31.5.09

Portugal em Paris, Manuel Alegre




Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era uni furo país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente e solitário
nas ruas de Paris.

Vi minha pátria derramada
na Gare de Ausrerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
sem nada
despejada nas ruas de Paris.

E o trigo?
E o mar?
Foi a terra que não te quis
ou alguém que roubou as flores de abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo e o mar.
Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços e mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.


Manuel Alegre, O Canto e as Armas


I

1. Identifique, justificando com expressões do texto, o assunto do poema.

2. "Solitário /por entre a gente eu vi o meu país.- (w. 1 e 2)
2.1. Identifique o valor semântico de «solitário», tendo em atenção os versos 7 / 8 e 23.
2.2. Distinga a caracterização do Portugal que viu e do que era.

3. Faça a análise morfossintáctica do poema.

4. Aponte os processos estético-estilísticos fundamentais.


II

1. Segue-se um texto que contém várias palavras ou expressões que não apresentam a forma gráfica apropriada. Transcreva-as para a folha de prova e apresente as correspondentes formas correctas.

Recentemente, o Paulo foi convidado a participar num debate sobre o ensino universitário. Interviu várias vezes, para dizer que os estudantes nem sempre saiem das universidades com preparação suticiente para enfrentar as situações de grande competividade do mercado de trabaiho. Segundo ele, à alguns anos atrás as perspectivas eram mais animadoras para quem procura-se um emprego.

(in Prova Especifica de Português, I995)


Calisto entrelaçou os dedos em postura suplicante, e exclamou:
- Chovam-lhe os arcanjos do Senhor quantas felicidades a bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe enegreça os seus sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para V. Ex.a estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!
Nenhuma paixão súbita estalou ainda com estrondos deste tamanho. A gente compreende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado connosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor nos assaltou de improviso, foi falar assim, romper tão depressa em veemências de entusiasmo. Nós, homens criados mais ou menos por salas, afeitos a subordinar o sentimento às práticas da civilidade, desafogamos em êxtases e suspiros, contemplamos embelezados a mulher que nos endoideceu, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que nos ela faz com toda a presença do seu espírito. Toda a lástima é pouca para os ridiculíssimos trejeitos que fazemos então.
Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema realeza das mulheres é tudo que elas têm, e pouco mais. Esse espaço de fascinação, que nos embrutece, é a divinização delas. Às pobrezinhas, quando o tempo as apeia dos altares, e os maridos convertem a prata dos turíbulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memória consolativa daquele quarto de hora.
Tornando ao ponto, queria eu dizer que o morgado da Agra de Freimas não falaria daquele modo, nem tão do íntimo da alma apaixonada, se tivesse experiência dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que o homem se declare à mulher que ama, depois que as impressões repetidas de vê-la e ouvi-la hajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe requer primeiro o êxtase, depois as sensaborias tartamudas, ultimamente a declaração, com intervalo de três meses ao êxtase.

Camilo Castelo Branco, A Queda de Um Anjo



I

1. A expressão de sentimentos cruza-se, neste excerto de A Queda de Um Anjo, com a sátira social.
1.1. Situe o texto na estrutura interna da obra.
1.2. Mostre, a partir de expressões do texto, a comparação que o narrador faz desta «paixão súbita» com o que acontece normalmente aos homens.
1.3. Identifique os objectos ou elementos sobre que incide a crítica do narrador.

2. Releve os aspectos mais significativos da linguagem e do estilo camiliano neste excerto.


II

1. Construa uma frase complexa com as duas frases simples, mas que contenham uma proposição subordinada concessiva:
Consegui acabar dentro do prazo. Isso custou-me um grande esforço.

2. Do grupo de palavras apresentado abaixo, enumere as que podem ser consideradas cognatas, ou seja, da mesma família.
a - frigido, frieira, friesta, frigideira, frigorífico, esfriar, frigir, desfrisar, resfriado
b - honorários, honorífico, honor, honradez, exonerar, honorário, desonra


III

Recordando algumas obras de Camilo Castelo Branco, como por exemplo Amor de Perdição e A Queda de Um Anjo, comente a seguinte afirmação de Vitorino Nemésio:
«O segredo da permanente sedução de Camilo está no seu casticismo irresistível, em que o estilo vernáculo é muito menos importante do que o estilo sentimental (a maneira ou modo de amar e sentir), feito de obstinação, de fogo, de meiguices angélicas e de absurdas violências.»



Prólogo da Crónica de D. João I


Grande licença deu a afeiçom a muitos que teverom cárrego d'ordenar estorias, moormente dos senhores em cuja mercee e terra viviam e u forom nados seus antigos avoos, seendo-lhe muito favorávees no recontamento de seus feitos; e tal favoreza como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom é salvo conformidade dalgüa cousa ao entendimento do homem. Assi que a terra em que os homeés per longo costume e tempo forom criados geera üa tal eonformidade antre o seu entendimento e ela que, avendo de julgar algüa sua cousa, assim em louvor como per contrairo, nunca per eles é dereitamente recontada; porque, louvando-a, dizem sempre mais daquelo que é; e, se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como acontecerom.

Outra cousa geera ainda esta conformidade e natural inclinaçom, segundo sentença dalguüs, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fame, recebendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritos geerados de taes virandas tem üa tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Alguüs outros teveron que esto decia na semente, no tempo da geeraçom; a qual despõe per tal guisa aquelo que dela é geerado, que lhe fica esta conformidade tam bem acerca da terra como de seus dívidos.
E assi parece que o sentio Túlio, quando veo a dizer: «Nós nom somos nados a nós meesmos, porque üa parte de nós tem a terra e outra os parentes.» E porém o juizo do homem, acena de tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre çopega.
Esta mundanal afeiçom fez a alguüs estoriadores que os feitos de Castela com os de Portugal escreverom, posto que homeës de boa autoridade fossem, desviar da dereita estrada e correr per semideiros escusos, por as mínguas das terras de que eram em certos passos claramente nom seerem vistas; e espicialmente no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memoria Dom Joam, cujo regimento e reinado se segue, ouve com o nobre e poderoso Rei Dom Joam de Castela, poendo parte de seus boõs feitos fora do louvor que mereciam, e ëadendo em alguãs outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo-se a pubricar esto em vida de taes que lhe forom companheiros, bem sabedores de todo o contrairo.
Nós certamente levando outro modo, posta a de parte toda a afeiçom que por aazo das ditas razões aver podiamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mestura, leixando nos boõs aqueecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao poboo quaesquer contrairas cousas, da guisa que aveerom.
E se o Senhor Deos a nós outorgasse o que a alguüs escrevendo nom negou, convem a saber, em suas obras clara certidom da verdade, sem duvida nom soomente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom queriamos dizer; como assi seja que outra cousa nom é errar salvo cuidar que é verdade aquelo que é falso. E nós, engando per ignorancia de velhas escrituras e desvairados autores, bem podiamos ditando errar; porque, escrevendo homem do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve; mas mentira em este volume é muito afastada da nossa voontade. Ó! com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguageës e terras! e isso meesmo púbricas escrituras de muitos cartários e outros logares, nas quaes, depois de longas vegilias e grandes trabalhos mais certidom aver non podemos da conteúda em esta obra. E seendo achado em alguüs livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas.
Se outros per ventuira em esta cronica buscam fremosura e novidade de palavras, e nom a certidom das estorias, desprazer-lhe-á de nosso razoado, muito ligeiro a eles d'ouvir e nom sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós, nom curando de seu juizo, leixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que certificamos cousa, salvo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé; doutra guisa, ante nos calariamos que escrever cousas falsas.
Que logar nos ficaria pera a fremosura e afeitamento das palavras, pois todo nosso cuidado em isto despes nom basta pera ordenar a nua verdade? Porém, apegando-nos a ela firme, os claros feitos, dignos de grande renembrança, do mui famoso Rei Dom Joan, seendo Meestre, de que guisa matou o conde Joam Fernández, e como o poboo de Lisboa o tomou primeiro por seu regedor e defensor, e depois outros alguüs do reino, e d'i em deante como reinou e em que tempo, breve e sãamente contados, poemos em praça na seguinte ordem.

Crónica de D. João I, Primeira Parte, Prólogo



I

1. Identifique os erros apontados por Fernão Lopes aos anteriores historiadores.

2. Explicite as causas que provocaram tais erros.

3. Defina o conceito de história para Fernão Lopes, justificando com expressões do texto.

4. Identifique o método que o cronista pretende seguir para chegar à verdade.

5. Embora Fernão Lopes afirme recusar a «fremosura e novidade de palavras», mostre como o discurso literário está presente neste excerto.


II

1. Com as formas verbais havereis aprendido e houverdes aprendido construa duas frases, completas de sentido, contendo estas formas verbais. Identifique por palavras suas os valores semânticos expressos.

