31.12.08

O Colar



“Vanina:
- Disse-te que gostava de ti com todo o meu coração. Não quero compromissos, nem quero coisas duvidosas. Tu não compreendes que depois de ter passado este tempo todo a pensar em ti, eu vou endoidecer por tu ficares noivo de outra mulher?
Pietro:
- Apaixonares-te por um homem que viste só uns instantes é uma coisa que não existe. É uma história dos romances de cavalaria.
Vanina:
- Eu sou como os romances de cavalaria.
Pietro:
- Só me viste um instante. O que tu viste foi o próprio brilho da tua juventude, a rosa muito vermelha e muito perfumada.
Vanina:
- Então porque cantaste com tanta paixão por debaixo da minha varanda naquela quinta-feira?
Pietro:
- Porque é assim que se cantam as serenatas.
Vanina:
- Eu não vivo de acordo com os costumes, eu vivo de acordo com os meus sentimentos.
Pietro:
- Eu sou um homem, e não se brinca com um homem.
Vanina:
- Mas eu não brinquei contigo!
Pietro:
- Não brincaste? Deste-me um beijo infinito, que veio até ao fundo da minha garganta e agora queres-me obrigar a cumprir o que eu não devo!
Vanina:
- O amor é uma coisa séria e deste-me um beijo apaixonado.
Pietro:
- Ai, querida! Eu apaixono-me por todas as mulheres que vejo. Tu imaginas tudo. Dei-te uma rosa e disse-te um piropo e tu imaginaste que eu era o teu Romeu.
Vanina:
- Estás a fazer troça de mim.
Pietro:
- Não. Estou a ensinar-te o que é a vida. É muito perigoso não saber o que é a vida.
Vanina:
- Há tanto tempo que só penso em ti! Isso não é a vida?
Pietro:
- Não.
Vanina:
- Então o que é que fizeste todo o tempo?
Pietro:
- Por que havia eu de me apaixonar por uma menina que só tinha visto um instante?
Vanina:
- Eu apaixonei-me por ti no instante em que te vi. Porque eras tu, porque eras pálido como o luar e misterioso e brilhante e belo como a noite.
Pietro:
- Falas como um romance e como uma balada. A vida não é assim!
Vanina:
- Apaixonei-me pela tua voz que é cheia de luz e sombras.
Pietro:
- Bem, isso é mais lógico e mais real. Mas em Veneza todas as mulheres estão apaixonadas pela minha voz.
Vanina:
- Todas?
Pietro:
- Sonhaste, imaginaste mil fantasias.
Vanina:
- E tu que é que fizeste? Namoraste todas as mulheres bonitas que encontraste?
Pietro:
- Todas! Tive (e conta pelos dedos) vinte e seis namoradas desde que nos vimos, imagina.
Vanina:
- Ai de mim! Não te lembravas às vezes de mim?
Pietro:
- Não, a minha vida tem sido difícil e cheia de problemas. Mas quando cantei para ti, na serenata encomendada, reconheci-te e gostei de te reconhecer.
Vanina:
- E quando soubeste que vinha cá jantar hoje?
Pietro:
- Isso para mim foi uma ocasião de ganhar dinheiro. Sou um cantor profissional – não engano ninguém porque canto bem.
Vanina (depois de um silêncio):
- Quero dizer-te um poema e depois não tenho mais nada a dizer.
Reconheci-te logo destruída
Sem te poder olhar porque tu eras
O próprio coração da minha vida
E eu esperei-te em todas as esperas
Pietro:
- É muito bonito, um pouco metafísico. Faz-me medo. Vanina, eu não quero abusar da tua inocência. Que faria eu com a tua inocência?
Vanina:
- Então adeus, Pietro.”

O Colar, Sophia de Mello Breyner.
Editorial Caminho, 2005, pp.65 a 69.



I

1. Situa o excerto apresentado dentro da obra, identificando o momento da acção.

2. Diz porque razão Pietro já não é um homem livre.

3. As personagens têm diferentes perspectivas sobre o seu relacionamento. Explica por palavras tuas a visão de cada um, dando dois exemplos do texto.

4. “Eu não vivo de acordo com os costumes, eu vivo de acordo com os meus sentimentos”.
Tendo em conta o percurso de Vanina ao longo da peça, explica a sua afirmação.

5. Observando as seguintes falas de Vanina, consideras que esta personagem se apaixonou realmente por Pietro? Justifica a tua resposta.
“Eu apaixonei-me por ti no instante em que te vi. Porque eras tu, porque eras pálido como o luar e misterioso e brilhante e belo como a noite. (...) Apaixonei-me pela tua voz que é cheia de luz e sombras”.

II

1. Altera as seguintes falas do discurso directo para o discurso indirecto:
a) “Vanina:
- Disse-te que gostava de ti com todo o meu coração. Não quero compromissos, nem quero coisas duvidosas. Tu não compreendes que depois de ter passado este tempo todo a pensar em ti, eu vou endoidecer por tu ficares noivo de outra mulher?”

b) “Pietro:
- Não, a minha vida tem sido difícil e cheia de problemas. Mas quando cantei para ti, na serenata encomendada, reconheci-te e gostei de te reconhecer.
Vanina:
- E quando soubeste que vinha cá jantar hoje?”

2. Atenta na seguinte citação e responde às perguntas:

"Pietro:
- Ai, querida! Eu apaixono-me por todas as mulheres que vejo. Tu imaginas tudo. Dei-te uma rosa e disse-te um piropo e tu imaginaste que eu era o teu Romeu."

Que registo de língua é utilizado por Pietro e Vanina quando se dirigem um ao outro?

Ao longo da obra O Colar, podemos encontrar diversas marcas de expressividade e recursos estilísticos. Existe, em todo o texto, uma preocupação estética. Tendo isso em conta, indica o registo de língua que está presente na globalidade da obra.

3. Indica a palavra primitiva que dá origem ao verbo “endoidecer”.
Diz por que processos se formou esse verbo.

4. Escreve duas palavras compostas por aglutinação, seguindo o exemplo.
Ex.: aguardente.


III

Lê o texto com atenção.

“Vanina sacudiu os cabelos e disse-lhe:
-Hoje não me possso pentear porque não tenho pente.
-Tens este que eu te trago e que mesmo feito de oiro brilha menos do que o teu cabelo.
Então Vanina atirou-lhe um cesto atado por uma fita onde Guidobaldo depôs o seu presente.
E daí em diante a rapariga mais bela de Veneza passou a ter um namorado.
Quando esta notícia se espalhou na cidade os amigos do capitão foram preveni-lo de que estava a arriscar a sua vida, pois Orso não lhe perdoaria. Mas ele era forte e destemido, e sacudiu os ombros e riu. Ao fim de um mês foi bater à porta do tutor.
-Que queres tu? – perguntou o velho.
-Quero a mão de Vanina.
-Vanina está noiva de Arrigo e não há-de casar com mais ninguém. Sai depressa de Veneza.
Tens um dia para saíres da cidade. Se amanhã ao pôr do sol ainda não tiveres partido eu mandarei sete homens com sete punhais para te matarem.
Guidobaldo ouviu, sorriu, fez uma reverência e saiu.
Mas nessa noite, no silêncio da noite, a sua gôndola parou junto da varanda da casa de Orso. De cima tiraram um cesto preso por uma fita e dentro dele o jovem capitão depôs uma escada de seda.
O cesto foi puxado para a varanda, e a escada, depois de desenrolada, foi atada à balaustrada de mármore cor-de-rosa. Então, ágil e leve, Vanina desceu com os cabelos soltos flutuando na brisa.
Guidobaldo cobriu-a com sua capa escura, e a gôndola afastou-se e sumiu-se no nevoeiro de Outubro.“


Sophia de Mello Breyner, O Cavaleiro da Dinamarca, Figueirinhas.


1. A história acima descrita faz parte da obra O Cavaleiro da Dinamarca e consiste num texto narrativo. Fazendo as alterações que consideres necessárias, transforma este excerto num texto dramático.



A Viagem


Era uma vez um povo de marinheiros e de heróis, o povo português, o nosso povo, que já lá vão muitos anos – mais de quatrocentos – quis descobrir o caminho marítimo para a Índia. A Índia parecia então, aos olhos de todos os Europeus, como terra de esplendor e de riqueza, que todos os homens desejavam, mas onde era difícil, quase impossível chegar.
Quatro pequenos navios, - tão pequenos sobre o imenso e ignorado Oceano! – quatro naus coman-dadas pelo grande capitão Vasco da Gama, lançaram-se através do Atlântico, só conhecido até ao cabo da Boa Esperança, dobraram esse Cabo e puseram-se de vela para a região que demandavam.
O vento era brando, o mar sereno. Até então a viagem correra sossegada. Mas os perigos seriam constantes, a travessia arriscada, a viagem longa. E ninguém sabia ao certo o rumo a seguir, pois nunca outra gente se atrevera sequer a tentar tão comprida e custosa navegação.
Só a coragem e a audácia dos Portugueses seria capaz da proeza heróica!
Iam os barcos já na costa de Moçambique, rápidos, entre a branda espuma de ondas.
A Índia estava longe.
Mas o caminho para alcançá-la era aquele, diziam os sábios e marinheiros – e decerto lá chegariam Vasco da Gama e os seus marujos, se o vento e o mar lhes fossem favoráveis e, sobretudo, se a coragem os não abandonasse.
Ai deles, porém!
Sempre que um povo ou um homem tenta desvendar e conhecer paragens até então ignotas, ou realizar um acto nobre e grande, parece que as forças da Natureza, ou a inveja dos outros homens, tudo fazem para os não deixar vencer...
Iam senti-lo e sabê-lo bem os nossos temerários antepassados!
E antes de senti-lo e sabê-lo – já os deuses ou forças, que vivem nas coisas e nas almas, discutiam se sim ou não os deviam deixar triunfar.
Júpiter, que era o Deus dos Deuses, senhor do Mundo; Vénus, filha de Júpiter, Deusa do Amor e da Ternura; Baco, o Deus da Folia e do Vinho; Marte, o Deus da Guerra; Apolo, o Deus da Luz e do Calor; e Neptuno, o Deus do Mar, juntaram-se todos para resolver se dariam ou não auxílio aos portugueses.
Basta que Júpiter desencadeasse um grande temporal sobre as frágeis embarcações, para que o naufrágio as engolisse logo e, com elas, os tripulantes e o próprio Vasco da Gama...
Era isto o que nem Vénus nem Marte – amigos dos Portugueses, que são, como ambos esses Deuses, afectuosos e valentes – de maneira alguma queriam.
Mas Baco – sempre tonto e mau, que tivera outrora grande poder na Índia e receava que os Por-tugueses, conquistando-a, até a lembrança do seu reinado de lá afastassem – Baco preparava-se para os inquietar, desanimando a lusa energia com toda a espécie de maldades e perfídias.
No palácio luminoso, perto das estrelas, em que habitualmente se reuniam – grande conversa e discussão houve entre os Deuses a propósito dos nossos Portugueses e da melhor decisão a tomar sobre o destino das suas naus...

