28.10.07

Amar!

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Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar ,só por amar: Aqui... alem...
Mais Este e Aquele, o Outro e a toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira ó porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida, ,
Pois se Deus nos deus voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, in Reliquiae


I

1. Identifica o valor semântico do vocábulo amar.

2. Faz o levantamento dos sentimentos e emoções que o poema sugere.

3. Explicita o modo como o sujeito poético tenta uma relação afectiva com o leitor.

4. Mostra como o texto se desenvolve em vários aspectos opostos e distintos.
4. 1. Explica o sentido das oposições.
4.2. Indica as categorias morfológicas em que se expressa esse contraste.

5. Analisa a expressividade da pontuação.

6. Avalia a universalidade do tema.

Os amantes sem dinheiro


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados,
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
15 à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade, Antologia Breve


I

1. O poema de Eugénio de Andrade que acabaste de ler desenvolve-se com base numa repetição.
1.1. Identifica-a.
1.2. Explica de que forma aquela repetição estabelece um contraste aparente entre o poema e o título.
1.3. Indica a função sintáctica que o título - "Os amantes sem dinheiro" - desempenha em relação a todas as frases que se iniciam pela referida anáfora.

2. Comenta o valor contextual do tempo verbal repetido insistentemente ao longo deste poema.

3. Sinaliza no poema:
- uma personificação;
- uma metáfora.
3.1. Explica, por palavras tuas, o sentido dos três últimos versos.

4. Indica o valor do conector que introduz esses três últimos versos do poema.


II

1. O diário é um texto narrativo orientado, tal como o texto lírico, para a expressão do eu, que se caracteriza, entre outras coisas, pelo uso do discurso na 1.a pessoa.
Num texto que contenha entre 120 e 140 palavras, faz o registo dos acontecimentos de um dos dias da passada semana, que tenhas testemunhado ou de que tenhas sido personagem, em forma de diário.




25.10.07

Auto da Barca do Inferno - global

1. Por que razão é que esta peça se intitula Auto da Barca do Inferno?

2. Que função tem o Diabo e o Anjo na peça?

3. Situe a acção da peça no espaço e no tempo.

4. Explicite o assunto do auto.

5. A peça inicia-se com um diálogo entre o Diabo e o seu Companheiro. Que dizem um ao outro?

6. Que grupo social representa o Fidalgo?

7. Que acusações lhe são feitas pelo Diabo e pelo Anjo?

9. De que modo é que o Fidalgo justifica a sua actuação durante a vida?

12. Relacione o que o Fidalgo pensava acerca da sua esposa e aquilo que o Diabo lhe contou.

11. Dê um exemplo de cómico de linguagem e outro de cómico de situação presentes na cena do Fidalgo.

12. No Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente aparecem seres e objectos como símbolos. Diga o que simbolizam o Anjo, o Diabo, as barcas e o rio.

13. Explique a simbologia da cadeira do Fidalgo e do saco do Onzeneiro.

14. Faça o retrato físico e psicológico do Onzeneiro.

15. Que acusações são feitas ao Onzeneiro?

16. De que modo é que se defende o Onzeneiro das acusações do Diabo?

17. Quem pretende Gil Vicente criticar através da personagem representada pelo Onzeneiro? Justifique.

18. O Parvo é uma personagem de algum modo singular. Porquê?

19. Como poderemos distinguir a actuação do Parvo da das outras personagens?

20. Explique a razão de Gil Vicente ter deixado o Parvo no cais.

21. Justifique a decisão do Anjo em relação ao Parvo.

22. De que recursos é que Gil Vicente se serve para provocar o riso através do Parvo?

23. Que classe social representa o Sapateiro?

24. Explicite as razões da condenação do Sapateiro.

25. De que modo é que se defende o Sapateiro das acusações que lhe são feitas?

26. De que modo é que o Sapateiro reage à sentença?

27. Há uma contradição na vida do Sapateiro. Explique-a.

28. Que símbolos são utilizados para caracterizar o Frade?

29. Que destino foi reservado à Moça que acompanha o Frade?

30. De que é que o Frade é acusado?

31. Que argumentos apresenta o Frade em sua defesa?

32. O Frade gaba-se de ser um bom esgrimista. Que intenção teria Gil Vicente ao pô-lo a dar uma lição de esgrima?

33. Explique o significado das seguintes expressões ditas pelo Diabo em relação ao Frade: «Gentil padre mundanal» e «Devoto padre marido».

