30.6.09

Ó mão não de cristal, não mão nevada




ÀS POESIAS QUE SE FIZERAM A UMA
QUEIMADURA DA MÃO DE UMA SENHORA

Ó mão não de cristal, não mão nevada,
Mão de relógio sim, pois que pudeste
Nesta mísera terra em que naceste
Fazer dar tanta infinda badalada.

Que mão de almofariz enxovalhada
Foi tal, como tu foste, ó mão celeste,
Pois foste, quando mais resplandeceste,
Em tantas de papel tão mal louvada.

Nem de Cévola a mão negra e grosseira,
Queimada entre morrões publicamente,
Merecia tão míseras poesias.

Mas louvo-as de subtis em grã maneira,
Pois que para apagar a flama ardente
Se fizeram de indústria assi mo frias.

D. Tomás de Noronha, Fénix Renascida



I

1. D. Tomás de Noronha ficou conhecido como um dos principais poetas satíricos do período barroco. Comprove esta afirmação tendo em conta o poema que acabou de ler.

2. Em que medida é que este poema confirma a opinião geral de que os poetas barrocos se dedicavam a escrever sobre assuntos de pouca importância?

3. D. Tomás de Noronha, ao criticar os poetas seus colegas, não estará a cair no mesmo erro que eles? Justifique a sua resposta.

4. Comente o título do poema e relacione-o com a temática do mesmo.

5. Indique no poema aspectos formais próprios da estética barroca.

6. Faça uma breve apreciação estilística do poema.

7. Proceda à análise da sua estrutura externa.

8. Explique os fenómenos fonéticos presentes nas seguintes palavras: naceste e grã.


II

Num máximo de quinze linhas, fale do Barroco como período estético e literário, relacionando-o com o contexto político-cultural da época em Portugal.



28.6.09

Entontecido... Manuel da Fonseca


Entontecido
como asa que se abre para o azul
abarco a Vida toda
e parto
para os longes mais longes das distâncias mais longas
sei lá de que destinos ignorados!
Como pirata à hora da abordagem
grito e estremeço
liberto!
Grito e estremeço
perdido o sentido das pátrias
e a cor das raças,
livre para todos os caminhos dos homens!
Inebriado de posse
vou contigo, Vida,
como se fosses a minha namorada
e eu te levasse inteira nos meus braços!

Manuel da Fonseca, Poemas Completos, Forja


I


1. Ao longo do poema, o sujeito poético exprime:
.. O sonho da omnipotência
.. A euforia da liberdade
.. A partida para um destino concreto

2. A palavra “Vida” está com letra maiúscula porque:
.. É um substantivo comum
.. É um valor supremo para o poeta
.. Não se refere à vida terrena

3. Através da pontuação utilizada, o poeta revela:
.. Emoção
.. Revolta
.. Euforia
.. Indiferença
.. Desânimo

4. Retira do texto palavras do campo lexical de “totalidade”.

5. Refere sinónimos de:
.. “entontecido” (v.1)
.. “abarco” (v.3)
.. “Ignorados” (v.6)
.. “inebriado” (v.14)

Refere antónimos de:
.. “abarco” (v.3)
.. “parto” (v.4)
.. “ignorados” (v.6)
.. “liberto” (v.9)


6. Estabelece a correspondência entre as expressões e os recursos estilísticos:
.. Comparação
.. Apóstrofe
.. Personificação
.. hipérbole

.. “como asa que se abre” (v.2)
.. “abarco a Vida toda” (v.3)
.. “vou contigo, Vida” (v.15)
.. “como se fosses a minha namorada” (v.16)

7. Classifica morfologicamente os vocábulos da seguinte expressão: “e eu te levasse inteira nos meus braços!” (v.17):

8. A partir da palavra “inteira” (v.17) forma um advérbio de modo:
8.1. refere o processo de formação que utilizaste:
9. Constrói duas frases com palavras homógrafas de:
.. “para” (v.2)
.. “cor” (v.12)

10. Escreve uma composição (cerca de 15 linhas) optando por um dos seguintes temas:
.. Sou feliz...sou livre!
.. Naquele sonho, eu era uma águia.




Do sonho à realidade




Nill nasceu no Brasil.
Tem a pele morena, cabelo encaracolado e uns olhos grandes. Fala com voz doce e quando canta lembra água fresca, brilho de estrelas, caminhos verdes.
No dia em que fez oito anos, pediu à Mãe que lhe desse uma viola, porque o que ele gostava mais do que tudo na vida era de cantar, de dizer palavras bonitas que ele vestia de sons e lhe alegravam o coração.
— O pai está desempregado mas logo que consiga trabalho tu terás o teu violão.
A pensar nisto, pegou na sua velha lata de Coca-cola vazia que enchera de pedras pequeninas e foi para a rua. Aquela lata era o seu violão e o seu pandeiro. Dela tirava a música com que sonhava.
Atravessou a rua, foi para os terrenos baldios e sentou-se numa pedra, sempre chocalhando a lata. Estava triste. Dia de anos não podia, não devia ser igual aos outros mesmo para criança pobre. Era bom que viesse uma fada com varinha de condão e dissesse:
— Toma Nill! Aqui tens uma prenda.
Zangado com a vida, Nill pegou na lata de pedrinhas. Com raiva atirou-a para longe, lá para o meio do mato e ali ficou a pensar.
O sol parecia um desenho de menino em caderno de escola.
Quando se lembrou da sua lata, a raiva já tinha passado e era noite. Então disse, do mais fundo do seu coração:
— Oh! Minha Nossa Senhora! Ajudai-me a encontrá-la!
E, nesse instante, aconteceu uma coisa maravilhosa: do céu surgiu uma luz dourada e azul, acompanhada de um zumbido de abelhas com uma música que nenhum violão já tocara.
Nill esfregou os olhos. Estaria a sonhar? E que, mesmo à sua frente, estava a lata e brilhava como se fosse de ouro ou feita de sol. Aproximou-se e pegou nela. Encostou-a ao coração que batia forte. Depois, a luz começou a subir, ficando ainda um bocado sobre ele, acendendo e apagando. De repente, desapareceu.
Nill correu para casa. Não contou nada. Ninguém acreditaria.
No dia seguinte, o noticiário da televisão informou que, na véspera, passara por ali um disco voador. Agora, todas as noites, Nill sobe ao terraço e olha as estrelas na esperança de ver de novo essa luz. E basta-lhe a pequena lata, que os irmãos do espaço iluminaram, para ser feliz.

