28.4.09

Busque Amor novas artes, novo engenho



Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Luís de Camões


I

1. Demarca as partes constituintes do soneto.

2. Num primeiro momento, o sujeito poético sugere que o “Amor” já pouco “mal” lhe poderá provocar.
2.1. Explica porquê.
2.2. Refere o valor expressivo do verso “andando em bravo mar, perdido o lenho”.

3. Mas o “Amor” tem sempre “novas artes, novo engenho” para provocar “um mal”.
3.1. Explicita como se revela no discurso poético a incapacidade de definir esse “mal”.




27.4.09

Transforma-se o amador na cousa amada


File:Paris Bordone 005.jpg


Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

Luís de Camões


Nota:
A ideia da transformação do amador na cousa amada, de origem platónica, é posta em circulação por Petrarca, e por isso já tem eco no nosso Cancioneiro Geral, de Resende.



I

1. Este soneto organiza-se em torno de dois tipos de amor.
1.1. Identifique-os.
1.2. Ponha em evidência as filosofias que lhes servem de suporte.

2. Nesta mensagem poética, o Belo e o Bem supremos residem na alma. E a alma com que se identifica?

3. Transcreve os versos onde se alude ao amor carnal.

4. O verbo “desejar” tem um emprego ambíguo. Demonstre-o adentro do confronto alma /corpo.

5. A partir do 1º terceto, o poeta começa a antítese, isto é, a contra argumentação. Que vocábulo nos revela que se vai contrapor algo de diferente?




Alento de ser vivo

Nisto, resolvi marinhar até ao cimo do zimbório, pela escadinha exterior, que é de dar vertigens. O cicerone opôs-se, declarou que não assumia a responsabilidade. Os outros visitantes ofereceram-me conselhos sensatos, que era um perigo, um pé em falso e zás... Subi assim mesmo, quase de gatas. Era preciso ter unhas. E já não era a primeira vez.
Cheguei quase ao alto, sentei-me num degrau e fiquei só. Ficar só, aqui, não é ficar desacompanhado; é ficar recolhido, mergulhando raízes em alguma coisa mais do que o panorama que realmente me rodeava: absorvido a olhar um quadro com uma segunda vista que me dava sobre os outros, que a não tinham, uma vantagem inestimável. Ali sentado, lembrei quantas vezes, por esse mundo, ouvindo assobiar o vento nas janelas dum triste arranha-céus de Chicago ou nos cordames dum navio solitário, eu me sentira subitamente transportado em nostalgia, muitos anos e muitas léguas atrás, ao alto desta serra e deste zimbório. Fechava então os olhos, e o mundo em torno
cessava de existir - ficava só aquele doce, grave e manso zumbir do vento musical, e eu revia-me, de cabeça descoberta, banhado de sol e frescura, no alto da cúpula, a ouvir suspirar esta brisa do Atlântico, cheia de longes, de índias, de ilusões, de apelos, quimeras, sereias e mundos. (...)
Fechei os olhos. O vento passou, com o seu zumbido manso e grave, e acariciou-me a cara com mãos frescas de invisível amor. Respirei fundo, respirei no ar todos os anos perdidos que voltavam, mas com forte e profunda tranquilidade. A brisa, agora, já me não trazia o misterioso apelo de outrora-além. Os mundos (devo eu lamentá-lo?) haviam perdido para mini o atractivo das coisas ignoradas! (...)
A curva imensa do oceano exalava-me um alento de ser vivo, de longe, tranquilo. Sobre quantos outros não teria ele exercido a sua mágica atracção, o seu canto ilusório, arrastando-os para longe, raça que somos de corações partidos pela Terra?

José Rodrigues Migueis, "Regresso À Cúpula da Pena",
in Léah e Outras Histórias


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Ficar recolhido significa:
a. ficar em casa
b. virar-se para o mundo interior
c. ficar desacompanhado

1.2. O narrador subiu ao zimbório para:
a. ficar isolado
b. admirar a paisagem
c. se reencontrar

2. Transcreve do primeiro parágrafo uma expressão que se assemelhe ao discurso directo.

3. Também no primeiro parágrafo encontramos a expressão "ter unhas". Existem muitas outras expressões idiomáticas ligadas a partes do corpo.
3.1. Faz corresponder a cada expressão indicada o sentido adequado.
ter cabeça
ter pernas
ter dedo para
ter estômago
ter olhos
ter mão em si
3.2. Recorda e escreve outras expressões idiomáticas que contenham a palavra "cabeça":

4. Atenta no segundo parágrafo. Explica a relação que se estabelece entre "Chicago", "navio" e "alto da serra".

5. "O vento passou, com o seu zumbido manso e grave, e acariciou-me a cara com mãos frescas..."
5.1. Indica o recurso expressivo utilizado em relação ao zumbido do vento.
5.2. Identifica e explica a figura de estilo que descreve as acções do vento.

