29.11.08

Leandro, Rei da Helíria


-Acto II-
Cena IV

Bobo, Pastor, Rei Leandro


(A luz regressa à gruta)

BOBO: E foi assim que tudo aconteceu. Todos o abandonaram como se fosse um cão raivoso…
PASTOR: E…e a outra?
BOBO: Qual outra?
PASTOR: A do sal… (Ri) …«Como a comida quer ao sal» Não está má, não senhor…
BOBO: Ora…Sabemos lá onde se encontra, se é morta ou viva.
PASTOR: Cruzes, homem, a tempestade dá-te ideias negras.
BOBO: Foi nome que nunca mais pude pronunciar diante dele. (Aponta para o rei)
PASTOR: Não há dúvida que o velhote é de ressentimentos…Eu cá, já me têm feito muitas desfeitas, mas assim como vêm, assim vão, já nem me lembro delas!
BOBO: Mas tu não és rei.
PASTOR: Ser rei é assim tão diferente?
BOBO: Quando se tem a coroa na cabeça, é.
PASTOR: E nunca pensaste ir por aí fora, à procura da outra?
BOBO: Qual outra?!
PASTOR: Ai! A do sal!
BOBO: Para quê? Com muita mais razão nos fecharia as portas do seu reino. Pois não a expulsou ele um dia de casa? Pois não disse ele que a partir dessa altura, era como se ela nunca tivesse nascido?
PASTOR: Ora…Coisas que se dizem… Eu cá, se fosse a ti, tentava.
BOBO: Ele matava-me! E eu posso ser bobo mas não sou maluco! Quem faz este corpinho já não faz outro.
PASTOR: Ele não saberia de nada…Está cego… És tu que o conduzes…
BOBO: Ele está cego e tu estás doido! Sei lá por onde anda Violeta! Já tantos anos se passaram… Se a visse, de certeza que já nem a reconhecia. O que eu queria agora, mais que tudo, era poder encontrar um lugar para assentarmos de vez. O velho tem os pés em sangue, parece um farrapo, receio que não aguente nova caminhada.
PASTOR: Havias de gostar do meu reino…
REI (desperta): Em toda a parte há dor, ingratidão, miséria…

(Juntam-se os três no meio da gruta para se aquecerem à roda da fogueira)

PASTOR (muito baixinho): Havias de gostar do meu reino…

(Apagam-se as luzes)

Vieira, Alice, Leandro, Rei da Helíria,
5ª Edição, Lisboa, Caminho, 2004, pp.79-81



I

1. Quais as personagens que intervêm nesta cena?

2. Indica, justificando, o espaço no qual decorre a acção.

3. Identifica a quem se refere o Bobo quando diz todos e ele, na sua primeira fala.

4. O Bobo e o Pastor falam de uma personagem a quem chamam a outra.
4.1. Quem é esta personagem?
4.2. Por que razão o pastor se refere a ela como a do sal?
4.3. Qual o motivo para o rei não querer ouvir o seu nome?

5. O que sugere o Pastor ao Bobo?
5.1. O bobo aceita essa sugestão?
5.2. Que razões apresenta para justificar a sua posição?

6. Que descrição faz o Bobo do actual estado do Rei.

7. Atendendo ao conhecimento geral que tens da obra, apresenta uma interpretação para a última fala do Pastor.


II

De acordo com os conhecimentos que adquiriste acerca das características do texto dramático, completa as seguintes frases.

1) O texto dramático, ao nível da estrutura externa, divide-se em Actos que correspondem a mudanças no_____________ ou _____________ da acção.
2) Os Actos subdividem-se em ____________ que marcam a entrada e saída de ____________.
3) Todas as referências ao espaço, ao tempo e expressões ou gestos das personagens são cedidos atra-vés das ______________ também conhecidas por _______________.
4) O texto principal, constituído pelas falas das personagens, pode apresentar-se sob a forma de _____________, quando as personagens falam entre si, de____________, quando falam sozinhas, ou, ainda, sob a forma de _________ quando apenas a plateia se apercebe do que dizem.


