31.1.08



João Sem Medo e o espaço encantado

A distância entre as duas margens não era grande e João Sem Medo morria de fome. Não hesitou, pois. Despiu-se e com a trouxa de roupa à cabeça penetrou no líquido esverdinha-do de limos, crente de que alcançaria facilmente a nado o laranjal apetecido.
Mas aconteceu então este fenómeno incrível: à medida que o nadador se aproximava da outra margem, a água aumentava de volume e a lagoa dilatava-se. Por mais esforços que despendesse para fincar as mãos na orla do lago, só encontrava água, água unicamente. A terra afastava-se.
— Bonito! Estou dentro dum lago elástico — descobriu João Sem Medo, esbaforido.
Mas fiel ao seu sistema de persistência enérgica não renunciou ao combate.
As margens desviavam-se, mas o rapaz nadava, nadava sempre, com confiança plena nos seus braços, na força de vontade e no desejo de vencer.
— Eh!, alma do diabo, sofre! — instigou-o por fim uma onda a deitar os bofes de espuma pela boca fora.
Um peixe insurgiu-se com voz mole:
— Assim não vale! Vê se acabas com isso. Eu e os meus camaradas peixes queremos dormir em sossego. Vamos, chora!
Uma gaivota baixava de vez em quando para lhe insinuar, baixinho:
— Então? Torna-te infeliz. Soluça. Berra. Chora. Lembra-te de que seguiste o Caminho da Infelicidade. Não faças essa cara de quem ganhou a sorte grande.
Por último, uma coruja de mitra pequenina na cabeça e venda nos olhos – para voar de dia e de noite em perpétua escuridão – segredou-lhe ao ouvido:
— Queres laranjinhas? Ouve a minha sugestão: representa a comédia da dor. Finge que sofres muito, sê hipócrita. Mente. Pede a esmolinha de uma laranja por amor de Deus. Vá! Não sejas tolo. Chora.
Como única resposta, João Sem Medo repeliu a coruja, fez das tripas coração e desatou a cantar à sobreposse.
Então, ao som do seu canto, por fora tão vibrante e viril, a fúria das águas amainou. O rugir das ondas amorteceu lentamente. Um murmúrio de desistência soprou pela superfície do lago. E João Sem Medo, com algumas braçadas vigorosas e seguras, logrou pôr o pé em terra perto do laranjal carregado de pomos de ouro.
Claro, correu logo como um doido para a árvore mais próxima, sôfrego de engolir meia dúzia de laranjas. Mas, num lance espectacular, os frutos diminuíram rapidamente de volume até atingirem o tamanho de berlindes e – zás! – com um estoiro despedaçaram- -se no ar.
Humilhado, e a contar com nova surpresa desagradável, abeirou-se de outra laranjeira. Desta vez, porém, as laranjas transformaram-se em cabeças de bonecas doiradas e deitaram- lhe a língua de fora.
— A partida anterior teve mais graça! — observou João Sem Medo.
E dirigiu-se para uma tangerineira com a vaga esperança de apanhar uma tangerina desatenta.
Isso sim. Mal o avistaram, os frutos caíram dos ramos como bolas de borracha e espalharam- se na paisagem.
Então, numa tentativa suprema, João Sem Medo acercou-se de outra árvore, sor-rateiramente, em bicos de pés.
Tudo inútil. Como se estivessem combinadas, as laranjas e as tangerinas do pomar desprenderam-se dos troncos, abriram pequeninas asas azuis e começaram a subir serenamente no céu.
Apesar da fome, João Sem Medo, com os olhos fixos no espectáculo maravilhoso das bolas de ouro a voarem, não pôde reprimir este clamor de entusiasmo, braços erguidos para o ar:
— Parabéns, Mago. Parabéns e obrigado por este instante, o mais belo e bem vivido da minha vida. Obrigado. Mas agora ouve o que te peço: desiste de me perseguir. Convence- te de que, para mim, a felicidade consiste em resistir com teimosia a todas as infelicidades. E vai maçar outro. Ouviste? Vai maçar outro.

José Gomes Ferreira, Aventuras de João Sem Medo



1. O excerto que leste narra uma das aventuras de João Sem Medo. Onde se encontra inicialmente essa personagem?

2. Quais são as suas expectativas?

3. De que forma o lago lhe impede a concretização dessas expectativas?

4. Como é que esse espaço comunica verbalmente com João Sem Medo?
4.1. Identifica a figura de estilo aí empregue e explica-a por palavras tuas.
4.2. Retira outros exemplos do texto, onde se empregue essa figura de estilo.

5. De que modo consegue João Sem Medo ultrapassar os obstáculos que o lago lhe apresenta?

6. «João Sem Medo […] logrou pôr o pé em terra perto do laranjal carregado de pomos de ouro.»
Que sensações causará na personagem a visão do laranjal?
6.1. Novamente, o espaço impede-lhe a concretização das suas expectativas. Como?

