30.10.08

15 Histórias de Natal

A noite sagrada



Era dia de Natal: toda a gente tinha ido para a Igreja, menos a avó e eu: julgo que estávamos os dois sozinhos em casa; não tínhamos podido acompanhar os outros, eu porque era muito novo, ela porque era muito velha, e ambos nos sentíamos tristes por não poder assistir à Missa do Galo nem ver as velas acesas.
E, como estávamos para ali sentados e solitários, a avó principiou a contar:
- Era uma vez um homem... - disse ela - que caminhava no meio da noite escura à procura de lume. Ia de porta em porta, batia a todas elas e dizia:
« Amigos, ajudai-me ! A minha mulher acaba de ter um menino, e preciso de lume para os aquecer, a ela e à criancinha. »
Mas a escuridão era profunda; todos dormiam; ninguém lhe respondeu. O homem prosseguiu o seu caminho. De súbito avistou uma luz que brilhava ao longe. Dirigiu-se para lá e viu que era uma fogueira acesa ao ar livre. Em volta dormiam carneiros brancos, e um velho pastor, agachado, guardava o rebanho.
Quando o homem que andava à procura de lume se aproximou dos carneiros, viu três grandes cães adormecidos ao pé do pastor. Acordaram os três e abriram as bocarras como se quisessem ladrar; mas nenhum som lhes saiu das gargantas. O homem reparou em que o pelo se lhes ouriçava, que os dentes afiados luziam muito brancos ao clarão da fogueira. E os três se atiraram a ele. Um ferrou-lhe os dentes numa perna, outro numa das mãos, o terceiro no pescoço; mas as queixadas e os dentes recusaram-se a morder, e o homem não sofreu qualquer ferimento.
Quis então aproximar-se da fogueira e levar o lume de que tinha necessidade, mas eram tantos os car-neiros, e deitados tão juntos, que não podia passar pelo meio deles. E teve de lhes passar por cima. Mas nenhum dos animais acordou ou se mexeu sequer.
Até àquele momento, eu escutara a minha avó sem a interromper, mas não me contive mais.
- Porquê, avó ? - Perguntei.
- Daqui a pouco o saberás.
E a avó continuou:
- Quando o homem chegou ao pé da fogueira, o pastor ergueu a cabeça. Era um velho carrancudo, mau, duro para com toda a gente. Assim que viu o desconhecido, agarrou no seu longo cajado pontiagudo e atirou-lhe com ele. O cajado voou direito ao homem, mas no instante em que ia atingi-lo desviou-se e foi cravar-se no chão.
Então o homem aproximou-se do pastor e disse:
« Amigo, ajuda-me e deixa-me levar um pouco de lume. A minha mulher acaba de ter um menino e preciso de os aquecer, a ela e à criancinha. »
O pastor teve vontade de recusar, mas lembrou-se dos cães que não tinham ladrado, dos carneiros que não tinham fugido, do cajado que não tinha querido bater, e sentiu um vago receio.
« Leva aquilo de que precisares », disse ele ao desconhecido.
A fogueira estava quase a apagar-se. Não havia nem ramos a arder, nem achas. Só um monte de brasas, mas o homem não tinha uma pá, nem nada onde pudesse levar as brasas ardentes. E ao ver isso, o pastor repetiu:
« Leva tudo o que quiseres. »
E alegrava-se com a ideia de que o homem não podia levar coisa alguma. Mas o homem curvou-se, afastou as cinzas, e com as mãos tirou algumas brasas vermelhas que deitou numa dobra do manto. E as brasas não lhe queimaram as mãos nem as roupas. Levou-as como se fossem maçãs ou avelãs.
Pela terceira vez a narradora foi interrompida:
- Avó, porque foi que os carvões não quiseram queimar o homem ?
- Já vais ver... - disse a avó. E continuou:
- Quando o pastor, que era um homem carrancudo e duro, viu aquelas coisas, começou a perguntar a si mesmo:
« Mas que noite será esta em que os cães não mordem, os carneiros não se espantam, em que o cajado não fere, em que o lume não queima ? » Chamou o desconhecido e perguntou-lhe:
« Que noite é esta em que até as coisas se mostram compadecidas ? »
O homem respondeu:
« Se tu não compreendes por ti próprio, não te posso dizer. »
E foi-se embora apressado, para aquecer a mulher e o menino.
Mas o pastor pensou que não devia perder de vista aquele homem até compreender o significado de tudo aquilo.
Levantou-se e seguiu-o.
Em breve o pastor viu que o homem nem sequer tinha uma choupana onde morar: a mulher e o menino estavam deitados ao fundo de uma gruta da montanha cujas paredes eram frias e nuas.
Pensou que o pobre inocentinho corria o risco de morrer de frio, e apesar de ser um homem duro, comoveu-se com semelhante miséria. Desenfiou o alforge do ombro, tirou dele uma pele de carneiro branca e macia e estendeu-a ao desconhecido, dizendo-lhe que deitasse o menino em cima dela.
No mesmo instante em que dava esta prova de bondade e de caridade, abriram-se-lhe os olhos; e viu aquilo que antes não fora capaz de ver, e compreendeu aquilo que não tinha podido compreender.
Viu em redor de si um círculo de anjos com asas de prata. Cada um deles tinha na mão um instrumento de música e todos cantavam em vozes claras e sonoras que naquela noite nascera o Salvador, que libertaria os homens dos seus pecados.
E compreendeu então que nessa noite as próprias coisas estavam tão cheias de alegria, que não queriam fazer mal a ninguém.
E não era apenas na gruta que havia anjos: via-os por toda a parte, sentados na encosta da montanha, ou a voarem pelo céu. Vinham também em grupos pelo caminho fora, e todos paravam para contemplar o Menino.
Quando a avó chegou àquele ponto da história, suspirou e disse:
- Mas aquilo que o pastor viu também nós podemos ver. Todos os anos, na noite de Natal, os anjos voam pelo céu, e só de nós depende vê-los ou não.
Depois, pousou-me a mão sobre a cabeça e acrescentou:
- Lembra-te disto, porque é tão verdade como estares a ver-me e eu estar a ver-te. O mais importante não são as iluminações nem as luzes. Não precisamos do Sol nem da Lua, mas apenas de olhos que saibam abrir-se ao esplendor de Deus.

