30.8.07

Fermosíssima Maria (C.III, 102-105)

102
«Entrava a fermosíssima Maria
Polos paternais paços sublimados,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,
E seus olhos em lágrimas banhados.
Os cabelos angélicos trazia
Pelos ebúrneos ombros espalhados.
Diante do pai ledo, que a agasalha,
Estas palavras tais, chorando, espalha:

103
"Quantos povos a terra produziu
De África toda, gente fera e estranha,
O grão Rei de Marrocos conduziu
Pera vir possuir a nobre Espanha.
Poder tamanho junto não se viu,
Despois que o salso mar a terra banha;
Trazem ferocidade e furor tanto,
Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

104
"Aquele que me deste por marido,
Por defender sua terra amedrontada,
Co pequeno poder, oferecido
Ao duro golpe está da Maura espada,
E, se não for contigo socorrido,
Ver-me-ás dele e do Reino ser privada;
Viúva e triste e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino e sem ventura.

105
"Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
O corrente Muluca se congela,
Rompe toda a tardança, acude cedo
A miseranda gente de Castela.
Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
De pai o verdadeiro amor assela,
Acude e corre, pai, que, se não corres,
Pode ser que não aches quem socorres."

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto III



I

1. Quem é a «fermosíssima Maria»?

2. Faça uma descrição física e psicológica desta personagem.

3. Por que razão é que a filha foi visitar o pai?

4. Que argumentos utiliza a «fermosíssima Maria» para convencer o rei?

5. Diga o que entende por «paternais paços» e «salso mar».

6. Explique a formação das palavras fermosíssima, despois e tardança.

7. Faça a análise formal (estrofe, métrica e rima) da estância número 105.

8. Atente nos seguintes versos: «Trazem ferocidade e furor tanto, / Que a vivos medo, e a mortos faz espanto».

8.1. Divida e classifique as orações.

8.2. Classifique morfologicamente as palavras da segunda oração.

8.3. Faça a análise sintáctica da primeira oração.


II

Numa composição cuidada e tendo em conta as constantes referências que Camões faz em Os Lusíadas à luta contra os Mouros, procure explicar em que aspecto é que esta poderia beneficiar Portugal.



29.8.07

Os Lusíadas

I

1. Que nome dás a uma estrofe de 8 versos?

2. Qual é a origem da palavra Lusíadas?

3. Como se chamam as unidades em que, ao modo clássico, Camões dividiu «Os Lusíadas»?

4. Atenta no primeiro verso desta obra : " As armas e os barões assinalados ".
4.1 Divide o verso em sílabas gramaticais.
4.2 Divide o verso em sílabas métricas.
4.3 Classifica-o quanto à métrica.

5. Qual é o esquema rimático de cada oitava de " Os Lusíadas"?

6. Quais são as quatro partes em que podemos dividir a obra?

7. Qual é o assunto da Proposição?

8. A quem pede Camões ajuda para narrar os feitos ilustres dos Portugueses?

9. A quem dedica Camões o seu poema?

10. Em que Canto e estrofe começa a Narração de " Os Lusíadas "?


II

A partir do estudo da obra, numa pequena composição, de carácter informativo, explicita o seguinte conceito:
«A epopeia é uma narrativa com determinada estrutura e forma que canta a história de um herói; à volta de uma acção principal gravitam pequenas narrativas que conferem grandiosidade ao texto.»