7. João Sem Medo perde o entusiasmo? Comprova a tua afirmação com palavras do texto.
7.1. Que pensas da atitude de João Sem Medo? Porquê?





27.1.08

Canto VI, 83-87

83
"Ó ditosos aqueles que puderam
Entre as agudas lanças Africanas
Morrer, enquanto fortes sostiveram
A santa Fé nas terras Mauritanas!
De quem feitos ilustres se souberam,
De quem ficam memórias soberanas,
De quem se ganha a vida com perdê-la,
Doce fazendo a morte as honras dela!"

84
Assim dizendo, os ventos que lutavam
Como touros indómitos bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relâmpados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vêm representando
Cair o céu dos eixos sobre a terra,
Consigo os elementos terem guerra.

85
Vénus abranda o furor dos ventos
Mas já a amorosa estrela cintilava
Diante do Sol claro, no Horizonte,
Mensageira do dia, e visitava
A terra e o largo mar, com leda fronte.
A densa que nos céus a governava,
De quem foge o ensífero Orionte,
Tanto que o mar e a cara armada vira,
Tocada junto foi de medo e de ira.

86
"Estas obras de Baco são, por certo,
Disse; mas não será que avante leve
Tão danada tenção, que descoberto
Me será sempre o mil a que se atreve."
Isto dizendo, desce ao mar aberto,
No caminho gastando espaço breve,
Enquanto manda as Ninfas amorosas
Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.

87
Os ventos e as Ninfas
Grinaldas manda pôr de várias cores
Sobre cabelo; louros à porfia.
Quem não dirá que nascem roxas flores
Sobre ouro natural, que Amor enfia?
Abrandar determina, por amores,
Dos ventos a nojosa companhia,
Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
Que mais formosas vinham que as estrelas.


I

Assinala com V ou com F as afirmações que julgues verdadeiras ou falsas.

1. Vénus é a deusa:
a) da guerra;
b) da paz;
c) do amor.

2. Baco é o deus:
a) da guerra;
b) do vinho;
c) do fogo.

3. Júpiter é o deus:
a) da vida;
b) da sabedoria;
c) pai de todos os deuses.

4. Marte é o deus:
a) da medicina;
b) da guerra;
c) da poesia.

5. Baco quer contrariar a navegação dos portugueses porque:
a) não gosta dos portugueses;
b) não gosta de Vénus;
c) não quer que outros ocupem os seus domínios.

6. Vénus é a favor dos portugueses porque:
a) não gosta de Baco;
b) os portugueses falam a língua que o seu filho criou;
c) os portugueses são grandes navegadores.

7. O episódio da tempestade foi:
a) o único obstáculo que Baco levantou;
b) uma das tentativas de destruir os portugueses;
c) a primeira oposição de Baco.


II

1. Vendo a fúria dos ventos, Vasco da Gama pede socorro a Deus. A primeira estrofe transcrita é a parte final da sua oração.
1.1. Que pessoas lembra Vasco da Gama?
1.2. Porque razão lembra essas pessoas?
1.3. Explica o sentido dos dois versos finais.

2. Na segunda estrofe transcrita, o narrador faz a descrição da tempestade.
2.1. Em que momento da viagem se dá a tempestade?
2.2. Que elementos estão destacados para representar essa tempestade?
2.3. Explica o sentido do imperfeito verbal.

3. A terceira estrofe inicia-se por "Mas".
3.1. Qual o sentido que introduz esta palavra?

4. Faz a caracterização de Vénus.
4.1. Quais foram os sentimentos de Vénus quando viu o mar e a armada portuguesa?

5. Vénus sabe que a tempestade foi desencadeada por manobras de Baco.
5.1. Refere outra ocasião em que Baco e Vénus entraram em conflito.
5.2. É muito ou pouco importante o conflito num poema épico? Justifica a resposta.
5.3. Resume, em poucas palavras, a acção de Baco e de Vénus que, ao longo de toda a obra, entram em conflito e tentam vencer a sua luta.

6. De quem se faz acompanhar Vénus?
6.1. Por que razão manda enfeitar, de forma tão perfeita, a sua companhia?


III

1. Transforma a fala de Vénus em discurso indirecto.

2. Encontram-se no texto as palavras "pôi" e "pot".
2.1. Classifica-as quanto à relação fonética e gráfica.
2.2. Também se encontram no texto as palavras "são" e "leve". Ora, há na língua portuguesa "são" (verbo ser) e "são" (adjectivo); "leve" (verbo) e "leve" (adjectivo); "era" (verbo) e "hera!' (planta). Classifica estas palavras quanto à relação sua fonética e gráfica.

3. Repara nestes conjuntos de palavras:
mar -»agua grinaldas -»flor
Vénus -> deuses Sol -»astros
3.1. Classifica-as, tendo em conta a extensão do seu sentido.