Maria Rosa Colaço, O Coração e o Livro


I

1. O texto inicia-se com uma referência ao herói desta narrativa.
1.1. Caracteriza-o, indicando os seguintes elementos:
Nome
Nacionalidade
Idade referida
Língua que fala
Aspecto físico

2. Mas o encanto do rapaz advém-lhe, sobretudo, de características muito especiais que possui.
2.1. Indica-as.

3. Certo dia, ele pediu à mãe uma viola.
3.1. Quando é que isso aconteceu?
3.2. Que reacção teve a mãe do jovem?
3.3. O que significa para ele essa viola?

4. E ali, no meio do mato, Nill ficou a meditar, até que se fez noite.
4.1. De que é que o rapaz se lembrou, de repente ?
4.2. Completa a seguinte afirmação com as três palavras-chave que consideras mais adequadas.
Nessa altura, Nill sentiu...

aflição - amor - arrependimento - espanto - esperança - fé - expectativa - raiva - ternura

4.3. A quem solicitou ele ajuda?
4.4. Terá sido essa entidade quem lhe valeu? Justifica a tua resposta.
4.5. Transcreve do texto as palavras / expressões que referem o modo como aconteceu aquele "milagre".

5. O rapazito nem queria acreditar no que, de repente, lhe estava a acontecer.
5.1. Indica a veracidade (V) ou falsidade (F) das seguintes afirmações.

1. Nill tinha a certeza de que tudo era um sonho. 2. Uma luz dourada incidia na lata de coca-cola. 3. Por isso, o rapaz não conseguia vê-la. 4. Uns extraterrestres tinham ouvido o seu apelo. 5. Mas esses seres não tiveram pena dele. 6. Feito o "milagre", Nill viu-os partir.

6. Tendo recuperado a sua lata, o moço, contentíssimo, regressou a casa.
6.1. Que decisão tomou ele, então?
6.2. Se fosses tu, como terias agido?
6.3. Quando e como percebeu Nill o que se tinha passado?

7. A partir dali, aquela realidade fantástica tornou-se para o jovem uma bela recordação.
7.1. O que passou ele a fazer, a partir dessa noite?
7.2. Que sente Nill, todas as vezes que recorda o que lhe aconteceu?

8. Agora que conheces melhor o Nill, caracteriza-o psicologicamente com base em elementos do
texto.

9. Mas Nill não é a única personagem desta narrativa.
9.1. Identifica a personagem secundária nela presente.
9.2. Indica o tipo de narrador e justifica a tua classificação.


II
1. « Aquela lata era o seu violão …»
1.1. Identifica a subclasse dos determinantes destacados.
aquela :
o :
seu :

2. « Nill esfregou os olhos. Estaria a sonhar? E que, mesmo à sua frente, estava a lata e brilhava como se fosse de ouro ou feita de sol. Aproximou-se e pegou nela. Encostou-a ao coração que batia forte. »
2.1. No texto, acima transcrito, encontram-se três pronomes. Sublinha-os e transcreve-os
conforme a sua subclasse.
____________ : contracção da preposição em + pronome pessoal complemento
____________ : pronome pessoal complemento (referente ao Nill)
____________ : pronome pessoal complemento (referente à lata)


2.2. Reescreve as frases utilizando os pronomes indicados para evitar as repetições.
a) Nill nasceu no Brasil. Nill tem a pele morena. (pronome pessoal sujeito)
b) Nill falou com a mãe e pediu uma coisa à mãe. (pronome pessoal complemento)
c) A mãe deu-lhe uma prenda. Ele não gostou da prenda. (pronome relativo)

4. Identifica a classe e subclasse das palavras destacadas no texto, completando o quadro.

No dia em que fez oito anos, pediu à Mãe que lhe desse uma viola, porque o que ele
gostava mais do que tudo na vida era de cantar, de dizer palavras bonitas que ele vestia de sons e lhe alegravam o coração.

1. dia
2. oito
3. lhe
4. uma
5. ele
6. na
7. cantar
8. palavras
9. bonitas
10. o


a. contracção da preposição em + o artigo definido a
b. adjectivo qualificativo no feminino / singular
c. determinante numeral
d. nome comum no feminino / plural
e. pronome pessoal complemento
f. artigo definido no masculino / singular
g. artigo indefinido
h. nome comum no masculino / singular
i. pronome pessoal sujeito
j. verbo


