26.5.08

Cena de Joane, o Parvo




Joane: Hou do barco!
Anjo: Que me queres?
Joane: Queres-me passar além?
Anjo: Quem és tu?
Joane: Samica alguém.
Anjo: Tu passarás, se quiseres;
Porque em todos teus fazeres
Per malícia nom erraste.
Tua simpreza t’abaste
Para gozar dos prazeres.


Samica: provavelmente
Simpreza: simplicidade, ingenuidade
Malícia: má intenção



I

1. O parvo, ao contrário de outras personagens, quando chega ao cais não leva nada do mundo.
a) Como interpretas este facto?
b) Poderá isto ser um indicador de que Joane se vai salvar? Explica.

2. O anjo autoriza Joane a entrar na barca que vai para o Paraíso.
a) Que razões apresenta o anjo para justificar essa decisão?
b) Concordas com a decisão do anjo? Justifica a resposta.

II

Desenvolve o tema: A intenção de Gil Vicente ao escrever esta obra.

III

1. Divide e classifica as orações da frase: “Tu passarás (…) erraste”

2. Classifica morfologicamente as palavras: porque, alguém, além.

3. Diz que função sintáctica têm as expressões ou palavras:
a)”Que” (2º verso)
b)”tua simpreza” (9º verso)
c)”para gozar dos prazeres” (10º verso)

4. Nomeia e descreve os processos fonéticos presentes:
a) lacum > lago
b) tibi > tii > ti (2)



22.5.08

Retrato

hostingpics.net

No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.
Melodia
distante e segura;
irrompendo da terra,
cálida, madura.
Mar imenso,
Praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma!

Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro



I

1. "No teu rosto começa a madrugada." (v. 1)
1.1. Explique o sentido da afirmação.
1.2. Identifique os recursos estilísticos utilizados.

2. Observe a construção enumerativa e circular do poema.
2.1. Faça o levantamento dos elementos que semanticamente aproximam ao valor presente em "rosto"
2.2. Identifique as categorias morfológicas predominantes.
2.2.1. Mostre a expressividade dessas categorias morfológicas.

3. As frases do poema, à excepção da primeira, surgem como nominais.
3.1. Identifique o predicado que se subentende em cada uma dessas frases.
3.2. Comente a possível intenção da ausência de explicitação do grupo verbal.


II

Produza um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras, de acordo com uma das opções seguintes:

A. Estabeleceu, de forma inequívoca, a relação directa do homem com a sua circunstância física e psicológica. Melhor do que ninguém, até hoje, Nemésio caracterizou o peso telúrico e a carga ances-tral do açoriano: «O mar é livre de se mover, não de mudar de sítio. O ilhéu morre de mobilidade numa situação perpétua.»

António Valdemar, in Diário de Notícias, 20 de Fevereiro de 1998


B. Se o arte é «realidade vista através de um temperamento», Régio não empenha um temperamento nos seus quadros de miséria social; deixa demasiado ò vista uma intenção moral ou religiosa previsível portanto sumária, pois o real é inesgotável e, por isso, o melhor toque de um denso realismo consiste na originalidade orgânica e inestancá-vel de juízos de valor, de atitude humoral ou «temperamento».

Oscar Lopes, Entre Fialho e Nemésio, INCM, 1987


C. Florbela Espanca, que foi uma das precursoras do movimento de emancipação literária da mulher, legou-nos uma poesia sensual, convulsa e ardente, em que cantou a beleza e o erotismo femininos, os momentos de ternura e de desencanto e manifestou o seu desejo quase obsessivo do absoluto e do infinito.



21.5.08

Frei Luís de Sousa, Acto II,

CENA XIV
Madalena, Jorge e Romeiro.

(...)

JORGE – Homem, acabai!
ROMEIRO – Agora acabo: sofrei, que ele também sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: "Ide a D. Madalena de Vilhena e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis aqui está vivo por seu mal e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas de há vinte anos que o trouxeram cativo".
MADALENA (Na maior ansiedade.) – Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem... esse homem... Jesus! esse homem era... esse homem tinha sido... levaram-no aí de onde?... De África?
ROMEIRO – Levaram.
MADALENA – Cativo?...
ROMEIRO – Sim.
MADALENA – Português?... cativo da batalha de...
ROMEIRO – De Alcácer-Quibir.
MADALENA (Espavorida.) – Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo dos meus pés?... Que não caem estas paredes, que me não sepultam já aqui?...
JORGE – Calai-vos, D. Madalena: a misericórdia de Deus é infinita; esperai. Eu duvido, eu não creio... estas não são coisas para se crerem de leve (Reflecte e logo, como por uma ideia que lhe acudiu de repente.) Oh! inspiração divina... (Chegando ao romeiro.) Conheceis bem esse homem, romeiro, não é assim?
ROMEIRO – Como a mim mesmo.
JORGE – Se o víreis..., ainda que fora noutros trajos... com menos anos – pintado, digamos – conhecê-lo-eis?
ROMEIRO – Como se me visse a mim mesmo num espelho.
JORGE – Procurai nesses retratos, e dizei-me se algum deles pode ser.
ROMEIRO (Sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João.) – É aquele.
MADALENA (Com um grito espantoso.) – Minha filha, minha filha, minha filha! (Em tom cavo e profundo.) Estou... estás... perdidas, desonradas... infames! (Com outro grito do coração.) Oh! minha filha, minha filha! (Foge espavorida e neste gritar)