34. Quem é Brísida Vaz?

35. Diga quais os elementos que caracterizam Brísida Vaz.

36. Diga o que é uma alcoviteira.

37. Por que razão é que Brísida Vaz se considera uma vítima?

38. Que atitudes toma Brísida Vaz frente ao Diabo e frente ao Anjo?

39. Que objectivos pretende a alcoviteira alcançar ao dirigir-se ao Anjo de um modo aprazível?

40. Que grupo social representa Brísida Vaz?

41. Quem é o Judeu?

42. Qual é o símbolo que o caracteriza?

43. Relacione esse símbolo com a acusação que lhe é feita.

44. Que críticas faz o Parvo ao Judeu?

45. Quem é o Corregedor e o Procurador?

46. Por que razão Gil Vicente terá posto o Corregedor e o Procurador a representarem em simultâneo?

47. Que símbolos caracterizam o Corregedor e o Procurador?

48. Explicite as acusações feitas às duas personagens.

49. De que modo é que ambos se defendem das acusações?

50. Comente a linguagem utilizada pelo Corregedor e pelo Procurador.

51. De que forma é que o Parvo ridiculariza as duas personagens?

52. Qual foi a reacção de Brísida Vaz quando viu entrar o Corregedor?

53. Por que razão Brísida Vaz terá reagido desse modo?

54. Que destino pretendia o Enforcado estar-lhe reservado?

55. Por que motivo o Enforcado acreditava no futuro?

56. Quem pretende Gil Vicente criticar na personagem do Enforcado? Justifique.

57. Explique o significado da palavra «baraço».

58. Em que aspectos é que os quatro Cavaleiros são diferentes das personagens anteriores?

59. Quais são os elementos que caracterizam os quatro Cavaleiros?

60. Relacione a moralidade da cantiga dos Cavaleiros com as concepções religiosas da época.

61. Comente as atitudes do Diabo em relação aos Cavaleiros e às personagens anteriores.

62. Por que razão é que os Cavaleiros tiveram um destino diferente em relação às personagens anteriores? Justifique.







16.10.07

Causas da Decadência dos Povos Peninsulares

O Realismo



Meus Senhores:
A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. (...)
A Península, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, apresenta-nos um quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quanto contrasta dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do papel que desempenhámos no primeiro período da Renascença, durante toda a Idade Média, e ainda nos últimos séculos da Antiguidade. (...)
Nos últimos dois séculos não produziu a Península um único homem superior, que se possa pôr ao lado dos grandes criadores da ciência moderna: não saiu da Península uma só das grandes descobertas intelectuais, que são a maior obra e a maior honra do espírito moderno.
Durante 200 anos de fecunda elaboração, reforma a Europa culta as ciências antigas, cria seis ou sete ciências novas, a anatomia, a fisiologia, a química, a mecânica celeste, o cálculo dife¬rencial, a crítica histórica, a geologia: aparecem os Newton, os Descartes, os Bacon, os Leibniz, os Harvey, os Buffon, os Ducange, os Lavoisier, os Viço - onde está, entre os nomes destes e dos outros verdadeiros heróis da epopeia do pensamento, um nome espanhol ou português? que nome espanhol ou português se liga à descoberta duma grande lei científica, dum sistema, dum facto capital? A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos. A alma moderna morrera dentro em nós completamente.
Pelo caminho da ignorância, da opressão e da miséria chega-se naturalmente, chega-se, fatalmente, à depravação dos costumes. E os costumes depravaram-se com efeito. Nos grandes, a corrupção faustosa da vida de corte, aonde os reis são os primeiros a dar o exemplo do vício, da brutalidade, do adultério: Afonso VI, João V, Filipe V, Carlos IV. Nos pequenos, a corrupção hipócrita, a família do pobre vendida pela miséria aos vícios dos nobres e dos poderosos. É a época das amásias e dos filhos bastardos. O que era então a mulher do povo, em face das tentações do ouro aristocrático, vê-se bem no escandaloso Processo de nulidade de matrimónio de Afonso VI, e nas Memórias do Cavaleiro de Oliveira. Ser rufião é um ofício geralmente admitido, e que se pratica com aproveitamento na própria corte. A religião deixa de ser um sentimento vivo; torna-se uma prática ininteligente, formal, mecânica. (...)


Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos



I

1. Enquadra o excerto apresentado na estrutura global da comunicação/conferência a que pertence.

2. Divide o texto em momentos, sintetizando o assunto de cada um deles.

3. Identifica no texto marcas que comprovam a existência de um orador e de um auditório.
3.1. Relaciona o registo de língua e a função da linguagem predominantes com a alínea anterior.

4. A partir deste excerto e do estudo global da comunicação/conferência explica sumariamente as causas apontadas por Antero de Quental para a decadência dos povos peninsulares.

5. Relembra e refere as soluções apresentadas por Antero para a resolução dos problemas apontados.


II

Tendo em conta o estudo efectuado nas aulas, num texto expositivo, releva o papel da chamada "Geração de 70" no panorama político, social, cultural e literário do século XIX.







15.10.07

O barroco e a literatura seiscentista




Responde a um amigo, que mandava perguntar a vida que fazia em sua prisão1

Casinha desprezível, mal forrada,
Furna2 lá dentro, mais que inferno escura;
Fresta pequena, grade bem segura;
Porta só para entrar, logo fechada;

Cama que é potro3, mesa destroncada,
Pulga que, por picar, faz matadura;
Cão só para agourar; rato que fura;
Candeia nem cos dedos atiçada;

Grilhão* que vos assusta eternamente,
Negro boçal e mais boçal ratinho,
Que mais vos leva que vos traz da praça;

Sem amor, sem amigo, sem parente,
Quem mais se dói de vós, diz: «Coutadinho».
Tal vida levo. Santo prol me faça.

D. Francisco Manuel de Melo


Notas:
1. Torre Velha, onde D. Francisco Manuel de Melo esteve preso de 1644 a 1653.
2. Caverna, cova.
3. Espécie de cavalo de madeira em que se torturavam os condenados.
4. Corrente metálica com que se prendiam as pernas aos acusados.



I

Após leitura atenta do soneto transcrito, responda às seguintes questões:

1. Demonstre que neste poema a descrição está organizada do geral para o particular.

2. Recolha do texto algumas expressões que conferem à descrição uma carga de negatividade.

3. Indique em que medida esta "casinha desprezível" pode ser uma metáfora de "prisão".

4. Justifique a contradição existente nas afirmações do último verso do poema.

5. Proceda à análise formal do soneto:
5.1. Indique o esquema rimático.
5.2. Classifique as rimas da primeira quadra:
• quanto à disposição ou ligação entre os versos;
• quanto à acentuação;
• quanto às classes gramaticais das terminações ou frequência de uso;
• quanto aos elementos vocálicos e consonânticos das terminações.
5.3. Faça a escansão dos dois primeiros versos do soneto.
5.4. Classifique-os quanto ao número de sílabas métricas e quanto à posição das sílabas tónicas


II

Tendo em conta os textos do barroco estudados, demonstre a veracidade da seguinte afirmação:
O barroco é o contrapolo da maneira clássica. O simples e claro dos processos clássicos insinua discreta e lentamente, encantando a inteligência e a alma inteira pela graça inabalável de uma beleza nua; o que o barroco visa, pelo contrário, é a explosão do espanto; é o dom de surpreender e de aturdir o espírito à força de ornamentar e de rebuscar.

