27.2.09

A fermosura desta fresca serra




A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos oferece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.

Luís de Camões


I

1. Delimita no soneto as suas partes lógicas.
1.1. Atribui um título/síntese a cada uma das partes.

2. Atenta nas quadras.
2.1. Identifica o processo através do qual o sujeito lírico descreve a paisagem.
2.2. Explica de que forma este processo interfere no ritmo do poema
2.3. Sublinha elementos do poema que evidenciem a harmonia da natureza aí descrita.

3. Atenta no 1º terceto.
3.1. Explicita o valor do conector que o introduz
3.2. Prova que os dois primeiros veros deste terceto recolhem e resumem os elementos acumulados na primeira parte do soneto.
3.3. Até ao verso 10 o soneto desenvolve-se numa perspectiva de exterioridade – a descrição da natureza.
3.3.1. Explica qual foi o elemento introduzido no último verso do primeiro terceto que provoca no sujeito lírico a explosão da sua subjectividade lírica.

4. Na segunda parte do soneto a diminuição do ritmo é evidente.
4.1. Comprova esta afirmação, tendo em conta o recurso à conjugação perifrástica, aos processo de repetição e ao advérbio de modo.
4.2. Explica este processo de contenção do sujeito lírico em função daquilo que é objecto da sua atenção.

5. O último terceto fecha o soneto com chave de ouro, à maneira petrarquista.
5.1. Identifica a razão pela qual o sujeito lírico já não se encontra em sintonia com a harmonia da natureza.

18.2.09

Erros meus, má fortuna, amor ardente




Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

Luís de Camões


I

1. O soneto é uma síntese da vida do poeta.
1.1. «em minha perdição se conjuraram»
Comenta a acusação presente neste verso
1.2. «Errei todo o discurso dos meus anos»
Explica o sentido deste verso.

2. Relaciona as «mal fundadas esperanças» com o trágico destino do poeta.

3. Explica em que medida o soneto pode ser entendido como uma dramática biografia sentimental.

4. Explique o sentido da forma verbal “sobejavam”, no 3º verso da 1ª quadra.

5. “Tudo passei”
“... As cousas que passaram...”
5.1. Encontre um sinónimo para cada uma das formas do verbo “passar”
5.2. Justifique este jogo semântico, na relação passado / presente.

6. Clarifique o sentido dos últimos dois versos.





15.2.09

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

Luís de Camões


I

1. No soneto são identificados os três factores determinantes no percurso existencial do poeta.
1.1. Indica-os
1.2. Escolhe o verso que melhor caracteriza a influência desses factores na sua vida.

2. Como são avaliadas as vivências pessoais do Eu poético?
2.1. Regista os verbos mais significativos neste processo de auto-análise
2.1.1. Classifica-os quanto ao modo e ao tempo verbal.
2.2. Interpreta os dois últimos versos, tendo em conta a expressividade da interjeição, da forma verbal e da pontuação.


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12.2.09

Que me quereis, perpétuas saudades?

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Luís de Camões


I

1. Explica em que medida o soneto traduz a angústia da passagem do tempo.

2. Como explicas que as saudades do passado acentuem o sofrimento do sujeito poético?

3. «porque estes tão ligeiros que passais»
3.1. Explica o sentido do verso transcrito.
3.2. Que contraste se define entre a realidade presente do poeta e o seu estado de espírito?

