28.12.07

Cesário Verde

Diga se são verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes afirmações:

1. A obra de Cesário Verde, curta devido á morte prematura, é grandiosa e de importância deter-minante no contexto da modernidade.
2. A poesia é, para o parnasiano, um fruto da inspiração.
3. A poesia é, para o parnasiano, um fruto paciente de sabedoria, um reiterado trabalho de perfeição em ritmo e em rima.
4. Na obra de Cesário Verde ressalta a visão plástica de uni "poeta-pintor" atento à realidade quotidiana que o cerca.
5. Cesário é o simples parnasiano imparcial e impassível, que vê e regista a paisagem física do campo e a paisagem humana da sociedade do seu tempo.
6. Cesário Verde (1855-1886) apreende de tudo os pequenos flagrantes, de modo vivo e dinâmico, retratando a realidade…
7. Cesário Verde (1855-1886} capta do campo a vitalidade e a força telúrica; não canta o conven-cionalismo idílico, mas a natureza, os pomares, as canseiras da família durante as colheitas.
8. Em Cesário Verde a cidade surge viva com homens vivos; mas nela há a doença, a dor, a miséria, o grotesco, a beleza e a sua decomposição fatal….
9. Na poesia de Cesário Verde encontramos o "erotismo da humilhação", onde a mulher fatal sobressai, por entre as imagens desfocadas de uma cidade viciada, de "fantasias mórbidas", ao gosto de Baudelaire.
10. Na parte final do poema Contrariedades, Cesário Verde manifesta a revolta do sujeito poético e despreocupação com a situação da vizinha.
11. No poema Contrariedades, Cesário Verde aponta como causas do seu estado de espírito a simplicidade nos usos e nos costumes e as alegrias da vida.
12. No poema Contrariedades, Cesário Verde descreve o estado emocional do sujeito poético, apresentando-o cruel, frenético, exigente, impaciente...
13. No poema Contrariedades, Cesário Verde tece críticas à sociedade, que considera desumana, injusta, decadente, depravada, insensível...
14. No poema Contrariedades, Cesário Verde tece elogios á sociedade, que considera justa e sensível.
15. No poema De Tarde, ao descrever aquele "piquenique de burguesas", Cesário Verde constrói o cenário com objectividade e pormenor.
16. No poema Num Bairro Moderno, os "vegetais" da giga da hortaliceira adquirem as formas de um ser humano masculino e aquele | "retalho de horta aglomerada" acaba por simbolizar a cidade.
17. No poema de Cesário Verde Num Bairro Moderno, identificamos a invasão simbólica da cidade pela vitalidade e pelo colorido saudável dos produtos do campo.
18. No poema de Cesário Verde Num Bairro Moderno, o poeta transfigura o quotidiano numa pintura viva.
19. No poema de Cesário Verde O Sentimento dum Ocidental encontramos um cenário citadino de ruas alegres e cheias de luz...
20. O Parnasianismo caracteriza-se, ao nível do conteúdo, pela atenção ao mundo interior, pelo gosto do pormenor e pelo predomínio da subjectividade.
21. O Parnasianismo é uma escola literária que defende a 'arte pela arte", iniciada em França, em meados do século XIX.
22. O Parnasianismo é uma escola poética que pugna pelo lirismo romântico e ultra-romântico e é contrária à delicadeza e perfeição da forma.
23. O Parnasianismo é uma tendência artística que procura a confecção perfeita através de uma poesia descritiva, baseada, muitas vezes, em temáticas greco-latinas.
24. O Parnasianismo é uma tendência política que procura a igualdade entre os homens.
25. Os poetas parnasianos buscam a perfeição formal, fazendo da poesia algo de escultórico, esculpindo o concreto com nitidez e perfeição.