A Estrela


A estrela ainda lá está.
Toda a aldeia achou bem. Que aquilo é que era um pai. Que aquilo é que sim. Pedro ia ouvindo tudo sem ter opiniões, que também lhe não pediam. E muito calmo, com a estrela nas mãos, meteu pela porta da torre. As pessoas esperaram algum tempo que ele aparecesse lá no alto da torre. E ele apareceu finalmente, a estrela brilhando ainda mais entre os sinos, como se houvesse lá uma fogueira. As escadas do Governo estavam já encostadas no seu lugar para uma subida mais fácil. Mas Pedro, quando toda a gente supunha que ele ia meter por elas, desapareceu pela escadinha interior que ia dar à de ferro, que ficava de fora. O pai ainda lhe berrou cá de baixo:
- Agarra-te às escadas! Não vás por aí! Sobe pelas escadas!
Mas ele nem olhou e logo desapareceu. Em baixo, todos esperavam em silêncio. E ele voltou enfim a aparecer com a estrela entalada na cintura e que mesmo assim iluminava todo o largo. Muito ligeiro, subiu até ao varão de ferro. Mas faltava subir até ao galo e aos quatro pontos cardeais. O pai fazia força cá de baixo, toda a gente ia empurrando também, menos a mãe, que nem queria ver e tapava mesmo os olhos, lembrando apenas aos santos das suas relações que era a altura de fazerem alguma coisa. E eles fizeram. Pedro, com efeito, rapidamente trepava pelo varão de ferro até ao galo e encavalitava-se por cima do Norte-Sul-Este-Oeste. E, devagar, tirou a estrela do cinto. Era linda, brilhava no ar. E então, com jeito, segurando-a na mão, pô-la outra vez no seu lugar. Toda a gente estava a rebentar, sem poder dizer nada. De modo que, ao verem a estrela finalmente no seu sítio, largaram todos o "ah!" que competia mas que saiu como um urro, com a força toda que tinham entalada na garganta. Nem mesmo repararam que assim que foi posta no seu lugar a estrela começou logo a brilhar menos, embora brilhasse muito. E ou fosse porque o "ah!" teve força a mais e o assustou ou porque não fincou bem os pés no varão de ferro, Pedro escorregou por ele abaixo até à bola de pedra. E então desequilibrou-se, e, de braços abertos, veio pelo ar estampar-se cá em baixo contra as pedras do adro.
Toda a gente chorou a sua morte. E o Cigarra, que andou de luto um ano inteiro, fez mesmo uns versos sobre ele para os cantar depois à viola. Já passaram muitos anos e ainda hoje se cantam. A estrela ainda lá está. Toda a gente a conhece.

Vergílio Ferreira, "A Estrela", in Contos


I

1. Explica, por palavras tuas, o significado das seguintes expressões:
a) "Meteu pela porta da torre..."
b) "Com a estrela entalada na cintura..."
c) "Toda a gente estava a rebentar, sem poder dizer nada."
d) "Toda a gente chorou a sua morte."

2. Com dados do texto, completa, no teu caderno diário, as frases que se seguem:
a) Se a estrela não brilhasse tanto ____.
b) A mãe de Pedro ____.
c) O pai de Pedro ____.
d) Todos ____.
e) Pedro ____ porque ____.
f) A estrela.___________ e até hoje.

3. Em que parte da estrutura global do conto A Estrela se insere este excerto? Justifica a tua resposta.

4. Caracteriza a personagem principal do conto e justifica o seu comportamento neste momento.


II

1. Divide e classifica as orações das seguintes frases:
a) "Mas ele nem olhou e logo desapareceu."
b) "E ou fosse porque o "ah!" teve força a mais e o assustou ou porque não fincou bem os pés no varão de ferro, Pedro escorregou por ele abaixo até à bola de pedra."
c) "Já passaram muitos anos e ainda hoje se cantam."
1.1. Classifica as formas verbais da frase da alínea c).


22.6.09

Acho tão Natural que não se Pense




Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIV



I

1. Explicite as características do "eu" reveladas na primeira estrofe do poema.

2. Analise os sentimentos expressos no verso 8: "E então desagrada-me, e incomodo-me".

3. Atente na frase "Que me importa isso a mim?" (v.14)
3.1. Explique o s eu significado no contexto em que surge.
3.2. Refira os efeitos produzidos pela marca de discurso oral presente na frase, relacionando-a com outros traços desse discurso presentes no poema.

4. "E assim, sem pensar, tenho a terra e o Céu." (v.20)
4.1. Comente o sentido deste verso enquanto conclusão do poema e da mensagem nele veiculada.


II

A valorização do ato de ver e a harmonia com a natureza são duas das linhas temáticas da obra de Alberto Caeiro.
Fazendo apelo à sua experiência de leitura, apresente, de entre as duas linhas referidas, aquela que para si se revelou mais marcante na poesia deste heterónimo de Fernando Pessoa. Desenvolva a sua opinião num texto expositivo-argumentativo bem estruturado, de 100 a 150 palavras.



A Estrela



Ora certa noite, e já depois de se ter deitado, a mãe lembrou-se de que se calhar não tinha deixado o lume bem acondicionado para não pegar fogo. Naturalmente, não o apagava de todo para não ter de ir pedi-lo à vizinha, a Pitapota, que fazia sempre um escarcéu medonho, como se lhe estivesse a pedir a alma. Eis senão quando, ao passar ao quarto do filho, viu por debaixo da porta uma risca de luz. Ficou arreliadíssima, como é de ver, com medo de que o filho deitasse fogo à casa. Mas nem rugiu. Queria era apanhá-lo com a boca na botija e mesmo descobrir como é que ele tinha feito lume. Abriu, pois, só uma talisca da porta e espreitou. E então ficou de boca aberta: sentado na cama, o filho tinha a estrela nas mãos. A cara estava toda iluminada, e as mãos era como se tivessem lume por dentro. A mãe nem queria acreditar. Mas depois de se ter admirado, foi-se a ele numa fúria e deitou-lhe a mão à estrela. Mas aqui deu um grito tão alto que o pai acordou. Veio a correr ao quarto do filho e quando chegou já estavam a chorar os dois. Pedro chorava não sabia porquê, nem sabia que não sabia, porque ninguém lhe tinha ainda perguntado. Mas a mãe sabia. A mãe tinha gritado, porque ficara com a mão toda queimada. Atirara logo a estrela, ela caíra no chão. Mas não se partira e alumiava o quarto todo. A mãe continuava a gritar, talvez um pouco mais do que era preciso, segurando a mão queimada com a outra. Até que o pai deu um berro para acabar com aquele chinfrim, que podia acudir a vizinhança. E disse apenas :
-Põe-lhe vinagre. Ata a mão com sal. E quanto a nós, amanhã falamos.
Mas no outro dia quem falou foi a freguesia inteira. E a primeira coisa que disse foi que era inde-cente quererem fazer pouco das pessoas. Porque toda a gente via que a estrela não era aquela. Chamou-se mesmo o latoeiro para dar uma opinião e ele também disse. Não era bem de lata mas de outra coisa esquisita que ele sabia. Agora uma estrela, o que se chamasse uma estrela, toda a gente via que não. E brincar com o parceiro, só no Entrudo.

