27.2.08

Ilhas

Pointe Du Vieux Chateau, Belle Ile En Mer, Breton Islands, Morbihan, Brittany, France Photographic Print by Bruno Barbier

Navegavam sem o mapa que faziam
(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente

Sofia de Mello Breyner Andresen,
Ilhas in Navegações




Vocabulário:
conluios – conspirações para prejudicar outrém
clamor – queixa, gritaria
palmares – terreno com muitas palmeiras



I

1. O verso 1 sugere-nos, de imediato, um determinado tempo da nossa história de Portugal. Identifique o período histórico referido.

2. Nos versos 2 e 3, o sujeito poético identifica as actividades dos que ficavam.
Aponte quais eram essas ocupações.

3. Que figura de estilo se destaca entre os versos 1 e 2/3? Justifique.

4. Com ironia, o sujeito poético refere-se, na 3ª estrofe, ao saber livresco. Explique em que consistia tal saber.

5. Na 4ª estrofe é visível a atitude dos corajosos navegantes portugueses.
Como se comportavam eles?

6. Na 5ª estrofe, o sujeito poético refere que os esforços dos navegantes foram recompensados. Justifique a afirmação.

7. Neste poema sugere-se, de forma expressiva, que os Marinheiros Portugueses desvendaram mares nunca dantes navegados. Baseando-se em elementos textuais, confirme esta opinião.

8. Qual o tema deste poema? Justifique a sua opção.

9. Explique o sentido do seguinte verso: E o brilho do visível frente a frente considerando o contexto em que se insere.

23.2.08

O Carnaval de 1855




Era uma das últimas noites do Carnaval de 1855.
Havia menos estrelas no céu do que máscaras nas ruas. Fevereiro, esse mês inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau humor, o folgazão Entrudo ria-se de tais severidades e dançava ao som do vento e da chuva, e sob o dossel de nuvens negras que se levantavam do Sul. Graças à cheia do Douro, a cidade baixa podia bem prestar-se naquela época a uma paródia do Carnaval veneziano.
À porta dos teatros apinhava-se a multidão. Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposições de máscaras à venda e tornavam o trânsito naquelas ruas quase impraticável.
A animação era geral na cidade.
Todos corriam com ânsia... a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.
Alguma coisa também na Águia de Ouro, a anciã das nossas casas de pasto, a velha confidente de quase todos os segredos políticos, particulares e artísticos desta terra; alguma coisa havia nesta modesta casa amarela do Largo da Batalha, que desviava para lá os olhares de quem passava.
Desde as três horas da tarde que o tinir dos cristais e das porcelanas, o estalar das garrafas desarrolhadas, o estrépito das gargalhadas, das vozearias tumultuosas e dos hurras ensurdece-dores rompiam, como uma torrente, do acanhado portal daquele bem conhecido edifício; e por muito tempo essa torrente, à maneira do que sucede com a das águas dos rios caudalosos ao desembocarem no mar, conservava-se distinta ainda, através do grande rumor que enchia as ruas.
Os criados subiam e desciam azafamados as escadas, cruzavam-se ou abalroavam-se nos corredores, hesitavam perplexos entre ordens contraditórias, vinham apressar os colegas na cozinha ou entretinham com promessas os impacientes convivas da sala.
Sob aparências de modéstia, a Águia de Ouro parecia desta vez aureolada de não sei que majestade, condigna do seu emblema.

JÚLIO DINIS, Uma Família Inglesa


I

1.Refere a sequência do percurso espacial do texto.
1.1. Qual o espaço em que se demora mais o narrador e porquê?

2.Transcreve 5 verbos que se encontram no pretérito imperfeito do indicativo.
2.1. Justifica o uso desse tempo verbal.

3.Caracteriza o modo de representação dominante.
3.1. Transcreve 5 adjectivos e indica qual te parece mais expressivo, justificando.
3.2.Identifica as sensações presentes no texto. Explica-as.

4."Havia menos estrelas no céu do que máscaras nas ruas."
4.1. Explica o sentido desta frase.
4.2. Retira do texto outra comparação e explica o seu sentido.
4.3.Que outra figura de estilo encontras no texto? Explica-a.

5.Constrói cinco expressões de acordo com o modelo:
Carnaval de Veneza = Carnaval veneziano

6."Os criados subiam as escadas."
6.1. Reescreve a frase substituindo a expressão sublinhada pelo pronome.
6.2.Faz a análise sintáctica da frase.



II

O Carnaval é ainda hoje uma festa animada que movimenta muita gente.
Faz a descrição de uma cena de Carnaval, presenciada ou vivida por ti. Não te esqueças do movimento, do colorido e da expressividade.




17.2.08

A Fuga de Wang-Fô



Ao ouvir semelhante sentença, o discípulo Ling arrancou da cintura uma faca embotada e precipitou-se sobre o Imperador. Dois guardas o detiveram. O Filho do Céu sorriu e acrescentou num suspiro:
- E também te odeio, velho Wang-Fô, porque soubeste fazer-te amar. Matem esse cão.
Ling deu um salto em frente, não fosse o seu sangue manchar as vestes do mestre. Um dos soldados ergueu o sabre e a cabeça de Ling desprendeu-se da nuca como flor ceifada. Os servos retiraram os despojos, e Wang-Fô, desesperado, admirou a bela mancha escarlate que o sangue do discípulo desenhava no pavimento de pedra verde.
A um sinal do Imperador, dois eunucos enxugaram os olhos de Wang-Fô.
- Ouve, velho Wang-Fô - disse o Imperador -, e seca as tuas lágrimas, pois não é altura de chorares. Os teus olhos devem manter-se límpidos para que a pouca luz que lhes resta não seja ofuscada por teu choro. Pois não só por rancor te desejo a morte; não só por crueldade quero ver- -te sofrer. Tenho outros projectos, velho Wang-Fô. Possuo na minha colecção das tuas obras uma pintura admirável, em que as montanhas, o estuário dos rios e o mar se reflectem. Mas essa pintura ficou incompleta, Wang-Fô, e a tua obra-prima não passa de um esboço. Quero que consagres as horas de luz que te restam a acabar, esta pintura, que assim há-de conter os derradeiros segredos que acumulaste durante a tua longa vida. Se te negares, antes de cegar-te mandarei queimar todas as tuas obras, e serás então como um pai a quem chacinaram os filhos e destruíram as esperanças de posteridade.

Marguerite Yourcenar, “A Salvação de Wang-Fô”, in Contos Orientais


I

1. Localiza o excerto transcrito na estrutura da narrativa do qual ele faz parte.

2. “Ao ouvir semelhante sentença (…)”
2.1. Qual foi a sentença que a personagem ouviu?
2.2. Que motivos terão levado o imperador a declarar essa sentença?
2.3. Como reagiu Ling quando o imperador declarou a sentença?
2.3.1. Qual foi a consequência da reacção de Ling?