4. As Ninfas oferecem aos ventos a sua beleza. A força da beleza das Ninfas aplaca os ventos.
4.1. Transforma estas duas frases simples numa frase complexa de modo a evitar as repetições.
4.2. Classifica, depois, as duas orações.


IV

1. Na primeira estrofe, há a repetição de "De quem" no início de três versos.
1.1. Que nome se dá a esta repetição?
1.2. Qual a importância da mesma?

2. Há na segunda estrofe algum exagero na descrição da tempestade.
2.1. Encontra duas figuras de estilo que realizam esse exagero.
2.2. Explica a sua expressividade.

3. "Mostrando-lhe as amadas ninfas belas/Que mais fermosas vinham que as estrelas."
3.1. No primeiro verso transcrito, há um duplo adjectivo. Qual a sua expressividade?
3.2. No segundo verso transcrito, há uma figura de estilo. Explica o seu sentido.


V

"De quem se ganha a vida, com perdê-la, Doce fazendo a morte as honras dela!"
De filmes ou de imagens televisivas que tens visto, conheces pessoas que arriscaram a vida para salvar outras pessoas.
Num texto bem estruturado, conta uma história, real ou inventada, de uma dessas pessoas.





26.1.08

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Uma Aula do Outro Mundo

Harry deu consigo na mais estranha sala que vira em toda a sua vida. Na verdade, parecia tudo menos uma sala de aulas. Era uma mistura de um sótão de casa particular com uma sala de chá antiquada. Havia ali, pelo menos, vinte mesinhas redondas rodeadas de cadeirões forrados a chita e pequenos puffs também redondos. Era tudo iluminado por uma luz difusa, carmesim. As cortinas das janelas estavam corridas e os muitos candeeiros, cobertos com quebra-luzes vermelho-escuro. O calor era sufocante e o lume que ardia na lareira espalhava no ar uma espécie de perfume doentiamente pesado, ao mesmo tempo que aquecia a grande chaleira de cobre. (…)
Uma voz surgiu imediatamente do meio das sombras, uma voz suave e imprecisa. (…)
Os óculos enormes aumentavam-lhe os olhos, multiplicando várias vezes a sua dimensão natural e estava enrolada num xaile de gaze e lantejoulas. Vários fios e contas envolviam-lhe delicadamente o pescoço enquanto as mãos e os braços ostentavam pulseiras e anéis. (…)
— Bem-vindos à Adivinhação — disse a professora Trelawney que se sentara numa poltrona de orelhas em frente do lume. — Eu sou a professora Trelawney. (…)
(…) — Abordaremos este ano os métodos básicos da adivinhação. O primeiro período será dedicado à leitura nas folhas de chá. No período seguinte evoluiremos para a quiromancia.
— No período de Verão — continuou a professora Trelawney — passaremos às bolas de cristal, se já tivermos terminado os presságios de fogo, claro. Infelizmente as aulas serão interrompidas em Fevereiro por um surto de gripe em que eu própria ficarei afónica. E, pela Páscoa, um de nós deixar-nos-á para sempre.