6. Explica o sentido da expressão "... raça que somos de corações partidos pela Terra?".

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase:

O narrador, como qualquer português, sentia intensamente o apelo do oceano.


26.4.09

As Moiras

Irene Lisboa é um dos muitos exemplos de escritores que pegaram em elementos da tradição oral e popular, apro­veitando-os nas suas obras literárias.


1. Faz a leitura integral do conto.
1.1. Delimita os momentos do texto.

2. Refere o momento que corresponde a um recuo no tempo.

3. Através de elementos do texto, indica a zona do país onde, provavelmente, se situa a história. Justifica.

4. Aponta semelhanças entre esta narrativa e as duas anteriores.

5. Faz o levantamento de expressões pertencentes a um registo popular.


Irene Lisboa in Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma





A Torre da Má Hora



Era uma vez uma mulher, que tinha três filhos.
O mais velho um dia pediu a bênção à mãe e disse-lhe se ela lhe dava um cavalo e um leão, que ele ia correr mundo. A mãe disse-lhe:
— Filho, assim só, onde é que tu vais?
— Deixe, minha mãe, disse ele, eu vou correr mundo!
A mãe deu-lhe o cavalo e o leão, e ele partiu. Foi andando, andando, até que encontrou uma velhinha a lavar. Chegou-se o rapaz ao pé dela e perguntou-lhe:
— Ó velhinha, que estás tu aí a fazer?
A velha respondeu:
— Oh! meu filho, estou aqui a lavar, e toda a minha vida lavarei!
O rapaz tornou a perguntar:
— Sabeis dizer-me que torre é aquela além?
A velha disse:
— Ai! menino, aquela é a torre da má hora; quem lá vai não torna!
O rapaz respondeu:
— Pois eu hei-de ir, e hei-de voltar, e ainda aqui te hei-de achar!
Foi andando, andando, até que por fim chegou à tal torre.
Era uma estalagem. Apenas o rapaz chegou à porta, veio uma velha e ele perguntou se ali era uma estalagem, que ele queria hospedar-se. A velha respondeu-lhe que sim.
— Olhe, disse ela, tome lá esta chave e vá abrir a cavalariça. Tome este cabelinho e enrole-o à roda do pescoço do seu cavalo e do seu leão, para os prender.
O rapaz assim fez. Abriu a cavalariça, meteu lá o leão e o cavalo, depois enrolou o cabelo à roda do pescoço de ambos e veio-se embora.
Chegou depois à velha e pediu-lhe de comer.
A velha respondeu-lhe:
— Há comer, sim, senhor, meu menino, mas primeiro vamos deitar-nos a uma luta.
O rapaz não teve mais remédio, e foi lutar com a velha; mas viu-se tão aflito, pois a velha era uma bruxa, que começou a chamar pelo cavalo e pelo leão:
— Acudi-me, meu cavalo e meu leão!
A velha respondeu:
— Engrossa-te cabelinho, cabelão, à roda do teu cavalo e do teu leão!
Imediatamente o cabelo se fez numa grossa corrente, que os prendeu, e não puderam vir acudir ao rapaz.
A velha continuou a lutar, até que por fim o rapaz morreu.
E quando o viu morto, ela foi enterrá-lo numa cova onde já estavam muitas pessoas mortas também.
Daí a tempos o segundo irmão, quando viu que o mais velho não voltava, disse à mãe que lhe deitasse a bênção e que lhe desse um cavalo e um leão, porque ele queria também ir correr mundo à procura do seu irmão.
A mãe disse:
— Oh! meu filho, para ficares lá, como o outro teu irmão, que nunca apareceu!
Ele respondeu:
— Não tem duvida, minha mãe.
Como ele teimasse, a mãe deu-lhe o cavalo, o leão e um taleigo de dinheiro.
O rapaz foi-se embora, andou, andou, chegando afinal ao mesmo sítio onde estava a velha a lavar. O rapaz perguntou-lhe:
— Ó, velhinha, que estás tu aí a fazer? A velha respondeu:
— Oh! meu filho, estou aqui a lavar, e toda a vida lavarei!
O rapaz tornou a perguntar:
— Sabeis dizer-me que torre é aquela além?
A velha disse:
