31.10.09

Aquela triste e leda madrugada



Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se de ũa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que, duns e doutros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões



I

1. A primeira estrofe enuncia o propósito do sujeito poético.
1.1. Identifica o vocábulo que exprime esse propósito.
1.1.1. Classifica-o morfologicamente.
1.2. Especifica o desejo expresso pelo sujeito poético.

2. “Ela” inicia as três estrofes seguintes.
2.1. Indica o nome a que se reporta o “ela”.
2.2. Relaciona a repetição do pronome com o propósito enunciado na primeira estrofe.

3. A madrugada é caracterizada, na primeira estrofe, por uma antítese.
3.1. Identifica-a.
3.2. Explica por que razão a madrugada nos é apresentada com este estado de espírito contraditório.

4. Apresenta os recursos estilísticos que ajudam na caracterização da madrugada.

5. A madrugada surge como testemunha de um acontecimento.
5.1. Descreve a cena testemunhada.

6. Faz a análise formal do texto poético.

II

1. Sublinha no texto as conjunções aí presentes.
1.1. Classifica-as.
1.2. Explica o seu valor expressivo.


III

Num texto bem organizado, mostra como Camões, apesar de autor da Renascença, soube aproveitar a tradição do lirismo peninsular. Deves enriquecer a tua resposta com referências a leituras que fizeste da poesia camoniana.

Destino

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett, Folhas Caídas




1. Monólogo lírico em que o Eu se dirige a um Tu, que se pressupõe presente.
1.1. Faça o levantamento das várias interrogações que o Eu apresenta.
1.2. Que pretende o poeta mostrar com as sucessivas interrogações?

2. Releia a última estrofe.
2.1. Relacione o título do poema com o conteúdo da última estrofe.
2.2. Refira o valor expressivo das figuras de estilo utilizadas pelo poeta para evidenciar o sentido da última estrofe.
2.3. A nível de estrutura interna, que relação pode estabelecer entre o sen¬tido desta estrofe e o dos versos anteriores?

3. Comente o carácter dramático/interpelativo que o discurso lírico apresenta.


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30.10.09

Anjo és

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Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua frente anuviada
Não vejo a c'roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d'amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. - Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes - e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lágrima? - Escaldou-me
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?


Almeida Garrett, Folhas Caídas


I

1. Divida o poema em partes e identifique a imagem da mulher que parece traçar-se em cada uma delas.
2. Explicite o assunto do poema.
3. O sujeito poético revela sentimentos que se alteram no decorrer da visão que tem da mulher.
3.1. Identifique essas reacções sentimentais.
3.2. Mostre a expressividade da pontuação na decifração dessas reacções.


II

1. Em várias das palavras transcritas, abaixo, um mesmo fonema é representado por consoantes diferentes. Transcreva as palavras e sublinhe as consoantes, tomando como exemplo solução, onde o s e o ç representam o mesmo fonema.
exorcizar, exigir, eficácia, julgamento, solicitude, cônjuge, oxigénio, zeloso, química, zoologia, memória, clínico.

2. Construa uma frase complexa que contenha uma proposição relativa e que integre o conteúdo das duas frases simples que se seguem:
Este poema de Garrett revela uma grande sensualidade a sensualidade é uma característica da obra Folhas Caídas.


III

Num texto informativo-expositivo, fale da expressão de sentimentos na poesia lírica, portuguesa ou estrangeira, recorrendo a leituras feitas.





29.10.09

Constantino Guardador de vacas e de sonhos




O pai via-o amuado pelos cantos e perguntava às mulheres da casa:
- Que diabo tem o rapaz?
E, como ninguém lhe explicasse aquela tristeza, trouxe-o uma tarde para junto do Tunante, o cão guardador do curral das vacas.
Ali se puseram em conversa.
Foi a primeira conversa a sério que o Silvestre Cuco teve com o filho. Este nunca mais esqueceu tal dia, em que fez uma das descobertas mais surpreendentes da sua vida.
Falaram de homem para homem. Sim, senhor, de homem para homem, e o Constantino sabe bem o que lhe custou essa conquista. Quando se abriu com o pai para lhe confessar que a mãe não gostava dele por causa do nariz, apareceu-lhe de repente nos olhos uma grande vontade de chorar. Embargou-se-lhe a voz, as palavras começaram a sair todas cortadas, e vai então o pai disse-lhe assim:
- Um homem nunca chora, mesmo que veja as tripas doutro na mão...
Apressado, o Constantino deitou a ponta dos dedos a umas lágrimas que queriam rebentar, e ali mesmo as esmagou, segurando as outras todas que já vinham numa carreirinha para fazerem o pranto. Baixou a cabeça por instantes, erguendo-a depois com um sorriso. Encararam-se, o pai animou-o com um olhar que ele conhecia, e o Constantino percebeu que ganhara nesse dia o seu melhor camarada.