III

Responde às questões que te são propostas de seguida.

1. Identifica os hiperónimos e os hipónimos presentes nas seguintes frases.
a) No centro da cidade podemos encontrar a cada esquina uma loja, seja uma sapataria, uma drogaria ou mesmo uma papelaria.
b) O mobiliário da sala reduzia-se a uma mesa redonda, seis cadeiras e um armário que fora herança de família.
c) Sonhei que era um pirata e que tinha encontrado um tesouro onde havia todo o tipo de jóias: anéis, colares, pulseiras e até coroas.

2. Esta situação não pode ser explicada: é inexplicável.
Observa o processo de formação da palavra inexplicável e distingue a palavra primitiva a partir da qual ela se formou e quais os elementos acrescentados.

3. Forma palavras cujo significado corresponda a cada uma das características seguintes:
a) não pode ser vencido
b) não pode ser batido
c) não pode ser compreendido
d) não pode ser pago
e) não pode ser parado

4. Observa as palavras que se seguem, todas formadas pelo mesmo processo. Faz corresponder cada uma delas ao sentido que se lhe deve atribuir.
A. Imutável
B. Irresolúvel
C. Indubitável
D. Inamovível
E. Irrepreensível

a) não se pode mover
b) não se pode repreender
c) não se pode mudar
d) não se pode duvidar
e) não se pode resolver


IV

O pior cego é aquele que não quer ver.

Redige um pequeno texto em que apresentes a tua opinião acerca da pertinência deste provérbio relativamente à história que é apresentada na peça Leandro, Rei da Helíria de Alice Vieira.

26.11.08

Natal



O Natal ia chegar dali a pouco tempo, mas o senhor Prior torcia as mãos sem saber o que fazer. Naquele ano não havia presépio para armar na igreja e ele estava preocupadíssimo com esse problema.
Tinha havido, sim, mas agora não havia.
Era um presépio muito pobre, e muitas das suas figurinhas de barro, com o andar dos tempos, foram-se perdendo, escangalhando, partindo... Mas, enfim, tinham ficado as principais: Nossa Senhora, S. José, o Menino, o burrinho e a vaca, o rei preto... (já só havia o rei preto).
Mas da última vez que se armara o presépio, estava o senhor Prior a arrumá-lo, cai-lhe o rei preto do cavalo e quebra a cabeça ! Ficou sem conserto. Depois, uma vez, apareceu um garotinho a pedir esmola. Pôs-se a olhar para o burrinho e para a vaca, ele que nunca tinha tido um brinquedo para brincar, e vai o senhor Prior deu-lhos. O garoto foi-se embora mais satisfeito do que antes !
Ficaram o Menino Jesus, Nossa Senhora e S. José; mas por pouco tempo. A Nossa Senhora e o S. José deu-os o senhor Prior de outra vez a uma menina que não tinha pai nem mãe.
E o Menino, esse, deu-o também para consolar uns pobres pais que já não tinham filho...
Era por tudo isto que naquele ano, pelo Natal, não ia haver presépio armado na igreja.


I

1. O narrador deste texto é participante, ou não participante?

2. Justifica a resposta que deste à pergunta anterior.

3. Que problema tinha o senhor Prior naquele ano?

4. Qual era o motivo daquela situação?

5. Faz o retrato psicológico do senhor Prior.

6. Escreve uma pequena continuação da história (mas que acabe bem...).

7. Diz se cada uma das palavras seguintes é aguda, grave ou esdrúxula:
presépio:
preocupadíssimo:
Natal:
figurinhas:
preto: Prior:

8. Coloca os acentos necessários nas palavras seguintes:

RAIZ LUIS NUVEM PERU SAIDA AMAVELMENTE

PASSARO CANSADO PERIGOSO PRINCESA ALGUEM SAUDE HEROI

9. Escreve o adjectivo BELO nos graus:

- Superlativo absoluto analítico
- Comparativo de superioridade
- Superlativo relativo de inferioridade
- Normal
- Superlativo absoluto sintético

