30.11.07

Cena do Frade


Vem um Frade com ua Moça pela mão e um broquel e a espada na outra, e um casco debaixo do capelo: e. Ele mesmo fazendo a baixa, começou de dançar dizendo:

Fra. Tai-rai-rai-ra; tari-ri-ra;
ta-rai-rai-rai-ra; tn-ri-ri-ra.' ta-La;
ta-ri-rim-rim-ra. Huha!
Dia. Que é isso, padre? Que vai lá?
Fra. Deo gratias! Som cortesão.
Dia. Sabês também o tordião?
Fra Porque não? Como ora sei!
Dia. Pois, entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.
Essa dama, é ela vossa?
Fra. Por minha lá tenho eu,
e sempre a tive de meu.
Dia. Fezestes bem, que é fermosa!
É não vos punham lá grosa
no vosso convento santo?
Fra. E eles fazem outro tanto!
Dia. Que cousa tão preciosa...
Entrai. padre reverendo!
Fra. Para onde levais gente?
Dia. Pera aquele fogo ardente
que nom temestes vivendo.
Fra. Juro a Deos que nom t'entendo!
E este hábito nõ me val?
Dia. Gentil padre mundanal,
a Berzabu vos encomendo!
Fra. Ah Corpo de Deos consagrado!
Pela fé de Jesu Cristo,
que eu nom posso entender isto!
Eu hei-te ser condenado?
Um padre tão namorado
e tanto dado a virtude?
Assi Deos me dê saúde.
que eu estou masvilhado!
Dia. Não curês de mais detença.
Embarcai e partiremos:
tomareis um par de remos.
Fra. Nom ficou isso n'avença
Dia. Pois dada está já a sentença!
Fra. Par Deos! Essa seri’ela!
Não vai em tal caravela
minha senhora Florença.
Como? Por ser namorado
e folgar com ua mulher
se há um frade de perder,
com tanto salmo rezado?
Dia. Ora estás bem aviado!
Fra. Mais estás bem corregido!
haveis de ser cá pingado...
Dia. Devoto padre e marido,

Descobriu o Frade a cabeça, tirando o capelo, e apareceo o casco, e diz o Frade:

Fra. Mantenha Deos esta coroa!
Dia. Ó padre Frei Capacete!
Cuidei que tínheis barrete!
Fra. Sabê que fui da pessoa!
Esta espada é roloa
e este broquel rolão.
Dia, Dê Vossa Reverença lição
d'esgrima, que é cousa boa
(...)
Tornou a tomar a Moça pela mão, dizendo:

Vamos à barca da glória!
Começou o Frade a fazer o tordião e foram dançando ate' a batel do Anjo desta maneira

Fra. Ta-ra-ra-rai-ra'; ta-ri-ri-ri-ri-ri:
rai-rai-ri; ta-ri-ri-ri: ta-ri-ri-ri.
Huha'!
Deo Gratias! Há lugar cá
pera minha reverença?
E a senhora Florença
polo meu entrará lá!
Joa. Andar, muitieramá
Furtaste o trinchão, frade?
Fra. Senhora. dá-me à vontade
que este feito mal está.
Vamos onde havemos d'ir.
não praza a Deos com a ribeira!
Eu não vejo aqui maneira
senão enfim... concrudir.
Dia. Haveis, padre, de viir.
Fra. Agasalhai-me ii Frorença.
e compra-se esta sentença
e ordenemos de partir.

Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno


I

Presta atenção ao texto que te foi apresentado.
Lê atentamente as afirmações feitas e apaga o que considerares errado.


1. O Frade é uma das personagens escolhidas por Gil Vicente.
Apresenta-se no cais com:
- uma moça; - um bolsão; - uma cadeira; - um casco; - uma espada; - livros; - um bruquel; - um capelo.
1.1. Estes elementos são símbolos cénicos e servem para:
- caracterizar a personagem.
- distrair a personagem na outra vida.