2. As frases seguintes são agramaticais (contêm, no seu conjunto, três erros de sintaxe). Dê as versões das frases corrigidas:
a - Os soldados carregaram nas armas e faziam pontaria. Só o soldado João achou indelicado não ir cumprimentar os colegas na outra banda.
b - O mar beija a terra e traz-lhe o seu encanto. Acaricia as suas ondas o corpo daquela sereia.

Num discurso de carácter díssertativo, pronuncie-se sobre a seguinte afirmação:
Fernão Lopes oferece-nos uma extraordinária visão da sociedade, mas elege o povo como o grande herói da guerra da independência; Gomes Eanes de Zurara, que continua a sua obra de cronista, interessa-se pelos feitos guerreiros e militares dos grandes cavaleiros.



Ao Rigor de Lisi




Mais dura, mais cruel, mais rigorosa
Sois, Lisi, que o cometa, rocha ou muro
Mais rigoroso, mais cruel, mais duro,
Que o Céu vê, cerca o mar, a terra goza.

Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa
Que a perla, rosa, Sol ou jasmim puro,
Pois por vós fica feio, pobre e escuro,
Sol em Céu, perla em mar, em jardim rosa.

Não viu tão doce, plácida e amena,
(Brame o mar, trema a terra, o Céu se agrave),
Luz o Céu, ave a terra, o mar sirena.

Vós triunfais de sirena, luz e ave,
Claro Sol, perla fina, rosa amena,
Mor cometa, árduo muro, rocha grave.

Jerónimo Baía, Fénix Renascida


I

1. Estrutura formal
1.1. Faz o levantamento dos adjectivos e dos substantivos nas quadras e no primeiro terceto.
1.2. Faz também o levantamento dos substantivos do segundo terceto.
1.3. Faz agora um comentário acerca da disposição dessas palavras no soneto.

2. Estrutura interna
2.1. Divide o texto em partes.
2.1.1. Refere a sua articulação.

3. Tema
3.1. Que tipo de mulher está aqui retratada?
3.2. Comprova que a caracterização dessa mulher é feita de forma antitética.

4. Expressividade da linguagem
4.1. Explica as figuras de estilo usadas para salientar as características de Lisi.
5. Estética literária
5.1. Comprova que este texto é um modelo do estilo cultista.


II

O Barroco na sua vertente cultista, sob roupagens exageradas, esconde uma temática muitas vezes banal.
• Constrói um texto, de 150 a 200 palavras, no qual salientes as causas que levaram ao aparecimento do Cultismo.

28.5.09

Sermão de Santo António aos Peixes,

Leia atentamente todo o enunciado. Ao responder às questões apresentadas, tenha em conta que, na apreciação da sua ficha, além dos aspectos do conteúdo, serão também considerados os aspectos de redacção (ortografia, pontuação e correcção sintáctica), organização lógica das ideias, clareza e capacidade de síntese.


Texto

Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terrae: É muito bom texto para os outros santos doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra; Santo António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que, nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais que o são da minha doutrina, qualquer que ele seja tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra para emenda e reforma dos vícios que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António




I

1. O excerto que acabou de ler pertence ao Sermão de Santo António aos Peixes escrito pelo Padre António Vieira. Justifique o título do sermão.

2. Explique a presença no texto da seguinte expressão: «Vos estis sal terrae» (Vós sois o sal da terra).

3. Retire do texto exemplos de dois recursos de estilo e comente o seu valor expressivo.

4. Exponha as intenções do autor ao escrever este sermão.

5. Refira alguns processos de que o Padre António Vieira se serve para tentar convencer os seus ouvintes.

6. Atente na seguinte frase: «Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina.»

6.1. Classifique morfologicamente as palavras púlpito, não e doutrina.

6.2. Explique o processo de formação da palavra somente.

6.3. Reescreva a frase, colocando as formas verbais no pretérito mais-que-perfeito.


II

Crie um texto argumentativo, partindo da sugestão do seguinte excerto do Sermão de Santo António aos Peixes: «Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer, e o que tem».



A Queda de um Anjo




Era já Estio. Os galãs mais ardidos de Lisboa estanceavam por Seteais, por Pisões, e por aquelas várzeas de Colares, a engarrafar lirismo para gastarem por salas nas noites de Inverno.
O primeiro deles que descortinou por entre árvores a formosa brasileira foi alvissarando aos outros a ondina incógnita, que saíra das vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da Lua.
Começam os agitados monteiros da estranha caça a circunvagarem nas encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Ifigénia. Uns a viam ao sol-posto, outros ao arraiar da manhã, e outros quando ela perpassava por entre áleas de cilindras para uma gruta fechada como concha de pérola.
A presença de Calisto Elói, confundido com os arbustos floridos da casinha misteriosa, aumentou a curiosidade dos indagadores. Uns consideraram esposa do deputado a bela esquiva; outros aventaram hipóteses mais românticas mas menos honestas, À primeira conjectura opunha-se uma razão forte negativa: se ele era marido, porque vivia no hotel do Vítor? A segunda conjectura contraditava outra razão ponderável: se era amante, que descuidado amante era ele, que se encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites - facto averiguado minudenciosamente pelos interessados? O mistério, pelo conseguinte, a nublar-se, e as esporas da curiosidade impaciente a picar os moços ociosos, e os ricaços velhos, que espreitavam, por entre a rede das sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa que a outra, que acendia fogos nos lúbricos juízes de Israel.
Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaços de tempo em quietismo escultural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de Ifigénia. Sempre que ela. à hora da maior calma, se aproximava da janela do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o contemplativo sujeito de braços cruzados e olhos fitos. Mas, assim que, ao entardecer, os arredores da casa começavam a ser frequentados, o moço, como quem se resguarda, desaparecia.
Era este sujeito aquele Vasco da Cunha, que esperava a herança de uma tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indiferentes de Ifigénia assetearam-lhe a pia alma, num daqueles dias em que ele viera de Lisboa a Sintra para assistir à novena de Santo António de Pádua, celebrada solenemente na capela de uma tia marquesa. Ou porque o ascético fidalgo andasse com o coração amolecido pelas práticas piedosas, ou porque Ifigénia se lhe figurasse algum daqueles serafins que visitavam os anacoretas da Tebaida, o certo é que não houve mais despegar-se-lhe a fantasia daquela imagem, que se interpunha entre ele e o santo filho de Marfim de Bulhões.
Ifigénia atentou na pertinácia do homem, e contou ao primo Calisto, gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava iminente na pessoa daquele sujeito. Assomaram diferentes cores ao rosto do morgado. Quisera ele dissimular o sobressalto com o sorriso; mas a rubidez sanguínea nos olhos, se o dramaturgo inglês a visse, arranjaria daquele aspeito feroz assunto para mais celerado preto.
Ifigénia lisonjeou-se daquela explosão de lavas que arquejavam na lesta do homem.
Lisonjeou-se!... Pois amava-o ela?!

Camilo Castelo Branco, A Queda de Um Anjo


I

1. Caracterize o espaço social em que se movem as personagens.

2. Identifique a atitude assumida pelo narrador na descrição desse espaço. Justifique.

3. Aponte os processos estético-estilísticos fundamentais.

4. Caracterize os «mancebos» de que fala o texto.

5. A figura e atitudes de Vasco da Cunha despertam reacções diversas.
5.1. Explicite as reacções de Ifigénia e de Calisto.
5.2. Defina o(s) conceito(s) de amor que ressalta(m) da relação entre Ifigénia e Calisto.


II

1. Transponha para o discurso directo o enunciado que se segue:
A Catarina pediu que a fosse buscar.
O Pedro respondeu que estava bem, mas que ela não podia baloiçar-se no barco.
As frases numeradas de (a) a (c) são agramaticais, isto é, não respeitam a sintaxe do Português.

2. Dê versões devidamente corrigidas dessas frases.
(a) - Não penses mais neles, pois não se preparavam a tempo do exame.
(b) - Mais tranquilos, olharam em volta o João e a Rita. O eco dos meus passos pareceram-lhes uma música tonificante.
(c) - Todos os aniversários são para eles dias de festa. Põe-se as melhores roupas, e o jantar é especial.


26.5.09

Brinquedo



Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel,
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga, Diário (1941)



I

1. Delimita as partes em que podemos dividir este poema. Justifica.

2. A personagem que entra no sonho do eu poético é um menino pequeno.
2.1. Indica a peça de vestuário referida no texto que é usada por crianças.
2.2.Com base no texto, explica por que razão se chama "estrela" ao seu brinquedo.
2.3. Que outro nome se dá a esse brinquedo?

3. Por que razão terá o menino sorrido antes de cortar o cordel?

4. Acreditar que os sonhos e as ilusões são (ou se podem tornar) realidade é apenas uma caracte-rística das crianças… ou será que também os adultos mantêm essa capacidade?

