24.6.08

O Principezinho

Foi então que apareceu a raposa.
- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu delicadamente o principezinho, que se voltou mas não viu nada.
- Estou aqui - disse a voz -, debaixo da macieira.
- Quem és? - disse o principezinho. - Es bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - propôs-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não estou cativada.
- Ah! Desculpa, - disse o principezinho. Mas, depois de reflectir, acrescentou:
- O que significa "cativar"?
- Não és daqui - disse a raposa -, o que procuras?
- Procuro os homens, - disse o principezinho. - O que significa "cativar"?
- Os homens - disse a raposa - têm espingardas e caçam. E muito aborrecido! Tam¬bém criam gali-nhas. E a única coisa interessante que têm. Estás à procura de galinhas?
- Não - disse o principezinho -, procuro amigos. O que significa "cativar"?
- E uma coisa demasiado esquecida - disse a raposa. - Significa "criar laços...".
- Criar laços?
- Isso mesmo - disse a raposa. - Para mim tu não passas ainda de um rapazinho semelhante a cem mil outros rapazinhos. E não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Para ti eu não passo de uma raposa semelhante a cem mil outras raposas. Mas, se me cativares, precisaremos um do outro. Para mim tu serás único no Mundo. Para ti eu serei única no Mundo...
- Começo a compreender, - disse o principezinho. - Há uma flor... penso que ela me cativou...
- É possível - disse a raposa. - Vê-se de tudo na Terra...
- Oh! não é da Terra - disse o principezinho. A raposa pareceu ficar muito intrigada:
- Noutro planeta?
-Sim.
- Nesse planeta, há caçadores?
- Não.
- Isso interessa-me! E galinhas?
- Não.
- Nada é perfeito - suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua ideia:
- A minha vida é monótona. Caço galinhas e os homens caçam-me. As galinhas são todas parecidas e os homens são todos parecidos. Por isso aborreço-me um pouco. Mas se me cativares a minha vida ficará como que iluminada. Passarei a distinguir uns passos que serão diferentes de todos os outros. Os outros passos fazem-me esconder debaixo da terra. Os teus irão levar-me a sair da toca como uma música. E depois, olha! Vês, além, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não evocam nada para mim. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado! O trigo, que é dourado, irá fazer-me lembrar de ti. E gosta¬rei de ouvir o som do vento no trigo...
A raposa calou-se e observou durante muito tempo o principezinho:
- Por favor... cativa-me! - disse ela.
- Não me importo - respondeu o principezinho -, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e muitas coisas para conhecer.
- Só se conhecem as coisas que se cativam - disse a raposa. - Os homens já não têm tempo para conhecer seja o que for. Compram coisas já feitas nos comerciantes. Mas como não existem comerciantes de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres ter um amigo, cativa-me!
- O que é preciso fazer? - disse o principezinho.
- É preciso ter muita paciência - respondeu a raposa. - Primeiro sentas-te ali, na erva, assim um pouco afastado de mim. Eu olho para ti de soslaio e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido preferível teres voltado à mesma hora - disse a raposa. - Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, eu, a partir das três, já começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. As quatro em ponto já estarei agitada e inquieta; descobrirei o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei-de vestir o meu coração... Os rituais são necessários.
- O que é um ritual? - disse o principezinho.
- É também uma coisa demasiado esquecida - disse a raposa. - E o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora das outras horas. Há, por exemplo, um ritual que é praticado pêlos meus caçadores. Dançam às quintas-feiras com as raparigas da aldeia. Por isso a quinta-feira é um dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem num dia qualquer, os dias seriam todos parecidos e eu não teria férias.
Foi assim que o principezinho cativou a raposa.

Antoine de Saint-Exupéry. O Principezinho



I

Assinala com V ou F as afirmações que julgues verdadeiras ou falsas.

1.
a) O principezinho já conhecia a raposa.
b) O principezinho mostrou-se perturbado com a chegada da raposa.
c) O principezinho mostrou-se interessado no conhecimento da raposa.

2.
a) A cor do trigo não tem importância para a raposa.
b) A cor do trigo tem importância para a raposa por ser uma cor linda.
c) A cor do trigo só tem importância para a raposa por causa de uma circunstância.

3.
a) O principezinho não queria cativar a raposa porque lhe era difícil.
b) O principezinho não sabia o que era cativar.
c) O principezinho tinha muitos amigos que lhe ocupavam todo o tempo.

4.
a) Ter amigos é muito fácil.
b) Os homens não têm amigos porque não querem.
c) Os homens não têm amigos por falta de tempo para os conhecer.