Selma Lagerlof, in 15 Histórias de Natal
(adaptado)


Notas:
bocarras (vem de boca);
ouriçava (vem de ouriço);
luziam (vem de luz);
queixadas (vem de queixo);
carrancudo (mal encarado);
vago (leve, pequeno);
compadecidas (com pena);
choupana (cabana);
alforge (saco de trazer ao ombro);
sonoras (vem de som);
esplendor (brilho intenso).



I

1. No texto que acabaste de ler estão presentes duas narrativas (uma está metida dentro da outra). Distingue-as.

2. A avó é narrador e é personagem; devia, portanto, ser narrador participante. Mas não é. Porquê ?

3. É mais difícil fazer o retrato das personagens quando elas vão mudando. É o que acontece com o pastor deste texto.
a) Caracteriza-o, descrevendo, a partir da situação inicial, as alterações que sucedem no seu comportamento.
b) Diz qual foi o momento no qual se deu a grande mudança no comportamento desta personagem e explica qual foi a causa dessa transformação.

4. Identifica, justificando, os recursos de estilo presentes em cada uma das frases seguintes:
a) Os olhos dela brilhavam como dois sóis.
b) A D. Cecília tinha criado raízes na aldeia e já não queria voltar para Lisboa.
c) Aquelas nuvens escuras tinham mentido, porque afinal não choveu.
d) Aquela ideia foi a semente de uma grande mudança no seu modo de vida.

5. Diz a regra que motiva a acentuação gráfica de cada uma das palavras seguintes:
a) amável
b) obténs
c) saúde

6. Classifica morfologicamente (classe e subclasse) as palavras realçadas nas frases seguintes:
- Meu rei, desejo ser armado cavaleiro. A minha alegria e a vossa serão grandes quando isso acontecer.