5. A estrela de papel do menino levava escrito, num dos lados, um pequeno verso escrito por ti. Que dizia esse verso?


II

1. Justifica o uso dos dois pontos no final do primeiro verso do poema, tendo em conta tudo o que é dito a seguir.

2. Indica um sinónimo de:
Ilusão
Realidade
Aparência
Aventura

3. A expressão “semeia uma ilusão” corresponde a uma figura de estilo. Qual?

4. Diz a que classe gramatical pertence a palavra "com".

5. Apresenta o esquema rimático do poema e classifica a rima presente.


III

Imagina o que possa ser a vida deste menino e constrói-lhe uma pequena biografia (entre 45 e 65 palavras), para ser publicada numa enciclopédia.



História da Gata Borralheira

Parte I

1. No texto de Sophia de Mello Breyner Andresen, que personagens se podem associar à Gata Borralheira e à fada do conto tradicional?

2. Indica o nome dos três objectos que, na tua opinião, são fundamentais para a compreensão do conto em estudo.

3. Localiza, agora, a acção no:
-tempo;
-espaço.

4. Já no interior, Lúcia foi praticamente ignorada pelas amigas da dona da casa.
4.1. Indica a passagem do texto que melhor ilustra a afirmação acima apresentada.

5. Lúcia começa a aperceber-se de que algo a distingue das outras raparigas. O quê?

6. A dado momento a narração é interrompida.
6.1. Identifica as expressões que marcam o início e o fim da analepse.
6.2. Que ficamos nós a saber sobre a personagem?
6.3. Explica então a função da analepse.

7. Lúcia mira-se no grande espelho da entrada.
7.1. O que lhe pareceu a sua imagem?
7.2. Como classificou a rapariga loira o espelho?

8. Lúcia acaba por despertar a atenção de um rapaz.
8.1. Que pressentimento tem o rapaz?
8.2. O que aconteceu à heroína enquanto dançava?
8.3. A protagonista nega a sua identidade. Como?

9. A personagem toma uma decisão que altera a sua vida. Qual?



Parte II

1. Resume o que aconteceu à personagem nos vinte anos seguintes.

2. Que significado tem o facto de o segundo baile ocorrer no mesmo dia do primeiro e na mesma casa?

3. Que efeito provocou Lúcia quando entrou na sala?

4. Lúcia volta a mirar-se no espelho atrás da porta como há vinte anos.
4.1. O que vê ela no espelho?
4.2. Refere-te à simbologia do espelho.
4.3. Qual é a prova definitiva da verdadeira identidade de Lúcia?

5. Que explicação encontram as pessoas para:
5.1. A morte de Lúcia?
5.2. O desaparecimento do sapato de Lúcia?
5.3. O aparecimento do sapato roto?


Partes I e II

1. Procura indícios do desfecho trágico do conto:
-na descrição inicial;
-nos reflexos de Lúcia nos espelhos;
-nas falas do rapaz e da rapariga loira (parte I);
-na coincidência de datas e de espaços.

2. Atribui um título a cada uma das partes.
Recursos expressivos:
1. Completa o esquema abaixo, retirando do primeiro parágrafo do texto as palavras ou expressões que apontam para a personificação da noite.
Comparação; Verbo; Adjectivo; Verbo + Advérbio - expressão

2. A passagem da descrição à narração é também perceptível na mudança dos tempos verbais.
2.1. Indica o tempo verbal predominante na:
-descrição;
-narração.
2.2. Ilustra a tua resposta a 4.1. com exemplos do texto.



O Lobo


1. Após a leitura do conto «O Lobo», de Hermann Hesse, atente nos dois primeiros parágrafos. Certamente, constatou que o narrador nos localiza no tempo da acção, um Inverno rigoroso e inóspito, e no espaço, «as montanhas francesas». Indique as principais vítimas das intempéries, naquele espaço.

2. Face ao clima inóspito, há um grupo de animais que decide emigrar.
2.1. Identifique-o.
2.2. Descreva o grupo que se dirigiu para o Jura suíço.
2.3. Explique a atitude das pessoas quando sentiram a presença do trio de «intrusos» na sua região.
2.4. Esclareça a situação que originou o massacre dos animais.

3. Releia os dois últimos parágrafos do texto.
3.1. Transcreva excertos do texto que evidenciem o sofrimento do lobo.
3.2. Esclareça a oposição entre a dor do animal e o júbilo das pessoas.

4. «Ninguém reparou na beleza da floresta coberta de neve, nem no brilho do planalto, nem na Lua vermelha pendurada por cima do Chasseral, cuja fraca luz se quebrava nos canos das espingardas, nos cristais de neve e nos olhos mortiços do lobo abatido.»
4.1. Explique, por palavras suas, o segmento textual transcrito.
4.2. Identifique dois recursos estilísticos presentes no excerto.

5. Decifre a possível simbologia da alcateia.

6. Delimite, no conto, um segmento descritivo e um segmento narrativo.
6.1. Indique as marcas linguísticas que lhe permitiram concluir que se encontra perante uma pausa na acção ou face a um momento em que a acção progride.

7. O narrador não reproduz o discurso das personagens através do discurso directo. Contudo, percepcionamos, nesta breve história, os pensamentos e sentimentos que dominam homens e animais.
7.1. Imagine um possível diálogo entre os camponeses que perseguiram o lobo. Se preferir, escreva o diálogo entre a alcateia faminta e desprotegida.

8. Escreva um breve texto, de cinquenta a sessenta palavras, no qual apresente a sua impressão sobre o conto «O Lobo».


25.5.09

Frei Luís de Sousa, Acto I, Cena VIII

1. Manuel (Passeia agitado de um lado para outro da cena, com as mãos cruzadas detrás das costas; e parando de repente:) – Há-de saber-se no mundo que ainda há um português em Portugal.
2. Madalena – Que tens tu, dize, que tens tu?
3. Manuel – Tenho que não hei-de sofrer esta afronta… e que é preciso sair desta casa, senhora.
4. Madalena – Pois sairemos, sim; eu nunca me opus ao teu querer, nunca soube que coisa era ter outra vontade diferente da tua; estou pronta a obedecer-te sempre, cegamente, em tudo. Mas oh! esposo da minha alma… para aquela casa não, não me leves para aquela casa! (Deitando-lhe os braços ao pescoço.)
5. Manuel – Ora tu não eras costumada a ter caprichos! Não temos outra para onde ir; e a estas horas, neste aperto… Mudaremos depois, se quiseres… mas não lhe vejo remédio agora. E a casa que tem? Porque foi de teu primeiro marido? É por mim que tens essa repugnância? Eu estimei e respeitei sempre a D. João de Portugal; honro a sua memória, por ti, por ele e por mim; e não tenho na consciência por que receie abrigar-me debaixo dos mesmos tectos que o cobriram. Viveste ali com ele? Eu não tenho ciúmes de um passado que me não pertencia. E o presente, esse é meu, meu só, todo meu, querida Madalena… Não falemos mais nisso: é preciso partir, e já.
6. Madalena – Mas é que tu não sabes… Eu não sou melindrosa nem de invenções; em tudo o mais sou mulher, e muito mulher, querido; nisso não… Mas tu não sabes a violência, o constrangimento de alma, o terror com que eu penso em ter de entrar naquela casa. Parece-me que é voltar ao poder dele, que é tirar-me dos teus braços, que o vou encontrar ali… Oh, perdoa, perdoa-me, não me sai esta ideia da cabeça… que vou achar ali a sombra despeitosa de D. João, que me está ameaçando com uma espada de dous gumes… que a atravessa no meio de nós, entre mim e ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre… Que queres? Bem sei que é loucura; mas a ideia de tornar a morar ali, de viver ali contigo e com Maria, não posso com ela. Sei decerto que vou ser infeliz, que vou morrer naquela casa funesta, que não estou ali três dias, três horas, sem que todas as calamidades do mundo venham sobre nós. Meu esposo, Manuel, marido da minha alma, pelo nosso amor to peço, pela nossa filha… vamos seja para onde for, para a cabana de algum pobre pescador desses contornos, mas para ali não, oh, não!…
7. Manuel – Em verdade nunca te vi assim; nunca pensei que tivesses a fraqueza de acreditar em agouros. Não há senão um temor justo, Madalena: é o temor de Deus; não há espectros que nos possam aparecer senão os das más acções que fazemos. Que tens tu na consciência que tos faça temer? O teu coração e as tuas mãos estão puras; para os que andam diante de Deus, a terra não tem sustos, nem o inferno pavores que se lhes atrevam. Rezaremos por alma de D. João de Portugal nessa devota capela que é parte da sua casa; e não hajas medo que vos venha perseguir neste mundo aquela santa alma que está no céu, e que em tão santa batalha, pelejando por seu Deus e por seu rei, acabou mártir às mãos dos infiéis. Vamos, D. Madalena de Vilhena, lembrai-vos de quem sois e de quem vindes, senhora… e não me tires, querida mulher, com vãs quimeras de crianças, a tranquilidade do espírito e a força do coração, que as preciso inteiras nesta hora.
8. Madalena – Pois que vais tu fazer?
9. Manuel – Vou, já te disse, vou dar uma lição aos nossos tiranos que lhes há-de lembrar, vou dar um exemplo a este povo que os há-de alumiar…


Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa.