J. K. Rowling, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (adaptado)


I

1. O que sentiu Harry Potter quanto entrou na sala?

2. Retira do texto algumas palavras ou expressões que caracterizam esta sala de aula.

3. Que tipo de actividades são sugeridas pela professora?

4. Procura no texto duas expressões que caracterizem a professora.

5. Por que razão a senhora Trelawney é diferente dos professores que conheces?







23.1.08

Mestre Finezas



Estamos sozinhos na loja. De navalha em punho, mestre Finezas declama cenas inteiras dos «melhores dramas que ainda se escreveram». E há nele uma saudade tão grande das noites em que fazia soluçar de amor e mágoa as senhoras da vila que, amiúde, esquece tudo o que o cerca e fica, longo tempo, parado. Qs seus olhos ganham um brilho metálico. Fixos, olham-me mas não me vêem. Estão a ver para lá de mim, através do tempo.
Lentamente, aflora-lhe aos lábios, premidos e brancos, um sorriso doloroso.
— Eu fui o maior artista destas redondezas... — murmura.
Na cadeira, com a cara ensaboada, eu revivo a infância e sonho o futuro. Mestre Finezas já nem sonha; recorda só.
E, de novo, a sua mão treme junto da minha cara. No espelho, vejo-lhe o busto mirrado, os cabelos escorridos e brancos. Oiço-lhe a voz desencantada:
— A navalha magoa-te?
Uma onda de ternura por aquele velho amolece-me. Dá-me vontade de lhe dizer que não, que a navalha não magoa e nem sequer a sinto. O que magoa é ver a presença da morte alastrando peias paredes escuras da loja, escorrendo dos papéis caídos do tecto, envolvendo-o cada vez mais, dobrando-lhe o corpo para o chão...
Mas Mestre Finezas parece nada disto sentir. Salta de um assunto para outro com facilidade. Preciso de tomar atenção para lhe seguir o fio do pensamento. Agora faz-me queixas da vila. E termina como sempre:
— Esta gente não pensa noutra coisa que não seja o negócio, a lavoura. Para eles, é a única razão da vida...
Volto a cabeça e olho-o. Sei o que vai dizer-me, Vai falar-me do abandono a que o votaram. Vai falar-me do teatro, da música, da poesia. Vai repetir-me que a arte é a mais bela coisa da vida. Mas não. Já nos entendemos só pelo olhar. Mestre Finezas salta por cima de tudo isto e ergue a navalha num lance teatral: Que sabem eles da arte? Tu que estudaste, tu sabes o que é a arte. Eles hão-de morrer sem nunca terem gozado os mais belos momentos que a vida pode dar.
Atravessou a loja, abriu um armário cavado na parede, e tirou o violino.
— Eu não te disse nada, Carlinhos... mas, olha, tenho vendido tudo para não morrer de fome... Tudo. Mas isto!...
Estendeu o violino na minha direcção e continuou reprimindo um soluço:
— Isto nem que eu morra!... É a minha última recordação...
Calou-se por muito tempo com os olhos no chão. Depois, de boca muito descerrada, disse-me como quem pede uma esmola:
— Tu queres ouvir uma música que eu tocava muito, Carlinhos?...
— Quero...— respondi forçando um sorriso de agrado.
Nem me ouviu. Estava, ao meio da loja, entre mim e a porta, e prendia o violino no queixo.
O arco roçou pelas cordas e um murmúrio lento começou, no silêncio que vinha das ruas da vila e enchia a casa. Lentamente, o fio de música ia engrossando. Era agora mais forte — agudo, desamparado como um choro aflito. E demorava, ondeava por longe, vinha e penetrava-me de uma sensação dolorosa.
Levantei-me, de toalha caída no peito, cara ensaboada, preso não sei de que vagos desgostosos pensamentos. Talvez pensasse em fugir, pedir-lhe que não tocasse mais aquela música desafinada e triste.
Mas, na minha frente, mestre Finezas, alheio a tudo, fazia gemer o seu violino, as suas recordações. O só! da meia tarde entrava peta porta e aureolava-o de uma luz trémula. E erguia o corpo como levado na toada que os seus dedos desfiavam; ficava nos bicos dos pés, todo jogado para O tecto.
De súbito, uma revoada de notas soltaram-se, desencontradas, raivosas. Encheram a loja. e ficaram vibrando...
Os braços caíram-lhe para os lados do corpo. Numa das mãos segurava o arco, na outra o violino. E, muito esguio, macilento, mestre Finezas curvou a cabeça branca, devagar, como a agradecer os aplausos de um público invisível.

Manuel da Fonseca


I

1. Localize a acção do texto no espaço, ilustrando a sua resposta com expressões do texto.

2. Toda a acção aqui apresentada se desenvolve a volta de duas personagens.
2.1. Identifique-as e classifique-as quanto à sua importância na acção.
2.2. Caracterize fisicamente a personagem principal e diga quais os processos de caracterização utiliza¬dos.

3. Classifique e narrador deste texto quanto à sua presença. Justifique a sua resposta.

4. "E há nele uma saudade tão grande das noites em que fazia soluçar de amor e mágoa as senhoras da vila..."
4.1. Segundo e narrador de que é que Mestre Finezas sentia saudade?

5. " Os seus olhos ganham um brilho metálico. Fixos, olham-me mas não me vêem. Estão a ver parca lá de mim, através do tempo."
5.1. Explique, convenientemente, o sentido destas afirmações do narrador.
5.2. Indique a que classe d* palavras pertence a palavra sublinhada.
5.3» Escreva uma palavra da mesma família da palavra sublinhada que corresponda a um verbo.

6. Neste texto são utilizados vários modos de apresentação da narrativa.
6.1. Identifique-os.
6.2. Transcreva do texto um exemplo de cada um dos modos de apresentação.

7. Atente na seguinte expressão:
"... a presença da morte alastrando pelas paredes escuras da loja..."
7.1. Identifique a figura de estilo utilizada na frase acima transcrita e justifique.

8. " Mas Mestre Finezas parece nada disto sentir."
8.1. Escreva uma frase em que utilize uma palavra hamónima daquela que se encontra destacada na frase anterior.


II

1. Mestre Finezas e Carlos (o narrador ) tiveram UM sonho que não se concretizou.
Redija uma pequena composição subordinada ao tema "O meu Sonho".