António Sérgio, Ensaios, V



14.10.07

Leandro, Rei da Helíria

1º ACTO Cena I

Rei Leandro, Bobo
(No jardim do palácio real de Helíria. Rei Leandro passeia com o Bobo.)

Rei - Estranho sonho tive esta noite... Muito estranho...
Bobo - Para isso mesmo se fizeram as noites, meu senhor! Para pensarmos coisas acertadas, temos os dias - e olha que bem compridos são!
Rei - Não sabes o que dizes, Bobo! São as noites, as noites é que nunca mais têm fim!
Bobo - Ai, senhor, as coisas que tu não sabes...
Rei - Estás a chamar-me ignorante?
Bobo - Estou! Claro que estou! Corno é possível que tu não saibas como são grandes os dias dos pobres, e como são rápidas as suas noites...
Rei - (interrompendo) Cala-te!
Bobo - Pronto, estou calado.
Rei - Não me interessam agora os teus pensamentos, o que tu achas ou deixas de achar. Eu estava a falar do meu sonho.
Bobo - Muito estranho tinha sido, era o que tu dizias...
Rei - Nunca me interrompas quando eu estou a falar dos meus sonhos!
Bobo - Nunca, senhor!
Rei - Nada há no mundo mais importante do que um sonho.
Bobo - Nada, senhor?
Rei - Nada.
Bobo - Nem sequer um bom prato de favas com chouriço, quando a fome aperta? Nem sequer um lumezinho na lareira, quando o frio nos enregela os ossos?
Rei - Não digas asneiras, que hoje não me apetece rir.
Bobo - Que foi que logo de manhã te pôs assim tão zangado com a vida? Já sei! O conselheiro andou outra vez a encher-te os ouvidos com as dívidas do reino!
Rei - Deixa o conselheiro em paz... E o reino não tem dívidas, ouviste?
Bobo - Não é o que ele diz por aí, mas enfim... Então, se ainda por cima não deves nada a ninguém, por que estás assim tão maldisposto? Terá sido coisa que comeste e te fez mal? Aqui há dias comi um besugo estragado, deu-me a volta às tripas, e olha...
Rei - (interrompendo-o) Cala-te que já não te posso ouvir! (Suspira) Ah, aquele sonho! Coisa estranha aquele sonho...
Bobo - Ora, meu senhor! E o que é um sonho? Sonhaste, está sonhado. Não adianta ficar a remoer.
Rei - Abre bem esses ouvidos para aquilo que te vou dizer!
Bobo - (com as mãos nas orelhas) Mais abertos não consigo!
Rei - Os sonhos são recados dos deuses.
Bobo - E para que precisam os deuses de mandar recados? Estão lá tão longe...
Rei - Por isso mesmo. Porque estão longe. Tão longe que às vezes nos esquecemos que eles existem. E então que nos mandam recados. Mas os recados são difíceis de entender. Acordamos, queremos recordar tudo, e muitas vezes não conseguimos
Bobo -(aparte) E o que faz ser deus... Eu cá, quando quero mandar recado, é uma limpeza: "O Brites, guarda-me aí o melhor naco de toucinho para a ceia!" (Ri) Não preciso mandar recados pelos sonhos de ninguém!
Rei - Que estás tu para aí a resmonear?
Bobo - Nada, senhor! Reflectia apenas nas tuas palavras. Rei E bom é que nelas reflictas. Apesar de bobo, quem sabe se um dia não irão os deuses lembrar-se de mandar algum recado pelos teus sonhos... (Pára, de repente. Fica por momentos a olhar para o bobo, e depois pergunta, com ar intrigado) Ouve lá, tu também sonhas?
Bobo - (rindo) Não, meu senhor! Só os grandes fidalgos é que sonham! Nós somos uns pobres servos... Sonhar seria um luxo, um desperdício! De resto, que podiam os deuses querer deste pobre louco? Que recados teriam para lhe mandar?
Rei - És capaz de ter razão... (Suspira] Nem sabes a sorte que tens!
Bobo - (irónico) Sei sim, meu senhor! Sou uma pessoa cheia de sorte! Todas as manhãs, quando o frio me desperta e sinto o corpo quebrado de dormir na palha estendida no chão, então é que eu per¬cebo como sou feliz...
Rei - Zombas de mim?
Bobo - Zombar, eu, senhor? Zombar de quê, se as tuas palavras são o eco das minhas?
Rei - Ah, meu bobo fiel, como eu às vezes gostava de estar no teu lugar, sem preocupações, sem responsabilidades...
Bobo - E para já, senhor! Toma os meus farrapos e os meus guizos, e dá-me o teu manto, a rua coroa, o teu ceptro...
Rei - (agitado) Cala-te!... Era isso mesmo que se passava no sonho... A coroa... o manto... o ceptro... tudo no chão... eu a correr, mas sem poder sair do mesmo sítio... e a coroa sempre mais longe, mais longe... e o manto... e o ceptro... e as gargalhadas...
Bobo - Gargalhadas? Não me digas que eu entrava no teu sonho?
Rei - (como se o não tivesse ouvido)... as gargalhadas delas... e como elas se riam... riam-se de mim... e a coroa tão longe... e o manto tão longe... e o frio... tanto frio que eu tinha!...
Bobo - Perdoa-me, senhor, mas isso são tolices, dizes coisas sem nexo... Foi alguma coisa que comeste ontem, tenho a certeza. Por que não o esqueces de vez?
Rei - Tens razão. Farei por esquecê-lo. Não tenho motivos nenhuns para estar inquieto.