5.
a) O principezinho não veio ao encontro combinado.
b) O principezinho chegou atrasado em relação à hora em que se deu o primeiro encontro.
c) A raposa não esperava o principezinho.

6.
a) A felicidade exige determinadas condições.
b) A felicidade surge espontaneamente como uma flor.
c) A raposa não acredita na felicidade.


II

1. Indica as causas da tristeza do principezinho e da raposa.
1.1. Transcreve as expressões ou frases que exprimem essa tristeza.

2. Explica a importância da referência ao Sol e ao trigo por parte da raposa.

3. A raposa diz que "os passos" não são todos iguais. Porquê?

4. A raposa lembra ao principezinho que os "homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada." e que "já não têm amigos".
4.1. O que quer dizer a raposa com a primeira afirmação?
4.2. Do ponto de vista da raposa, o que será preciso fazer para que os homens tenham amigos?

5. "A linguagem é fonte de mal-entendidos."
5.1. Explica o sentido desta afirmação.
5.2. Se estudaste o conto A Palavra Mágica, comprova, em poucas linhas, que esta afirmação está de acordo com essa narrativa.

6. Faz a caracterização da raposa.
6.1. De que é símbolo este animal?

7. Descobre as etapas que o principezinho teve de percorrer para cativar a raposa.


III

1. "Anda brincar comigo, propôs-lhe o principezinho."
1.1. Indica o tempo e o rnodo em que se encontram os verbos.
1.2. Reescreve a frase no discurso indirecto.

2. Indica o processo de formação das palavras "principezinho", "inútil' e "quinta-feira".

3. "Se queres um amigo, cativa-me."
3.1. Reescreve esta frase, colocando os dois verbos no futuro.

4. A raposa falou. O principezinho não a reconheceu.
4.1. Transforma estas duas frases simples numa frase complexa, introduzindo entre elas uma relação de oposição por subordinação.


IV

Recursos expressivos
1. "Os teus hão-de atrair-me para fora da toca, como uma música."
1.1. Explica o sentido desta frase.
1.2. Refere o nome da figura de estilo nela presente.

2. "Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei-tíe vestir o meu coração.
2.1. Explica o sentido desta afirmação.
2.2. Que figura ou figuras de estilo acontece(m) nesta passagem?






23.6.08

Li hoje quase duas páginas


Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E rí como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;

E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E qje as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Caeiro, O Guardador de Rebanhos, XXVIII



1. Nota-se, no início do poema, uma certa ironia sobre a poesia mística.
1.1. Identifique a justificação do riso do sujeito poético.
1.2. Mostre que há uma atitude antimetafisica de Caeiro.

2. Sentir e ter alma são características do ser vivo.
2.1. Explicite a razão de condenação dos poetas místicos.
2.2. Mostre em que medida a Natureza se deve amar pelo que é.

3. "(...) escrevo a prosa dos meus versos / E fico contente"
3.1. Confronte a atitude expressa por Caeiro nestes versos e a condenação que faz do poeta místico.
3.2. Esclareça a atitude especulativa do poeta que recusa o pensamento.



II

Comente, num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, a seguinte afirmação de Nelly Novaes Coelho:

Álvaro de Campos é o poeta moderno da dialéctica fundamental: eu civilizado versus eu poético, tentando conhecer os antinomias latentes no novo ser-forjado-pela-civilização, quando posto em confronto com o Absoluto.






Ao Gás


E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos revérberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

[...]

Cesário Verde, O Sentimento dum Ocidental


I

Após uma leitura cuidada, elabore um comentário global do poema transcrito, tendo em atenção os níveis formal, tónico, morfossintáctico e semântico, de modo a, entre outros aspectos, evidenciar:
- a cidade viva onde o grotesco e a decomposição se misturam ao belo e ao salutar;
- a caracterização das figuras femininas e uma certa humilhação;
- o trabalho de construção poética de acordo com a estética parnasiana;
- os sentimentos evidenciados e as sensações sugeridas;
- o propósito evidenciado em "Quisera que o real e a análise mo dessem" (v. 18);
- a expressividade da linguagem e os principais recursos estético-estilísticos.


II

Considere o juízo crítico a seguir transcrito e, entre duzentas e trezentas palavras, elabore um comentário bem estruturado, fundamentando-se em leituras realizadas.
Fernando Pessoa em Páginas Sobre Literatura e Estética (p. 126) afirma que Camilo Pessanha «ensinou a sentir veladamente; descobriu-nos a verdade de que para ser poeta não é mister trazer o coração nas mãos, senão que basta trazer nelas a sombra dele.»


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por quatrocentas e dezassete palavras, num texto de cento e vinte e nove a cento e quarenta e nove palavras.