18.1.08

A Lenda do Tambor Africano



Corre entre os Bijagós, da Guiné, a lenda de que foi o Macaquinho de nariz branco quem fez a primeira viagem à Lua.
A história começou assim:
Nas proximidades de uma aldeia, os macaquinhos de nariz branco, certo dia, de que se haviam de lembrar? De fazer uma viagem à Lua e trazê-la para baixo, para a Terra.
Ora numa bela manhã, depois de terem em vão tentado encontrar um caminho por onde subir, um deles, por sinal o mais pequeno, teve uma ideia: encavalitarem-se uns nos outros. Um agora, outro depois, a fila foi-se erguendo ao céu e um deles acabou por tocar na Lua.
Em baixo, porém, os macacos começaram a cansar-se e a impacientar-se. O companheiro que tocou na Lua nunca mais conseguia entrar. As forças faltaram-lhes, ouviu-se um grito, e a coluna desmoronou-se.
Um a um, todos foram arrastados na queda e caíram no chão. Apenas um só, só um maca-quito, por sinal o mais pequeno, ficou agarrado à Lua, que o segurou pela mão e o ajudou a subir.
A Lua olhou-o com espanto e tão engraçadinho o achou que lhe deu de presente um tamborinho.
O Macaquinho começou a aprender a tocar no seu tamborinho e por longos dias deixou-se ficar por ali. Mas tanto andou, tanto passeou, tanto no tamborinho tocou, que os dias se passaram uns atrás dos outros e o macaquinho de nariz branco começou a sentir profundas saudades da Terra e das suas gentes. Então, foi pedir à Lua que o deixasse voltar.
— Para que queres voltar?
— Tenho saudades da minha terra, das palmeiras, das mangueiras, das acácias, dos coqueiros, das bananeiras.
A Lua mandou-o sentar no tamborinho, amarrou-o com uma corda e disse-lhe:
— Macaquinho de nariz branco, vou-te fazer descer, mas toma tento no que te digo. Não toques o tamborinho antes de chegares lá abaixo. E quando puseres os pés na Terra, tocarás então com força para eu ouvir e cortar a corda. E assim ficarás liberto.
O Macaquinho, muito feliz da vida, foi descendo sentado no tambor. Mas a meio da viagem, oh!, não resistiu à tentação. E vai de leve, levezinho, de modo que a Lua não pudesse ouvir, pôs-se a tocar o tambor tamborinho. Porém, o vento soltando brandos rumores fazia estremecer levemente a corda. Ouviu a Lua os sons compassados do tantã(1) e pensou: «O Macaquinho chegou à Terra». E logo mandou cortar a corda.
E eis o macaquinho atirado ao espaço, caindo desamparado na ilha natal. Ia pelo caminho diante uma rapariga cantando e meneando- -se ao ritmo de uma canção. De repente viu, com espanto, o infeliz estendido no chão. Mas tinha os olhos muito abertos, despertos, duas brasas produzindo luz. O tamborinho estava junto dele. E ainda pôde dizer à rapariga que aquilo era um tambor e o entregava aos homens do seu país.
A moça, ainda não refeita da surpresa, correu o mais velozmente que pôde a contar aos homens da sua raça o que acabava de acontecer.
Veio gente e mais gente. Espalhavam-se archotes. Ouviam-se canções. E naquele recanto da terra africana fazia-se o primeiro batuque(2) ao som do maravilhoso tambor.
Então os homens construíram muitos tambores e, dentro em pouco, não havia terra africana onde não houvesse esse querido instrumento.
Com ele transmitiam notícias a longas distâncias e com ele festejavam os grandes dias da sua vida e a sua raça.
O tambor tamborinho ficou tão querido e tão estremecido do povo africano que, em dias de tristeza ou em dias de alegria, é ele quem melhor exprime a grandeza da sua alma.

Manuel Ferreira (escritor da Guiné-Bissau),
No Tempo em que os Animais Falavam,
Editorial do Ministério da Educação



(1) tantã – tambor
(2) batuque – dança especial acompanhada por instrumentos em que se bate.



I

1. Qual é o objectivo dos macaquinhos de nariz branco?

2. Que processo utilizam eles para obter o que desejam?

3. São bem sucedidos? Justifica.

4. Por que razão a Lua oferece um tamborzinho ao Macaquinho?

5. O Macaquinho pede à Lua para que o deixe regressar. Porquê?

6. Que instruções lhe dá a Lua?

7. Ele não obedece. Que acontece?

8. O Macaquinho oferece o tamborzinho aos homens do seu país.
8.1. A oferta do Macaquinho foi útil ao seu povo? Justifica.