Vergílio Ferreira, "A Estrela" in Contos



I

1. Divide o texto em momentos e justifica devidamente a tua escolha.

2. Caracteriza globalmente as personagens intervenientes na acção deste excerto.

3.Que importância tinha esta "estrela" para:
3.1. as pessoas da aldeia;
3.2.para os pais de Pedro;
3.3. para Pedro.

4. Que soluções foram encontradas para repor a estrela no seu lugar?


II – Funcionamento da Língua

1.Classifica morfologicamente as seguintes frases:
a. Abriu uma talisca da porta e espreitou.
b. A mãe tinha gritado.

2. Classifica sintacticamente as seguintes frases:
c. A cara estava toda iluminada.
d. Ela caíra no chão.

3. Elabora frases que mostrem claramente a diferença de sentidos entre as palavras homófonas que se seguem .
3.1. aço /asso
3.2. paço/ passo
3.3. era/ hera
3.4. nós/noz
3.5. coser/cozer
3.6. sem/cem
3.7.acento/assento
3.8. conselho/ concelho
3.9. vós/voz

4. Redige uma frase para cada uma das palavras seguintes, esclarecendo devidamente o seu sentido.
4.1. comprimento /cumprimento
4.2. emigrante/ imigrante
4.3. descrição/ discrição



III – EXPRESSÃO ESCRITA

Imagina o diálogo que terá ocorrido entre a mãe do rapaz e o pai a propósito deste incidente.



5.6.09

Auto da Alma - global

1.Por que razão é que esta peça se intitula Auto da Alma?

2. O Auto da Alma é uma obra alegórica. Porquê?

3. Delimite as partes em que se divide este auto.

4. Por que razão é que Gil Vicente coloca em diálogo quatro doutores da Igreja?

5. Faça um resumo biográfico dos quatro doutores da Igreja que aparecem no auto, servindo-se para isso de material auxiliar (enciclopédias, dicionários, etc.).

6. Identifique os atributos definidores da natureza da personagem Alma.

7. Caracterize a natureza dupla da personagem Alma.

8. Segundo o Diabo, que factores permitirão à Alma alcançar o «prazer»?

9. Identifique as várias tentações com que o Diabo procura aliciar a Alma.

10. Assinale as várias hesitações da Alma em relação às tentações do Diabo.

11. A Igreja confessa perante a Alma os erros cometidos. Descreva essa confissão.

12. Que implicações provoca o facto de o Anjo e o Diabo não se poderem entender?

13. Diga o que entende por «livre arbítrio».

14. Caracterize a linguagem do Diabo.

15. Explique o significado de «Glória».

16. Que argumentos convencem a personagem Alma a caminhar para a Glória?

17. Explicite de que modo é que Gil Vicente no Auto da Alma manifesta certa fidelidade à concepção cristã do mundo.

18. Elabore um campo léxico-semântico sobre o tema «religião».

19. A imortalidade da alma e o problema da liberdade humana são problematizados neste auto. Numa composição cuidada, comente este facto e dê a sua opinião sobre o assunto, fundamentando-a com elementos do texto.






4.6.09

Sermão de Santo António





Começando pois, pelos vossos louvores, irmãos peixes, bem vos pudera eu dizer que entre todas as criaturas viventes e sensitivas, vós fostes as primeiras que Deus criou. A vós criou primeiro que as aves do ar, a vós primeiro que aos animais da terra e a vós primeiro que ao mesmo homem. Ao homem deu Deus a monarquia e o domínio de todos os animais dos três elementos, e nas provisões em que o honrou com estes poderes, os primeiros nomeados foram os peixes: Ut praesit piscibus maris et volatilibus caeli, et bestiis, universaeque terrae. Entre todos os animais do Mundo, os peixes são os mais e os peixes os maiores. Que comparação têm em número as espécies das aves e as dos animais terrestres com as dos peixes? Que comparação na grandeza o elefante com a baleia? Por isso Moisés, cronista da criação, calando os nomes de todos os animais, só a ela nomeou pelo seu: Creavit Deus cete grandia. E os três músicos da fornalha da Babilónia o cantaram também como singular entre todos: Benedicite, cete et omnia quae moventur in aquis, Domino. Estes e outros louvores, estas e outras excelências de vossa geração e grandeza vos pudera dizer, ó peixes; mas isto é lá para os homens, que se deixam levar destas vaidades, e é também para os lugares em que tem lugar a adulação, e não para o púlpito.

Vindo pois, irmãos, às vossas virtudes, que são as que só podem dar o verdadeiro louvor, a primeira que se me oferece aos olhos hoje, é aquela obediência com que, chamados, acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor, e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo António. Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António, querendo-o lançar da terra e ainda do Mundo, se pudessem, porque lhes repreendia seus vícios, porque lhes não queria falar à vontade e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio e com sinais de admiração e assenso (como se tiveram entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão.

