24.4.08

O Sabor dos Sabores




Era uma vez um rei que tinha três filhas muito lindas.
Um dia, em que estavam a jantar, o rei perguntou à mais velha:
- Diz-me, minha filha, como gostas de mim.
- Gosto tanto do papá como gosto do Sol! A outra respondeu:
- Gosto tanto do papá como gosto dos meus olhos!
E a mais nova disse que gostava tanto do pai como a água do sal.
- Tu dizes-me isso?! És muito ingrata!
E disse-lhe que a havia de mandar matar. Depois chamou um criado e ordenou-lhe que no dia seguinte a levasse ao monte e a matasse.
- Matar a princesa?
- Sim, foi isso que eu mandei! É uma ingrata!
Ao outro dia, quando o criado ia a sair com a filha mais nova, o rei entregou-lhe uma bandeja e uma toalha.
- Aqui me trarás os seus olhos e a sua língua.
O criado teve pena da princesa e lembrou-se de matar uma cadelinha que levava consigo. Assim fez. Arrancou-lhe os olhos e a língua, pôs tudo na bandeja e levou ao rei. A menina, essa, seguiu por uma estrada fora e foi bater à porta de um outro rei e lá perguntou se precisavam de uma criada. Precisavam e ficou.
Passado algum tempo, o rei em casa de quem a princesa servia deu um banquete. E ela lá conseguiu que a comida destinada ao rei, seu pai, também convidado, fosse posta à parte.
Todos os comensais acharam bom o jantar e comeram regaladamente, à excepção do pai dela. O rei anfitrião estranhou e perguntou-lhe se achava má a comida. Ele dizia que só não lhe apetecia comer. Mas quem descobriu tudo foi a princesa quando se apresentou diante do pai e lhe pergun-tou:
- A comida não tem sal, pois não?
- Em boa verdade, fiquei desconsolado porque o que comi não tinha pitada de sal - confessou o rei convidado.
- Ah, meu pai, não se lembra da sua filha mais nova? Não se lembra que eu lhe disse que gostava de si como a água do sal? O pai, lembrando-se, suspirou:
- Ah, minha querida filha, tinhas razão! Perdoa-me! Abraçou-se a ela e nisto caiu para o lado e morreu.

Viale Moutinho, Contos Populares Portugueses


I

1. O texto pode ser dividido em duas partes.
1.1. Diz onde começa e onde acaba cada uma delas.
1.2. Transcreve a expressão que faz a passagem de uma para a outra.

2. Refere o sentimento que leva o pai a mandar matar a filha.

3. Qual é a personagem que age com grande solidariedade?
3.1. Imagina dois adjectivos que caracterizariam muito bem essa personagem.

4. Demonstra que a desconsolação do pai em casa do amigo é, primeiro, de ordem física e, depois, de ordem espiritual.

5. Como explicas o título do texto?

6. Transcreve exemplos dos modos de apresentação do discurso existentes no texto.

7. "E ela conseguiu que a comida destinada ao rei, seu pai, fosse posta à parte."
7.1. Divide as orações desta frase e classifica-as.
7.2. Indica as funções sintácticas da palavra e das expressões sublinhadas.

8. Escreve no discurso indirecto: "- Diz-me, minha filha, como gostas de mim."




23.4.08

Aquela triste e leda madrugada


Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de üa outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
de que uns e outros olhos derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões


I


1. Identifique o tema do poema.

2. Divida o texto em partes lógicas, indicando o assunto de cada uma delas.

3. Explique a contradição existente entre “triste” e “leda”, no 1º verso.

4. Identifique e comente o valor expressivo de duas figuras de estilo presentes no texto.

5. Faça a análise formal do poema.

6. Sugira um título para o texto, justificando a sua escolha.

Viagens na Minha Terra

Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou. Disseram o que quiseram os faladores que nunca faltam, mas mentiram como mentem quase sempre, enganaram-se como se enganam sempre. Eu não amei a Soledade.
E contudo lembro-me dela com pena, com simpatia... Se eu sou feito assim, meu Deus, e assim hei-de morrer!
Viemos para Portugal; e o resto agora da minha história sabes tu.
Cheguei por fim ao nosso vale, todo o passado me esqueceu assim que te vi. Amei-te... não, não é verdade assim. Conheci, mal te vi entre aquelas ávores, à luz das estrelas, conheci que era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que teu só devia ser, se eu ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse digna de juntar-se com essa alma de anjo que em ti habita.
Não é, Joana; bem o vês, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.
Eu sim tinha nascido para gozar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui criado, estou certo, para a glória tranquila, para as delícias modestas de um bom pai de famílias.
Mas não o quis a minha estrela. Embriagou-se de poesia a minha imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar há-de ser infeliz por força, a que me entregar o seu destino, há-de vê-lo perdido. Não quero, não posso, não devo amar a ninguém mais.
A desolação e o opróbrio entraram no seio da nossa família. Eu renuncio para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quis, a tudo quanto posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me persegue não é obra minha.
Adeus Joana, adeus prima querida, adeus irmã da minha alma! Tu acompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o autor da sua e das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me.
Eu, que nem morrer já posso, que vejo terminar desgraçadamente esta guerra no único momento em que a podia abençoar, em que ela podia felicitar-me com uma bala que me mandasse aqui bem direita ao coração, eu que farei?
Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras.
Adeus minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus!

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra




I

1. Este texto transcreve um excerto da carta que Carlos escreveu a Joaninha, principais personagens da novela da Menina dos Rouxinóis.

1.1. Refire-se ao espaço e ao tempo em que os dois primos se conheceram.

2. Explique o sentido da expressão: «Eu sim tinha nascido para gozar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui criado, estou certo, para a glória tranquila...».

3. Segundo o sujeito da enunciação, foram a sorte e a velha os responsáveis por que não tivesse sido aquilo para que «tinha nascido» e para que foi «criado».

3.1. Mostre a sua concordância ou discordância relativamente a esta questão.

4. Tire conclusões, a partir do último parágrafo, acerca do presente e do futuro de Carlos.

5. Insira este excerto na estética literária subjacente, fundamentando a sua resposta.

6. Refira o tipo de estrutura que o narrador pretendeu dar à novela da Menina dos Rouxinóis.


II

O romance Viagens na Minha Terra apresenta-se com uma estrutura aparentemente desconexa, misturando capítulos de crítica social, impressões de viagens, reflexões e momentos de acção dramática. Refira-se a essa estrutura fundamentando as suas afirmações com exemplos concretos.



21.4.08

Da mais alta janela da minha casa

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo. Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos


I

Após uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- a criação poética, temática dominante;
- o fenómeno da criação poética e o fenómeno cultural;
- a dicotomia interior/exterior;
- o paralelismo semântico e seu valor expressivo;
- uma antonímia ao nível dos adjectivos;
- uma escala de valores ao nível dos substantivos/formas verbais.


II

Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática da heteronímia com base nestas afirmações de Fernando Pessoa:
«Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.»


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e quarenta e cinco palavras, num texto de cento e cinco a cento e vinte e cinco palavras.

Aqui está: Pessoa, ao forjar Caeiro, partiu duma imagem mental, duma atitude apenas vivida pela inteligência, que pretendeu «ilustrar» mediante uma «personagem» típica. Por isso, apesar de Caeiro, ao falar de si próprio, e Campos, ao evocar o mestre, quererem convencer-nos de que o pensamento de Caeiro é o pensamento ingénuo dum poeta, o fruto verde duma experiência instintiva, a poesia deste nos deixa uma impressão totalmente contrária. Medularmente, Caeiro é um abstractor paradoxalmente inimigo de abstracções; daí a secura, a pobreza lexical do seu estilo. Em regra, ouvimo-lo argumentando, criticando, não transmitindo sensações mas discorrendo sobre sensações. Está então no seu elemento. É sintomático da qualidade do seu espírito que o conteúdo da sensação lhe seja indiferente, que sublinhe o acto de ver, não o objecto da visão: «Vejo.» «Vi como um danado.» Igualmente sintomática a preponderância da vista sobre os outros sentidos, porque a vista é o menos sensual de todos eles, aquele que pode metaforicamente indicar a percepção, a compreensão. Indubitavelmente, Caeiro é sobretudo inteligência. Filosofa contra a filosofia. «Com filosofia - diz ele - não há árvores, há ideias apenas» (pág. 73). Aqui o feitiço volta-se contra o feiticeiro: lendo Caeiro não vemos árvores, ouvimos expor uma doutrina, estamos no domínio do axioma, do silogismo, do geral, e a coisa que serve de exemplo é indefinida: «Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol» (pág. 89). «Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente» (pág. 96).
Em Caeiro o pensador não se limita a contradizer a imagem ideal do poeta, contradiz-se a si próprio. Pondo de lado essa imagem, aceitava-se que os seus versos, gerados sob o signo dialéctico, aquecidos pela intenção polemística, alvejassem pelo combate directo ou pela ironia os homens que interpretam, esquadrinham, fazem metafísica, esquecendo a superfície maravilhosa das coisas, ou seja, o que existe, para tentarem escrutar a essência das coisas, quer dizer, o que não existe, porque a Natureza é só superfície. A lição constante de Caeiro é esta: «O único sentido íntimo das coisas/É elas não terem sentido íntimo nenhum» (pág. 28).

Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
Ed. Verbo (pp. 24-26)






18.4.08

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!



UMA VOZ: E ele?
O ANTIGO SOLDADO: Ele?
OUTRA VOZ: O general, homem...
O ANTIGO SOLDADO: Um amigo do povo!
Um homem às direitas! Quem fez aquele não fez outro igual...
Fala com entusiasmo. Vê-se que Gomes Freire é o seu herói.
MANUEL: Se ele quisesse...
(Silêncio.)
Este silêncio é pesado, sente-se. As personagens olham para as mãos e poro os lados. Foram longe de mais e sabem-no. Ainda
têm nos ouvidos o ruído dos tambores, símbolo duma autoridade sempre presente e sempre pronta a interferir.
VICENTE: Se ele quisesse? Mas se ele quisesse o quê? Vocês ainda não estão fartos de gene-rais? Cornetas, tambores, tiros e mais tiros... Bestas!
(Sobe a um caixote.) Tu,José:
(Aponta para um dos presentes.)
Tens sete filhos com fome e com frio e vais para casa com as mãos a abanar. Julgas que o Gomes Freire os vai vestir?
Fala muito depressa. Está cada vez mais excitado.
(Aponta paro outro)
E tu, que não comes desde ontem - estás com pressa de ir para a guerra? Julgas que matas a fome com balas? Idiotas! Nenhum de vocês tem um tecto que o abrigue no Inverno, nenhum de vocês tem onde cair morto, mas mal passa um tambor, não há um só que não queira ir atrás dos soldados. Catrapum! Catrapum! Catrapum! pum, pum! - Idiotas!
Faz com as mãos o gesto de quem toca tambor. Olha lá:
(Aponta poro o antigo soldado.)
Se o teu Gomes Freire é tão bom como dizes e se a "rapaziada" lá no regimento é corno tu a descreves, explica lá o que estás a fazer aqui...
Pronuncia a palavra "rapaziada" com sarcasmo. (O antigo soldado encolhe os ombros.)
Não abres a boca? Pois então falo eu!
(Para o grupo)
Falo a/to em tom de triunfo.
Este homern está aqui porque já não serve para nada. Ouviram?
Está aqui porque já não interessa aos generais. O que eles querem é servir-se da gente! Quando um homem chega a velho e já não pode andar por montes e vales, de espingarda às costas, para eles se encherem de medalhas, tratam-no como um pobre fugido à policia: abandonam-no, mandam-no para a porta das igrejas pedir esmola, e que a Virgem se compadeça dele...
(Para o antigo soldado)
À medida que fala vai-se excitando cada vez mais.
Que te dizem eles, os teus generais, os tais com quem te bateste, quando te encontram na rua, miserá¬vel, sem um naco de pão para comer? Sabes o que te dizem? Sabes? Viram-se para as mulheres, e jus¬tificam os cinco réis da esmola, dizendo que te bateste como um valente na campanha do Rossilhão. E tu? Matas a fome com os cinco réis e com a recordação da campanha. Mas eles... eles vão para casa encher a pança! Disso podes estar certo...
O ANTIGO SOLDADO: O Gomes Freire não é desses.
VICENTE: Não é desses... Não é desses... Então de quais é ele? Duns que não existem? É um santo, o teu general...
Fala com escárnio.

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!


I

1. Integre o excerto na estrutura da obra a que pertence.

2. Observe a fala de Manuel: "Se ele quisesse..."
2.1. Identifique o estado de espírito da personagem.
2.2. Refira as razões dessa disposição.

3. Releia as falas de Vicente.

3.1. Identifique o objectivo das suas palavras.
3.2. Aponte os argumentos de que se serve para convencer os seus interlocutores.
3.3. Relacione estas opiniões de Vicente com a atitude que tomará mais tarde em relação ao General.