21.11.08

Crónica de D. João I - Cap. 11




(...) Soarom as vozes do arruido pela cidade ouvindo todos braadar que matavom o i escusar-evitar Meestre; e assi como viúva que rei nom tinha, e como se lhe este ficara em logo de minguava-(aliava marido, se moveram iodos com mão armada, correndo a pressa pêra u deziam que se britassem- arrombassem esto fazia, por lhe darem vida e escusar' morte. Alvoro Paaez nom quedava d'ir pêra 'aleivosa -adúltera e perversa (traidor = ala, braadando a todos: Conde Andeiro; aleivosa = Leonor
- Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por quê! Teles) A geme começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. * doestos -injúrias Nom cabiam pelas ruas principaes, e atravessavom legares escusos, desejando cada uíi de seer o primeiro: e preguntando uns aos outros quem matava o Meestre, nom minguava2 quem responder que o matava o Conde Joam Fernandez, per mandado da Rainha.
E per voontade de Deos todos feilos duïï coraçom com (alento de o vingar, como forom aas porias do Paaço que eram já çarradas, ante que chegassem, com espantosas palavras começarom de dizer:
- U matom o Meestre? que é do Meestre? quem çarrou estas portas?
Ali eram ouvidos braados de desvairadas maneiras. Taes i havia que certificavom que o Meestre era mono, pois as porias estavom çarradas, dizendo que as britassem pêra entrar dentro, e veeriam que era do Meesire, ou que cousa era aquela.
Deles braadavom por lenha, e que veesse lume pêra poerem fogo aos Paaços, e queimar o traidor e a aleivosa4. Outros se aficavom pedindo escaadas pêra sobir acima, pêra veerem que era do Meestre; e em todo isto era o arruido atam grande que se nom entendiam uns com os outros, nem detemiinavom neüa cousa. E nom soomente era isto aã porta dos Paaços, mas ainda arredor deles per u homées e mulheres podiam estar. Uas viinham com feixes de lenha, outras tragiam carqueija pêra acender o fogo cuidando queimar o muro dos Paaços com ela, dizendo muitos doestoss contra a Rainha.
De cima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo. e o Conde Joam Fernandez morto; mas isto nom queria neuu creer, dizendo:
- Pois se vivo é, mostrae-no-lo e vee-lo-emos.
Entom os do Meestre veendo iam grande alvoroço como este, e que cada vez se acendia mais, disserom que fosse sua mercee de se mostrar aaquelas gentes, doutra guisa poderiam quebrar as portas, ou lhe poer o fogo, e entrando assi dentro per força, nom lhe poderiam depois tolher de fazer O que quisessem.
(...) E sem dúvida se eles entrarem deniro, nom se escusara a Rainha de morte, e fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Meestre estava aã janela, e todos oolhavom contra ele dizendo:
- Ó Senhor! como vos quiseram matar per treiçom, beento seja Deos que vos guaru desse treedor! Viinde-vos, dai ao demo esses Paaços, nom sejaes aí mais. E em dizendo esto, muitos choravom com prazer de o veer vivo.

Fernão Lopes, Crónica de D. João I, cap. 11



I

Depois de uma leitura cuidada do excerto da Crónica de D. João l, desenvolva os seguintes tópicos de análise:
«A sequência discursiva.
«As marcas de emotividade.
«As reacções do povo e o amor patriótico que revelam.
• As sensações visuais e auditivas da descrição.
«A linguagem e o estilo.


II

Num breve apontamento, não excedendo o limite de 10 linhas, mostre como Fernão Lopes tentou relatar objectivamente a verdade, embora nem sempre o tenha conseguido.