Muito louvor mereceis, peixes, por este respeito e devoção que tivestes aos pregadores da palavra de Deus, e tanto mais quanto não foi só esta a vez em que assim o fizestes. Ia Jonas, pregador do mesmo Deus, embarcado em um navio, quando se levantou aquela grande tempestade; e como o trataram os homens, como o trataram os peixes? Os homens lançaram-no ao mar a ser comido dos peixes, e o peixe que o comeu, levou-o às praias de Nínive, para que lá pregasse e salvasse aqueles homens. É possível que os peixes ajudam à salvação dos homens, e os homens lançam ao mar os ministros da salvação?! Vede, peixes, e não vos venha vanglória, quanto melhores sois que os homens. Os homens tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à terra.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António



I

1. Enumere os louvores que o Padre António Vieira faz aos peixes.

2. Explique por que razão esta parte do sermão é considerada uma alegoria.

3. Segundo o autor, que diferenças há entre os homens e os peixes?

4. Comente o significado da seguinte expressão: «Isto é lá para os homens, que se deixam levar destas vaidades».

5. Que pretende o Padre António Vieira ao louvar as virtudes dos peixes?

6. Refira alguns processos de que o autor se serve para tentar convencer os seus ouvintes.

7. Atente na seguinte frase: «Vede, peixes, e não vos venha vanglória, quanto melhores sois que os homens».

7.1. Classifique as formas verbais da frase.

7.2. Explique a formação da palavra vanglória.


II

No máximo de quinze linhas, relacione o estilo e a ideologia deste sermão do padre António Vieira com a corrente literária da época.




3.6.09

Simbologia

A.

Afonso (...), de resto, não desgostava do Ramalhete (...). E gostava até do seu quintalejo. Não era de certo o jardim de Santa Olávia: mas tinha um ar simpático, com os seus girassóis perfilados ao pé dos degraus do terraço, o cipreste e o cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Vénus Citereia parecendo agora, no seu tom claro de estátua de parque, ter chegado de Versalhes, do fundo do Grande Século... E desde que a água abundava, a cascatazinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus três pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucólico, melancolizando aquele fundo de quintal soalheiro com um pranto de náiade doméstica, esfiado gota a gota na bacia de mármore.

B.

No terraço morria um resto de sol (...). Carlos, que se sentara no parapeito baixo do terraço, entre os vasos sem flor, contou o fim do «reverendo Bonifácio» (...). Ega sentara-se também no parapeito, ambos se esqueceram num silêncio. Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez de Inverno, tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama: uma ferrugem verde, de humidade, cobria os grossos membros da Vénus Citereia; o cipreste e o cedro envelheciam juntos, como dois amigos num ermo; e mais lento corria o prantozinho da cascata, esfiado saudosamente, gota a gota, na bacia de mármore.

Eça de Queirós, Os Maias, cap. I e cap. XVIII



I

1. Integre estes excertos (textos A e B) na estrutura global da obra.

2. Comente o paralelismo existente entre as duas descrições.

3. Refira o valor simbólico destas descrições do jardim do Ramalhete.

4. Estabeleça relações entre a Vénus Citereia e as personagens Maria Monforte e Maria Eduarda.

5. Mencione e dê exemplos de alguns recursos de estilo presentes no texto B.

6. Entre as duas descrições decorre toda a tragédia de Os Maias. Refira sucintamente os principais momentos dessa tragédia.


II

A partir do seu conhecimento de Os Maias, refira-se ao modo como está representada na obra a conjuntura sócio-política e cultural da Lisboa daquela época.






1.6.09

Capítulo X



– Vamos nós ver as mulheres – disse Carlos.
Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, numa fila muda, olhando vagamente, como duma janela em dia de procissão, estavam ali todas as senhoras que vêm no High Life dos jornais, as dos camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior parte tinha vestidos sérios de missa. Aqui e além um desses grandes chapéus emplumados à Gainsborough, que então se começavam a usar, carregava duma sombra maior o tom trigueiro duma carinha miúda. E na luz franca da tarde, no grande ar da colina descoberta, as peles apareciam murchas, gastas, moles, com um baço de pó-de-arroz.
Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa de Alvim, nédia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna inseparável, a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedrosos, as banqueiras, de cores claras, interessando-se pelas corridas, uma de programa na mão, a outra de pé e de binóculo estudando a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. Numa bancada isolada, em silêncio, Vilaça com duas damas de preto.
A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava também aquela que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança.
– É um canteirinho de camélias meladas – disse o Taveira, repetindo um dito do Ega.
Carlos, no entanto, fora falar à sua velha amiga D. Maria da Cunha que, havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de boa mamã. Era a única senhora que ousara descer do retiro ajanelado da tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ela disse, não aturara a seca de estar lá em cima perfilada, à espera da passagem do Senhor dos Passos. E, bela ainda sob os seus cabelos já grisalhos, só ela parecia divertir-se ali, muito à vontade, com os pés pousados na travessa duma cadeira, o binóculo no regaço, cumprimentada a cada instante, tratando os rapazes por “meninos”... Tinha consigo uma parenta que apresentou a Carlos, uma senhora espanhola, que seria bonita se não fossem as olheiras negras, cavadas até ao meio da face. Apenas Carlos se sentou ao pé dela, D. Maria perguntou-lhe logo por esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em Celorico compondo uma comédia para se vingar de Lisboa, chamada “O Lodaçal”...
– Entra o Cohen? – perguntou ela, rindo.
– Entramos todos, sr.ª D. Maria. Todos nós somos lodaçal...