4. O último terceto retoma o pensamento dos dois primeiros versos. Comenta esta afirmação.


File:Rae, Henrietta - Venus Enthroned - 1905.jpg


Um dia


Silvino nasceu no mesmo dia em que sua mãe, que se chama Eunice, completou dezassete anos. Mãe e filho nasceram a vinte e um de Março, o dia em que começa a Primavera.
O bilhete de identidade diz que o Silvino é filho de um tal Orlando da s Silva Oliveira. E mais nada sabe sobre seu pai.
- Eu gostava de o ver, pelo menos uma vez na vida. E gostava de lhe perguntar porque nunca me quis conhecer. Para mim, "pai" é uma palavra que não tem sentido nenhum. Afinal o que é um pai? E com a palavra mãe acontece o mesmo...
Jovem, bonita, solteira, desempregada e mãe, Eunice cansou-se de tratar de um bebé que chorava a qualquer hora do dia e da noite; mamava de três em três horas, sujava fraldas e precisava de ser lavado com água tépida, de tomar medicamentos a hora certa.
Meio ano depois Eunice chamou sua irmã, que era dez anos mais velha e disse-lhe:
- Natércia, eu não aguento mais. Esta vida não me serve. Quero conhecer coisas novas, descobrir o mundo. Não vou ficar amarrada dentro desta casa o resto da vida. Estou farta. Tomas conta do Silvino?
A Natércia disse que sim. Desde que o bebé nasceu, era ela que tratava dele a maior parte do tempo.
Eunice foi ter com um tio que morava em Paris. E por lá arranjou vários empregos. Telefonava de vez em quando a perguntar pelo seu Vininho, e a Natércia dizia-lhe que ele já gatinhava, que já se tinha em pé, que tinha dado os primeiros passos, que já dizia titi e vovó e que lhe ia mandar uma fotografia do menino no dia em que fez dois aninhos. E Eunice suspirava e dizia que um dia havia de ir visitar o seu menino. Um dia.
Depois deixou de telefonar e de escrever. (...)
Natércia suspirou fundo. Nesse dia teve a certeza que o menino que ela criara desde o nas-cimento continuava a ser seu, ninguém o viria buscar. (...) E o SAPO deixou de acreditar naquela mulher alta e esguia, com os dedos cheios de anéis, que uma vez por ano vinha bater em casa da sua tia e lhe dizia que era sua mãe, que gostava muito dele, havia de o levar para junto de si quando tivesse um apartamento maior.
(...) No dia em que eles partiam para Vendas Novas, sobrinho e tia cumpriam o ritual. Mesmo que chovesse torrencialmente. A tia Natércia dizia:
- Hoje não me apetece jantar em casa. (...)
- Cavalheiro há, mas não tem dinheiro... Riam-se. Vestiam-se bem, perfumavam-se. E saíam de casa de mãos dadas. Como o restaurante chinês ainda ficava longe, caminhavam sem pressas, calados, de mãos dadas. Felizes.

António Mota, Fora de Serviço



I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. As datas de nascimento são referidas por:
a. estarem registadas nos B. I.
b. ser Primavera
c. indiciarem uma estreita ligação

1.2. Silvino teve uma mãe:
a. biológica e outra de criação
b. que era a tia
c. que nunca o tratou bem

2. Transcreve do quarto parágrafo a expressão que caracteriza Eunice de forma directa.

3. Selecciona situações que ilustrem a função sintáctica de sujeito, segundo as indicações:
simples
subentendido
composto
inexistente

4. Indica qual é o sujeito da forma verbal "começa" na expressão: "... o dia em que começa a Primavera,"

5. Transcreve do oitavo parágrafo:
5.1. a expressão que reflecte a passagem do tempo de forma precisa:
5.2. expressões que reflectem a passagem do tempo de forma imprecisa:

6. Refere a frase do texto que antecede este excerto.
Por acaso não há nesta casa um príncipe que me queira convidar a sair esta noite para irmos comer arroz xau-xau e o prato trinta e cinco do restaurante chinês? Depois podemos ir ao cinema ver um filme levezinho...


II

Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase final do texto:

Felizes.


6.2.09

A morte de Pedro da Maia




– Sim, mais tarde, depois pensarás nisso, filho – acudiu o velho assustado.
Nesse momento a sineta do jantar começou a tocar lentamente, ao fundo do corredor.
– Ainda janta cedo, hem? – disse Pedro.
Teve um suspiro cansado e lento, murmurou:
– Nós jantávamos às sete...
Quis então que o pai fosse para a mesa. Não havia motivo para que se não jantasse. Ele ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro... Ainda lá tinha a cama, não é verdade? Não, não queria tomar nada...
– O Teixeira que me leve um cálice de Genebra... Ainda cá está o Teixeira, coitado!
E vendo Afonso sentado, repetiu, já impaciente:
– Vá jantar, meu pai, vá jantar, pelo amor de Deus...
Saiu. O pai ouviu-lhe os passos por cima, e o ruído de janelas desabridamente abertas. Foi então andando para a sala de jantar, onde os criados, que, pela ama, sabiam decerto o desgosto, se moviam em pontas de pés, com a lentidão contristada de uma casa onde há morte. Afonso sentou-se à mesa só; mas já lá estava outra vez o talher de Pedro; rosas de Inverno esfolhavam-se num vaso de Japão; e o velho papagaio agitado com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro.
Afonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto do fogão; e ali ficou envolvido pouco a pouco naquele melancólico crepúsculo de Dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste contra as vidraças, pensando em todas as coisas terríveis que assim invadiam num tropel patético a sua paz de velho. (...)
Pela casa no entanto tinham-se acendido as luzes. Já inquieto, subiu ao quarto do filho; estava tudo tão escuro, tão húmido e frio como se a chuva caísse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de Pedro veio do negro da janela; estava lá, com a vidraça aberta, sentado fora na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das ramagens, recebendo na face o vento, a água, toda a invernia agreste.
– Pois estás aqui, filho! – exclamou Afonso. – Os criados hão-de querer arranjar o quarto, desce um momento... Estás todo molhado, Pedro.
Apalpava-lhe os joelhos, as mãos regeladas. Pedro ergueu-se com um estremeção, desprendeu-se, impaciente daquela ternura do velho.
– Querem arranjar o quarto, hem? Faz-me bem o ar, faz-me tão bem!