21.8.07

Mestre Finezas



Agora entro, sento-me de perna cruzada, puxo um cigarro, e à pergunta de sempre respondo soprando o fumo:
— Só a barba.
Ora é de há pouco este meu à-vontade diante de mestre Ilídio Finezas.
Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha que fingir-se zangada. Eu saía de casa, rente á parede, sentindo que aquilo era pior que ir para a escola.
Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enorme toalha. Só me ficava a cabeça de fora.
Como o tempo corria devagar!
A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer--me, não podia bocejar sequer. — «Está quieto, menino» — repetia mestre Finezas segurando-me a cabeça entre as pontas duras dos dedos: — «As¬sim, quieto!» — Os pedacitos de cabelo espalhados pelo pescoço, pela cara, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão severo de magro, o corpo alto curvado. Via-lhe os braços compridos, arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.
E eu — sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que todo o corpo me doía — era para ali uma pobre criatura indefesa nas mãos de mestre Ilídio Finezas.
Nesse tempo tinha-lhe medo. Medo e admiração. O medo resultava do que acabo de contar. A admiração vinha das récitas dos amadores dramáticos da vila.
Era pelo Inverno. Jantávamos à pressa e nessas noites minha mãe penteava-me com cuidado. Calçava uns sapatos rebrilhantes e umas peúgas de seda que me enregelavam os pés. Saíamos. E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila, eu conhecia pela voz famílias que caminhavam na nossa freme e outras que vinham para trás. Depois, ao entrar no teatro, sentia-me perplexo no meio de tanta luz e gente silenciosa. Mas todos pareciam corados de satisfação.
Daí a pouco, entrava num mundo diferente. Que coisas estranhas aconteciam! Ninguém ali falava como eu ouvia cá fora. E mesmo quando calados tinham outro aspecto; constantemente a mexerem os braços. Mestre Finezas era o que mais se destacava. E nunca, que me recorde, o pano desceu, no i? último acto, com mestre Finezas ainda vivo. Quase sempre morria quando a cortina principiava a descer e, na plateia, as senhoras soluçavam alto.
Aquelas desgraças aconteciam-lhe porque era justo e tomava, de gosto, o partido dos fracos. E, para que os fracos vencessem, mestre Finezas não tinha medo de nada nem de ninguém. Heroicamente, de peito aberto e com grandes falas ia ao encontro da morte.



I

1. Faz a integração do excerto na estrutura do conto estudado.

2. Em que consiste a acção desta narrativa?
2. 1. Onde decorre essa acção?

3. Este texto desenvolve-se à volta de um momento correspondente a uma fase da vida de duas personagens.
3. 1. De que personagens se trata?
3.2 Que fase é essa?

4. O ambiente social no qual as personagens se inserem exerce influência marcante nas suas vidas.
4. 1 Caracteriza, a partir de elementos do texto, esse ambiente social.
4.2 Diz em que medida as vidas das personagens foram influenciadas por esse ambiente.

5. Indica as emoções despertadas no público pela a actuação do Mestre Finezas e explica-as.

6. Faz a caracterização psicológica do Mestre Finezas tendo em conta o excerto transcrito.

7. Classifica o estatuto do narrador.

8. Qual o estado psicológico do narrador?

9. Faz o levantamento de expressões temporais que permitam identificar o tempo cronológico decorrido.

10. Retira do texto um exemplo de um momento descritivo e de um momento narrativo.
10. 1 Diz em que consiste a diferença entre descrição e narração.

11. "Lembrava uma aranha".
Identifica a figura de estilo aqui presente.




19.8.07

O Furtinho

O Furtinho

A escola. A flor. A flor. A escola …
Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.
Quando terminou a aula, me chamou.
— Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.
Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava a coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.
— Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade?
Balancei a cabeça afirmativamente.
— Da flor? É, sim, senhora.
— Como é que você faz?
— Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.
— Sim. Mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um «furtinho».
— Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também …
Ela ficou espantada com a minha lógica.
— Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro …
E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
— De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?…
— Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some …
— Eu não podia aceitar todos os dias …
— Por quê?
— Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.

José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima





I

1. Em que espaço se passa este episódio da flor?

2. Quem conta esse episódio é uma personagem da história. Identifica-a.

3. O Godofredo apontou a flor no copo e falou com a professora. O que lhe teria dito?
3.1 Qual a reacção da professora?

4. Por que razão a professora demorou a arrumar a bolsa?

5. A professora disse que não era roubo mas sim «furtinho».
5.1 Qual te parece ser a diferença?
5.2 Tens a mesma opinião da professora? Justifica.