Fim de tarde na cidade




Àquela hora o trânsito complicava-se. As lojas, os escritórios, algumas oficinas, atiravam para a rua centenas de pessoas, E as ruas, as praças, as paragens dos eléctricos, que tinham sido planeadas quando não havia nas lojas, nos escritórios e nas oficinas tanta gente, ficavam repletas dum momento para t» outro. Nos largos passeios das grandes praças havia encontrões. As pessoas de aprumo tinham de fechar os olhos àquele desacato e não viam remédio senão receber e dar encontrões também e praguejar algumas vezes. Os eléctricos apinhavam-se na linha à frente uns dos outros. Seguiam morosamente, carregados até aos estribos e por fora dos estribos, atrás, no salva-vidas, com as tais centenas de pessoas que saltavam àquela hora apressadamente das lojas, dos escritórios, das oficinas. Além disso, nos dias bonitos como aquele, as ruas da Baixa enchiam-se de elegantes que iam dar a sua volta, às cinco horas, pelas lojas de novidades e pela casa de chá, para matar o tempo de qualquer maneira, ver caras conhecidas, cumprimentar e ser cumprimentadas, e só voltavam a casa à hora do jantar.
A multidão propunha uma confraternização à força. Era preciso pedir desculpa ao marçano que se acabava de pisar, implorar às pessoas penduradas no eléctrico que se apertassem um pouco mais para se poder arrumar um pé, nada mais que um pé, num caminho do estribo, muitas vezes sorrir para gente que nunca se tinha visto antes e apetecia insultar. Os elegantes e as elegantes achavam naturalmente tudo isto muito aborrecido. Sobretudo a necessidade absoluta de seguir naquelas plataformas repletas em que não viajavam só cavalheiros, mas muitos homenzinhos pouco correctos e onde esses mesmos homenzinhos e mulheres vulgares deitavam um cheiro insuportável. Que fazer, no entanto, senão atirar-se uma pessoa também para aquele mar de gente que empurrava, furava, pisava e barafustava até chegar ao carro? Que fazer senão empurrar, furar, pisar e barafustar também?


Mário Dionísio, O Dia Cinzento e Outros Contos


Texto B


CIDADE

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar c as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo.
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes e não vejo
Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de M.B. Andresen, Antologia



I

Lê o texto A e responde às seguintes perguntas:

1. Caracteriza o ambiente na cidade ao fim da tarde.

2. Indica os factores que distinguem os grupos sociais referidos no texto.

3. Explica a frase seguinte: "A multidão propunha uma confraternização à força'

4. O texto fornece uma determinada visão dos meios de transporte públicos,
a) Com base no texto, refere os inconvenientes da sua utilização,
b) Aponta outros riscos a que estão sujeitos os seus utentes.


II

Lê o texto B e responde às questões seguintes:

1. Indica o efeito que a cidade exerce na poetisa.

2. Caracteriza a vida em contacto com a Natureza.

3. "[...] planícies mais vastas/Que o mais vasto desejo."
a) Refere o desejo revelado nestes versos.
b) Identifica os graus dos adjectivos contidos nesses versos.

4. Faz o esquema rimático do poema e classifica os seus tipos de rima.


III

Aponta as ideias comuns aos dois textos apresentados.
Distingue os textos A e B ao nível da forma.



27.12.07

Ah, um soneto...


Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?..

Álvaro de Campos, Poesias, Ed. Ática


I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:

1. A primeira quadra é dominada por uma figura de estilo.
1.1. Identifique-a e clarifique o seu sentido tendo em linha de conta dois tempos:
- o passado;
- o presente.
1.2. Descubra, ao longo do poema, outras duas figuras de estilo e relacione o seu sentido com a primeira que identificou.
1.3. Diga como é que a iteração presente na primeira quadra intensifica o inconformismo do abandono da "profissão do mar".

2. Distinga dois mundos ou domínios:
- o da memória e sensibilidade;
- o do real.
2.1. Refira como se interligam.

3. Comprove que os sentimentos que dominam o sujeito poético remetem para esta identidade: coração/pessoa.

4. Faça o levantamento das expressões de nível popular e refira o papel que desempenham na
comunicação.
5. Explique o título do poema em oposição ao versilibrismo e heteromorfismo da poesia de Álvaro
de Campos.


