31.3.07

Avé-Marias



Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás estravassado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, no mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes. (...)


Cesário Verde



I

1. Deambulando pela cidade, o sujeito poético traça um quadro dinâmico da realidade que o circunda.
1.1. Caracteriza o ambiente em que o sujeito poético deambula.
1.2. Identifica, a partir de expressões do texto, as sensações através das quais ele percepciona a realidade.
1.3. Descreve os efeitos dos estímulos exteriores sobre o sujeito poético.

2. Embora resultando da análise objectiva do real, o quadro descrito apresenta traços vincados da subjectividade do poeta.
2.1. Identifica e explica o sentimento implícito na expressão "Felizes!" (v. 10).
2.2. Justifica a evocação histórica da sexta estrofe.
2.3. Comenta a expressividade das imagens com que são descritos os três grandes grupos de trabalhadores presentes no poema - "os carpinteiros", "os calafates" e "as varinas".


II

1. Os dois primeiros versos da nona estrofe são constituídos por três orações coordenadas assin-déticas.
1.1. Explicita a conjunção coordenativa que poderia unir todas as orações.
1.2. Reescreve as duas orações do segundo verso, estabelecendo entre elas uma relação de tempo.
1.3. Faz a análise sintáctica da seguinte oração: "Reluz, viscoso, o rio (...)" (v. 34)


III

1. Resume o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e sessenta e quatro palavras, num texto de cento e cinco a cento e trinta e cinco palavras.

"Se escritor existe, na história da literatura portuguesa, cuja biografia literária é breve e de certo modo apagada, esse escritor é sem dúvida Cesário Verde. (...) Essa impressão de apagamento torna-se mais insistente em contraste com a notoriedade que o poeta atingiu depois de morrer, em função do relevante papel que se lhe reconhece na evolução da poesia portuguesa da segunda metade do século XIX. (...)
Ignorado ou incompreendido pelo meio literário português - note-se que o Parnaso Português Moderno1 (1877), de Teófilo Braga, não o inclui nem se lhe refere -, Cesário consagra-se à vida comercial e agrícola, que cada vez mais o absorve. O que não o impede, no entanto, de prosseguir a sua criação poética, sob o signo de um certo cepticismo, confessado em cartas a vários amigos (Macedo Papança, Silva Pinto, etc.), e também de uma espécie de tédio existencial, acentuado quando se agrava a tuberculose de que por fim morreria, em W de Julho de 1886.
O relativo isolamento em que decorre a breve vida literária de Cesário Verde pode explicar-se de várias formas, a começar pelo que de inovador existia na sua poesia, antecipando-se, nos anos 70, aos movimentos poéticos que o fim-de-século consagraria. Por outro lado, Cesário não se articula directamente com aquele que foi, no seu tempo, o grupo dominante de intelectuais e escritores: a chamada Geração de 70, de que Cesário se separava antes de tudo por um pequeno desfasamento etário (contava apenas 16 anos quando tiveram lugar as Conferências do Casino). A isto vem juntar-se a sua cada vez mais intensa actividade comercial, aliada à falta de uma formação universitária que lhe facultasse o acesso aos círculos intelectuais dominantes no seu tempo. (...)
O reconhecimento póstumo da importância de Cesário Verde na literatura portuguesa do século XIX deve muito ao empenhamento de Silva Pinto: tendo publicado em 1887 o volume a que deu o título O Livro de Cesário Verde, Silva Pinto legou à posteridade uma obra poética ordenada (cer-tamente de acordo com o seu critério pessoal) em duas secções - "Crise romanesca" e "Naturais"- e com variantes em relação ao primeiro aparecimento na imprensa; a esses textos vieram juntar-se, em edição de Joel Serrão, outros poemas dispersos, entretanto recolhidos.

Carlos Reis, "Cesário Verde: Realismo e Criação Poética",
in História da Literatura Portuguesa, vol. 5, Ed. Alfa, 2001