6. Que razões deu Zezé para o seu acto?

7. Também condenas o facto de Zezé «roubar »uma flor para pôr no copo?
Explica a razão da tua resposta.

8. «Ela engoliu em seco».
Explica o sentido desta frase.

9. Zezé disse que não podia aceitar dinheiro da professora todos os dias. Qual foi a razão que ele apresentou?

10. Que sentimentos mostrou Zezé ao agir assim?
inveja . preocupação . solidariedade . amizade .

11. D.Cecília precisou de passar um lenço nos olhos.
11.1 Como se sentiu nesse momento?
alegre . comovida . triste . aflita .
Porquê?


II

1.Lembras-te da tua professora do 4.º ano? Recorda-a e escreve um pequeno texto sobre ela.
Refere:
• a sua maneira de ser;
• o teu relacionamento com ela;
• as recordações que ela te deixou.

2. O Português do Brasil tem características próprias, como certamente notaste neste texto. Escreve de novo o 6.º parágrafo, como se fosse um dos teus professores a falar contigo.

17.8.07

Coração das cidades

Coração das cidades


A forma como organizamos os nossos espaços exteriores, onde vivemos, por onde circulamos, os locais onde crescemos e nos fazemos adultos, marca a forma como nos desenvolvemos emocionalmente. Por outro lado, eles são bem o espelho do que vai na profundidade da mente dos que os constróem, isto é, reflectem e influenciam a vida emocional das pessoas.
Hoje, quando circulamos pelas grandes cidades do nosso país, não podemos deixar de pensar sobre este assunto (...). O que estamos a fazer? Que qualidade de vida estamos a ter e o que andamos a oferecer aos mais novos? Com o estado de conhecimento actual, o desenvolvimento de novas tecnologias e materiais de construção, magníficos arquitectos na nossa praça, um país pleno de belezas e recursos naturais, não poderíamos desejar melhor? De facto, cresce o número de perturbações de ansiedade e depressivas que mais não são do que uma factura da forma como organizamos o nosso padrão de vida nas grandes cidades. (...)
A primeira ligação fundamental que se pode construir é a de que, para se crescer bem emocional-mente, é necessário tempo e, nesse tempo, um espaço que nos envolva, abrigue, acolha, com limites e fronteiras bem definidas: o nosso espaço familiar, o nosso espaço-casa. Precisamos, pois, de casas em cidades com escala humana, não excessivamente populosas ou distendidas como as actuais fronteiras de cidade região parecem cada vez mais querer delimitar. Para que as pessoas se toquem, se olhem, se conheçam, se liguem afectivamente precisam de estar próximas fisica-mente e, para tal, precisam de tempo real para o fazerem. (...)
Por outro lado, outra ponte possível de estabelecer é a de que, para se crescer bem interiormente, o espaço exterior tem que ser bonito, harmónico, cuidado, emocionalmente investido, como sinal de respeito e carinho por todos os que o habitam. Mas, não raramente, damos conta de demasiados espaços feios, pejados de enormes construções em altura e volume, que se constituem como factores de agressividade para todos. (...)
Depois, há a necessidade de contacto com a natureza, como espaço de sonho, de desejo, de fantasia, de conhecimento. As árvores são ainda poucas e constantemente massacradas em amputações de troncos que constituem autênticas cicatrizes, e é raro uma criança ver crescer flores em canteiros ou sentir o cheiro de relva perto de si. (...)
Ligada a esta ideia, vem também a noção de que as crianças e os adolescentes necessitam de espaços de lazer, de brincadeira, que também se situem fora da esfera habitacional. (...) Os par-ques deveriam englobar recintos para a prática de desportos como o futebol, o basquetebol ou outros, pistas para bicicletas, skates, patins, em locais onde a exploração do mundo extrafamiliar também se pudesse processar. (...)
Por último, a ideia de rua, bairro, comunidade deve existir, para que exista também um sentimento de pertença. "Eu sou daqui", "esta é a minha equipa" ou "este é o meu grupo" são marcos ou sinais de ligações afectivas, que fortalecem a construção de uma mais segura identidade individual e social, e permitem a existência de âncoras, pontos de suporte e amparo social, que ajudam ao equilíbrio de cada um. (...)
Estamos em anos de enorme potencial de mudança e viragem. Nunca como hoje o homem, as comunidades, os países possuem os meios necessários para tornarem as suas vidas e aquilo que as cerca em algo mais equilibrado, tranquilo, belo, feliz. No centro das nossas cidades, deveria cada vez mais existir espaço e tempo para o coração. Para a alma. Para a infância, para a adolescência.