II

Fernando Pessoa afirma que Álvaro de Campos «é o filho indisciplinado da sensação».
Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática das sensações na poesia heteronímica de Fernando Pessoa.

Cena Onzeneiro




I

Assinala com V ou com F as afirmações que julgues verdadeiras ou falsas.

1. Esta personagem tem o nome de Onzeneiro porque:
a) é a décima primeira personagem que entra em cena;
b) tem onze irmãos;
c) explorou o povo, levando juros exagerados.

2. O Diabo diz que o Onzeneiro é seu parente porque:
a) é seu irmão;
b) é seu amigo, por ter praticado o mal;
c) é seu parente afastado.

3. O Onzeneiro aparece em cena:
a) carregado de dinheiro;
b) com pouco dinheiro, insuficiente para a portagem;
c) sem nenhum dinheiro.

4. Quando inicia o diálogo com o Onzeneiro, o Diabo:
a) usa uma linguagem suavizada;
b) diz abertamente que ele vai para a sua barca;
c) diz que não o quer levar.

5. O Anjo responde ao pedido do Onzeneiro, dizendo:
a) que o leva na sua barca se ele se arrepender;
b) que ele foi pecador e não poderá entrar na sua barca;
c) que ele deverá ir à terra para restituir o que roubou.

6. O Onzeneiro, ao longo da sua actuação:
a) altera a sua atitude de orgulho;
b) não altera a sua atitude;
c) pede perdão dos seus pecados.


II

1. Indica as razões por que o Diabo chama "parente' ao Onzeneiro.

2. O Onzeneiro preparou-se para a morte ou foi apanhado de surpresa? Justifica a resposta.

3. Qual é o primeiro argumento que o Onzeneiro apresenta para não ir na barca do Diabo?

4. O Onzeneiro mostra-se convencido de que se salvará. Em que se fundamenta?

5. Qual é o argumento que o Anjo apresenta para não levar o Onzeneiro?

6. Explica o sentido do verso "Não já no teu coração."

7. De que se lamenta o Onzeneiro diante do Anjo?

8. Quando volta à presença do Diabo, qual é o pedido que lhe faz?
8.1. O que pretende com esse pedido?

9. A que género literário pertence a obra de onde foi retirado este texto? 9.1 . Que outros géneros literários estudaste? Exemplifica e justifica.

10. Se o texto fosse escrito hoje, quem poderia, dentre os elementos da nossa sociedade, desem-penhar o papel do Onzeneiro?

III

1 . Indica sinónimos de "fardar", "faleci', "bater.

2. Indica antónimos de "nunca", "avantagem", "Paraíso", "cá".

3. "Sabe vós no que me fundo?"
3.1. Classifica morfologicamente as palavras desta frase.
3.2. Divide e classifica as orações desta frase.

4. "Ora, entrai, entrai aqui!"
4.1 . Refere a função da linguagem dominante nesta afirmação.
4.2. Explica o sentido dessa (unção.

5. Transforma as duas frases que se seguem numa só, introduzindo entre elas a relação de conse-quência:
5.1. O Onzeneiro estava convencido; não duvidava que ia para o Paraíso.
5.2. O Diabo falou com habilidade; não revelou directamente o lugar para onde ia a sua barca.

6. "E trarei o meu dinheiro."
6.1. Reescreve a frase, substituindo o complemento directo pelo pronome pessoal que desempenha a mesma função.


IV

1 . "Oh! Que gentil recear/e que cousas para mH"; "Ó onzena, como es fea/e filha da maldição!"
1 .1 . Refere, pelo menos, duas figuras de estilo presentes nestes versos.

2. "Ó triste, quem me cegou?"
2.1 . Indica o sentido de "cegou".
2.2. Que figura de estilo está realizada neste verbo?
2.3. Constrói frases em que entre o verbo "cegar" com sentido normal (denotativo) e sentido diferente daquele que tem na frase transcrita (conotativo).