— Ai, menino, aquela é a torre da má hora; quem lá vai não torna!
O rapaz respondeu:
— Pois eu hei-de ir e hei-de voltar, e ainda aqui te hei-de achar!
— Ora, disse a velha, já aqui passou um menino que disse o mesmo, e ele não voltou.
O rapaz respondeu:
— Pois esse era meu irmão, e eu hei-de lá ir e hei-de o trazer!
Foi-se dirigindo para a torre, veio a velha, e ele perguntou-lhe se ali era alguma estalagem, que ele queria hospedar-se. A velha respondeu-lhe que sim.
— Olhe, disse ela, tome lá esta chave e vá abrir a cavalariça. Tome também este cabelinho e enrole-o à roda do pescoço do seu cavalo e do seu leão para os prender.
O rapaz assim fez. Abriu a cavalariça também, meteu lá o leão e o cavalo e prendeu-os com o cabelo que lhe tinha dado a velha. Depois veio-se embora e foi à velha pedir de comer. Ela respondeu-lhe:
— Há comer, sim, senhor, meu menino, mas primeiro vamos deitar-nos a uma luta.
O rapaz chamou:
— Acudi-me, meu cavalo e meu leão!
A velha respondeu logo:
— Engrossa-te, cabelinho, cabelão, à roda do teu cavalo é do teu leão!
Imediatamente o cabelo se fez numa grossa corrente, que os prendeu, e eles não puderam vir acudir ao rapaz. A velha matou-o e, quando o viu morto, foi enterrá-lo na cova onde estava o outro irmão.
Daí a tempos o irmão mais novo, como via que os outros não voltavam, pediu à mãe a bênção, um cavalo e um leão, e foi correr mundo à procura deles.
Chegou ao sítio onde a velha estava a lavar e perguntou-lhe:
— ó velhinha, que estás aí a fazer?
A velha respondeu:
— Oh! meu filho, estou aqui a lavar, e toda a vida lavarei, porque uma vez estava eu a lavar ao domingo, e passou um pobrezinho e perguntou-me se eu estava a lavar ao domingo. Eu respondi-lhe que sim, porque ao domingo também se comia, e ele disse-me que então lavaria toda a minha vida.
O rapaz tornou a perguntar:
— Sabeis dizer-me que torre é aquela além?
A velha respondeu:
— Ai! menino, aquela é a torre da má hora; quem lá vai não torna!
O rapaz disse:
— Pois eu hei-de ir, hei-de voltar e ainda aqui te hei-de achar!
— Ora, disse a velha, já aqui passaram dois meninos que disseram o mesmo, e não voltaram! O rapaz respondeu:
— Pois esses eram meus irmãos, e eu hei-de lá ir e hei-de os trazer!
Dirigiu-se para a torre, e quando chegou estava a velha à porta. O rapaz perguntou-lhe se ali era alguma estalagem, que ele queria hospedar-se. A velha respondeu-lhe que sim, e disse-lhe:
— Olhe, tome lá esta chave e vá abrir a cavalariça. Tome também este cabelinho e enrole-o à roda do pescoço do seu cavalo e do seu leão.
O rapaz pôs o cavalo e o leão na cavalariça, mas em lugar de os prender, cortou com uma tesourinha, que levava, o cabelo da velha aos bocadinhos. Depois veio-se embora e pediu de almoçar.
A velha respondeu-lhe:
— Há-de de almoçar, sim, senhor, meu menino, mas primeiro vamos deitar-nos a uma luta! O rapaz chamou logo:
— Acudi-me, meu cavalo e meu leão!
A velha disse:
— Cabelinho, cabelão, engrossa-te à roda do teu cavalo e do teu leão!
Mas o rapaz tinha cortado o cabelo aos bocadinhos e tinha-os atirado para o mar.
O leão e o cavalo acudiram logo.
O rapaz disse então para a velha:
— Hás-de apresentar-me aqui os meus irmãos, senão morres!
A velha respondeu:
— Ai! meu senhor, eu não sei dos seus irmãos»!
O rapaz disse que a ia matar, e a velha não teve outro remédio senão confessar onde eles estavam.
Depois deu um óleo, para os untar, e um cheiro, para eles cheirarem.
O rapaz foi untar os irmãos e, quando lhes deu o cheiro a cheirar, eles voltaram logo a si.
Depois, mal se viram os três, foram-se à velha, abriram uma cova e enterraram-na viva.