2. Quando chega ao cais, o Frade mostra-se:
- preocupado;
- alegre;
- confiante;
- arrependido.
2.1. Transcreve do texto expressões que comprovem a tua escolha.
2.2. Tendo em conta o estado de espirito com que o Frade entra em cena, escolha as palavras que melhor o caracterizam:
- inconsciente; - consciente;
- sensato; - insensato;
- exuberante; - simples.

3. Nas intervenções do Diabo evidencia-se a incoerência vivida pelo Frade. Assim ele vai sendo acusado de:
- ser devasso;
- viver de acordo com os prazeres da vida mundana; ser humilde e austero.

4. O Diabo não tem duvidas acerca do destino a dar a Frei Babriel:
- " Pera aquele fogo ardente
que nom temestes vivendo."
4.1. Nesta transcrição esta presente:
- um eufemismo.
- uma metáfora.

5. Em relação ao que o Frade afirma acerca da mulher que leva consigo
"e sempre a tive de meu.", o Diabo diz:
"Fezestes bem ,que é fermosa!
E não vos punham lá grosa
No vosso convento Santo?"
5.1. Com base nestas palavras do Diabo, podemos dizer que o seu estado de espirito é de:
- satisfação; - contentamento;
- revolta; - tristeza.
5.2. Selecciona desta fala do Diabo uma expressão que exemplifique a ironia.
5.3. O Frade argumenta dizendo: "E eles fazem outro tanto!
Através desta expressão, Gil Vicente pretendia:
- generalizar a critica a toda a classe do clero. arranjar argumentos de defesa do Frade.

6. O Frade discorda da sentença dada pelo Diabo em relação ao seu destino e dirige-se à Barca do Paraíso. A sua chegada:
- o Anjo recebe-o calorosamente.
- o Anjo despreza-o e é Joane que lhe fala.
6.1. Junto da Barca do Anjo, o Frade:
- apresenta argumentos validos e entra nesta Barca juntando-se ao Anjo e a Joane.
- Reconhece a sua vida dissoluta e regressa final mente para junto do Diabo entrando na sua Barca.
6.1.1.Quando decide concordar com o seu destino o Frade mostra-se:
- resignado;
- revoltado;
- alegre;
- desiludido.

7. Ao criar esta obra, Gil Vicente pretendia:
- distrair apenas as pessoas
- criticar para moralizar a sociedade.




28.11.07

Contrariedades





Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.
Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores. Arte?
Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.
Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
F. a mini, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.
A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

Cesário Verde



I

Relacione a crítica ao Jornalismo que é apresentada no texto com a que está patente no episódio da redacção do jornal A Tarde, de Os Maias.
Comente o retraio da engomadeira.
Reconheça, no texto transcrito, valores do Realismo.


II

Com base no estudo do Livro de Cesário Verde, desenvolva a seguinte afirmação de Hélder Macedo:


"Como a antinomia que mais exemplarmente reflecte, em termos sociais, culturais e políticos, a crise de transição da sociedade no tempo de Cesário é o contraste entre o campo e a cidade, é em volta dela que a sua poesia se vai organizar."

in Nós - uma leitura de Cesário Verde.

Porto Manso



É um rio louco, que abriu caminho em fúria por entre montes gigantes e, obstinado, quis ir ver o mar. R chegou. Cansado, mas chegou.
Em toda a jornada lutou sempre com penhascos e xistos, com fraguedo e granito, dando cara a tudo o que lhe quis barrar o caminho. E os homens das suas margens aprenderam este sentido de luta. Construíram os seus barcos e ofereceram batalha ao rio enlouquecido e raivoso no torvelinho das suas águas traiçoeiras.
Vai por uma estrada tortuosa, retorcida e causticada, passando promontórios, fragões, baixéis e areias. Nunca a natureza lutou tanto com a natureza. E é alucinante e maravilhoso para os homens ir nas mãos da morte — e vencer a morte.
É um caminho de alucinação e de sonho — cansa e conforta.
Por isso os marinheiros se apaixonam por de como por uma mulher de mil feitiços. Dão-lhe tudo — o esforço titânico, o suor que é sangue e o sangue que é vida. Oferecem-lhe a vida a sorrir e o rio nada lhes dá em troca. Não é mais do que uma estrada de mendigos cegos que não podem tomar outro rumo. Cegos como o rio, loucos como ele.
O Douro, porém, chegou cansado para ver o mar, mas chegou.


