30.9.08

Viagens na Minha Terra

As sobrancelhas, quase pretas também, desenhavam-se numa curva de extrema pureza; e as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura da face.
Os olhos porém – singular capricho da natureza, que no meio de toda esta harmonia quis lançar uma nota de admirável discordância! Como poderoso e ousado maestro que, no meio das frases mais clássicas e deduzidas da sua composição, atira de repente com um som agudo e estrídulo que ninguém espera e que parece lançar a anarquia no meio do ritmo musical... os diletantes arrepiam-se, os professores benzem-se; mas aqueles cujos ouvidos lhes levam ao coração a música, e não à cabeça, esses estremecem de admiração e entusiasmo... Os olhos de Joaninha eram verdes... não daquele verde descorado e traidor da raça felina, não daquele verde mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.
São os mais raros e os mais fascinantes olhos que há.
Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que nela nasci e nela espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a herética pravidade do olho azul, sofri o que é muito bem feito que sofra todo o renegado... eu firme e inabalável, hoje mais que nunca, nos meus princípios, sinceramente persuadido que fora deles não há salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma única vez que vi dos tais olhos verdes, fiquei alucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu catolicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha fé vacilante na contemplação das eternas verdades, que só e ùnicamente se encontram aonde está toda a fé e toda a crença... nuns olhos sincera e lealmente pretos.
Joaninha porém tinha os olhos verdes; e o efeito desta rara feição, naquela fisionomia à primeira vista tão discordante, era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, alucinava, depois fazia uma sensação inexplicável e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: por fim pouco a pouco, estabelecia-se a corrente magnética tão poderosa, tão carregada, tão incapaz de solução de continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desaparecia, e toda a inteligência e toda a vontade eram absorvidas.
Resta só acrescentar – e fica o retrato completo, um simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas traçadas em coturno. O pé breve e estreito, o que se adivinhava da perna admirável.


Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra



I

1. Realce as características dominantes da personagem descrita no excerto que acabou de ler.

2. Como interpreta a importância que o autor dá aos olhos da personagem?

3. De que modo é que os olhos da personagem podem representar a dicotomia clássico / romântico? Justifique a sua resposta.

4. Identificar os sentimentos contraditórios que os olhos da personagem incutiam em quem os visse.

5. Comente a seguinte frase: «Senti abalar-se pelos fundamentos o meu catolicismo».

6. Faça um breve comentário estilístico ao texto, realçando as metáforas e as comparações de que o autor se serviu para descrever os olhos da personagem.

7. Atente na seguinte frase: «Os olhos de Joaninha eram verdes».

7.1. Faça a análise sintáctica da frase.

7.2. Reescreva a frase colocando o verbo no modo condicional.


II

Num texto cuidado, relacione o retrato físico e psicológico de Joaninha com o retrato que o autor faz do Vale de Santarém.



29.9.08

Ai dona fea! Fostes-vos queixar



Ai dona fea! Fostes-vos queixar
Porque vos nunca louv' en meu trobar
Mais ora quero fazer un cantar
En que vos loarei toda via;
E vedes como vos quero loar:
Dona fea, velha e sandia!

Dona fea! Se Deus me pardon!
E pois avedes tan gran coraçon
Que vos eu loe, en esta razon,
Vos quero ja loar toda via;
E vedes qual será a loaçon:
Dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
En meu trobar, pero muito trobei;
Mais ora ja un bon cantar farei
En que vos loarei toda via;
E direi-vos como vos loarei:
Dona fea, velha e sandia!

João Garcia de Guilhade


I

Analise o texto transcrito, desenvolvendo os seguintes tópicos:
• Intenção do autor.
• Caracterização da mulher.
• Significado e função do último verso de cada estrofe.
• Estrutura formal.


II

De forma sucinta, não excedendo o limite de 10 linhas, recorde alguns textos da sátira trovadoresca e refira-se aos temas aí tratados


III

Tendo como base as leituras que fez da poesia satírica trovadoresca, comente a seguinte afirmação:
"Os trovadores encarregaram-se de fazer a reportagem dos acontecimentos mais ou menos escandalosos da época. É precisamente este critério, de um lado o facto polí¬tico, literário ou social, de outro a crítica mordaz incidindo sobre ele, que nos vai servir de norma para uma sistematização, de outro modo difícil, do escárnio do século XIII."

Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa, Época Medieval



28.9.08

Antes de Começar

I

1. Almada Negreiros era escritor. Refere mais duas actividades exercidas pelo autor.
2. Indica o local onde Almada nasceu.
3. Qual o nome do grupo em que o autor participou, juntamente com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro?
4. Em que data faleceu Almada?