Alves Redol, Constantino, Guardador de vacas e de sonhos, 1962



I

1. Diz qual é o assunto do texto.
2. Por que razão andava o Constantino amuado ?
3. Qual foi a surpreendente descoberta que o Constantino fez naquele dia ?
4. Depois de leres o texto com atenção, resume-o.


5. Classifica morfologicamente as palavras seguintes:
Que
tristeza
-o
Ali
Este
Sua
Bem
Não
Veja
Chora

6. Diz quais são as regras que motivam a acentuação gráfica das palavras seguintes:
ninguém
lágrimas
caíram
açúcar
Luís

7. Diz, justificando, quais são os recursos de estilo presentes nas seguintes expressões do texto:
a) «Quando se abriu com o pai»
b) «as palavras começaram a sair todas cortadas»
c) «umas lágrimas que queriam rebentar»



Adeus!


Adeus!, para sempre adeus!,
Vai-te, oh!, vai-te, que nesta hora
Sinto a justiça dos Céus
Esmagar-me a alma que chora.
Choro porque não te amei,
Choro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem no sei,
Mas tu... tu nada perdeste:
Que este mau coração meu
Nos secretos escaninhos
Tem venenos tão daninhos
Que o seu poder só sei eu.

Oh!, vai... para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos Céus.
Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa víbora medonha
Que por seu fatal condão
Há-de rasgá-lo ao nascer:
Há-de, sim, serás vingada,
E o meu castigo há-de ser
Ciúme de ver-te amada,
Remorso de te perder.

Vai-te, oh!, vai-te, longe, embora,
Que sou eu capaz agora
De te amar - Ai!, se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
Deste peito se ateasse
De amor o incêndio fatal!
Mais negro e feio no Inferno
Não chameja o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso? – Ai, triste!
Não sabes o que pediste.
Não te bastou suportar
o cepo-rei; impaciente
Tu ousas a deus tentar
Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?
Enganas-te: é morta, é finda,
Dissipada é a ilusão.
Do meigo azul de teus olhos
Tanta lágrima verteste,
Tanto esse orvalho celeste
Derramado o viste em vão
Nesta seara de abrolhos,
Que a fonte secou. Agora
Amarás... sim, hás-de amar,
Amar deves... Muito embora...
Oh!, mas noutro hás-de sonhar
Os sonhos de oiro encantados
Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?
Se em meus olhos encovados
Der a luz de teus ardores...
Se com ela cegarei?
Se o nada dessas mentiras
Me entrar pelo vão da vida...
Se, ao ver que feliz deliras,
Também eu sonhar ...Perdida,
Perdida serás - perdida.

Oh!, vai-te, vai, longe, embora!
Que te lembre sempre e agora
Que não te amei nunca... ai!, não:
E que pude a sangue-frio,
Covarde, infame, vilão,
Gozar-te – mentir sem brio,
Sem alma, sem dó, sem pejo,
Cometendo em cada beijo
Um crime... Ai!, triste, não chores,
Não chores, anjo do Céu,
Que o desonrado sou eu.

Perdoar-me, tu?... Não mereço.
A imundo cerdo voraz
Essas pérolas de preço
Não as deites: é capaz
De as desprezar na torpeza
De sua bruta natureza.
Irada, te há-de admirar,
Despeitosa, respeitar,
Mas indulgente... Oh!, o perdão
É perdido no vilão,
Que de ti há-de zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la:
Alta está no firmamento
De mais, e de mais é bela
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
Donde me vem sangue às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra - e não cabe
Nele uma ideia dos Céus ...
Oh!, vai, vai; deixa-me adeus!

Almeida Garrett, Folhas Caídas

The Love Letter Giclee Print

I

1. Refere qual o “castigo” do EU.

2. Explica a recorrência da repetição dos lexemas “adeus” e “vai(-te)”.

3. Faz levantamentos textuais que mostrem o fascínio do EU pelo TU e do TU pelo EU.

4. Identifica uma das dicotomias referentes ao AMOR.

5. Indica algumas marcas de oralidade.



II


Tendo em conta que a poesia garrettiana revela um espírito renovador, não só quanto à concepção da mulher amada e do amor, mas também quanto aos aspectos formais, numa composição cuidada (mínimo 90 e máximo 110 palavras), refere-te à nova sensibilidade e à nova expressão poética, evidenciadas na lírica de Almeida Garrett.