Os Lusíadas de Luís de Camões Contados às Crianças e lembrados ao Povo,
adaptação em prosa de João de Barros, Livraria Sá da Costa



I


1. O texto aparece dividido em duas partes. A primeira termina com as seguintes palavras: "Só a coragem e a audácia dos Portugueses seria capaz da proeza heróica!".
1.1. Diga de que proeza se trata.
1.2. Localize essa proeza quanto ao tempo.

2. Observe a seguinte frase: "Era uma vez um povo de marinheiros e de heróis, o povo português, o nosso povo, que já lá vão muitos anos – mais de quatrocentos – quis descobrir o caminho marítimo para a Índia."
2.1. Classifique o narrador quanto à sua presença. Justifique a sua resposta.
2.2. Reescreva a frase, modificando a presença do narrador. Não se esqueça de fazer as devidas alterações.
2.3. O autor desta proeza heróica é uma personagem individual ou colectiva? Justifique a sua resposta.

3. Atente na seguinte transcrição: "Quatro pequenos navios, (...) quatro naus comandadas pelo grande capitão Vasco da Gama, lançaram-se através do Atlântico, só conhecido até ao Cabo da Boa Esperança, dobraram esse Cabo e puseram-se de vela para a região que demandavam.
3.1. Indique a que classe morfológica pertencem as palavras sublinhadas.
3.2. Classifique-as quanto ao tempo, pessoa e número.
3.3. Identifique o modo de organização do discurso utilizado. Justifique a sua resposta.
3.4. Refira outro modo de organização do discurso que conheça e exemplifique com uma frase do texto.

4. Observe a frase: "O vento era brando, o mar sereno. (...) Mas os perigos seriam constantes, a travessia arriscada, a viagem longa."
4.1. Complete a seguinte grelha fazendo o levantamento de todos os nomes e adjectivos presentes na frase acima transcrita.
4.2. Indique o recurso expressivo utilizado para descrever o início da viagem.

5. Na segunda parte, o narrador identifica todas as personagens e situa-as em espaços distintos.

6.1. Identifique as personagens e classifique-as quanto ao tipo.
6.2. Localize-as nos seus respectivos espaços.
6.3. Transcreva do texto uma frase que justifique o objectivo da reunião dos deuses.
6.4. Refira quem e por que motivo se opunha à concretização do sonho dos Portugueses.

O Adamastor


Mas, cinco dias depois da aventura de Veloso, numa noite em que sopravam ventos prósperos, estando nós de vigia, numa nuvem imensa, que os ares escurecia, apareceu de súbito sobre as nossas cabeças.
Tão temerosa e carregada vinha que os nossos valentes corações se encheram de pavor!
O Mar bramia ao longe, como se batesse nalgum distante rochedo. Tudo infundia pavor. E nunca na nossa viagem tínhamos encontrado nuvem tão espessa e tão assustadora. Todas as tempestades pareciam vir dentro dela, para de lá saírem e nos assaltarem.
Erguendo a voz ao Céu, supliquei piedade a Deus. Mal acabava de rezar e logo uma figura surgiu no ar, robusta, fortíssima, gigantesca, de rosto pálido e zangado, de barba suja, de olhos encovados, e numa atitude feroz. Os cabelos eram crespos e cheios de terra. A boca era negra. Os dentes amarelos. Tão grandes eram os seus membros, que julguei ver um segundo colosso de Rodes, esse colosso que era uma das sete maravilhas do Mundo, de tal maneira alto que, diz-se, por baixo das suas pernas passavam à vontade enormes navios!... Num tom de voz grossa, como a voz do mar profundo, começou a falar-nos. Arrepiámo-nos todos , só de ouvir e de ver tão monstruosa criatura.
Disse então o Gigante, voltando-se para nós:
-Ó Gente ousada mais do que nenhuma outra, que nunca descansais de lutas e combates, já que não temeis ultrapassar os limites onde ninguém mais chegou, e navegar os mares que me pertencem; já que vindes devassar os meus segredos escondidos, que nenhum humano deveria conhecer. Ouvi agora os danos que prevejo para vós, para a vossa raça, que subjugará no entanto ainda todo o largo Mar e toda a imensa Terra. Ficai sabendo que todas as naus que fizerem esta viagem encontrarão castigo merecido do seu atrevimento sem par - as maiores dificuldades nestes meus domínios. E sofrerão o horror de tormentas desmedidas. (...) .

João de Barros, Os Lusíadas de Camões (adaptação)



I

1- Onde e quando se desenrola este episódio?

2- A partir dos elementos que te são fornecidos pelo texto, faz a caracterização do Adamastor.

3- Diz como reagiram os marinheiros ao aparecimento desta personagem.

4- Que ameaças são proferidas pelo Gigante?

5- Apresenta a justificação dada para tão grande desejo de vingança.

6- Imagina que vais entrevistar o capitão da nau a que se refere o texto. Redige três perguntas interessantes e as respectivas respostas, sobre a sua assustadora viagem.


II

1. Identifica os planos da narrativa existentes neste conto e explica em que consistem.
2. Classifica o narrador deste I capítulo.
3. Identifica e classifica o narratário.


III

Relembra o capítulo: “A mais linda História do Mundo”.
Utilizando o maior número de adjectivos que conseguires, descreve o amor entre D. Pedro e D. Inês de Castro.




Começa a viagem

I

Começa a viagem: “Era uma vez um povo de marinheiros e heróis...”


1. O narrador propõe-se contar uma história. Sintetiza o conteúdo desta narrativa.

2. Que ideia tinham os europeus da Índia?

3. Achas adequado que o narrador chame aos portugueses um povo de marinheiros e heróis? Justifica.

4. Transcreve do 1º parágrafo dois adjectivos que caracterizem a missão dos portugueses.

5. Como era constituída a frota capitaneada por Vasco da Gama?

6. O narrador acentua a dificuldade e a grandiosidade da expedição dos portugueses. Transcreve frases onde este facto é mais evidente.

7. Localiza geograficamente a armada e transcreve os elementos em que te apoiaste.

8. “o vento era brando, o mar sereno”
8.1. A que parte da viagem corresponde esta descrição?
8.2. Que nome se dá a esta técnica narrativa? Explica-a.
8.3. Seguir-se-ia outra parte bem mais complicada. Porquê?

9. Os deuses interessam-se pela viagem.
9.1. Como se revela este interesse?
9.2. Que deuses se manifestam a favor ou contra?
9.3. Quais as razões que os movem?
9.4 Que nome se dá a este episódio aqui relatado?


II


1. Identifica os planos da narrativa existentes neste conto e explica em que consistem.

2. Classifica o narrador deste I capítulo.

3. Identifica e classifica o narratário.

4. Refere os tipos de episódios que conheces nesta obra e diz em que consistem.



29.12.08

Leandro, Rei da Helíria

1º ACTO
Cena X

Rei Leandro, Bobo, Felizardo, Simplício, Reginaldo, Violeta, Hortênsia, Amarílis, Conselheiro


[…]
VIOLETA: Como a comida quer ao sal.
REI (apopléctico): O sal?! Como a comida...
VIOLETA: ... quer ao sal.
REI: Estareis louca? Ou serei eu que, de repente, terei enlouquecido? Ousais comparar-me... ao sal?!
VIOLETA: Mas, senhor...
REI: É essa a paga de todos estes anos de amor? É essa a paga das muitas horas que perdi junto ao vosso leito, acalmando os vossos pesadelos?... Oh, deuses, isto é que é um pesadelo, um verdadeiro pesadelo!
VIOLETA: Mas o sal é um bem precioso, senhor, sem ele não podemos viver...
REI: Calai-vos! Nem mais uma palavra! Nunca mais quero ver o vosso rosto, nunca mais quero ouvir nem o mais leve som dos vossos passos! Vou esquecer que um dia tive uma filha com o vosso nome! (Levanta-se, cambaleando, e chama:) Escrivão! (...)

VIEIRA, Alice - Leandro, Rei da Helíría, Ed. Caminho


I

1. Este texto é uma adaptação do conto popular. A que momento do conto popular corresponde esta cena do texto dramático?

2. Enumera as personagens que intervêm neste momento da acção.

3. Localiza a acção no espaço.
3.1. Faz o levantamento de todos os elementos que caracterizam esse espaço.

4. O Rei fala de um sonho que teve e que considera muito estranho. De que sonho se trata?
4.1. De que modo esse sonho determina os acontecimentos seguintes?

5. Esta cena termina na última linha do texto. O que determina a mudança para a cena XI?

6. Retira do texto exemplos de didascálias que forneçam informações sobre:
a. cenário;
b. movimentação de actores/personagens;
c. gestos;
d. expressões faciais;
e. tom e altura de voz.

7. Identifica os apartes.

II

1. Repara nas frases:
a. "Senhor, uma história dessas nem eu seria capaz de inventar!"
b. "Ó sócio, não me digas que ainda vamos ser reis disto?!'
c. "Meu senhor, não sei falar como minhas irmãs."
1.1. Em todas as frases encontras uma palavra ou expressão que se emprega quando queremos chamar ou interpelar aquele a quem nos estamos a dirigir. Identifica esse elemento frásico.

2. Quais são as formas de base que deram origem aos nomes próprios "Felizardo" e "Simplícío"?

3. O que é um escrivão?


4. Classifica as seguintes palavras quanto à sua acentuação fónica:
a. "Leandro";
b. "escrivão";
c. "Príncipe";
d. "Amarílis";
e. "senhor".


Antes de Começar



(Depois de subir o pano, ouve-se um tambor que se vai afastando. Quando já mal se ouve o tambor, o Boneco levanta-se e vai espreitar ao fundo para fora. Entretanto a Boneca senta-se e está admirada de ver o Boneco a andar. Quando o Boneco volta para o lugar, fica admirado de ver a Boneca sentada a olhar para ele.)

O Boneco - Tu também te mexes como as pessoas?!
A Boneca - (Muito baixinho) Shiu!...
O Boneco - ó agora é que dei por isso!
A Boneca - (Idem) Shiu!...
O Boneco - Todas as noites puxo por ti e tu és sempre uma boneca!!!
A Boneca - (Idem) Shiu!
O Boneco - Eu julgava que de nós dois, era eu só que podia mexer-me!
A Boneca - (Sempre muito baixinho) Eu também julgava que de nós dois, era eu a única que podia mexer-me!
O Boneco - E nunca me sentiste a puxar por ti, todas as noites?!
A Boneca - (Idem) É que eu julgava que era o Homem que puxava por mim!
O Boneco - E tu? Puxaste por mim alguma vez?
A Boneca - (Idem) Nunca... nunca experimentei puxar por ti... Eu tinha pena, se ao puxar por ti tu não te mexesses. Por isso nunca experimentei!...
O Boneco - Pois eu, todas as noites, quando o tambor do Homem já vai muito longe, levanto-me e vou espreitar para fora...
A Boneca - Nunca te vi assim!... Às vezes, sentia puxarem por mim mas julgava que era o Homem..., e deixava-me estar boneca...
O Boneco - Se eu soubesse que tu eras como eu!
A Boneca - Se eu soubesse que também tu eras assim!
O Boneco - A culpa é tua! Eu bem puxei por ti, todas as noites!
A Boneca - Que pena! E eu que não adivinhava que eras tu! Olha, Boneco, perdoas? Tu não imaginas como eu sou tímida!...
O Boneco - É asneira!...
A Boneca - Schiu!... Não fales tão alto!
O Boneco - Não está ninguém lá fora! Eu nunca me levanto sem ter pensado primeiro se está alguém lá fora!... Só depois de ter pensado bem é que eu me levanto. E até hoje, ainda ninguém deu por nada... nem tu!
A Boneca - É verdade, nem eu...
O Boneco - Tu és uma tímida!
A Boneca - Pois sou...
O Boneco - E não há razão... pois se temos a certeza de que não está ninguém a ver! Faz algum mal?
A Boneca - Mas se vissem?
O Boneco - Não podem ver!
A Boneca - Tu tens a certeza de que não te podes enganar?
O Boneco - As pessoas é que se enganam! Nós os bonecos, nunca nos enganamos!!!...