3. Ling foi severamente punido.
3.1. Como reagiu Wang-Fô ao castigo aplicado a Ling? Justifica essa reacção.

4. O imperador impõe a Wang-Fô uma última tarefa.
4.1. Em que consiste essa tarefa?
4.2. Recordando o conhecimento que tens do conto, caracteriza de forma completa o Imperador.

5. Wang-Fô vai obedecer ao imperador.
5.1. Qual será o estado de espírito de Wang-Fô durante a realização da tarefa que lhe foi imposta pelo imperador? Justifica a tua resposta.
5.2. Explica em que medida o desenlace da história poderá justificar o título deste conto.


II

1. Indica a função sintáctica desempenhada pelas expressões sublinhadas.
1.1. “(…)o discípulo Ling arrancou da cintura uma faca embotada (…)”
1.2. “- Ouve, velho Wang-Fô - disse o Imperador (…)”
1.3. “Mas essa pintura ficou incompleta(…)”

2. Classifica morfologicamente as palavras sublinhadas nas seguintes frases.
“O Filho do Céu sorriu e acrescentou num suspiro (…)”; “a tua obra-prima não passa de um esboço.”

3. Pontua correctamente as seguintes frases.
3.1. Quando li este conto pela primeira vez tive dificuldade em o compreender.
3.2. António empresta-me os teus apontamentos o teu livro de Português e a borracha.
3.3. Os quadros de Wang-Fô autênticas obras-primas eram célebres em todo o reino de Han.

4. Indica se as seguintes frases são activas ou passivas.
4.1. “Os servos retiraram os despojos.”
4.2. “A um sinal do Imperador, dois eunucos enxugaram os olhos de Wang-Fô.”

5. Transforma a seguinte frase, escrevendo-a na forma passiva.
Naquele momento, Ling defendeu o velho Wang-Fô.

6. Indica o tempo e o modo em que as formas verbais sublinhadas se encontram conjugadas.
“- E também te odeio, velho Wang-Fô, porque soubeste fazer-te amar. Matem esse cão.”


III

Imagina que Wang-Fô e Ling, depois de uma longa viagem que os libertou dos castigos do imperador, chegaram a um reino muito diferente.
Narra, na perspectiva de Ling, a viagem e a chegada a esse reino “diferente”.

13.2.08

O Penedo do Sino



Na pequena aldeia de Bustelo, que, como se sabe, fica no alto do monte a dois passos da Citânia, viveu em tempos idos um cabaneiro que possuía um enorme rebanho de ovelhas, entre as quais existia tam-bém uma preciosa cabrinha leiteira. Rebanho e cabra eram apascentados na serra pela sua única filha, que, diz a lenda, era um encanto de menina.
Aconteceu que, uma manhã, quando a pastorinha foi abrir a porta do redil para sair com o gado a pas-tar, viu sobre um penedo que havia no recinto um enorme sardão. Tinha um ar muito vivo e parecia ter o corpo coberto de pedras preciosas, tal o colorido reluzente das pintas que o cobriam. Nem a pre-sença da menina nem o movimento do rebanho o assustaram e, a partir de então, a pastora nunca mais entrou no redil sem que visse sobre aquela pedra o sardão bonito, que parecia sor¬rir-lhe mansa-mente. Tanto se familiarizaram um com o outro que a pastora acabou por considerá-lo e amá-lo como a cada ovelha do seu rebanho.
Uma vez que estava mungindo a cabrinha, a rapariga viu o sardão aproximar-se como quem tem fome, e pegando numa escudela cheia de leite pô-la à frente do bicho. O sardão sorveu tudo com sofreguidão, ficando tão alegre e satisfeito que a moça compreendeu imediatamente que lhe prestara um grande serviço. Assim, daí para a frente guardava sempre uma escudela de leite para aquele seu amigo.
Estranhamente, porém, a rapariga começou a notar que desde que dava o leite ao sardão a cabra ia secando a pouco e pouco, até ameaçar secar de todo.
E se este facto entristecia a pastora, não parecia, contudo, aborrecer o sardão, que se mantinha alegre como dantes. Ela atribuía essa alegria ao reconhecimento do animalzinho e um dia, falando para ele como era seu costume, disse-lhe:
- Ai, meu bichinho! O leite da cabrinha está quase seco e qualquer dia não tenho com que te alimentar!
Ao ouvir isto, o bicho, em vez de mostrar tristeza, redobrou de corridas até que parou na frente da menina como que sorrindo muito contente.
A determinada altura, o leite secou totalmente. Pela manhã, a pastora dirigiu-se ao redil muito aca-brunhada, pensando no que daria de comer ao sardão nesse dia. Mas, ao abrir a porta ao gado, qual não foi o seu espanto, quando, em vez do sardão, viu sentado no mesmo penedo um rapaz muito bonito e bem vestido. Carinhosamente, ele disse-lhe então:
- Entra, minha amiga, que sou ainda o mesmo! Não tenhas medo! O sar¬dão que alimentavas não era senão eu, um pobre filho da Moirama que seus pais, ao serem expulsos de Portugal, aqui deixaram encantado naquele ani-malzinho. Foram os teus cuidados que quebraram o encanto e cativeiro a que estava votado. Há tempos que esperava a minha liberdade, que estava pen¬dente do leite de noventa dias de uma cabrinha do monte da Citânia. Desde que o meu encanto se quebrou, secou o leite da cabra, mas descansa, que mal eu pise a terra da Moirama o leite há-de voltar. Antes, porém, vou dei-xar-te uma lembrança minha, como testemunho da minha gratidão e amizade. E puxando por um objecto muito brilhante, com forma de um X, que trazia na algibeira, acrescentou:
- Toma isto que te dou. É um talismã com o qual conseguirás seduzir quem tu quiseres. Trá-lo sempre contigo durante três meses, ao fim dos quais devo ter chegado à Moirama, para onde vou partir. Nessa altura, volta aqui e coloca o talismã sobre este penedo, que é o cofre dos meus tesouros. O talismã há-de transformar-se numa chave debaixo da qual encontrarás uma fechadura. Abre, e tudo o que encontrares é teu. Mas atenta bem que até lá tens de guardar segredo absoluto de tudo isto que connosco se passou, senão perderei de novo a liberdade e voltarei à condição de réptil, como me encontraste.
A raparíguinha ainda não conseguira sair do seu espanto quando o mouro desapareceu e a deixou ali de boca aberta e talismã na mão.
Daí por diante, a pastorinha da Citânia tornou-se o enlevo e a sedução de quantos a conheciam. Prin-cipalmente, diz a lenda, não havia rapaz que a olhasse e não ficasse perdido de amores por ela. Isto tornou-se tão escanda¬loso que o pai da rapariga, vendo-a dar tanto nas vistas, a chamou para que lhe explicasse as razões do seu condão. Como resposta, a pastora perguntou: só
- Meu pai, há quantos meses secou o leite da nossa cabra?
- Já lá vão uns quatro meses. Porquê?
- Venha então comigo!
De caminho até ao redil, ela foi-lhe contando tudo o que se passara e que levara ao seu poder encan-tatório junto das pessoas. Por fim, já junto ao penedo onde aparecera o sardão, pousou o talismã e tudo se passou como o mouro lhe predissera.
Abriram a rocha e, maravilhados, encontraram lá dentro uma tão imensa fortuna que passado pouco tempo se tornaram fidalgos e grandes senhores da corte do nosso Rei. Eram grades, arados, cadeados, cordões, grilhões e mea¬das, tudo do mais puro ouro, tudo cravejado de pérolas e diamantes de todas as cores, tudo nunca visto!
O penedo, assim que se viu vazio daquela riqueza, fechou-se para não tor¬nar a abrir-se. Com o tempo, as casas colmaças que existiam sobre ele caíram e desapareceram com o vento, restando apenas, e esperemos que para sem¬pre, o penedo tocando a vazio, oco como um sino e tangendo como ele.