Alice Vieira, Leandro, Rei da Helíria
(texto com supressões)




I

1. O Rei teve um sonho.
1.1. Que efeito teve nele esse sonho?
1.2. Que significado dá o monarca aos sonhos dos homens?
1.3. Que sonhou o Rei? *
1.4. Adianta uma interpretação possível para o sonho do Rei.

2. O Bobo afirma que os pobres não sonham.
2.1. Porquê?
2.2. Dá a tua opinião sobre essa ideia do Bobo.

3. O Rei e o Bobo têm ideias diferentes sobre a sorte do segundo. Apresenta o ponto de vista de cada um.

4. O Bobo não serve apenas para divertir o rei. Que outro papel lhe está reservado no texto?

5. O respeito devido pelo Bobo ao Rei nota-se no emprego do vocativo. Dá exemplos.

6. Explica o emprego das reticências na narração do sonho pelo Rei.

O Sal e a Água


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Um rei tinha três filhas. Perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga? A mais velha respondeu:
- Quero mais a meu pai do que à luz do Sol.
Respondeu a do meio:
- Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.
A mais moça respondeu:
- Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.
O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria o anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi chamada a cozinheira e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família nobreza.
Começou então a espreitá-la porque ela só trabalhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas do noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que nada comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
- É porque a comida não tem sal.
O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

Teófilo Braga, in Contos Tradicionais Portugueses



I

1. A acção do conto gira em torno de uma família real.
1.1. Identifica as personagens intervenientes.

2. Que respostas dão as três filhas ao rei?

3. Qual a reacção do rei à resposta da filha mais nova?

4. O que fez a menina?

5. Como é que o rei e o príncipe descobriram que ela era uma princesa?

6. Que estratagema utilizou a princesa para que o pai compreendesse o amor que ela tinha por ele?

7. Identifica os espaços em que decorre a acção. Justifica com exemplos retirados do texto.

8. Tal como na maioria dos contos populares, este também encerra uma moral. Refere-a.


II

1. Transcreve todas as frases que se encontram no discurso directo.
2. Passa-as para o discurso indirecto.

Oh, como se me alonga, de ano em ano




Oh, como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.