Eça de Queirós, Os Maias, Col. Mundo das Letras, Porto Editora



I

1. Localiza este excerto na estrutura global da obra, explicitando a sua relação com o título – Os Maias – e com o subtítulo – Episódios da Vida Romântica.
2. Este excerto pode dividir-se em duas partes lógicas.
2.1. Assinala-as e sintetiza o conteúdo de cada uma delas.
3. Atenta na primeira parte.
3.1. Caracteriza, de forma genérica e nas tuas próprias palavras, as “mulheres” que se encontravam na tribuna.
3.2. Identifica, no segundo parágrafo, dois recursos estilísticos característicos da linguagem e estilo de Eça de Queirós.
3.3. Evidencia o valor expressivo dos diminutivos presentes no início do terceiro parágrafo.
3.4. No quarto parágrafo, refere-se que “(…) não estava também aquela que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança.”.
A quem se refere o pronome demonstrativo?
3.5. Comenta a frase de Ega que Taveira repete: “É um canteirinho de camélias meladas”.
4. Relê, agora, a segunda parte do excerto.
4.1. D. Maria da Cunha destaca-se claramente de entre as outras personagens femininas. Explica porquê.
4.2. Comenta o título que Ega pretende dar à comédia que está escrevendo em Celorico: “O Lodaçal”.


II

1. Passa para o discurso indirecto os dois últimos parágrafos do texto.
2. “Era a única senhora que ousara descer do retiro ajanelado da tribuna (…)”
2.1. Indica o tempo e o modo da forma verbal simples destacada.
2.1.1. Indica a forma composta correspondente.
2.2. Divide e classifica as orações desta frase complexa.
2.3. Analisa sintacticamente a oração subordinada.


III

“Carlos não fraquejou por causa da educação recebida, mas apesar da educação recebida.”
1. Numa composição concisa (entre cento e cinquenta e cento e oitenta palavras) e estruturada em forma de texto expositivo-argumentativo, discute a veracidade desta afirmação de Jacinto do Prado Coelho, fundamentando-te no estudo que fizeste da obra Os Maias.



A Relíquia

Foi-me doce, ao penetrar na sala, encontrar os dilectos amigos, com casacos sérios, de pé, alargando para mim os braços extremosos. A titi pousava no sofá, tesa, desvanecida, com cetins de festa e com jóias. E ao lado um padre muito magro vergava a espinha com os dedos enclavinhados no peito – mostrando numa face chupada dentes afiados e famintos. Era o Negrão. Dei-lhe dois dedos, secamente:
– Estimo vê-lo por cá…
– Grandíssima honra para este seu servo! – ciciou ele, puxando os meus dedos para o coração.
E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o abat-jour do candeeiro – para que a luz me banhasse, e se pudesse ver, na madureza do meu semblante, a eficácia da minha peregrinação.
(…)
No entanto em torno tumultuavam as curiosidades amigas: “E a saudinha?”
“Então, Jerusalém?” “Que tal as comidas?…”
Mas a titi bateu com o leque no joelho, num receio que tão familiar alvoroço importunasse S. Teodorico. E o Negrão acudiu, com zelo melífluo:
– Método, meus senhores, método!… Assim todos à uma não se goza... É melhor deixarmos falar o nosso interessante Teodorico!...
Detestei aquele nosso, odiei aquele padre. Porque corria tanto mel no seu falar? Porque se privilegiava ele no sofá, roçando a sórdida joelheira da calça pelos castos cetins da titi?
Mas o Dr. Margaride, abrindo a caixa de rapé, concordou que o método seria mais profícuo…
– Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso Teodorico conta por ordem todas as maravilhas que viu!
(…)
E foi com os olhos nele, como no mais douto, que eu disse a partida de Alexandria numa tarde de tormenta: o tocante momento em que uma santa irmã de caridade (que estivera já em Lisboa e que ouvira falar da virtude da titi) me salvara das águas salgadas um embrulho em que eu trazia
terra do Egipto, da que pisara a Santa Família; a nossa chegada a Jafa, que, por um prodígio, apenas eu subira ao tombadilho, de chapéu alto e pensando na titi, se coroara de raios de sol…
– Magnífico! – exclamou o Dr. Margaride. – E diga, meu Teodorico…
Não tinham consigo um sábio guia, que lhes fosse apontando as ruínas, lhes fosse comentando…
– Ora essa, Dr. Margaride! Tínhamos um grande latinista, o padre Potte!

Eça de Queirós, A Relíquia, Col. Mundo das Letras, Porto Editora



I

1. Situa o excerto na obra, referindo os acontecimentos mais directos que o antecederam e que
se lhe seguiram.

2. Na sala, com a titi, entre os “dilectos amigos” do costume, encontra-se uma personagem que
Teodorico vai ver pela primeira vez: o padre Negrão.
2.1. Caracteriza-o, baseando-te em elementos textuais.
2.2. Comenta o efeito que as atitudes do padre Negrão têm sobre Teodorico.
2.3. Explica de que forma o apelido do padre – Negrão – pode ser simbólico em relação aos acontecimentos futuros da vida de Teodorico e à participação que o próprio padre tem neles.

3. A titi não é, neste momento da intriga, a mesma D. Patrocínio dos capítulos anteriores.
3.1. Assinala uma passagem que esclareça a forma como D. Patrocínio encara, agora, o sobrinho
e explica-a.

4. Explica por que razão a última frase de Teodorico vem evidenciar a sua faceta de mentiroso descarado.

5. Encontra, no texto, três exemplos que consideres mais significativos da linguagem e estilo de Eça de Queirós.


II

1. “Tínhamos um grande latinista, o padre Potte!”
1.1. Analisa sintacticamente esta frase simples.
1.2. Indica, em cada uma das frases seguintes, a função sintáctica da expressão destacada:
a. Pedi ao padre Potte a sua bênção.
b. Chamou o padre Potte para jantar.
c. Adormeceu profundamente o padre Potte.
d. Trouxe uma recordação do padre Potte.
e. Ele parece o padre Potte.


III

1. Recordando o estudo da obra que fizeste nas aulas, elabora o retrato da personagem D. Patrocínio das Neves, inserindo-a no espaço social em que ela se movimenta.