Pedro Strecht, in Público, 19 de Dezembro de 2002 (texto com supressões)




I


1. O texto que acabaste de ler está estruturado em três partes bem definidas.
1.1. Delimita a introdução e resume o seu conteúdo numa frase.
1.2. No desenvolvimento, assinala os conectores que fazem a ligação lógica entre as partes.
1.3. Identifica a conclusão, explicando, por palavras tuas, o seu conteúdo.

2. Existe uma íntima ligação entre "a forma como organizamos os nossos espaços exteriores" e "a forma como nos desenvolvemos emocionalmente".
2.1. Segundo o autor, actualmente existem condições que poderiam permitir ter melhores espaços exteriores. Aponta-as.
2.2. Explica por que razão o tamanho das cidades é também importante para o equilíbrio dos seus habitantes.
2.3. Enumera as características que os espaços exteriores deveriam ter para nos sentirmos melhor.

3. Para além dos factores já enunciados, o autor considera ainda fundamental o contacto com a natureza, a existência de espaços de lazer e o sentimento de pertença a uma determinada comunidade.
3.1. Dá a tua opinião acerca destas "necessidades".
3.2. Aponta uma quarta que te pareça igualmente importante.


II

1. As palavras podem ter diferentes sentidos em função do contexto em que surgem.
1.1. Explica o significado que cada uma das palavras que se seguem apresenta no texto que leste: espelho; factura; amputações; âncoras.
1.2. Utiliza, agora, os mesmos vocábulos em novas frases onde apresentem o seu significado primeiro (denotativo).


III

1. Faz o resumo do texto que acabaste de analisar, respeitando a sua estrutura:
Introdução
Desenvolvimento:
De facto... -> A primeira ligação fundamental... -> Por outro lado... ->
Depois... -» Ligada a esta ideia... -> Por último...
Conclusão


16.8.07

Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
na escola da tortura repetida,
e no uso do pensar tornado crente,

respondeu : Desta altura vejo o Amor !
viver não foi em vão, se isto é vida,
nem foi demais o desengano e a dor.

Antero de Quental


I

Faça o comentário global do poema tendo em conta os seguintes tópicos:
• Assunto do poema
• Divisão em partes
• Definição do diálogo que se estabelece no poema
• posicionamento dos intervenientes no diálogo
• recursos expressivos e valorização da mensagem poética


II

A partir da expressão « viver não foi em vão » relacione esta composição com o percurso biográfico e literário de Antero de Quental.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por duzentas e cinquenta palavras (250), num texto de sessenta e três palavras (63).