III

Comente a seguinte afirmação de Alexandre Herculano:
"Fernão Lopes adivinhou os princípios da moderna história: a vida dos tempos de que escreveu transmitiu-a à posteridade, e não, como outros fizeram, somente um esqueleto de sucessos políticos e de nomes célebres. Nas crónicas de Fernão Lopes não há só história: há poesia e drama; há a Idade Média com sua fé, seu entusiasmo ou amor de glória."

Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga

Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti sòmente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade
Quero fartar o meu coração de horrores.

Bocage


I

1. Procura explicar o estado de espírito que o sujeito poético manifesta.

2. O que é que está na origem desse estado de espírito?

3. Que significado tem a noite para o sujeito poético?

4. Explica o sentido das expressões seguintes:
a) ”retrato da morte” (1º verso)
b) ”cortesãos da escuridade” (9º verso)

5. Transcreve do texto, explicando-a, uma metáfora.

6. Faz uma divisão do soneto em partes, quanto ao seu sentido.

7. Indica, explicando, as características românticas que encontras neste soneto de Bocage.


II

1. Análise sintáctica:
a) Função de “Ó retrato da morte!” (1º verso)
b) Função de “de meus desgostos” (4º verso)
c) C. Directo de “diga” (5º verso)
d) C. Indirecto de “diga” (5º verso)
e) Sujeito de “manda” (5º verso)





16.11.08

O Largo

1. O título deste conto faz-nos pensar, desde logo, no privilégio dado pelo narrador à natureza do espaço.
1.1 Como caracterizas o espaço físico e social deste conto?
1.2 Os espaços são alterados, ou mantêm-se uniformemente? Justifica.

2. Como sabes, não podemos pensar o espaço sem o correlacionarmos com o tempo.
2.1 Quais os momentos elucidativos da dicotomia passado/presente?
2.2 Que formas verbais e outras palavras reflectem esta ruptura?
2.3 Relaciona esta dicotomia com a do espaço. Que concluis?

3. Para poderes visualizar melhor a dialéctica entre o "antigamente" e o "hoje" ao nível do espaço e do tempo, preenche o esquema seguinte com os principais dados textuais.

Antigamente --------------Hoje
. Espaço
. Tempo


4. Já verificaste que neste conto há duas estruturas sociais diferentes no tempo.
4.1 Que elemento veio modificar a primeira estrutura?
4.2 Como definirias o modo social de viver antes da vinda do comboio?
4.3 Que modificações se operaram após a sua vinda?
4.4 Por outro lado, o que é que permanece?

5. Dado que o comboio, pela sua natureza sócio-económica, se opõe, aqui, à estrutura agrária da comunidade, que é que ele pode simbolizar?

6. A modernização da vida do Largo imposta pela técnica trouxe vantagens ou desvantagens? Justifica.

7. "E alguma coisa está acontecendo na terra, alguma coisa de terrível e desejado está acontecendo em toda a parte."'
7.1 Em face da resposta à pergunta 6., como interpretas os adjectivos "terrível" e "desejado"?
7.2 Repara nesta frase final da citação: "...está acontecendo em toda a parte." Achas que a problemática deste conto se circunscreve a uma região específica ou poderá respeitar a todo o país? Justifica a tua opinião.





14.11.08

O Largo



I

Após uma leitura atenta do conto, procura analisá-lo desenvolvendo os seguintes aspectos:
1.1. Elementos caracterizadores do espaço físico.
1.2. Alterações verificadas.
1.3. Agentes responsáveis pela alteração.
1.4. O Largo como elemento criador de espaço psicológico e de espaço socio-económico.
1.5. Dicotomia passado / presente.
1.6. Vantagens e desvantagens da modernização do Largo.
1.7. Repercussões da modernização do Largo na vida das mulheres, das crianças e dos homens.
1.8. Caracterização do João Gadunha.
1.9. Simbolismo dessa personagem.