28.10.09

Ignoto Deo

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu.
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência!, a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirado se afasta,
Ignoto Deus, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prosto e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro – confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só 'spera.

Almeida Garrett, Folhas Caídas



1. Detecte vestígios do amor platónico.

2. Relacione o poema com a referência que o poeta lhe faz na Advertência.

3. Faça o levantamento das marcas da segunda pessoa.

4. Estabeleça, a nível do conteúdo e da forma, a relação platonismo/tu.

5. Identifique as oscilações do EU ao longo do poema.

6. Refira as dicotomias existentes.

7. Demonstre que o poeta desce ao materialismo da existência, mas que, apesar de tudo, dá-se uma ascese.

8. Procure identificar no texto a alegoria desta ascese.

9. Justifique o facto de a nostalgia de um paraíso perdido aparecer no poema que abre a colectânea.



27.10.09

Sonho de D. Manuel (C.IV, 68-74)


68
«Estando já deitado no áureo leito,
Onde imaginações mais certas são,
Revolvendo contino no conceito
De seu oficio e sangue a obrigação,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
Sem lhe desocupar o coração;
Porque, tanto que lasso se adormece,
Morfeu em várias formas lhe aparece.

71
«Das águas se lhe antolha que saíam,
Pera ele os largos passos inclinando,
Dous homens, que mui velhos pareciam
De aspeito, inda que agreste, venerando;
Das pontas dos cabelos lhe saíam,
Gotas, que o corpo todo vão banhando;
A cor da pele, baça e denegrida,
A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.

73
«Este, que era o mais grave na pessoa,
Destarte pera o Rei de longe brada:
"Ó tu, a cujos reinos e coroa
Grande parte do mundo está guardada,
Nós outros, cuja fama tanto voa,
Cuja cerviz bem nunca foi domada,
Te avisamos que é tempo que já mandes
A receber de nós tributos grandes.

74
"Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
Celeste tenho o berço verdadeiro;
Estoutro é o Indo, Rei, que, nesta serra
Que vês, seu nacimento tem primeiro.
Custar-te-emos, contudo, dura guerra;
Mas, insistindo tu, por derradeiro,
Com não vistas vitórias, sem receio
A quantas gentes vês porás o freio."

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IV



I

1. Que simboliza o sonho de D. Manuel?

2. Quem são os «Dous homens» e que representam eles?

3. Que disse o Ganges a D. Manuel?

4. Que resolução tomou D. Manuel depois do sonho?

5. Diga o que entende por «seu oficio e sangue» e «cerviz».

6. Identifique a figura de estilo presente a partir da estância 73 e comente o seu valor expressivo.

7. Faça a análise formal (estrofe, métrica e rima) da estância 71.

8. Atente nos seguintes versos: «Eu sou o ilustre Ganges, que na terra / Celeste tenho o berço verdadeiro».

8.1. Divida e classifique as orações.

8.2. Faça a análise sintáctica da primeira oração.

8.3. Dê um sinónimo de berço de acordo com o significado na frase.


II

Numa composição cuidada, fale da influência dos textos clássicos em Os Lusíadas, em especial dos textos greco-latinos, e relacione-a com o episódio do sonho de D. Manuel.


500+anos+descoberta+caminho+marítimo+�ndia+1.bmp (image)[500+anos+descoberta+caminho+marítimo+�ndia+1.bmp]



23.10.09

O sal e a água

Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas, por sua vez, qual era a mais sua amiga.
A mais velha respondeu:
- “Quero mais a meu pai do que à luz do sol”.
Respondeu a do meio:
- “Gosto mais de meu pai do que de mim mesma”.
A mais moça respondeu:
- “Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal”.
O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia; foi passando, até que foi chamada a cozinheira e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
Começou então a espreitá-la porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas do noivado convidou-se o rei que tinha três filhas e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que nada comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não comia. Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
- “É porque a comida não tem sal”.
O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

Teófilo Braga, in Contos Tradicionais Portugueses


I

1.O texto apresentado é um conto tradicional.
1.1. Define conto tradicional.

2. Identifica os protagonistas da história.

2.1.Refere duas características psicológicas de cada uma dessas personagens, justificando as tuas escolhas.

3. (…) mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda.
3.1. Explica porquê.

4. Transcreve do texto duas expressões que comprovem que o tempo e o espaço são indefinidos.

5. Tratando-se de um conto tradicional, é natural que este texto contenha palavras e expressões de sabor popular.
5.1. Transcreve dois exemplos.