Eça de Queirós, Os Maias, cap. II



I

1. Insira este excerto na acção de Os Maias.

2. Apresente sinteticamente o assunto do texto.

3. Identifique o estado psicológico de Pedro, justificando a sua resposta com expressões do texto.

4. Refira as atitudes de Pedro que melhor revelam esse estado psicológico.

5. Identifique os elementos do texto que pressagiam a tragédia que se irá seguir.

6. Retire do texto três exemplos de recursos de estilo característicos de Eça de Queirós.


II

Contraponha numa composição cuidada as correntes literárias do Romantismo e do Realismo tendo em conta o texto acima transcrito.


5.2.09

Auto da Índia - global



1. Por que razão é que esta peça se intitula Auto da Índia se a acção se passa em Lisboa?

2. Situe a acção do Auto da Índia no espaço e no tempo.

3. Descreva o espaço cénico.

4. Procure delimitar a introdução, o conflito e o desenlace da história.

5. Identifique a personagem principal da peça e caracterize-a.

6. Por que razão a cama está no centro do palco?

7. Que papel representa a Moça? Justifique.

8. Que função desempenham os apartes ditos pela Moça?

9. Refira alguns exemplos de cómico de linguagem e de cómico de situação.

10. Por que razão é que a Ama pede a roca à Moça?

11. Refira a situação económica da família.

12. A quem é que a Ama se refere quando diz «aquele fastio»? Justifique.

13. De que modo é que a Ama se refere ao Marido? Justifique.

14. Explique o significado da expressão «esperando polo vento» utilizada pela Ama.

15. Diga o que entendes por ceitil, eramá e necia.

16. Explicite o papel desempenhado pelo Castelhano.

17. Quem pretende Gil Vicente criticar com a personagem Lemos?

18. Comente a relação amorosa entre a Ama e os dois amantes.

19. Parece-lhe que a relação amorosa entre a Ama e os dois amantes é sincera? Justifique.

20. Refira o comportamento da Moça em relação aos amantes da Ama.

21. Comente a ironia presente no nome Constança que Gil Vicente dá à Ama.

22. Comente a expressão «Partem em Maio daqui / quando o sangue novo atiça».

23. Por que razão é que na peça se fala de Calecu?

24. Que nome se dá ao corte brusco do tempo? Justifique.

25. A Moça, da primeira vez que foi saber da armada, regressou cantando; da última vez vem «morta». Porquê?

26. Diga em que medida o Marido é também alvo da crítica vicentina.

27. Identifique o recurso de estilo presente nas falas da Ama e justifique o seu emprego.

28. A Ama, quando vê o Marido, tem atitudes contraditórias. Refira-as.

29. Comente aquilo que o Marido conta à Ama sobre as suas andanças pelo Oriente.

30. Explicite de que modo o Auto da Índia apresenta o reverso dos Descobrimentos Portugueses.

31. Desenvolva o tema da crise moral da família na época dos Descobrimentos, referindo as causas que a motivaram, e confronte-a com a situação actual.

32. Numa composição cuidada, fale das vantagens e desvantagens da emigração, dando como exemplo algum caso que conheça.

33. Confronte a visão dos Descobrimentos dada por Gil Vicente no Auto da Índia com a visão dada por outros autores que tenha estudado.



4.2.09

Ilha dos Amores (C.IX, 84-88)



84
Destarte, enfim, conformes já as fermosas
Ninfas cos seus amados navegantes,
Os ornam de capelas deleitosas
De louro e de ouro e flores abundantes.
As mãos alvas lhe davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia,
Em vida e morte, de honra e alegria.

85
Hüa delas, maior, a quem se humilha
Todo o coro das Ninfas e obedece,
Que dizem ser de Celo e Vesta filha,
O que no gesto belo se parece,
Enchendo a terra e o mar de maravilha,
O Capitão ilustre, que o merece,
Recebe ali com pompa honesta e régia,
Mostrando-se senhora grande e egrégia.