Alves Redol, Porto Manso


I

1.
a) Caracteriza, por palavras tuas, o rio que é descrito no texto.
b) Identifica um recurso estilístico utilizado na apresentação desse rio e define-o.

2. Explica as frases seguintes:
a) "Nunca a natureza lutou tanto com a natureza."
b) "E um caminho de alucinação e de sonho—cansa e conforta."
c) "O Douro, porém, chegou cansado para ver o mar, mas chegou."

3.
a) Explicita o sentido em que a palavra "suor" está utilizada no texto.
b) Refere um outro sentido para o mesmo termo.
4. Divide o texto em partes e salienta a relação que existe entre elas.


II

Imagina e escreve uma notícia de jornal, inspirando-te na seguinte frase do texto: "É alucinante e maravilhoso para os homens ir nas mãos da morte — e vencer a morte".


27.11.07

Cena do Fidalgo



- Ó poderoso dom Anrique
cá vindes vós? Que cousa é esta?

Vem o fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:

Fid. Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
Dia. Vai pera a ilha perdida
e há-de partir logo essa'ora.
Fid. Pera lá vai a senhora?
Dia. Senhor, a vosso serviço.
Fid. Parece-me isso cortiço...
Dia. Porque a vedes lá de fora.
Fid. Porém, a que terra passais?
Dia. Pera o Inferno, senhor.
Fid. Terra é bem sem-sabor.
Dia. Quê? E também cá zombais?
Fid. E passageiros achais
pera tal habitação?
Dia. Vejo-vos eu em feição
pera ir ao nosso cais...
Fid. Parece-me a ti assi.
Dia Em que esperas ter guarida?
Fid. Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
Dia. Quem reze sempre por ti!...
Hi hi hi hi hi hi hi!...
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
porque rezam lá por ti?
Embarcai! Hou! Embarcai,
que haveis de ir à derradeira.
Mandai meter a cadeira,
que aqui passou vosso pai.
Fid. Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?
Dia. Vai ou vem, embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.
Pois que ja a morte passastes
havês de passar o rio.
Fid. Não há aqui outro navio?
Dia. Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que espirastes
me destes logo sinal.
Fid. Que sinal foi esse tal?
Dia. Do que vós vos contentastes.
Fid. A estoutra barca me vou.
- Hou da barca! Pera onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis?
Respondei-me! Houlá! Hou!
(Par Deos, aviado estou!
Cant'a isto é já pior
Que giricocins, salvanor!
Cuidam que sao eu grou?)
Anjo. Que querês?
Fid. Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
Anjo Esta é: que demaindais?
Fid. Que me leixes embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.
Anjo Não se embarca tirania
neste batel divinal.


Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno


I



1. Identifica a figura de estilo presente nas palavras que o Diabo proferiu ao interpelar D. Anrique e explica o seu valor expressivo

2. No excerto transcrito há referência a um elemento que acompanha o fidalgo. Identifica-o e explica como é que um elemento ajuda a caracterizar a personagem.

3. Caracteriza psicologicamente o Fidalgo, com base no diálogo que mantém com o Anjo.
Fundamenta as tuas afirmações e comprova-as com dados textuais.

4. Refere as acusações que o Diabo dirige a D. Anrique.
Usa palavras tuas e comprova com dados textuais.

5. Transcreve uma passagem textual em que esteja presente o cómico de carácter e explica de que modo esse efeito é conseguido.