I

1. Situa o excerto na estrutura externa e interna da obra.

2. Identifica a temática do diálogo entre Manuel e Madalena.

3. Mostra que as duas personagens evidenciam características românticas.

4. Atenta nas falas 4 e 6.
4.1 Caracteriza o estado de espírito de D. Madalena. Justifica-o.
4.2 Interpreta a expressividade da pontuação.
4.3 Como se designa o recurso estilístico presente na expressão: «estou pronta a obedecer-te sempre, cegamente, em tudo.» (fala 4)?
4.3.1 Comenta a sua expressividade.
4.4 Explicita a importância da didascália (fala 4).

5. A afirmação «vou dar um exemplo a este povo que os há-de alumiar» (fala 9) indicia o desafio (hybris) de Manuel de
Sousa.
5.1 Fundamenta a afirmação anterior.


II

Faz o resumo do seguinte texto:

A 2 e 3 de Agosto dá-se a movimentação dos dois exércitos adversários e é então que Mulei Nacer, irmão de Mulei Moâmede, com alguns dos seus, se passa para o nosso lado.
Ouve o rei o conselho sobre se se deveria retirar o exército ou dar batalha naquele dia ou no dia seguinte, sendo a quase generalidade dos pareceres de que não se deveria evitar a batalha, tendo em conta as circunstâncias. Mulei Moâmede, contudo, segundo alguns cronistas, foi de opinião que se retirasse.
Ao amanhecer do dia 4 de Agosto começa o xerife Moluco a ordenar o seu campo, enquanto a vida se lhe ia acabando, já que lhe fora ministrado veneno.
Nessa mesma manhã reúne o nosso rei novo conselho, concordando D. Sebastião com o alvitre de Mulei Moâmede, no sentido de ser adiado o combate para a tarde, já que aquele que o havia destronado se estava a acabar.
Esta sugestão foi-lhe, no entanto, contrariada pelo capitão Francisco de Aldana, que assegurava que el-rei «se perderia se não desse logo batalha».
Esta atitude de Aldana, levando o monarca a não esperar, ao contrário do que Mulei Moâmede pretendia, foi, talvez, a mais próxima causa da tragédia de Alcácer Quibir. Isso tem levado alguns historiadores a considerarem como obra de verdadeira traição a atitude do chefe militar castelhano. (…)
Não há coordenação no arraial português, tudo se decide ao sabor da inspiração de cada um. (…)
Pede Cristóvão de Távora a D. Sebastião, com as lágrimas nos olhos, que entregue as suas armas ao que o monarca se recusa, afiançando que «a liberdade real com a vida se havia de perder».
É nessa altura que o conde de Vimioso, ao ver a disposição do soberano, se arremessa por entre os mouros, com a espada na mão, disposto a vender cara a vida.
E neste intermeio pede um «helche» ao rei e a Cristóvão de Távora, que unicamente os dois o sigam, fugindo do lugar da batalha, mas, morto o conde, logo os mouros correm desesperadamente em perseguição dos fugitivos. E, alcançados, imediatamente se lançam sobre D. Sebastião, cada um deles procurando apoderar-se das suas armas, insígnias e vestes.

História de Portugal, Direcção de José Hermano Saraiva,
Publicações Alfa.





Auto da Feira - global

1. Por que razão é que esta peça se intitula Auto da Feira?

2. Exponha sumariamente o argumento do auto.

3. Identifique a alegoria que o fundamenta.

4. Que papel desempenha Mercúrio?

5. Por que razão é que Mercúrio recorre tantas vezes ao latim?

6. Identifique os diferentes momentos do desenvolvimento da acção deste auto.

7. Explicite os pormenores que evidenciam que as falas de Mercúrio representam um sermão burlesco.

8. Que atitudes são satirizadas em relação a Mercúrio?

9. Explicite as opiniões de Mercúrio em relação à astrologia.

10. Por que razão neste auto aparecem tantas personagens?

11. O Auto da Feira é uma moralidade ou uma farsa? Justifique.

12. Que função desempenha a personagem Tempo?

13. Que função desempenha o Serafim?

14. Que críticas faz o Serafim aos seus possíveis clientes?

15. O Serafim e o Tempo contestam a presença do Diabo na feira. Porquê?

16. Como é que o Diabo justifica o facto de apenas vender coisas más?

17. Neste auto aparecem valores antitéticos. Explicite-os.

18. Qual é a personagem que oscila entre estes valores? Justifique.

19. Explique em que aspectos a personagem Roma representa a Igreja.

20. Comente o facto de a personagem Roma representar uma visão crítica da religião da época.

21. O que é que Roma deseja comprar na feira? Justifique.

22. O Diabo apressa-se a atender Roma. Que mercadorias lhe propõe?

23. Segundo o Serafim, que preço deverá Roma pagar pela paz?

24. Como tenta Roma negociar o preço do Anjo? Justifique.

25. O que contém no cofre que Roma recebe?

26. O que vão os dois lavradores, Amâncio e Denis Lourenço, fazer à feira? Justifique.

27. De que se queixam os dois lavradores?

28. As mulheres dos dois lavradores vão à feira com que objectivo?

29. Branca Anes, a esposa de um dos mercadores, não está contente com o marido. Porquê?

30. O que pretende o Serafim vender às mulheres?

31. O que pretendem as duas mulheres comprar?

32. Vicente e Mateus vão à feira com um objectivo muito especial. Identifique-o.

33. A dada altura, aparecem na feira nove moças do monte. Que foram fazer?

34. Que pretende o Serafim vender ao grupo de raparigas?

35. Que argumentos é que as raparigas apresentam para não comprarem aquilo que o Serafim lhes oferece?

36. De que modo é que Teodora e Deroteia descompõem o equívoco da feira das «virtudes»?

37. Explique a antinomia entre o mundo espiritual, da Virgem, e o mundo temporal, da feira.

38. O que é que o Tempo pretende vender na feira?

39. O que é que o Diabo pretende vender na feira?

40. Diga o que entende por um «bofarinheiro».

41. Comente a crítica do Diabo aos clérigos.

42. Os produtos vendidos pelos dois mercadores não se adquirem por dinheiro. Porquê?

43. Identifique os argumentos do Diabo quando o Tempo e o Serafim tentam expulsá-lo da feira.

43. Identifique os erros cometidos pela Igreja na personagem de Roma.

44. Explique de que modo é que os valores materiais e espirituais entram em choque.

45. No final, Mercúrio adverte Roma. Em que consiste tal advertência?

46. Faça um comentário à linguagem dos dois lavradores e das suas esposas.

47. Comente, retirando exemplos, do cómico de linguagem, do cómico de carácter e do cómico de situação.

48. Nesta feira, através de que transacção é que se faz a aquisição de bens ou produtos?

49. Elabore o campo léxico-semântico de «feira».

50. Que significado simbólico tem o título do Auto da Feira? Justifique.

51. Quem pretendia Gil Vicente criticar com esta peça? Justifique.

52. Prove que Gil Vicente, embora crítico da Igreja, era um católico empenhado e fervoroso.

53. Comente o seguinte provérbio relacionando-o com o Auto da Feira: «Outros tempos, outros ventos».






23.5.09

Sermão de Santo António aos Peixes




Tenho acabado, Irmãos Peixes, os vossos louvores, e repreensões, e satisfeito, como vos prometi, às duas obrigações de sal, posto que do mar, e não da terra: Vos estis sal terrae. Só resta fazer-vos ~ua advertência muito necessária, para os que viveis nestes mares. Como eles são tão esparcelados1, e cheios de baixios, bem sabeis que se perdem, e dão à costa muitos navios, com que se enriquece o mar, e a terra se empobrece. Importa pois, que advirtais, que nesta mesma riqueza tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens dos naufragantes, ficam excomungados, e malditos. Esta pena de excomunhão, que é gravíssima, não se pôs a vós, senão aos homens; mas tem mostrado Deus por muitas vezes, que quando os animais cometem materialmente o que é proibido por esta Lei, também eles encorrem, por seu modo, nas penas dela, e no mesmo ponto começam a definhar, até que acabam miseravelmente.
Mandou Cristo a S. Pedro, que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe, que tomasse acharia ~ua moeda, com que pagar certo tributo. Se Pedro havia de tomar mais peixe que este, suposto que ele era o primeiro do preço dele, e dos outros podia fazer o dinheiro, com que pagar o tributo, que era de ~ua só moeda de prata, e de pouco peso, com que mistério manda logo o Senhor, que se tire da boca deste peixe, e que seja ele o que morra primeiro, que os demais? Ora estai atentos. Os peixes não batem moeda2 no fundo do mar, nem têm contratos com os homens, donde lhes possa vir dinheiro: logo a moeda, que este peixe tinha engolido, era de algum navio, que fizera naufrágio naqueles mares. E quis mostrar o Senhor, que as penas, que S. Pedro, ou seus sucessores fulminam contra os homens, que tomam os bens dos naufragantes, também os peixes por seu modo as encorrem, morrendo primeiro que os outros, e com o mesmo dinheiro, que engoliram, atravessado na garganta. Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar! Para os homens não há mais miserável morte, que morrer com alheio atravessado na garganta; porque é pecado de que o mesmo S. Pedro, e o mesmo Sumo Pontífice não pode absolver. E posto que os homens encorrem a morte eterna, de que não são capazes os peixes, eles contudo apressam a sua temporal3, como este caso, se materialmente, como tenho dito, se não abstêm dos bens dos naufragantes.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes.