Lendas Portuguesas,
recolha de Fernanda Frazão, Multilar

I

Completa as frases com palavras tuas, a partir de informações textuais.
1.1. Na pequena aldeia de Bustelo, uma linda pastorinha, filha de um cabaneiro,...
1.2. Uma manhã, viu um enorme sardão sobre um penedo quando...
1.3. O sardão era muito bonito e não...
1.4. A pastorinha começou a...
1.5. Quando o sardão bebeu alegremente a escudela de leite, a pastorinha...
1.6. A pastorinha ficou muito triste quando reparou que a cabra...
1.7. O sardão ficou muito contente quando...
1.8. A pastorinha teve uma surpresa: encontrou no mesmo penedo...
1.9. Quebrado o encanto, o...
1.10. O leite da cabrinha tinha secado, mas o...
1.11. Como recompensa, deixou à pastorinha...
1.12. Com ele, a pastorinha poderia...
1.13. A pastorinha deveria trazê-lo consigo...
1.14. Quando a pastorinha o colocasse sobre o penedo, ...
1.15. Para que o encanto não voltasse a repetir-se, a pastorinha deveria...
1.16. O pai da pastorinha, ao ver que todos os rapazes se apaixonavam por ela, ...
1.17. A pastorinha levou o pai junto do penedo e...
1.18. Pai e filha tornaram-se...
1.19. O penedo ali ficou, oco...

2.Concordas com o título da lenda? Justifica a tua resposta.
2.1. Que outro titulo proporias? Justifica a tua opção.

3. De acordo com a "divisão temática da lenda", proposta por Fernanda Frazão, como classificas esta lenda? Justifica.

II

Passa para a forma passiva as frases.
1.1 A pastorinha "viu sobre um penedo um enorme sardão."
1.2 "O sardão sorveu tudo com sofreguidão (...)."
1.3 A pastorinha "guardava sempre uma escudela de leite para aquele amigo."
1.4 "(...) perderei de novo a liberdade (...)."
1.5 Guarda segredo absoluto!
1.6 "Abriram a rocha (...)."
Passa para a forma activa.
2.1 Um talismã foi dado pelo jovem mouro à pastorinha.
2.2 Que o penedo seja aberto por ti!
2.3 O sardão era alimentado pela pastorinha.
2.4 O povo será doravante protegido pela pastorinha.

III

Relembra o final da lenda: "Com o tempo, as casas colmaças que existiam sobre ele caíram e desapareceram com o vento, restando apenas, e esperemos que para sempre, o penedo tocando a vazio, oco como um sino e tangendo como ele".
Imagina que o penedo não tinha ficado vazio, porque dentro dele ainda tinha ficado, escondido, um tio solteirão do jovem mouro. Esse tio, de maus instintos, já preparava uma vingança que teria como vítima a pastorinha, que era, agora, uma dama da corte.
Continua esta ideia, recorrendo à tua criatividade.