Almada Negreiros, Antes de Começar


I

Das hipóteses apresentadas (A, B, C e D), assinala a correcta.

1. O texto transcrito faz parte do género dramático porque:
a) a narração está presente e é indispensável.
b) se destina somente a ser lido.
c) se destina, em princípio, a ser representado.
d) as personagens e a descrição são indispensáveis.

2. Nesta peça, a didascália inicial é um texto secundário que nos dá informações sobre:
a) a movimentação e atitudes das personagens.
b) a iluminação e a música
c) o cenário e o guarda-roupa.
d) a música e o guarda-roupa.

3. A acção desta peça decorre:
a) nos bastidores.
b) numa casa.
c) num palco.
d) na rua.

4. Em cena, duas personagens descobrem maravilhadas que:
a) são actores de teatro.
b) são pessoas reais.
c) estão apaixonadas.
d) podem comunicar.

5. O Boneco não tinha descoberto há mais tempo que a sua companheira se mexia e falava porque:
a) nunca tinha tentado comunicar com ela.
b) embora tivesse tentado comunicar, ela nunca respondera.
c) tinha medo que o Homem o ouvisse.
d) não desejava que tal acontecesse.

6. A Boneca não tinha feito a mesma descoberta em relação ao amigo porque:
a) nunca tinha tentado falar com ele.
b) sempre que tentara comunicar, não obtivera resposta.
c) receava obter uma resposta.
d) desprezava a sua presença.

7. O Boneco tentou "puxar" pela Boneca e ela não reagiu porque:
a) na realidade, ela não se mexia.
b) julgava que era o Homem que o fazia.
c) não queria que ele soubesse que ela se mexia.
d) gostava de brincar com ele.

8. As falas "Se eu soubesse que tu eras como eu!" e "Se eu soubesse que também tu eras assim!" indicam que ambas as personagens se sentem:
a) arrependidas por terem começado a falar.
b) inferiores em relação ao Homem.
c) felizes por se terem conhecido.
d) com pena de não o terem descoberto há mais tempo.

9. Sente-se que sendo ambas bonecos, as suas falas revelam:
a) características psicológicas muito idênticas.
b) traços psicológicos que as distinguem.
c) características físicas muito semelhantes.
d) traços físicos muito distintos.

10. A(s) forma(s) de enunciação presente(s) neste excerto da peça é/são:
a) o monólogo.
b) o diálogo.
c) o diálogo e o monólogo.
d) o aparte.

11. O uso frequente das reticências marca interrupções no diálogo exprimindo:
a) ironia.
b) hesitação.
c) surpresa.
d) dúvida.

12. A parte da peça transcrita corresponde:
a) ao conflito e desenlace.
b) ao desenlace.
c) à exposição e conflito.
d) à exposição.

13. "Shiu...!" é:
a) um advérbio.
b) uma interjeição.
c) uma preposição.
d) uma conjunção.

14. A frase "Tu também te mexes como as pessoas?!" é simultaneamente do tipo:
a) interrogativo e exclamativo.
b) interrogativo e imperativo.
c) imperativo e exclamativo.
d) declarativo e interrogativo.

15. Na frase "Tu tens a certeza de que não te podes enganar?", o pronome te está colocado antes do verbo porque se trata de uma frase:
a) negativa.
b) exclamativa.
c) interrogativa.
d) enfática.

16. Na frase anterior, o pronome te desempenha a função sintáctica de:
a) complemento directo.
b) sujeito.
c) complemento indirecto.
d) complemento determinativo.

17. A fala "Nunca te vi assim!...", no discurso indirecto, fica:
a) A Boneca disse que nunca o tinha visto assim.
b) A Boneca disse que nunca te vira assim.
c) A Boneca perguntou se já o tinha visto assim.
d) A Boneca perguntou quando é que o veria assim.

18. No texto há vários exemplos de complementos circunstanciais de tempo, como por exemplo:
a) "nunca"; "a única".
b) "até hoje"; "alguma vez".
c) "lá fora"; "só agora".
d) "Todas as noites"; "até hoje".

19. Na frase "Eu julgava que era o Homem!", a oração destacada a itálico é uma oração subor-dinada:
a) completiva.
b) condicional.
c) causal.
d) final.

20. A oração destacada na questão anterior desempenha a função de:
a) sujeito.
b) predicativo do sujeito.
c) complemento directo.
d) complemento indirecto.


II

1. Elabora uma síntese do texto lido.
2 Continua o texto dramático, acrescentando-lhe as personagens que quiseres e criando um desfe-cho a teu gosto. Sugerimos-te que leias a peça na íntegra e a compares com o teu texto.
3 Imagina e escreve a página do Diário da Boneca relativa ao dia em que começou a falar com o Boneco.

28.12.08

Antes de Começar


1. Escolhe a melhor opção, de acordo com o texto:
1.1. «Quando já mal se ouve o tambor, o Boneco
a) fica sentado a admirar o que se passa em seu redor;
h) levanta-se, e vai espreitar ao fundo para fora;,
c) levanta-se, e vai espreitar pela janela.

1.2. O Boneco pergunta à Boneca
a) -Tu não te mexes como as pessoas?!
h) -Tu também te mexes como eu?!
c) -Tu também te mexes como as pessoas?!

1.3. A Boneca desculpa-se ao Boneco por não se levantar quando ele a puxava, porque
a) julgava que era a dona;
h) não queria;
c) julgava que era o Homem.

1.4. Os bonecos falam sobre as crianças e sobre as pessoas grandes.
O Boneco diz:
a) -Só as crianças é que gostam de bonecos...
h) -Só as pessoas grandes é que gostam de bonecos...
c) -As crianças já não gostam de bonecos...

1.5. A Boneca comenta com o Boneco sobre o destino que Ela lhe reservava quando a fez. -Longe estava Ela, quando me fez, de supor:
a) que eu havia de ir pró circo!
b) que eu havia de ir pró cinema!
c) que eu havia de ir pró teatro!

1.6. O Boneco afirma peremptoriamente, face à história da Boneca, que eles, bonecos, são
a) a melhor caricatura de quem os fez;
b) o melhor retracto da idade de quem os fez;
c) a melhor imagem da idade de quem os projectou.

1.7. Os bonecos conversam sobre os seus corações. Durante esta troca de ideias, o Boneco refere que a quem não acredita no coração '
a) -(...) nada serve de consolo.
b) -(...) tudo é frustração.
c) -(...) tudo serve de engano.

1.8. No final da peça, «Abre-se a cortina do fundo e do lado de fora estão sentadas nos bancos
a) poucas crianças com as pessoas que as acompanham»;
b) muitas crianças sem pessoas que as acompanhem»;
c) muitas crianças com as pessoas que as acompanham».



2. Escolhe a opção correcta, de acordo com o texto:
2.1. A relação existente entre o Boneco e a Boneca era de
a) indiferença;
b) amizade;
c) interesse.

2.2. O Boneco era
a) convencido;
b) sábio;
c)indolente.

2.3. A Boneca era
a) tímida;
b) voluntariosa;
c) antipática.

2.4. O Boneco era desinibido, porque
a) se insinua junto da Boneca;
b) começa a «puxar» pela Boneca;
c) começa a fazer habilidades para a Boneca.

2.5. A Boneca era reservada, porque
a) não se manifestava quando o Boneco puxava por ela;
b) nunca falou com o Boneco;
c) vivia unicamente para o seu mundo interior.

2.6. Os dois Bonecos acham-se parecidos um como o outro, porque
a) têm o mesmo tamanho;
b) ambos se mexem como as pessoas;
c) gostam de representar.

2.7. O Boneco e a Boneca chegaram à conclusão de que ambos
a) tiveram o mesmo percurso de «vida»;
b ) tiveram histórias de «vida» diferentes;
c) tiveram formas de «vida» diferentes, com pontos comuns.

2.8. Os dois Bonecos associam o mar às palavras ditadas pelos seus corações, como algo
a) que não se cansa;
b) que se gasta;
c) que não insiste.

2.9. Nas falas finais da peça, os Bonecos têm o mesmo sentir face à que deveria ser a relação entre a cabeça e o coração. Eles referem que
a) a cabeça se deve sobrepor ao coração;
b) a cabeça deve mandar tanto como o coração;
c) a cabeça não deve saber senão o que o coração quiser.

2.10. Quando os tambores se ouvem e o espectáculo vai começar
a) os Bonecos permanecem sen-tados e quietos,
b) os Bonecos levantam-se e continuam a falar;
c) os Bonecos ficam na posição em que estavam ao princípio.