II

Preenche os espaços em branco de forma a teres um texto coeso e coerente:


O texto é escrito por um ______________: a sua tarefa é pôr as palavras no papel e criar um todo que é a peça. Quem coloca em cena a peça é o ___________________ que escolhe e instrui os ________________ que irão inter-pretar as personagens, dialoga com o ______________ sobre o colorido do cenário, troca impressões com o ______________ que em esboço vai vestindo as persona-gens. Concluída a __________________, falta apenas o __________________.
Quando se fala em texto __________________, fala-se num texto para ser representado.
No texto dramático não há _____________________ (o espectador vê os __________________, vê as roupas, vê as _________________); não há normal-mente _______________________: as personagens manifestam as suas _________________, os seus ____________________, o seu lugar na _________________, agindo diante do ___________________ . O texto dramático é constituído por um texto _______________ que integra as _______________ das personagens e por um texto _________________ ou de __________________ for-mado pelas __________________ que integram todas as indicações _____________________.


III

Atenta, agora, no excerto apresentado, retirado da peça de Almada Negreiros Antes de Começar.

(Depois de subir o pano, ouve-se um tambor que se vai afastando. Quando já mal se ouve o tambor, o Boneco levanta-se, e vai espreitar ao fundo para fora. Entretanto a Boneca senta-se e está admirada de ver o Boneco a andar. Quando o Boneco volta para o lugar, fica admirado de ver a Boneca sentada a olhar para ele.)

O Boneco Tu também te mexes como as pessoas?!
A Boneca (Muito baixinho.) Chiu!...
O Boneco Só agora é que dei por isso!
A Boneca (Idem.) Chiu!...
O Boneco Eu julgava que de nós os dois era eu só que podia mexer-me!
A Boneca (Sempre muito baixinho.) Eu também julgava que de nós os dois, era eu a única que podia mexer-me!
O Boneco E nunca sentiste a puxar por ti todas noites?!
A Boneca (Idem.) É que eu julgava que era o Homem que puxava por mim!
O Boneco E tu? Puxaste por mim alguma vez?
A Boneca (Idem.) Nunca... nunca experimentei puxar por ti... Eu tinha pena, se ao puxar por ti, tu não te mexesses. Por isso nunca experimentei!...
O Boneco Pois eu, todas as noites, quando o tambor do Homem já vai longe, levanto-me e vou espreitar para fora...
A Boneca Nunca te vi assim!... Às vezes sentia puxarem por mim mas julgava que era o Homem... e deixava-me estar boneca...
O Boneco Se eu soubesse que tu eras como eu!
A Boneca Se eu soubesse que também tu eras assim!



1. O excerto transcrito apresenta uma organização diferente da dos textos narrativos.
1.1. Que género de texto é a peça Antes de Começar?
1.2. Como se chamam as passagens em itálico e entre parênteses?
1.3. Para que servem essa informações?

2. Explica o título da peça.

3. A partir das indicações cénicas, diz onde se passa esta história.

4. Assistimos a um diálogo entre duas personagens.
4.1. Quem são?
4.2. O que fazem naquele local?
4.3. Indica outras personagens que não interferem no diálogo, mas que são importantes para o desenrolar do texto.

5. Qual é a situação que permite que se desenrole este diálogo entre as duas personagens?

6. De repente, no silêncio, o Boneco e a Boneca descobrem algo.
6.1. Do que se trata?
6.2. Porque não tinha o Boneco descoberto há mais tempo que a sua companheira mexia e falava?
6.3. E ela, por que razão não tinha feito a mesma descoberta em relação ao amigo?

7. Explica o sentido das duas últimas falas, apresentadas no excerto.

8. Podemos afirmar que apesar de terem aspectos em comum, têm traços psicológicos diferentes.
Quais os principais traços que os distinguem?

9. Sobre que assuntos conversam os dois bonecos?

10. Na parte final da peça faz-se uma reflexão sobre o papel que o “coração” desempenha na vida.
10.1. O que desempenha, neste contexto, a palavra “coração”?
10.2. Que importância tem para a Boneca o “coração”?

11. Como acaba a peça Antes de Começar?


IV



1. Reescreve as frases que se seguem substituindo as palavras em itálico por pronomes.
1.1. O Boneco afirmou que a Boneca falava muito baixo.
1.2. A Boneca chamou o Boneco.

2. Substitui, nas frases, o adjectivo que se encontra no grau superlativo absoluto analítico pelo superlativo absoluto sintético.
2.1. Os Bonecos ficaram muito amigos.
2.2. A Boneca achava que o Boneco era muito sábio.

3. Sabendo que a palavra “coração” é uma palavra polissémica, escreve um pequeno texto, onde utilizes este vocábulo com diferentes significados.