V

"Ganharás o pão cora o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
Com o suor dos outros ganharás o pão."
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Ed. Salamandra

Tendo por referência as palavras de Sophia de Mello B. Andresen, constrói um texto bem estru-
turado, que comprove a verdade dessas palavras.

14.12.07

Alegres campos, verdes arvoredos



Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais1 ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
Compostos em concerto desigual,
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas,
Nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
Regando-vos com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.

Luís de Camões



I

Lê atentamente o texto e responde às seguintes questões:

1. Existe um contraste entre a natureza e o sujeito poético. Explicita o sentido da afirmação anterior.
2. O presente do sujeito poético difere do passado.
2.1. Que sentimento o dominava no passado?
2.2. Diz a causa do seu estado de espírito no presente.
2.2.1. Transcreve o verso que fundamenta a resposta à questão anterior.
3. Identifica as figuras de estilo presentes nas seguintes expressões:
a) «águas que correndo alegres vêm.» (v. 11).
b) «Regando-vos com lágrimas saudosas» (v. 13).
4. Refere a corrente da poética de Camões em que este poema se insere.
4.1 Faz a sua análise formal.

II

1. Explica o significado dos seguintes vocábulos: «silvestres» (v. 5); «ásperos» (v. 5); «deleitosas» (v. 10).
2. Transcreve as formas verbais presentes na última estrofe e classifica-as.
3. Integra as seguintes conjunções na subclasse a que pertencem: «que» (v. 7); «pois» (v. 9); «E» (v. 14).


Natal… Na província neva


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Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
´Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa



I

1. Considera as referências – evocações temporal e espacial contidas no primeiro verso.
1.1. Interpreta a sua expressividade.
1.2. Esclarece o sentido do verso 4.

2. “ Como a família é verdade!” (v.6)
2.1. Explicita os efeitos sugeridos pelo tipo de frase utilizado.

3. Identifica a figura de estilo presente no verso 8 “ ´Stou só e sonho saudade”.
3.1. Refere o seu valor, tendo em conta os sentimentos que dominam o sujeito poético.

4. Relaciona o último verso com a temática pessoana que estrutura o poema.

5. Analisa formalmente a composição poética.


II

“ (…) na suposição de que ser poeta é ter acesso a um novo “estado de graça”, Fernando Pessoa tenta recriar-se, artificialmente, como “criança” e, nela, continuar a infância perdida. Mas a consciência do real atrapalha-lhe o sonho.”

Alfredo Antunes, Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa


Depois de reflectir sobre o excerto transcrito, desenvolva-o num texto expositivo, fundamentando as suas afirmações.




13.12.07

Notícia



Golfinho deu à costa e está a recuperar


Um golfinho deu à costa na sexta-feira à tarde na praia do Seixo, Silveira, na zona de Santa Cruz, tendo sido transportado para um parque aquático do Algarve por um helicóptero do Serviço Nacional de Bombeiros.
Nas acções participaram elementos dos Bombeiros Voluntários de Torre Vedras e da União Zoófila. O mamífero deverá agora recuperar da sua doença nas instalações do parque aquático algarvio até estar em condições de ser devolvido ao seu meio Natural.

In Público, 11/01/98


I


1. Identifica o tipo de texto que acabaste de ler.
1.1. De onde foi retirado?
1.2. Refere a sua estrutura.

2. Transcreve do texto a resposta às quatro questões:
Quem? O quê? Onde? Quando?
2.1. Como se denomina a parte do texto onde se encontram as respostas a essas questões?

3. Delimita o corpo da notícia.

4. Completa as frases.
Comprei hoje um jornal ____________, como faço todos os dias.
A maior parte dos jornais que leio saem de manhã, são jornais _____________. Os jornais, que saíam à tarde, chamavam-se ______________________.

5. Assinala com V (verdadeira) ou F (falsa) as seguintes afirmações, corrigindo as falsas:
a) A notícia deve ter uma linguagem clara, acessível e não pode veicular opiniões.
b) A parte mais importante da notícia é o corpo da notícia.
c) Na redacção de uma notícia é utilizada a técnica da pirâmide invertida.