87
Tomando-o pela mão, o leva e guia
Pera o cume dum monte alto e divino,
No qual hüa rica fábrica se erguia,
De cristal toda e de ouro puro e fino.
A maior parte aqui passam do dia,
Em doces jogos e em prazer contino.
Ela nos paços logra seus amores,
As outras pelas sombras, entre as flores.

88
Assi a fermosa e a forte companhia
O dia quase todo estão passando
Nüa alma, doce, incógnita alegria,
Os trabalhos tão longos compensando;
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo está guardando
O prémio lá no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IX



I

1. Situe o excerto que acabou de ler no plano narrativo em que está inserido e justifique a tua resposta.

2. Identifique as personagens presentes neste episódio, tecendo um breve comentário às suas funções.

3. Estabeleça a diferença entre o tratamento que os navegantes tiveram e o seu capitão.

4. Qual é o simbolismo deste episódio?

5. Explique por palavras suas o significado da seguinte expressão: o mundo está guardando / O prémio lá no fim (est. 88).

6. Faça a análise formal (estrofes, métrica e rima) da estância 84.

7. Faça um comentário estilístico às duas últimas estrofes.

8. Explique a formação das palavras seguintes: navegante, conforme, prometer e compensar.

9. Explique a evolução fonética das palavras mão e paço.

II

Camões, para escrever este episódio, serviu-se de uma das epopeias antigas. Partindo deste pressuposto, faça um comentário às principais fontes utilizadas pelo poeta para escrever Os Lusíadas.

Sermão de Santo António



Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terrae: É muito bom texto para os outros santos doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra; Santo António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que, nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais que o são da minha doutrina, qualquer que ele seja tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra para emenda e reforma dos vícios que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António




I

1. O excerto que acabou de ler pertence ao Sermão de Santo António aos Peixes escrito pelo Padre António Vieira. Justifique o título do sermão.

2. Explique a presença no texto da seguinte expressão: «Vos estis sal terrae» (Vós sois o sal da terra).

3. Retire do texto exemplos de dois recursos de estilo e comente o seu valor expressivo.

4. Exponha as intenções do autor ao escrever este sermão.

5. Refira alguns processos de que o Padre António Vieira se serve para tentar convencer os seus ouvintes.

6. Atente na seguinte frase: «Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina.»

6.1. Classifique morfologicamente as palavras púlpito, não e doutrina.

6.2. Explique o processo de formação da palavra somente.

6.3. Reescreva a frase, colocando as formas verbais no pretérito mais-que-perfeito.


II

Crie um texto argumentativo, partindo da sugestão do seguinte excerto do Sermão de Santo António aos Peixes: «Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer, e o que tem».




Ondas do mar de Vigo




Ondas do mar de Vigo,
se vistes (1) meu amigo!
E ai Deus, se verrá (2) cedo!

Ondas do mar levado (3),
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
O (4) por que (5) eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Martim Códax, CV 884, CBN 1227


NOTAS:
(1) Subentenda-se dizei-me antes de vistes;
(2) – virá;
(3) mar bravo, encapelado;
(4) aquele;
(5) quem.





I

1. Identifique o sujeito de enunciação e o destinatário desta cantiga.

2. Qual o estado sentimental do sujeito de enunciação?

2.1. Que causa lhe deu origem?

3. O sujeito de enunciação manifesta uma preocupação e um desejo.

3.1. Refira uma e outro, explicando quais os recursos linguísticos utilizados para os expressar.

4. Qual o papel das «ondas do mar»?

5. Indique os recursos estilísticos dominantes na cantiga.

6. Refira o tema da cantiga.

7. Explique os motivos que nos levam a inserir esta cantiga de amigo no tipo das «barcarolas» ou «marinhas».


II

Comente a seguinte afirmação:

«As relações trovador/dama são muito diferentes da graça, ingenuidade e sinceridade evidentes nas relações amigo/amiga. Com efeito, o amor cortês reveste-se de aspectos peculiares: a vassalagem, o morrer de amor, o elogio da senhor».