Luís de Camões



I

1. O sujeito poético manifesta desalento em relação à vida.
1.1 Identifica, na primeira estrofe, as duas formas de designar a vida.
1.1.1 Explicita o seu sentido.
1.2 Por que motivo o poeta afirma que a vida se «alonga» (v. 1) e «se encurta» (v. 3)?
1.3 Interpreta a expressividade do uso da interjeição e a pontuação.

2. Atenta na segunda estrofe.
2.1 Explica o sentido do primeiro verso.
2.2 O sujeito poético afirma que se perde «um remédio, que inda tinha». A que remédio se refere?

3. Das últimas duas estrofes, transcreve as expressões que transmitem a ideia de luta, de busca do bei desejado.
3.1 Refere o nome das figuras de estilo presentes nos versos 10 e 11.
3.1.1. Esclarece a sua expressividade.


II

1. Reescreve os versos 1 e 2 respeitando a norma de construção da língua portuguesa.

2. Atenta nas seguintes formas verbais:
a) «vai-se gastando» (v. 5)
b) «caio» (v. 11)
2.1. Classifica-as quanto ao aspecto verbal.

3. Integra na respectiva classe e subclasse de palavras:
• «minha» (v. 2)
• «fim» (v. 3)
• «vão» (v. 4)
• «que» (v. 6)
• «qualquer» (v. 8)
•«Mil» (v. 11)
• «Quando» (v. 12)
•«Se» (v. 13)

13.10.07

Segue o teu destino

Rose Poetry Art Print by Laura Martinelli

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, Odes



I

Ricardo Reis defende o prazer e a busca da calma ou a sua ilusão, para viver feliz.
1.1. Explique o sentido do verso "Ama as tuas rosas" (v. 3), tendo em conta os conselhos dados na primeira estrofe.
1.2. Comente a construção dos primeiros três versos, atendendo às formas verbais e à função da linguagem predominante.
1.3. Mostre em que medida se diferencia a realidade daquilo que "somos".

2. Escolha a expressão que melhor exprime a apatia como ideal ético.

3. Prove que é necessária a ataraxia para viver com satisfação, mas que a calma e a felicidade são inatingíveis, mesmo para os deuses.

4.Comente o pensamento epicurista que se depreende do poema.

5. Enquadre esta composição na produção poética de Ricardo Reis.


II

Num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, comente os seguintes versos de Caeiro, tendo em atenção que o homem deve aprender a sentir e a não pensar, libertando-se assim de todas as máscaras e cargas ideológicas.
«A espantosa realidade das coisas/É a minha descoberta de todos os dias./Cada coisa é o que é,/E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra./E quanto isso me basta.»


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e oitenta e quatro palavras, num texto de cento e dezoito a cento e trinta e oito palavras.