21.9.08

Mestre Finezas



Agora entro, sento-me de perna cruzada, puxo um cigarro, e à pergunta de sempre respondo soprando o fumo:
— Só a barba.
Ora é de há pouco este meu à-vontade diante de mestre Ilídio Finezas.
Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha que fingir-se zangada. Eu saía de casa, rente á parede, sentindo que aquilo era pior que ir para a escola.
Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enorme toalha. Só me ficava a cabeça de fora.
Como o tempo corria devagar!
A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer--me, não podia bocejar sequer. — «Está quieto, menino» — repetia mestre Finezas segurando-me a cabeça entre as pontas duras dos dedos: — «As¬sim, quieto!» — Os pedacitos de cabelo espalhados pelo pescoço, pela ca-ra, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão severo de magro, o corpo alto curvado. Via-lhe os braços compridos, arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.
E eu — sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que todo o corpo me doía — era para ali uma pobre criatura indefesa nas mãos de mestre Ilídio Finezas.
Nesse tempo tinha-lhe medo. Medo e admiração. O medo resultava do que acabo de contar. A admiração vinha das récitas dos amadores dramáti¬cos da vila.
Era pelo Inverno. Jantávamos à pressa e nessas noites minha mãe penteava-me com cuidado. Cal-çava uns sapatos rebrilhantes e umas peúgas de seda que me enregelavam os pés. Saíamos. E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila, eu conhecia pela voz famílias que caminhavam na nossa freme e outras que vinham para trás. Depois, ao entrar no teatro, sentia-me perplexo no meio de tanta luz e gente silenciosa. Mas todos pareciam corados de satisfação.
Daí a pouco, entrava num mundo diferente. Que coisas estranhas aconte¬ciam! Ninguém ali falava como eu ouvia cá fora. E mesmo quando calados tinham outro aspecto; constantemente a mexerem os braços. Mestre Finezas era o que mais se destacava. E nunca, que me recorde, o pano desceu, no i? último acto, com mestre Finezas ainda vivo. Quase sempre morria quando a cortina principiava a descer e, na plateia, as senhoras soluçavam alto.
Aquelas desgraças aconteciam-lhe porque era justo e tomava, de gosto, o partido dos fracos. E, para que os fracos vencessem, mestre Finezas não tinha medo de nada nem de ninguém. Heroicamente, de peito aberto e com grandes falas ia ao encontro da morte.

Manuel da Fonseca


I

1. Localiza a acção ilustrando as respostas com expressões do texto:
a) no tempo;
b) no espaço;

2. O narrador recorda as suas idas ao barbeiro quando era criança.
a) Que motivos teria ele para considerar tal acontecimento "pior que ir para a escola"?
b) Identifica as características físicas do Mestre Finezas.
c) Justifica a seguinte afirmação: o retrato físico do barbeiro é feito através de um processo de caracterização directa.

3. Além de barbeiro, Mestre Finezas era também actor e a ida ao teatro revestia-se de uma solenidade especial. Indica de que forma se traduzia essa solenidade a nível:
a) do vestuário do rapazinho;
b) das atitudes da mãe;
c) das reacções das outras pessoas.

4. Por que razão ficava o narrador impressionado ao entrar no teatro?

5. Mestre Finezas, como actor, era digno de admiração. Porquê?

6. Classifica o narrador, justificando com expressões do texto, quanto à:
a) ciência;
b) presença;
c) posição;

7. "E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila..."
Identifica a figura de estilo aqui presente.

8. Faz uma síntese do conto estudado.




17.9.08

O Nabo


O avô Eugénio plantou nabos. Plantou muitos nabos. Alguns bem grandes eram. Mas dentre eles um havia que era maior que todos os outros nabos. Era o maior nabo do mundo!
Um nabo tão grande tem de ser comido pela família toda. O avô disse para consigo:
- Arranco este nabo num instante!
Agarrou na rama e puxou. O nabo maior do mundo não deu de si. Ficou agarrado à terra onde nascera. Então o avô chamou:
- Ó mulher, dá-me aqui uma ajuda!
A avó Catarina agarrou o avô e os dois puxaram. O nabo é que não saía da terra.
- Catarininha, vem cá! Vem ajudar-nos a arrancar este grande nabo!
A neta apareceu logo a correr e agarrou-se à avó que estava agarrada ao avô, que por sua vez puxava pelo nabo.
Era um nabo tão grande que em diante passaremos a escrever NABO. Assim: com letras grandes: NABO. Todos puxavam, mas o NABO não saía da terra onde nascera.
- "Laica"- chamou a neta a sua cachorrinha.
E a "Laica" agarrou-se à rapariga, que estava agarrada à avó, que puxava pelo avô que tentava arrancar o NABO. Mas o NABO nem sim nem sopas. Calado, deixava-se lá estar metido na terra.
- "Joanico"! "Joanico"! - gritou a cachorra.
O gato assomou à porta de casa, desconfiado. Viu todos eles a puxarem-se uns aos outros para tentarem tirar da terra o maior NABO do mundo.
- Vai uma ajuda?
E "Joanico" foi agarrar-se à "Laica" que segurava a neta Catarininha, que puxava pela avó Catarina, por sua vez a unir os seus esforços com o avô Eug´nio para que o NABO saísse do nabal para o almoço de muitos dias. E nada. Nada.
- Precisam de mim?
Quem assim perguntou foi o rato da csas magrito, que acabara de comer umas casquinhas de queijo. O gato olhou-o guloso. A cachorra disse para consigo que tão enfezado animal ali não serviria para nada. A neta e a avó iam a gritar de susto, quando o avô disse:
- Sabemos lá se nos falta só mais um pedacinho de força para resolver este problema! Ó rato, puxa lá pelo "Joanico"!
E o rato puxou.
E o NABO saiu da terra onde nascera. Havia que comer para todos e para muito tempo. Uma semana ou duas, seguramente. E isso se comessem todos os dias sopa de nabo!
A união faz a força, meus amigos! Aprendam a lição que o avô Eugénio deu à avó e à neta, à cachorra e ao gato. Daí em diante nunca mais a "Laica" correu atrás de "Joanico", nem este perseguiu o ratinho, que acabou até por engordar.