10.2.08

Lenda das amendoeiras




Há muito, muito tempo, ainda o Reino dos Algarves não era dos Portugueses, pertencia a região a
um poderoso senhor árabe, conhecido nos mais recônditos pontos do mundo pela sua coragem e rudeza. O seu jugo estendia-se a tão longínquas paragens que dos locais mais estranhos lhe eram trazidas, como escravas, as mais belas mulheres das mais exóticas raças.
Certa vez, entre as escravas chegadas ao Algarve, uma chamou a sua atenção. Era uma menina loira, de faces muito brancas e olhos azuis, de um azul diferente e longínquo, azul quase turquesa. Graciosa e doce, contrastava gritantemente com as mulheres morenas e quase agressivas que mais comummente ali chegavam. E curioso de saber donde lhe vinha a diferença, perguntou:
— Como te chamas, escrava? E donde vens tu?
— Chamo-me Gilda, senhor, e venho lá do norte gelado onde a neve é, eternamente.
— Como vieste aqui parar?
- Ia de viagem com meu pai, um grande guerreiro do Norte, e vossos guerreiros mataram-no.
Sorriu o senhor ante a vitória que tal despojo lhe trazia. E, num gesto que nada mais era do que o prazer de possuir tal mulher, pôs à disposição da escrava todo o seu reino.
Passou o tempo e a menina foi crescendo, Sem que Gilda desse por isso, o seu senhor passava horas a contemplá-la. E tanto c tão longamente olhou que, um dia, fez do objecto a coisa amada. Sendo senhor e dono de tudo o que o rodeava, o árabe decidiu desposar a escrava loira do Norte c fazer dela a primeira mulher entre todas as escravas c concubinas do seu harém. E Gilda, a loira, a escrava, acatou as ordens do seu senhor, ainda que isso lhe custasse a última esperança do seu viver: voltar à terra longínqua onde nascera, ao mundo gelado da sua infância, aos velhos rituais do fogo ardendo, não do céu mas do solo.
Alegre e descuidado como um menino, o árabe começou os preparativos para o casamento, que queria inesquecível. Em breve começaram a chegar presentes c convidados de todas as partes da Terra. E ao azul luminoso do céu juntou-se o colorido dos trajos exóticos dos mais distantes países. Vieram rajás da índia, vestindo túnicas brancas, toucados de turbantes multicolores, cobertos de jóias, sentados em palanques sobre o dorso de elefantes; vieram tuaregues do deserto, vestidos de lã negra, cobertos de areia, sobre camelos pachorrentos; vieram mongóis e chineses, godos da Hispânia, germanos e normandos das terras frias do Norte, suevos louros com seus trajos de gala, príncipes negros da Etiópia, cavaleiros cristãos com elmos rebrilhantes, montados em cavalos de gualdrapas coloridas c bordadas. O reino era pequeno, a multidão muita e todas as ruas eram uma orgia de cor e movimento.
No belíssimo salão de trono do árabe, todo ele colunas de mármore sustendo arcos em ferradura, centenas de bailarinas cobertas com ténues véus dançavam como ser¬pentes ao som de melodias estonteantemente harmónicas, tocadas por menestréis em citaras e alaúdes. Quando as bailarinas tombavam de cansaço, vinham os trovadores cantar cm baladas os feitos heróicos do seu senhor, ou os velhos contadores de histórias entreter os convidados com antiquíssimos e inesquecíveis contos.
No meio de toda aquela alegria, Gilda, porém, não estava feliz. No rosto um esquecido sorriso, nos olhos uma tristeza mais longínqua e azul. Nem cantares nem iguarias lhe alegravam o olhar c o árabe inquietava-se por saber o motivo. Mas nem Gilda sabia explicar o porquê do seu sentir. Estava assim, triste do fundo do corpo, nostálgica desde a sua alma. De tudo isto ela sabia apenas que se sentia enamorada do seu senhor e com mais razões para alegrias do que tristezas, mas não conseguia evitar aquela estranha inquietação.
Não conseguindo mostrar uma alegria que não tinha, decidiu Gilda retirar-se para os seus aposentos.
Acabou a testa e Gilda estava recostada nos coxins do seu divã. Passaram-se os dias c Gilda continuava recostada nos coxins. Os seus belos olhos azuis fixavam através da janela, em frente, o azul sempre límpido do céu, e iam esmorecendo dia a dia. Gilda sofria e o seu senhor não sabia dar-lhe remédio.
Vieram físicos de todo o reino, vieram mais físicos do mundo inteiro, e nenhum atinava com a causa daquela infinda melancolia. O senhor dos Algarves, sem saber mais que fazer, mandou anunciar pelo mundo que daria fortunas a quem lhe salvasse a mulher. E ninguém se apresentou para tentar, porque o fracasso equivaleria a perder a vida.
Gilda sofria, quase exangue, recostada nos coxins do seu divã, os olhos perdidos no azul do céu do Algarve. Perdidas estavam também as esperanças do senhor. Resignado, via definhar a sua bela Gilda sem que um gesto sequer lhe pudesse valer.
Uma tarde, porém, vêm dizer-lhe que um velho chegado das bandas do norte insistia em falar-lhe. Recebeu o homem, apenas porque invocava para ser ouvido a cura da sua preferida, mas não acreditou que a cura fosse possível.
- Quem és tu, velho?
— Senhor, sou um velho amigo de Gilda. Fui seu aio quando era menina e posso e quero salvá-la. Deixai-me falar-lhe, senhor!
- Seja, velho! Mas não acredito que lhe tragas a cura.
- Mesmo assim quero experimentar!
E o velho aio entrou no quarto de Gilda. O que lá se passou ninguém o soube. Ficaram sós durante muitas horas c, por fim, o velho saiu e pediu que o levassem ao senhor do palácio.
Chegado à câmara do árabe, o aio, aproximando-se de uma janela, disse:
- Senhor, o mal de vossa esposa é a saudade!
- Saudade, bom velho?! Que é isso?!
- Saudade, meu senhor, é uma coisa que se sente do que se ama e está ausente. E um mal que destrói a alma e corrói o corpo. Sim, meu senhor, ela tem saudades da neve que cobre de branco a nossa terra.
- E o que devo fazer, velho? Mudar-me para o norte?
— Não, senhor! Basta que planteis por esse Algarve fora amendoeiras, centenas de amendoeiras. No dia em que florescerem, todos os caminhos e montes parecerão cobertos de neve e ela curar-se-á.
O árabe ficou incrédulo, mas, apesar de tudo, decidiu fazer o que o velho aio dizia, quase só pela certeza por ele posta no que afirmava. Em todo o Reino dos Algarves foram plantadas milhares de amen-doeiras, enquanto Gilda permanecia entre coxins, definhando, morrendo pouco a pouco. Um dia, porém, as amendoeiras floriram. Milhões de pequeníssimas flores brancas cobriam enormes extensões. O parque do palácio era um imenso campo branco de maravilha.
Gilda ignorava tudo aquilo e o árabe, depois de ter ele mesmo admirado o espectáculo, correu à sua câmara pedindo-lhe que fizesse um esforço c se aproximasse da janela com ele. Gilda, a custo, ergueu-se do divã c, amparando-se no ombro do seu senhor, chegou à janela e olhou o parque. Durante longos segundos ficou extática, sem conseguir sequer emitir um som. Depois, murmurou, como quem fala em sonhos:
- E a neve! A neve da minha terra!
O resto que se passou não conta a lenda, mas é fácil de adivinhar. Gilda curou-se, sem dúvida, c ainda hoje, quando vem a Primavera, o Algarve cobre-se de minúsculas flores brancas, perpetuando o gesto de amor desesperado de um árabe de há longos séculos, do tempo de antes de os Portugueses chegarem.

FRAZÃO, Fernanda (rec.) Lendas Portuguesas


I

1. A "Lenda das amendoeiras", tal como os contos tradicionais, as adivinhas, os provérbios, as lengalengas, pertence ao património literário oral português. Em que região do país tem lugar esta história?

2. Retira do primeiro parágrafo do texto elementos que permitam localizar no tempo a acção narrada.

3. Logo no início da narrativa, é-nos apresentado um "poderoso senhor árabe", famoso em muitas partes do Mundo. Como é caracterizada esta personagem no início do texto?

4. A chegada de Gilda ao Reino dos Algarves vai transformar o dia-a-dia do senhor árabe.
4.1. Quem era Gilda?
4.2. Caracteriza-a fisicamente, com base em elementos textuais.
4.3. Gilda destacava-se das restantes mulheres que rodeavam o senhor árabe. Porquê?

5. O "poderoso senhor árabe" apaixona-se por Gilda e decide casar com ela. Delimita no texto os momentos que relatam e descrevem os preparativos do casamento e a própria cerimónia.
5.1. Tudo se transforma no reino e no palácio para comemorar o casamento. Transcreve passagens do texto que provem que o ambiente vivido era:
•alegre;
• exótico;
• luxuoso;
• cosmopolita.
5.2. Na descrição dos preparativos, várias são as sensações sugeridas pelo narrador. Dá exemplos de:
• sensações visuais;
• sensações auditivas.

6. Refere os principais divertimentos que o árabe oferecia aos seus convidados.

7. O estado de espírito de Gilda contrastava com a atmosfera que a rodeava. Porquê?

8. Os primeiros tempos de casada de Gilda são de muito sofrimento. Indica os principais sinais deste sofrimento.
8.1. O que faz o seu marido para a tentar curar?

9. A certa altura, aparece no palácio um velho originário das terras do Norte. Segundo ele, de que padecia Gilda? Porquê?