16.1.08

El-Rei Tadinho


Artes Mágicas

Nessa tarde de Inverno, pés encharcados e lama até aos joelhos, Riquezas estava desesperada. Há meses que não era chamada para um trabalho e, se ela nunca fora uma fada brilhante, com toda esta falta de treino acabaria por ser uma autêntica vergonha para a classe.
— Logo o teu pai havia de se lembrar de casar com uma fada! — resmungava a avó, que ainda hoje não se conformava com o facto.
— Ó avó, deixe lá isso agora, o que não tem remédio remediado está!
— Bonito! Se foram só provérbios o que te ensinaram na escola, não sei o que lá andaste a fazer… Fosses tu uma neta normal, como as netas de todas as avós que eu conheço, e não te faltaria trabalho. Agora tu, não sabes fazer nada!
— Não diga isso que não é verdade! — choramingou Riquezas, ainda a raspar a lama das pernas.
— Pois não que não é verdade! Eu sempre disse ao teu pai que te pusesse na escola oficial, mas ele que não, que tinhas de ir para uma escola de fadas, que lá é que estava o teu futuro… Lindo futuro, sim senhora… Vamos lá a saber; que foi que te ensinaram nessa tal escola? Saíste de lá a saber fazer exactamente o quê?
Riquezas esperou meia dúzia de segundos antes de responder, e lá foi enumerando as suas prendas:
— Sei fazer sopa de ratos mortos para desencantar princesas envenenadas; sei cozer rabos de lagartixas em molho de urtigas apanhadas em noite de São Tibúrcio, para ressuscitar reis e rainhas encantadas há mais de duzentos anos; sei tecer teias de aranha com picos de ouriços para prender gigantes nas masmorras; sei fazer pomada de saliva de burro com pasta de fígado de doninha para curar lobisomens; sei misturar baba de três cobras com o suor de quatro osgas para…
— Cala-te, cala-te com essas mistelas.

Alice Vieira, El-Rei Tadinho (adaptado)


I

1. Qual é o grande problema da fada Riquezas?

2. «…acabaria por ser uma autêntica vergonha para a classe.»
2.1 Que classe é esta? Conheces outras profissões em que os trabalhadores tenham as mesmas dificuldades?

3. Retira do texto expressões que traduzam as diferentes opiniões do pai e da avó sobre a escola da menina.

4. Dá a tua opinião sobre a importância da Escola na vida de cada um de nós.


14.1.08

As adivinhas em anexins


Um rei quis experimentar o juízo de três conselheiros que tinha, e indo passear com eles encontrou um velho a trabalhar num campo, e saudou-o:
- Muita neve cai na serra! Respondeu o velho com a cara alegre:
- Já, senhor, é tempo dela.
Os conselheiros ficaram a olhar uns para os outros, porque era Verão, e não percebiam o que o velho e o rei queriam dizer na sua. O rei fez-lhe outra pergunta:
- Quantas vezes te ardeu a casa?
- Já, senhor, por duas vezes.
- E quantas vezes contas ser depenado?
- Ainda me faltam três vezes.
Mais pasmados ficaram os conselheiros; o rei disse para o velho:
- Pois se cá te vierem três patos, depena-os tu.
- Depenarei, real senhor, porque assim o manda.
O rei seguiu o seu caminho a mofar da sabedoria dos conselheiros, e que os ia des¬pedir do seu serviço se lhe não soubessem explicar a conversa que tivera com o velho. Eles, querendo campar por espertos, foram ter com o velho para explicar a conversa; o velho respondeu:
- Explico tudo, mas só se se despirem e me derem o dinheiro que trazem. Não tiveram outro remédio senão obedecer; o velho disse:
- Olhem: «Muita neve cai na serra», é porque eu estou cheio de cabelos brancos; «já é tempo dela», é porque tenho idade para isso. «Quantas vezes me ardeu a casa?» é porque diz lá o ditado: «Quantas vezes te ardeu a casa? Quantas casei a filha». E como já casei duas filhas sei o que isso custa. «E quantas vezes conto ser depenado?» é que ainda tenho três filhas solteiras e lá diz o outro:
Quem casa filha Depenado fica.
Agora os três patos que me mandou o rei são vossas mercês, que se despiram e me deram os fatos para explicar-lhes tudo.
Os conselheiros do rei iam-se zangando, quando o rei apareceu, e disse que se eles quisessem voltar para o palácio vestidos que se haviam ali de obrigar a darem três dotes bons para o casa-mento das outras três filhas do velho lavrador.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português



I

1. «Um rei quis experimentar o juízo de três conselheiros que tinha.»
1.1. A partir da expressão, identifique características do conto popular, tendo em conta o tempo e as personagens.
1.2. Indique os tempos das formas verbais que se encontram na transcrição.

2. O número três aparece em muitos contos populares, comportando uma carga sim¬bólica.
2.1. Explicite a simbologia que esse número mágico pode adquirir ao longo desta narrativa.

3. Há diferentes modos de expressão que se articulam perfeitamente ao longo do texto.
3.1. Identifique, justificando, esses segmentos discursivos.

4. O conto tradicional procura transmitir uma moralidade ou um conjunto de valores.
4.1. Identifique a moralidade que se pode encontrar neste conto.