CENA XV
Jorge e o Romeiro – que seguiu Madalena com os olhos, e está alçado no meio da casa, com aspecto severo e tremendo.

JORGE – Romeiro, romeiro! quem és tu?!
ROMEIRO (Apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal.) – Ninguém!

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Acto II




I

1. Integre o excerto que acabou de ler na estrutura global da obra a que pertence.

2. Descreva o estado de espírito das diferentes personagens.

3. Refira as consequências da chegada do Romeiro.

4. Explicite de que modo é que o fatalismo é uma presença constante no Frei Luís de Sousa.

5. Explique a formação das seguintes palavras: desonradas e espavorida.

6. Identifique no texto duas conjunções.

7. Construa uma frase complexa com as conjunções que encontrou.


II

Redija um texto argumentativo partindo da seguinte afirmação: «A vida muitas vezes reserva-nos surpresas bem desagradáveis».




19.5.08

Joana (Condessa da Flandres)


[Joana+da+Flandres.gif]

Joana escolheu o vestido azul e uma fieira de pérolas para se enfeitar.
«Logo à noite hei-de ser a mais bonita», pensou. «Até o próprio rei ficará admirado quando eu entrar no salão.»
Contente consigo própria, chamou a aia para que lhe penteasse os cabelos com um pente de ouro fino. Depois mandou vir perfumes e escolheu demoradamente.
— Este é muito forte! Este é muito fraco! Prefiro um que cheire a flores silvestres…
Ansiosa, agitada, encharcou o pescoço, as mãos, os braços, quase manchando o vestido.
A aia sorria complacente.
— Esteja quieta, menina. Assim não consigo penteá-la.
— Estou bonita?
— Está linda. Mas diga-me cá, a que se deve tanto entusiasmo?
— Hum… é por causa do baile.
— Ora, ora! Desde que chegámos a Paris há bailes e saraus todas as noites. O rei Filipe Augusto faz questão de ver a corte muito animada. Está-me a parecer que o motivo é outro!
Joana corou e baixou os olhos. Não queria confessar a verdade, mas o seu coração alvoroçava-se só de pensar no príncipe português que aparecera há pouco vindo de terras longínquas e por quem todas as damas suspiravam apaixonadíssimas.
Claro que a aia sabia isso muito bem. À cautela até fizera algumas investigações por conta própria.
O jovem dizia-se filho de um tal rei D. Sancho I de Portugal. Por que teria vindo para tão longe da corte de seu pai? Só para conhecer mundo?
(…)
De facto tratava-se de um príncipe que decidira viajar para satisfazer a sua curiosidade e desejo de aventura. Todos os que lidavam com ele só tinham a dizer bem.
Gabavam-lhe a inteligência, a bondade, as boas maneiras.
Podia portanto deixar que a sua menina o cativasse. Se queria casar com ele, decerto casaria mesmo, porque nenhum fidalgo digno desse nome virava costas à linda e riquíssima condessa da Flandres. Muitos já tinham tentado pedi-la em casamento, mas até à data Joana preferira continuar solteira. Agora o caso mudara de figura! Bastava olhar para ela e qualquer pessoa ficava a saber o que lhe ia na alma.
— Espero que sejam muito felizes e tenham muitos meninos para eu cuidar!
— O que é que estás a dizer? — perguntou Joana, fazendo-se desentendida.
A aia não respondeu. Limitou-se a abanar a cabeça e sorriu, carinhosa como sempre.
— Vá lá, não se atrase. São horas de descer ao salão.
Na corte de Filipe Augusto as festas eram sumptuosas. Havia músicos, jograis, bailarinas. Às vezes cantava-se e dançava-se até de madrugada.
Fernando bendizia a hora em que se lembrara de ir para Paris. Fora muito bem recebido, o que não era para admirar sendo filho de rei. Mas sentia que o apreciavam, que gostavam dele. As mulheres então, perdiam a cabeça! Riam-se de tudo o que dissesse, lançavam-lhe olhares talvez demasiado directos e divertiam-se, fingindo-se incapazes de lhe pronunciar o nome. Mas só podia tratar-se de brincadeira. Um nome tão simples!
De qualquer forma, tinham graça a carregar nos «rr». Em vez de Fernando diziam «Ferrand».
— Pois seja! Não soa mal! Ficarei Ferrand para o resto da vida.
A decisão tinha muito que ver com negócios de amor.
Entre as raparigas casadoiras havia uma que o cativara desde o princípio. Nova, bonita, simpática, vestia-se com elegância em tons suaves. E usava cabelos soltos enfeitados com belíssimas fieiras de pérolas. E o sorriso? Um encanto!
Além de tudo, era riquíssima. O pai desaparecera em combate e ela herdara os condados da Flandres e de Hainaut.
— Precisa de alguém que a ajude a governar as suas terras. Se me quiser, faz uma boa escolha.
Nessa noite, quando a viu entrar na sala e avançar num passo miudinho, gracioso, ficou alvoraçado, porque os olhos de ambos encontraram- se e teve a certeza que o queria, sim. Que o amava.
«Havemos de casar e ser muito felizes!», pensou. Pensou mas não disse porque antes de falar era necessário obter autorização do rei.
No entanto foi-se chegando de modo a ficarem sentados lado a lado. Por baixo da mesa, encostou-lhe o pé. Por cima da mesa, afagou-lhe a mão…
A atmosfera adquiria reflexos dourados!
Quase não trocaram palavra, mas ambos desejavam que o banquete se prolongasse horas a fio.
Que, se possível, nem tivesse fim!


Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada,
Histórias e Lendas da Europa (adaptado)


1. Por que razão Joana queria ser a mais bonita?

2. Por quem estava Joana apaixonada?
2.1. Refere algumas das qualidades do seu apaixonado.

3. Desde que Joana chegou a Paris há bailes e saraus todas as noites.
3.1. Descreve como eram essas festas.

4. Qual a atitude das mulheres em relação ao jovem português?

5. Quais eram os sentimentos do jovem em relação a Joana?

6. Que aconteceu de importante entre o jovem e Joana?

7. Explica a seguinte expressão:
«A atmosfera adquiria reflexos dourados!»

8. Sublinha os adjectivos presentes nas seguintes frases:
a) «Logo à noite hei-de ser a mais bonita.»
b) «Além de tudo era riquíssima.»
8.1 Identifica o grau em que cada um deles se encontra.



Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!

MATILDE: É o melhor dos amigos, António.
SOUSA FALCÃO: Nem isso sou! Só é digno de ser amigo de alguém quem de si próprio
é amigo, Matilde, e eu odeio-me com toda a força que me resta.
Fosse eu digno da ideia que de mim mesmo tinha, e estava lá em baixo, em S. Julião da Barra, ao lado de Gomes Freire, esperando a morte...
Quando os justos estão presos, só os injustos podem ficar fora das cadeias e eu, Matilde, vendi-me para estar, agora, aqui, a vê-lo morrer.
As ideias de Gomes Freire são também as minhas, mas ele vai ser enforcado -e eu não.
Os motivos que os governadores tiveram para prendê-lo, também os tiveram para me prenderem a mim, mas a ele prenderam-no -e a mim não.
Faltou-me sempre coragem para estar na primeira linha...
Durante estes meses, duas vezes dei comigo à berma de lhe chamar louco, para desculpar a minha própria cobardia.
Há homens que obrigam todos os outros homens a reverem-se por dentro... É por mim que estou de luto, Matilde!
Por mim...
MATILDE: ... Isto é o fim, António...
Aceitou o inevitável. SOUSA FALCÃO: É o fim... Quando virmos, lá em baixo, o clarão da fogueira, já ele morreu...
MATILDE: O clarão da fogueira! Quando o virmos, já ele esta aqui ao pé de nós! Foi para o receber que eu vesti a minha saia verde!
(Pausa)
Vem dizer-nos adeus, António, vem abraçar-nos pela última vez. Nunca partiu para uma batalha sem se despedir de mim e, agora, que se acabaram as batalhas, vem apertar-me contra o peito! [...]
A partir deste momento os gestos e as palavras de Matilde são quase infantis. Está a despe-dir--se do homem que amou e fá-lo com uma ternura infinita e uma dignidade que a nin-guém passa despercebida.

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!



I

1. Enquadre o excerto transcrito nas estruturas externa e interna da obra a que pertence.

2. "[...] e eu odeio-me com toda a força que me resta."
2.1. Estabeleça a relação que existe entre o sentimento de ódio e este paralelismo antitético:
- "os justos [...] os injustos"
- "[...] ele vai ser enforcado -e eu não."
- "[...] a ele prenderam-no -e a mim não."
2.2. Explicite, pela citação, a metáfora presente em "Épormim que estou de luto, Matilde!"