Notas:
1 mares perigosos para a navegação
2 não cunham moedas
3 morte


I

1. Situa o texto na estrutura externa e interna da obra.

2. Através deste excerto, mostra que o sermão é alegórico.

3. O pregador afirma que só lhe falta fazer uma advertência.
3.1 Em que consiste?

4. «Mandou Cristo a S. Pedro, que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe, que tomasse, acharia ua moeda» (l. 9).
4.1 Com que intenção Vieira recorre a este exemplo?

5. Identifica o recurso estilístico presente na frase «Oh que boa doutrina era esta para a Terra, se eu não pregara para o mar!» (l. 17).
5.1 Explicita o seu valor expressivo.

6. Refere a tese em que assenta a argumentação do orador, neste excerto.

7. Contextualiza histórico-social e politicamente este sermão.


II

Redige um texto expositivo-argumentativo defendendo e/ou refutando uma das seguintes teses:
– O «polvo» é o mais perigoso de todos os seres.
– Os «pegadores» são mais nocivos que os «voadores».


Nota: qualquer das teses deve ser aplicada à sociedade em que te integras.



22.5.09

Maria Eduarda

Foi como uma inesperada aparição – e vergou profundamente os ombros, menos a saudá-la que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia abrasar-lhe o rosto. Ela, com um vestido simples e justo de sarja preta, um colarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, acabando por desdobrar um pequeno lenço de renda. Obedecendo ao seu gesto risonho, Carlos pousou-se embaraçadamente à borda do sofá de repes. E depois de um instante de silêncio, que lhe pareceu profundo, quase solene, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, de um tom de oiro que acariciava.
Através do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ela lhe agradecia os cuidados que ele tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se demorava nela um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra forma da sua perfeição. Os cabelos não eram loiros, como julgara de longe à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de muito grave e de muito doce. Por um jeito familiar cruzava às vezes, ao falar, as mãos sobre os joelhos. E através da manga justa de sarja, terminando num punho branco, ele sentia a beleza, a brancura, o macio, quase o calor dos seus braços.

Eça de Queirós, Os Maias, cap. XI



I

1. Integre este excerto na estrutura global da obra.

2. No excerto descreve-se a personagem Maria Eduarda.

2.1. Que facetas desta figura nos são reveladas? Justifique com elementos do texto.

3. Que tipo de impressões causa a visão de Maria Eduarda em Carlos?

4. Diga se Carlos vai continuar a ver Maria Eduarda sempre da mesma maneira. Justifique a resposta.

5. Mencione e dê exemplos de alguns recursos de estilo presentes no texto.

6. Atente na seguinte frase: «A voz de Maria Eduarda ergueu-se».

6.1. Faça a análise sintáctica da frase.

6.2. Classifique morfologicamente a forma ergueu-se.

6.3. Dê um exemplo de uma palavra homófona de voz.


II

Recorde o episódio do jantar no Hotel Central. Ega e Alencar representam nesse episódio duas correntes literárias em confronto. Numa composição cuidada, refira as características dessas correntes.


21.5.09

O Violinista



Leia, atentamente, o conto «O Violinista», da autoria de Selma Lagerlõf, a primeira mulher a ser nomeada Nobel da Literatura, em 1909, pela Academia Sueca. Depois, responda às questões que se seguem, de forma cuidada.

1. O primeiro parágrafo dá-nos informações sobre o presente e o passado da personagem Lars Larsson. Explique a transformação que se efectuou na personagem, tendo em atenção o segmento inicial da narrativa.

2. Seguidamente, através de uma analepse, o narrador dá-nos a conhecer uma situação vivida por Lars Larsson.
2.1. Localize a acção no espaço e no tempo.
2.2. Depreenda, a partir da leitura do terceiro parágrafo, o estado emocional que domina a personagem.

3. Nos discursos entre aspas, o narrador reproduz monólogos interiores da personagem.
3,1. Esclareça a importância desses fragmentos textuais.

4. «[...] num gesto nervoso, arrancou [...] algumas folhas, que lançou ao riacho.»
4.1. Decifre a possível simbologia de «riacho».
4.2. Explique os receios da personagem, quando supõe ouvir «sons metálicos» produzidos pela água (l. 70).
4.3. Transcreva expressões que traduzam a ideia de que a própria natureza parece ser opo-nente ao protagonista da acção.

5. Lars Larsson encontra uma construção antiga da qual sai uma personagem
5.1. Reconte a situação vivida pelo violinista a partir deste momento.

6. Formule conclusões sobre a moralidade que esta «lenda» encerra.

7. «- Mãe, caí em desgraça por causa dos valores conotativos do acto de dizer.
meu orgulho e agora tenho de morrer de tanto tocar. Mas antes diz-me se podes perdoar-me, a mim, que te abandonei pobre e só na tua velhice!»
7.1. Reproduza o excerto transcrito em discurso indirecto, respeitando os preceitos necessários para o efeito.

8. «Na parte da floresta que Lars atravessava, um arroiozinho procurava caminho. No terreno pedregoso e acidentado, era com dificuldade que avançava: errava por aqui e por ali, arriscava-se em diminutas cascatas, e, contudo, dava a impressão de não chegar a parte alguma. Pelo contrário, o caminho que o músico seguia esforçava-se por ser o mais direito possível. Por isso, a cada instante encontrava ele o regato tortuoso que de vez em quando atravessava por sobre uma pequena ponte. O músico era, assim, obrigado a cruzar constantemente o ribeiro, o que, aliás, não lhe desagradava. Parecia-lhe que era acompanhado, que já não se encontrava sozinho na floresta.»
8.1. Identifique, no excerto, articuladores de discurso que traduzam ideias de oposição e de consequência.
8.2. Altere frases deste excerto textual de modo a obter afirmações que não respeitem os princípios da não contradição e da não tautologia.

9. Escreva duas frases, de preferência associadas ao conto que leu, com as palavras «emergir» e «imergir».

19.5.09

Evolução em Código




Descobertas sobre o modo como os genes codificam proteínas, revelam a sofisticada «programação» da Natureza para proteger a vida de erros catastróficos e acelerar a evolução.

A 14 de Abril de 2003, cientistas anunciaram ao mundo a conclusão do sequenciamento do genoma humano – o arquivo de 3 biliões de pares de nucleotídeos de ADN com a receita de como se faz um ser humano. Mas encontrar todos os genes que realmente funcionam na sequência permanece um desafio, assim como compreender melhor como e quando são activados e de que modo as suas instruções influem no comportamento das moléculas de proteínas que codificam. Não surpreende que o chefe do Projecto Genoma Humano, Francis S. Collins, tenha qualificado a conquista do grupo apenas de «o fim do começo».
Collins referia-se também a uma comemoração que ocorreu naquela mesma semana: o começo do começo, 50 anos antes, quando James Watson e Francis H. Crick revelaram a estrutura da molécula de ADN. Era uma época entusiasmante. Os cientistas sabiam que a molécula finalmente visualizada continha nada menos do que o segredo da vida, a possibilidade dos organismos se arquivarem num conjunto de programas e converterem essa informação em metabolismo vivo. Nos anos seguintes, o mundo científico foi seduzido pela tentativa de descobrir como se dava essa conversão. Sabia-se que o alfabeto do ADN consistia apenas em quatro tipos de nucleotídeos. Portanto, a informação codificada na espiral dupla deveria ser descodificada, obedecendo a determinadas regras, para informar as células quais os 20 aminoácidos tinham de ser ligados a fim de formar os milhares de proteínas constituintes de biliões de formas de vida. Enquanto ovos são chocados, sementes germinam, fungos se disseminam e bactérias se dividem, todo o mundo vivo está eternamente envolvido numa operação frenética de descodificação.