II

1. Indica o tipo e a forma das frases seguintes:
a) Não estudaste?
b) Não pode ser!
c) Vamos realizar um bom trabalho.
d) Cumpram as regras!

2. Muda para a forma negativa as frases que se seguem:
a) Ele sente-se bem?
b) Empresta-me a borracha.

3. Identifica os adjectivos da frase:
A imagem que está sobre a cómoda da minha avó é considerada milagrosa e poética.

4. Identifica o sujeito e o predicado na seguinte frase:
O homem está cercado de objectos familiares.


III

Os meios de comunicação social são armas poderosas que influenciam diariamente cada um de nós.

Com base nesta afirmação, constrói um pequeno texto sobre os benefícios e prejuízos causados pelos meios de comunicação social.




Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar

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Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, sem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei logo de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calado e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E começo a morrer muito antes de ter vivido.

Deito aqui onde jazo, só uma brisa que passa.
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fernando Pessoa


I

1. O sujeito poético situa-se na orla da praia.
1.1. Caracterize o espaço sugerido ao longo do poema.
1.2. Considerando o valor semântico dos adjectivos no primeiro verso das estrofes alternadas, mostre que há um valor simbólico associado a esse espaço.

2. Na segunda estrofe, há uma definição da vida.
2.1. Explicite o conceito de vida revelado ao longo do poema.
2.2. Identifique e defina os valores morais que se destacam no conceito de vida.

3. "Por isso" (v. 9) introduz uma conclusão que resulta do sentimento de vida.
3.1. Explicite os sentimentos que o sujeito lírico exprime.
3.2. Determine a conclusão ou projecto de vida que formula.

4. Analise a construção formal do poema, tendo em atenção que há uma segmentação do verso em redondilhas maiores que rimam entre si.


II

Num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, comente as seguintes afirmações do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares:

«A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. [...] Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti.»

«A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror.»

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego de Bernardo Soares (fragmentos)


12.12.07

O meu olhar azul como o céu



O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não se interroga nem se espanta…

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo…

(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol…
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)

Alberto Caeiro




I

1. Apresenta as características do olhar do poeta e justifica-as.
1.1. Interpreta a expressividade das comparações utilizadas.

2. Refere a projecção da interrogação e do espanto na natureza e no sujeito poético.

3. Interpreta o verso 12 “Porque tudo é como é e assim é que é.”.

4. Explicita os conceitos de aceitação e de rejeição do pensamento, considerando as afirmações feitas nos dois últimos versos do poema.

5. Identifica o tema da composição poética.

6. Faz a análise formal do poema.


II

Alberto Caeiro é um intransitivo, isto é, recusa o conhecimento por analogia.
Depois de reflectires sobre o excerto transcrito, desenvolve-o num texto expositivo-argumentativo, fundamentando as tuas afirmações.

10.12.07

O Caldo de Pedra



Um dia um frade andava ao peditório e chegou à porta de um lavrador, onde não lhe quiseram dar nada. O frade estava a cair de fome, e disse:
Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu- lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:
- Se me emprestassem aí um pucarinho?
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasa.
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava um primor.
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso; bem precisava de uma pedrinha de sal.
Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:
- Agora é que com uns olhitos de couve ficava, que os anjos o comeriam.
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço: ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço, depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo. A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Oh, senhor frade, então a pedra?
Respondeu o frade:
- A pedra, lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português


I

1. Identifica as personagens do texto.

2. Caracteriza o frade, tendo em conta o ardil imaginado para atingir o seu objectivo.

3. Os referentes temporais do decorrer da acção surgem traduzidos pela forma verbal da primeira frase do conto. Identifica o verbo e o tempo verbal em que se encontra.

4. Localiza a acção no espaço e no tempo.

5. Quanto à localização no espaço e no tempo, este conto insere-se na literatura de transmissão oral. Justifica.

6. Explica a razão da situação referida na frase transcrita: e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo.
6.1.Como reagiram as personagens presentes?
6.2. Diz o que pensas dessa atitude.