Viale Moutinho, Manhas do Gato Pardo




1. Completa as frases seguintes:
1.1. O autor deste texto narrativo é ______________
1.2. O narrador indica-nos as características deste nabo. "Era ________________________
1.3. Para além do avô, as outras personagens são _________________________________

2. Diz em que local decorre a acção desta história.

3. "O nabo maior do mundo não deu de si."
Caracteriza a atitude do avô Eugénio, perante o problema que lhe surgiu, assinalando as duas respostas certas.
O avô revelou - paciência - aborrecimento - desespero - consideração pelo trabalho dos outros - orgulho

4. De acordo com o texto, coloca à frente de cada nome o adjectivo adequado:
O gato_____________________
O rato_____________________

5. "- Precisam de mim? Quem assim perguntou foi o rato..."
5.1. Nesta trancrição do texto, identifica:
a fala do narrador _____________________
a fala da personagem ___________________
5.2. Diz, também, qual o recurso de estilo utilizado na trancrição do ponto 6.

6. Quando o rato apareceu...
A avó e a neta sentiram __________________
A cachorra sentiu ______________________

7. Explica o significado das seguintes expressões deste texto:
"... o NABO nem sim nem sopas" (linha 11)
"... o gato assomou à porta..." (linha 14)
"... tão enfezado animal..." (linha 19)

8. Classifica o tipo de cada uma destas frases:
"arranco este nabo num instante!"
"Plantou muitos nabos."
"Ó mulher, dá-me aqui uma ajuda!"
"Vai uma ajuda?"

9. "E o rato puxou."
9.1. Identifica o tempo, o modo, a pessoa e o número da forma verbal, na frase acima transcrita.
9.2. Cria uma área vocabular de quatro palavras, à volta do vocábulo seguinte: "rato"

10. Identifica as funções sintácticas desempenhadas pelas palavras, da seguinte frase: O avô Eugénio plantou nabos.

11. Explica a razão porque o segundo parágrafo do texto termina com dois pontos e se usa o travessão para o início do parágrafo seguinte.

12. Esta narrativa procura dar-nos uma lição. Transcreve a frase que resume a moral da história.


II

1. Recorda as regras do diálogo para escreveres um pequeno texto.
Imagina a conversa que poderia ter acontecido entre os avós e a neta, enquanto, à noite e sentados à mesa, comiam sopa de nabo.



16.9.08

Entre o amor e a noite caminhei



luar na noite.gif


Entre o amor e a noite caminhei
Não em redor das coisas mas subindo
Através do calor das suas veias
Não em redor das coisas mas morrendo
Transfigurada em tudo quanto amei.

Entre o luar e a sombra caminhei
Era ali a minha alma, cada flor
- cega, secreta e doce como estrelas –
Quando a tocava nela me tornei.

E as árvores abriram os seus ramos
Os seus ramos enormes mas convexos
E no estranho brilhar dos seus reflexos
Oscilam sinais, quebrados ecos
Que no silêncio fantástico beijei.

Sophia de Mello Breyner Andresen



I

1. Há, na poesia de Sophia, uma inquietação que se defronta com a beleza do mundo.
1.1. Identifique os elementos semânticos que apontam para esse contraste entre:
- um mundo / lugar de vida;
- um mundo em transformação.
1.2. Justifique o paralelismo presente no primeiro verso das duas primeiras estrofes.

2. Explicite a intimidade que se percebe na relação do sujeito poético com o cosmos que evoca.

3. Defina o tipo de sentimentos, aparentemente contraditórios, que surgem ao longo do poema.

4. Mostre que há uma procura da plenitude na natureza e no silêncio.

5. "Era ali a minha alma, cada flor/- cega, secreta e doce como estrelas -"
5.1. Explique o sentido dos versos transcritos.
5.2. Explicite a expressividade dos adjectivos presentes, tendo em conta as sensações que veiculam.


II

Em Sophia, utilizando uma expressão de António Guerreiro (in Expresso, 24 de Janeiro de 1998), há uma «invocação que nasce de uma escuta do ressoar das coisas e da música que sempre constituiu um desafio ao poder dos homens.»