A publicação do Livro do Desassossego por Bernardo Soares pode suscitar um gesto de cepticismo, ou mesmo de saturação, motivado pela suspeita de que da infindável arca de Pessoa se continuarão a retirar inúmeros textos fragmentários que nada vêm acrescentar ao que de Pessoa se conhece. Poder-se-â até supor que a imagem de Pessoa se diminui nesta abusiva exposição de obras que o não chegaram a ser. Em relação ao Livro do Desassossego, uma tal atitude será certa¬mente insensata. Não apenas porque, como outros já disseram, e com suficiente veemência, se encontram nestas páginas algumas das páginas mais belas da literatura portuguesa. Mas também porque elas poderão contribuir para (re)ler Pessoa, para (re)pensar Pessoa, desde que se lhes saiba atribuir o lugar central que Pessoa conferia a este seu projecto. De certo modo, podemos dizer que, se o Livro do Desassossego não «explica» o «enigma» dos heterónimos, contudo vem ocupar o lugar desse enigma. Jacinto do Prado Coelho pode dizer que penetramos aqui «no laboratório secreto do escritor». E Jorge de Sena soube assinalar que descobrimos «as células "ortónimas" (da criatura que dava pelo nome de Fernando Pessoa) em processo de cissiparídade heteronímica».
Dir-se-á que são fragmentos, restos, lixo, refugo. E são estas, aliás, as palavras de Pessoa para designar o estatuto deste texto. Não podemos ignorar que, nas várias fases (Sena aponta três) em que Pessoa foi concebendo o projecto deste Livro do Desassossego, ele sentiu, e disso deu testemunho, que este carácter inacabado e solto era uma deficiência.
Pela nossa parte, diremos que a leitura desta obra implica que se dê um valor positivo a esta aparente deficiência. Importa sublinhar, sobretudo, o peso de uma insistência, a persistência de uma obsessão suspensa na palavra «desassossego» de que este livro se faz compêndio. Acentuemos (para salientar aqui uma linha de demarcação em relação a leituras de «espírito presencista») que a literatura não é aqui um fim, mas um meio. E que este afluxo recorrente de escrita (que se aproxima sem nunca tomar a forma de um «diário») nos envolve precisamente num espaço literário que está para além do acabamento ou inacabamento das obras, da perfeição ou imperfeição dos textos, isto é, para além das normas, valores e hierarquias da instituição da literatura (sobre isto valerá a pena reler a correspondência Artaud/Rivière).

Eduardo do Prado Coelho, "Pessoa: Lógica do Desassossego",
in A Mecânica dos Fluidos, Lisboa, INCM (pp. 21-31)



12.10.07




Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dũa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões



I

1. A redundância é um dos vectores que estruturam este soneto e assume aqui várias formas. Evidencia:
1.1. A anáfora que substituo o signo madrugada ao longo do poema.
1.2. Duas repetições de significados por sinonímia.
1.3. Uma repetição do mesmo verbo, em formas diferentes.

2. A madrugada é caracterizada no 1º verso por uma antítese.
2.1. Identifica-a.

3. Qual o sentimentos que predomina no poema?
3.1. Qual é a causa desta tão grande tristeza?
3.2. Por que razão a madrugada nos é apresentada no soneto com este estado de espírito contraditório?

4. A madrugada surge como testemunha de um acontecimento e, portanto personificada.
4.1. Descreve a cena testemunhada.
4.2. Sublinha os verbos e os adjectivos que dão corpo à personificação.

5. O sentimento aqui em evidência é profundamente exacerbado pelo sujeito lírico.
5.1. Faz o levantamento dos recursos estilísticos ao serviço desse exagero.



Vento




As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético



I

1. «As palavras / cintilam / na floresta do sono» (vs. 1-3)
1.1 Esclarece o significado do vocábulo «cintilam».
1.2 Refere a figura de estilo presente na expressão sublinhada.
1.2.1 Explica o seu valor expressivo.

2. O rumor das palavras é «ágil e esquivo» (v. 6)
2.1 Por que motivo as palavras são comparadas a «corças perseguidas»?

3. «(...) o vento / fala de amor / e solidão:» (vs. 7-9) 3.1 Regista palavras que falem de amor e de solidão.

4. Nos últimos três versos, o poeta dirige-se às palavras.
4.1 Que figura de estilo neles se evidencia?
4.2 Interpreta a seguinte afirmação: «quem vos ferir/não fere em vão» (vs. 10-11).


II

1. Regista vocábulos da família de «palavra».

2. Refere a constituição morfológica de «cintilam» (v. 2) e «esquivo» (v. 6).

3. Refere a função sintáctica das palavras e expressões sublinhadas nos seguintes versos: «quem vos ferir / / não fere em vão, / palavras».