29.10.08

Antes de Começar

I

A unidade que acabaste de estudar insere-se no género literário que designamos por Dramático.
1. Estabelece a distinção entre texto dramático e texto teatral.
2. Identifica as modalidades de texto dramático que conheces.
3. Completa as frases:
. O texto faz parte do género dramático porque………….
. Nesta peça, a didascália inicial é um texto secundário que nos dá informações sobre………

II

Recorda a leitura da peça de Almada Negreiros, Antes de Começar.

1. O título Antes de Começar tem a ver com um espectáculo anunciado.
1.1 Que espectáculo é anunciado?
1.2 A quem se destina tal espectáculo?

2. O diálogo que se desenrola ao longo de todo o texto só é possível porque se verificou determinada situação.
Que situação é essa?
Sobre que assuntos versa a "conversa”?

3. As personagens de Antes de Começar são dois bonecos.
3.1 Caracteriza a Boneca, a partir do seu comportamento e das opiniões emitidas pelo Boneco e
por ela própria.

4. Na parte final da peça faz-se uma reflexão sobre o papel que o "coração» desempenha na vida.
4.1. O que significa, neste contexto, a palavra "coração»?
4.2. Qual a importância que lhe é atribuída?



III

1. Substitui nas frases, o superlativo absoluto analítico pelo superlativo absoluto sintético.
a) O Boneco afirmou que a Boneca falava muito baixo.
b) O Homem e a sua mulher andavam muito desconfiados que os bonecos se mexiam.
c) Os Bonecos ficaram muito felizes por terem começado a falar um com o outro.
d) Os dois Bonecos ficaram muito amigos.
e) A Boneca julgava-se invulgarmente pequena.

2. Reescreve as frases, substituindo as palavras destacadas pelos pronomes que as substituem.
a) O Homem e sua mulher pensavam que os Bonecos podiam mexer os braços e as pernas.
b) O Homem deu os instrumentos aos filhos.
c) Os miúdos bateriam muitas palmas aos Bonecos se os vissem a falar sozinhos.
d) Os Bonecos gostariam de rever Ela.
e) Ela contará a história de amor dos Bonecos a mim e a ti.

3. Classifica morfologicamente "Shiu...!"

4. Classifica quanto ao tipo e quanto à forma a frase: "Tu também te mexes como as pessoas?!"

5. Coloca no discurso indirecto a frase: "Nunca te vi assim!..."




27.10.08

D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve o silêncio murmuro consigo
É o rumor dos pinhais.que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

Fernando Pessoa, Mensagem, Ed. Ática





I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:

1. Mencione os elementos textuais que caracterizam a figura histórica de D. Dinis.
1.1. Justifique a sua escolha.

2. Imbuído de espírito épico, o sujeito poético reflecte a posteriori sobre a empresa dos Descobrimentos.
2.1. Refira os elementos que, na perspectiva daquele, evidenciam o destino mítico de Portugal.
2.2. Justifique com duas figuras de estilo, cujo significado remeta para o cumprimento desse destino.

3. Comente a comparação em "É o rumor dos pinhais que, como um trigo/De Império [...]" (w. 4-5), enquadrando-a no contexto global do poema.
4. Explique o sentido metafórico-antitético dos binómios:
- arroio/oceano (w. 6 e 7);
- presente/futuro (v. 9).

5. Escreva, a partir de pinhal, uma família de palavras compreendendo, pelo menos, um nome, um adjectivo, um advérbio e um verbo.


II

Numa entrevista ao Jornal do Comércio e das Colónias (Junho de 1926), Fernando Pessoa afirmou:
«Não podendo Portugal ser potência militar, nem económica, nem cultural, pode contudo vir a ser uma potência criadora de civilização, pela construção do Quinto Império de que o sebastianismo seria a sua encarnação.»
Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a afirmação de Fernando Pes-soa, com base em leituras sobre o livro Mensagem e o contexto literário que o envolve.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e oitenta e três palavras, num texto de cento e dezoito a cento e trinta e oito palavras.