Para exprimir este mundo, até então realmente desconhecido da poesia, embora não inteira¬mente ignorado de Tolentino - este novo mundo que completa o de Eça à luz de um radicalismo plebeu que o romancista não sentia -, Cesário renovou completamente a estilística tradicional da nossa poesia. Experimentou uma imaginária por vezes muito feliz. Introduziu no verso o processo queirosiano de suprir pelo adjectivo ou pelo advérbio uma relação lógica extensa, de imediatizar, pela surpresa da relação verbal, uma sugestão que morreria se se desdobrasse logicamente: «quando passas, aromática e normal»; «cheiro salutar e honesto ao pão no forno»; «pés decentes, verdadeiros»; «eu tudo encontro alegremente exacto»; «amareladamente, os cães parecem lobos»; etc. A par disto, Cesário consegue valorizar poeticamente o vocabulário e o tom de fala mais correntios na linguagem coloquial urbana embalando o leitor num ritmo que ondula entre a atenção ao pormenor e um abrir de horizontes, entre a sátira ou a degradação, que nos oprimem, e um relance de beleza real, que nos expande.
[...]
A coragem de assumir atitudes tidas como prosaicas não deixa de consentir muitos momentos frouxos, mas o que melhor distingue Cesário é o dom de chegar a percepções surpreendentes como estas: «Um parafuso cai nas lajes, às escuras»; pormenor que só por si denuncia o fundo acústico rarefeito da cidade anoitecida e despovoada; «e os olhos de um caleche espantam-se sangrentos»; «e o sol estende, pelas frontarias,/seus raios de laranja destilada», imagem que Pablo Neruda redescobriria ao falar também do sol lisboeta. Por outro lado, a Lisboa de Cesário, não apenas se diferencia nitidamente da Cidade baudelairiana, como ganha dimensões históricas: o poeta adivinha nas burguesias solteiras que tocam piano o mesmo histerismo das antigas freiras, também condenadas a uma estéril vida solteira por falta de noivos socialmente idóneos; de vez em quando dá a sentir, nas sombras de um templo ou dos arruamentos estreitos, o peso secular de tradições clericais redivivas; e os seus calceteiros talvez se inspirem nos de. um célebre quadro de Courbet, mas denunciam, como em geral os seus operários urbanos e a própria paisagem ainda suburbana, as origens rurais de que a Capital estava ainda a surgir. E, além disso, há em certos passos uma aflitiva ânsia de viver vidas alheias, presentes, passadas, futuras: o toque de grades prisionais ao sol-pôr é um «som/que mortifica e deixa umas loucuras mansas»; toda a panorâmica vespertina, actual e histórica, de Lisboa em O Sentimento dum Ocidental, afina, logo na primeira estrofe, por «um desejo absurdo de sofrer» [...]

António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa


22.6.08

Querida dona Felisbela


Bateu à porta devagarinho. Tocou uma vez, quase a medo, e esperou muito composta. Como quem sabe que vai ser vista à lupa antes de ser atendida. Espreitei pela lupa minúscula da porta e abri.
- Bom dia. Não me conhece mas disseram-me que me podia ajudar. Não sei ler nem escrever e gostava de aprender.
Tinha acabado de me levantar da cama, não conhecia aquela senhora baixinha, de cabelos brancos e sorriso infantil, não consegui fixar imediatamente o nome e fiquei ali de porta aberta sem saber bem o que fazer. Convidei-a a entrar e a sentar-se. Não me lembro exactamente em que mês ou ano isto aconteceu, mas sei perfeitamente quando é que ela começou a fazer parte da minha vida.
Felisbela Simas apresentou-se de forma muito delicada, sentada na beirinha da cadeira, as pernas recolhidas para trás e ligeiramente inclinadas sobre o lado (como antigamente se ensinava às senhoras), a carteira pousada no colo e as mãos firmes, entrelaçadas na alça.
Tinha 65 anos, dois filhos homens, dois netos verdadeiros e outro como se fosse e um marido que, embora morto, permanecia vivo no seu coração. Quando falou nele, não pôde conter as lágrimas e foi aquele gesto de avozinha querida que, quando fala do falecido, tira os óculos para limpar o canto dos olhos que me comoveu para sempre.
Não me conhecia, nunca nos tínhamos visto e eu era, na altura, pouco mais velha que os seus próprios netos, mas, mesmo assim, a Dona Felisbela não se importou nada que a visse chorar.
A única coisa que verdadeiramente a consumia era ter atravessado uma vida inteira sem saber ler nem escrever e achar que lhe podia faltar o tempo para aprender.
Disse-lhe que sim, que a ensinava com muito gosto e combinámos um calendário escolar. A primeira aula ficou marcada para a manhã seguinte. (...)
No dia seguinte, a campainha tocou à hora combinada e Dona Felisbela entrou com um sorriso rasgado e o ar mais feliz que eu jamais vi alguém ter. Numa pasta, novinha em folha, trazia um caderno, um lápis, afia, borracha e mata-borrão. Lembro-me do mata-borrão.
(...)
À medida que o tempo passava, fui conhecendo melhor a Dona Felisbela. Entre ditados, cópias e palavras difíceis, pousava o lápis e, num vagar de avó, contava-me histórias da sua vida. Ria, chorava e voltava a sorrir com uma facilidade extraordinária. Limpava as lágrimas, pedia desculpas envergonhada e alisava as folhas do caderno com o mesmo ar infantil com que se apresentou no primeiro dia.
(...)
Contava-me, então, os expedientes que usava para que ninguém desconfiasse que não tinha ido à escola.
- Quando precisava de apanhar um autocarro, fingia que me tinha esquecido dos óculos em casa e pedia às pessoas que estavam na paragem que me dissessem para onde iam os autocarros.
No banco e nas repartições públicas, iludiu a questão aprendendo a assinar o seu próprio nome. Trazia na carteira um cartão onde alguém desenhara o seu nome numa letra impecável que ela, secreta e incessantemente, só copiava até sentir que os rabiscos se pareciam. Não conseguia fazê-lo de cor, mas no dia em que tinha que levantar o cheque da reforma levantava-se mais cedo e treinava-se às escondidas.
Dona Felisbela era uma mulher profundamente generosa e atenta aos outros. (...) As horas que passámos juntas a fazer cópias e ditados foram muito mais do que simples aulas de Português. Foram lições de vida onde, em cada dia, a Dona Felisbela me ensinou a conjugar melhor o verbo amar.