23.4.09

A intriga

Leia atentamente as seguintes afirmações e distinga as falsas das verdadeiras.

1. Os Maias eram uma antiga família de Lisboa.

2. A casa que os Maias tinham em Lisboa chamava-se Ramalhete.

3. Afonso da Maia casara com uma senhora portuguesa, de nome Maria Eduarda Runa.

4. Afonso da Maia teve dois filhos - Pedro e Carlos da Maia.

5. Pedro da Maia casou com Maria Eduarda.

6. Pedro da Maia teve dois filhos - Carlos Eduardo e Maria Monforte.

7. Pedro da Maia suicida-se depois da fuga da mulher com o napolitano.

8. Carlos da Maia estudava Medicina em Coimbra.

9. Carlos vê, pela primeira vez, Maria Eduarda quando entrava com Craft no Hotel Central.

10. Carlos vai a Mafra procurar Maria Eduarda.

11. Carlos é chamado para dar consulta à filha de Maria Eduarda.

12. Maria Eduarda é casada com um brasileiro - O Castro Gomes.

13. Carlos e Maria Eduarda são amantes.

14. O sr. Guimarães diz a Ega que Carlos e Maria Monforte são irmãos.

15. Carlos comete incesto com a condessa Gouvarinho.

16. Depois da Morte de Afonso da Maia, Carlos parte com Ega para uma longa viagem e só regressa a Portugal dez anos depois.



22.4.09

Amor é fogo que arde sem se ver

File:Rubens, Peter Paul - Cupid (Eros) Carves the Bow - 1614.jpg


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões


I

1. Numa primeira leitura do poema percebemos que estamos na presença de uma definição, mas em que predomina o elemento afectivo.
Repara na extensão da definição: “amor é...” Até v.11 “lealdade”.
1.1. Que ilações podemos retirar desta desigualdade?

2. Faz o levantamento dos recursos estilísticos que contribuem para que esta definição seja uma definição poética.

3. Explica de que forma as antíteses e a bipartição dos versos estão em consonância com o tema do poema.

4. Evidencia o valor da repetição anafórica.

5. Este soneto pode ser dividido em duas partes lógicas.
5.1. Delimita-as.
5.2. Diz de que consta cada uma delas.
5.3. Salienta o valor do conector que as separa.

6. O segundo terceto é uma interrogação.
6.1. Qual te parece ser a palavra chave deste terceto? Porquê?
6.2. Como explicas o recurso a esta interrogação retórica com que este soneto termina?




19.4.09

Adamastor (C.V, 39-44)



39
Não acabava quando hüa figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

41
E disse: «Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho:

43
Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,
Inimiga terão esta passagem,
Com ventos e tormentas desmedidas!
E da primeira armada, que passagem
Fizer por estas ondas insofridas,
Eu farei de improviso tal castigo,
Que seja mor o dano que o perigo!

44
Aqui espero tomar, se não me engano,
De quem me descobriu suma vingança.
E não se acabará só nisto o dano
De vossa pertinace confiança:
Antes, em vossas naus vereis, cada ano,
Se é verdade o que o meu juízo alcança,
Naufrágios, perdições de toda sorte,
Que o menor mal de todos seja a morte!

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto V



I

1. Situe o excerto que acabou de ler no plano narrativo em que está inserido. Justifique a resposta.

2. Caracterize física e psicologicamente o gigante.

3. Explicite o significado das ameaças de Adamastor.

3.1. Identifique o tempo e modo das formas verbais utilizadas para concretizar essas ameaças.

4. Refira o significado geográfico e mitológico de Adamastor.

5. Retire do texto dois exemplos de recursos de estilo e comente o seu valor expressivo.


II

No episódio do Adamastor, o poeta coloca na boca do gigante uma profecia. Refira-a com um breve comentário relacionando-a com o que conta o Marido à Ama no Auto da Índia.