6. Explica de que forma Gil Vicente consegue dirigir a sua crítica não a um fidalgo mas à nobreza da sua época.

7. "Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai."
7.1. Classifica morfologicamente os vocábulos sublinhados.
7.2. Explica o sentido dos versos transcritos e refere a sua relação com o objectivo da crítica vicentina.

8. Divide e classifica as orações da frase seguinte:
A crítica vicentina é de tal modo divertida que foi bem aceite por aqueles que eram criticados.
8.1. Identifica a função sintáctica dos elementos sublinhados.

20.11.07

Ah, um soneto...


Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...

Álvaro de Campos, Poesias, Ed. Ática

I

Depois de uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- o tema/assunto e seu desenvolvimento;
- os recursos estilísticos na explicitação dos tempos: passado/presente;
- o incorformismo do abandono da "profissão do mar" (v. 2);
- a interligação dos mundos da memória e sensibilidade e o do real;
- os sentimentos dominantes e a identidade entre coração/pessoa;
-o título do poema em oposição ao versilibrismo e heteromorfismo da poesia de Álvaro Campos.


II

Fernando Pessoa afirma que Álvaro de Campos «é o filho indisciplinado da sensação».
Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática das sensações na poesia heteronímica de Fernando Pessoa.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e catorze palavras, num texto de noventa e cinco a cento e quinze palavras.

Na verdade, só lutando consigo próprio, por um esforço de imaginação, foi Álvaro de Campos o cantor whitmaniano, delirante, da Energia e do Progresso. Na «Saudação a Walt Whitman» definiu-se, e bem, pelo tédio: «Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio...» Inércia, tédio são, com efeito, as constantes da sua personalidade desde a fase do «Opiário». Na última fase, em 1926, dirá: «Ah, cansa-te nobremente/E não cantes, como eu, a vida por bebedeira...» (pág. 20). O Campos whitmaniano cantou a vida por bebedeira. As suas sensações desenfreadas, a sua emotividade pânica jamais passaram da esfera da inteligência: «Orgia intelectual de sentir a vida!» (pág. 225). Intelectual, apesar do rótulo de sensacionista, a poesia de Campos é-o tanto como a de Caeiro. Justifica-a o desejo de afogar o tédio de suprimir pela embriaguez a dor de viver, a «angústia no fundo de todos os prazeres», a «saciedade antecipada na asa de todas as chávenas» - expressões da «Passagem das Horas». «Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir» (pág. 124). Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos. Mas o tour de force malogrou-se: depois de 1916, Campos virá a ser o poeta do cansaço, da abulia, do vazio, inquieto e nauseado.
Mesmo nos poemas vincadamente whitmanianos, amplas polifonias, há acordes dissonantes. Na «Ode Triunfal», quando, um crescendo raivoso, estava gritando o seu amor por todas as vidas anónimas e o desespero de não as devassar, abre um parêntese de nove versos para, num tom grave e recolhido, reflectir sobre o mistério do mundo, a fatalidade da morte, a doçura triste da infância que não volta:
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, Pinheirais onde a minha infância era outra coisa Do que eu sou hoje... (pág. 150)
Fechado o parêntese, reaparece a «raiva mecânica», a «obsessão movimentada dos ómnibus», a fúria de ir ao mesmo tempo nos comboios de toda a parte.


Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
Ed. Verbo (pp. 66-68)