Num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, comente a afirmação transcrita, recordando o fascínio de Sophia pela pureza original e pela agitação cósmica. Pode recordar o feitiço que as águas ou o mundo clássico exercem, bem como a sua capacidade sibilina e de atenção ao mundo.

15.9.08

A Bouça do Hortal


Delta Cows Art Print by Lowell Herrero


Viveu, em tempos idos, na freguesia de Eiriz, ali para os lados de Santo Tirso, um lavrador abastado, dono da bouça do Hortal, onde diariamente deixava as suas vacas a pastar.
De manhãzinha, quase logo ao alvorecer, levava o homem as suas vacas para a bouça e lá as deixava, sós, sem pastor que as guardasse porque a bouça era vedada por uma tapada alta cerrada.
Acontecia que à noite, quando ia buscar as vacas à bouça, para mungir e recolher, faltava frequente-mente uma delas, e por sinal a mais gorda e luzidia. Sendo a sua melhor leiteira, nesses dias em que desaparecia vinha invariavelmente sem leite, o que muito o espantava. Além disso, nessas alturas em que não a via a pastar juntamente com as outras, dava por ela, de repente, aparecendo por detrás de um espesso silvado.
Muito intrigado, o lavrador decidiu vigiar o animal e passou a acompanhar o rebanho até à bouça. Durante dois dias nada aconteceu. Ao terceiro, porém, i a vaca desapareceu sem deixar rasto e por mais que a procurasse não conseguiu dar com ela. Pela tardinha, quando recolheu, ali estava ela, anafada mas sem leite. Ê este fenómeno reproduziu-se outras vezes, sem que o homem conseguisse deslindá-lo. Parecia coisa mágica!
Um dia, porém, ocorreu-lhe um expediente que esperava resultado. E deu-o, realmente. De manhã, ao sair de casa, agarrou-se ao rabo da vaca e não o largou mais. A vaca deu umas voltas pela mata, pachorrentamente, pastando como as outras, até que, por fim, chegou-lhe a veneta da partida. Desencabrestou apressada por entre o espesso silvado ao fundo do qual o lavrador viu a entrada de uma mina, onde ela enfiou de corrida, como se o trambolho que levava ao rabo a incomodasse menos do que uma varejeira.
O pobre homem, agarrado ao rabo da vaca, lá ia de cambulhada, ora correndo apressadamente, ora meio de rastos quando tropeçava nalguma pedra. A mina era um intrincado labirinto. Umas vezes subia, outras descia, dava voltas e mais voltas, toda ela era um emaranhado de encruzilhadas. Lá dentro era tão escuro e impenetrável que o homem se sentia perdido, como se tivesse entrado na noite primordial, no caos anterior a todas as vidas. Depois, o eco dos seus passos trôpegos ressoava tão assustadora-mente pelas abóbadas da mina que parecia o som de mil carruagens rodopiando dentro da sua cabeça. Era de arrepiar os cabelos e, de facto, o homem estava enregelado e arrepiado, se bem que o suor lhe escorresse das frontes, dos sovacos e dos joelhos.
Loucamente agarrado ao rabo da vaca, como se fosse aquele o único ponto de salvação de um náufrago, o homem deixou-se conduzir por aquela maré terrífica. De súbito, vislumbrou uma luminosidade, cada vez mais viva, até que se viu dentro de um fabuloso palácio de ouro e cristal, iluminado e brilhante como um sol.
A vaca entrou por ali dentro como se o palácio fosse o seu próprio curral. Pelo chão atapetado havia bolas de ouro, diamantes a rodos, pedras preciosas de todas as cores e tamanhos. De olhos esbugalhados, o homem bem lhe apetecia apanhá--los, mas o pavor de ali ficar eternamente perdido fê-lo agarrar ainda com mais força o rabo da vaca e desistir de toda aquela enlouquecedora tentação de riqueza.
Por fim, a vaca parou num enorme salão, como não há coisa igual em terra alguma do Mundo, em que a luz era coada através de uma poalha finíssima de ouro. Mal refeito da caminhada e do espanto, o lavrador deixou-se cair no chão, sempre agarrado aos pêlos do rabo da vaca.
Esta porém não se mexia e parecia esperar mansamente alguma coisa. Com efeito, apareceu inesperadamente uma velha muito feia, seca e encarquilhada. Vinha vestida com um grande balandrau preto, de seda, mas no rosto brilhavam, sob um cabelo branco e hirsuto, uns olhinhos redondos e vivos.
Abeirou-se da vaca e o lavrador encolheu-se todo de medo. A velha, contudo, não deu pela sua presença e sacou debaixo do balandrau uma escudela de ouro polido. Sentou-se num escabelo de pau-rosa embutido a marfim e começou a mungir a vaca, que, muito quieta, esperou o final da operação.
Quando a escudela ficou cheia e a velha se levantou do banco, a vaca, com um sacão, desembestou de novo à desfilada a caminho da bouça. O homem agarrou-se como pôde e lá partiu aos tropeções através das salas iluminadas do palácio. Conforme iam passando faziam saltar diante de si um areal de rubis, safiras, esmeraldas, tudo isto envolvido na tal poeira de ouro tão fina que sufocava. Mas o receio de perder o rabo da vaca endiabrada não permitia ao homem lançar mão de um punhado daquela riqueza desperdiçada no fundo da mina. Lá ficou tudo!
A vaca, na sua correria, voltou a entrar na treva da mina e, pouco depois, desembocava por detrás do silvado da bouça do Horta).
O lavrador, assim que se viu de novo no seu mundo, não quis saber de mais nada. Largou a vaca, esqueceu a bouça e desatou a correr com quanta força tinha, monte abaixo, em direcção à casa de Eiriz. Pelo caminho ia fazendo o sinal-da-cruz dezenas de vezes para purificar a sua alma do que vira dentro da mina.
Nunca mais ninguém o voltou a ver próximo da bouça, nem para lá tornaram os seus animais. Quanto à vaca, conta-se que ainda hoje é vista de vez em quando na bouça do Mortal, pastando pachorrentamente o mato mimoso. O que não consta é que alguém lhe voltasse a agarrar o rabo!