7. Identifica a moralidade que se pode extrair do conto.

8. Escreve no discurso indirecto:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.

9. Identifica a figura de estilo presente na frase: a panela começou a chiar.


II

Dos dois temas a seguir apresentados, escolhe apenas UM.

1- Imagina um diálogo travado entre os donos da casa e o frade, após terem percebido o estratagema usado.

2- Escreve um curto e bem elaborado texto subordinado ao tema: Pobreza.


7.12.07

Canção Breve


Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa



Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- relação entre o passado e o presente;
- valor simbólico das referências espaciais;
- aspectos formais e recursos estilísticos relevantes;
- importância do título na construção do sentido.



5.12.07

Jorge Bucay, Contos para pensar

Um conto para pensar




Um mestre sufi contava sempre uma parábola no final de cada aula, mas os alunos nem sempre entendiam o seu sentido...
- Mestre - perguntou um deles, certo dia - , tu contas-nos contos, mas nunca nos explicas o que significam...
- As minhas desculpas - disse o mestre. - Como compensação, deixa-me que te ofereça um belo pêssego.
- Obrigado, mestre - disse o discípulo, comovido.
- Mais ainda: como prova do meu afecto, queria descascar-te o pêssego. Permites que o faça?
- Sim, muito obrigado - disse o discípulo.
- E, já que tenho a faca na mão, não gostarias que eu cortasse o pêssego em pedaços, para que te seja mais fácil comê-lo?
- Sim, mas não quero abusar da tua generosidade, mestre...
- Não é um abuso; sou eu que me estou a oferecer. Quero apenas agradar-te. Permite-me também que mastigue o pêssego antes de to oferecer...
- Não, mestre! Não gostaria que fizesses isso! - queixou-se o discípulo, surpreendido.
O mestre fez uma pausa e disse:
- Se vos explicasse o sentido de cada conto, seria como dar-vos a comer fruta mastigada.


Jorge Bucay, Contos para pensar
(texto da contracapa)



I

1. Este conto baseia-se no diálogo entre um mestre sufi e o seu discípulo.
1.1. Identifica a razão que levou a esse diálogo.

2. Comenta a forma como o mestre reagiu à interpelação do seu aluno.

3. A forma como ele reagiu despertou no discípulo sentimentos diversificados.
3.1. Identifica esses sentimentos e refere os momentos do diálogo em que surgiram.

4. A mensagem que o mestre quis transmitir ao aluno concentra-se na sua última fala.
4.1. Explica pelas tuas próprias palavras o sentido das palavras do mestre.
4.2. Diz se concordas ou discordas com as palavras do mestre, fundamentando convenientemente a tua resposta.

5. Caracteriza a relação existente entre este mestre e o seu aluno.


II

Baseando-te neste texto e também na tua própria experiência, refere-te aos papéis que professores e alunos devem desempenhar no processo de ensino-aprendizagem.




4.12.07

Ai, dona fea, foste-vos queixar


Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv'en (o) meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus me perdon,
pois avedes (a) tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!


Joan Garcia de Guilhade, CV 1097, CBN 1486


I

1. Explicite o assunto da cantiga que acabou de ler.

2. De que modo é que o trovador se serve da ironia?

3. Contraponha o louvor do trovador à «dona fea» e o louvor de outros trovadores à sua «senhor».

4. Insira esta cantiga no género a que pertence, justificando.

5. Compare a crítica social feita pelos poetas medievais com a crítica social feita por um ou mais autores posteriores.

6. Faça uma análise da estrutura externa desta cantiga.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Luís de Sousa Rebelo:

«Entre nós a sátira abdica da sua função social e correctiva, sendo em número pequeno as composições em que ele aborda assuntos de interesse geral. Renuncia, assim, a orientar uma corrente de opinião, a ser uma arma de luta política, fragmentando-se numa crítica individual e subjectiva».