4. Explicite as funções desempenhadas pelas didascálias neste fragmento da obra.

5. Analise a linguagem e o estilo deste excerto.


II

Produza um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras, de acordo com uma das opções seguintes:

A. A figura central é o General Gomes Freire de Andrade "que está sempre presente embora nunca apareça" (didascália inicial) e que, mesmo ausente, condiciona a estrutura interna da peça e o comportamento de todas as outras personagens.
Comprove a veracidade da afirmação transcrita, após o estudo da peça Felizmente Há Luar!

B. No fim do último acto de Felizmente Há Luar!, a personagem Matilde, "companheira de todas as horas" do General Gomes Freire, afirma na altura da execução:
«Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!
Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim...
(Pausa)
Felizmente - felizmente há luar!»
Numa dissertação cuidada, procure reflectir criteriosamente sobre a condição humana e ânsia de liberdade que as lições da história frequentemente veiculam.

17.4.08

O céu, de opacas sombras abafado,

O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite feia,
Mugindo sobre as rochas, que salteia,
O mar, entre crespos montes levantado;

Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta areia;
O pássaro nocturno, que vozeia
No agoireiro cipreste além pousado;

Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.

Bocage


I

1. Identifique o tema do soneto.

2. Relacione a Natureza com o estado de espírito do sujeito poético.

3. Divida o poema em partes e indique o assunto de cada uma.

4. Identifique os sentimentos expressos, justificando com elementos do texto.

5. Indique as características clássicas e as pré-românticas que podemos encontrar neste poema.

6. Analise a linguagem e o estilo, referindo-se essencialmente aos seguintes tópicos:
• nível de língua;
• função da linguagem predominante;
• vocabulário utilizado e suas conotações;
• o valor do gerúndio;
• recursos estilísticos.


II

Num texto cuidado, refira-se às temáticas desenvolvidas por Bocage, exemplificando com textos que conheça.








Vergílio Ferreira, Aparição


O clarão de um raio incendiou os vitrais. Mas o trovão só já tarde se ouviu, distante, espraiado em grandes rolos, como a notícia de uma praga longínqua. Eu calava-me, indeciso, intrigado, quase enove-lado de vexame. [...] Mas Ana fugia, eu o pensava dolorosamente, eu o via absurdamente, opacamente, como um muro. Uma memória envelhecida de cera, de água benta, de meninos de coro, de beatas, de novenas, de indulgências, de confessionário instalou-se-me no estômago até à náusea. Era impossível que Ana, a bela Ana de olhos de fogo, da graça invulnerável do seu dente irregular, da força plena do seu corpo, ignorasse a degradação que eu lhe estava imaginando. Impossível? Não sei, não sei, não sei: tu casaste com Alfredo...
- Foi aqui que puseram a urna de Cristina - disse ela inesperadamente.
- Cristina? Mas porque é que...
-Aqui...
Depois, transfigurada, falou, falou. Frases desconexas, ideias avulsas, pedaços de um monólogo, de um naufrágio profundo:
- ...E de súbito vê-se que não é possível morrer. Que não é possível! Onde está Cristina, a que era ela, não a que morreu de vestido de holandesa, não a que tocava, ela tocava tão bem... Havia outra, outra, profunda. ELA, eu vi-A, até ao seu olhar, ao seu sorriso, eu vi-A, eu vejo-a, relembro-a, está aqui comigo, conheço-a, só me não pode falar. Sou irmã dela, não eu, que você vê, sou irmã dela EU, que estou comigo, que me sinto ser, eu... Então e eu poderia lá morrer? Sou irmã dela e de você e disto que anda aqui neste silêncio grande, no eco da chuva, dos relâmpagos, dos trovões que ressoam com uma voz que não vem nos livros, que é uma voz dos grandes céus desertos. Como diz você? A voz inicial... Ouço-a, sei-a... Mas isto é muito maior que nós, muito maior, muito maior... Reduzir essa voz à «dimensão humana»? Da dimensão humana são só os ouvidos para a ouvirem. E é preciso não estar distraído. Então a gente assusta-se, a gente sabe que tudo isso existe...
- Não era assim, não era assim...
- Mas ninguém me entende. O meu pai julgou que sim. Não entende. Ele também anda distraído...
- Mas você veio aqui. E 'aqui é o lugar de seu pai...
- Aqui é um lugar em que se ouve bem... Aqui é um lugar que tem uns restos do que é importante. Estas cúpulas, esta hora fechada...
- Mas você «acredita». Em quê?
- Não pretenda que eu diga, não pense que eu diga um nome. Sou pequena e sei que a grandeza existe. Existe onde? Existe. Sinto-o em mim como uma pancada no escuro...