Lendas Portuguesas, recolha de Fernanda Frazão

I

1. Detecta o "intruso" em cada frase e repõe a verdade.
1.1. Um lavrador remediado deixava diariamente as suas vacas a pastar na bouça do Mortal.
1.2. À noite, quando as ia buscar, faltava sempre uma delas, a mais magra e baça.
1.3. Quando ela reaparecia, encontrava-a sempre num descampado.
1.4. O lavrador, muito intrigado, resolveu acompanhar a vaca até à bouça.
1.5. Um dia, resolveu montar na vaca para ver para onde ela ia.
1.6. A vaca, de súbito, resolveu entrar no espesso silvado e foi dar à entrada de uma casa.
1.7. Correndo, subiu e desceu naquele labirinto, sempre iluminada.
1.8. De seguida e após um clarão, entrou num curral de ouro e cristal, como se fosse o seu próprio palácio.
1.9. Havia um grande tesouro e o homem apanhou alguns diamantes, sempre agarrado à vaca.
1.10. Já num enorme salão, apareceu-lhe uma jovem esbelta que mungiu a vaca.
1.11. Terminada a recolha do leite, a vaca regressou com o homem no meio de uma nuvem de pó espesso que sufocava.
1.12. Logo que se viu de novo no seu mundo, tratou de correr para casa com os diamantes que apanhara.
1.13. Pelo caminho, fez o sinal-da-cruz três vezes para purificar a alma do que vira e não voltou a aparecer na bouça.
1.14. Quanto à vaca, diz-se que ainda é vista a correr, contente, no mato mimoso.

2. Identifica as figuras de estilo presentes nas seguintes passagens textuais.
2.1. "Conforme iam passando, faziam saltar diante de si um areal de rubis, safiras, esmeraldas (...)."
2.2."(...) até que se viu dentro de um fabuloso palácio de ouro e cristal, iluminado e brilhante como um sol."
2.3."(...) toda ela era um emaranhado de encruzilhadas."
2.4."(.-) o lavrador deixou-se cair no chão, sempre agarrado aos pêlos do rabo da vaca."

3. Justifica, por palavras tuas, o emprego das figuras de estilo que identificaste em 2. (não te esqueças de referir a mensagem transmitida em cada uma das passagens textuais!).

II

Ao lavrador de "A Bouça do Hortal" poder-se-ia aplicar o provérbio ou máxima popular "O homem prudente vale mais que o valente".
1.1. Justifica a aplicação deste provérbio.
Refere outros provérbios que poderiam caracterizar o lavrador.

11.9.08

Se é doce no recente ameno Estio

Se é doce no recente ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias e os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis amadores,
Seus versos modulando e seus ardores
De entre os aromas do pomar sombrio;

Se é doce mares, céus, ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Qu’ esperta os corações, floreia os prados;

Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.

Bocage



I

1. Identifique o assunto do poema, explicitando devidamente a sua estrutura interna.

2. Faça a caracterização da natureza aqui referenciada, justificando a sua resposta com expressões textuais.
2.1. Proceda ao levantamento de três recursos estilísticos ao serviço desta descrição. Explique - os devidamente, apontando o seu valor expressivo.

3. Justifique e explicite a função da natureza nesta composição.

4. Comente o estado de espírito do sujeito lírico e indique os motivos que poderão estar na sua base.

5. Explicite o valor e a função das frases de tipo condicional.

6. Explique a oposição que se estabelece entre o último terceto e as restantes estrofes.

7. Integre este soneto na corrente literária correspondente, fazendo o levantamento das suas características estético-formais .