17.4.09

Sermão de Santo António aos Peixes,

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!

Oh que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento tão puro, tão claro e tão cristalino como o da água, espelho natural não só da terra, senão do mesmo céu! Lá disse o Profeta por encarecimento, que «nas nuvens do ar até a água é escura»: Tenebrosa aqua in nubibus aeris. E disse nomeadamente nas nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não à água; a qual em seu próprio elemento é sempre clara, diáfana e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!

Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossas mares, me estais respondendo e convindo, que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas e muito maiores e mais perniciosas traições. E sobre o mesmo sujeito que defendeis, também podereis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós a calais, eu também a calo. Com grande confusão, porém, vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois não o posso negar. Mas ponde os olhos em António, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António


I

1. Situe o excerto que acabou de ler no estrutura interna do sermão de Santo António aos Peixes.

2. Explicite as razões que levaram o Padre António Vieira a dar especial destaque ao polvo neste sermão.

3. Explique por palavras suas o significado das expressões «aparência tão modesta» e «hipocrisia tão santa».

4. Diga de que forma o Padre António Vieira distingue o polvo do camaleão.

5. A quem se quererá referir o autor ao falar do polvo? Justifique a sua resposta.

6. O autor refere-se no último parágrafo a «António, vosso pregador». Diga de que António se trata e qual a sua importância para este sermão.

7. Atente na seguinte frase: «E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português».

7.1. Divida e classifique as orações da frase.

7.2. Explique a formação da palavra antigamente.


II

O Padre António Vieira procurou, com este sermão, denunciar os vícios dos homens e levá-los a reflectir sobre a necessidade de mudança de atitudes. Numa composição com o máximo de quinze linhas, reflicta nos vícios da sociedade actual e sugira formas de os corrigir.


14.4.09

Como moireu quen nunca ben


Como moireu quen nunca ben
houve' da ren que mais amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por en,
ai, mia senhor. assi moiro eu!

Como moireu quen foi amar
quen lhi nunca quis ben fazer
e de quen lhi fez Deus veer
de que foi morto con pesar,
ai, mia senhor, assi moiro eu!

Como home que ensandeceu,
senhor, con grande pesar que viu,
e non foi ledo, nen dormiu
depois, mia senhor, e moireu,
ai, mia senhor, assi moiro eu!

Como moireu quen amou tal
dona que Ihi nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valia, nen a val,
ai, mia senhor, assi moiro eu!

Pai Soares de Taveirós, CA 25, CBN 122



I

1. Explicite o assunto da cantiga que acabou de ler.

2. Quem é o receptor da mensagem do sujeito poético? Justifique.

3. Comente o modo como a coita de amor define o estado psicológico do trovador.

4. De que modo é que poderemos considerar o sujeito poético um «amador perfeito»?

5. Faça a análise da estrutura externa da cantiga.

6. Insira, justificando, a cantiga no género a que pertence.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Segismundo Spina:

«Os cantares d'amor, não obstante a sensação de monotonia que oferecem pelo tratamento do tema, são, do ponto de vista estético, superiores aos cantares d'amigo.»

12.4.09

File:Cupid with a Butterfly-LAmour au papillon.jpg

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões


I

1. Repara que o poema começa e termina pela mesma palavra. Qual?
1.1. Será que o poeta considera o amor como sendo o princípio e o fim da vida humana?

2. Como define o poeta esse sentimento?

3. Que recursos estilísticos permitem dar ao leitor a ideia que Camões quer transmitir?

4. Como é obtido o ritmo anafórico do soneto?

5. Existe um verso que parece ser a repetição de um outro. Localiza-o e transcreve os dois.

6. Que tipo de amor subjaz aos jogos antitéticos do primeiro terceto?

7. Comenta a interrogação feita pelo poeta no último terceto.




4.4.09

O dia em que eu nasci, moura e pereça


O dia em que eu nasci, moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
a mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!