Fernando Pessoa - ortónimo

Diga se são verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes afirmações:

1. A angústia existencial e a nostalgia são marcas de Pessoa ortónimo.
2. A poesia do ortónimo revela a despersonalização do poeta fingidor, que fala e que se identifica com a própria criação poética, como impõe a modernidade.
3. A revista Orpheu reage contra o tradicionalismo e o academismo oficial e cria uma ruptura com o passado.
4. Em Orpheu, encontramos de um lado a herança do decandentismo francês, do outro o esprit nouveau de uma Europa que lutava p por uma estética de vanguarda.
5. Em Pessoa ortónimo, a influência do lirismo tradicional é visível na sensibilidade, na suavidade, na linguagem simples e no ritmo melodioso.
6. Em Pessoa ortónimo, o fingimento surge como elaboração mental dos conceitos que exprimem as emoções ou o que quer comunicar.
7. Em Pessoa ortónimo, o poeta dá a conhecer a sua felicidade existencial e a sua "alegria de viver".
8. Em Pessoa ortónimo, o poeta procura superar a angústia existencial através da evocação da infância (símbolo da felicidade perdida) e da saudade desse tempo feliz.
9. Em Pessoa ortónimo, os poemas não são rimados e a opção pelo verso longo é evidente.
10. No Interseccionismo encontramos o processo de realizar o Sensacionismo, na medida em que a intersecção desensações está em causa e por elas se faz a intersecção da sensação e do pensamento.
11. Em Orpheu, a poesia alucinada, chocante, irritante, irreverente, procurava provocar o burguês, símbolo acabado da estagnação em que se encontrava a cultura portuguesa.
12. No poema Autopsicografia, Fernando Pessoa afirma que o acto poético apenas pode comunicar uma dor verdadeira.
13. No poema O menino da sua mãe, há objectos (a cigarreira e o lenço) que simbolizam a existência de vínculos afectivos que foram conservados.
14. No poema O menino da sua mãe, o modo indicativo dos verbos torna mais irreal mais longínqua a descrição.
15. O poema Ela canta, pobre ceifeira destaca a inconsciência consciente da ceifeira ou a razão que o Eu desconhece e a perturbação p face à ausência de razões aparentes para cantar.
16. No poema Impressões do Crepúsculo, o significado de paul liga-se à água estagnada, aos pântanos, onde se misturam e se confundem imensas matérias e sugestões.
17. O Epicurismo considera que o bem se encontra nos prazeres intelectuais ou morais, mas defende que os prazeres calmos, puros e duradouros são os únicos capazes de proporcionar na vida uma completa ataraxia.
18. O Epicurismo preconizava a indiferença à dor e a firmeza de ânimo, como forma de resistir aos males e agruras da vida.
19. O Futurismo caracteriza-se pela exaltação da energia, de "todas as dinâmicas", da velocidade e da força até situações de paro
20. O Interseccionismo consiste na sobreposição de elementos como o aqui e o além, o agora e o passado, o real e o onírico.
21. O Sensacionismo é uma doutrina que atribui a génese dos nossos conhecimentos à intelectualização dos sentimentos.
22. O Interseccionismo deriva, ou melhor, é uma evolução do Paulismo e caracteriza-se pelo entrecruzamento de planos que se cortam: intersecção de sensações ou percepções.
23. Em Pessoa ortónimo, é visível a construção da arte pelo recurso à ironia que põe tudo em causa, inclusive a própria sinceridade.
24. O Paulismo caracteriza-se pelas sugestões claramente definidas, separando o espírito e a matéria.
25. São marcas do Modernismo: a simplificação da sintaxe; o aproveitamento das imagens visuais e dos vocábulos musicais; a versificação irregular e o verso livre; a liberdade estrófica.





27.12.08

A Fuga de Wang-Fô



Ling, a troco das lições, tinha com ele todos os cuidados que um discípulo deve ter com o mestre. Mendigava arroz quando nenhum deles tinha moedinhas de prata; e, quando as pessoas eram demasiado avarentas para darem, ele roubava. Massajava à noite os pés cansados do velho, e de manhã levantava-se muito cedo para ir procurar nas cercanias uma paisagem que o mestre gostasse de pintar.


I

1. A que obra e a que autor pertence o excerto acima transcrito?

2. Que relação existe entre Ling e o seu mestre? Justifica de forma completa a tua resposta.

3. Explica o significado das seguintes palavras: mendigava, avarento, cercanias.

4. Aproveitando a informação que o texto te fornece e acrescentando outra da tua imaginação, faz o retrato físico e psicológico de Ling ou de Wang-Fô. Utiliza uma linguagem correcta e emprega alguns recursos estilísticos, como a metáfora e a comparação.

5. Escreve frases onde utilizes as seguintes palavras homónimas:
SÃO (adjectivo) / SÃO (verbo)
RIO (nome) / RIO (verbo)

6. Que nome dás às palavras destacadas?
• o meu avô já não ouve bem.
• no Inverno do ano passado houve muitas inundações.

7. Escreve os antónimos das seguintes palavras: lindo; amor; idoso; delicado.

8. Diz em que grau se encontram os seguintes adjectivos: grossíssimas; irrequietas; muito manso.

9. A que conjugação pertencem os verbos amar, meter, e partir.

10. Conjuga o verbo lavar no pretérito imperfeito, pretérito perfeito e pretérito mais-que-perfeito.

11. Conjuga o verbo ter no presente, no pretérito imperfeito e no futuro do modo conjuntivo.


II

“A pulsação dos remos foi enfraquecendo, por fim cessou, obliterada pela distância. O Imperador, dobrado para a frente, com a mão em pala sobre os olhos, via afastar-se o barco de Wang-Fô, que já não era senão uma mancha imperceptível na palidez crepuscular. Finalmente o barco contornou um rochedo que fechava a entrada do mar alto;...”

1- Situa o excerto acima transcrito na obra a que pertence e justifica a tua resposta.


III

1. Classifica morfologicamente cada uma seguintes palavras (quando se trata de um verbo diz em que tempo e modo se encontra):
a) chineses; b)ouvindo; c)atraíam d)óculos

2. Completa cada uma das seguintes frases com a preposição adequada, a escolher entre: com; por; a; em; contra.

a) Todos ansiavam ______ ver o Diogo regressar a casa são e salvo.
b) Ao saber que o desfalque fora descoberto, o tesoureiro da empresa atentou______ a própria vida.
c) Não se pouparam______ esforços para que o filho pudesse tirar um curso superior.
d) É preciso romper______ velhos hábitos, se estes já não têm qualquer justificação.
e) A recepção não podia ser mais cordial; eles desfizeram-se______ amabilidades.

3. Conjuga o verbo TER na 1ª, 2ª e 3ª pessoa do singular, no presente do modo indicativo e no presente do modo conjuntivo.



Livro de Horas

Leia atentamente o seguinte texto:


LIVRO DE HORAS

Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!




Miguel Torga, O outro livro de Job





I

Faça uma análise pessoal do poema, podendo orientar-se pelas seguintes alíneas:
1. Síntese do assunto e seu desenvolvimento.
2. Processos morfo-sintácticos, semânticos e fónicos investidos no tratamento do assunto.

23.12.08

A noite sagrada




Era dia de Natal: toda a gente tinha ido para a Igreja, menos a avó e eu: julgo que estávamos os dois sozinhos em casa; não tínhamos podido acompanhar os outros, eu porque era muito novo, ela porque era muito velha, e ambos nos sentíamos tristes por não poder assistir à Missa do Galo nem ver as velas acesas.
E, como estávamos para ali sentados e solitários, a avó principiou a contar:
- Era uma vez um homem... - disse ela - que caminhava no meio da noite escura à procura de lume. Ia de porta em porta, batia a todas elas e dizia:
« Amigos, ajudai-me ! A minha mulher acaba de ter um menino, e preciso de lume para os aquecer, a ela e à criancinha. »
Mas a escuridão era profunda; todos dormiam; ninguém lhe respondeu. O homem prosseguiu o seu caminho. De súbito avistou uma luz que brilhava ao longe. Dirigiu-se para lá e viu que era uma fogueira acesa ao ar livre. Em volta dormiam carneiros brancos, e um velho pastor, agachado, guardava o rebanho.
Quando o homem que andava à procura de lume se aproximou dos carneiros, viu três grandes cães adormecidos ao pé do pastor. Acordaram os três e abriram as bocarras como se quisessem ladrar; mas nenhum som lhes saiu das gargantas. O homem reparou em que o pelo se lhes ouriçava, que os dentes afiados luziam muito brancos ao clarão da fogueira. E os três se atiraram a ele. Um ferrou-lhe os dentes numa perna, outro numa das mãos, o terceiro no pescoço; mas as queixadas e os dentes recusaram-se a morder, e o homem não sofreu qualquer ferimento.
Quis então aproximar-se da fogueira e levar o lume de que tinha necessidade, mas eram tantos os carneiros, e deitados tão juntos, que não podia passar pelo meio deles. E teve de lhes passar por cima. Mas nenhum dos animais acordou ou se mexeu sequer.
Até àquele momento, eu escutara a minha avó sem a interromper, mas não me contive mais.
- Porquê, avó ? - Perguntei.
- Daqui a pouco o saberás.
E a avó continuou:
- Quando o homem chegou ao pé da fogueira, o pastor ergueu a cabeça. Era um velho carrancudo, mau, duro para com toda a gente. Assim que viu o desconhecido, agarrou no seu longo cajado pontiagudo e atirou-lhe com ele. O cajado voou direito ao homem, mas no instante em que ia atingi-lo des-viou-se e foi cravar-se no chão.
Então o homem aproximou-se do pastor e disse:
« Amigo, ajuda-me e deixa-me levar um pouco de lume. A minha mulher acaba de ter um menino e preciso de os aquecer, a ela e à criancinha.»
O pastor teve vontade de recusar, mas lembrou-se dos cães que não tinham ladrado, dos carneiros que não tinham fugido, do cajado que não tinha querido bater, e sentiu um vago receio.
« Leva aquilo de que precisares », disse ele ao desconhecido.
A fogueira estava quase a apagar-se. Não havia nem ramos a arder, nem achas. Só um monte de bra-sas, mas o homem não tinha uma pá, nem nada onde pudesse levar as brasas ardentes. E ao ver isso, o pastor repetiu:
« Leva tudo o que quiseres. »
E alegrava-se com a ideia de que o homem não podia levar coisa alguma. Mas o homem curvou-se, afastou as cinzas, e com as mãos tirou algumas brasas vermelhas que deitou numa dobra do manto. E as brasas não lhe queimaram as mãos nem as roupas. Levou-as como se fossem maçãs ou avelãs.
Pela terceira vez a narradora foi interrompida:
- Avó, porque foi que os carvões não quiseram queimar o homem ?
- Já vais ver... - disse a avó. E continuou:
- Quando o pastor, que era um homem carrancudo e duro, viu aquelas coisas, começou a perguntar a si mesmo:
« Mas que noite será esta em que os cães não mordem, os carneiros não se espantam, em que o cajado não fere, em que o lume não queima ? » Chamou o desconhecido e perguntou-lhe:
« Que noite é esta em que até as coisas se mostram compadecidas ? »
O homem respondeu:
« Se tu não compreendes por ti próprio, não te posso dizer. »
E foi-se embora apressado, para aquecer a mulher e o menino.
Mas o pastor pensou que não devia perder de vista aquele homem até compreender o significado de tudo aquilo.
Levantou-se e seguiu-o.
Em breve o pastor viu que o homem nem sequer tinha uma choupana onde morar: a mulher e o menino estavam deitados ao fundo de uma gruta da montanha cujas paredes eram frias e nuas.
Pensou que o pobre inocentinho corria o risco de morrer de frio, e apesar de ser um homem duro, comoveu-se com semelhante miséria. Desenfiou o alforge do ombro, tirou dele uma pele de carneiro branca e macia e estendeu-a ao desconhecido, dizendo-lhe que deitasse o menino em cima dela.
No mesmo instante em que dava esta prova de bondade e de caridade, abriram-se-lhe os olhos; e viu aquilo que antes não fora capaz de ver, e compreendeu aquilo que não tinha podido compreender.
Viu em redor de si um círculo de anjos com asas de prata. Cada um deles tinha na mão um instrumento de música e todos cantavam em vozes claras e sonoras que naquela noite nascera o Salvador, que libertaria os homens dos seus pecados.
E compreendeu então que nessa noite as próprias coisas estavam tão cheias de alegria, que não que-riam fazer mal a ninguém.
E não era apenas na gruta que havia anjos: via-os por toda a parte, sentados na encosta da montanha, ou a voarem pelo céu. Vinham também em grupos pelo caminho fora, e todos paravam para contemplar o Menino.
Quando a avó chegou àquele ponto da história, suspirou e disse:
- Mas aquilo que o pastor viu também nós podemos ver. Todos os anos, na noite de Natal, os anjos voam pelo céu, e só de nós depende vê-los ou não.
Depois, pousou-me a mão sobre a cabeça e acrescentou:
- Lembra-te disto, porque é tão verdade como estares a ver-me e eu estar a ver-te. O mais importante não são as iluminações nem as luzes. Não precisamos do Sol nem da Lua, mas apenas de olhos que saibam abrir-se ao esplendor de Deus.