3. Traduza o significado do símbolo com que a fogueira se identifica.

4. Diga em que medida a prosódia torna verdadeiramente expressivas as falas de Matilde.

5. "[...] agora, que se acabaram as batalhas [...]"
5.1. Comprove que Gomes Freire de Andrade nem perdeu as batalhas nem perdeu a guerra.

6. O vocativo está disperso ao longo do texto.
6.1. Refira-se ao papel que desempenha no diálogo entre as personagens.


II

Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, comprove que a afirmação seguinte bem pode aplicar-se à obra Felizmente há Luar!.
Luís de Sttau Monteiro, numa entrevista que concedeu ao Jornal de Letras, afirmou: «Para mim há uma coisa sagrada: ser livre como o vento.»



14.5.08

Como quando do mar tempestuoso




Como quando do mar tempestuoso
o marinheiro, lasso e trabalhado(1),
d’um naufrágio cruel já salvo a nado,
só ouvir falar nele o faz medroso;

e jura que em que(2) veja bonançoso
o violento mar, e sossegado
não entre nele mais, mas vai forçado
pelo muito interesse cobiçoso;

assi, Senhora, eu, que da tormenta
de vossa vista fujo, por(3) salvar-me,
jurando de não mais em outra ver-me;

minh’alma que de vós nunca se ausenta,
dá-me por preço ver-vos, faz tornar-me
donde fugi tão perto de perder-me.

Luís de Camões



(1) trabalhado: cansado dos trabalhos pesados
(2) em que: ainda que
(3) por: para



I

1. Neste texto estabelece-se uma relação de semelhança entre duas situações.
1.1. Delimite as duas partes lógicas do texto.
1.2. Indique e classifique morfologicamente os conectores que estabelecem a relação indicada.
1.3. Sintetize a contradição patente no comportamento do marinheiro.
1.4. Transcreva os segmentos textuais da segunda parte que correspondem aos seguintes elementos da primeira:
1.4.1. marinheiro lasso e trabalhado (v.2);
1.4.2. mar tempestuoso (v.1);
1.4.3. jura que […] não entre nele mais (vs. 5 a 7);
1.4.4. mas vai, forçado/pelo muito interesse (vs. 7 e 8);
1.5. Classifique a figura de estilo presente na expressão tormenta da vossa vista (vs. 9 e 10) e comente a sua expressividade.

2. A fraqueza confessada pelo sujeito poético é também uma forma de reforçar a confissão do amor.
2.1. Explique porquê.
2.2. Identifique o destinatário da confissão.

3. Faça a análise formal do soneto, indicando:
3.1. a estrutura externa do texto;
3.2. a divisão das sílabas métricas do 1º verso;
3.3. o esquema rimático.

4. Justifique a integração do texto na corrente renascentista da poesia camoniana.

5. Este poema dá-nos uma visão tipicamente camoniana do amor.
A partir de leituras anteriores elabore um texto argumentativo de 150 a 200 palavras, subordinado ao tema A vivência do amor nos sonetos de Camões.


Não te amo


Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n 'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett, Folhas Caídas, 1853



I

1. Explicite o assunto do poema.

2. Diga por que razão é que o poeta não pode amar.

3. Explique em que medida é que o poeta se culpabiliza pela sua impossibilidade de amar.

4. Comente as duas concepções do amor presentes no poema.

5. Identifique dois recursos de estilo presentes no poema e justifique o seu emprego.

6. Em que corrente literária se integra o poema «Não te amo»? Justifique a sua resposta expondo algumas das características dessa corrente literária.

7. Explique a formação das seguintes palavras: forçado e indigno.

8. Dê um sinónimo de cada uma das seguintes palavras: jazigo e fero.

9. Faça o levantamento das conjunções existentes na última estrofe do poema.

9.1. Construa uma frase complexa servindo-se de duas das conjunções que encontrou.


II

Relacione a contraditória concepção do amor nas Folhas Caídas de Almeida Garrett com a concepção veiculada por Luís de Camões nos sonetos.






13.5.08

O conto das mentiras

Vou contar-vos uma coisa. Vi dois frangos assados a voar; voavam rápidos, com o ventre virado para o Céu e as costas para o Inferno; e urna bigorna e uma mó que nadavam no Reno, devagar e suavemente, enquanto uma rã devorava uma relha de arado, sentada no gelo, no dia de Pentecostes. Três indivíduos, com muletas e pernas de pau, perseguiam uma lebre: um era surdo; outro, cego; o terceiro, mudo; e o quarto não podia mover uma perna. Quereis saber o que aconteceu? Pois o cego foi o primeiro a avistar a lebre e a correr pelo campo; o mudo chamou o tolhido e o tolhido agarrou-a pelo cachaço. Uns homens que queriam navegar por terra içaram vela e avançaram através de vastos prados, e ao atravessar uma alta montanha naufragaram e afogaram-se. Um caranguejo perseguia uma lebre e urna vaca subira a um telhado. Há um país em que as moscas são tão grandes como as nossas cabras. Abre a janela para que possam sair as mentiras.