1. Parnaso Português Moderno - antologia de poesia que reúne autores do século XIX.


22.3.07

A língua que nos constrói



Não há como a brutal aspereza do alemão quando o que se pretende é intimidar alguém. Experimente, por exemplo, gritar «Macht es Ihnen etwas aus, wenn ich rauche», enquanto arranha o ar com os punhos, e vai ver que o efeito é aterrador. A frase em causa, no entanto, significa simplesmente «importa-se que eu fume?". Desconfio que pouca gente teria levado Adolf Hitler a sério, com aquele bigode ridículo, a franjinha tenaz, a miserável figura de carteirista sem sorte, se ele se exprimisse no repousado português do Alentejo, na cantoria afável dos napolitanos ou na alegre geringonça dos ciganos espanhóis. Porém, sempre que vejo imagens do homenzinho, aos gritos, no esforço de cuspir arame farpado, compreendo o vasto terror que inspirou.
Em francês, pelo contrário, é possível dizer quase tudo, inclusive obscenidades, como se fosse uma declaração de amor. Não por acaso preferimos nomear na língua de Baudelaire determinados utensílios, como retrete (de «retratte», retirada), ou cotonete (do francês «cottoner», forrar com algodão), certamente porque, de alguma forma, isso parece conferir-lhes uma dignidade que a sua função desmente. Escargots, outro exemplo, não são caracóis. Os caracóis comem-se nas tascas rudes dos bairros operários, com palmadas nas costas, gargalhadas, vinho derramado sobre a mesa (de plástico). Já o escargot supõe toalhas de linho, copos de cristal, velas altas em candelabros de prata, sussurros, o tédio da boa educação.
E o espanhol? Quando era criança acreditava que fosse uma língua inventada pelos palhaços. Talvez porque os palhaços da minha infância fossem invariavelmente de origem espanhola, talvez porque o espanhol me parecesse uma forma desastrada de falar português. Hoje, continuo a acreditar que o espírito festivo dos espanhóis — uma cortina de melancolia separa Portugal da península — se deve ao uso da língua.
Ao sol dos trópicos, em África e no Brasil, a língua portuguesa floresceu. Vale a pena lembrar, a propósito, alguns versos da poetisa moçambicana Manuela de Sousa Lobo: «Alguém falou-me dos esqui¬los e das zebras/ que também que já andam falar português/ talvez que estória de mentiroso ou poeta/ mas até que ia ser bom/conhecer nossa língua florestando-se às riscas nos morfemas/ pastando devaga¬rinho com a cauda felpuda se abanando/ Chei! Nem nunca vi/ advérbios no capim nos meus 27 anos.» Nos países onde se fala português ficou sempre, no entanto, uma sombra da melancolia lusitana, o que explica a morna, o chorinho, o culto parti-cularíssimo da saudade.
Nós criamos as línguas e depois elas recriam-nos a nós. Escritores só como o brasileiro Guimarães Rosa ou o moçambicano Mia Couto tornaram-se conhecidos como inventores de palavras.
Raramente, porém, as palavras criadas por um escritor ganham vida real, ou seja, alcançam a linguagem do povo. As palavras não têm autor.
Conheço no entanto um brasileiro que se orgulha de ter dado nome não a um objecto — o que seria relativamente vulgar — mas a um povo. Um povo inteiro. Gustavo, o meu amigo, é operador de câmara. Há alguns anos acompanhou uma pequena equipe numa expedição à floresta da Amazónia. Numa zona remota da floresta descobriram uma tribo indígena até então completamente desconhecida. Os índios receberam-nos com manifestações de júbilo e deslumbramento. Afeiçoaram-se sobretudo ao meu amigo, carioca de Copacabana, surfista, excelente figura. Gustavo odiava a curiosidade dos índios. Afastava aos gritos os bandos de crianças que teimavam em investigar os seus pertences, fascinados com a câmara, as lentes, as luzes: «Tira a mão daí! Tira a mão daí!» Era isto o dia inteiro. Os índios não se incomodavam. «Tira a mão daí!», gritava Gustavo, e eles riam-se, ensaiavam carícias, voltavam a enfiar as pequenas mãos nas mochilas. A equipe foi-se embora e alguns meses depois um grupo de antropólogos chegou ao local. Gustavo tem a certeza que os índios receberam a delegação, efusivamente, com a única frase que sabiam em português. Os antropólogos acharam, provavelmente, que era uma afirmação identitária. O facto é que a tribo é conhecida hoje entre os indigenistas por este estranho nome — Txiramãdai.


JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, in Público (04.10.1999)


I

1. Comente o texto de José Eduardo Agualusa sobre a língua portuguesa.

2. Identifique, justificando, a língua que corresponde a cada um dos tópicos de análise apresentados acima.

3. Invente uma pequena história de acordo com as indicações.
1.° Escolha uma ou duas personagens e caracterize-as;
2.° Localize a acção no tempo e no espaço;
3.° Imagine uma situação (agradável ou perigosa, cómica ou trágica) em que as suas personagens se envolveram;
4.° Explicite o modo como conseguiram ultrapassar a situação;
5° Crie um desenlace apropriado para a sua história.