Selma Lagerlof, in 15 Histórias de Natal
(adaptado)



I

1 A narradora da história principal ficou em casa com:
A) uma tia.
B) um tio.
C) a avó.
D) o avô.

2 A acção desta história passa-se:
A) na Primavera.
B) no Verão.
C) no Outono.
D) no Inverno.

3 "... não tínhamos podido acompanhar os outros, eu porque era muito nova, ela porque era muito velha." (1.º parágrafo). Os adjectivos destacados a itálico encontram-se no grau:
A) normal.
B) superlativo absoluto analítico.
C) superlativo absoluto sintético.
D) comparativo de superioridade.

4 Como estavam sozinhas, a avó resolveu:
A) ler um livro.
B) ligar a televisão.
C) contar uma história.
D) acender a lareira.

5 A personagem principal da história contada pela avó era:
A) um homem.
B) um pastor.
C) uma mulher.
D) um menino.

6 "Amigos, ajudai-me!"
A palavra destacada a itálico é:
A) um determinante possessivo.
B) um pronome pessoal.
C) um determinante artigo definido.
D) um pronome indefinido.

7 O homem precisava de:
A) dinheiro.
B) comida.
C) roupa.
D) lume.

8 "... todos dormiam; ninguém lhe respondeu." (5.º parágrafo)
As palavras destacadas a itálico são:
A) determinantes demonstrativos.
B) pronomes demonstrativos.
C) pronomes indefinidos.
D) determinantes indefinidos.

9 De repente, o homem:
A) encontrou um desconhecido.
B) viu uma luz ao longe.
C) viu dois grandes cães.
D) encontrou um pedaço de madeira.

10 Ao chegar perto da fogueira, viu:
A) um cão e um rebanho.
B) dois cães e um pastor.
C) um rebanho e um pastor.
D) um rebanho abandonado.

11 Um "rebanho" é:
A) um adjectivo.
B) um nome próprio.
C) um nome comum.
D) um nome colectivo.

12 Um velho pastor guardava o rebanho.
O bloco destacado a itálico na frase desempenha a função sintáctica de:
A) sujeito.
B) predicado.
C) complemento directo.
D) complemento circunstancial de modo.

13 Aos pés do pastor estavam:
A) poucos carneiros.
B) dois cães.
C) três cães.
D) ovelhas brancas.

14 "... e abriram as bocarras como se quisessem ladrar;..."
O nome destacado a itálico encontra-se no grau:
A) normal.
B) aumentativo.
C) diminutivo.
D) comparativo.

15 Os cães atiraram-se ao homem:
A) e ferraram-no no pescoço.
B) mas ele defendeu-se com um pau.
C) mas ele não ficou ferido.
D) e deixaram-no bastante ferido.

16 Para chegar ao lume, o homem:
A) teve que rastejar.
B) bateu nos cães.
C) pediu ajuda ao pastor.
D) passou por cima dos carneiros.

17 "Mas nenhum dos animais acordou nem sequer se mexeu."
O período transcrito é:
A) um período simples, com uma só oração.
B) um período composto, com duas orações.
C) um período composto, com três orações.
D) nenhuma das anteriores é verdadeira.

18 "... eu escutara a minha avó sem a interromper;"
A forma verbal destacada a itálico encontra-se no:
A) pretérito perfeito.
B) pretérito imperfeito.
C) pretérito mais-que-perfeito.
D) futuro.

19 "- Porquê, avó?", é uma frase de tipo:
A) interrogativo.
B) exclamativo.
C) imperativo.
D) declarativo.

20 Selma Lagerlöff é:
A) a narradora da história.
B) uma das personagens.
C) a autora do texto.
D) a avó da narradora.



II

1. No texto que acabaste de ler estão presentes duas narrativas (uma está metida dentro da outra). Distingue-as.

2. A avó é narrador e é personagem; devia, portanto, ser narrador participante. Mas não é. Porquê ?

3. a) É mais difícil fazer o retrato das personagens quando elas vão mudando. É o que acontece com o pastor deste texto. Caracteriza-o, descrevendo, a partir da situação inicial, as alterações que sucedem no seu comportamento.

b) Diz qual foi o momento no qual se deu a grande mudança no comportamento desta personagem e explica qual foi a causa dessa transformação.

4. Identifica, justificando, os recursos de estilo presentes em cada uma das frases seguintes:
a) Os olhos dela brilhavam como dois sóis.
b) A D. Cecília tinha criado raízes na aldeia e já não queria voltar para Lisboa.
c) Aquelas nuvens escuras tinham mentido, porque afinal não choveu.
d) Aquela ideia foi a semente de uma grande mudança no seu modo de vida.

5. Diz a regra que motiva a acentuação gráfica de cada uma das palavras seguintes:
a) amável
b) obténs
c) saúde

6. Classifica morfologicamente (classe e subclasse) as palavras destacadas frases seguintes:
- Meu rei, desejo ser armado cavaleiro. A minha alegria e a vossa serão grandes quando isso acontecer.




22.12.08

O Homem que amou as nereidas

Recorda o conto de Margueritte Yourcenar: O Homem que amou as nereidas.


1. Identifica a personagem principal do conto.

2. Procede à sua caracterização.

3. Identifica no texto o narrador que conta a história desta personagem.

4. Faz a localização espacial e temporal dessa narração.

5. Sintetiza essa história.

6. Este narrador integra esta história na cultura mediterrânica e estabelece uma oposição entre esta e a cultura do Norte. Refere os elementos que constituem esta oposição.

7. Após a narração da história desta personagem, aparecem em cena três figuras femininas.
7.1. Caracteriza-as e ao seu modo de vida.
7.2. Procede à sua identificação, baseando-te nos dados fornecidos pelo narrador do conto.



19.12.08

Natal



O Natal ia chegar dali a pouco tempo, mas o senhor Prior torcia as mãos sem saber o que fazer. Naquele ano não havia presépio para armar na igreja e ele estava preocupadíssimo com esse problema.
Tinha havido, sim, mas agora não havia.
Era um presépio muito pobre, e muitas das suas figurinhas de barro, com o andar dos tempos, foram-se perdendo, escangalhando, partindo... Mas, enfim, tinham ficado as principais: Nossa Senhora, S. José, o Menino, o burrinho e a vaca, o rei preto... (já só havia o rei preto).
Mas da última vez que se armara o presépio, estava o senhor Prior a arrumá-lo, cai-lhe o rei preto do cavalo e quebra a cabeça ! Ficou sem conserto. Depois, uma vez, apareceu um garotinho a pedir esmola. Pôs-se a olhar para o burrinho e para a vaca, ele que nunca tinha tido um brinquedo para brincar, e vai o senhor Prior deu-lhos. O garoto foi-se embora mais satisfeito do que antes !
Ficaram o Menino Jesus, Nossa Senhora e S. José; mas por pouco tempo. A Nossa Senhora e o S. José deu-os o senhor Prior de outra vez a uma menina que não tinha pai nem mãe.
E o Menino, esse, deu-o também para consolar uns pobres pais que já não tinham filho...
Era por tudo isto que naquele ano, pelo Natal, não ia haver presépio armado na igreja.



I

1. O narrador deste texto é participante, ou não participante?

2. Justifica a resposta que deste à pergunta anterior.

3. Que problema tinha o senhor Prior naquele ano?

4. Qual era o motivo daquela situação?

5. Faz o retrato psicológico do senhor Prior.

6. Escreve uma pequena continuação da história (mas que acabe bem...).

7. Classifica morfologicamente as seguintes palavras retiradas do texto:

o:_______________________________________________________________
na: _____________________________________________________________
preocupadíssimo:___________________________________________________
esse:____________________________________________________________
muito pobre:___________________________________________________________
suas:____________________________________________________________
burrinho:_________________________________________________________
mais satisfeito do que:________________________________________________
Natal:____________________________________________________________
presépio:_________________________________________________________

8. Diz se cada uma das palavras seguintes é aguda, grave ou esdrúxula:
presépio; preocupadíssimo; Natal; figurinhas; preto; Prior;

9. Coloca os acentos necessários nas palavras seguintes:
RAIZ LUIS NUVEM PERU SAIDA AMAVELMENTE
PASSARO CANSADO PERIGOSO PRINCESA ALGUEM SAUDE HEROI

10. Em que palavra/s usaste a regra: acentuam-se as palavras graves que têm na sílaba tónica um i ou um u que não faz ditongo com uma vogal imediatamente anterior?

11. Escreve o adjectivo BELO nos graus:
- Superlativo absoluto analítico:
- Comparativo de superioridade:
- Superlativo relativo de inferioridade:
- Normal:
- Superlativo absoluto sintético:

15.12.08

Eu sou mais do que tu



Deus e a Terra zangaram-se uma vez. A Terra disse:
— Deus, eu sou mais poderosa.
— Por que é que tu és mais do que eu?
— Porque sou eu que dou a comida que tu comes com a tua família. Deus limitou-se a dizer:
— Han... Eu já te vou mostrar.
— Não podes mostrar nada.
— Eu já te digo...
Deus subiu e foi imediatamente fechar a chuva.
Tudo na Terra, pessoas, animais, plantas, tudo ficou sem água. Veio a seca. Os ani¬mais começaram a morrer por falta de água. As plantas secaram todas. Pilava-se o arroz e comia-se cru. Nem sequer havia água para cozinhar.
A Terra começou a pensar e mandou reunir os animais que ainda restavam:
— Quem pode ir falar com Deus?
Todos procuravam esquivar-se. «Han... eu não», «Eu?... Desculpe, senhora Terra, mas eu não posso».
Nessa altura a Terra perguntou à lebre.
— Deixa cá ver. Bem, amanhã de madrugada, posso ir. A Terra disse então:
— Quando chegares, bates à porta e dizes: «A Terra manda dizer que já sabe que tu és mais do que ela. Para teres paciência e dares um bocado de água, porque as famílias estão todas a morrer de sede».
A lebre foi, andou, andou, andou até que chegou. Sentiu pessoas a pilar arroz lá den¬tro no céu e bateu ao portão.
Uma mulher grande que estava sentada a comer farelos, ouviu e disse:
— Não ouviram bater?
Lá dentro ninguém acreditou.
— Come mas é os farelos e deixa-te de mentiras. Ninguém pode chegar até aqui. A lebre voltou a bater e a mulher grande voltou a dizer:
— Estão a bater.
Toda a gente que estava a pilar largou o pilão e correu para a porta. Viram a lebre e abriram:
— O que é que queres?
— Foi a Terra que me mandou. Onde está Deus? Venho pedir-lhe água.
— Senta-te e espera aí.
Fizeram comida e deram-lhe. Quando lhe trouxeram água, bebeu até mais não poder e acabou por desmaiar. Voltou a si e sentou-se à espera. Passado um bocado aparece Deus:
— Então, o que é que queres?
— A Terra mandou-me dizer-te que já sabe que tu és o maior. Para mandares água, por-que as suas famílias estão todas a morrer, os animais estão a morrer, as plantas todas estão a secar. Tem paciência.
Deus disse-lhe então:
— Já lhe tinha dito há muito tempo que sou mais poderoso do que ela. Agora vou dar-te um bule cheio de água. Tu vais e quando chegares perto de casa largas o bule. O bule cai, parte-se e a chuva cai.
Assim fez a lebre; foi até chegar perto de casa e largou o bule.
A chuva começou imediatamente.
As mulheres grandes, depois de tanto tempo sem ver água, com toda aquela sede mal se podiam aguentar de pé, rastejavam para pôr a boca no chão e bebiam assim. Alguns morriam.
Morreram porcos, galinhas, patos... Muitos morreram de excesso, tal era a força da sede.
Assim voltou a haver chuva. Até hoje.

