matas, todas cheias de giesta branca e de baba-de-cuco. Era uma tarde de vento. As bancadas estavam cobertas duma areia muito alva, moída; os espectadores em vão sacudiam os cabelos ásperos de poeira, e se enrolavam nas abas dos seus agasalhos. Permaneciam como mercadores duma caravana, dobrados sobre si, aquecendo-se com o próprio bafo, desorientados do redemoinho da tormenta. O torneio, porém, prosseguia. Viam-se os atiradores, em grupo, junto à cancela pintada de verde; com os seus casacos de malha e os seus fechos de cremalheira, as espingardas incrustadas de prata, faziam gala dum certo estoicismo, um certo desconforto desportivo, conservando-se no lugar desamparado.
O campo, situado em terreno baixo, ao nível do rio, era circundado pelas vinhas; o vento fazia vibrar os arames onde se abraçavam as vides. Havia um sol claro e moribundo iluminando ainda os cimos, mas essa mesma luz comunicava uma impressão de inquietação, de tristeza e de frio, revelando assim os ermos, os caminhos talhados na terra maninha, os olivais crescidos nos socalcos gastos pela erosão. Entretanto, na prancha, concorrentes disputavam entre si os troféus, abatendo os pombos que partiam das gaiolas com um brusco ruflar de asas. Da tribuna de honra, coberta de zinco, as mulheres aplaudiam. Eram damizelas de vozes mimosas, muito empenhadas em sobressair da multidão, com as suas mãos lânguidas, o ar suficiente, levemente absorto, de quem encontra no tédio uma atitude. Da sua bancada, José, um pequeno visionário de sobretudo cor de rato ou, mais precisamente, cor de musaranho das águas, parecia absurdamente entretido com o torneio. "Lá vai" – dizia para si, vendo o pombo pintalgado de branco e cinza, que hesitava na borda da sua gaiola, antes de se alvoroçar e romper voo –, "lá vai, na direcção da nuvem e do vento, com intenção fervorosa mas inconsciente, como o próprio espírito de justiça dos homens..."
O pombo caiu, morto, deixando no ar um rasto de penas que foram tropeçando e como que palpitando sobre a lomba gris da vinhas. A multidão aplaudiu.
"Lá vai. Agora, célere e discreto, perpendicular à terra, com as fulvas cores de oiro e os azuis metálicos da sua bela plumagem. Lá vai, e é como uma projecção fulminante e fugaz, a afirmação da força e do poder..."
Porém, a ave despenhou-se do alto, veio rolando numa cambalhota grotesca, e ouviu-se o baque do seu corpo no solo, não muito longe, entre canaviais. A multidão aplaudiu.
"Ah!" – continuou o pequeno visionário. "Agora tu! Sobe, escapa-te mais subtil que um fio de brisa, mais veloz que o rasto que vai após uma estrela, confundido na luz, na sombra, no pó e na aragem.
Foge, alcança depressa as regiões altíssimas, os lugares perfeitos onde está em unidade o espírito do homem... Vai, pensamento, voa, sobe, atinge livremente os espaços inviolados..."
E o pombo voou. O seu colar cintilante, irisado, de pombo mensageiro, destacou-se com reflexos muito verdes no ar revolto pelo vento. Assim se distanciou e desapareceu. José aplaudiu. Isoladas, as suas palmas fizeram voltar todas as cabeças; houve um rumor de assombro, de troça, algumas frases picarescas. Como temia os olhares devassadores, os comentários vexatórios, discretamente, com muito tino, José levantou-se, e foi-se embora. O torneio que prosseguia, o vento desencadeado em rajadas mais violentas e que trazia, envolta com o pó, a flor da vinha, ocupavam todos os cuidados. Submerso naquele seu sobretudo precisamente cor de musaranho das águas, o pequeno visionário passou. Parece que ninguém o apontou nem reconheceu. E ele próprio pensava mais em não despertar a atenção de ninguém, do que no pombo que sobrevoara o rio como um dardo de prata e se projectara pelos espaços, insinuando-se e vencendo a direcção dos ventos.