6. Explica por palavras tuas a moral transmitida neste conto.

7. Classifica o narrador quanto à posição e participação.



A Imitação da Rosa

CLARICE LISPECTOR, Laços de Família


Mas agora que ela estava de novo “bem”, tomariam o ônibus, ela olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele, e depois jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com intimidade. Há quanto tempo não via Armando enfim se recostar com intimidade e conversar com um homem? A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais. Enquanto isso ela falaria com Carlota sobre coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de Carlota, recebendo enfim de novo a desatenção e o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural, e não mais aquele carinho perplexo e cheio de curiosidade — vendo enfim Armando esquecido da própria mulher. E ela mesma, enfim, voltando à insignificância com reconhecimento. Como um gato que passou a noite fora e, como se nada tivesse acontecido, encontrasse sem uma palavra um pires de leite esperando. As pessoas felizes ajudavam a fazê-la sentir que agora estava “bem”. Sem a fitarem, ajudavam-na activamente a esquecer, fingindo elas próprias o esquecimento como se tivessem lido a mesma bula do mesmo vidro de remédio. Ou tinham esquecido realmente, quem sabe? Há quanto tempo não via Armando enfim se recostar com abandono, esquecido dela? E ela mesma?


Do princípio do conto A Imitação da Rosa



1. Segundo a narradora qual era a paz de um homem?
2. Como é que as pessoas ajudavam a narradora a fazê-la sentir que agora estava “bem”?
3. As mulheres são em geral as personagens principais nos contos de Laços de Família. Comenta.

22.10.09

O auto-retrato



Eu sei que não vou sair disto tudo muito bem vista. Eu sei que devia ser uma rapariga muito
simpática e bem educada, sim senhora, não senhora, ora essa, faça favor, obrigadinha e desculpe.
Maria João uma sua criada.
Como a Vitória do lado, por exemplo.
Um poço de virtudes, a Vitória do lado.
Às vezes chego a pensar que o poço é tão profundo, mas tão profundo, que se um dia a Vitória do lado cai lá para dentro, se apaga no meio de tanta virtude.
Bom, mas isso é lá com ela.
As minhas virtudes, coitadas, é que não são coisa que se veja a olho nu. Acho mesmo que só a microscópio se deve conseguir descobrir alguma.
Para lá de não ser nenhum poço de virtudes (nem charco, quanto mais poço) tenho de confessar que sou feiota. Para já sou alta de mais para os meus 14 anos o que faz, por um lado, que a malta toda lá da escola comece com aquelas graças parvas, “então como é que está o tempo lá em cima?”, “quando chegares cá abaixo fecha o pára-quedas”, coisas assim, vocês sabem: e, por outro lado, faz com que cada vez que a minha mãe ou o meu pai (que nisto, benza-os Deus!, são iguaizinhos) me apresentam a qualquer desconhecido lá das relações deles, avancem logo com a frase “por este andar não sei onde é que ela vai parar”.
Tenho óculos graduados, tenho a mania dos livros, e sobretudo do teatro que vai ser a carreira em que eu vou brilhar para o resto da vida. Nada me dá mais prazer do que decorar tiradas enormes de peças e depois dizê-las diante do espelho, mãos para cima, mãos para baixo, mãos a bater no peito, mãos a bater na testa, desmaios q. b. (este q.b. quer dizer “quanto baste” e aprendi no livro de receitas da minha mãe, o que prova que em toda a par-te se aprende...).
É claro que quando falo no meu destino de actriz, o Gil Eanes diz sempre que só se me cortarem as pernas ao meio, porque nunca viu nenhuma ingénua com um metro e setenta, a Ter de se enrolar toda para conseguir poisar a cabeça a chorar no ombro do seu amado. Mas o Gil Eanes é parvo, não conta. E, para além de ser parvo, acho que nunca entrou num teatro em dias da vida dele.
Devo ainda dizer que não sou lá muito simpática. Quer dizer: não sou daquelas que por tudo
e por nada (quase sempre por nada) andam às festinhas, aos beijinhos, ai que linda que tu és, ai que eu gosto tanto de ti, tens calendários para troca, coisas assim. Não, isso realmente eu não sou.

Alice Vieira, Úrsula a Maior



I


1.1. Refere o autor (pessoa que cria a história) e o local de onde a história foi retirada.
1.2. De que tipo de narrador trata a história.
1.3. Quais as personagens que participam na história.
1.4. Caracteriza as personagens.
1.5. A caracterização das personagens no texto foi feita pelo narrador ou por uma análise do comportamento das personagens.
1.6. Procede à caracterização do espaço (onde) e do tempo (quando):
1.7. Este texto é uma narrativa aberta ou uma narrativa fechada?