Fábula guineense


I

1. O texto que acabas de ler pertence à tradição oral da Guiné-Bissau, país africano de Língua Portuguesa.
1.1.Identifica e transcreve passagens deste mesmo texto que transmitam aspectos típicos da cultura africana.

2. Qual o significado da expressão «mulher grande», no contexto cultural da Guiné-Bissau?

3. Ao longo desta narrativa, surgem expressões como: «A Terra começou a pensar...»; «A Terra disse...»; etc.
3.1. Identifica a figura de estilo presente nestas passagens.
3.2. Explica em que consiste essa figura de estilo.

II

1. «Desculpe, senhora Terra, mas eu não posso.»
1.1. Identifica a classe e a subclasse da palavra «mas».
1.2. Divide a frase nas orações que a constituem.
1.3. Finalmente, classifica as orações obtidas.

2 « — Quando chegares, bates à porta e dizes...»
2.1. Indica a classe e a subclasse das palavras destacadas.
2.2. Tendo em conta essas palavras, procede à divisão das orações.
2.3. Classifica, agora, essas orações.
2.4. Diz se a frase transcrita é simples ou complexa e porquê.



14.12.08

Sábios como Camelos




Há muitos anos viveu na Pérsia um grão-vizir - nome dado naquela época aos chefes dos governos -, que gostava imenso de ler. Sempre que tinha de viajar ele levava consigo quatrocentos camelos, carregados de livros, e treinados para caminhar em ordem alfabética. O primeiro camelo chamava- se Aba, o segundo Baal, e assim por diante, até ao último, que atendia pelo nome de Zuzá. Era uma verdadeira biblioteca sobre patas. Quando lhe apetecia ler um livro o grão-vizir mandava parar a caravana e ia de camelo em camelo, não descansando antes de encontrar o título certo.
Um dia a caravana perdeu-se no deserto. Os quatrocentos camelos caminhavam em fila, uns atrás dos outros, como um carreirinho de formigas. À frente da cáfila, que é como se chama uma fila de camelos, seguiam o grão-vizir e os seus ministros. Subitamente o céu escureceu, e um vento áspero começou a soprar de leste, cada vez mais forte. As dunas moviam-se como se estivessem vivas. O vento, carregado de areia, magoava a pele. O grão-vizir mandou que os camelos se juntassem todos, formando um círculo. Mas era demasiado tarde. O uivo do vento abafava as ordens. A areia entrava pela roupa, enfiava-se pelos cabelos, e as pessoas tinham de tapar os olhos para não fica-rem cegas. Aquilo durou a tarde inteira. Veio a noite e quando o Sol nasceu o grão-vizir olhou em redor e não foi capaz de descobrir um único dos quatrocentos camelos. Pensou, com horror, que talvez eles tivessem ficado enterrados na areia. Não conseguiu imaginar como seria a vida, dali para a frente, sem um só livro para ler. Regressou muito triste ao seu palácio. Quem lhe contaria histórias?
Os camelos, porém, não tinham morrido. Presos uns aos outros por cordas, e conduzidos por um jovem pastor, haviam sido arrastados pela tempestade de areia até uma região remota do deserto.
Durante muito tempo caminharam sem rumo, aos círculos, tentando encontrar uma referência qualquer, um sinal, que os voltasse a colocar no caminho certo. Por toda a parte era só areia, areia, e o ar seco e quente. À noite as estrelas quase se podiam tocar com os dedos.
Ao fim de quinze dias, vendo que os camelos iam morrer de fome, o jovem pastor deu-lhes alguns livros a comer. Comeram primeiro os livros transportados por Aba, ou seja, todos os títulos come-çados pela letra A. No dia seguinte comeram os livros de Baal. Trezentos e noventa e oito dias depois, quando tinham terminado de comer os livros de Zuzá, viram avançar ao seu encontro um grupo de homens. Eram as tropas do grão-vizir.
Conduzido à presença do grão-vizir o jovem guardador de camelos, explicou-lhe, chorando, o que tinha acontecido. Mas este não se comoveu:
- Eras tu o responsável pelos livros - disse -, assim por cada livro destruído passará um dia na pri-são.
O guardador de camelos fez contas de cabeça, rapidamente, e percebeu que seriam muitos dias. Cada camelo carregava quatrocentos livros, então quatrocentos camelos transportavam cento e sessenta mil! Cento e sessenta mil dias são quatrocentos e quarenta e quatro anos. Muito antes disso morreria de velhice na cadeia.
Dois soldados amarraram-lhe os braços atrás das costas. Já se preparavam para o levar preso, quando Aba, o camelo, se adiantou uns passos e pediu licença para falar:
- Não faças isso, meu senhor ? disse Aba dirigindo-se ao grão-vizir ? esse homem salvou-nos a vida.
O grão-vizir olhou para ele espantado:
- Meu Deus! O camelo fala!?
- Falo sim, meu senhor ? confirmou Aba, divertido com o incrédulo silêncio dos homens - Os livros deram-nos a nós, camelos, a ciência da fala.
Explicou que, tendo comido os livros, os camelos haviam adquirido não apenas a capacidade de falar, mas também o conhecimento que estava em cada livro. Lentamente enumerou de A a Z os títulos que ele, Aba, sabia de cor. Cada camelo conhecia de memória quatrocentos títulos.
- Liberta esse homem - disse Aba -, e sempre que assim o desejares nós viremos até ao vosso palácio para contar histórias.
O grão-vizir concordou. Assim, a partir daquele dia, todas as tardes, um camelo subia até ao seu quarto para lhe contar uma história. Na Pérsia, naquela época, era habitual dizer-se de alguém que mostrasse grande inteligência:
- Aquele homem é sábio como um camelo.
Isto foi há muito tempo. Mas há quem diga que, quando estão sozinhos, os camelos ainda conver-sam entre si.

Pode ser.


José Eduardo Agualusa, Estranhões & Bizarrocos
[estórias para adormecer anjos]


I

1. O grão-vizir gostava muito de ler. Como organizou a sua biblioteca ambulante?

2. Um dia a caravana perdeu-se no deserto.
2.1 Transcreve do texto uma expressão que identifique o elemento da Natureza que provocou esse incidente.

3. Indica os recursos estilísticos presentes nas seguintes frases:
«As dunas moviam-se como se estivessem vivas.»
«O uivo do vento abafava as ordens.»

4. O grão-vizir regressou muito triste ao seu palácio.
4.1 Qual a razão dessa tristeza?

5. O jovem pastor tomou conta dos camelos. Como resolveu ele o problema da alimentação dos animais?

6. O grão-vizir mostrou-se agradecido? Justifica.

7. Quem é que salvou o jovem pastor? Justifica.

8. Os camelos assumiram um novo papel no palácio do grão-vizir. Qual?

9. Como classificas o narrador quanto à sua participação na acção? Justifica a tua resposta.

10. Quais as personagens que intervêm na acção?

11. Identifica a personagem principal e justifica a tua escolha.

12. Procura, agora, as personagens secundárias. Justifica a tua resposta.

13. Dá exemplos de frases do texto em que se identifiquem os elementos da narrativa.
• Narrador
• Personagens
• Acção
• Tempo
• Espaço

14. Consideras que esta história é real ou imaginária? Porquê?

15. Por que razão se considera que o texto «Sábios Como Camelos» é uma narrativa?




As Aventuras de Ngunga

Ngunga tinha um princípio: se havia algum problema, ele preferia resolvê-lo logo. Deveria esperar que o Comandante o chamasse. Mas não esperou. Foi ele mesmo falar com o Comandante. Para quê ter medo? O Comandante Mavinga estava divertido com a conversa. Falou:
-És um rapaz esperto e corajoso. Por isso deves estudar. Chegou agora um professor que vai montar uma escola aqui perto. Deves ir lá. aprender a ler e a escrever. Não queres?
Ngunga ficou silencioso. Escola? Nunca vira. Ouvira falar, isso sim. Era um sítio onde tinha de se estar sempre sentado, a olhar para uns papéis escritos. Não devia ser bom.
-Prefiro ser guerrilheiro. Se não me querem aqui, então vou para outro sítio.
-Ngunga, tu és pequeno demais para ser guerrilheiro. Aqui já te disse que não podes ficar. Andar só, como fazes, não é bom. Um dia vai acontecer-te uma coisa má. E não estás a aprender nada.
-Como? Estou a ver novas terras, novos rios, novas pessoas. Oiço o que falam. Estou a aprender.
-Não é a mesma coisa. Numa escola aprendes mais. E assim vais conhecer o professor. Já viste um professor? Diz-me com que é que se parece um professor? Vais conhecer a escola. Eu parto amanhã e tu vais comigo.
Sem o saber, Mavinga encontrou o que podia convencer Ngunga. Com que é que se parecia um profes-sor? Sim, precisava de conhecer o professor. Se não gostasse da escola, o seu saquito era fácil de arru-mar. Vendo bem as coisas, não perdia nada em experimentar.
A escola era só uma cubata de capim para o professor e, numa sombra, alguns bancos de pau e uma mesa. Ngunga imaginara-a de outra maneira. Também o professor o surpreendeu. Julgava que ia encontrar um velho com cara séria. Afinal era um jovem, ainda mais novo que o Comandante, sorri-dente e falador. Esse aí sabia mesmo para ensinar aos outros?
Mavinga apresentou-o. Disse que ele não tinha família.
-Tem de ficar a viver aqui comigo! -disse o professor -Também já tenho o Chivuala, que veio comigo do Cuando. Os outros alunos são externos, vivem nos quimbos3 e vêm só receber aulas. Para estes dois, vai haver o problema da alimentação.
-Não há problema! -respondeu o Comandante -Vou falar com o povo. Quando derem comida para o camarada professor, acrescentam um pouco para os dois pioneiros. O Ngunga precisa de estudar, para não ser como nós. Se se portar mal avise-me. Estás a ouvir, Ngunga? Se não trabalhares bem, eu vou saber. E, se fugires da escola, eu encontrar-te-ei.
-Eu nunca fujo! -respondeu Ngunga.
-Quando quiser, digo que vou embora e vou mesmo. Não preciso de fugir como um porco-de-mato.
O professor riu.
-Espero então que não queiras ir embora. Vais ver como gostarás da escola.