Os amantes sem dinheiro




Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Os Amantes sem Dinheiro (1950)



Analise e interprete poema, considerando os aspectos seguintes:
• a dimensão excepcional dos amantes, detentores e portadores de bens alheios à esfera material;
• a identificação com o «anjo de pedra»;
• a localização do amor num espaço simultaneamente na e para além da realidade;
• a nota quase sociológica introduzida pelo título e confirmada nos primeiros versos da 3ª estrofe;
• o sentido da adversativa «Mas»;
• o carácter transfigurador e fertilizador do amor;
• os recursos estilísticos aos níveis morfo-sintáctico e semântico.

21.3.07

Proposição (C. I, 1-3)

1
As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto I



I

1. A que corresponde na epopeia a Proposição?

2. Que pretende o poeta cantar em Os Lusíadas?

3. Identifique o contraste com que se salientam os feitos dos Portugueses.

4. Justifique a referência a Neptuno e a Marte.

5. Diga o que entende por «Ocidental praia Lusitana» e «Musa antiga».

6. Explique a formação das palavras valerosas e alevanta.

7. Faça a análise formal (estrofe, métrica e rima) da estância número 2.

8. Atente nos seguintes versos: «Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta».

8.1. Divida e classifique as orações.

8.2. Classifique morfologicamente as palavras da segunda oração.

8.3. Faça a análise sintáctica da terceira oração.


II

Numa composição cuidada, comente os versos «Cantando espalharei por toda parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte», tendo o cuidado de contrapor a inspiração e o trabalho artístico em Camões, relacionando-os com os ideais clássicos.





19.3.07

Crónica

A arte de passear passarinhos

Conheci Damião em Mata Escura, um subúrbio pobre de Salvador da Baihia. Era um adolescente magro, de olhos enormes e redondos, que brilhavam sem sossego contra o suave negrume da pele. Vi-o com duas gaiolas, uma em cada mão, e julguei que vendesse pássaros. Quis saber que pássaros eram aqueles.
«Papa-capim», disse-me: «machos. As fêmeas não cantam. São mais devagar.»
Agradou-me o canto dos pássaros. Quanto custavam?
O rapaz encolheu os ombros magros, surpresos. Não estavam à venda. Não lhe pertenciam. Ele apenas os passeava.
«Passeias passarinhos, tu?!»
Que sim, passeava-os. Os papa-capim cantam melhor se os passearem. Damião passeia outros pássaros: curiós, cardeais, coleiras, batuques, bicudos, arapongas, canários. Leva as gaiolas por entre o trânsito, num equilíbrio difícil, até um pequeno jardim e pendura-as numa árvore. Pagam-lhe por isso. Muito pouco, pois os proprietários das aves são gente humilde. O sufi-ciente para não morrer de fome.
Damião já foi Cosme. Cosme era «avião», o nome que se dá aos meninos que trabalham para os traficantes de drogas levando e trazendo encomendas. Depois deram-lhe unia arma. Chegou a ganhar 1500 reais por semana - cerca de quinhentos euros. Comprou pulseiras de ouro. Relógios caros. Sapatos de ténis, roupas de marca.
Cosme tinha um irmão gémeo, chamado Damião, que não queria ter nada a ver com o tráfico. Passeava passarinhos. Uma noite a polícia entrou na favela e arrombou a porta do barraco onde os dois gémeos viviam com a mãe. Vinham à procura de Cosme e encontraram Damião. A mãe, desesperada, tentou chamar-lhes a atenção para o equívoco. Riram-se dela. Um dos polícias encostou uma pistola à cabeça de Damião e disparou. A mãe enlouqueceu de dor. Vagueava pelo abismo das ruas gritando o nome do filho morto. Cosme enterrou o irmão com os seus relógios e colares de ouro, óculos Ray-Ban, uns ténis que acendiam luzes. Enterrou-se a ele mesmo. A partir daquele dia passou a ser Damião. Fê-lo com tal convicção, tanto desprendimento e dedicação, que não só os vizinhos, os tes e a polícia se convenceram de que quem morrera fora de facto Cosme, como a própria mãe despertou uma manhã reconciliada com a vida.
«Damião», perguntou a Cosme:
«Você sabe me dizer como se chama a uma mãe que perde um filho? Essa dor não tem nome. Não chorarei mais. Seu irmão escolheu a morte. Você vai viver pêlos dois.»
Limpou as últimas lágrimas e foi procurar trabalho na Feira de São Joaquim. Cosme, aliás, Damião, gosta do seu oficio. Conhece os caminhos que alegram os pássaros, o fresco das sombras que os fazem cantar.
E feliz? Talvez não, mas um dia chega lá.