Jacob e Wilhelm Grimm (irmãos Grimm), "O conto das mentiras",
in A Chave de Ouro e Outros Contos, Texto Ed.


I

1. Os autores optaram por escrever este conto num só parágrafo. No entanto, por conter várias pequenas histórias, ele poderia ser escrito com uma pequena história em cada parágrafo. Escreve o início de cada um desses possíveis parágrafos.

2. Escreve a história dos frangos e a história dos homens que queriam navegar, de modo a não conterem mentiras.

3. Explica em que consistem as mentiras da história da bigorna, da mó e da rã.

4. Transcreve partes da história dos três indivíduos que evidenciem duas mentiras.

5. Agora, constrói o teu Conto das Mentiras. Usa a tua imaginação e não te deixes influenciar pelas situações criadas pelos irmãos Grimm.





12.5.08

Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer te
algüa causa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver te,
quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões


I

1. Destaque o tema e o assunto deste soneto.

2. Indique o significado do adjectivo “gentil” neste contexto poético.

3. Há no soneto dois advérbios de lugar que põem em evidência a distância existente entre o poeta e a sua amada.
3.1. Indique-os
3.2. A que lugares se referem essas palavras?

4. A expressão “alma minha...” Contém, sob o aspecto fónico, uma figura que actualmente é evitada. Refira-a, explicando em que consiste.


File:Psyche et LAmour.jpg

11.5.08

Uma Prenda inesperada


Numa grande cidade onde as ruas eram compridas que pareciam não ter fim e os prédios tão altos que as antenas da televisão nos telhados quase tocavam nas nuvens e onde os automóveis, camionetas, autocarros, motas e bicicletas corriam em longas, longas filas, e onde as pessoas formigavam apressadamente para cá e para lá, vivia num bairro pobre, num sexto andar, porta 5, o pequeno Miguel com a mãe.
A mãe passava oito horas por dia numa fábrica de gabardinas a pregar botões. Nessas horas Miguel ficava sozinho em casa ou descia à rua para tomar parte nas brincadeiras dos meninos. Mas como era franzino e se cansava depressa, sentava-se então na borda do passeio a desenhar, com um pedacito de giz, figuras sobre o pavimento. Ansiava por um amigo que como ele gostasse de conversar, de contar histórias e de escutar histórias e que também não quisesse andar todo o tempo em corridas, a soltar gritos e a dar tiros com pistolas de plástico. Mas como ninguém se mostrasse disposto a juntar-se-lhe, ele regressava ao seu andarzinho, sentava-se à janela e olhava para as numerosas janelas do prédio em frente.
Certo dia, quando o Miguel se encontrava sentado na borda do passeio a desenhar as suas figuras sobre o pavimento, parou diante dele uma mulher que lhe estendeu uma caixa.
- Tenho-te visto a desenhar nas pedras da rua, disse. Toma lá esta caixa de tintas. O meu marido gostava de pintar, mas morreu e as tintas já não servem a ninguém em minha casa. Pode ser que te dêem prazer.
Depois passou-lhe amavelmente a mão pela cabeça e seguiu caminho.
Miguel abriu a caixa e olhou surpreendido para as várias filas de bisnagas, ordeiramente alinhadas. Espremeu um pouco de tinta espessa dalgumas delas para o interior da tampa. Depois pegou no pincel pousado numa canelura, virou-o entre os dedos e sentiu-os estremecer como se o pincel os electrizasse.
"Quero pintar", pensou, "quero pintar já!"
Correu à papelaria da esquina e pediu uma grande folha de papel.
- Tu tens dinheiro para pagar?, perguntou o empregado.
Miguel remexeu nos bolsos e desenterrou dum deles uma moeda:
- Dá para pagar uma folha de papel?
- Até dá para uma folha das muito grandes, respondeu o empregado.
Radiante, Miguel pediu que lhe vendesse uma folha muito grande e branca.
Chegado a casa, estendeu a folha no chão. Mas como ela deslizava dum lado para o outro e não havia maneira de se deixar ficar no mesmo sítio, Miguel revolveu a gaveta do guarda-louça e entre uma série de papelinhos, tubinhos, ganchos de cabelo e pregos desencantou algumas tachas com que fixou a folha ao chão. E encheu um copo de água para lavar o pincel. Depois começou a pintar.