10. O que propõe o velho ao árabe para curar Gilda?

11. Esta lenda tem um final feliz e procura explicar uma realidade característica do Algarve. Qual é ela?

II

1. Sublinha o sujeito das seguintes frases:
a) "Os seus belos olhos azuis fixavam através da janela, em frente, o azul sempre límpido do céu,!...."
b) "E o velho aio entrou no quarto de Gilda."
c) "O árabe ficou incrédulo, l...l"
1.1. Em todas estas frases encontras adjectivos. Refere-os.
1.2. Que substantivos qualificam?
1.3. Indica a função sintáctica desses adjectivos.

2. Refere o hiperónimo dos seguintes grupos de palavras:
a) azuis - brancas - negra.
b) cítaras - alaúdes.

3. Indica o singular dos seguintes vocábulos:
• países;
• mongóis;
• multicolores;
• chineses;
• cristãos;
• menestréis.


9.2.08

Destino

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?

Quem diz à planta -" Floresce!"
E ao mudo verme que tece
Sua mortanha de seda
Os fios quem os enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett, Folhas Caídas


I

1. Assunto
1.1. Indica o assunto do texto.

2. Estrutura interna
2.1. Divide o texto em partes.
2.2. Que relação se estabelece entre elas?

3. Sentimentos
3.1. Transcreve a frase do texto que comprova que o amor cantado pelo poeta é o amor fatal.
3.2. Refere algumas palavras que apontam para a concepção platónica do amor.

4. A Natureza
4.1. Descobre, em relação ao tema, a característica mais significativa de cada elemento da Natureza.
4.2. Mostra como o poeta faz reverter a seu favor essa característica.

5. Expressividade da linguagem
5.1. Explica o valor semântico da anáfora, da hipérbole e da aliteração.

6. Teatralidade
6.1. Comprova a teatralidade do discurso.

7. Corrente literária
7.1. Insere o texto na sua corrente literária.


II

A poética de Folhas Caídas é a expressão vivida de contradições amorosas, provocadas pela visão da mulher e pelo domínio desta sobre o homem.
• Num texto de 12 a 15 linhas, comprova esta afirmação, apoiando-te em leituras de poemas dessa obra.






Eu sou o jornal




Eu sou o jornal. Chamo-me assim e é assim que eu gosto que me chamem. Não é preciso outro nome para toda a gente saber o que sou e que faço, o que digo e a razão porque digo.
Sou feito de papel, tinta e notícias. Tantas notícias quanto as que couberem no meu corpo de fotografias e letras, onde as pessoas procuram saber novidades do que se passa na sua vila, na sua cidade, no país, no mundo...
Todas as manhãs, muito cedinho ou então no princípio da tarde, saio à rua com o meu fato preto e branco ou às cores e conto a quem me quer ler as notícias fresquinhas que me chegam de todo o mundo.
Preciso de notícias como vocês precisam de ar, de água e de pão para viver. As notícias são o meu ar, a minha água, o meu pão para viver. São, afinal, o meu alimento. E são também o alimento de quem quer saber mais do que aquilo que se diz e se conta no emprego, no café, na escola ou na rua.

Eu Sou o Jornal, José Jorge Letria e José Gaulão



I

1. Diz o que é um jornal e escreve o nome de um que conheças.

2. Transcreve uma frase do texto em que nos mostre de que é feito o jornal.

3. Qual a importância que tem o jornal?

4. O que quer o autor dizer com a seguinte expressão: “...saio à rua com o meu fato preto e branco ou a cores...”

5. Quando e onde se pode adquirir um jornal?

6. Para além das notícias o que podes ler no jornal?


II

1. Escreve quatro palavras da família de papel:

2. Sobre o texto, escreve uma frase composta da tua autoria.

3. Lê a frase: “ O jornal é feito de papel preto”
. Classifica as palavras morfologicamente.
O ; jornal ; é ; Preto

4. Copia do texto:
a) dois verbos no tempo presente e duas palavras acentuadas com acentos gráficos diferentes. Identifica-os.

b) Uma frase declarativa.


5. Escreve o sinónimo e o antónimo das seguintes palavras retiradas do texto:
Fresquinhas
Emprego


6. Observa a frase:
“As notícias chegam de todo o Mundo.”

a) Escreve o sujeito e o predicado; sublinha o grupo móvel.
b) Assinala a afirmação verdadeira:
. A frase anterior está no:
Pretérito perfeito 0 Futuro 0 Presente 0


III

Relata-nos, por palavras tuas, uma notícia ocorrida na tua localidade, na escola ou na rua, que consideres importante ser publicada no jornal.



8.2.08

Aparição

I

Leia, com atenção, este extracto que surge após a observação do álbum da tia Dulce.


SOU. Jacto de mim próprio, intimidade comigo, eu, pessoa que é em mim, absurda necessidade de ser, intensidade absoluta no limiar da minha aparição em mim, esta coisa, esta coisa que sou eu, esta individualidade que não quero apenas ver de fora como num espelho mas sentir, ver no seu próprio estar sendo, este irredutível e necessário e absurdo clarão que sou eu iluminando e iluminando-me, esta categórica afirmação de ser que não consegue imaginar o ter nascido, porque o que eu sou não tem limites no puro acto de estar sendo, esta evidência que me aterra quando um raio da sua luz emerge da espessura que me cobre. E estas mãos, estes pés que são meus e não são meus, porque eu sou-os a eles, mas também estou neles, porque eu vivo-os, são a minha pessoa e todavia vejo-os também de cima, de fora, como a caneta com que vou escrevendo...
Eu o disse, o repeti a Ana quando um dia me veio visitar. Eu a calei no silêncio da sua submersão até onde ela me começava a ouvir e estremecia também no cigarro febril, nos olhos cerrados até à sua procura e à sua angústia. Eu o disse e repeti a Sofia quando uma noite, sozinha, veio no carro do pai e se sentou à minha mesa e bebeu pela noite fora. Porque me procuraste, Sofia? Repeli-te, a princípio, não sei porquê. Talvez porque nada do que eras tu me fora prometido, talvez por renascer uma voz de justiça entre nós ambos e que eu escutava ainda, com uns ouvi¬dos justos ou injustos, não sei. Mas qualquer eco de desespero vibrava ainda em mim, vinha ainda e sempre talvez, porque é possível que só aí eu esteja certo e a evidência que me queima seja a procura ou a expressão disso que sou e me recuso. Assim te atravessei por fim da minha loucura ou da minha raiva, esse gosto furioso de vencer em ti o que em ti resistia ou me alucinava. Tu, uma pessoa inteira, tão flagrante, tão vibrante no teu contorno, no tom da tua voz insidiosa, nos teus gestos estriados de vício. Um segredo de ti me fascina - tocá-lo, vencer-te, vencer-me, saldar num urro toda esta aflição. Eis-me escrevendo como louco, aos tropeções nas palavras, enrodilhado, contraditório talvez, a boca amaldiçoada de secura, um frio íntimo nos ossos, um arrepio no ventre. Sofia... Saíste já alta noite, vim ver-te descer a colina, correr ao longo da estrada no rasto de uma pequena luz. A paz não está em nós, não está a minha em ti, não está em mim a tua. Mas tu queres amar o teu próprio desespero como uma embriaguez, eu sonho a plenitude dê umas mãos dadas com a vida. Talvez, porém, que para lá da minha verdade que procuro esteja a tua loucura. Não quero pensar agora - agora não. O luar verde de Março sobe no horizonte da minha noite de vigília, esta noite infinita em que escrevo. Olho-o pela janela na montanha e uma alegria profundamente triste embacia-me o olhar. Minha mulher dorme. Tremo de pensar que o sossego que às vezes me visita esteja só na sua bênção, na paz que irradia do seu silêncio. Estarei só e condenado? O reino da vida está cheio ainda do rasto dos deuses, como num país velho perdura a memória dos senhores antigos e expulsos. Mas o homem nasceu - nasceu agora da sua própria miséria e eu sonho com o dia em que a vida fique cheia do seu rasto de homem, tão certo e evidente e tranquilo como a luz da tarde de um dia quente de Junho...