Faíza Hayat, in «XIS Ideias para Pensar-, Público, 12 de Agosto de 2006

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S. Salvador da Bahia


I

1. A cronista começa por nos localizar num determinado espaço geográfico. Indique-o.
2. A atenção da autora da crónica centra-se num jovem.
2.1. Caracterize-o, tendo em atenção as informações que nos são dadas até ao inicio da analepse.
2.2. Esclareça a actividade a que o jovem se dedicava antes de "passear passarinhos».
2.3. Resuma o episódio que levou a que se operasse uma mudança de atitude e de identidade neste jovem.
3. Descreva o percurso da dor da mãe de Damião.
4. Explique o último parágrafo do texto.
5. Exponha os sentimentos que a leitura do texto lhe despertou.
6. Descubra uma máxima de vida ou um provérbio que possa aplicar à mensagem que o texto veicula.
7. Faça corresponder a cada um dos cinco elementos da lista A um elemento da lista B, de modo a obter informações verdadeiras.


A
1. A presença da modalidade de discurso directo no texto.
2. O fragmento -um adolescente»
3. No discurso directo -"Papa-capim", disse-me: "machos [...]."
4. [...]-curiós, cardeais, coleiros, batuques, bicudos, arapongas, canários»
5. Na expressão -Vi-o com duas gaiolas»

B
a) são hipónimos do hiperónimo -pássaros.
b) o verbo introdutor de relato do discurso é um verbo de opinião.
c) é assinalada por aspas.
d) o verbo introdutor de relato do discurso é um verbo dicendi.
e) é um termo anafórico do antecedente «Damião».
f) são merónimos de -papa-capim*.
g) realiza a coesão interfrásica.
h) o pronome pessoal faz parte da cadeia de referência do referente «Damião».
i) o pronome pessoal é urna catáfora do referente -Damião"




17.3.07

Não gosto de motos


- Desculpa, Ricardo, mas, realmente, não gosto de motos. Depois do acidente do meu irmão, fiquei cheia de medo.
- Ora, que é que isso tem? Eu sei guiar! Não confias em mim?
- Desculpa...
- Garanto-te que nunca tive um acidente, Mafalda! Nem NUNCA vou ter. Eu sei guiar!
- Não vale a pena, Ricardo. A sério. Até amanhã.
Ela saiu. Ele ficou parado, colado ao portão, tão frio como o ferro das grades, vendo-a dirigir-se à paragem de autocarro. Quando olhou para trás, esperando secretamente que ninguém conhecido tivesse assistido àquela tampa que levara sem dó nem piedade, deu com o espertalhão, a menos de um metro de distância. Agora, se voltasse à carga, desfazia-o, isso era certo.
- Que é que foi? Nunca viste ou 'tás armado em mete nojo'? - perguntou-lhe, em tom de desafio.
- Já. Já vi esta cena numa novela foleira qualquer - respondeu o outro, igualmente mortinho por uma cena.
- Só que não me lembro já da cara do gajo, quando ela o deixou especado, feito estúpido...
Pronto. Os dados estavam lançados. O Ricardo voou para o outro, deitou-o ao chão num abrir e fechar de olhos e depositou-lhe uma murraça no queixo, para começo de festa. Pouco depois, juntou-se a maralha que ia almoçar a casa, atiçando o lume para aquecer a tarde.
-Vamos lá a parar com isso! - gritou o senhor Marques, aproximando-se do portão.
- Levantem-se, vá! Estou à espera.
Qual quê! Ainda estavam apenas nos exercícios de aquecimento. Ignoraram o porteiro e continuaram a pancadaria, soltando insultos directamente proporcionais às dores provocadas por cada um dos socos com que, alternadamente, iam presenteando o adversário.
Farto de gesticular, tentando separá-los, o porteiro exasperou-se e berrou:
- Já lá para cima comigo! Vamos ao director e é agora!
Só então pararam. Sacudiram-se, olharam-se como touros enraivecidos e seguiram o senhor Marques até ao gabinete da Direcção.