Vergílio Ferreira, Aparição


I

1. Faça uma análise global e cuidada do excerto transcrito, salientando:
- a inserção na estrutura da obra;
- a importância do espaço e do tempo para as personagens;
- o papel da memória, tendo em conta os sentimentos e emoções que são gerados;
- a aparição de uma realidade, de uma "voz inicial" (l. 23) que se não nomeia;
- as pequenas sequências discursivas e a sua articulação.

2. Considere a afirmação de Ana: "Da dimensão humana são só os ouvidos para a ouvirem."
Exponha o seu ponto de vista sobre o interesse que a condição humana possui no universo semântico da obra.


II

Num texto bem elaborado, de duzentas a trezentas palavras, comente a afirmação seguinte tendo em atenção a mensagem de Aparição, onde Alberto procura encontrar-se consigo mesmo.
Em Aparição de Vergílio Ferreira, afirma Alberto a Carolino:
«- A vida é um milagre fantástico - disse eu. - A vida é um valor sem preço.»






12.4.08

XII. Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, Mensagem




I

Leia o poema, com muita atenção, e elabore um comentário tendo em conta os tópicos propostos:

1. Estado do sujeito no passado e no presente
2. Esperança que ainda resta
3. Sentido da prece no contexto do Quinto Império
4. Marca de expressividade


II

Álvaro de Campos é um engenheiro naval estrangeirado e deprimido.
Alberto Caeiro é «ignorante da vida e quase ignorante das letras, quase sem convívio nem cultura...»

Num texto entre 40-50 palavras, diferencie estes dois heterónimos de Fernando Pessoa salientando o sensacionismo em cada um.

11.4.08

Os dez anõezinhos da Tia Verde-Água


Era uma vez uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fadas a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
- Ai, Tia ! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.
- Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.
E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro da água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. Logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como que por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez:
- Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição, trago tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que eu lhe pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
- Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
- Ainda não; o que eu queria era vê-los.
- Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que são os dez anõezinhos.
A mulher compreendeu a causa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.


Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português



I

1. Divida o texto em momentos e justifique devidamente a sua resposta.
2. Identifique as personagens intervenientes na acção e proceda à sua caracterização global.
2.1. Indique, exemplificando, os processos de caracterização usados no texto.
3. Localize a acção no tempo e no espaço e dê exemplos textuais.
3.1. Relacione a alínea anterior com as características fundamentais do conto tradicional.
3.2. Aponte mais duas características do conto tradicional aqui patentes e explique-
-as devidamente.
4. Mostre que, neste conto, a intervenção de elementos do maravilhoso é apenas aparente.
5. Identifique a moralidade que se pode encontrar neste conto.
6. Dê um título sugestivo ao texto e justifique a sua escolha.


II

Esclareça o sentido da seguinte afirmação:
"Os contos, nas suas formas orais, literárias, permitiram a crianças e adultos conceber estratégias para se posicionarem no mundo e compreender o que os rodeia."


III

Num texto, que não deverá ser extenso, resuma o conto que acabou de analisar.




8.4.08

Cheios de espessa névoa os horizontes


Cheios de espessa névoa os horizontes,
Espantosas voragens vêm saindo!
Foi-se o Sol entre nuvens encobrindo,
Voltando-se para o mar os quatro Etontes.

Caiu a grossa chuva pelos montes,
Os incautos pastores aturdindo;
E, engrossando, os rios vão cobrindo
Com embate feroz as curvas pontes.

Com medonho estampido, pavorosos,
Os longos ecos dos trovões soando,
A rezar nos pusemos temerosos.

Parou a chuva; correm sussurrando
Os torcidos regatos vagarosos;
Não me atrevo a sair, fico jogando.

Correia Garção


I

1. Divide o texto em partes, detectando uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão.
1.1. Resume cada parte numa frase.
1.2. Mostra a articulação dos vários momentos.

2. Analisa o poder expressivo dos adjectivos.

3. Indica as consequências da tempestade.
3.1. Explica a expressividade do uso da conjugação perifrástica e do gerúndio.

4. No primeiro terceto, está presente a harmonia imitativa, ou seja, a onomatopeia.
4.1. Explica os recursos que a realizam.

5. Que relação tem a presença dos pastores com a Arcádia?
5.1. Qual o poeta da Antiguidade Clássica que os árcades tentavam imitar?

6. O final do soneto aponta para uma convivência burguesa, tipificada no jogo. Justifica esta situação.


II

As Arcádias lutaram contra os excessos do Barroco, procurando recuperar a pureza dos nossos primeiros clássicos e dos antigos.
• Num texto de 150 a 200 palavras, expõe as principais normas que defendiam para alcançar esse objectivo.