Cena IV e V


CENA IV
Telmo (só)

– Virou-se-me a alma toda com isto: não sou já o mesmo homem. Tinha um pressentimento do que havia de acontecer... parecia-me que não podia deixar de suceder... e cuidei que o desejava enquanto não veio. Veio, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguém! Meu honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu criei nestes braços... Vou saber novas certas dele, no fim de vinte anos de o julgarem todos perdido; e eu, eu que sempre esperei, que sempre suspirei pela sua vinda... – era um milagre que eu esperava sem o crer! – eu agora tremo... É que o amor destoutra filha, desta última filha, é maior, e venceu... venceu… apagou o outro… Perdoai-me, Deus, se é pecado. Mas que pecado há-de haver com aquele anjo? Se ela me vivirá, se escapará desta crise terrível? Meu Deus, meu Deus, (ajoelha) levai o velho que já não presta para nada, levai-o por quem sois! (Aparece o Romeiro à porta da esquerda, e vem lentamente aproximando-se de Telmo que não dá por ele) Contentai-vos com este pobre sacrifício da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o inocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós... mas ainda não, não mo leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores aquela alma; esperai-lhe com a da morte algum tempo!


CENA V
Telmo e Romeiro

Romeiro – Que não oiça Deus o teu rogo!
Telmo (sobressaltado) – Que voz! – Ah! é o romeiro. Que me não oiça Deus!
Porquê?
Romeiro – Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo filho que criaste?
Telmo (à parte) – Já não sei pedir senão pela outra. (Alto) E que pedisse por ele! ou por outrem, porque não me há-de ouvir Deus, se lhe peço a vida de um inocente?
Romeiro – E quem te disse que ele o era?
Telmo – Esta voz... esta voz…! Romeiro, quem és tu?
Romeiro (tirando o chapéu e alevantando o cabelo dos olhos) – Ninguém, Telmo; ninguém, se nem já tu me conheces!
Telmo (deitando-se-lhe às mãos para lhas beijar) – Meu amo, meu senhor... sois vós? Sois, sois. D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?


Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa,
in Edição Didáctica de Luís Amaro de Oliveira, Porto Editora



I

1. Integra estas cenas na estrutura da obra, evidenciando em que ponto do conflito dramático as
personagens se encontram.

2. Identifica os sentimentos que Telmo expressa no monólogo da cena IV.

3. Analisa a reacção do Romeiro às palavras finais de Telmo na referida cena.

4. Comenta a fala proferida à parte por Telmo na cena V.

5. Explicita as funções das indicações cénicas dadas ao longo do texto.

6. Descreve, de forma sintética, as sucessivas atitudes de Telmo face ao Romeiro na cena V.


II

“Contento-me para a minha obra com o título modesto de drama; (…) porque se na forma desmerece da categoria, pela índole há-de ficar pertencendo sempre ao antigo género trágico.”
Almeida Garrett, Memória ao Conservatório Real

1. Num texto expositivo-argumentativo, que tenha entre cento e oitenta e duzentas palavras, comprova a justeza da afirmação de Garrett, pondo em evidência os elementos que aproximam Frei Luís de Sousa da tragédia clássica.






Editorial


Portugal está a ganhar

AS PREVISÕES mais negras antecipavam um país de pernas para o ar, com os aeroportos entupidos e incapazes de responder ao grande fluxo de aviões em certos dias, as fronteiras sem controlo, as polícias impotentes, as ruas bloqueadas de trânsito se não mesmo barricadas, as cidades do Euro em estado de sítio, greves e manifestações oportunistas por todo o lado, a ordem e a segurança convertidas em palavras sem sentido. Um prognóstico de caos. Mas uma semana depois do começo desta operação de grande envergadura e complexidade que é o campeonato europeu de futebol, salta à vista que o país está a responder positivamente ao desafio assumido há cinco anos. E isto deve ser assinalado. Não só porque todos correríamos a criticar e a buscar culpados ou bodes expiatórios, caso houvesse deficiências graves e notórias a registar, mas também por uma questão de justiça.
Justiça para com as pessoas e as instituições que se encontram na primeira linha de responsabilidade e para com todas aquelas que, no terreno, estão a dar o seu melhor para que tudo corra bem.
Tanto em termos de organização, como de capacidade logística e de competência dos meios humanos envolvidos, não há falhas nem erros flagrantes a apontar em nenhuma das muitas áreas que são tocadas pelo Euro-2004, directa ou indirectamente. Isso mesmo tem sido reconhecido pelos «media» internacionais, todos eles bastante alerta e alguns talvez predispostos a sobrevalorizar qualquer incidente mínimo ou sinal de incapacidade e desorganização. À parte umas dezenas de arruaceiros que se instalaram em Albufeira e todas as noites se exibem embriagados, também o comportamento da esmagadora maioria dos adeptos, nacionais e estrangeiros, tem sido correcto e sereno.
É VERDADE que estamos a menos de meio campeonato e muita coisa pode acontecer ainda. Até porque, provavelmente, os jogos de maior risco estão para vir. Mas com os holofotes do mundo apontados ao território nacional e, em especial, às cidades do Euro-2004, era importante que esta semana corresse bem porque a primeira impressão é sempre marcante.
Até agora, o país está, pois, a ganhar o Euro. Trata-se de um campeonato muito particular que nos compromete a todos e envolve directamente dezenas de milhares de profissionais de múltiplos sectores. É independente dos resultados da selecção nacional de futebol. Mas se mesmo esta, afinal, já deu mostras de ambição e exigência bastantes para ultrapassar obstáculos e continuar em prova, não há razão nenhuma para descrer de um bom resultado. Dentro e fora das quatro linhas.

Expresso, 19 Junho de 2004.