Maria Teresa Maia Gonzalez, Ricardo, o Radical


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Os medos da personagem feminina eram aceitáveis, porque:
a. o Ricardo não sabia guiar
b. estava traumatizada
c. os autocarros não têm acidentes

1.2. As personagens masculinas jovens eram:
a. conflituosas
b. intolerantes
c. imprevisíveis

2. A função exercida pelo senhor Marques está expressa no texto.
2.1. Indica-a.
2.2. Identifica as outras personagens, justificando a tua resposta.

3. Presta atenção às reacções do Ricardo e do rapaz com quem lutou. Comprova as seguintes afirmações, com transcrições do texto.
3.1. já se conheciam.
3.2. Ricardo estava incompatibilizado com o "espertalhão"
3.3. O "espertalhão" viu a "tampa" que Ricardo levou.
3.4. Provocaram-se mutuamente.

4. Relê o nono parágrafo e esclarece o sentido que atribuis:
4.1. à frase "Os dados estavam lançados."
4.2. à expressão "... atiçando o lume para aquecer a tarde'

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase:

A arrogância anda de mão dada com a agressividade.



14.3.07

Os Biombos de Nambam




Os biombos Nambam contam
A história alegre das navegações
Pasmo de povos de repente
Frente a frente

Alvoroço de quem vê
O tão longe tão ao pé

Laca e leque
Kimono camélia
Perfeição esmero
E o sabor do tempero

Cerimónias mesuras
Nipónicas finuras
Malícia perante
Narigudas figuras
Inchados calções

Enquanto no alto
Das mastreações
Fazem pinos dão saltos
Os ágeis acrobatas
Das navegações

Dançam de alegria
Porque o mundo encontrado
É muito mais belo
Do que o imaginado

Sophia de Mello Breyner Andresen, Ilhas

I

1. A que período da história de Portugal se associa o conteúdo do poema?

2. Que contam os biombos Nambam?

3. Refira os sentimentos expressos pelos povos que se vêem frente a frente.

4. Explique o sentido do verso: O tão longe tão ao pé.

5. Que comportamento têm os nipónicos perante Narigudas figuras/ Inchados calções?

6. A quem se refere o Eu lírico quando menciona Os ágeis acrobatas/ Das navegações?
6.1. E porque dançam esses acrobatas?

7. Indique o tema do poema. Justifique.

8. Resuma o conteúdo do poema.

9. Retire do poema sugestões de movimento e cor.

10. Retire um recurso estilístico do poema e explique o seu sentido.

11. Refira o valor expressivo do poema considerando a ausência de pontuação.

11.3.07

Na fonte está Lianor

Cantiga Alheia

Mote
Na fonte está Lianor
Lavando a talha e chorando,
Às amigas perguntando:
- Vistes lá o meu amor?

Voltas
Posto o pensamento nele,
Porque a tudo o amor obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando,
Às amigas perguntando:
- Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre ua mão,
Os olhos no chão pregados,
Que, do chorar já cansados,
Algum descanso lhe dão.
Desta sorte Lianor
Suspende de quando em quando
Sua dor; e, em si tornando,
Mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água,
Que não quer que a dor se abrande
Amor, porque, em mágoa grande,
Seca as lágrimas a mágoa.
Despois que de seu amor
Soube novas perguntando,
De improviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!

Luís de Camões

I

1. Indica o tema e o seu desenvolvimento.

2. Divide o poema em partes, justifica devidamente a tua resposta.

3. Procede ao levantamento dos sentimentos expressos e das sensações sugeridas.

4. Analisa a linguagem e estilo.

5. Faça a análise formal.

6. Considera as duas frases que se seguem. Constrói uma frase complexa que estabeleça uma comparação.
A mentira merece o castigo.
A sinceridade merece o perdão.