II

«(...) Manuel da Fonseca, numa prosa viva e plástica, preocupado com a pintura da miséria e com as marés de descontentamento, mas também com o latejar múltiplo dos burgos, em que a vida flui sob os mais diversos aspectos, e com a poesia picaresca das infâncias e das adolescências ao ar livre (...)» explora literariamente a realidade social da população alentejana.

Comenta a afirmação de Urbano Tavares Rodrigues, com base em elementos retirados do conto.

8.11.08

O Vagabundo na Esplanada


[Esplanada.jpg]

A surpresa, de mistura com um indefinido receio e o imediato desejo de mais acautelada perspectiva de observação, levava os transeuntes a afastarem-se de esguelha para os lados do passeio.
Pela clareira que se abria, o vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha, despreocupadamente, avenida abaixo.
Cerca de cinquenta anos, atarracado, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisola interior, o casaco puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada, aba às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta.
Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade.
Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade.
Alheado, mas condescendente, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação mas também pelos simples motivo de ter mais e melhor em que pensar.
O que sucedia aos transeuntes. Os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos, da deambulante causa do seu espanto. E à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em quaisquer circunstâncias e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos de prepotências, sempre humilhados e sempre a fingir que nada disso lhes acontecia.
Num instante, embora se desconhecessem, aliviava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos, do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fomes que o homem havia de sofrer. No entanto alguém disse:
- Devia ser proibido que indivíduos destes andassem pela cidade.
E assim resmungando, se dispersavam, cada um às suas obrigações, aos seus problemas.
Sem dar por tal, o homem seguia adiante.
Junto dos Restauradores, a esplanada atraiu-lhe a atenção. De cabeça inclinada para trás, pálpebra baixas, catou pelos bolsos umas tantas moedas, que pôs na palma da mão. Com o dedo esticado, separou-as, contando-as conscienciosamente. Aguardou o sinal de passagem, e saiu da sombra dos prédios para o sol da tarde quente de Verão. A meio da esplanada havia uma mesa livre. Com p à-vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se.
Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pelas soalheiras um sorriso de bem-estar.
Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação.
Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem apanhou-a, abriu-a. Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler.
O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando os olhos, como se gritassem: “Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!” Nas caras, descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada.
Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sob o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
- Não pode…
E calou-se. O homem olhava-o com benevolência.
- Disse?
- É reservado o direito de admissão – tornou o rapaz, hesitando. – Está além escrito.
Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera atracção, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:
- Que direito vem a ser esse?
- Bem…-volveu o empregado. – A gerência não admite… Não podem vir aqui certas pessoas.
- E é a mim que vem dizer isso?
O homem estava deveras surpreendido. Encolhendo os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada pelas caras dos circunstantes. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe.
- Talvez que a gerência tenha razão – concluiu ele, em tom baixo e magoado. – Aqui para nós, também me não parecem lá grande coisa.
O empregado nem podia falar.
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente:
- Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim, não me importo.

Manuel da Fonseca, Tempo de Solidão

I

1. Delimita os momentos determinantes na acção.
1.1. Sintetiza o conteúdo de cada um deles.
1.2 Comenta o desfecho.

2. Identifica o espaço e o tempo em que a acção decorre.
2.1. Caracteriza o espaço físico e social.

3. Identifica as personagens do conto, agrupando-as segundo o papel que desempenham na acção.
3.1. Faz o retrato físico e psicológico da personagem principal.

4. Caracteriza o estatuto do narrador.

5. Destaca um momento narrativo e um excerto descritivo.

6. Selecciona dois recursos estilísticos e explica-os.

II

Elabora uma reflexão sobre o tema deste conto de Manuel da Fonseca.

7.11.08

Meu senhor arcebispo, and'eu escomungado

Meu senhor arcebispo, and'eu escomungado,
porque fiz lealdade; enganou-m'i o pecado.
Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Se traiçon fezesse, nunca vo-lo diria;
mais, pois fiz lealdade, vel por Sancta Maria,
soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per mia malaventura tive um castelo en Sousa
e dei-o a seu don', e tenho que fiz gran cousa:
Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per meus negros pecados, tive un castelo forte
e dei-o a seu don', e ei medo da morte.
Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.