I

1. Identifica o tema do texto.

2. «O editorial é um texto onde a direcção de um jornal ou revista expressa publicamente a sua posição sobre algo relevante da actualidade
2.1 Confirma, de forma fundamentada, a veracidade das afirmações destacadas na definição.

3. Mostra que o texto:
a) Desmente as previsões negativas;
b) Interpreta a actualidade;
c) Antecipa o futuro.
3.1 Na interpretação da actualidade, são tecidos vários elogios a pessoas e a instituições portuguesas.
3.1.1 O que justifica os elogios?
3.1.2 Como é que o autor reforça a sua posição?
3.1.3 Refere a situação excepcional apresentada.
3.2 A previsão do futuro é optimista.
3.2.1 Transcreve o argumento apresentado para fundamentar esta previsão.

4. O texto inicia-se com linguagem subjectiva/conotativa.
4.1 Transcreve exemplos.
4.2 Interpreta a sua utilização.


II

Redige um texto expositivo-argumentativo para dares a conhecer e promoveres o produto deste anúncio.




E saio. A noite pesa, esmaga.


beco_curtumes1.jpg image by ameliapais

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

«Dó da miséria!… Compaixão de mim!…»
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde


I

1. O poeta deambula pela cidade.
1.1 Interpreta a forma como ele sente «a noite».
1.2 Mostra, através de citações textuais, que o autor contrasta o parasitismo com o trabalho útil da cidade.
1.3 Identifica as sensações presentes na quarta estrofe.
1.3.1 Clarifica a intencionalidade da sua utilização.

2. Cesário pretende que o «real» e a «análise» constituam os fundamentos da sua crítica poética. Justifica.

3. Nas estrofes 6 a 8 a observação e intencionalidade crítica centram-se em figuras femininas.
3.1 Como são caracterizadas?
3.2 De que modo a nona estrofe evidencia as discrepâncias sociais?

4. Comprova que as duas últimas estrofes se apresentam como uma conclusão do observado anteriormente.


II

Escreve um texto descritivo da rua/bairro onde habitas (mínimo 200 palavras, máximo 250).



A morte de Pedro da Maia


Afonso, então, puxou-lhe o braço quase com aspereza.
– Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
Ele seguiu maquinalmente o pai à livraria, mordendo o charuto apagado que desde tarde conservava na mão. Sentou-se longe da luz, ao canto do sofá, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo só os passos lentos do velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silêncio em que toda a sala ia adormecendo. Uma brasa morria no fogão. A noite parecia mais áspera. Eram de repente vergastadas de água contra as vidraças, trazidas numa rajada, que longamente, num clamor teimoso, faziam escoar um dilúvio dos telhados; depois havia uma calma tenebrosa, com uma sussurração distante de vento fugindo entre ramagens; nesse silêncio as goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria mais furioso, envolvia a casa num bater de janelas, redemoinhava, partia com silvos desolados.
– Está uma noite de Inglaterra – disse Afonso, debruçando-se a espertar o lume.
Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. Decerto o ferira a ideia de Maria, longe, num quarto alheio, agasalhando-se no leito do adultério entre os braços do outro. Apertou um instante a cabeça nas mãos, depois veio junto do pai, com o passo mal firme, mas a voz muito calma:
– Estou realmente cansado, meu pai, vou-me deitar. Boa noite… Amanhã conversaremos mais.
Beijou-lhe a mão e saiu devagar. (…)
Então sem ruído, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara, entreabriu a porta. O filho escrevia, à luz de duas velas, com o estojo aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pai: e na face que ergueu, envelhecida e lívida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros.
– Estou a escrever – disse ele. (…)
No seu quarto, ao lado da livraria, Afonso não pôde sossegar, numa opressão, uma inquietação que a cada momento o fazia erguer sobre o travesseiro, escutar: agora, no silêncio da casa e do vento que calmara, ressoavam por cima lentos e contínuos, os passos de Pedro.
A madrugada clareava. Afonso ia adormecendo – quando de repente um tiro atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um criado acudia também com uma lanterna. Do quarto de Pedro, ainda entreaberto, vinha um cheiro a pólvora; e aos pés da cama, caído de bruços, numa poça de sangue que se ensopava no tapete, Afonso encontrou seu filho morto, apertando uma pistola na mão.

Eça de Queirós, Os Maias, cap. II.



I

Lê atentamente o excerto e responde às questões com clareza e precisão.

1. Situa o excerto na estrutura interna da obra.

2. Divide-o em momentos, sintetizando numa frase o respectivo conteúdo.

3. Caracteriza Pedro da Maia.
3.1 Relaciona a tempestade com o estado de espírito da personagem.

4. A morte próxima de Pedro da Maia é anunciada por diferentes indícios.
4.1 Transcreve exemplos textuais que ilustrem a afirmação anterior.

5. Identifica os recursos estilísticos presentes na expressão «e na face que ergueu, envelhecida e lívida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros» (ls. 17 e 18).

6. Analisa, interpretando, o estado psicológico de Afonso «No seu quarto ao lado da livraria».

7. Mostra que o final trágico da vida de Pedro da Maia é uma conclusão lógica derivada da concepção naturalista desta personagem.

8. Refere as consequências futuras do suicídio de Pedro.
8.1 Esclarece a importância que esse acto desesperado assume para a compreensão da intriga principal.


II

Com base no conhecimento que possuis da obra Os Maias, elabora o comentário (texto com o limite máximo de 200 palavras e limite mínimo de 100 palavras) da frase:

«Santa Olávia, Coimbra, Lisboa, Sintra, O Ramalhete, Vila Balzac, a Toca são mais do que simples cenários, uma vez que, sendo distintas as suas dimensões específicas, é também distinto o peso de que desfrutam na economia do romance.»

História da Literatura Portuguesa, Ed. Alfa.