O sapateiro pobre




Havia um sapateiro que trabalhava à porta de casa e todo o santíssimo dia cantava. Tinha muitos filhos, que andavam rotinhos pela rua, pela muita pobreza; e à noite, enquanto a mulher fazia a ceia , o homem puxava da viola e tocava os seus batuques muito contente.
Ora, defronte do sapateiro morava um ricaço, que reparou naquele viver e teve pelo sapateiro tal compaixão que lhe mandou dar um saco de dinheiro, porque o queria fazer feliz.
O sapateiro lá ficou admirado. Pegou no dinheiro e à noite fechou-se com a mulher para o contarem. Naquela noite, o pobre já não tocou viola. As crianças, como andavam a brincar pela casa, faziam barulho e levaram-no a errar na conta, e ele teve de lhes bater. Ouviu-se uma choradeira, como nunca tinham feito quando estavam com mais fome. Dizia a mulher:
- E agora, que havemos de fazer a tanto dinheiro?
- Enterra-se!
- Perdemos-lhe o tino. É melhor metê-lo na arca.
- Mas podem roubá-lo! O melhor é pô-lo a render.
- Ora, isso é ser onzeneiro!
- Então levantam-se as casas e fazem-se de sobrado e depois arranjo a oficina toda pintadinha.
- Isso não tem nada com a obra! O melhor era comprarmos uns campinhos. Eu sou filha de lavrador e puxa-me o corpo para o campo.
- Nessa não caio eu.
- Pois o que me faz conta é ter terra. Tudo o mais é vento.
As coisas foram-se azedando, palavra puxa palavra, o homem zanga-se, atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro da outra, naquela noite não pregaram olho.
O vizinho ricaço reparava em tudo e não sabia explicar aquela mudança. Por fim, o sapateiro disse à mulher:
- Sabes que mais? O dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era ir levá-lo outra vez ao vizinho dali defronte, e que nos deixe cá com aquela pobreza que nos fazia amigos um do outro!
A mulher abraçou aquilo com ambas as mãos, e o sapateiro, com vontade de recuperar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e voltou para a sua tripeça a cantar e a trabalhar como de costume.

Vale Moutinho, Contos Tradicionais Portugueses


I

1. Atenta no narrador.
1.1. Classifica-o quanto à presença.
Justifica convenientemente a tua resposta com expressões retiradas do texto.

2. Identifica as personagens que surgem neste conto.

3. Qual a situação inicial deste conto tradicional?

4. Que facto veio alterá-la?

5. Enumera os vários destinos que o sapateiro queria dar ao dinheiro.

6. A mulher do sapateiro discordava do seu marido.
6.1. Que destino queria ela dar ao dinheiro?

7. A partir do momento em que ficou rico, o sapateiro modificou o seu comportamento.
7.1. Refere essas mudanças.

8. Qual é a moral deste conto?


II

1. Retira do texto todas as frases que se encontram no discurso directo.

2. Reescreve as frases do exercício anterior, apenas as do primeiro diálogo entre o sapateiro e a sua mulher (só até «puxa-me o corpo para o campo»), no discurso indirecto.

3. Lê atentamente este excerto adaptado do livro Laços de Família de Clarice Lispector.

O troco era bom. Mas dera daqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Perguntou para consigo própria: - Como pude eu dar à luz estes seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Dizia para consigo: - Uns comunistas é o que eles são; uns comunistas! Olhou-os com a sua cólera de velha. Pareciam ratos (…) a sua família.

3.1. Reescreve-o no discurso indirecto livre.

A Torre da Má Hora


1. Esta história começa e acaba com uma referência ao espaço físico predominante da acção.
Refere-o.

2. Enquadrado neste espaço, surge a história, as histórias...
Atenta na dupla perspectiva narrativa: a do narrador principal e a do narrador secundário.
2.1. Resume o assunto de cada uma dessas narrativas.
2.2. Identifica o narrador secundário e o título da história que conta.
2.3. Reconstitui-a como um todo, recolhendo os dados dispersos contidos no conto.
2.4. Campanelo acaba a história de outro modo.

3. Que motivos o terão levado a alterar o desenlace da história?
3.1. Compara-o com a versão original do conto tradicional "A Torre da Má Hora" e refere o final que este apresenta.

4. Campanelo, um contador de histórias por excelência...
4.1. Recolhe expressões que revelam a sua técnica de grande sabedor, comunicador e contador.
4.2. Desperta a atenção e o interesse dos rapazes... " Refere atitudes comprovativas.

Erros meus, má fortuna, amor ardente



Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso1 de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio2 de vinganças!

Luís de Camões


1. discurso — decurso.
2. génio - duas interpretações possíveis são apontadas por comentaristas: génio = "...no sentido romano, o outro "eu" que reside em nós"; "duro génio" = "cruel destino".



I

1. O soneto que acabaste de ler pode ser dividido em duas partes lógicas.
1.1. Delimita-as.
1.2. Explicita, numa frase, o conteúdo de cada uma delas.

2. Este soneto abre com uma acumulação.
2.1. Identifica os três termos dessa acumulação.
2.2. Indica os versos em que o sujeito lírico retoma os três elementos dados inicialmente.
2.3. Faz o levantamento do vocabulário de conotação negativa relacionado com os elementos que provocaram "a perdição" do sujeito lírico.