Contos Portugueses Modernos (1984)


I

Divide o texto em sequências narrativas.

Resume o assunto de cada um dos momentos através de uma frase-síntese.

1. Sintetiza o assunto do texto.

2. Identifica o tempo em que decorre a acção.

3. Caracteriza o espaço do texto.

4. Caracteriza a(s) personagem(s) intervenientes na acção.

5. Justifica a relação que se estabelece no texto entre o José e o Pombo.

6. Relaciona o título do texto com o seu assunto.





7.11.09

Cap. XX


1. Relacione a carta de Teresa com o momento da acção de que constitui a lúgubre moldura.

2. Mostre que é a percepção da morte que organiza os sentidos deste texto.

3. Dividida a carta nas suas partes, resuma cada uma delas.

4. Confirme na carta de Teresa:
- os aspectos românticos.
- a dimensão metafísica e a fonte indestrutível do amor.
- a visão mística da vida além-túmulo.
- o sentimento romântico subjacente à descrição da paisagem.
-as funções emotiva e apelativa de linguagem, bem como as marcas linguísticas que as servem.

5. "Adeus! luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão!"
5.1. Interprete a relação dos amorosos "à luz" desse conceito.
5.2. Destaque a função principal das cartas trocadas entre Simão e Teresa "à luz" do amor "fatal" que os desgraçou.

6. Relacione os múltiplos aspectos explorados nas cartas com os modos narrativo, lírico e dramático que são já do seu conhecimento.





Frade

Vem um frade com ua Moça pela mão, e um Broquel debaixo do capelo; e ele, mesmo fazendo a baixa, começou de dançar, dizendo.
FRA. Tai-rai-rai-ra-rão, ta-ri-ri-rão, (…)
DIA. Que é isso, padre ? Que vai lá?
FRA. Deo gratias! Som cortesão.
DIA. Sabes também o tordião?
FRA. Porque não? Como ora sei!
DIA. Pois, entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.

Essa dama, é ela vossa?
FRA. Por minha la tenho eu,
E sempre a tive de meu.
DIA. Fezeste bem, que é fermosa!
E não vos punham lá grosa
no vosso convento santo?
FRA. E eles fazem outro tanto!
DIA. Que cousa tão preciosa!
Entrai, padre reverendo!
FRA. Para onde levais gente?
DIA. Pera aquele fogo ardente
que nom temeste vivendo.
FRA. Juro a Deus que não t’ entendo!
E este hábito no me val?
DIA. Gentil padre mundanal,
a Berzabu vos encomendo!
FRA. Ah, Corpo de Deos consagrado!
Pela fé de Jesu Cristo,
que eu nom posso entender isto!
Eu hei-de ser condenado?
Um padre tão namorado
e tão dado à virtude? (…)
Como? Por ser namorado
e folgar com ua mulher
se há um frade de perder,
com tanto salmo rezado?

(...)

Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente


I

1. O Frade entra em cena com vários elementos.
1.1. Explica o significado desses elementos.

2. Apresenta os argumentos de defesa do Frade.

3. Transcreve do texto um exemplo de:
a) ironia
b) eufemismo

4. Nesta cena, há vários tipos de cómico.
4.1. Identifica-os, apresentando exemplos.


II

1. Identifica e classifica os fenómenos fonéticos ocorridos nas seguintes palavras:
a) ibi > ii > aí
b) patrem > patre > padre
c) clamar > chamar


III

1. Comenta a seguinte frase:
No teatro vicentino temos um espelho crítico da sociedade da época.




5.11.09

Cap. VIII




1. Situe o texto na intriga da novela.

2. Detendo-se sobre Mariana, caracterize esta personagem indicando:
- a ligação que a unirá a Simão;
- os papéis que desempenhará junto do protagonista;
- os pormenores realistas na construção deste personagem;
- a relação que mantém com o pai, João da Cruz;
- a importância da longa intervenção dirigida a Simão.