Pepetela, As Aventuras de Ngunga



I

1. Procura dividir o texto em dois momentos e dá um título a cada uma das partes.
2. Caracteriza a personagem Ngunga em cada uma delas.
3. Qual o seu sonho?
4. É este o futuro que o Comandante pretende para ele?
4.1. Porquê?
5. Retira do texto as expressões que caracterizam a escola imaginada por Ngunga.
6. Essa escola está de acordo com a realidade que ele vai encontrar? Justifica.

10.12.08

Sobre sapatos e dores de alma



Sou do tempo (há anos que desejo escrever uma crónica que comece assim) em que para comprar um par de sapatos fazia falta alguma coragem. Naquela época todos os sapatos novos magoavam os pés e tínhamos de recorrer a artifícios vários, como calçar três pares de meias ou proteger os calcanhares com adesivos, para diminuir os estragos. No tempo do meu avô era ainda pior: um dos truques então em voga consistia em encher os sapatos com milho húmido de forma a que os grãos, ao germinarem, dilatassem e suavizassem o couro. Os jovens de hoje, dispensados deste tormento doméstico, esquecem-se que têm calcanhares - porque só nos lembramos daquilo que nos dói - e como Aquiles, o herói grego, julgam-se invulneráveis. Receio, assim, que a evolução da indústria dos sapatos tenha tornado a humanidade um pouco mais arrogante.
Não pretendo, é claro, defender a dor. Sei muito bem que há dores inúteis. As dores de cabeça, por exemplo, as dores de dentes, as cólicas menstruais. Apenas aqueles que já sofreram com uma enxaqueca sabem o que é não ter nunca dores de cabeça; quem nunca foi realmente infeliz não sabe o que é a felicidade. A aspirina merece sem dúvida os conhecidos versos de João Cabral de Melo Neto: "Claramente: o mais prático dos sóis, / o sol de um comprimido de aspirina: / de emprego fácil, portátil e barato, / compacto de sol na lápide sucinta. / Principalmente porque, sol artificial, / que nada limita a funcionar de dia, / que a noite não expulsa, cada noite, / sol imune às leis de meteorologia, / a toda a hora em que se necessita dele / levanta e vem (sempre num claro dia)".
É um facto, porém, que na maior parte das vezes só descobrimos a existência de certos órgãos internos, como o fígado ou os pulmões, quando eles, funcionando mal, se anunciam através da dor ou de algum pequeno desconforto. Existem, do mesmo modo, dores de alma que podem ajudar-nos a descobrir, nos limites de nós próprios, paisagens insuspeitas. Não tendo à mão uma aspirina, um sol portátil, capaz de iludir estas dores, o mais sensato é tentar usá-las a nosso favor; por exemplo, como sondas para melhor avaliar a natureza da nossa alma, dos seus abismos escuros, dos seus rios subterrâneos, das suas florestas estranhas e silenciosas. Exploradores de nós próprios, navegadores solitários, poderemos, quem sabe?, encontrar nesses lugares esquecidos novas e melhores razões para enfrentar a vida e voltar a sorrir. A dor, afinal, pode ser apenas o princípio da cura.

José Eduardo Agualusa, in revista X, 5 de Novembro de 2000



I

1. No primeiro parágrafo, o autor refere-se a três momentos temporais.
1.1. Identifica-os, copiando as expressões do texto que os situam.
1.2. Explicita a relação homem/sapatos novos em cada um desses momentos.

2. "Receio, assim, que a evolução da indústria dos sapatos tenha tornado a humanidade um pouco mais arrogante."
2.1. Substitui o vocábulo sublinhado por um sinónimo, tendo em conta o contexto.
2.2. Explica como é que o cronista chegou a esta conclusão.

3. "Não pretendo, é claro, defender a dor."
3.1. Destaca, no segundo parágrafo, os hipónimos do hiperónimo destacado.

4. Relê os versos de João Cabral de Melo Neto, dedicados à aspirina.
4.1. Qual a metáfora a que o poeta recorre para evidenciar as qualidades do referido medicamento?
4.2. Sinaliza a tripla adjectivação usada na caracterização deste medicamento.

5. Acabar com as "dores de alma" não é tão fácil como tomar uma aspirina para as dores de cabeça.
5.1. Qual é a solução que o cronista propõe, para estes casos?

6. O título desta crónica é, aparentemente, estranho. Justifica a pertinência da sua escolha.


II

1. Atenta no último parágrafo do texto.
1.1. Detecta neste parágrafo os seguintes mecanismos de coesão:
- termos e expressões que fazem referência à mesma realidade (palavras que apresentam, entre elas, uma relação semântica - sinónimos, hiperónimos e hipónimos);
- uso de conectores.


III

1. Há pequenas coisas que são, de facto, muito importantes na nossa vida. A aspirina, por exemplo. Ou o clip... Já pensaste como este pequeno objecto, aparentemente tão simples, facilita tanto algumas tarefas?
Na sequência deste raciocínio, pensa nas pequenas coisas da tua vida que, para ti, são funda-mentais. De seguida, escreve um pequeno texto - que tenha entre 100 e 130 palavras - exaltando as suas qualidades.



9.12.08

A princesa e o pastor



Em época recuada, existia, no lugar onde hoje fica a freguesia das Sete Cidades, um reino próspero e aí vivia uma princesa muito jovem, bela e bondosa, que crescia cada dia em tamanho, gentileza e formosura. A princesa adorava a vida campestre e frequentemente passeava pelos campos, deliciando-se com o murmurar das ribeiras ou com a beleza verdejante dos montes e vales.
Um dia, a princesa de lindos olhos azuis, durante o seu passeio, foi dar a um prado viçoso onde pastava um rebanho. À sombra da ramagem de uma árvore deparou com o pastor de olhos verdes. Falaram dos animais e de outras coisas simples, mas belas e ficaram logo apaixonados.
Nos dias e semanas seguintes encontraram-se sempre no mesmo local, à sombra da velha árvore e o amor foi crescendo de tal forma que trocaram juras de amor eterno.
Porém, a notícia dos encontros entre a princesa e o pastor chegou ao conhecimento do rei, que desejava ver a filha casada com um dos príncipes dos rei¬nos vizinhos e logo a proibiu de voltar a ver o pastor.
A princesa, sabendo que a palavra do rei não volta atrás, acatou a decisão, mas pediu que lhe permitisse mais um encontro com o pastor do vale. O rei acedeu ao pedido.
Encontraram-se pela última vez sob a sombra da velha árvore e falaram longamente do seu amor e da sua separação. Enquanto falavam, choravam e tanto choraram que as lágrimas dos olhos azuis da princesa foram caindo no chão e formaram uma lagoa azul. As lágrimas caídas dos olhos do pastor eram tantas e tão sentidas que formaram uma mansa lagoa de águas verdes, tão verdes como os seus olhos.
Separaram-se, mas as duas lagoas formadas por lágrimas ficaram para sempre unidas e são chamadas de Lagoas das Sete Cidades. Uma é a lagoa Azul, a outra é a lagoa Verde e em dias de sol as suas cores são mais intensas e reflectem o olhar brilhante da princesa e do pastor enamorados.

FURTADO-BRUM, Angela (rec.) -Açores, Lendas e Outras Histórias


I

1. Localiza a acção do texto no espaço.

2. Identifica as personagens intervenientes.
2.1. Caracteriza fisicamente as personagens que dão nome à lenda.
2.2. Explica a importância dessa caracterização para a compreensão do texto.

3. Divide o texto em momentos e atribui-lhes um título sugestivo.

4. Na lenda, misturam-se fantasia e realidade. Indica elementos desta lenda que correspondam a uma e outra dimensão.

5. Qual é a finalidade desta lenda?


II

1. Reescreve o primeiro parágrafo do texto, substituindo:
a. todos os verbos aí presentes por verbos sinónimos;
b. todos os adjectivos pelos seus antónimos (excepto os que caracterizam a princesa).

2. Identifica o intruso nas sequências seguintes e justifica.
a. lenda anedota adivinha relatório.
b. marítimo fluvial lacustre lacunar.
2.1. Escolhe uma palavra de cada série e constrói uma frase com cada uma.



6.12.08

Leandro, Rei da Helíria


1º ACTO

Cena I
Rei Leandro, Bobo

(No jardim do palácio real de Helíria. Rei Leandro passeia com o bobo)

REI: Estranho sonho tive esta noite... Muito estranho...
BOBO: Para isso mesmo se fizeram as noites, meu senhor! Para pensarmos coisas acertadas, temos os dias — e olha que bem compridos são!
REI: Não sabes o que dizes, bobo! São as noites, as noites é que nunca mais têm fim!
BOBO: Ai, senhor, as coisas que tu não sabes...
REI: Estás a chamar-me ignorante?
BOBO: Estou! Claro que estou! Como é possível que tu não saibas como são grandes os dias dos pobres, e como são rápidas as suas noites... Às vezes estou a dormir, parece que mal acabei de fechar os olhos — e já tocam os sinos para me levantar. A partir daí é uma dança maluca, escada acima escada abaixo: és tu que me chamas para te alegrar o peque no almoço; é Hortênsia que me chama porque acordou com vontade de chorar; é Amarílis que me chama porque não sabe se há-de rir se há-de chorar — e eu a correr de um lado para o outro, todo o santo dia, sempre a suspirar para que chegue a noite, sempre a suspirar para que se esqueçam de mim, por um minutinho que seja!, mas o dia é enorme, enorme!, o dia nunca mais acaba, e é então que eu penso que, se os reis soubessem destas coisas, deviam fazer um decreto qualquer que desse aos pobres como eu duas ou três horas a mais para...
REI (interrompendo): Cala-te!
BOBO: Pronto, estou calado.
REI: Não me interessam agora os teus pensamentos, o que tu achas ou deixas de achar. Eu estava a falar do meu sonho.
BOBO: Muito estranho tinha sido, era o que tu dizias...
REI: Nunca me interrompas quando eu estou a falar dos meus sonhos!
BOBO: Nunca, senhor!
REI: Nada há no mundo mais importante do que um sonho.
BOBO: Nada, senhor?
REI: Nada.
BOBO: Nem sequer um bom prato de favas com chouriço, quando a fome aperta? Nem sequer um lumezinho na lareira, quando o frio nos enregela os ossos?
REI: Não digas asneiras, que hoje não me apetece rir.
BOBO: Que foi que logo de manhã te pôs assim tão zangado com a vida? Já sei! O conselheiro andou outra vez a encher-te os ouvidos com as dívidas do reino!
REI: Deixa o conselheiro em paz... E o reino não tem dívidas, ouviste?
BOBO: Não é o que ele diz por aí, mas enfim... Então, se ainda por cima não deves nada a ninguém, por que estás assim tão maldisposto? Terá sido coisa que comeste e te fez mal? Aqui há dias comi um besugo estragado, deu-me volta às tripas, e olha...
REI (interrompendo-o): Cala-te que já não te posso ouvir! (Suspira) Ah, aquele sonho! Coisa estranha aquele sonho...
BOBO: Ora, meu senhor! E o que é um sonho? Sonhaste, está sonhado. Não adianta ficar a remoer.
REI: Abre bem esses ouvidos para aquilo que te vou dizer!
BOBO (com as mãos nas orelhas): Mais abertos não consigo!
REI: Os sonhos são recados dos deuses.
BOBO: E para que precisam os deuses de mandar recados? Estão lá tão longe...
REI: Por isso mesmo. Porque estão longe. Tão longe, que às vezes nos esquecemos que eles existem. É então que nos mandam recados. Mas os recados são difíceis de entender. Acordamos, queremos recordar tudo, e muitas vezes não conseguimos.
BOBO (aparte): É o que faz ser deus... Eu cá, quando quero mandar recado, é uma limpeza: «ó Brites, guarda-me aí o melhor naco de toucinho para a ceia!» (Ri)
Não preciso de mandar os meus recados pelos sonhos de ninguém!
REI: Que estás tu para aí a resmonear?
BOBO: Nada, senhor! Reflectia apenas nas tuas palavras.
REI: E bom é que nelas reflictas. Apesar de bobo, quem sabe se um dia não irão os deuses lembrar-se de mandar algum recado pelos teus sonhos... (Pára, de repente. Fica por momentos a olhar para o bobo, e depois pergunta, com ar muito intrigado) Ouve lá, tu também sonhas?