3. O sujeito lírico faz referência a um passado, ao presente e exprime um desejo relativamente ao futuro. Transcreve as formas verbais que documentam a existência destes três tempos

4. À boa maneira petrarquista, o poema termina com chave de ouro.
4.1. Identifica-a.
4.2. Refere-te à importância da pontuação.
4.3. Explica de que forma esses versos sintetizam tudo quanto foi dito nos versos precedentes.

5. Releva as marcas do discurso pessoal que conferem a este soneto um tom autobiográfico.


II

1. Pode-se afirmar que o soneto que acabaste de analisar é uma espécie de síntese da vida do poeta.
Não se pretende que faças uma síntese da tua vida... apenas que penses nela, durante uns momentos, e que selecciones um episódio muito bom ou muito mau. Depois, em forma de diário, relata esse episódio num texto que tenha entre 80 e 100 palavras. Não te esqueças que deves usar o discurso na 1.ª pessoa e prestar especial atenção aos tempos verbais usados e à articulação lógica das diferentes ideias.



9.3.07

Antes de Começar



1. Que diz o Boneco?

2. Que lhe responde a Boneca?

3. Qual o assunto da conversa que se segue?

4. Porque estão agora os dois à vontade?

5. A Boneca tem uma dúvida.
5.1. Qual é?
5.2. Quem lha tira?

6. Que outra pergunta é feita pela Boneca?
6.1. Como lhe responde o Boneco?

7. De que arte se serviu o Homem para interessar as crianças pelos Bonecos?

8. Porque gostam as crianças de ver mexer os Bonecos?

9. A Boneca tem uma história que é da pessoa que a fez.
9.1. Com que intuito a fez?
9.2. Como conseguiu fazê-la?
9.3. Que sentimento sentia a pessoa que a fez?
9.4. Interpreta a afirmação: "Fui feita com o coração!"
9.4.1. Que importância tem para a Boneca o coração?
9.5. Porque diz a Boneca: "Ela copiou-se exactamente em mim!..."?
9.6. Que lhe responde o Boneco?

10. No diálogo que continua, a Boneca corrige uma afirmação do Boneco e diz: "o que uma pessoa é p'ra fora é igual ao que é p'ra dentro! É uma coisa só!... "
10.1. Interpreta esta afirmação.

11. Falam como Bonecos, mas sentem como pessoas. .
11.1..Escreve uma frase dita pelo Boneco que justifica esta afirmação.

12. Que diz a Boneca do coração que tem dentro dela?
12.1. Que sentimento exprime?
12.2. Que importância tem o tempo?

13. O Boneco vai-se revelando.
13.1. Transcreve as frases que diz.
13.2. Como se manifesta a Boneca?
13.3. Que imagem transmite os seus sentimentos?

14. Explica estas frases ditas pelo Boneco:
"É a fé! É o 'coração que 'não se enganar'

15. Que disposição sente a Boneca, quando o sol desaparece. quando faz luar e quando chove?

16. Que lhe responde o Boneco?

17. A Boneca pensa que o coração dela é grande de mais para ela e a hora não, chega.
17.1. Como comenta Q Boneco os pensamentos dela?
17.2. Porque lhe diz que "o tempo é pecado de quem não sabe amar"?