O mundo lusófono (que fala português) é avaliado hoje entre 170 e 210 milhões de pessoas. O português, oitava língua mais falada do planeta (terceira entre as línguas ocidentais, após o inglês e o castelhano), é a língua oficial em sete países: Angola (10,3 milhões de habitantes), Brasil (151 milhões), Cabo Verde (346 mil), Guiné Bissau (1 milhão), Moçambique (15,3 milhões), Portugal (9,9 milhões) e São Tomé e Príncipe (126 mil).
O português é uma das línguas oficiais da União Europeia (ex-CEE) desde 1986, quando da admissão de Portugal na instituição. Em razão dos acordos do Mercosul (Mercado Comum do Sul), do qual o Brasil faz parte, o português será ensinado como língua estrangeira nos demais países que dele participam. Em 1994, é decidida a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que reunirá os países de língua oficial portuguesa com o propósito de uniformizar e difundir a língua portuguesa e aumentar o intercâmbio cultural entre os países membros. Actualmente a C.P.L.P. é presidida pelo estado angolano e teve um papel decisivo no conflito interno da Guiné-Bissau.
Na área vasta e descontínua em que é falado, o português apresenta-se, como qualquer língua viva, internamente diferenciado em variedades que divergem de maneira mais ou menos acentuada quanto à pronúncia, quanto à gramática e ao vocabulário. Tal diferenciação, entretanto, não compromete a unidade do idioma: apesar da acidentada história da sua expansão na Europa e, principalmente, fora dela, a língua portuguesa conseguiu manter até hoje apreciável coesão entre as suas variedades.





As flores do meu amigo



As flores do meu amigo
briosas van no navio!
E van-s (e) as froles
d’ aqui ben con meus amores!
Idas son as froles
d’ aqui ben con meus amores!

As froles do meu amado
briosas van eno barco!
E van-s (e) as froles
d’ aqui ben con meus amores!
Idas son as froles
d’ aqui ben con meus amores!

Briosas van no navio,
pera chegar ao ferido.
E van-s (e) as froles
d’ aqui ben con meus amores!
Idas son as froles
d’ aqui ben con meus amores!

Briosas van eno barco,
pera chegar ao fossado.
E van-s (e) as froles
d’ aqui ben con meus amores!
Idas son as froles
d’ aqui ben con meus amores!

Pera chegar ao ferido,
servir mi, corpo velido.
E van-s (e) as froles
d’ aqui ben con meus amores!
Idas son as froles
d’ aqui ben con meus amores!

Pera chegar ao fossado,
servir mi, corpo loado.
E van-s (e) as froles
d’ aqui ben con meus amores!
Idas son as froles
d’ aqui ben con meus amores!

Pai Gomes Charinho ( CV 401/ CBN 817 )


I

1. Indique o tema e o assunto desta composição.

2. Divida a composição em partes, justificando devidamente a sua resposta.

3. Caracterize globalmente o sujeito poético. Justifique com expressões textuais.

4. Caracterize o objecto poético.

5. Explique o tipo de relacionamento existente entre o sujeito e o objecto poéticos.

6. Explicite o valor do refrão nesta composição e analise-o:
a. quanto ao tipo de frase nele presente;
b. quanto à alternância das formas verbais.

7. Detecte na composição tipos de paralelismo e releve o seu valor estilístico-formal.

8. Partindo do estudo que efectuou sobre a Época Medieval, relacione esta composição com o contexto sócio-cultural desse período.

15.8.07

Apontamento



A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.



Álvaro de Campos, 1929


I

Analise globalmente este poema tendo em conta os seguintes tópicos:
– caracterização do estado de espírito do sujeito lírico;
– causa(s) desse estado de espírito;
– relação do primeiro verso da composição com o assunto global do poema;
– sensacionismo presente no poema;
– relação do sujeito com o mundo e consigo próprio;
– principais recursos expressivos;
– relação desta composição com a poética de Álvaro de Campos.