16.11.07

Carta ao leitor desconhecido do Diário de Notícias

Meu caro leitor,
Permita-me que lhe escreva esta carta na última edição em que o meu nome figura no cabeçalho do Diário de Notícias.
Quero ressalvar que se trata, apenas, de uma mensagem alinhavada à pressa, por entre reu-niões, telefonemas e despedidas. (...)
Perdoe-me, de qualquer modo, que me dirija a si deste modo tão discreto, sem aviso prévio, mas tenho-o na conta de amigo desta velha casa e isso autoriza-me, creio, esta pequena e, afinal, irrelevante ousadia.
Terá de me relevar, desde logo, a suprema impertinência de imaginá-lo, ao pequeno-almoço, por entre torradas e café com leite, ou no Metropolitano, gozando as delícias da sardinha enlatada, a folhear as nossas páginas (...)..
Mas levo mais longe o à-vontade:
Imagino-o (...)
Trabalhador cansado do seu dia e que tenta descontrair ao ler o jornal, reclinado, à noite no seu sofá.
Cidadão que deseja saber mais sobre o país e sobre o mundo. Procura aumentar a sua cultura e estar actualizado.
(...) estudante que respira liberdade nos espaços que dedicamos aos jovens e à cultura.
Dona de casa que pretende mais moda, mais culinária, mais consultório sentimental, ou técnica que procura a informação de qualidade e o debate de ideias.
Seja qual for o seu rosto, caro leitor, V. é nosso amigo, porque, quer se sinta mais próximo ou mais afastado de nós, encontra, nestas páginas, a "ração" informativa e formativa que o ajuda a com-pletar a "pastilha elástica para os olhos" que a Televisão lhe traz a casa.


Mário Mesquita, Diário de Notícias (28-2-86)
(adaptado)




I

1- O texto que acabaste de ler corresponde a uma carta que Mário Mesquita "escreveu" aos leitores do Diário de Notícias. Indica o motivo que o levou a escrever a carta.

2- Que tipo de relação pretende estabelecer este jornalista com os seus leitores? Justifica a tua resposta dando exemplos do texto.

3- Neste texto e noutro que anteriormente estudaste, são referidos diferentes tipos de leitor. Indica-os.

4- Com base neste texto e no trabalho de grupo que recentemente realizaste, explica a seguinte frase: Os jornais não servem apenas para informar.



II

1- Lê, agora, o texto que se segue, o qual corresponde a uma notícia incompleta.

Uma menina de 7 anos, Cristina Cunha, num rasgo de coragem, salvou, anteontem, na freguesia de Anha, um vizinho de 23 meses, Carlos Tiago de Assunção Camões, de um afogamento certo num pequeno tanque de sua casa.

1.1- A que parte da notícia corresponde este texto? Justifica.

2- Diz quais são as características da linguagem utilizada na notícia.



III
1- Explica o significado dos seguintes vocábulos:
a) cativar
b) elucidar

2- Forma o plural dos seguintes substantivos:
a) anzol
b) réptil
c) cidadão
d) tijolo

3- Classifica morfologicamente cada uma das seguintes palavras. No caso de se tratar de um verbo indica o tempo e o modo.
a) amanhã
b) responsável
c) fala-se
d) sorriam
e) cantasse
f) trabalho






15.11.07

O charlatão

O sítio deles era à entrada da ponte, no Largo Velho.
- Ora aqui temos nós a última descoberta científica do século!
Falava de cima de uma cadeira, em pé, ao lado de uma mesa, sobre a qual estava um grande baú aberto. Passeava-lhe um rato branco pêlos ombros, e era impossível fugir à magia daquela 5 enorme cabeleira, que lhe coroava uma bela fronte de lutador. Só vinha na feira dos vinte e três. Armava a tenda logo pela manhã, e daí a nada já tinha freguesia a beber-lhe as palavras. A sua voz era sugestiva, funda, com quantos tons eram precisos para encantar homens de todas as terras e de todas as raças.
- Façam favor de ver...
E só quem era cego é que não via.
- Vou agora contar-lhes uma anedota.
Os que já faziam parte da roda arrebitavam as orelhas, os que iam no seu caminho paravam e ficavam maravilhados a ouvir. No fim, todos se riam, que a coisa tinha, na verdade, graça.
- Vou agora mostrar a W. Ex.as a autêntica víbora da felicidade!
"Excelências"?! Estava a brincar, ou a falar a sério? Mas ao fim e ao cabo, quem é que não gosta, uma vez na vida, de ser tratado por "excelência"? E um, de Almalaguês, perdeu a cabeça e lá com-prou aquele "talismã da felicidade" por cinco escudos.
- Bem burro! - não se conteve uma criada. Mas estava era com pena de o não ter comprado ela.
Já nova maravilha saía das profundezas do baú.
- Sarna, eczema, impigens, lepra, furúnculos, tudo quanto uma pele humana possa conceber, é enquanto o demónio esfrega um olho! Vejam: pega-se na ulceração, um bocadinho de pomada em cima, ao de leve e pouco, que é para poupar, e não se pensa mais nisso! Cinco tostões apenas! Só a caixa vale quinze! Aproveitem, que numa drogaria custa-lhes dois escudos!