3. Saliente, justificando a sua presença no texto, os níveis de língua patentes nas falas de João da Cruz (e Mariana), por um lado, e Simão, pelo outro.

4. Recorde o que o narrador afirma sobre algumas das personagens.
4.1. Tendo por base a caracterização directa feita pelo narrador, bem como o papel e função das personagens na acção, compare:
- Mariana a Teresa;
- Simão a Baltasar Coutinho.

5. "O rosto de Mariana acerejou-se quando aquela última palavra saiu [...]" "Neste lance, um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Mariana um clarão de inocente alegria" (cap. VIII)
5.1. Explicite o conflito íntimo vivido por Mariana, justificando a sua humanidade e complexidade.
5.2. Descubra as diversas formas da particular atenção que o narrador dedica a Mariana.
5.3. Explore as consequências dessa postura na construção e caracterização da personagem.


Teste global




1. Refere os aspectos que conferem a esta obra as características de uma novela.
2. Indica o acontecimento real inspirador da construção da acção da obra.
3. Aponta os elementos que contribuem para a verosimilhança da acção narrada.
3.1. Comenta o seu valor, tendo em conta o momento em que surgem, ao nível da estrutura interna da novela.
4. Na Introdução, o narrador afirma que Simão Botelho "(...) amou, perdeu-se e morreu amando".
4.1. Relaciona esta frase com a estrutura da narrativa.
5. Encontramos, nesta obra de Camilo Castelo Branco, uma acção fechada e uma acção aberta.
5.1. Justifica a afirmação apresentada.
6. Num pequeno texto, menciona os aspectos mais relevantes em relação à caracterização de Simão Botelho.
7. Compara, ao nível da caracterização de personagens, o par feminino Teresa de Albuquerque e Mariana.
8. João da Cruz é o protótipo do "bom bandido". Ele é também considerado a personagem mais autêntica da obra.
8.1. Comenta estas afirmações, explicitando-as através da recorrência a fragmentos textuais.
9. O triângulo oponente à realização do amor entre Simão e Teresa é constituído por Tadeu de Albuquerque, Domingos Botelho e Baltasar Coutinho.
9.1. Refere as motivações que dominam estas personagens.
9.2. Indica o significado do comportamento destas personagens, tendo em conta a escala de valores sociais vigente na época.
10. Assistimos, nesta obra, a uma diminuição significativa do espaço físico em que as personagens principais se movimentam. 10.1. Estabelece a relação entre o afunilamento do espaço físico e a acção trágica.
11. Evidencia o valor simbólico (antitético) das grades e do mar.
12. Menciona a crítica que, através da narrativa dos amores funestos de Simão e Teresa, esta obra apresenta em relação ao código ideológico e social da época.
13. Sintetiza as formas como são trabalhados, nesta obra, o tempo diegético e o tempo do discurso.
14. Relaciona o tipo de focalização predominante com a tipologia da obra.
15. Indica os elementos presentes ao nível da acção e que, à semelhança das tragédias clássicas antigas, conferem a esta obra uma dimensão trágica.
16. O misticismo cristão aparece, na obra, como uma perspectiva existencial.
16.1. Comenta esta afirmação, justificando as tuas afirmações através da recorrência a fragmentos textuais específicos.
17. As cartas conferem a esta novela a sua dimensão poética.
17.1. Refere as características do género lírico que se evidenciam neste tipo de texto.
17.2. Relaciona o seu conteúdo com a dimensão trágica da novela.
18. Distingue, na obra, os valores que se associam inequivocamente à realidade de ser português, daqueles que conferem a esta novela o seu carácter universal.
19. Enuncia as principais características do estilo camiliano, patentes nesta obra.
20. Numa composição cuidada, refere a actualidade da novela Amor de Perdição.