2.2.09

Sentir-se adulto


- Não se preocupe, mãe, que eu não ando cansado nem mal alimentado. As pessoas a quem faço recados tratam-me bem e dão-me de comer. Se ando com má cor é por estar a crescer. São coisas da idade.
Não lhe estava a dizer a verdade. Mais do que problemas da idade e do crescimento, eu o que estava a sentir era um grande desassossego com o que se estava a passar à minha volta. Havia descontentamento, gente a falar a meia voz contra os ingleses que mandavam em Portugal e contra os portugueses que lhes davam apoio, e eu não queria ficar de fora. Mais depressa do que podia esperar, eu estava a tornar-me uma pessoa crescida, apesar de não passar de um rapazola magro e sem barba, que ainda gostava de jogar à apanha¬da e de brincar ao arco. Com os meus companheiros de brincadeiras comecei a tornar-me sisudo, impaciente, um pouco rude. Achava-os muito miúdos para mim. Eles percebiam isso e comentavam:
- Desde que faz recados a generais que anda a dar-se ares de capitão, mas não passa de uma galinha-da-índia.
Eu nem sequer me dava ao trabalho de lhes responder. O meu mundo era já outro, o das coisas e dos problemas das pessoas crescidas. Gostava de me sentir adulto, embora usasse calções e tivesse ainda a voz a escapar para o fal¬sete, o que bastante me irritava. Naqueles dias de Abril de 1817, eu não passava de um homenzinho que ainda não deixara o tempo da infância. Em épocas como aquela, as pessoas tornam-se crescidas sem se darem conta disso. Têm mais responsabilidades, mais deveres, mais problemas. E, um dia, quando acordam, têm mais uns bons anos em cima. Às vezes, nas ruas, eu ouvia falar de pessoas com nomes estrangeiros e não sabia quem eram, mas tinha vergonha de o dizer. Beresford, eu já sabia que era o nome do marechal inglês que, na ausência do Rei, tinha os maiores poderes em Portugal, principalmente os poderes militares. Ouvia também falar de Napoleão. Foi o velho do Marrare que me explicou quem ele era:
- Foi senhor da Europa e por pouco não era senhor do mundo. Perdeu-o tanta ambição. Dominou países e povos. Começou por ser soldado e tornou--se imperador. Os ingleses venceram-no vai para dois anos e agora vive como um preso numa ilha de onde talvez nunca mais consiga sair.
- Porque se fala tanto dele em Portugal? - perguntei.
- Porque foi ele que, por três vezes, mandou invadir o nosso país pelas suas tropas. Para muitos, durante muito tempo, o seu nome queria dizer liberdade, porque ele representava ideias novas, ideias capazes de mudarem o mundo.
- Eram Meias certas?
- Talvez fossem - respondeu-me o velho -, mas acabou por tentar realizá-las de uma maneira errada e por querer mais poder do que aquele a que devia ambicionar.
O velho que costumava falar sozinho à porta do Marrare não disse mais nada porque viu, no outro lado da rua, dois homens sisudos que só podiam ser polí¬cias à paisana, os "moscas" que dias antes nos tinham interrogado.

José Jorge Letria, A Teia de um Segredo


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O que desassossegava o rapaz era:
a. a miséria de Portugal
b. estar a crescer muito depressa
c. não entender a política

1.2. Napoleão:
a. foi senhor do mundo
b. mandou invadir Portugal
c. representou sempre a liberdade

2. Transforma o terceiro parágrafo do texto em discurso indirecto.

3. Selecciona, nos dois primeiros parágrafos, situações que ilustrem a função sintácti¬ca de sujeito, segundo as indicações:
pronome pessoal
subentendido
pronome relativo
substantivo

4. O velho era uma pessoa astuta. Com base no texto, justifica esta afirmação.

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a seguinte afirmação:

O rapaz teve consciência da passagem da adolescência para o mundo adulto.