Luís de Camões



I

1. «O dia em que eu nasci, moura e pereça».
1.1. Que estado de espírito subjaz ao verso acima transcrito?
1.2. Explique o sentido da repetição «moura e pereça».

2. Releia as duas quadras.
2.1. Saliente:
- as enumerações;
- as repetições de sentido;
- a função apelativa;
- a hiperbolização do anormal.
2.2. Que efeito produzem esses recursos?

3. O espectáculo criado pelo eu precisa de espectadores.
3.1. Quem invoca o eu para esse fim?
3.2. Confronte a atitude do destinatário-espectador com a do eu, face ao mundo por este apresentado.

4. Estabeleça uma relação entre os últimos dois versos e o primeiro.
Não existirá, sob toda a revolta expressa pelo eu poético, também um grande orgulho de si?

3.4.09

Ainda hoje por cá ando...


Até posso gabar-me de ter sido o único elevador da cidade a ter duas inaugurações, qual delas a mais representativa e badalada nos jornais!
O primeiro acontecimento de que fui alvo deu-se a l de Agosto de 1901. Estiveram presentes Suas Majestades, o rei e a rainha, membros da Empresa dos s Elevadores, o meu progenitor, claro, muitas individualidades e jornalistas. (...)
Foi festa rija, realmente, com banda de música a tocar, palmas a estalar e um beberete final, onde não faltaram os brindes, elogiando pessoas e instituições.
À noite, fui de novo muito falado durante um jantar de confraternização entre Mesnier e os seus operários e colaboradores. Sim, que sem eles, eu nunca teria sido a realidade que sou!
Finalmente, no dia 10 de Julho de 1902, urrah! Lá estava eu, todo majestoso, com duas belas cabinas de cuidada ornamentação, esperando os fregueses, à razão de 30 por compartimento.
Foi cá uma festa! Inesquecível. E alegria justificável, também! Enfeitaram-me todo, desde as torres até à passerelle; todo eu era arbustos, flores, bandeirinhas... E à minha volta, curiosa e ansiosa, gente, gente e mais gente... Ui que vaidoso me sentia!
(...)
E os dias começaram a correr iguais, rotineiros, com algumas peripécias pelo caminho. Realmente, ao longo de todo este tempo, muita coisa se tem passado dentro de mim! Nem sonham...
Namorados que se beijam e amam... Velhinhos tontos que se perdem... Pessoas que aqui se conhecem, por tantas vezes se cruzarem na minha porta... Amigos que se reencontram... Turistas deslumbrados com a beleza que aqui do alto se vislumbra... Horas de ponta com gente e mais gente que se acotovela e empurra... gente que teima em seguir dentro de mim naquela viagem e se esmaga e diz impropérios. E roubos, claro. Lisboa de Pina Manique já tinha assaltos! Hoje então, é um desespero. Chovem as histórias com polícias e ladrões...
Há um mês aconteceu um caso. Não o esqueci. Tudo por causa da droga. Maldito pó! Malvado negócio!
Ela entrou, rosto pálido, macilento, olheiras fundas nuns olhos castanhos, baços. Nervosa, oscilante, correu a esconder-se no meio das gentes, perto do meu banco do fundo. Enrolada sobre si mesma, tremia ligeiramente, mal encarando as pessoas.
Eu ia arrancar. Subia da rua do Ouro para o Carmo.

Maria Amélia Lemos Alves, Subindo e Descendo por Essa Lisboa


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Quem arquitectou o elevador chamava-se:
a. Carmo
b. Pina Manique
c. Mesnier

1.2. O sentimento predominante da personagem é:
a. orgulho
b. revolta
c. nostalgia

2. Todo o texto tem por base uma personificação. Justifica esta afirmação.

3. Presta atenção ao oitavo parágrafo onde se apresenta a rotina da personagem.
3.1. Indica uma forma exagerada de expressão e classifica o recurso expressivo usado.
3.2. Qual é o sinal de pontuação utilizado para marcar a forte emotividade? Exemplifica.

4. Sintetiza o assunto do texto em cerca de quarenta palavras.

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a afirmação:
O elevador tinha orgulho da sua existência, pelo seu criador, pelas suas inaugurações e pelas histórias de um século.



2.4.09

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões


I

O poema aborda o tema renascentista da mudança.