Ilse Losa, O Expositor



1.Indica o nome do autor e o nome da obra de onde foi extraído o texto.

2.Localiza a acção no espaço.

3.Como classificas o narrador, quanto à sua participação? Justifica a tua resposta.
3.1 "... motas e bicicletas corriam em longas, longas..."
Identifica o recurso expressivo contido na frase.
3.2 Retira do 1º parágrafo:
Um numeral ordinal
Um numeral cardinal
Um nome próprio
Um nome comum

4.Como é que o Miguel ocupava o seu tempo, enquanto a mãe trabalhava na fábrica?

5."... com um pedacito de giz...".
5.1. A palavra pedacito pertence à classe dos nomes.
Indica:
Subclasse
Grau
5.2. Classifica a palavra, quanto à sua formação:

6.Um dia, o Miguel foi surpreendido por uma senhora que lhe ofereceu uma prenda. Diz que oferta foi essa.

7. Indica o tempo e o modo das seguintes formas verbais:
Pediu
Vendessem

8.Descreve a reacção do Miguel, depois de ter aberto a caixa.

9."... quero pintar já!"
9.1Diz qual o tipo e qual a forma da frase:
9.2. Classifica as palavras, quanto à acentuação.
Quero


10."Uma senhora ofereceu uma caixa ao Miguel."
Menciona as funções sintácticas que se encontram na frase.

11.O menino comprou uma folha de papel.
11.1. Com que objectivo?
11.2. Como se sentiu ao fazer essa compra?

12."Era uma folha muito grande."
12.1. Em que grau se encontra o adjectivo?
12.2. Rescreve a frase com o adjectivo no grau superlativo absoluto sintético.

13.Imagina a conversa que o Miguel teve com a sua mãe, quando ela chegou a casa (não esqueças de utilizar a pontuação adequada ao diálogo).

un-cadeau-surprise_adna-mor.jpg

10.5.08

S. Leonardo de Galafura



À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto2,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos3
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo4 avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo5 a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho6!

Miguel Torga, Diário IX,



Notas:
1. Galafura - localidade do concelho de Peso da Régua, distrito de Vila Real.
2. mosto — sumo da uva antes de se completar a fermentação.
3. socalco — espécie de degrau nas encostas, suportado por um muro, para se cultivar. Na região do Alto Douro é em socalcos que se cultiva a vinha.
4. rabelo - embarcação típica, usada no rio Douro, que tem por leme um remo muito comprido e grosso.
5. sorvo - gole; trago; sorver - absorver; aspirar.
6. rosmaninho — planta aromática, de flores violáceas, também designada por alecrim.





I

1. A frase que constitui os oito primeiros versos não se encontra pela ordem directa.
1.1. Para melhor compreenderes o poema, reescreve estes versos, pela ordem que se segue:
- o sujeito (nome + aposto);
- o verbo;
- os complementos - directo, adverbiais e preposicionais.
2. A segunda estrofe inicia-se com um deíctico.
2.1. Identifica o antecedente a que se refere.
3. Indica o valor do conector com que se inicia a terceira estrofe.
4. Identifica o tempo verbal predominante em cada uma das três estrofes.
5. Com base na análise que acabaste de fazer nos quatro pontos anteriores, divide o poema em partes lógicas e justifica.


II

1. S. Leonardo empreende uma viagem vagarosa em direcção ao "cais divino".
1.1. Identifica os advérbios e locuções adverbiais que se referem ao modo como é feita a viagem.
1.2. Assinala os adjectivos que caracterizam a forma como S. Leonardo se sente no "cais humano".
1.3. Explica por que razão S. Leonardo não tem pressa de chegar ao seu destino.
2. Com expressões retiradas do poema, caracteriza as terras do Douro.


III

1. Por palavras tuas, faz o reconto desta "viagem". O teu texto deve conter entre 60 e 70 palavras e ser organizado em três pequenos parágrafos ligados entre si por conectores lógicos.