10.9.08

Chaves na mão, melena desgrenhada,




Chaves na mão, melena desgrenhada,
batendo o pé na casa, a mãe ordena
que o furtado co/t hão, fofo e depena,
a filha o ponha ali ou a criada.

Afilha, moça esbelta e aperaltada,
lhe cli: co'a doce vá: que o ar serena:
- "Sumiu-se-lhe um colchão, é fone pena!
Olhe não fique a casa arruinada..."

- "Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ler pai embaiTuilo,
já a mãe não tem mãos?" E. dizendo isio,

arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

Nicolau Tolentino


Tendo em conta os níveis tónico, morfossíntáctico e semântico, redija um comen¬tário global ao soneto transcrito, pondo em destaque os seguintes aspectos:
• Estrutura lógica do discurso.
• Caracterização das personagens.
• Expressividade da linguagem e dos recursos estilísticos.
• Sátira social.


Num breve apontamento, não excedendo o limite de 10 linhas, refira-se aos pro¬cessos utili-zados por Nicolau Tolentino para satirizar a sociedade do seu tempo.


III
Com base nos textos estudados deste mestre da sátira, desenvolva as ideias con¬tidas na sua afirmação:
"Não me acovarda o nome de sátira, só odioso ao vulgo ignorante: Vossa Excelên¬cia sabe que. quando ela fere nos costumes, sem assinalar os homens, é a espécie de poesia em que mais vezes se dão as mãos os seus dois fins: a utilidade e o recreio."
Nicolau Tolentino

7.9.08

Perplexidade


A criança estava perplexa. Tinha os olhos maiores e mais brilhantes do que nos outros dias, e um risquinho novo, vertical, entre as sobrancelhas breves. «Não percebo», disse.
Em frente da televisão, os país. Olhar para o pequeno ecrã era a maneira de olharem um para o outro. Mas nessa noite, nem isso. Ela fazia tricô, ele tinha o jornal aberto. Mas tricô e jornal eram alibis. Nessa noite recusavam mesmo o ecrã onde os seus olhares se confundiam. A menina, porém, ainda não tinha idade para fingimentos tão adultos e subtis, e, sentada no chão, olhava de frente, com toda a sua alma. E então o olhar grande, a rugazinha e aquilo de não perceber. «Não percebo», repetiu.
«O que é que não percebes?», disse a mãe por dizer, no fim da carreira, aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso em que alguém espancava alguém com requintes de malvadez.
«Isto, por exemplo.»
«Isto o quê?»
«Sei lá. A vida», disse a criança com seriedade.
O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de 8 anos, tão subitamente.
Como de costume preparava-se para lhe explicar todos os problemas, os de aritmética e os outros.
«Tudo o que nos dizem para não fazermos é mentira.»
«Não percebo.»
«Ora, tanta coisa. Tudo. Tenho pensado muito em não matar, para não bater. Até não beber álcool, E depois a televisão... Nos filmes, nos anúncios... afinal?"
A mãe largou o tricô e engoliu em seco. O pai respirou fundo como quem se prepara para uma corrida difícil.
«Ora vejamos,», disse ele olhando para o tecto em busca de inspiração. «A vida...»
Mas não era tão fácil como isso falar do desres¬peito, do desamor, do absurdo que ele aceitara icomo norma! e que a filha, aos 8 anos, recusava. «A vida...», repetiu.
As agulhas do tricô tinham recomeçado a esvoaçar como pássaros de asas cortadas.

MARIA JUDITE DE CARVALHO, in O Jornal (02.10.1981)


I

1. Identifique o facto noticioso referido na crónica de Maria Judite de Carvalho.

2. Resuma, por palavras suas, a apreciação crítica que faz a autora.

3. Observe as expressões idiomáticas «engoliu em seco» e «respirou fundo»
3.1 Explique o sentido que encerram.
3.2 Justifique estas reacções da mãe e do pai.

4. Explique o significado da expressão: «aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso»
4.1 Identifique o recurso estilístico utilizado.

5. Considere a frase: «O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de 8 anos, tão subitamente.»
5.1 Identifique e classifique as frases que a compõem.
5.2 Identifique as funções sintácticas presentes em «qual era o problema que preocupava tanto a filha de 8 anos, tão subitamente».
5.3 Identifique a classe e a subclasse das palavras destacadas.