Vergílio Ferreira, Aparição



1. Neste excerto de Aparição há uma mistura de tempos que dão complexidade à escrita.
1.1. Distinga o tempo da história e o tempo da escrita.
1.2. Identifique os tempos verbais usados na narração dos eventos e nas reflexões do narrador.

2. O narrador fala-nos do "limiar da minha aparição em mim."
2.1. Identifique realidades materiais que evidenciem que a aparição se faz também através da própria presença do EU.

3. Identifique os recursos estilísticos presentes na expressão: "O luar verde de Março sobe no horizonte da minha noite de vigília".

4. "O reino da vida está cheio ainda do rasto dos deuses, como num pais velho perdura a memória dos senhores antigos e expulsos."
4.1. Explique o sentido da expressão.
4.2. Mostre em que medida o papel da memória se revela importante para traduzir sentimentos e emoções.
4.3. Identifique o anseio de que, paralelamente e por contraste, o narrador nos dá conta.



II

Tudo tem o seu espirito, a gente é que não dá conta.
Vergílio Ferreira, Em Nome do Terra, pág. 45


Produza um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras, em que mostre como Vergilio Ferreira traduz esta ideia ao reflectir sobre a existência na Aparição.





Viagens na Minha Terra

– «E que lhe pareceu?»
– «Bem escrito e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os liberais não tiveram menos.»
– «Errámos ambos.»
– «Errámos e sem remédio. A sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era; – mas muito menos ainda pode ser o que é. O que há-de ser, não sei. Deus proverá.»
Dito isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviário e pôs-se a rezar. A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns segundos. Nenhum me deu mais atenção nem pareceu cônscio da minha estada ali.
Sentia-me como na presença da morte e aterrei-me.
Fiz um esforço sobre mim, fui deliberadamente ao meu cavalo, montei, piquei desesperado de esporas, e não parei senão no Cartaxo.
Encontrei ali os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fora da vila à hospedeira casa do Sr. L. S.
Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos a sono solto.
Mas eu sonhei com o frade, com a velha – e com uma enorme constelação de barões que luzia num céu de papel, donde choviam, como farrapos de neve, numa noite polar, notas azuis, verdes, brancas, amarelas, de todas as cores e matizes possíveis. Eram milhões e milhões e milhões...
Nunca vi tanto milhão, nem ouvi falar de tanta riqueza senão nas mil e uma noites.
Acordei no outro dia e não vi nada... só uns pobres que pediam esmola à porta. Meti a mão na algibeira, e não achei senão notas... papéis!
Parti para Lisboa cheio de agoiros, de enguiços e de tristes pressentimentos. O vapor vinha quase vazio, mas nem por isso andou mais depressa. Eram boas cinco horas da tarde quando desembarcámos no Terreiro do Paço.
Assim terminou a nossa viagem a Santarém: e assim termina este livro.
Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.
Se assim o pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar.
Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar. Escusada é a jura porém. Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal!
Que tenha o governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra




I

1. É-lhe apresentado um excerto de Viagens na Minha Terra bem elucidativo de algumas questões sobre as quais o autor pretendeu reflectir.

1.1. Mostre que nele se encontram dois planos narrativos.

2. Identifique os diferentes papéis assumidos pelo narrador nos dois planos narrativos.

3. Interprete o valor simbólico do seguinte enunciado: «eu sonhei com o frade, com a velha e com uma enorme constelação de barões».

4. Registe dois recursos de estilo usados pelo autor e comente o seu valor expressivo.

5. Insira este excerto no movimento literário correspondente, fundamentando a sua resposta.

6. No regresso, o autor refere que «o vapor vinha quase vazio, mas nem por isso andou mais depressa».

6.1. Procure relacionar a morosidade do «vapor» com o ponto de vista de Almeida Garrett acerca do progresso social do país.


II

Recordando o que, ao longo da obra, foi observando sobre o estilo de Almeida Garrett, diga de que modo o autor contribuiu para a modernização da prosa literária portuguesa.