Miguel Torga, Rua
texto com supressões)


I

1. Identifica e caracteriza, do ponto de vista físico e social, o espaço em que decorre a acção.

2. Indica o acontecimento que anima esse espaço social.

3. Classifica as personagens do texto quanto ao relevo ou importância no desenrolar da acção.

4. Que efeito exercia o charlatão sobre o seu auditório?

5. Que factores contribuíam para criar esse efeito?

6. Faz a caracterização física e psicológica do charlatão.

7. "E um, de Almalaguês, perdeu a cabeça e lá comprou aquele 'talismã da felicidade...'".
7.1. Que motivo levou o cliente a perder a cabeça?
7.2. Comenta a reacção da criada que testemunhou a compra.




14.11.07

Enquanto quis Fortuna que tivesse


File:Paolo Veronese 011.jpg

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co'o tormento,
para que seus enganos não dissesse

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são, e não defeitos...
e sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!

Luís de Camões


I

1. Atenta na primeira estrofe.
1.1 Explicita o conceito de «Fortuna».
1.2 De que modo a «Esperança» está associada à «Fortuna».
1.3 Como surgiu o acto da escrita?
2. Indica o factor que «Escureceu» «o engenho» ao sujeito poético.
2.1 Com que objectivo?
3. Transcreve a expressão que identifica o destinatário da mensagem do poeta.
3.1 Segundo o sujeito poético, o que determina o «entendimento» dos seus «versos»?


II

1. Classifica as seguintes frases estabelecendo a correspondência entre a coluna A e a coluna B.

Coluna A
a) «Enquanto quis Fortuna» (v. 1)
b) «Porém (...) Escureceu-me o engenho co'o tormento» (vs. 5-7)
c) «Para que seus enganos não disses-se» (v. 8)
d) «Quando lerdes / Num breve livro casos tão diversos» (vs. 10-11)
e) «segundo o amor tiverdes» (v. 13)
f) «que (...) tereis o entendimento de meus versos» (vs. 13-14)

Coluna B
1. subordinada substantiva completiva
2. subordinada adverbial temporal
3. subordinada adverbial temporal
4. coordenada adversativa
5. subordinada adverbial final
6. subordinada adverbial comparativa