5.9.08

Domingo à Tarde

Escolhemos a mesa do terraço, de luzes reflectidas na água profunda e espessa. Os navios, imóveis e enigmáticos, pareciam monstros que tivessem esperado pela noite para vir à superfície. Só os barcos que ligavam as duas margens, de olhos fosforescentes, nos libertavam desta sensação de que a cidade, desprevenida, se deixara sitiar pelo rio.
- Foste esta manhã ao hospital?
- Decerto.
- Muitos doentes?
Clarisse não insistiu. De olhos fitos na vastidão sonolenta das águas, seguindo-lhes, com ar absorto, o estremecimento subterrâneo, que às vezes refluía como uma mancha de óleo, ela estava, no entanto, de pensamentos a léguas dali. Bem lhe percebi a ausência. Estalei com os dedos a chamar o criado.
- Para começar, dois martinis. – E dirigindo-me a Clarisse: - Hoje, este jantar vai ser com todas as regras. Aprovas?
Ela acenou que sim. O lampião rente ao muro do terraço dava-lhe uma tonalidade crua. A beleza surgia assim estranhamente artificial ou mortificada. Mas, pelo meu lado, assaltara-me um desejo imbecil e urgente de boa disposição.
- Queres então que te fale da minha consulta de hoje… Aí vai: observei um homem das Beiras, com o rosto bochechudo da cor do salpicão, e reformado da Câmara. A sua doença era essa, julgo: uma reforma que o obrigava a trazer fundilhos nas calças. Depois, uma algarvia. Padecia de tudo, muito particularmente de uma língua infatigável. Etc. Estás satisfeita? Claro que, de todas as vezes, eu repetia o estribilho: «Não é para esta consulta.» Levo os dias a repetir as mesmas coisas. Estas e outras, como um papagaio.
A mão de Clarisse segurou-me um dos braços. Impedia-me, assim, de dizer mais baboseiras. Eu bem sabia porque ela me falava do hospital, dos doentes. Já outras vezes o fizera, obliquamente, esperando que eu lhe contasse cenas e casos que lhe mordessem os nervos, enquanto se fechava a toda a insinuação para que reatasse os tratamentos. Mas eu estava atento.

Fernando Namora, Domingo à Tarde



I

1. Onde e quando tem lugar o encontro referido no texto?
2. Qual a actividade profissional do narrador. Justifique.
3. Em que estado de espírito parece encontrar-se Clarisse? Porquê?
4. Por que razão se sente o interlocutor assaltado por «um desejo imbecil e urgente de boa disposição»?
5. Que faz ele para concretizar esse desejo?
6. Atendendo ao breve relato da consulta daquele dia, com que impressão se fica do narrador e do modo como realiza o seu trabalho?
7. Que razões levavam Clarisse a falar com frequência do hospital e dos doentes?


II

1. Esclareça o sentido de:
- ela estava, no entanto, de pensamentos a léguas dali
- este jantar vai ser com todas as regras
- uma reforma que o obrigava a trazer fundilhos nas calças
- padecia […] de uma língua infatigável
- cenas e casos que lhe mordessem os nervos.
2. Redija frases que incluam verbos da família de:
- noite
- doente
- papagaio
- insinuação


III

Relembre, usando diálogo e em cerca de vinte linhas, um encontro especial com um amigo.



2.9.08

Mestre Finezas


1. O conto constrói-se sobre a alternância temporal, isto é, ora o narrador fala do presente, ora fala do passado.
1.1 Transcreve as expressões que introduzem essa alternância.

2. Há entretanto outras expressões importantes que nos dão o fluir do tempo. Destaca aquelas que te parecem especialmente significativas.

3. "De navalha em punho, Mestre Finezas declama cenas inteiras (. ..). E há nele uma saudade tão grande das noites em que fazia soluçar de amor e mágoa as senhoras da vila que, amiúde, esquece tudo o que o cerca e fica, longo tempo, parado. Os seus olhos ganham um brilho metálico. Fixos, olham-me mas não me vêem. Estão a ver para lá de mim, através do tempo. »
3.1 Nesta transcrição o passado coexiste com o presente. Através de que processo é isso consegui-do?

4. Há no texto dois espaços fundamentais: a barbearia e o palco.
4.1 Relaciona-os com as três actividades da personagem principal.

5. Mestre Finezas está retratado física e psicologicamente.
5.1 Retira do texto as características físicas da personagem, não esquecendo de pôr em evidência aquelas que se alteram com a passagem do tempo.
-antes -depois etc. etc.
5.2 Como definirias a personalidade de Mestre Finezas?

6. A realidade e o sonho entrecruzam-se neste conto.
6.1 Fala de uma e de outro relacionando-os, respectivamente, com:
-a personagem principal;
-o narrador-personagem.
6.2 Como se relacionava, no passado, a personagem-narrador com Mestre Finezas?
6.3 De que forma o sonho os aproxima, no presente?

7. "o arco roçou pelas cordas e um murmúrio lento começou, (. ..) e penetrava-me de uma sensação dolorosa. (. ..) ,Mas, na minha frente, Mestre Finezas, alheio a tudo, fazia gemer o seu violino (. ..) todo jogado para o tecto».
Nestas passagens do texto há na descrição uma sugestão de lentidão e de melancolia. Selecciona as palavras ou expressões responsáveis por tal, identificando as respectivas classes morfológicas:
-nomes;
-adjectivos;
-advérbios;
-verbos (tempos e valor aspectual).