A Mensagem (1934-1935)

Sim, de empenhamento e de missão, de solitude e de voluntária ascese foi o melhor da vida de Fernando Pessoa. Uma entrega total, que não quis sofrer partilhas, cedências, diminuições de energia. A mesma razão do celibato que a Igreja ainda mantém para o seu sacerdócio, e que o poeta cumpriu, embora as suas «obediências» fossem outras...
«Emissário de um Rei desconhecido», escreveu no famoso poema, «Eu cumpro informes instru¬ções de além...» «Emissário», «missionário» e «asceta», Fernando Pessoa assumiu uma iniciação a que, como vimos, se refere em diversas ocasiões, cujos Mestres podemos considerar terem sido todos os grandes profetas, fundadores de religiões, filósofos ou iluminados, que escreveram e viveram no curso dos séculos esse Evangelho Eterno onde se compreendem e todavia se trans¬cendem os Sistemas Filosóficos, as Igrejas e as Religiões.
Tal a crença e tal o compromisso vital de Fernando Pessoa, ao transitar dos anos da juventude para os da maturidade.
E quando, destinalmente, a poucos meses de morrer, publicou Mensagem, obedecia ainda a esses miste-riosos Mestres desconhecidos, cumpria ainda uma missão que largamente o ultrapas¬sava como homem social e existencial.
Foram exaustivamente dissecadas as circunstâncias em que recebeu, pelo livro, um prémio literário do Secretariado da Propaganda Nacional, mas não aparentemente o primeiro prémio. Sabe-se, porque o próprio Fernando Pessoa o disse em carta a Adolfo Casais Monteiro, que não concorreu «com os olhos postos no prémio possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de maior», mas fundamentalmente por duas razões, a primeira humana e a segunda da ordem do transcendente. Quanto àquela, o poeta invoca o facto de essa faceta da sua personalidade não ter sido ainda suficientemente manifestada nas suas colaborações em revistas; quanto a esta, aponta a conveniência de tal faceta aparecer precisamente agora: «Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse (sou incapaz de premeditação), com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subsconsciente nacional.» E acrescenta: «O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, em Esquadria e Compasso, pelo grande Arquitecto...»
Palavras que, sendo obscuras decerto para muitos, não deixam por isso de ser claras quanto às convicções do poeta. Convicções perante as quais o recebimento ou não recebimento do prémio seria obviamente uma questão secundária. E assim foi.

António Quadros, Fernando Pessoa: Vida, personalidade e génio,
Publ. Dom Quixote (pp. 51-52)

24.10.08

Auto da Barca do Inferno: global



Depois da leitura atenta das cenas do Auto da Barca do Inferno, responde com clareza e correcção às seguintes questões

I

1. Identifica as personagens-tipo destas cenas.
1.1 Diz quais são os argumentos que elas apresentam perante o Diabo.
1.2 Explica de que modo os símbolos que as acompanham contribuem para a sua caracterização.
2. Aponta a crítica que Gil Vicente pretende fazer através da personagem do Frade.
3. Na cena do Frade, Gil Vicente recorreu ao cómico. Justifica esta afirmação, indicando os tipos de cómico presentes.
4. Caracteriza a linguagem utilizada por cada uma das personagens-tipo.


II

Considerando, agora, a obra "Auto da Barca do Inferno" responde às seguintes questões.

1. Justifica por que motivo Gil Vicente designou esta peça por Auto da Moralidade, e diz qual a cena que melhor ilustra esta denominação.

2. Identifica as figuras de estilo presentes nas seguintes expressões:
"Vai pera a ilha perdida"
"Quê, quê, quê?... Assi lhe vai?"
"Santo sapateiro honrado"
"Devoto padre marido"

3. Diz qual foi a cena que mais te agradou desta obra. Justifica a tua escolha, e faz um resumo dessa cena. Escolhe um ditado popular que melhor descreva a moral nela contida.

4. Na cena do Judeu, Gil Vicente exagera sobretudo dois traços na caracterização desta perso-nagens. Quais?

5. Considera as personagens do Corregedor e do Procurador. Indica os símbolos caracterizadores dessas personagens e explica a finalidade com que são usadas na obra.






19.10.08

Madrigal a uma crueldade formosa

A minha bela ingrata
Cabelo de ouro tem, fronte de prata,
De bronze o coração, de aço o peito;
São os olhos luzentes
(Por quem choro e suspiro,
Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito),
Celestial safira;
Os beiços são rubis, perlas os dentes;
A lustrosa garganta
De mármore polido;
A mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas,
Para igualar desdéns aformosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras?