Laurinda Alves, in revista Pública,
19 de Setembro de 1999
(texto com supressões)



I

1. Antes do episódio relatado, Dona Felisbela e a autora desta crónica não se conheciam.
1.1. Explicita como é que este facto se reflecte:
- na forma como Dona Felisbela bate à porta;
- na forma como é recebida pela cronista.

2. "Felisbela Simas apresentou-se de forma muito delicada, sentada na beirinha da cadeira, as pernas recolhidas para trás e ligeiramente inclinadas sobre o lado (como antigamente se ensinava às senhoras), a carteira pousada no colo e as mãos firmes, entrelaçadas na alça."
2.1. Interpreta o significado da postura de Dona Felisbela.

3. Explica por que motivo a autora se comoveu tanto com o facto de a Dona Felisbela ter chorado quando falou do falecido marido.

4. Salienta as razões que levaram Dona Felisbela a bater à porta de uma desconhecida.
5. Embora fosse já avó, Felisbela Simas tinha, frequentemente, atitudes de criança.
5.1. Copia, do texto, fragmentos que o provem.

6. Relata, resumidamente, os expedientes de que esta avó se servia para iludir o seu analfabetismo.

7. "Foram lições de vida onde, em cada dia, a Dona Felisbela me ensinou a conjugar melhor o verbo amar. "
7.1. Explica, por palavras tuas, o conteúdo desta passagem.


II

1. "Não sei ler nem escrever e gostava de aprender. "
1.1. Transforma esta frase complexa em três frases simples.
1.2. Substitui a conjunção copulativa e por outra mais expressiva neste contexto.

2. Copia do texto três diminutivos que pertençam às seguintes classes:
- um advérbio de modo;
- um adjectivo;
- um substantivo.

3. "Limpava as lágrimas, pedia desculpas envergonhada e alisava as folhas do caderno... "
3.1. Identifica o tempo em que se encontram as três formas verbais presentes neste excerto.
3.2. Explica o seu valor, enquanto tempo do passado.
3.3. Reescreve a frase transformando-a em três ordens dadas a Dona Felisbela.


III

1. Reconta, resumidamente, a história que nos é contada nesta crónica, respeitando as seguintes indicações:
- o texto deve ter entre 120 e 140 palavras, deve ser escrito na terceira pessoa e sem recurso ao discurso directo;
- os tempos verbais a usar devem ser do passado;
- a estrutura deve ser a seguinte:
Certo dia...
Embora surpreendida...
No dia seguinte...
À medida que o tempo passava...
Em resumo...