Diego Pezelho, CV 1124, CBN 1592



I

1. Identifique o emissor e o receptor da cantiga que acabou de ler.

2. Que papel desempenha o arcebispo na questão levantada pelo trovador?

3. O poeta identifica-se com o alcaide do castelo? Porquê?

4. Que causas lavaram à excomunhão do alcaide?

5. Classifique esta cantiga quanto ao género em que está inserida, justificando.

6. Comente o valor expressivo da ironia, retirando dois exemplos do texto.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de António José Saraiva e Óscar Lopes:

«É indiferente que o autor (das cantigas de escárnio e maldizer) seja um jogral vilão, um fidalgo, um clérigo ou mesmo um rei: todos fraternizam na mesma convivência e se ocupam dos mesmos mexericos, na mesma linguagem, em que o termo obsceno nos surpreende pela naturalidade (e actualidade) do seu uso.»





5.11.08

Flores Velhas

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um vôo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado ?s luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibraç?es, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me ? memória idílios imortais.

Diziam-me que tu, no flórido passado,
Detinhas sobre mim, ao pé daquelas rosas,
Aquele teu olhar moroso e delicado,
Que fala de langor e de emoç?es mimosas;

E, ó pálida Clarisse, ó alma ardente e pura,
Que n?o me desgostou nem uma vez sequer,
Eu n?o sabia haurir do cálix da ventura
O néctar que nos vem dos mimos da mulher.

Falou-me tudo, tudo, em tons comovedores,
Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
As falas quase irm?s do vento com as flores
E a mole exalação das várzeas recendentes.

(…)

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...

Eu, por não ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

E tudo enfim passou, passou como uma pena
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavais,
E aquela doce vida, aquela vida amena,
Ah! Nunca mais virá, meu lírio, nunca mais!

(…)

[picnic.JPG]


I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:

1. Determine o tema/assunto e relacione-o com o título.
1.1. Faça salientar o valor aspectual de alguns elementos linguísticos interligados com o tema.

2. Descubra os três momentos vividos pelo sujeito poético relacionados também com a amada.

3. Associe as várias imagens com o "jardinzinho agreste" (v. 1) e, por elas, explicite a experiência idílica do amor.

4. Justifique a evolução do percurso eu-tu-nós.

5. Refira as acusações que contribuem para a autocaracterização do sujeito poético.


II

Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a citação a seguir transcrita, com base em leituras sobre a poesia de Cesário Verde e sobre o contexto literário que o envolve.
«A organização mais característica dos seus poemas [Cesário Verde] é precisamente a narrativa de passeios aparentemente casuais em que um observador vai registando o ambiente mutável e miscelâneo que se lhe depara.»

Hélder Macedo, Nós - Uma leitura de Cesário Verde


III

Resuma o excerto seguinte, constituído por trezentas e setenta e quatro palavras, num texto de cento e quinze a cento e trinta e cinco palavras.