13.11.07

Peregrinação



Logo ao outro dia, pela menhã, nos partimos desta aldeia e fomos velejando ao longo da costa com ventos terrenhos até despois da véspera, que dobrámos os ilhéus de Anchepisão. e servindo-nos inda o vento sueste, inda que algum tanto ponteiro, nos fizemos no bordo do mar o que mais restava do dia c alguma parte da noite. E, sendo já passado pouco mais de meio quarto da prima, nos deu uma trovoada de noroeste (que são os temporais que comummente a mor parte do ano cursam nesta ilha Çarnalra1) que de todo nos teve soçobrados e, ficando a lanchara a árvore seca, sem mastro nem velas, porque tudo o vento nos fez em pedaços, e com três rombos por junto da quilha, nos fomos logo a pique subitamente ao fundo, sem podermos salvar cousa nenhuma, e muito poucos as vidas, porque de vime e oito pessoas que nela íamos, as vinte e três se afogaram em menos de um credo, e os cinco, que escapámos, somente pela misericórdia de Nosso Senhor, c assai feridos, passámos o mais que restava da noite postos sobre os penedos, lamentando com bem de lágrimas o triste sucesso da nossa perdição,
E porque então nos não soubemos dar a conselho, nem determinar-nos no que fizéssemos de nós. nem que caminho tomássemos, por ser a terra toda alagadiça e fechada de mato tão basto que nenhum pássaro, por muito pequeno que fosse, podia passar por antre os espinhos de que o arvoredo silvestre era tecido, estivemos ali três dias postos assi em cócoras, sobre uns penedos, sem comermos em todos eles mais que os limos do mar que, na babujem da água, achávamos.
Passado este tempo, com assaz de confusão e pena, sem sabermos determinar o que fosse de nós, caminhámos ao longo da ilha Çamatra. atolados na vasa até à cinta, aquele dia e. já quase sol posto, chegámos à boca de um rio pequeno, de pouco mais de um tiro de besta em largo que, por ser muito fundo e nós virmos muito cansados, nos não atrevemos a o passar. Ali nos agasalhámos aquela noite, metidos na água até o pescoço, e a passámos com assaz, de tormento e trabalha por parte dos atabões2 e mosquitos do mato que nos atazanavam de tal maneira que não havia nenhum de nós que não estivesse banhado em sangue. E como a menhã foi clara, perguntei aos quatro marinheiros que iam comigo se conheciam aquela terra e se havia ali por derredor alguma povoação, a que um deles, homem já de dias1, e casado em Malaca, me respondeu chorando:
- A povoação, senhor, que tu e eu agora temos mais perto, se Deus milagrosamente nos não socorre, é a morte penosa que temos diante dos olhos, e a conta dos pecados que antes de muito poucas horas havemos de dar. para o qual nos é necessário fazermo-nos prestes muito depressa, como quem forçadamente há-de passar outro muito mor trago que este em que nos agora vemos, tomando com paciência isto que da mão de Deus nos é dado; e não te desconsoles por cousa que vejas, e que o temor te ponha diante, porque, considerado bem tudo, pouco vai em ser mais hoje que a menhã4.
(...)
Determinados todos quatro nisto, roguei eu aos dois deles que fossem diante, e ao outro que fosse junto comigo para me ajudar a sustentar, porque ia já muito fraco; dos dois, se lançou logo um ao rio. e após ele. o outro, dizendo-me ambos que os seguisse e não houvesse medo. E, em chegando eles a pouco mais de meio rio, arremeteram a eles dois lagartos muito grandes e. em muito pequeno espaço, fizeram a cada um deles em quatro pedaços, ficando toda a água cheia de sangue, e assi os levaram ao fundo; de qual vista fiquei eu tão assombrado que nem gritar pude. nem sei quem me tirou fora, nem como escapei, porque neste tempo estava metido na água até os peitos co outro negro que me linha pela mão. o qual estava tão cheio de medo que não sabia parte de si.

Femão Mendes Pinto, Peregrinação



1. Analise o excerto da Peregrinação e, entre outros aspectos considerados pertinentes, desenvolva os seguintes tópicos:
• A localização da acção.
• A descrição da situação.
• Os comportamentos e reacções das personagens.
• O conceito de herói.

2. Com exemplos do texto transcrito, comprove a afirmação contida na citação seguinte:

"A linguagem de Fernão Mendes Pinto é simples, natural e exuberante, por vezes cheia de belas imagens. As coisas que trata ganham cor, vida e relevo, são de impressionante realismo, vê-se nelas movimento e sente-se todo o seu dramatismo. O vocabulário é frequentemente estranho porque Mendes Pinto foi o escritor que deu maior impulso à literatura exótica entre nós."

A. de Carvalho Costa, in Questões sobre História da Literatura Portuguesa




II

De forma sucinta, não excedendo o limite de 10 linhas, mostre até que ponto a Peregrinação nos oferece uma visão exótica, mas muito humana, do mundo oriental.