Jerónimo Baía


I

Analise o poema desenvolvendo os seguintes aspectos:
• Caracterização da mulher.
• Demonstração do carácter artificial e estereotipado deste retrato feminino.
• Elaboração de um esquema que ponha em confronto os elementos da descrição e o metal ou a pedra preciosa a que são comparados.
• Levantamento das oposições e das repetições.


II

Num breve apontamento, não excedendo o limite de 10 linhas, justifique a seguinte afirmação de Hernâni Cidade:
"Cultismo e conceptismo são duas expressões de um conceito de poesia fundamentalmente idêntico, a mesma atitude fundamental, que toda a reduz a uma actividade puramente lúdica."


III

Com base nos textos estudados, desenvolva as ideias contidas na seguinte afirmação:

"Os elementos da arte barroca são essencialmente os mesmos da arte renascentista. Mas é diferente o modo como o poeta ou o artista deles se servem por ser diferente o sentimento estético que exprimem. (...) O poeta seiscentista sobrecarrega o verso de elementos pictóricos e musicais, por vezes para suprir a escassez temática, ou com intuito meramente decorativo."

A. Correia de A. Oliveira, Prefácio de As Segundas Três Musas



18.10.08

Canto IV, est.84-91

84
«E já no porto da ínclita Ulisseia,
Cum alvoroço nobre e cum desejo
(Onde o licor mistura e branca areia
Co salgado Neptuno o doce Tejo)
As naus prestes estão; e não refreia
Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente marítima e a de Marte
Estão pera seguir-me a toda a parte,

85
«Pelas praias vestidos os soldados
De várias cores vêm e várias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Pera buscar do mundo novas partes.
Nas fortes naus os ventos sossegados
Ondeiam os aéreos estandartes;
Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.

86
«Despois de aparelhados, desta sorte,
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhámos a alma pera a morte,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Pera o sumo Poder, que a etérea Corte
Sustenta só co a vista veneranda,
Implorámos favor que nos guiasse
E que nossos começos aspirasse.

87
«Partimo-nos assi do santo templo
Que nas praias do mar está assentado,
Que o nome tem da terra, pera exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dúvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.

88
«A gente da cidade, aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saüdosos na vista e descontentes.
E nós, co a virtuosa companhia
De mil Religiosos diligentes,
Em procissão solene, a Deus orando,
Pera os batéis viemos caminhando.

89
«Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.

90
«Qual vai dizendo: – «Ó filho, a quem eu tinha
Só pera refrigério e doce emparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, o filho caro,
A fazer o funéreo encerramento
Onde sejas de pexes mantimento?»

91
«Qual em cabelo: – «Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?»

Canto IV


I

1. Este episódio corresponde ao início da viagem de Vasco da Gama à Índia. Como justificas que esteja colocado só no final do Canto IV?

2. Em que consistem os preparativos que os marinheiros fazem para a viagem?

3. Repara no início da estrofe D. Qual é o espaço onde decorre a acção aí narrada?

4. Identifica a figura de estilo utilizada para referenciar esse espaço, e explica em que consiste.

5. As personagens intervenientes formam dois grupos: aqueles que ficam e aqueles que partem. Resume as atitudes e sentimentos de ambos.

6. Que sente o narrador no momento em que conta este episódio?

7. Classifica morfologicamente as palavras a negro no texto.

8. Nomeia e descreve os processos fonéticos presentes:

a) FLAMA > CHAMA
b) EPISCOPU > BISPO
c) DAT > DÁ
d) NOSTRU > NOSSO

9. Divide e classifica as orações:

a) Parece-me que estás com sono.
b) Embora estivesse calor, não bebeu nem pediu sombra.
c) O livro que me deste é excelente.

17.10.08

Canto V, est 37-42

37 Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
os mares nunca de outrem navegados,
prosperamente os ventos assoprando,
Quando ua noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Ua nuvem, que nos ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

38 Tão temerosa vinha e tão carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo, o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
“Ó Potestade (disse) sublimada,
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?”