Resumo/O Código da Vida
• As instruções genéticas para a fabricação de proteínas estão escritas em «palavras» de três letras chamadas códons que especificam cada um dos 20 aminoácidos ou um sinal para a interrupção da tradução. A organização desses códons e seus significados já foram considerados aleatórios, mas novas descobertas deixaram claro que a selecção natural escolheu e manteve essa ordem.
• Simulações com computadores revelam por que: comparado com alternativas hipotéticas, o código padrão é incrivelmente eficaz na minimização do prejuízo causado por erros nos genes ou no processo de tradução de genes em proteínas.



OS AUTORES: STEPHEN J. FREELAND e LAURENCE D. HURST usam a bioinformática para estudar a biologia evolutiva. Freeland é professor assistente de bioinformática na Universidade de Maryland, Baltimore Country. (…) Laurence Hurst é, hoje, professor de genética evolutiva na Universidade de Bath, na Inglaterra.

Scientific American, Maio de 2004 (adaptado).


I

Após a leitura atenta do excerto deste artigo científico, responde às questões com clareza e concisão.
1. Relaciona o título com o subtítulo.

2. Transcreve do primeiro e segundo parágrafos as expressões identificadoras, correspondentes aos vocábulos sublinhados:
• Os cientistas fizeram uma importante comunicação ao mundo, no dia 14 de Abril de 2003;
• Comemorou-se uma descoberta fundamental, «naquela mesma semana», ocorrida 50 anos antes;
• O mundo científico realizou um trabalho de investigação apaixonado, nessa área, nos anos seguintes.

3. Explicita o sentido da expressão «a receita de como se faz um ser humano» .

4. Esclarece a afirmação de Francis S. Collins ao qualificar «a conquista do grupo apenas de ‘‘o fim do começo’’ ».

5. Caracteriza a investigação científica na área da Genética.

6. Relê atentamente o Resumo/O Código da Vida.
6.1 Neste contexto, interpreta a expressão «Código da Vida».

7. Identifica no excerto três elementos próprios da estrutura de um artigo científico.

8. Caracteriza a linguagem utilizada, exemplificando o vocabulário específico desta tipologia textual.


II
Funcionamento da Língua

1. Selecciona do excerto três termos técnico-científicos.

2. Classifica morfologicamente as palavras: «catastróficos» (subtítulo), «segredo», «disseminam», «eternamente».

3. Apresenta os sinónimos dos vocábulos: «sofisticada» (subtítulo), «germinam», «frenética» .

4. Escreve cinco palavras da família de: descoberta, vida e evolução.

5. Interpreta o motivo pelo qual nas linhas 15 e 16 o Presente do Modo Indicativo é privilegiado.

6. «Não surpreende que o chefe do Projecto Genoma Humano, Francis S. Collins, tenha qualificado a conquista do grupo apenas de «o fim do começo».
6.1 Divide e classifica as orações da frase.
6.2 Refere as funções sintácticas dos vocábulos sublinhados.


III
Expressão Escrita

Elabora um texto cuidado em que exponhas a tua opinião sobre a importância das descobertas na área da Genética, reflectindo nas inúmeras implicações (positivas e negativas) para a Humanidade. Refere exemplos concretos para ilustrares as tuas ideias sobre esta temática.



O sugerido sobre os rendimentos


Lisboa, 29/1/2002*
Caro Dr. Durão Barroso

Tem afirmado V. Ex.a que, caso seja eleito primeiro-ministro, baixará os impostos (não estranhe V. Ex.a este tratamento cerimonioso, em vez do nosso habitual tutoyer1, uma vez que apenas reservo o tratamento por tu a primeiros-ministros e não a meros candidatos). V. Ex.a disse portanto que baixava os impostos e isso tornar-se-ia, doravante, uma possibilidade real, já que V. Ex.a tem verdadeiras hipóteses de chegar a líder de um Governo, ao contrário das cassândricas previsões de certos analistas e comentadores. Não levará, porém, a mal V. Ex.a se eu, do alto dos meus inúmeros estudos sobre economia, derivados e ofícios correlativos, lhe diga (não olhos nos olhos, mas carta na cara) que essa é uma promessa impossível de ser cumprida em Portugal.
Na verdade, V. Ex.a poderia baixar os impostos na Suécia ou no Reino Unido, na Dinamarca ou na Alemanha, quiçá na França ou na Espanha. Todavia, tal desiderato torna-se inexequível adentro de nossas velhas fronteiras. Porquê? – Eis a pergunta que lhe adivinho soltar-se dos lábios, depois de percorrer, com a rapidez possível, as circunvoluções do seu respeitável cérebro. Por razões económicas? Não, meu caro Dr. Durão Barroso, não por motivos de Economia, essa ciência obscura que provém directamente dos ritos ancestrais de ler o futuro no fígado das aves, nas entranhas do peixe ou nos números do Instituto Nacional de Estatística. A razão da impossibilidade de baixar os impostos é meramente prática. Se tiver paciência para mais 20 linhas, passo a explicar.
A verdade, meu caro e preclaro amigo, é que em Portugal não há o que se chame de impostos!
A palavra imposto, como não desconhece, refere-se a algo obrigatório, ao qual não se pode fugir. Não é facultativo, nem depende do estado de espírito ou dos humores de cada um. Nada disso! O que nos é imposto não fica ao nosso livre arbítrio, é fatal, inelutável. É como respirar, como tossir
num concerto, como morrer.
Acontece que a tributação recolhida pelo Estado português não tem as características de um Imposto. Tem, digamos, a de um Sugerido. Na verdade, o que o Estado faz, a avaliar pelas receitas do IRS (que em boa verdade, tal como os airbag, se devia chamar SRS2, é sugerir aos portugueses que paguem qualquer coisita, se puderem – é evidente – ou não tiverem outra hipótese. É como uma esmola, uma gorjeta ou o preço da revista Cais – cada um dá o que pode, ou o que lhe apetece, e a mais não é obrigado. Por exemplo, um ex-presidente do Benfica dava cerca de 50 contos e um grande
empresário da construção civil outro tanto. Inúmeros advogados dão 100 ou 200 contitos; caixeiros-viajantes e profissionais dos ramos de vendas também contribuem um bocadito. E pronto, lá vamos andando.
Vem V. Ex.a como um pobre sem ambições (em vez de 100 escudinhos pedir só 50) baixar a tabela. O máximo de 40 por cento desceria, com a sua subida a primeiro-ministro, para 35 por cento. Não vê V. Ex.a que escusa de se dar ao incómodo de fazer uma lei? O português não precisa que lhe digam para pagar menos! Está habituado a pagar o mínimo possível. Até porque não lhe é imposto... é-lhe apenas vaga e timidamente sugerido.
Receba um abraço do seu

Marques de Correia (comendador@ mail.expresso.pt)

in Expresso, revista Actual, 2 de Fevereiro de 2002


Notas:
Este texto foi escrito antes das eleições legislativas de 2002, quando Durão Barroso era ainda candidato a Primeiro-Ministro.
1. tutoyer – (fr.) tratar por tu.
2. SRS – sigla ligada ao ramo automóvel, do inglês Supplemental Restraint System (sistema complementar do airbag);
jogo com IRS/SRS (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares/Sugerido sobre o Rendimento das Pessoas Singulares).




I

1. Neste texto, sobretudo nos quatro primeiros parágrafos, encontramos um vocabulário que denota o uso de um registo de língua cuidado.
1.1. Justifica o seu uso neste contexto.
1.2. Faz corresponder os termos que se seguem aos seus equivalentes num registo de língua familiar:
A. meros
B. doravante
C. correlativos
D. quiçá
E. desiderato
F. inexequível
G. ancestrais
H. preclaro
I. (livre) arbítrio
J. inelutável

a. relacionados
b. impossível de executar
c. liberdade de decisão
d. simples
e. daqui em diante
f. inevitável
g. talvez
h. desejo
i. antigos
j. famoso

2. Embora tratando-se de uma carta, este texto não deixa de ser argumentativo.
2.1. Salienta:
• a tese do autor;
• os argumentos;
• os exemplos.
3. Também no que se refere à expressão, o autor não ignora os recursos próprios deste tipo de
texto.
3.1. Procura exemplos ao nível:
• da pontuação;
• da construção frásica;
• da articulação do discurso;
• dos recursos estilísticos.


II

1. “Tem afirmado V. Ex.a que, caso seja eleito primeiro-ministro, baixará os impostos (…)”
1.1. Divide e classifica as orações desta frase complexa.
1.2. Reescreve a oração “caso seja eleito primeiro-ministro”, substituindo a conjunção subordinativa.
que a introduz por outra de sentido equivalente neste contexto (terás de alterar a forma verbal).
1.3. Que função sintáctica desempenha a oração introduzida pela conjunção que?


III

1. Os exames nacionais e a educação sexual nas escolas têm sido, nos últimos tempos, temas recorrentes de reivindicações dos estudantes do ensino secundário.
Redige uma carta ao Ministro da Educação, defendendo a tua opinião acerca de uma das duas questões, à tua escolha.
Não te esqueças que, mesmo em forma de carta, o que vais redigir é um texto argumentativo, onde terás que começar por expor a tua tese seguida da apresentação dos teus argumentos, que deverão ser claros e fundamentados de forma a convenceres o Ministro da justeza das tuas opiniões.