1.2.09



Toda a cidade era dada a nojo, chea de mezquinhas querelas, sem neuu prezer que i houvesse: uú"s com grani mingua do que padeciam; outros havendo doo dos atribulados; e isto nom sem razom, cá se é trísle e mezqninho o coraçom cuidoso nas cousas contrairás que lhe aviinr' podem, veede que fariam aqueles que as continuadamenie tam presentes tiinham? Pêro com lodo esto, quando repicavom, neuiï nom mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus emigos. Esforçavom-se uüs por consolar os outros, por dar remédio a seu grande nojo. mas nom preslava conforto de palavras, nem podia lul door seer amansada com neïïas doces razões; e assi como é nalural cousa a mão ir ameúde onde see a door, assi uus homees falando com outros, nom podiam em ai departir senom em na mingua que cada uiï padecia.
Ó quantas vezes encomendavam nas missas e preegações que rogassem a Deos devoíamente por o estado da cidade! E ficados os geolhos, beijando a terra, braadavom a Deos que lhes acorresse, e suas prezes nom eram compridas! Uüs choravom antre si, mal-dizendo seus dias, queixando-se por que lanio viviam, como se dissessem com o Profeta: «Ora veesse a morte ante do tempo, e a terra cobrisse nossas faces, pêra nom veermos tanlos males!» Assi que rogavom a morte que os levasse, dizendo que melhor lhe fora morrer, que lhe seerem cada dia renovados desvairados2 padecimentos. Outros se querelavom' a seus amigos, dizendo que forom desaventuirada gente, que se ante nom derom a el-Rei de Castela que cada dia padecer novas mizquiindades, firmando-se de todo nas peores cousas que fortuna em esto podia obrar.
Sabia porem isto o Meestre e os de seu Conselho, e eram-lhe doorosas d'ouvir taes novas; e veendo estes males a que ocorrer nom podiam, çarravom suas orelhas do rumor do poboo.
Como nom querees que maldissessem sã vida e desejassem morrer alguiïs homees e molhe-res, que tanta deferença há d'ouvir estas cousas aaqueles que as entom passa-om, como há da vida aã morte? Os padres e madres viiam estalar de fame os filhos que muito amavom, rompiam as faces e peitos sobr'eles, nom teendo com que lhe acorrer, senom planto4 e espargimento de lagrimas; e sobre todo isto, medo grande da cruel vingança que entendiam que el-Rei de Castela deles havia de tomar; assi que eles padeciam duas grandes guerras, iïa dos emigos que os cercados tiinham, e outra dos manti-imentos que lhes minguavom, de guisa que eram postos em cuidado de se defender da morte per duas guisas.
Pêra que é dizer mais de taes falecimentos5? Foi tamanho o gasto das cousas que mester haviam que soou uiï dia pela cidade que o Meestre mandava deitar fora todolos que nom tevessem pam que comer, e que soomentc os que o tevessem ficassem em ela; mas quem poderia ouvir sem gemidos e sem choro tal ordenança de mandado aaqueles que nom o tii-nham? Porem sabendo que nom era assi, foi-lhe já quanto de conforto. Onde sabee que esta fame e falecimento que as gentes padeciam, nom era por seer o cerco perlongado, ca nom havia tanto tempo6 que Lixboa era cercada; mas era per aazo das muitas gentes que se a ela colherem de todo o termo; e isso meesmo da frota do Porto quando veo. e os mantiimentos seerem muito poucos.
Ora esguardae7 como se fossees presente, iïa tal cidade assi desconfortada e sem neiïa certa feúza8 de seu livramento, como veviriam em desvairados cuidados quem sofria ondas de taes aflições? Ó geeraçom que depois veo. poboo bem aventuirado, que nom soube parte de tanlos males, nem foi quinhoeiro'1 de taes padecimentos! Os quaes a Deos por Sua mercee prougue de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvirees.

Fernão Lopes, Crónica de D. João I



I

Elabore um comentário ao excerto apresentado, desenvolvendo os seguintes aspectos:
• A situação dramática da população.
• O rigor da descrição.
1 As características do estilo de Fernão Lopes (oralidade, visualismo, realismo descritivo, pormenor, expressividade da linguagem).
• Os sentimentos expressos e as sensações transmitidas.
• As marcas tónicas e morfossintácticas.


II

"O empenho supremo da arte de Fernão Lopes é fazer-nos presenciar a cena, vê-la como ele próprio a via."
Rodrigues Lapa

Desenvolva as ideias contidas na afirmação de Rodrigues Lapa, referindo-se aos processos utilizados por Fernão Lopes para tornar vivos, presentes e empolgantes os factos narrados.



Carta da infância



Amigo luar:
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã. Mas aqui é tudo por demais escuro e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos. Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo vem agora, no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro, brincar comigo aos presos no segredo quando se abre a porta de ferro e a luz diz: bons dias, amigo.


Carlos de Oliveira, Terra de Harmonia



I

1. Atente na relação claro/escuro.
1.1. Associe essa relação aos localizadores espaciais presentes no texto.
1.2. Determine os elementos textuais ligados a claro e a escuro.
1.3. Refira-se ao verdadeiro significado de "quarto escuro".
1.4. Explique a relação de "quarto escuro" com o mundo da infância.
1.5. Clarifique, agora, o sentido da oposição noite/luar-luz.

2. Ligue o emprego do pronome «eles» à intenção que subjaz a esta «Carta da infância».

3. Como se explica esta opção por uma carta da infância!