II

1. Do grupo de palavras apresentado abaixo, enumere as que podem ser consideradas cognatas, ou seja, da mesma família.
amor, amoroso, amigo, amargo, amantelado, amaragem, amável, amanho, amorável

2. Construa uma frase contendo o vocábulo concertação e outra contendo o vocábulo concerto. As duas frases devem mostrar claramente a diferença semântica entre as duas palavras.


11.1.08

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.



Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadencia.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis



I

1. O poema pode dividir-se em três partes constitutivas. Delimite-as resumindo o desenvolvimento de cada uma.

2. Que concepção de amor subjaz ao poema? Justifique a sua resposta.

3. Explicite o sentido da expressão «passamos como o rio».

4. Explique a presença das palavras pagãos e pagã tendo em conta aquilo que sabe acerca da estética do heterónimo Ricardo Reis.

5. Identifique a figura de estilo presente no verso «levares o óbolo ao barqueiro sombrio» e aprecie o seu valor expressivo.

6. Atente na primeira estrofe do poema:
6.1. Classifique-a quanto ao número de versos.
6.2. Classifique os versos quanto à métrica.

7. Explique a formação das palavras «desassossego» e «beira-rio».

8. Atente na seguinte frase: «Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos».
8.1. Divida e classifique as orações da frase.
8.2. Que função sintáctica desempenha a expressão «as mãos»?
8.3. Classifique morfologicamente a palavra «porque».


II

Numa composição cuidada, aborde o posicionamento do heterónimo Ricardo Reis perante o tempo e a vida, confrontando-o com o posicionamento do heterónimo Álvaro de Campos.




10.1.08

Identidade

Moonlight Sonata Poster


Matei a lua e o luar difuso
Quero os versos de ferro e de cimento
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito
e luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

Miguel Torga, Penas do Purgatório



I

Depois de uma leitura cuidada, elabore um comentário global do poema transcrito, tendo em atenção os níveis formal, tónico, morfossintáctico e semântico, de modo a, entre outros aspectos, evidenciar:
- o trabalho de construção das ideias que permite a metáfora "endurecer a forma da emoção" (v. 12);
- as sugestões de perenidade e a atracção telúrica;
- o valor do título e as imagens-símbolo;
- as temáticas humanistas e telúricas;
- o tom do discurso e a expressividade da linguagem.


II

A literatura do século XX revela-nos uma poesia de afirmação feminina, que reflecte não apenas um intimismo mais profundo e de intensidade desnuda ou dorida, mas também a "perseguição do real" e a clarividência de um tempo.

Numa dissertação cuidada, de duzentas a trezentas palavras, procure reflectir criteriosamente sobre a poesia elaborada por mulheres como Florbela Espanca e Sophia de Mello Breyner Andresen.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e setenta e uma palavras, num texto de cento e treze a cento e trinta e três palavras.


Portugal é um país em cuja história a emigração tem sido, como os historiadores da Idade Moderna e os especialistas contemporâneos bem sabem, uma constante praticamente desde o início da nossa empresa dos descobrimentos de novas terras e de novos caminhos no mar. Essa emigração tem dois aspectos bem distintos, correspondendo o primeiro a uma fase em que o pro¬jecto migratório individual se encontra inserido num projecto global do Estado, em que se destaca a acção da Coroa, e o segundo a outra fase em que o projecto passa a ser fundamentalmente pessoal, como é hoje o caso, regra geral, e tem sido desde meados do século XVIII. É, com efeito, nesta altura que a exploração do Brasil adquire novo carácter e a saída de portugueses para esse país começará a aumentar num ritmo sempre crescente, que se intensificará, significativamente, no século XIX.
Pode dizer-se que os primeiros emigrantes, em sentido lato, são os colonizadores das ilhas do Atlântico, que na altura da sua descoberta eram desertas, tendo sido a Madeira a primeira onde os Portugueses se instalaram com carácter permanente, seguindo-se a colonização dos Açores, de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe. Só se pode voltar a falar em colonização algo mais tarde e em relação ao Brasil, que foi dividido em capitanias hereditárias em 1534, tendo os respectivos donatários obrigação de promover o povoamento e, de modo geral, assegurar condições de vida civilizada e segura, em moldes correspondentes aos do Reino.
Quanto à África e ao Oriente, os Portugueses, em princípio, preocuparam-se com o estabelecimento de entrepostos comerciais e a fixação de guarnições militares destinar-se-á principalmente à defesa da liberdade de comerciar.
[...] Ao longo de séculos, através de gerações, arriscámos a dispersão na aventura de milhões de homens e alcançámos, na sua fidelidade de sentimentos, em modos de vida e relacionamento entre si e com os outros infinitamente variáveis, a universalidade de uma presença cultural e, do mesmo modo, um potencial ilimitado de recursos morais, intelectuais e materiais, para o desenvolvimento do nosso país, para a afirmação da sua imagem e acção internacionais. Portugal transformou-se, não por projecto ou obra do Estado, mas pelo feito dos Portugueses, numa nação de comunidades viva nas sete partidas do Mundo.