Sermão de Santo António




Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: (…) Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros. (...) Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá, para cá; para a Cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer.
Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o Médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. (...)
(…) Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na República, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das Cidades e das Províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros. (…) E de que modo os devoram e comem? (…) não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem (…) Parece-vos bem isto, peixes? (…)

Padre António Vieira, Sermão de Santo António


I

1. Neste excerto, Vieira vai censurar os peixes pelos seus “vícios”.
1.1. Identifica a razão que está na origem da primeira repreensão que lhes é dirigida.

2. Demonstra, por palavras tuas, que a atitude do Padre António Vieira é oposta àquela que teve
Santo Agostinho.

3. “Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá, para cá; para a Cidade é que haveis de olhar.”
3.1. Explicita a ordem que Vieira dá aos peixes no excerto anterior.
3.2. Assinala as razões que presidiram a essa ordem do pregador.

4. “São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e
em tudo são comidos os miseráveis pequenos (…)”.
Explica esta passagem, referindo-te à importância da alegoria na construção de novos sentidos.

5. Selecciona, no excerto, um exemplo de cada um dos seguintes recursos:
• apóstrofe;
• metáfora;
• enumeração.


II

1. “Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes (…)”.
1.1. Classifica a oração sublinhada.
1.2. Faz a análise sintáctica da seguinte oração: “Santo Agostinho (…) mostrou-lho nos peixes”.


III

1. No mundo em que vivemos, todos os dias ouvimos discutir questões polémicas acerca das quais também temos a nossa opinião.
Temas como a violência no desporto, a legalização de emigrantes em situação irregular, a interrupção voluntária da gravidez, a substituição de penas de prisão por serviços à comunidade estão na ordem do dia.
Escolhe um tema, de entre os que te apresentamos, e elabora sobre ele um texto argumentativo que tenha entre cento e sessenta e duzentas palavras.
Antes de começares, estrutura devidamente o teu texto, definindo bem a tese que vais defender e os argumentos que vais apresentar.
Articula bem o teu discurso através de conectores textuais que confiram coerência ao teu texto.



Mão Pesada

Mão Pesada

Nos últimos cinco anos morreram nas estradas portuguesas 7703 pessoas. Esta informação foi publicada no DN1 a propósito do Dia Europeu de Homenagem às Vítimas de Acidentes de Viação. A data foi ontem assinalada de várias formas, entre as quais uma simbólica deposição de coroas de flores no Monumento aos Mortos da Grande Guerra, em Lisboa.
Muitos Governos têm prometido impor a paz nas estradas portuguesas, seja com o reforço de diversas acções de fiscalização – como a tolerância zero –, ou com campanhas de sensibilização – algumas delas brilhantes e corajosas, como o spot televisivo em que vítimas de acidentes de viação expõem as dificuldades do dia-a-dia devido a incapacidades físicas resultantes de desastres rodoviários. Tudo isto tem sido insuficiente.
O último ano do quinquénio2 foi o pior nas estradas portuguesas em acidentes mortais: 1549 pessoas perderam a vida. Apesar de todos os alertas, apesar de os automóveis terem condições de segurança cada vez mais reforçadas, o número de mortos aumentou nas estradas nacionais.
As explicações e os diagnósticos sobre a insegurança rodoviária em Portugal estão dadas e feitos há muito tempo. A fiscalização não dispõe dos meios suficientes, os infractores são tratados com excessiva leveza e os chamados “pontos negros” das estradas mantêm-se anos e anos tal como estão, apesar dos constantes alertas de automobilistas e das populações locais. Para que esta situação seja radicalmente alterada, é necessária uma clara vontade política.
Todos os meios são poucos para acabar com a guerra civil nas estradas, onde se assiste com excessiva frequência à falta de respeito pelas regras essenciais. É obrigação de cada um de nós, de cada automobilista, contribuir para que os portugueses se respeitem na estrada. Às autoridades compete prevenir o futuro, com acções de sensibilização logo nos primeiros anos da escola, e cuidar do presente, castigando com mão pesada cada um dos infractores.

Editorial, Diário de Noticias (on-line), 17-11-2003

Notas:
1. DN – Diário de Notícias.
2. quinquénio – período de cinco anos.




I
1. O texto que acabaste de ler é um editorial.
1.1. Indica o facto que está na sua origem.
1.2. Explica, resumidamente, a situação exposta nos parágrafos três a cinco.
1.3. No último parágrafo, o editorialista faz duas propostas.
1.3.1. Identifica-as.
1.3.2. Diz se estás de acordo com elas e porquê.
1.3.3. Faz mais duas propostas que, na tua opinião, poderiam ajudar a minimizar este flagelo das estradas portuguesas.

2. Encontra, no texto, três passagens em que o elevado número de mortes nas estradas portuguesas é tratado como se do resultado de uma guerra se tratasse.

3. Explica o título do texto.


II

1. Justifica o uso de todos os sinais de pontuação, no seguinte parágrafo:
“O último ano do quinquénio foi o pior nas estradas portuguesas em acidentes mortais: 1549 pessoas perderam a vida. Apesar de todos os alertas, apesar de os automóveis terem condições de segurança cada vez mais reforçadas, o número de mortos aumentou nas estradas nacionais.”

2. São vários os processos de enriquecimento do léxico. Identifica os que se verificam nas seguintes palavras:
• assinalada • impor • spot • radicalmente • automóvel

3. “Para que esta situação seja radicalmente alterada, é necessária uma clara vontade política.”
3.1. Divide e classifica as orações desta frase complexa.
3.2. Substitui a locução subordinativa por outra de valor equivalente.


III

1. Uma das estradas por onde tu passas frequentemente é um dos “pontos negros” semelhante
àqueles a que o editorial faz referência.
Elabora uma reclamação, em forma de carta, que vais dirigir ao Governo português.
Não te esqueças que:
– da reclamação devem constar dados precisos acerca de quem reclama, porque reclama e o que reclama.
– A carta de reclamação deve obedecer à seguinte estrutura:
• fórmula de saudação • exposição do assunto • fundamentação da reclamação
• pedido de reparação/solução para o problema • fórmula de despedida



16.5.09

Praia das Lágrimas e o Velho do Restelo

CAPÍTULO IV - «A mais linda história do mundo»
EPISÓDIO: Praia das Lágrimas e o Velho do Restelo


«Eis no porto de Lisboa, onde o Tejo mistura as suas águas com a água salgada do Mar, as naus prontas a sair.
Ninguém receia a viagem aventurosa. Ninguém vacila em seguir-me a toda a parte.
Na praia, guerreiros e marujos passeiam os seus fatos novos.
Os ventos sossegados fazem ondular os estandartes nas fortes e belas naus que prometem tornar-se um dia, — como a lendária Argos onde os Gregos, em tempos remotos, foram conquistar o Velo de Oiro — estrelas brilhantes no céu da glória...
Estão as naus aparelhadas e nós aparelha¬dos para todas as traições e lutas do Mar, a que os navegadores estão sujeitos.
À Deus pedimos, antes de partir, a protecção e ajuda, favor celeste que nos guiasse.
E enfim, da Capela de Santa Maria de Belém saímos para bordo.
A gente da cidade veio-nos acompanhar, em grande multidão, chorando e gritando. Soluçavam as mulheres. Suspiravam os homens que ficavam. Todos receavam a nossa perda nos desconhecidos oceanos que íamos navegar...
Mães, esposas, irmãs, imaginavam já não nos tornar a ver. Uma, chama pelo filho. Outra, pelo esposo. Velhos e meninos banhavam a branca areia com suas lágrimas.
Tão grandes saudades sentiam todos — os que ficavam e os que partiam, — que eu decidi que embarcássemos sem despedidas, sem adeus.
E assim fizemos, para não tornar triste, logo de começo, tão audaciosa e gloriosa jornada...
Nenhum de nós então se despediu, ninguém sequer falou, para que não se adivinhasse a nossa comoção e a nossa mágoa.
Mas um velho, muito velho, que na praia chamada do Restelo ficara sozinho, homem de aspecto grave e venerando, seguindo-nos com os olhos, pensativo, meneou três vezes a cabeça.
E levantando a voz, tão alto que a ouvimos já embarcado, bradou, increpando-nos veementemente:
— «Que pretendem aqueles, exclamava o velho apontando para nós, senão correr atrás de vaidades e vitórias impossíveis?
Que desastres sofrerá Portugal por causa dessa loucura que é abandonar a terra dos nossos avós, e as nossas conquistas da África, onde tantas vitórias poderíamos alcançar ainda, indo tão longe e tão desvairadamente buscar a Fama e a Riqueza?
Temos o inimigo à porta, — gritava o ancião, — e tenta-nos desperdiçar assim a força de que precisamos tanto?
Maldito, acrescentou, maldito aquele que primeiro pôs uma vela num barco e deu aos homens o anseio de navegar! Melhor fora não ter desejos tão subidos, nem imitar os ambiciosos, que não sabem contentar-se com a sorte que Deus lhes deu».
Assim vociferava o ancião venerável, condenando a viagem que vínhamos tentar, saudosos da terra onde o nosso esforço e o nosso trabalho ainda eram certamente precisos...
Mas esquecia o velho do Restelo que somos um povo de marinheiros. E não queria também lembrar-se de que o bom nome e a honra de Portugal exigia que levássemos ao fim a empresa começada... Continuou a gritar na praia, mas não mais o ouvíamos.
As naus navegavam já, abrindo as asas ao vento sereno. E — como é costume entre as pessoas que se arrojam às incertas águas do Mar — uns aos outros, dentro dos barcos, dizíamos, saudando-nos mutuamente: «Boa-Viagem!»