9.5.08

Aparição


[...] E eis que chega a tua hora, Cristina. Terias tu já dito alguma coisa? Não me lembro. E que dissesses? O que tens a dizer, as palavras não o sabem. Nem o lugar. Nem a hora. Tu não és de parte alguma, de tempo algum, Cristina. Súbita aparição, foste surpresa em tudo para todos. Sim, eu sei. Já o sabia quando te conheci... Cristina viera «fora de tempo». Ninguém a esperava já. O pai errara as «contas» da fisiologia, havia a lei moral - e ela nascera. Os amigos de Moura, risonhamente, quando se referiam à filha, perguntavam-lhe pela «neta»... E ele sorria, inocente, porque a ver¬dade da vida era mais forte do que ele, simples instrumento ou espectador...
- Cristina - disse Moura -, tu agora vais tocar um bocadinho para o senhor doutor.
A miúda fitou-me com os seus olhos azuis, sorriu imperceptivelmente e sentou-se ao piano. Ajeitou a saia â roda do banco e, de mãos imóveis no teclado, apesar do nosso silêncio, esperou ainda pela nossa atenção ou pela sua.
E então eu vi, eu vi abrir-se à nossa frente o dom da revelação. Que eram, pois, todas as nossas conversas, a nossa alegria de taças e cigarros, diante daquela evidência?
Tudo o que era verdadeiro e inextinguível, tudo quanto se realizava em grandeza e plenitude, tudo quanto era pureza e interrogação, perfeito e sem excesso, começava e acabava ali, entre as mãos indefesas de uma criança. Mas tão forte era o peso disso tudo, tão necessário que nada disso se perdesse, que as mãos de Cristina se estorciam na distância das teclas, as pernas na distância dos pedais e toda a sua face gentil, até agora impessoal e só de infância, se gravava de arrepio à passagem do mistério. Toca, Cristina. Eu ouço. Bach, Beethoven, Mozart, Chopin. Estou de lado, ao pé de ti, sigo-te no rosto a minha própria emoção. Apertas ligeiramente a boca, pões uma rugazinha na testa, estremeces brevemente a cabeleira loura com o teu laço vermelho. E de ver assim presente a uma inocência o mundo do prodígio e da grandeza, de ver que uma criança era bastante para erguer o mundo nas mãos e que alguma coisa, no entanto, a transcendia, abusava dela como de uma vítima, angustiava-me quase até às lágrimas. Toca uma vez ainda, Cristina. Agora, só para mim. Eu te escuto, aqui, entre os brados deste vento de Inverno. Chopin, Nocturno n.° 20. Ouço, ouço. As palmeiras balançam no teu jardim, a noite veste-se de estrelas, adormece na planície. Donde este lamento, esta súplica? Amargura de sempre, Cristina, tu sabe-la. Biliões e biliões de homens pelo espaço dos milénios e tu só, presente, a memória disso tudo e a dizê-la...

Vergílio Ferreira, Aparição



I

1. Enquadre o excerto na estrutura interna da obra.

2. Trace o retraio de Cristina, apresentado do ponto de vista do narrador.

3. Justifique o uso dos vocativos.

4. De Cristina, o narrador diz: "Tu não és de parte alguma, de tempo algum, Cristina." E depois: "Cristina viera 'fora de tempo'."
4.1. Descubra as razões do exposto pelo narrador.

5. "Toca, Cristina. Eu ouço. Bach, Beethoven, Mozart, Chopin."
5.1. Refira-se ao papel da música no contexto da obra Aparição.

6. Analise as quatro últimas frases do extracto, salientando a expressividade estilística e o valor evocativo do eu/tu.


II

Componha um texto, de cinquenta a cem palavras, com base neste tema que o remete para a obra Aparição:
«A personagem Cristina em três fases: antes da morte, a morte e Cristina na memória dos outros.»


III

Resuma o texto a seguir transcrito, constituído por trezentas e onze palavras, num outro de noventa e quatro a cento e catorze palavras.


Espaço da modernidade

A narrativa vergiliana que nos ocupa está muito longe da narrativa em sentido estrito de que fala Benveniste, ou seja, a narrativa em terceira pessoa e formas verbais no passado. Perde, por isso, em objectividade, mas ganha em subjectividade. Uma subjectividade que denuncia um sujeito de dimensão arquetípica, mascarado de indivíduo (o sujeito é "persona"). O mesmo dire¬mos do espaço-tempo em que se move: o "sem-espaço-tempo" do Homem em busca de si mesmo no labirinto da sua existência, projectada metonímicamente no espaço criado do próprio discurso. Não admira, por isso, que este discurso assuma também uma "forma especial", no sen¬tido consagrado por Joseph Frank. Essa forma é signo de modernidade porque reflecte a particu¬lar maneira como o homem dos nossos dias vê o mundo e se relaciona com ele.
Deste modo, Vergílio Ferreira torna-se expoente singular, entre nós, da revalorização do espaço, tão característica da modernidade. Mas ele situa-se mais na linha de Proust e de A. Malraux do que de Robbe-Gríllet. O espaço do romance vergiliano, quer seja entendido como cenário da acção e, portanto, categoria do âmbito da "história", quer como "escrita" e, neste caso, realidade coincidente com o discurso, é sempre um espaço profundamente emocionado. Podem os lugares e objectos surgir descontínua e desordenadamente; pode também a escrita acontecer como automatismo aparentemente incontrolável de um sujeito problemático; o certo é que, em Vergílio Ferreira, nem aqueles (lugares e objectos) nem esta (escrita) são meras "coisas" inocentes, reduzidas à nudez fria do seu "mostrar-se", conforme conviria à estética fenomenoló-gica de Robbe-Grillet, levada às últimas consequências. Ao contrário dele, Vergílio Ferreira não desterra o sujeito do seu mundo, porque seria destruí-lo, nem muito menos tende a coisificá-lo absurdamente. Da mesma forma, em relação à escrita. Vergílio Ferreira não desconfia da metá¬fora pela afectividade que projecta nos objectos. Ele sabe que sujeito e objectos coexistem, são até condição de existência mútua.