21.6.08

Lenda de Timor


Em tempos que já lá vão, vivia na ilha Celebes um crocodilo muito velho, tão velho que não conseguia caçar peixes no rio. Certo dia, apertado pela fome, decidiu aventurar-se nas margens, em busca de algum porco distraído que lhe servisse de refeição. Andou, andou, até cair exausto e desesperado, pois não encontrara nada e perdera as poucas forças que lhe restavam. Como havia de regressar à água? Valeu-lhe um rapaz simpático e robusto que teve pena dele e o arrastou pela cauda.
Em paga do serviço prestado, o crocodilo ofereceu-se para o transportar às costas sempre que quisesse navegar. O rapaz aceitou e fizeram várias viagens juntos.
Isso não impediu no entanto que, sentindo fome de novo, o crocodilo se lembrasse de comer o companheiro. Antes porém quis ouvir a opinião de outros animais e todos se mostraram indignadíssimos. Devorar quem o salvara? Que ingratidão!
Envergonhado e cheio de remorsos, o crocodilo resolveu partir para longe e recomeçar a vida onde ninguém o conhecesse. Como o rapaz era o único amigo que tinha, chamou-o e disse-lhe:
— Vem comigo à procura de um disco de ouro que flutua nas ondas perto do sol nascente. Quando o encontrarmos seremos felizes.
Mais uma vez viajaram juntos, agora sulcando o mar que parecia não ter fim… a certa altura o crocodilo percebeu que não podia continuar. Deteve-se por um instante e logo o corpo se transformou numa ilha magnífica.
O rapaz viu-se homem feito de um momento para o outro e verificou encantado que trazia ao peito o disco de ouro com que sonhara o crocodilo. Percorreu então as praias, as colinas, as montanhas, concluindo que ali realizaria o seu destino. Instalou-se para ficar e deu à ilha o nome de Timor que significa Oriente.

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada,
Editorial do Ministério da Educação (adaptado)


I

1. Em que situação se encontrava o crocodilo no início da história?

2. Quem o ajudou e como?

3. Como agradeceu o crocodilo a ajuda que recebeu?

4. «Quando o crocodilo teve novamente fome lembrou-se de comer o rapaz. Antes porém quis ouvir outras opiniões.» Qual foi a opinião geral dos outros animais?

5. Que decisão tomou, então, o crocodilo?

6. Que acontece no final da história?

7. Tendo em conta o final da lenda, explica o seu significado.



19.6.08

Aparição


Cristina. Está um dia bonito, Cristina. Os campos estalam de fecundidade, os homens lavram as terras, guiando os arados, as cegonhas, que vieram de longe, limpam os ver¬mes com o seu bico comprido. Algumas levantam voo, vão aonde não sei, talvez aos ninhos - que os grandes ninhos delas, de vergas entrançadas, talvez já estejam habitados nas chaminés, nas nervuras secas dos ramos. Correm três passos, abrem as asas e sobem. Ponho-me a olhá-las muitas vezes esticadas como fusos, as grandes asas aber¬tas, esfarrapadas nas pontas. Andam na terra como em andas, articulando as patas mecanicamente como robots. São mulas que puxam as grades, aos arados. Na terra inculta, nas bermas dos caminhos, grandes manchas brancas de malmequeres enfeitam uma memória de graça e de festa. De festa, Cristina, vamos ao Redondo, é dia de Carnaval. Está um dia belo de sol, de luz viva e quente com um assomo de Verão.
- Tu vens comigo, Cristina?
- Não, não vou consigo. Vou com o Alfredo.
Tens um costume de holandesa e eu vejo-te ainda, tão graciosa na tua saia folhada, de barras verticais azuis e brancas, uma blusa de rendas, socos altos, chapéu branco de um tecido rígido com bicos erguidos como um barco ou um templo oriental. Não vais então comigo, vais com Alfredo, com Ana, com o Chico. Eu vou com tua mãe e Sofia: o teu pai não pode ir.
A estrada alonga-se por entre as searas verdes, com manchas, à distância, de cores variadas, amarelas, brancas e roxas, com manchas castanhas das terras lavradas, um castanho húmido de gleba, fecunda. Alfredo vai à frente com o jeep, marcando a mar¬cha, eu atrás com o meu pequeno Volkswagen. Sofia senta-se ao meu lado, apesar de eu lhe sugerir a meios-olhos e palavras que devia ir atrás com a mãe.
- Lindo dia, lindo campo - digo eu em voz alta. - Deve ser a única oportunidade do Alentejo, esta, da Primavera.
- Gosto mais em Agosto - opõe Sofia, olhando em frente.
Terra calcinada, deserto estéril - pensei -, a cor dos restos do incêndio, o teu destino de desastre, Sofia. Sim, entendo. Madame Moura concordou comigo e para isso encostou-se ao nosso banco, onde lhe sinto os braços. Tinha costela do Norte, do Minho, talvez, a água,o verde, o lirismo do que é mimoso e tranquilo. Sofia responde ainda - o Alentejo era trá¬gico, não lírico, só a praga, a blasfémia ardente o exprimia. Alfredo acelera a marcha, já o não vemos. Eu sigo em andamento moderado, trago o carro em «rodagem» ou trago em «rodagem» a minha aptidão de condutor. Mas lá para diante apanhamo-lo enfim: ele esta-cionara a uma sombra. Acolhe-nos à estrada, pergunta-me que volante sou eu. Rochas nuas como ossos afloram aqui e além debaixo de oliveiras, de azinheiras, um cheiro intenso a germinação alastra sobre a gravidez da terra. Distingo sobretudo um aroma a mimosa, esse aroma quente, genesíaco, a força e a liberdade, bebido a haustos fundos e a braços abertos. Alfredo localiza-a adiante, toda copada de verde e oiro. É ele próprio que lhe vai cortar alguns ramos para enfeitarmos os carros. Cristina atira serpentinas do alto de uma seara para a estrada, uma leve brisa ondeia-as para longe, prende-as nos ramos de alguma árvore. Ata depois algumas aos pára-choques dos carros, aos fechos das portas onde se prendem também ramos de mimosas com as suas folhas de renda, os seus cachos de bolas de oiro em pó. E, ovantes assim de festa, retomamos a marcha. O ar vibra nas serpentinas retesas, estala algumas, que ficam para trás enroladas na estrada, vai connosco, com a nossa festa, excitação de boémia e de aventura.