Cesário Verde e o mito de Anteu

esperar de aqui uma sábia pesquisa sobre a presença desse gigante nos versos de Cesário: em ter¬mos de expressão discursiva, o seu nome nem sequer é mencionado, e nada permite pensar que algum dia o poeta se tenha identificado conscientemente com Há títulos que são, ao mesmo tempo, demasiado explícitos e demasiado enganadores. Parece-me o caso do que escolhi para esta breve intervenção: Cesário Verde e o mito de Anteu. Demasiado explícito, com efeito, porque quem se lembrar da figura mitológica e tiver praticado um pouco c poeta, adivinhará de antemão onde eu quero chegar; e demasiado enganador, porque será vãoAnteu. O adjectivo «hercúleo», que aparece mais de uma vez nos seus textos (para caracterizar as varinas, por exemplo), nada tem a ver com o desfecho da lenda, em que Hércules vence Anteu, soerguendo-o da terra e impedindo-o assim de recobrar as forças. É sabido, de resto, que as marcas eruditas escasseiam na obra de Cesário Verde, cuja cultura é sobretudo tributária de informação jornalística ou de tertúlias. E quando por acaso emergem, o poeta não se coíbe de, metaforicamente ou não, extrapolar ou mesmo inverter-lhes o sentido. As «áridas Messalinas» protagonizam o amor venal, e, ao arrepio da tradição bíblica, é o contacto com os cabelos da amada que vai dar ao amante «a força dum Sansão». É, pois, num outro registo que deveremos documentar a aproximação, e provar que não é de todo descabida.
A História do filho de Gaia, a quem bastava, para cobrar novo alento, tocar no solo, aponta para três sememas fundamentais, evidenciados nas respectivas funções narrativas: a exaustão dum vigor com-bativo inicial, o contacto com a terra-mãe e a consequente recuperação das forças. Ora os três motivos figuram inequivocamente no Livro de Cesário Verde, que os endossa subjectivamente na primeira pessoa do singular. Não vou levantar aqui a ociosa questão de saber se o eu, que tão insistentemente comparece nos enunciados poéticos desse volume, coincide ou não com o ser de carne e osso que os assinou. Salvo melhor opinião, e neste caso pelo menos, esse eu textual não é o dum ser de papel. O poeta interioriza o que sente, e é com os cinco sentidos dele e não de outrem que o faz.


Andrée Rocha, Temas de Literatura Portuguesa,
Ed. do Autor (pp. 125-126)

Anjo és


Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve a mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c'roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d'amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. – Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes – e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lágrima? – Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?

Almeida Garrett, Folhas Caídas, 1853



I

1. Explicite o significado da expressão «Anjo és tu, não és mulher».

2. O sujeito poético tem a certeza de que a sua amada é um anjo? Justifique a sua resposta.

3. Indique os atributos da mulher anjo.

4. Comente os seguintes versos: «Em nome de quem vieste? / Paz ou guerra me trouxeste / De Jeová ou Belzebu?».

5. Porque é que, a dada altura, o poeta chama à mulher amada «anjo maldito»?

6. Identifique dois recursos de estilo presentes no poema e justifique o seu valor expressivo.

7. Faça a análise da estrutura externa do poema.

8. Explique a formação das seguintes palavras: Anuviada e ondear.


II

Tendo em conta a corrente literária em que se insere Almeida Garrett, exponha, num máximo de quinze linhas, as contradições vividas pelo poeta, relacionando-as com as contradições do homem actual.

4.11.08

A viagem





Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
10 O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
15 A revolta imensidão
Transforma o dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
20 O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga, Câmara Ardente




1. Tome como referência os versos entre parênteses (Versos 5 a 11).
Explique por palavras suas a intenção do sujeito lírico.
2. Retire do texto palavras/expressões do campo semântico de mar.
3. No poema mar é uma metáfora para a vida.
3.1.Qual o adjectivo que qualifica o mar na 1ª estrofe?
3.2. Explicite qual a relação que o sujeito lírico procura estabelecer na dualidade Mar/Vida.
3.3. Que figura de estilo se evidencia nessa dualidade Mar/Vida?
4. Comente a expressividade do uso da palavra longe no verso:
Era longe o meu sonho (Verso 3)
5. Transcreva os verbos que traduzem a determinação e obstinação
do sujeito lírico em perseguir o sonho.
6. Explique o sentido do verso 13, tendo em consideração o sentido
conotativo de cais e paz tolhida.
7. Saliente as diversas adversidades que o sujeito lírico menciona ao longo do poema, antes de conseguir partir em busca do seu sonho.
8. Que atitude psicológica nos demonstra o sujeito lírico quando refere:
O que importa é partir, não é chegar
9. Qual o tema deste poema? Explique a sua opção.