Países, Povos e Continentes, IV, Círculo de Leitores

9.1.08

Frei Luís de Sousa, Acto I, Cena II


CENA II
Madalena e Telmo Pais

TELMO (Chegando ao pé de Madalena que não sentiu entrar) – A minha senhora está a ler?...
MADALENA (Despertando) Ah! sois vós, Telmo... Não, já não leio: há pouca luz de dia já; confundia-me a vista: – E é um bonito livro este! O teu valido, aquele nosso livro, Telmo.
TELMO (Deitando-lhe os olhos) – Oh, oh! Livro para damas – e para cavaleiros... e para todos: um livro que serve para todos; como não há outro, tirante o respeito devido ao da Palavra de Deus! Mas esse não tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como meu senhor... quero dizer como o Sr. Manuel de Sousa Coutinho – que lá isso!... acabado escolar é ele. E assim foi seu pai antes dele, que muito bem o conheci: grande homem! Muitas letras e de muito galante prática – e não somenos as outras partes de cavaleiro: uma gravidade!... Já não há daquela gente: – Mas, minha senhora, isto de a Palavra de Deus estar assim noutra língua que a gente... que toda a gente não entende... confesso-vos que aquele mercador inglês da Rua Nova, que aqui vem às vezes, tem-me dito suas coisas que me quadram... E Deus me perdoe! que eu creio que o homem é herege desta seita nova de Alemanha ou de Inglaterra. Será?
MADALENA – Olhai, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis que desde o tempo que... que...
TELMO – Que já lá vai, que era outro tempo.
MADALENA – Pois sim... (Suspira.) Eu era uma criança; pouco maior era que Maria.
TELMO – Não, a Srª D. Maria já é mais alta.
MADALENA – é verdade tem crescido de mais, e de repente nestes dois meses últimos...
TELMO – Então! Tem treze anos feitos, é quase uma senhora, está uma senhora... (À parte.) Uma senhora aquela... pobre menina!
MADALENA – (Com as lágrimas nos olhos.) – És muito amigo dela, Telmo?
TELMO – Se sou! Um anjo como aquele... uma viveza de espírito e então que coração!
MADALENA – Filha da minha alma! (Pausa; mudando de tom.) Mas olha, meu Telmo, torno a dizer-to: eu não sei como hei-de fazer para te dar conselhos. Conheci-te de tão criança, de quando casei a... a... a primeira vez – costumei-me a olhar para ti com tal respeito: já então eras o que hoje és, o escudeiro valido, o familiar quase parente, o amigo velho e provado de teus amos...
TELMO (Enternecido.) – Não digais mais, Senhora, não me lembreis de tudo o que eu era.
MADALENA (Quase ofendida.) – Porquê? Não és hoje o mesmo, ou mais ainda, se é possível? Quitaram-te alguma coisa da confiança, do respeito – do amor e carinho a que estava costumado o aio fiel do meu Senhor D. João de Portugal, que Deus tenha em glória?
TELMO (À parte.) – Terá...


Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Acto I




I

1. Integre o excerto que acabou de ler na estrutura da obra a que pertence.

2. Caracterize as personagens que entram em cena.

3. Identifique o livro que Madalena está a ler e refira a sua importância na acção da peça.

4. Comente a seguinte afirmação de Telmo: «eu creio que o homem é herege desta seita nova de Alemanha ou de Inglaterra».

5. Relacione as últimas falas das personagens com o desfecho da peça.

6. Atente na seguinte frase: «Eu não sei como hei-de fazer para te dar conselhos».

6.1. Divida e classifique as orações da frase.

6.2. Coloque a frase no condicional.

6.3. Dê um exemplo de uma palavra homófona de conselho.


II

O fanatismo religioso tem causado imensas vítimas desde sempre. Numa composição cuidada, reflicta nesta temática, relacionando-a com a actualidade.



5.1.08

Um dia




Hebergeur d'images

Um dia mortos gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar a nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais

Só então poderemos caminhar
10 Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sofia de Melo Breyner Andresen, Dia do Mar




1. Na forma lírica existe um Eu que exprime o seu mundo interior. Porém, neste poema de Sofia de Melo Breyner Andresen este Eu passou a um Nós.
1.1. Explique qual teria sido a intenção do poeta.

2. Faça o levantamento das palavras/expressões relacionadas com a natureza e também das que sugiram morte e negatividade.

3. Indique o tema do poema numa frase curta e bem elaborada.

4. Divida o poema nas partes que o constituem e resuma muito brevemente o assunto de cada uma delas.

5. Recorrendo a palavras suas explique o sentido do título do poema.

6. Aponte as formas verbais da 1ª estrofe e refira o tempo e o modo desses verbos.

7. Retire do poema um exemplo de comparação, metáfora e hipérbole.

8. Proceda à análise formal do poema.