Vergílio Ferreira, Aparição



I

1. "- Lindo dia, lindo campo - digo eu em voz alta. - Deve ser a única oportunidade do Alentejo, esta, da Primavera."
1.1. Recolha uma afirmação que, em síntese e por contraste, melhor explicite a razão de Alberto considerar "única oportunidade".
1.2. Explique o sentido da expressão "esse aroma quente, genesíaco."
1.3. Indique as personagens que melhor aderem à "oportunidade" daquele dia. Justifique essa adesão.

2. Há uma identidade entre a terra (paisagem) e as personagens. No entanto, as reacções são diversas.
2.1. Faça um levantamento dos elementos semânticos que aproximam Sofia do espaço existencial da planície.
2.2. Mostre em que medida há nesta relação uma premonição do destino de Sofia.

3. "[...] um cheiro intenso a germinação alastra sobre a gravidez da terra."
3.1. Demonstre que o processo criador da vida se percebe gradativamente nesta afirmação.
3.2. Identifique os recursos estilísticos presentes na expressão.


II

Em Carta ao Futuro (Vértice, 1958), Vergílio Ferreira afirma:
«Para o homem vulgar (para cada um de nós também, quase sempre) a vida resolve-se numa presença em, num ser o mundo que existe como por si mesmo, sem pensar-se que é através de nós, sem um regresso à vertigem de estarmos sendo nós, daquilo que somos.»

Numa dissertação cuidada e bem estruturada, de cem a duzentas palavras, comente a afirmação transcrita, recordando as suas leituras, mormente sobre Aparição.


"Despondency" (Desesperança)




Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...

Deixá-la ir, a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do sul se levantaram...

Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...

Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida.

Antero de Quental, Sonetos Completos


Depois de uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema transcrito, não esquecendo os níveis formal, fónico, morfossintáctico e semântico, mas salientando:

- a relação entre o título e a estrutura anafórica;
-os valores semânticos em "ave" (v. 1), "vela" (v. 5), "alma lastimosa" (v. 9), "nota desprendida"^. 12);
- os valores sugestivos no último terceto, tendo em conta:
• a expressão "deixá-la ir" (v. 12)
• a enumeração "nota [...]" (v. 12), "última esperança" (v. 13), "vida" (v. 14), "amor" (v. 14), "vida" (v. 14)
• o polissíndeto e a pontuação;
- a mensagem que se depreende ao longo do poema;
- a inserção numa das fases ou linhas temáticas da poesia anteriana e as marcas da tendência nocturna em oposição à apolínea.


II

Num texto bem estruturado, de duzentas a trezentas palavras, disserte sobre o sonho e o desengano da Geração de 70, perfeitamente reflectidos na obra de Antero de Quental, cujos cânticos de amor se mistu-ram à luta pela Liberdade e à decepção.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e trinta e seis palavras, num texto de cento e dez a cento e trinta palavras.