7.2.08

Pela gravata morre o tímido


De tanto esperar o amor, ele acabou por amar a espera. Era Horácio, de olhos inodoros, vida acanhada e sonhos aguados. Tímido e desencorporado, ele era um subexistente. Os outros arrumavam-se com as namoradas, exercendo-se. Horácio não, solteirava em estado de deserto sensual.
— Às vezes tenho-me pena — suspirava.
Os amigos escutavam-lhe a solidão, compaixonados. Havia que ajudar Horácio a sair de si, desentocar-se. Procuraram uma miúda que aceitasse dar despacho aos suspiros do solitário. Não existia nenhuma. Horácio, diziam elas, é caril sem tempero, carente de vivência. Os amigos não tinham coração a medir: continuaram, indagando toda a garotoria disponível. Nenhuma acolhia a ideia. Até que se lembraram de Marta, a gorducha do bairro. Ela aceitou.
Nessa mesma noite, iriam os dois ao baile no clube ferroviário. No fundo, também ela sofria de solidão. A alma dela corria o risco das ilhas distantes que, para serem vistas, carecem de muita viagem.
A gorda vestiu-se do melhor: foi ao fundo do armário e ajeitou os veludos sobre o imenso corpo. Eram tantas as carnes e tão sobradas do corpo que o vestido parecia curto, perigosa-mente ínfimo.
A menina carnosa olhou-se ao espelho e quase desistiu. A imagem dela excedia o reflexo. Quis ir à balança mas teve medo. Só uma perna chegaria para desmanchar o ponteiro. Sufocada em sua própria redondez, desatou a soluçar. E quando se esperava que gordas lágrimas escorressem, afinalmente, se viu descerem lagriminhas estreitas, em pranto quase do passarinho. Marta quis reagir mas aquela era uma tristeza talentosa: ela ficou, sentada no assento das horas.
No outro canto da cidade, Horácio tentava entender os abismos da vida. A ideia de ir ao baile lhe aterrorizava.
— Mas fazer o quê?
Os outros empurravam-no para fora do medo. Ora, você vai, estão lá as miúdas. O pobre Horácio estremecia só de pensar. As miúdas! Queria explicar os seus temores, dizer que tudo em si permanecia internamente. Era como um prisioneiro que, de tanto cativeiro, acabara receando a liberdade.
— Não sei mexer com miúdas.
Os outros riram-se e forçaram-no a que se vestisse. Horácio era só corpo, desprovido de vontade. Meteram-lhe uma gravata vermelha, ordenando que a usasse assim, sem casaco. Foram pondo ornamentos: óculos escuros, cinto prateado, gola alevantada. Explicaram-lhe alguns «i trejeitos, tiques e gestos próprios de quem quer acabar a noite em dupla horizontal.
Horácio enfrentou-se ao espelho, nem se reconheceu. Tossiu para ver se o espelho lhe devolvia a aflição. Os amigos ironizaram, divertidos com o novo Horácio, parecia um mascarado fora da época.
— São horas, Horácio. Agora, passa a buscar a Marta.
Ele ainda ensaiou barafustar. Quem sabe se ela não está disposta, não será que é demasiado cedo? Mas foi indo, os outros atrás, assegurando-se de que o tipo não escapava no virar da esquina.
Foi subindo as escadas do prédio de Marta. Em cada andar se livrava de um enfeite. No primeiro, tirou os óculos. No segundo, retirou o cinto. No terceiro, ajeitou o cabelo e baixou a gola. Só depois de ter tocado a campainha deu da gravata, essa tira de mau gosto que lhe pesava toneladas. Mas não dava tempo de a tirar, já alguém abria a porta. Era Marta, espreitando uma entrefresta. Horácio, por aquela a nesga, só vislumbrava uma fatia da gorda.
— Sou Horácio, venho buscá-la para a festa.
Marta respondeu que ainda não se aprontara. Pela abertura examinava D candidato, atenta ao detalhe dele.
— Como disse que se chama?
— Sou o Horácio.
— Tem uma gravata muita bonita, Horácio.
Ele entrou e esperou na sala enquanto ela, no quarto, terminava a enfeitação. Esperou, esperou, esperou. Foi nesse enquanto que começou de escutar um soluço: no compartimento ao lado, alguém m chorava. Era um pranto que vinha das profunduras, uma tristeza que atravessava galerias até desabrochar em lágrimas. Horácio empurrou ao de leve a porta do quarto e chamou:
— Marta!
Do outro lado, o silêncio. Ele insistiu e foi entrando mais um pouco. Foi então que uma mãozinha gorda lhe agarrou na gravata e, de um puxão vigoroso, o atirou para cima da cama. Horácio não viu nem ouviu: apenas sentiu um planeta deitando-se sobre o seu corpo desprevenido.
Quem visita o casal, hoje, nota na parede da sala o mais estranho quadro: enquadrada em moldura dourada, uma gravata vermelha.
E ainda agora, tantos anos passados, nos dias de humidade, Horácio se queixa de dores no pescoço, resultado da sua primeira aterrisagem, torcicolado, nos domínios amorosos.

MIA COUTO. Cronicando (1991)


I

1. Leia atentamente o excerto apresentado, da autoria de Mia Couto.

2. Proceda à caracterização física e psicológica de Horácio e Marta.

3. Identifique o recurso estilístico presente na frase: «A imagem dela excedia o reflexo.»
3.1 Comente a sua expressividade.

4. Atente na passagem: «Foi subindo as escadas do prédio de Marta. Em cada andar se livrava de um enfeite. No primeiro, tirou os óculos. No segundo, retirou o cinto. No terceiro, ajeitou o cabelo e baixou a gola. Só depois de ter tocado a campainha deu da gravata, essa tira de mau gosto que lhe pesava toneladas.».
4.1 Demonstre que a linguagem está de acordo com o fluir temporal.
4.2 Classifique o narrador quanto à presença e quanto à focalização.

5. Explique o sentido das seguintes expressões:
a) «Era como um prisioneiro que, de tanto cativeiro, acabara receando a liberdade.»
b) «Horácio era só corpo, desprovido de vontade.»

6. Leia com atenção a seguinte frase: «Horácio, diziam elas, é caril sem tempero»
6.1 Identifique o recurso estilístico utilizado e comente a sua expressividade.

7. Descreva o comportamento dos amigos de Horácio na preparação para o encontro com Marta.
7.1 Analise a evolução do estado de espírito de Horácio.

8. Justifique o título, tendo em atenção os acontecimentos ocorridos ao longo do texto.

9. Considere os seguintes segmentos textuais.
a) «solteirava em estado de deserto sensual.»
b) «Os amigos escutavam-lhe a solidão, compaixonados.»
c) «Havia que ajudar Horácio a sair de si, desentocar-se.»
9.1 Identifique os neolo-gismos existentes nestas frases, comentando a sua expressividade.

10. Atente na seguinte frase: «Marta respondeu que ainda não se aprontara.»
10.1 Identifique e classifique as frases que a compõem.
10.2 Identifique a classe e a subclasse dos vocábulos destacados.

11. Identifique o tipo e a forma das seguintes frases.
a) «— São horas, Horácio. Agora, passa a buscar a Marta.»
b) «— Sou Horácio, venho buscá-la para a festa.»
c) «— Como disse que se chama?»

12. Considere a seguinte frase: «Quis ir à balança mas teve medo.»
12.1 Identifique e classifique as frases que a compõem.
12.2 Identifique as funções sintácticas de «medo» e «teve medo».

13. Comente a seguinte frase: «De tanto esperar o amor, ele acabou por amar a espera.»


6.2.08

Texto Jornalístico

Os Pais não Têm o Direito de Envelhecer!