O que não vem nos jornais



Dia a dia, milhares de quilos de papel, por vezes ainda a cheirar a tinta, desaparecem das mãos dos ardinas (...).
Na monotonia do quotidiano que se repete, há quem os leia no intervalo apressado pro-porcionado por uma viagem de autocarro, no café, antes de entrar para o trabalho, em período de lazer, no espaço recatado da casa de cada um. Lêem e devoram a informação sobre o joelho, palavras, números, gravuras.
O jornal é um veículo de informação que, apesar de muitos lhe preconizarem a morte, vai resistindo e moldando-se aos interesses das pessoas. (...).
Dir-nos-ão que entre nós, ainda assim são muito poucos os que lêem jornais. Não bastará para tanto invocar que os preços são altos, que muitos não sabem ler, que o interesse pela leitura nunca foi muito estimulado. (...) Mas há outras razões, mais ou menos ligadas a submissões políticas e económicas, falta de força e de qualidade. Mas, pesquisemos também o conteúdo e a sua relação com os leitores, o que nos faz vir à cabeça o último verso de uma (já) velha canção de Chico Buarque: "a dor da gente não sai nos jornais"... o que sai, então? Sai a discussão política, a economia e os grandes números de orçamentos e de empresas, as greves e as disputas entre sindicatos, as "bombas" do desporto, as guerras ...
Não vêem nos jornais, pelo contrário, as pequenas dores e alegrias das pessoas, a não ser daqueles que conseguiram transpor o muro para a vida pública. Não há espaço para as pequenas mutações que estão, finalmente, a mudar a vida de todos, para os casos que, por serem pequenos, não deixam de ser grandes.


Luísa Bessa, in Jornal de Notícias
(adaptado)



I

1) Neste texto e noutro que anteriormente estudaste, são referidos diferentes tipos de leitor de jornais. Indica-os.
2) De acordo com o texto, os jornais relatam apenas um certo tipo de acontecimentos.
2.1) Que assuntos são privilegiados pelos jornais?
2.2) Afinal, o que é que "não vem nos jornais"?
3) Com base no texto explica a seguinte frase: os jornais não servem apenas para informar.

II
1) Lê, o texto que se segue, e prova que o mesmo se trata de uma notícia incompleta:

Uma equipa nomeada para o efeito seleccionou ontem os nove intérpretes das canções concorrentes ao festival após demorada audição.





1.1) Completa a notícia de forma a fazer sentido, usando no máximo 30 palavras.
2) Diz quais são as características da linguagem utilizada na notícia.

III

1) Classifica morfologicamente cada uma das palavras que se encontram sublinhadas nas seguintes frases: (Caso se trate de um verbo, indica também o tempo e o modo.)
a) o trabalho liberta o Homem.
b) os empregados são simpáticos.
c) aquelas montanhas estão cobertas por um manto de neve.
d) hoje fala-se muito da Internet.
e) Se eu comprasse uma rosa, oferecia-a à minha namorada.

2) Completa os espaços em branco com há ou à:
i) Todos os anos ___ uma feira do livro na escola.
ii) Sempre que posso leio ___ noite antes de dormir.
iii) ___ quem tenha muitos livros em casa.
iv) Na vida ___ tempo para tudo.

11.10.07

Desfecho

Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente,
Do teu vulto calado,
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando, alguém lhe perturba a solidão
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga, Câmara Ardente


I

1. Divida o poema nas suas partes lógicas e identifique o assunto de cada uma.
2. Identifique e caracterize o destinatário do poema.
3. Explicite a relação estabelecida entre o sujeito poético e esse destinatário:
- no passado;
- no presente.
4. "Soltei a voz, arma que tu não usas, / Sempre silencioso na agressão."
4.1. Explique o sentido dos versos transcritos.
4.2. Identifique os recursos estético - estilísticos.
5. Comprove, a partir do poema, que a negação do Divino é, para Torga, uma forma de afirmar o Homem.


II

Elabore uma dissertação em que aborde o seguinte tema: o mito de Anteu na poesia de Miguel Torga.


Hércules lutando com Anteu, levantando-o do chão