2. Elabora frases do tipo Declarativo (.), Interrogativo (?), Imperativo (.) e Exclamativo (!) e
de forma Afirmativa e Negativa.

3. Classifica as palavras quanto à acentuação (agudas, graves ou esdrúxulas):
3.1. Também
3.2. Página
3.3. Mania
3.4. Mãe
3.5. Público
3.6. João

4. Classifica as palavras, conforme o número de sílabas (monossílabas uma só sílaba; dissílabo duas sílabas; polissílabo mais de duas sílabas):
4.1. pão
4.2. Cair
4.3. exemplar

5. Divide as sílabas por translineação (partição das palavras pela soletração):
5.1. Cinema
5.2. Psicologia
5.3. Professor
5.4. Facto
5.5. Acto
5.6. Atleta

6. Forma a partir das palavras primitivas: água, mar, chuva, palavras derivadas:
6.1. Água:
6.2. Mar:
6.3. Chuva:


7. Classifica, quanto à composição, as palavras:
7.1. Passaporte
7.2. Amor-perfeito
7.3. Guarda-chuva
7.4. Pontapé

8. Classifica as palavras seguintes quanto aos afixos (prefixos e sufixos):
8.1. Desfazer
8.2. Aguar
8.3. Irreal

9. Forma um campo semântico da palavra JARDIM:

21.10.09

Questionário global




Com base no estudo feito sobre o Auto da Barca do Inferno responde ao seguinte questionário de forma a testar os teus conhecimentos gerais sobre a obra.



1. Indica o motivo que levou Gil Vicente a escrever este auto.

2. Explica a razão que o terá levado a escrevê-lo sob a forma de moralidade.

3. Ao longo do Auto, o Diabo e o Anjo mantêm a sua postura. Indica as características do Diabo e
relaciona-as com os recursos estilísticos mais frequentes na sua linguagem.

4. Explica a razão que leva o Diabo a actuar da forma que referiste anteriormente.

5. A maioria das personagens vai para o Inferno. Diz como aceitam elas esse julgamento.

6. Explica o que são personagens-tipo e qual a razão que levou Gil Vicente a introduzi-las na sua obra.

7. Como sabes cada personagem fala predominantemente a língua da classe a que pertence.
7.1. Dá um exemplo de utilização de gíria profissional por parte de uma personagem.
7.2. Indica o registo de língua falado pelo parvo.

8. Indica os tipos de cómico que encontraste neste auto.
8.1. De todos eles, diz qual te divertiu mais e explica o porquê.

9. Concordas, em todos os casos, com os destinos escolhidos por Gil Vicente para as personagens?
9.1. Explica a tua resposta.


A Fada Oriana



Era uma vez uma fada chamada Oriana. Era uma fada boa e muito bonita. Vivia livre, alegre e feliz, dançando nos campos, nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias.
Um dia a Rainha das Fadas chamou-a e disse-lhe:
- Oriana, vem comigo.
E voaram as duas por cima de planícies, lagos e montanhas. Até que chegaram a um país onde havia uma grande floresta.
- Oriana - disse a Rainha das Fadas - Entrego-te esta floresta. Todos os homens, animais e plantas que aqui vivem, de hoje em diante ficam à tua guarda. Tu és a fada desta floresta. Promete-me que nunca a hás-de abandonar.
Oriana disse:
- Prometo.
E daí em diante Oriana ficou a morar na floresta. De noite dormia dentro do tronco dum carvalho. De manhã acordava ainda antes das flores e dos pássaros. O seu relógio era o primeiro raio de sol. Porque tinha muito que fazer. Na floresta todos precisavam dela. Era ela que prevenia os coelhos e os veados da chegada dos caçadores. Era ela que regava as flores com orvalho. Era ela que tomava conta dos onze filhotes do moleiro. Era ela que libertava os pássaros que tinha caído nas ratoeiras.
À noite, quando todos dormiam, Oriana ia para os prados dançar com as outras fadas.


I

1. Qual é o nome próprio da personagem principal do texto?

2. Quem chamou a Oriana?

3. Por onde voaram Oriana e a Rainha das fadas?

4. O que pediu a Rainha das fadas à Oriana?

5. Quais eram as tarefas da fada Oriana?

6. Como sabia a Oriana que já estava na altura de ir “trabalhar”?

7. Descreve a Orianaatendendo a:
Características
Tarefas
Onde dançava?

8. Retira uma frase do texto que diga o que a Oriana fazia à noite.

9. Conta a história por palavras tuas.