ÀS VEZES JULGAMOS QUE NOS APETECE CRESCER, IMAGINE-SE. Julgamos que é hora de nos tornar¬mos independentes dos nossos pais, bolas, já temos idade para isso e, francamente, é ridículo aquele gesto automático de passar a mão pelo cabelo antes de lhes bater à porta ou o desejo de os contradizer em tudo, como se não fôssemos mais do que adolescentes em busca de identidade, i Nesses momentos vemo-nos a deixar tudo e todos, a partir de trouxinha presa num pau, para correr mundo e, finalmente, sermos livres. Vamos comer com as mãos, sempre a sobre-mesa antes da sopa, assoar o nariz à manga, deixar a cama por fazer, as luzes da casa todas acesas, os pratos sujos empilhados no lava-louças. Vamos partir sem dizer a que horas voltamos, nem com quem fomos, nem onde, claro, e, sobretudo, não nos afectará nem um bocadinho que a nossa mãe nos diga que aquela roupa não nos o fica bem, que devemos cortar as unhas ou que está mais do que na hora de sair para a missa ou de ir visitar a tia Anastácia.
Coitadinhos, somos tão ingénuos que julgamos que vamos deixar de ouvir as suas vozes dentro de nós, quais grilos de Pinóquio, que a sua presença física é necessária para que nos comportemos exactamente da forma como pretendem. Ou que façamos tudo ao contrário do que nos disseram, numa desesperada e efémera tentativa de provar a nós mesmos que eles já não «mandam nada».
Mas é tudo mentira. Crescemos por fora porque não temos outra alternativa, assumimos poses de autonomia porque nos dizem (inclusivamente os próprios) que é assim que deve ser. Na prática, impedi-mo-nos de correr para os braços da nossa mãe quando esfolamos um joelho ou cortamos um dedo, apenas porque sabemos que seríamos objecto de escárnio de todos os que nos rodeiam e que temem ser impelidos a imitar-nos.
Por dentro continuamos sempre filhos. E quando os nossos pais ameaçam envelhecer, ou doentes precisam de nós como nós precisámos deles, agimos com a mais perfeita das infantilidades. Bate-mos o pé e recusamos com determinação a troca de papéis.


Isabel Stilwell, Notícias Magazine, 14 de Abril de 2002



I

1. Os textos jornalísticos podem ser informativos, opinativos ou mistos.
1.1 Nesta perspectiva, classifica o texto apresentado. Justifica a resposta.

2. «Julgamos que é hora de nos tornarmos independentes dos nossos pais».
2.1 De que modo é posta em prática a liberdade referida no texto?
2.1.1 Identificas-te com este conceito de liberdade? Justifica.

3. «Mas é tudo mentira.».
3.1 O que é mentira, segundo a autora?
3.2 Interpreta a expressão «Por dentro continuamos sempre filhos.».

4. Refere o registo de língua que se evidencia no texto.
4.1 Apresenta dois exemplos.

5. «Batemos o pé e recusamos com determinação a troca de papéis.»
5.1 Divide e classifica as orações.
5.2 Refere a função sintáctica de «com determinação».

6. Refere o processo de formação dos seguintes vocábulos:
• «lava-louças»
• «envelhecer»


II

• Faz a síntese dos dois primeiros parágrafos.



4.2.08

O boi Cardil


Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas tapadas, acompanhado do criado fiel pura tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um fidalgo, e falou da grande confiança que linha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se;
- Porque te ris? - perguntou o rei.
- É porque ele é corno os outros todos, que enganam os amos.
- Este não!
- Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.
Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai, disse:
- Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.
O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada e cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que guardava o boi Cardil. Ela começou logo:
- Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.
O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que. em paga do seu amor. matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago lodo o santíssimo dia.
A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; u fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil em que punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.
Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe:
- Então como vai o boi?
O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:

Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Malar me fizeram
Nosso boi Cardil.

O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a aposta, e disse para o fidalgo:
- Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de lua filha. E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.

recolha de Teófïlo Braga


I

Analise o conto, desenvolvendo os seguintes aspectos:
1. Tema e seu desenvolvimento.
2. Caracterização de personagens.
3. Localização espácio-temporal.
4. Discurso e linguagem.
5. Intenção crítica e moralizadora.


II

Sem ultrapassar as 10 linhas, mostre as principais marcas dos contos tradicional e popular.

III

"Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe: - Então como vai o boi?"
Imagine que o criado optava por mentir ao rei. Dê continuidade à história, imaginando o seu desenlace.



Pois nossas madres van a San Simon


Pois nossas madres van a San Simon
de Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos de andar
con nossas madres, e elas enton
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos todos lá irán
por nos veer, e andaremos nós
bailando ante eles, fremosas en cós (1),
e nossas madres, pois que alá van,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos irán por cousir (2)
como bailamos, e podem veer
bailar moças de bon parecer,
e nossas madres pois lá queren ir,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Pêro de Viviaez, CV 336, CBN 698


NOTAS:
(1) em corpo bem feito, sem manto;
(2) contemplar, admirar.





I

1. Caracterize, física e psicologicamente, o sujeito de enunciação da cantiga.

2. Indique as razões que conduzem cada uma das personagens à romaria.

3. As cantigas de amigo são, sob vários aspectos, uma «tradução poética da realidade».

3.1. O que há de intemporal na «realidade» que esta cantiga traduz?

4. Refira o tema da cantiga.

5. Indique os recursos estilísticos dominantes na cantiga.

6. Classifique esta cantiga, considerando quer o assunto quer a forma.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Maria A. Nunes:

«As saudades provocadas pela ausência trazem consigo grande inquietação e desejo ardente de um breve regresso do bem-amado. Dessa inquietação a apaixonada faz confidência à mãe, às amigas e à própria Natureza.»

3.2.08

Fénix Renascida


AO RIGOR DE LISI


MULHER+CORTE.jpg (image)

Mais dura, mais cruel, mais rigorosa
Sois, Lisi, que o cometa, rocha ou muro
Mais rigoroso, mais cruel, mais duro,
Que o Céu vê, cerca o mar, a terra goza.

Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa
Que a perla, rosa, Sol ou jasmim puro,
Pois por vós fica feio, pobre e escuro,
Sol em Céu, perla em mar, em jardim rosa.

Não viu tão doce, plácida e amena,
(Brame o mar, trema a terra, o Céu se agrave),
Luz o Céu, ave a terra, o mar sirena.

Vós triunfais de sirena, luz e ave,
Claro Sol, perla fina, rosa amena,
Mor cometa, árduo muro, rocha grave.


Jerónimo Baía, Fénix Renascida


I

1. Estrutura formal
1.1. Faz o levantamento dos adjectivos e dos substantivos nas quadras e no primeiro terceto.
1.2. Faz também o levantamento dos substantivos do segundo terceto.
1.3. Faz agora um comentário acerca da disposição dessas palavras no soneto.

2. Estrutura interna
2.1. Divide o texto em partes.
2.1.1. Refere a sua articulação.

3. Tema
3.1. Que tipo de mulher está aqui retratada?
3.2. Comprova que a caracterização dessa mulher é feita de forma antitética.

4. Expressividade da linguagem
4.1. Explica as figuras de estilo usadas para salientar as características de Lisi.

5. Estética literária
5.1. Comprova que este texto é um modelo do estilo cultista.


II

O Barroco na sua vertente cultista, sob roupagens exageradas, esconde uma temática muitas vezes banal.
• Constrói um texto, de 12 a 15 linhas, no qual salientes as causas que levaram ao aparecimento do Cultismo.