[...] Além de tudo, Antero teceu um excepcional lirismo português com a dialéctica de fé e desespero, de sol e lua, de esperança a debater-se entre uma fé morta e outra a nascer.
António Sérgio dilucida de um modo impressivo a alternação dos dois Anteros, o nocturno e o apolíneo. Mas, sem sombra de dúvida, o que em Antero resiste de poético é mais átono que tónico, mais desistente que combativo.
As Odes Modernas vibram panfietariamente e sem persuasão e fundura poética; elas dão o lamiré de A Velhice do Padre Eterno e da retórica jacobina. A série de sonetos A Ideia articula as alegorias do pensamento antitranscendentalista com uma frouxidão prosaica, apenas, talvez, poetizada no Soneto IV, e raramente a combatividade imanentista atinge verdadeira tensão lírica nas poucas poesias em que se exprime (Mais Luz, Justitia Mater, A Um Poeta, Palavras de Certo Morto). O poeta dos Sonetos é da sombra de um grande sonho inexequível nos termos proudho-nianos em que se vasou.
E talvez Antero se deva considerar, por isso, mais do que tudo poeta, homem cujas ânsias se realizam pelo simples verbo - e nele pela conscientífícação desistente, pelo deixar-se ir ou pelo negrume íntimo que se maldiz (Os Cativos, Os Vencidos, Hino da Manhã, Consulta, etc.).
O revolucionarismo viril parece mais não fazer que elevar a energia potencial do idealismo à máxima altura de onde possa despenhar-se em realização contemplativista, em queda inerte vibrando no verbo. Antero parece ter sido revolucionário e imanentista o quanto necessário para cair em cascata poética de um alto potencial.
Seja como for, a poesia mais persuasiva de Antero é posterior à sua desistência de uma revolução utópica e de um Programa para os Trabalhos da Geração Nova que o entusiasmaram por volta de 1871. Essa desistência lírica cristalizara já antes em torno da Mulher, que lhe deu uma erótica intensa e originalíssima entre nós (Beatrice, Amor Vivo, Visita, Abnegação, Aparição, Mãe). O amor anteriano assume a forma de aspiração indefinida, muito próxima do místico amor neoplatónico; em Antero há, por isso, muito naturalmente, reminiscências de Camões, o nosso grande lírico da erótica platonizante (A. M. C., Tormento do Ideal, Aspiração, Ideal, A Alberto Teles).

Óscar Lopes, Álbum de Família, Ed. Caminho (p. 171)


IV

"Viver não foi em vão, se isto é vida
Nem foi de mais o desengano e a dor."

Antero de Quental

Antero de Quental lutou muito para modificar a sociedade do seu tempo. Num texto bem organizado, expõe as razões pelas quais nunca devemos desistir de lutar pelos nossos ideais, sobretudo pelo amor à vida.





18.6.08

As palavras interditas


Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
E preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidade bombardeadas.

Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas (1951)



O título deste poema, que é afinal o título do livro a que pertence, remete imediatamente para um tempo - 1951, regime salazarista - em que a falta de liberdade se estendia às palavras, censuradas, interditas.

Faz a análise interprelativa da poema, considerando os elementos propostos que deverás entender, não como tópicos independentes, mas como aspectos interligados e irradiantes.
• a relação eu-tu (proximidade? distância?);
• a articulação amor/realidade;
• a oposição amor/realidade:
- a realidade nocturna, de «cinza», de «sombra», de «palavras interditas», de «solidão» de «dias quebrados», de «horizontes de cidades bombardeadas»
- o amor, a inocência do «tempo que começa», a noite que «cresce apaixonadamente», as «palavras interditas» secretamente enviadas, a furar o bloqueio;
• o amor; manifesto de luta contra a opressão, o medo e a guerra, pela liberdade;
• o jogo de luz e sombra;
• o carácter fragmentário da linguagem (vozes que se cruzam clandestinas? urgentes?);
• o carácter metafórico da linguagem.

10.6.08

Vivem em nós inúmeros


Vivem em nós inúmeros,
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos,
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.

Ricardo Reis, Odes


I

Depois de uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- a multiplicidade de naturezas;
- as particularidades relevantes do plano formal;
- o paganismo ou a atitude nesciente em relação ao mundo;
- o enquadramento do poema na criação poética de Fernando Pessoa.


II

Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a citação a seguir transcrita com base em leituras dos poetas de Orpheu e do contexto literário em que ele surge.
«O Orpheu marcará essa nova era no panorama literário do século XX: ele será a pedrada no charco, nos «pauis» da nossa estagnação, o dinamismo, a viagem (para fora e para o futuro), o grito.»