(Aqui a cena fica suspensa, e a luz centra-se apenas no bobo, que fala para os espectadores na plateia)

BOBO: Será que eu sonho? Será que eu choro? Será que é sangue igual ao deles o que me escorre das costas quando apanho chibatadas por alguma inconveniência que disse? Que sabem eles de mim? Nem sequer o meu nome eles conhecem. Pensam que já nasci assim, coberto de farrapos, e que «bobo» foi o nome que me deu minha mãe. (Pausa) Se é que eles sabem que eu tenho mãe, e pai, e que nasci igualzinho ao rei, ao conselheiro, a todos os nobres deste e doutros reinos. E quando um dia morrer¬mos e formos para debaixo da terra, tão morto estarei eu como qualquer deles.

(A acção recomeça onde estava)

BOBO (rindo): Não, meu senhor! Só os grandes fidalgos é que sonham! Nós somos uns pobres servos... Sonhar seria um luxo, um desperdício! De resto, que podiam os deuses querer deste pobre louco? Que recados teriam para lhe mandar?
REI: És capaz de ter razão... (Suspira) Nem sabes a sorte que tens!
BOBO (irónico): Sei sim, meu senhor! Sou uma pessoa cheia de sorte! Todas as manhãs, quando o frio me desperta e sinto o corpo quebrado de dormir na palha estendida no chão, então é que eu percebo como sou feliz...
REI: Zombas de mim?
BOBO: Zombar, eu, senhor? Zombar de quê, se as tuas palavras são o eco das minhas?
REI: Pareceu-me...
BOBO: Deve ter sido de teres acordado maldisposto por causa desse tal sonho.
REI: Ah, meu bobo fiel, como eu às vezes gostava de estar no teu lugar, sem preocupações, sem responsabilidades...
BOBO: E para já, senhor! Toma os meus farrapos e os meus guizos, e dá-me o teu manto, a tua coroa, o teu ceptro...
REI (agitado): Cala-te!... Era isso mesmo que se passava no sonho... A coroa... o manto... o ceptro... tudo no chão... eu a correr, mas sem poder sair do mesmo sítio... e a coroa sempre mais longe, mais longe... e o manto... e o ceptro... e as gargalhadas...
BOBO: Gargalhadas? Não me digas que eu também entrava no teu sonho?
REI (como se não o tivesse ouvido)... as gargalhadas delas... e como elas se riam... riam-se de mim... e a coroa tão longe... e o manto tão longe... e o frio... tanto frio que eu tinha!...
BOBO: Perdoa-me, senhor, mas isso são tolices, dizes coisas sem nexo... Foi alguma coisa que comeste ontem, tenho a certeza.
REI: Não são coisas sem nexo: são recados. Recados dos deuses. (Aproxima-se do bobo e diz-lhe ao ouvido) Tenho medo!
BOBO: Shiuu! NUNCA DIGAS ISSO! Já viste o que podia acontecer se os deuses te ouvis-sem? Se descobris¬sem que os reis também têm medo? Se descobrissem que os reis podem mesmo ficar a-pa-vo-ra-dos?
REI (afasta o bobo e retoma a sua dignidade real): Tens razão! Quem foi que aqui falou em medo? Eu sou o rei Leandro, senhor do reino de Helíria! Tenho um exército de homens armados para me defenderem. Tenho um conselheiro que sabe sempre o que há-de ser feito. Tenho espiões bem pagos, distribuídos por todos os rei¬nos vizinhos, que me informam do que pensam e fazem os meus inimigos...
BOBO: Tens inimigos, senhor?
REI: Claro que tenho inimigos. Para que serve um rei que não tem inimigos?
BOBO: Realmente não devia ter graça nenhuma. Eu cá, de cada vez que me armam uma cilada e acabo espancado no pelourinho, também digo sempre: «Ainda bem que tenho inimigos, ainda bem que tenho inimigos»... Se ninguém me batesse, se ninguém me cobrisse o corpo de pontapés, acho mesmo que era capaz de morrer de pasmo...
REI: Zombas de mim?
BOBO: Que ideia, senhor! Como posso zombar de ti, se penso como tu pensas?
REI: Parecia...
BOBO: É o que eu digo: efeitos desse maldito sonho. Por que não o esqueces de vez?
REI: Tens razão. Farei por esquecê-lo. Não tenho motivos nenhuns para estar inquieto. Ainda por cima... (com um sorriso enlevado) ainda por cima com estas flores que são a luz dos meus olhos! (Aponta para Hortênsia e Amarílis, que entram nesse momento, com as suas aias)



I

1. Quantos actores são necessários para representar esta cena? Que personagens representam?

2. Onde se encontram as personagens? Em que momento do dia?

3. Qual é o estado de espírito do Rei? Porquê?

4. Algumas das palavras do Bobo têm uma clara intenção crítica. Explica, por palavras tuas, as críticas do Bobo.
4.1. Por vezes, o Bobo recorre à ironia para exprimir as suas críticas. Exemplifica. (Recorda que a ironia consiste em afirmar o contrário daquilo que na verdade se pensa.)

5. Lê a seguinte lista das principais características do texto dramático:
a. É um texto para ser lido, mas que se destina a ser visto e ouvido, isto é. a ser representado para um público.
b. Precisamente porque se destina a ser representado, contém indicações cénicas (ou didascá-lias), descrevendo o cenário ou dando sugestões sobre o tom de voz, os gestos, as movimentações das personagens no palco. Estas indicações surgem entre parênteses e/ou em itálico.
c. O diálogo é o modo de expressão dominante, estando geralmente ausente a narração. Podem ainda surgir apartes e monólogos,
d. Normalmente, está dividido em actos e cenas.
5.1. Apresenta exemplos destas características neste excerto.

6. Se representasses este texto, que elementos não seriam ditos em voz alta?

7. Esclarece o significado de algumas palavras e expressões próprias da linguagem teatral: cenário; cenógrafo', luminotécnico', abrir do pano; boca de cena; bastidores.

8. Se fosses o responsável por desenhar o cenário para o palco, como o imaginarias?



Pescaria, Cecília Meireles

Pescaria



Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixes pelo ar.
E peixes no chão.

Chora a espuma pela areia,
na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
as mãos do mar pela areia
onde os peixes estão.

As mãos do mar vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
aos peixes no chão.

Por isso chora, na areia,
a espuma da maré cheia.

Cecília Meireles, Ou isto Ou Aquilo



I

1. Em que realidade o poema se inspira?

2. Ao longo do poema, vários sons se vão repetindo.
2.1. Sublinha o som/J/, na primeira estrofe.
2.2. Identifica 05 sons que mais se repetem na 3.a estrofe.
2.2.1 O que sugere a repetição desses sons?

3. «As mãos do mar vêm e vão» (est. 3, v. 1).
3.1. De acordo com o contexto, substitui a palavra sublinhada por outra.
3.2. Faz uma comparação a partir da frase transcrita.

4. Na 3.aestrofe,os 1 ° e 2° versos repetem-se na sua parte inicial. Relaciona essa repetição com o sentido dos versos.

5. Atenta nos dois últimos versos do poema: «Por isso chora, na areia, /a espuma da maré cheia.»
5.1. Classifica morfologicamente a expressão sublinhada.
5.2.0 que pensas da colocação dessa expressão na última estrofe do poema?
5.3. Explica o motivo por que chora a more cheia,
5.4. Identifica o recurso expressivo presente nos últimos dois versos.

6. Retira, do texto, as palavras que pertencem ao campo lexical de mar.

7. Relê a l ª e a 2ª estrofes.
7.1. Classifica a primeira estrofe, quanto ao número de versos.
7.2 Indica os tipos de rima utilizados na 1ª e na 2.a estrofes.


II

Partindo do poema «Pescaria», completa o texto seguinte.

Era uma vez um ____________ de ____________ . Alguns ______________ tinham caído na areia. As ondas do mar __________ e _____________areia acima, areia abaixo, a tentar apanhá-los, ____________ sem sucesso.
_____________, a espuma da _______________ ____________se pôs a ___________ na areia da praia.



5.12.08

Liberdade querida e suspirada



Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te e por gozar-te a face amena!
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada!

Vem, ó deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, ó consolação da Humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha!

Vem! Solta-me o grilhão da adversidade!
Dos Céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

Bocage, Sonetos


I

1. A ânsia de liberdade, expressa no poema, surge em contraste com a vivência do sujeito lírico no momento da escrita.
1.1. Quais os elementos do discurso, a nível morfológico, que põem em evidência essa ânsia pro¬funda de liberdade?
1.2. Indica os sentimentos vividos pelo sujeito poético nesse momento.
1.3. Qual a causa desses sentimentos?
1.4. Selecciona as expressões que melhor os revelam

2. Divide o texto em partes.

3. Predominam neste soneto duas funções da linguagem.
3.1. Indica-as.
3.2. Refere as marcas do discurso que documentam cada uma dessas funções.

4. O poema situa-se na transição do Neoclassicismo para o Romantismo.
4.1. Que elementos presentes no texto revelam os movimentos literários referidos?


II

"Para Elmano, amar seria a vocação, o destino e a cruz."
Jacinto do Prado Coelho
• Num texto de 12 a 15 linhas, comprova a afirmação acima transcrita, baseando-te nas leituras feitas.