6.4.08

O Rapto de Europa



Europa era uma linda princesa fenícia. Como ainda não chegara à idade de casar, vivia com os pais num magnífico palácio e tinha por hábito dar longos passeios com as amigas nos prados e nos bosques. Certo dia quando apanhava flores junto da foz de um rio, foi avistada por Zeus que se debruçava lá do Olimpo observando os mortais. Fascinado com tanta formosura, decidiu raptá-la. Para evitar a fúria da sua ciumentíssima mulher, quis disfarçar-se. Nada mais fácil para quem tem poderes sobrenaturais! Tomou a forma de um touro. Um belo touro castanho com um círculo prateado a enfeitar a testa. Desceu então ao prado e deitou-se aos pés de Europa. Ela ficou encantada por ver ali um animal tão manso, de pêlo sedoso e olhar meigo. Primeiro afagou-o, depois sentou-se-lhe no dorso e… o touro disparou de imediato a voar por cima do oceano. A pobre princesa ficou assustadíssima. Mas não tardou a perceber que o raptor só podia ser um deus disfarçado, pois entre as ondas emergiam peixes, tritões e sereias a acenar-lhes. Até Posídon apareceu agitando o seu tridente.
Muito chorosa, Europa implorou que não a abandonasse num lugar ermo. Zeus consolou-a, mostrou-se carinhoso, prometeu levá-la para um sítio lindo que ele conhecia fora da Ásia. Prometeu e cumpriu. Instalaram-se na ilha de Creta e tiveram três filhos que vieram a ser famosos. Agora o nome da princesa é que ficou famosíssimo!
Agradou aos poetas da Grécia Antiga que passaram a chamar Europa aos territórios para lá da Grécia. E agradou ao historiador Heródoto, que no séc. V a.C. foi o primeiro a chamar Europa a todo o continente.

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada,
A Europa Dá as Mãos,
Centro de Informação Jacques Delors (adaptado)



1. Quando avistou Europa Zeus ficou:
Furioso ?
Apaixonado ?
Surpreendido ?

2. Que decisão toma Zeus?
2.1 Transcreve, do texto, uma frase que justifique a tua resposta.

3. Indica a razão que leva Zeus a disfarçar-se.
3.1 Transcreve uma frase do texto para justificar a tua resposta.

4. Indica duas características do animal em que Zeus se transforma.

5. Como é que Europa descobre que o belo touro que a raptou era um deus?

6. Zeus faz uma promessa a Europa. Que lhe promete ele?

7. Como acaba esta história?

8. O que explica esta lenda?

3.4.08

Alegres campos, verdes arvoredos


Alegres campos, verdes arvoredos
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos:

Silvestres montes, ásperos penedos,
Compostos em concerto desigual,
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas
Nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes
Regando-vos com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.


Luís de Camões


I

1. Identifique o tema do soneto.

2. Divida-o nas suas partes lógicas e atribua um título a cada uma delas.

3. Caracterize os dois elementos fundamentais: a Natureza e o Eu poético.

4. Proceda ao levantamento de algumas sensações sugeridas pelo poema.

5. Identifique os recursos estilísticos utilizados nas seguintes expressões:
5.1. «Ciaras e frescas águas de cristal» (v. 2)
5.2. «Nem águas que correndo alegres vêm.»(v. 11)

6. Faça a escansão do 4.° verso da 1ª estrofe.

7. Identifique os tipos de rima presentes neste soneto.


II

1. Construa uma frase contendo o verbo aprender e outra contendo o verbo apreender. As duas frases devem mostrar claramente a diferença semântica entre as duas palavras.

2. A frase seguinte é agramatical, isto é, não obedece â sintaxe. Dê a versão da frase corrigida:
O céu e a terra traduzia o estado de espirito do Pedro. A calma é absoluta.


III

Escolha um dos temas abaixo enunciados.

A. Partindo deste soneto e recordando outros textos e autores da lírica e da narrativa moderna e contemporânea, comente a seguinte afirmação:
"A vida do ser humano constrói-se na íntima relação ao mundo, à sociedade, à natureza. O homem só consegue o equilíbrio se estiver em harmonia consigo próprio e com tudo o que o rodeia.»

B. Recordando os episódios d'0s Lusíadas, crie um texto onde mostre a importância do homem na transformação da realidade, mas nem sempre com a anuência da Natureza, cujos elementos se revoltam.