7.6.08

Homero



Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio.
O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar dum marinheiro ou dum barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos. E trazia sempre na mão direita duas conchas. (...)
O Búzio aparecia ao longe. Via-se crescer dos confins dos areais e das estradas. Primeiro jul-gava-se que fosse uma árvore ou um penedo distante. Mas, quando se aproximava, via-se que era o Búzio.
Na mão esquerda trazia um grande pau que lhe servia de bordão e era apoio nas longas caminhadas e sua defesa contra os cães raivosos das quintas. A este pau estava atado um saco de pano, dentro do qual ele guardava os bocados secos do pão que lhe davam e os tostões. O saco era de chita remendada e tão desbotada pelo sol que quase se tornara branca.
O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento e, dois passos à sua frente, vinha o seu cão, que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido e o focinho preto.
E pelas ruas fora vinha o Búzio com o sol na cara e as sombras trémulas das folhas dos plátanos nas mãos.
Parava em frente de uma porta e entoava a sua longa melopeia ritmada pelo tocar das suas castanholas de conchas.
Abria-se a porta e aparecia uma criada de avental branco que lhe estendia um pedaço de pão e lhe dizia:
-Vai-te embora, Búzio.

Sophia Andresen, Contos Exemplares



I

1- Caracteriza, tanto quanto possível pelas tuas próprias palavras, a figura retratada no texto
2- Porque lhe chamariam "Búzio"?
3- Que expressões evidenciam melhor a sua condição social?
4- Das comparações feitas no segundo parágrafo, qual te parece mais sugestiva? Porquê?
5- Este excerto é um texto literário. Comenta esta afirmação.


II

1- Explica o significado dos seguintes vocábulos:
a) confins; b) desbotada; c) inócuo; d) estropiado; e) rudimentar; f) retórica.

2- Faz a análise sintáctica das seguintes frases:
a) O Búzio aparecia ao longe.
b) As pessoas davam ao Búzio um pedaço de pão.

3- Reescreve as frases a) e b) passando o verbo, primeiro para o Pretérito Perfeito, Pretérito Mais-que-Perfeito e Futuro, do modo Indicativo.

4- Classifica morfologicamente as seguintes palavras:
a) atrevimento; b) vós; c) gigantesca; d) ontem; e) pertencem; f) nosso.

5- Transforma em nomes cada um dos seguintes adjectivos:
a) robusto; b) simples; c) zangado; d) pálido; e) sujo; f) feroz


III

Explica porque é que a Língua Portuguesa é considerada uma língua românica. Que outras línguas românicas conheces?

4.6.08

Proençaes soen mui ben trobar




Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar.

Pero que troban e saben loar
sas senhores o mais e o melhor
que eles poden, soõ sabedor
que os que troban quand'a frol sazon
á, e non ante, se Deus mi perdon,
non an tal coita qual eu ei sen par.

Ca os que troban e que s'alegrar
van eno tempo que ten a color
a frol consigu', e, tanto que se for
aquel tempo, logu'en trobar razon
non an, non viven (en) qual perdiçon
oj'eu vivo, que pois m'á-de matar.


El-Rei D. Dinis


I

1. Identifique o tipo de composição feita pelos provençais.

2. Refira o significado da relação entre a expressão do amor e a natureza primaveril.

3. Em que momento é que os provençais fazem os seus cantares de amor?

3. Que argumento é que o poeta utiliza para afirmar a superioridade dos trovadores galaico-portugueses?

4. Explique até que ponto esta cantiga de D. Dinis sofreu a influência da poesia provençal.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de António José Saraiva e Óscar Lopes:

«Elaboraram os provençais o ideal do amor cortês, muito diferente do idílio rudimentar nas margens dos rios ou à beira das fontes que os cantares de amigo nos deixaram entrever. Não se trata agora de uma experiência sentimental a dois, mas de uma aspiração, sem correspondência, a um objecto inatingível.»




3.6.08

Este inferno de amar

Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... – foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Almeida Garrett, Folhas Caídas, 1853



I

1. Explicite o assunto do poema.

2. Diga o que entende por «inferno de amar».

3. Comente a evolução temporal no poema: passado, presente e futuro.

4. Identifique dois recursos de estilo presentes no poema e justifique o seu emprego pelo poeta.

5. Analise o poema quanto à sua estrutura externa.

6. Explique a formação das seguintes palavras: ardentes, amante e apaixonadamente.

7. Dê respectivamente um sinónimo de despertar e de serena, e um antónimo de amar e de apagar.

8. Classifique as seguintes orações:

– «E os meus olhos...»

– «Só me lembra que um dia formoso / Eu passei...»

– «Mas nessa hora a viver comecei.»

9. Construa uma frase sintacticamente correcta utilizando as mesmas conjunções das orações anteriores.


II

Num máximo de 15 linhas, relacione aquilo que Almeida Garrett pensava sobre o amor e aquilo que outros poetas que estudou nas aulas pensavam.