18. A Boneca e o Boneco comportam"se personificadamente.
18.1. Em qual dos dois é mais forte o domínio do coração?

19. Como conclui o Boneco esta longa conversa sobre a espera, o tempo, o coração?

20. Justifica o título da peça.

Manhã na serra



Manhã na serra... Ainda o Cabril está escuro. Levanta-se o Sol pela hora velha, mas já i» operários passaram para as fábricas da vila. Vão sempre apressados, homens e mulheres. A gente que fica também se move. Tem-se a impressão que durante o tempo quente, com os trabalhos sucessivos das regas e colheitas, ninguém aqui dorme.
A manhã vai abrindo vagarosamente. Da cumeada, lá bem ao alto de uns cabeços felpudos mais próximos, c de outros escalvados, pesados e maciços, mais remotos, rompe o sol empoeirado. O Cabril, escuro, ainda não tem delineamento. Porém, neste Outubro estiado nem aí manhãs são frias, nem as névoas demoradas, nem o vento sopra, e não chove.
Até a lua, no crescente, é luminosa! Tão formoso tempo desgosta o povo.
A chuva mostra-se (anda o céu enevoado) de vez em quando, mas logo logo...
Tudo vai aquecendo mansamente e o fumo sobe direito. É tão leve a inclinação que casual-mente toma que só olhando-o pertinazmente se vem a descobrir o lado do vento.
Os milhos mais serôdios ainda não foram ceifados e também não bolem. Há uma calma per-feita, e lembrarmo-nos nós de que os vendavais encanados por todas estas vertentes tortuosas chegam a derrubar as mais grossas canas de milho! (...)
Ouço a chocalhada de mais um rebanho. Desde muito cedo que eles passam. Os pastores levam-nos lentamente, paulada a este chibo, paulada àquela ovelha, paulada em vão, descansada, para que os animais aproveitem bem toda a verdura mais ou menos seca das bordas antes de assentarem no chão que vão rapar e estrumar durante um dia ou mais. (...) Uma cantoria arrastada e graciosa, bem soante, vem da esquerda. Têm bonita voz as serranas da Estrela! É mais uma descasca do milho. E à minha direita, para meu desgosto (um desgosto mental, supérfluo), na mata destroçada da rica Artensa luzem os pinheiros finos, tombados e descas-cados, vendidos à companhia dos telefones, salvo erro, para postes. Na aldeia, de muitos fogos, não há nem se espera tão cedo telégrafo ou telefone! Esta rica Artensa do povo de lá tem o marido na América. Com o dinheiro americano e o serrano vão ambos fazendo um casão. Bastou-lhes terem um filho. Trataram logo dos interesses. Ele do lado d'além (to mar e ela do lado aquém, governam-se satisfatoriamente.
Mas diz o Jaleca por malandrice, e ainda outros mais, repetindo o que ouvem aos parentes americanos de torna-viagem;
O! Ô! E o'a vergonha dos portugueses. Poipar, sim, mas daquele unido? Ele t’chegou a andar co’os sapatos sem solas! E pró quê? Também lês há-de soar a hora, com’os oitros...
Não tendo mais que apontar de momento pelo menos, porque tudo isto sendo variado é constante, repetido, levanto a pena fico-me a olhar para o espesso e melindroso Cabril, d'aquém névoa, d'além luz.

Irene Lisboa, Crónicas da Serra


I

1. «Manhã na serra... Ainda o Cabril está escuro.»
1.1 Situa a cronista no espaço.
1.2 Que traço é evidenciado relativamente às pessoas referidas no 1.° parágrafo?
2. Descreve a paisagem natural observada pela escritora.
3. Clarifica a identificação do sujeito presente na expressão «e lembrarmo-nos nós»
4. O sentido da audição está presente para captar as vivências próprias de um espaço rural serrano.
4.1 Transcreve expressões textuais que comprovem a afirmação anterior,
4.2 A que correspondem os diferentes sons?
5. «E à minha direita, para meu desgosto»
5.1 O que causa a «mágoa» do locutor?
5.2 A «rica Artensa» e seu marido emigrado na América são criticados. Porquê?
6. No último parágrafo, a escritora assume-se como cronista-repórter. Estás de acordo com esta afirmação? Justifica.
6.1 Explicita o sentido da expressão «Cabril, d'aquém névoa, d'além luz.», tendo em conta os vocábulos destacados.





7.3.07

A uma ausência




Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me sustenta,
O mal, que me consome, me sustenta
O bem, que me entretém, me dá cuidado:

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado:

Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.


António Barbosa Bacelar, in Fénix Renascida


I

1. A realidade que o autor exprime é exterior a ele mesmo, objectiva ou, pelo contrário, é interior? Como justificas?

2. O ponto de vista acerca dessa realidade mostra um sujeito seguro de si, confiante, ou desorientado, confuso? Selecciona dois dados textuais para ilustrar a tua resposta.

3. Faz o levantamento de alguns verbos e de uma figura de estilo que melhor exprimem o estado do sujeito referido anteriormente.

4. Relê a parte final do soneto e transcreve o verso que melhor sintetiza esse estado do sujeito.
4.1. Explica por palavras tuas o sentido desse verbo.

5. O verbo "andar" aparece no 5.° e no 14.° versos. Ele é usado com o mesmo significado? Justifica.
6. Repara na forma verbal "ver-me" (v. 8).
A posposição do pronome pessoal me deve-se a razões métricas ou gramaticais? Porquê?


II

A partir deste soneto, e de outros textos relacionados com o Barroco, elabora, de forma cuidada, um comentário sobre os factores que originaram a consciência de crise própria do Homem deste período.