39 Não acabava, quando ua figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

40 Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo,
C’um tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo,
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

41 E disse: “Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho;

42 Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do húmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo o largo mar e pela terra
Que inda hás-de subjugar com dura guerra.


I

1. Diga qual é o episódio aqui apresentado e situe-o na estrutura do poema.

2. Aponte neste excerto algumas características de uma epopeia.

3. Faça a caracterização física e psicológica do emissor do discurso.

4. Dê exemplos de três figuras de estilo empregues na caracterização desta figura.

5. A quem se destina o discurso proferido e qual o seu objectivo?

6. Este é um episódio simbólico. Justifique esta afirmação.





15.10.08

Adeus

Hebergeur d'images


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo; meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro (1950)


I

Analise o poema, tendo em conta:
• a oposição passado/presente (o pretérito imperfeito - tempo do amor; o pretérito perfeito – tempo da destruição; o presente - tempo da constatação do vazio, do «adeus»):
• o amor e a palavra (o passado-tempo das metáforas; o presente - tempo das «palavras gastas», do silêncio);
• o amor e o milagre da dádiva;
• o amor e o milagre da transfiguração;
• os recursos estilísticos: as anáforas; as metáforas (o campo semântico de água);
• a estrutura formal: liberdade do verso e da organização estrófica, ausência de rima.

11.10.08

Senhora, partem tão tristes



Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo-Branco, Cancioneiro Geral



1. Identifique o sujeito lírico da composição fazendo a sua caracterização.
1.1. Explicite o seu estado psicológico.
1.2. Diga quais os motivos que estão na sua base.

2. Identifique o objecto lírico e faça a sua caracterização a partir de expressões textuais.
2.1. Qual o recurso utilizado para o referir?
2.2. Relacione a presença do vocativo " Senhora " com a atitude do sujeito lírico.

3. Refira o vocábulo que constitui o pólo semântico do poema.
3.1. Justifique o seu uso.
3.2. A que recurso (s) está ele associado?

4. Explique o sentido da expressão " tam fora d’esperar bem ".

5. Caracterize a composição a nível formal, justificando devidamente a sua resposta.

7.10.08

O Parvo


I

1. Depois de ter feito entrar em cena Dom Anrique e o Onzeneiro, Gil Vicente faz entrar uma terceira: um Parvo.
1.1. Em teu entender o que é um Parvo?
1.2. Que pretenderia Gil Vicente com a inclusão, neste Auto, dessa personagem?

2. Há um ditado que diz assim: «Ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão por baixo.»
Talvez se pudesse dizer o mesmo do Parvo. De resto, não é verdade que de «sábio e louco todos temos um pouco»?
2.1. Que irá passar-se afinal? Tendo em conta estes sentimentos populares, crês que também o Parvo acabará por condenar-se ou, pelo contrário, irá entrar na Barca da Glória?
2.2. Que tipo de argumentos prevês venham a ser usados pelo Parvo, pelo Anjo e pelo Diabo?

II

1. Lê o texto, procurando estar atento aos seguintes aspectos:
1.1 Caracterização do Parvo.
1.2 Elementos alegóricos a destacar nesta cena (se é que os há).
1.3 Registos de linguagem utilizados pelo Parvo (procura caracerizar essa linguagem).

2. Na parte final do Auto, o Anjo não convida o Parvo a entrar na barca, mas diz-lhe:

Espera entanto por i; veremos se vem alguém merecedor de tal bem que deva entrar aqui.

2.1. Apesar de reconhecer a "simpreza" do Parvo, o Anjo fá-lo esperar. Pensas haver alguma relação entre esta decisão do Anjo com o conceito cristão de purgatório? Justifica a tua resposta.

3. A inclusão da figura de um parvo no Auto não terá sido um mero acaso. Sabendo o que os latinos diziam da comédia «ridendo castigat mores», isto é, (a rir se castigam os costumes), vejamos...
3.1. Como é que Gil Vicente o consegue neste caso?
3.2. Que «mores», que costumes são aqui censurados?