In Os Lusíadas de Luís de Camões contados às Crianças e Lembrados ao Povo



I

1.Qual era o estado de espírito dos homens e mulheres, no momento da partida dos marinheiros portugueses?
1.1.Transcreve expressões que justifiquem esse sentimento de perda, tristeza e saudade.
1.2. Qual era o receio do povo português, relativamente à viagem?

2.Identifica a personagem que aparece no momento da partida da armada.
2.1. Faz a sua caracterização física e psicológica.
2.2. Qual é a mensagem que esse velho pretende transmitir?
2.3. Indica a pontuação predominantemente utilizada no discurso do velho e explica a sua utilidade.
2.4. Na tua opinião, o que representa o Velho do Restelo na obra?

3. Classifica o narrador quanto à sua presença, ciência e posição. Justifica com expressões do texto.

4. A partida dos portugueses de Lisboa rumo à Índia é contada, numa fase posterior, ao rei de Melinde por Vasco da Gama.
4.1. Refere o processo aqui utilizado pelo narrador.

5. Identifica o plano presente neste capítulo.

6. Refere os tipos de episódios que conheces nesta obra e diz em que consistem.



II
Funcionamento da Língua

«Assim vociferava o ancião venerável, condenando a viagem que vínhamos tentar, saudosos da terra onde o nosso esforço e o nosso trabalho ainda eram certamente precisos...»

1. Classifica morfologicamente as palavras sublinhadas.
2. Identifica os verbos presentes e respectivos tempos verbais.


III
Expressão Escrita

Relembra o capítulo: “A mais linda História do Mundo”.
Utilizando o maior número de adjectivos que conseguires, descreve o amor entre D. Pedro e D. Inês de Castro.






Sermão da Sexagésima


TEXTO


Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que fazem os Apóstolos? - Diz o texto que estavam reficientes retia sua: refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: retia sua: não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? - Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer a rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça. As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.
Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhe haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois porque na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? - Porque o que há-de dizer o pregador, não lhe sai só da boca; há-de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca, pára nos ouvidos; o que nasce do juízo, penetra e convence o entendimento.

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima, cap. VII




I

1. Neste texto, estabelece-se uma relação entre o que é próprio e o que é alheio.
1.1. Numa frase bem construída, esclarece a finalidade desta oposição.

2. Há ainda a relação entre redes e palavras.
2.1. Explica essa relação.

3. Indica o sentido de "pescar homens".

4. "Pregar não é recitar."
4.1. Explica o sentido desta afirmação.
4.2. Esta afirmação contém uma crítica. Indica o seu objectivo.
4.3. Da mesma maneira pode dizer-se que "estudar não é recitar". A esta luz, como deve ser o estudo?

5. Há muitas interrogações. Refere a sua função.

6. Parece claro que o Sermão da Sexagésima tem objectivos que valem para o nível religioso e para o nível profano. Neste último caso, pode ser útil para quem quer aprender a escrever e a estudar.
6.1. Põe em destaque os benefícios dos excertos que leste para o desenvolvimento da competência da escrita.


II

Lê o seguinte excerto do capítulo VI do Sermão da Sexagésima:

«Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter: palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja


Tendo por base este excerto, mostra de que forma Pe. António Vieira se posiciona em relação ao Barroco.


13.5.09

Está o lascivo e doce passarinho




Está o lascivo e doce passarinho
Co'o biquinho as penas ordenando,
O verso sem medida, alegre e brando,
Espedindo no rústico raminho.

O cruel caçador, que do caminho
Se vem, calado e manso, desviando,
Na pronta vista a seta endireitando,
Lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

Destarte o coração, que livre andava,
(Posto que já de longe destinado),
Onde menos temia, foi ferido.

Porque o Frecheiro cego me esperava,
Para que me tomasse descuidado,
Em vossos claros olhos escondido.

Luís de Camões


I

1. O soneto apresenta-se bipartido em dois termos de comparação.
1.1. Destaca o vocábulo que articula os dois termos da comparação.
1.2. Salienta o que há de comum entre o primeiro e o segundo termos.

2. Numa leitura atenta é possível estabelecer uma correspondência directa entre elementos dos dois termos da comparação.
2.1. Identifica-os
2.2. Sublinha os adjectivos que caracterizam cada um desses elementos
2.3. O poeta toma partido por dois destes elementos contra os outros dois. Justifica com elementos do poema esta afirmação.

3. Indica o tema deste soneto.

12.5.09

Sermão de Santo António aos Peixes



Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal! (...)

Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt imitatione: «Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão também que imitar e louvar.» Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pescadores «recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus»: Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt. E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António



I

1. Vos estis sal terrae é a expressão bíblica que introduz este sermão. Porque são os pregadores o sal da terra?

2. Diz o autor que a terra está corrupta. Quais são as causas desta corrupção?

3. Que motivos levam o autor a pregar aos peixes?

4. O sal tem duas Propriedades. Indique-as.

5. Podemos encontrar estas duas propriedades nos pregadores? Justifique.

6. Comente a seguinte afirmação: «No Sermão de Santo António aos Peixes, o Padre António Vieira, descrevendo os hábitos predominantes de algumas espécies marinhas, constrói várias alegorias, através das quais castiga duramente certos tipos de pecadores: ou porque não têm as virtudes dos peixes ou então porque possuem os seus defeitos.»

7. Identifique duas figuras de estilo e comente o seu valor expressivo.


II

O Sermão de Santo António aos Peixes constitui um texto argumentativo. Enuncie as características deste género de texto.



O dia em que nasci moura e pereça



O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.

A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

Luís de Camões


I

1. Identifique o tema e o seu desenvolvimento.

2. O poeta amaldiçoa o dia em que nasceu. Explicite esse drama, identificando:
2.1 O estado de espírito do sujeito lírico.
2.2 Os pedidos formulados.
2.3 A função da Natureza dentro do desespero do poeta.

3. Releia os dois tercetos.
3.1 Indique os aspectos da linguagem e estilo que contribuem para a valorização estética deste poema.
3.2 Classifique morfologicamente as palavras destacadas:
- «0 gente temerosa, nao te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!»

4. Proceda à análise formal do soneto.
4.1 Indique o esquema rimático.
4.2 Classifique as rimas da segunda quadra:
a) quanto à disposição ou ligação entre os versos;
b) quanto à acentuação;
c) quanto às classes gramaticais das terminações ou frequência de uso;
d) quanto aos elementos vocálicos e consonânticos das terminações.
4.3 Faça a escansão do verso 8.
4.4 CIassifique-o quanto ao número de sílabas métricas e quanto à posição das sílabas tónicas.





Eu cantarei de amor tão docemente


File:François Boucher 011.jpg

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.

Luís de Camões


I

Este soneto poderia funcionar como uma introdução à Lírica de Camões.
1. “Eu cantarei...” “Farei...”
1.1. Qual o propósito assim enunciado?

2. Apresenta-se o tem central da lírica – o Amor.
2.1. Identifica os versos em que se esboça uma descrição do amor.
2.2. Refere os recursos estilísticos utilizados.

3. Enuncia-se “também” o objecto desse amor.
3.1. Quem é, e que função desempenha no soneto?
3.2. Caracteriza a relação que estabelece com o sujeito poético.
3.3. Explica de que forma a oposição introduzida pelo “porém” na última estrofe coloca o “objecto do amor” no plano da inatingível perfeição.




Segredo



Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar;
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…

Miguel Torga, Diário (1956)


I

1. Transcreve as palavras do texto que pertencem ao campo lexical de aves.

2. Justifica o título do poema de Miguel Torga.

3. Explicita quais os perigos que ameaçam as aves sugeridos no poema.

4. As aves são referidas através de um recurso estilístico, identifica-o.

5. Faz a análise formal do poema.



II
Produção Escrita

Imagina que és uma ave! Escreve um texto narrativo em que contes uma das tuas aventuras durante uma viagem a um país distante.