1.1.O que lhe sugerem as repetições do verbo «mudar», na primeira quadra?

1.2. Um advérbio, na segunda quadra, e um verso, no segundo terceto, reforçam a ideia a que se alude em 1.1. Transcreva-os.

2. Relacione mudança e permanência, na segunda quadra.

3. Releia o primeiro terceto.
3.1. Distinga o(s) verso(s) que dizem respeito ao tempo da natureza do(s) que se referem ao tempo humano.
3.2. De que forma se opera a mudança em cada dos casos?

4. O que constata o eu poético no último terceto?







A Educação

D. Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua ideia:
– Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada... não tem prenda nenhuma!
– Mas é muito esperto, minha rica senhora! – acudiu o Vilaça.
– É possível. – respondeu secamente a inteligente Silveira.
E, voltando-se para Eusebiozinho, que se conservava ao lado dela, quieto como se fosse de gesso:
– Ó filho, diz tu aqui ao sr. Vilaça aqueles lindos versos que tu sabes...Não sejas atado, anda!... Vá, Eusébio, filho, sê bonito...
Mas o menino, molengão e tristonho, não se descolava das saias da titi: teve ela de o pôr de pé, ampará-lo, para que o tenro prodígio não aluísse sobre as perninhas flácidas; e a mamã prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela...
Isto decidiu-o: abriu a boca, e como de uma torneira lassa veio de lá escorrendo, num fio de voz, um recitativo lento e babujado:

É noite, o astro saudoso
Rompe a custo um plúmbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, húmido véu...

Disse-a toda – sem se mexer, com as mãozinhas pendentes, os olhos mortiços pregados na titi. A mamã fazia o compasso com a agulha do crochet; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto, banhada no langor da melopeia, ia cerrando as pálpebras.
– Muito bem, muito bem! – exclamou o Vilaça, impressionado, quando o Euzebiozinho findou coberto de suor. – Que memória! Que memória!... É um prodígio!... (...)
Enquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Afonso, numa mesa baixa, os cristais e as garrafas de soda, Vilaça, com as mãos nos bolsos, de pé e pensativo, olhava a brasa da acha que morria na cinza branca. Depois ergueu a cabeça, para murmurar, como ao acaso:
– Aquele rapazito é esperto...
– Quem? O Eusebiozinho? – disse Afonso, que se acomodava junto ao fogão, enchendo alegremente o cachimbo. – Eu tremo de o ver cá, Vilaça! O Carlos não gosta dele, e tivemos aí um desgosto horroroso...Foi já há meses. Havia uma procissão e o Eusebiozinho ia de anjo... (...) Em primeiro lugar ia-o matando porque embirra com anjos... Mas o pior não foi isso. Imagine você o mesmo terror, quando nos aparece o Eusebiozinho aos berros pela titi, todo desfrisado, sem uma asa, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um barbante, a coroa de rosas enterrada até ao pescoço e os galões de ouro, os tules, as lantejoulas, toda a vestimenta celeste em frangalhos!... Enfim, um anjo depenado e sovado... Eu ia dando cabo do Carlos.
Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas, acrescentou, com uma satisfação profunda:
– É levado do diabo, Vilaça!


Eça de Queirós, Os Maias, cap. III



I

1. Situe o extracto que acabou de ler no contexto da obra Os Maias.

1.1. Com base no texto, estabeleça um contraste entre o procedimento de cada uma delas.

1.2. A razão desse contraste estará apenas no temperamento das crianças? Justifique a sua resposta.

2. As ideias de D. Ana e de Afonso da Maia são coincidentes no que toca ao problema da educação? Procure demonstrá-lo com base no texto.

3. Assinale os aspectos estilísticos mais marcantes do texto, relacionados com o fim satírico que o autor tinha em vista.

4. Explique o significado das expressões o tenro prodígio, torneira lassa e olhos mortiços.

5. Atente na seguinte frase: A mamã prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela.

5.1. Divida e classifique as orações da frase.

5.2. Classifique morfologicamente as palavras prometeu-lhe, essa e com.

5.3. Explique a formação da palavra versinhos.


III

Tendo em conta as atitudes de determinadas personagens de Os Maias, elabore um breve comentário acerca das suas causas e as formas encontradas pelos intelectuais da Geração de 70 para as remediar.