4. Concordas com o desfecho que o Autor encontrou para o Parvo? Justifica a tua posição.

III

1. A série de insultos, de pragas, de expressões obscenas usadas pelo Parvo funcionam como elemento cómico, com o fim de fazer rir, pelo «descaramento» e «simpreza» de quem as diz.
1.1 Que registo de linguagem te parece essa que caracteriza uma parte significativa da intervenção do Parvo?
1.2. «É carnaval, ninguém leva a mal!» - ouve-se frequentemente. Como explicas que também ao Parvo ninguém tenha levado a mal a sua linguagem?
1.3. Em que termos é que o Anjo o desculpa?


4.10.08

Maria Peres, a nossa cruzada


Maria Peres, a nossa cruzada
quando veo da terra d'Ultramar,
assi veo de pardom carregada
que se nom podia com ele merger;
mais furtam-lh'o, cada u vai maer,
e do perdom já nom lhi ficou nada.

E o perdom é cousa mui preçada
e que se devia muit'a guardar;
mais ela nom á maeta' ferrada
em que o guarde, nena pod'aver,
ca pois o cadead'em foi perder,
sempr'e a maeta andou descadeada.

Tal maeta como sera guardada,
pois rapazes albergam no logar.
que nom aja seer mui transtornada?
Ca, o logar u eles am poder,
nom á pardom que s'i possa asconder,
assi sabem trastornar a pousada.

E outra cousa vos quero dizer
atal pardom bem se dev' a perder,
ca muito foi cousa mal gaa(nha)da.


Pêro da Ponte, CBN 1642, CV 1176



I

1. Identifique o objectivo da sátira da cantiga que acabou de ler.

2. Como caracteriza o trovador a soldadeira Maria Peres?

3. Explique a alusão do trovador à «nossa cruzada».

4. Comente o significado da finda.

5. Que recursos de estilo utiliza o poeta na elaboração da sátira? Dê dois exemplos retirados do texto.

6. Diga o que entende por «Ultramar» e «maeta».


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Rodrigues Lapa:

«Na cantiga de escárnio e de maldizer vazava a brutalidade da sua natureza, acostumada a chamar às coisas por seus próprios nomes. Daí o realismo e por vezes a obscenidade dessa poesia satírica, que é um documento de primeira ordem para o conhecimento dos costumes da Idade Média.»

2.10.08

Cena introdutória

I

1. Gil Vicente serviu-se de uma alegoria de barcas para censurar e satirizar os excessos do seu tempo. Que explicação podemos avançar para essa opção?
1.1. Por que razão, para bem compreendermos este primeiro fragmento, necessitamos não apenas de ter alguns conhecimentos de cultura clássica, do cristianismo, mas também da terminologia náutica dos séculos XV e XVI?
1.2. Porquê uma Barca do Paraíso em oposição a uma Barca do Inferno? Que é que, afinal, está aqui em causa?
1.3. Estás convencido de haver assim uma tão directa relação entre bem e recompensa, ou entre mal e castigo? Explica.
2. Que é um arrais?

II

1. Depois de leres o primeiro fragmento do auto, sentes que algumas das perguntas anteriores poderão ter encontrado uma resposta? Em que medida?
2. O Diabo e o Companheiro parecem muito afadigados na preparação da Barca.
2.1. Que tipo de viagem vão eles empreender?
2.2. Que estado de espírito deixa transparecer o Diabo? Serenidade? Impaciência? Justifica a tua resposta.
3. Como explicar que, na Barca do Anjo, não haja o mesmo ambiente de festa, nem quaisquer pre-parativos para a viagem?
4. Parece que ao Diabo está tudo a correr favoravelmente.

Repara nas seguintes expressões:
«...que temos gentil maré!»
»...Põe bandeiras, que é festa.»

4.1. Explica as palavras destacadas.
4.2. Que razões te parecem justificar esat alegria por parte do diabo?
5. Que motivações profundas poderão ter levado Gil Vicente a escrever este Auto (repara que Gil Vicente começa o seu Auto designando-o como um Auto de Moralidade...)


II

1. Neste fragmento, podes detectar algumas interjeições.
1.1. Identifica-as.
1.2. Explica de que modo estas interjeições contribuem para caracterizar a atmosfera que se vive na Barca do Inferno.


Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno (1517)