António da Silva Gordo, A Escrita e o Espaço no Romance de Vergílio Ferreira







4.5.08

A mulher misteriosa

A mulher misteriosa

Noites e noites a fio, quase de madrugada, desenrolava-se a mesma cena: um grande automóvel preto – um carro americano de antes da guerra, talvez um De Soto dos anos trinta – parava de repente ao pé de mim. O motorista, fardado de negro, mantinha-se muito hirto no seu lugar; eu não chegava sequer a ver-lhe o rosto. Mais me intrigava aliás o próprio carro, que parecia ter estado debaixo de água – ou ter sido fabricado no fundo do mar -, embora não apresentasse, na carroçaria, nenhum vestígio de humidade. Mas o capot faiscava, na sombra, como no dorso de um cetáceo; o flanco fusiforme dos faróis denunciava não sei que secreto comércio com os peixes; e a porta de trás, que vinha agora de entreabrir-se – sem que ninguém lhe houvesse tocado –, evocava irresistivelmente, pelo crebo (1) palpitar em que ficara, o inquietante mistério de uma guelra.
Dentro, na outra extremidade do banco, reclinava-se um vulto de mulher cingido num vestido de lamé. Era um vestido de noite, de modelo já antiquado, que por inteiro lhe ocultava as pernas e os pés: a partir da cintura, todo fosforescia, como a cauda de uma sereia.
Havia, no porte dessa mulher, qualquer coisa de hierático, e ao mesmo tempi qualquer coisa de irónico, como se quisesse mostrar – por uma espécie de jogo que não chegava a tomar a sério – o reverso daquilo que sentia. Dir-se-ia que se prestara a servir de modelo, diante de um pintor académico, para um retrato muito convencional, apenas com o fim de troçar intimamente do pintor e do retrato, de si própria e da pose que adoptara. Entre os dedos da mão esquerda – que vinha, enluvada de preto, descansar-lhe no regaço – apertava as varetas cerradas de um leque de marfim. A mão direita, igualmente mergulhada numa luva preta de canhão alto, firmava-se no assento do banco. E era tão-só com um gesto negligente desta mão, mas tão-só com a rotação lentíssima do pulso, que me saudava e convidava a entrar, que me apontava o lugar a seu lado. Então, mal eu me sentava, sem um ruído o carro punha-se em marcha.

David Mourão-Ferreira, “Nem tudo é história”, in Amantes e Outros Contos


(1) crebo – frequente, amiudado, repetido
(2) hierático – majestoso e rígido; sagrado


I

1. Atente no primeiro parágrafo do texto.
1.1. Embora o motorista fosse um ser misterioso, o que mais intrigava o narrador era o próprio carro. Explique porquê.
1.2. Copie do texto os vocábulos que fazem parte do campo lexical de mar.
1.3. Evidencie a ligação feita entre algumas partes do carro e elementos marítimos.

2. A partir do segundo parágrafo, o narrador introduz uma personagem feminina.
2.1. De que forma a própria mulher se integra no “ambiente aquático” criado no primeiro parágrafo?
2.2. “Dir-se-ia que se prestara a servir de modelo, diante de um pintor académico, para um retrato muito convencional…”
2.2.1. Faça o levantamento dos fragmentos textuais que justificam esta observação do narrador.

3. A fórmula com que se inicia o texto – “Noites e noites a fio…” – condiciona a sua cons-trução em termos temporais.
3.1. Identifique o tempo verbal predominante no texto.
3.2. Explique a sua relação com a expressão temporal referida em 3.

4. Nos excertos textuais que se seguem, substitua as palavras sublinhadas por outras com igual valor:
_ “E era tão-só com um gesto negligente desta mão, mas tão-só com a rotação lentíssima do pulso…”
_ “Então, mal eu me sentava, sem um ruído o carro punha-se em marcha”


II

Quem era esta mulher misteriosa? Por que razão teria escolhido o narrador para a acompanhar, noite após noite? Para onde iriam?