III

Dentro da Literatura de Viagens, embora de uma forma muito distinta, também se insere a Carta do Achamento de Pêro Vaz de Caminha.
Numa dissertação bem elaborada, mostre como esta se apresenta como um documento rigoroso e fidedigno da chegada dos europeus ao Brasil.

Da mais alta janela da minha casa

Bay Window Vista II Art Print by Diane Romanello


Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos


I

1. Depois de ler o poema com atenção comprove:
1.1. que a temática do texto gira em torno da criação poética;
1.2. que o poeta revela que o fenómeno cultural se associa ao fenómeno da criação poética.

2. Explicite o sentido da dicotomia: interior/exterior.

3. Localize, no poema, um paralelismo semântico e explique-o.

4. Descubra uma antonímia ao nível dos adjectivos e uma escala de valores ao nível dos substan-
tivos/formas verbais.

5. No último verso está implícita uma regeneração cósmica. Justifique a afirmação anterior.


II

Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática da heteronímia com base nestas frases de Fernando Pessoa:

«Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.»

7.11.07

Orfeu Rebelde





Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do Tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

Miguel Torga


I

Leia atentamente o poema Orfeu Rebelde e responda às seguintes questões:
1. Identifique o assunto do poema.
2. Indique a função do "canto" do sujeito poético.
3. Aponte os processos utilizados para transmitir a noção de tempo e eternidade.
4. Mencione os factores que conferem musicalidade ao poema.
5. Identifique as imagens utilizadas e o seu valor expressivo.


II

Sem deixar de parte um certo comprometimento social, há em Torga um sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto permite a esperança como conduz ao desespero.
Recordando o estudo que fez da obra de Miguel Torga, elabore uma composição em que apresente as principais linhas de pensamento e de personalidade presentes na sua poesia.



2.11.07

Biografia


Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
E por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

Miguel Torga, Orfeu Rebelde



I

1. O título do poema é "Biografia". O que é uma biografia?

2. O sujeito lírico deste texto não gosta da aparência.
2.1. Que versos traduzem esta aversão?
2.2. O que é que se opõe à aparência?

3. Na segunda estrofe, volta a insistir na sua forma de ser.
3.1. Explica o sentido dessa estrofe.
3.2. Explica a relação de sentido entre as duas estrofes

4. As duas primeiras estrofes traduzem uma parte da "biografia1 do "eu".
4.1. Reparando na nossa sociedade, achas que as pessoas estão muito ou pouco preocupadas com a sua aparência? Justifica a resposta.
4.2. E tu, achas muito importante a aparência? Responde de forma completa.

5. De que são fruto os versos do sujeito lírico?
5.1. Há de novo, o recurso às figuras de estilo, quando fala de poesia.
5.2. Identifíca-as transcrevendo as palavras que as realizam.

6. A partir de certo momento do texto, a poesia liberta-se e ganha vida própria.
6.2. Explica o sentido da comparação "Como chispa que salta da fogueira".

7. "Biografia" é um texto em verso. Estudaste, de Luís de Camões, textos/episódios também em
verso.
7.1 . Em que diferem do poema de Miguel Torga?

II

1 . "Sonho, mas não parece. "
1.1. Classifica sintacticamente esta frase.
1.2. Qual a relação que se estabelece entre as duas orações?
1.3. Classifica também o verbo "parecei".

2. Forma substantivos a partir dos adjectivos que te apresentamos.
íntima ->
funda ->
apagado ->
aberta ->

3. Classifica a oração "Que um pastor/Possa sobre ele apascentar o gado.
3.1. Coloca essa oração no condicional.
3.2. Indica as funções sintácticas de "um pastor" e "o gado".

4. Classifica, quanto ao processo de formação, a palavra "queima-roupa".
4.1. Refere outros processos de formação de palavras.


III


Depois de teres estudado o poema de Miguel Torga intitulado "Biografia", podes, também tu, imaginar a biografia de um dos teus heróis.
Elabora, pois, o texto dessa biografia, dando largas à tua imaginação.