14.8.07

Abraham Moles




No mundo moderno, as pessoas estão mais ou menos aprisionadas nos seus apartamentos.. Nessas celas, a sociedade torna-se cada vez mais distante para elas. No interior dessa concha familiar, quase sempre um centésimo octagésimo terceiro andar de um edifício de 800 metros de altura, as pessoas encontram-se em pleno céu, com as portas fechadas para o mundo exterior. E nessa caixa estritamente pessoal, em que o homem está cercado de objectos familiares, tais como o cão, o sofá e, quem sabe, até a sua mulher, fica também a televisão, a "pequena janela" através da qual entram todos os acontecimentos do mundo. Poder-se-ia pensar que esta é uma imagem milagrosa e poética: a janela aberta, por onde penetra o mundo com todos os seus acontecimentos na esfera pessoal. Mas eu creio que isso é uma ilusão. A televisão não é uma janela aberta para o mundo, mas uma pequena fresta aberta para alguns pontos deste mundo que os jornalistas escolhem para mostrar. Quando se faz a análise psicológica dos fenómenos da televisão, constata-se que o indivíduo familiarizado com aquilo que se passa no Japão, na Sibéria, na Oceânia, não importa onde, não importa quando, torna-se superficial. E ele reage de maneira passiva, exactamente ao contrário daquilo que seria de esperar, dizendo para si mesmo: "Depois de ver tanta confusão, como é tão bom estar em casa!": Em vez de se abrir para o mundo, na verdade ele fecha-se sobre si mesmo, pois, já se pode ter tudo na hora em que se quiser, tudo se torna para o indivíduo sem qualquer importância e sem qualquer interesse. Somente lhe interessa a pura diversão. Aqui está porque penso que a televisão não é uma janela aberta para o mundo, mas apenas um periscópio que as pessoas tiram do seu submarino pessoal para mergulhar no oceano do social. É uma imagem bem menos sedutora, mas creio que mais verdadeira. A televisão permite que as pessoas aprisionadas nos seus pequenos apartamentos participem em todos os acontecimentos, sejam eles desportivos, políticos, trágicos ou artísticos. Com um simples gesto de apertar o botão da televisão, todos ouvirão falar de descobertas submarinas, da lua, dos 4 pintores mais famosos do mundo, do último filme francês e do último campeonato da selecção desportiva do seu país. Mas todos esses acontecimentos são armazenados nos seus cérebros de uma maneira desordenada e superficial, formando uma cultura que eu chamo - cultura de mosaico - , isto é, feita de pequenos pedaços de conhecimentos como os azulejos que decoram as nossas casas de banho.

Abraham Moles Revista Veja,
6 de Maio de 1970
(Texto adaptado)


1. O autor do texto recorre a três imagens para caracterizar o partamento moderno. Indique-as.
1.1. Que ideia pretende o autor comunicar através dessas imagens?

2. Repare na expressão: quase sempre num 183º andar.
Qual é a intenção do autor ao dar esta imagem exagerada da realidade? Concorda com esse exagero? Justifique a sua resposta.

3. Ao lado dos objectos familiares do homem, tais como, o cão, o sofá vem referida a mulher. Qual a razão por que o autor teria incluído esta sequência no texto? Justifique a sua resposta.

4. Para o autor “ A televisão não é uma janela aberta para o mundo”
Aponte as razões que ele apresenta.

5. Explique por palavras suas o sentido da seguintes expressão:
A) A) A TV é “apenas um periscópio que as pessoas tiram do seu submarino pessoal para mergulhar no oceano do social.”

6. A cultura proporcionada pela TV é chamada "cultura e mosaico"
6.1. Por que é caracterizada assim?
6.2 Está de acordo com essa opinião? Justifique a sua resposta.


II

1. Indique o tipo e a forma da seguinte frase:
A televisão não é uma janela aberta para o mundo.

2. Reescreva-a na forma afirmativa tipo interrogativo.

3. Identifique os determinantes na seguinte frase:
todos esses acontecimentos são armazenados nos seus cérebros de uma maneira desordenada e superficial.

4. Diga qual a subclasse a que pertence cada um deles.

5. Identifique o sujeito e o predicado na seguinte frase:
O homem está cercado de objectos familiares.

6. Identifique os adjectivos da frase:
Esta é uma imagem milagrosa e poética.


III

Escolha apenas um dos temas:

A) Os meios de comunicação social são armas poderosas que influenciam diariamente cada um de nós.
Com base nesta afirmação, construa um texto sobre os benefícios e prejuízos causados pelos meios de comunicação social.

B) Baseando-se na sua experiência comente a afirmação:
A televisão é um mundo em nossa casa.

5.8.07

Invocação a Calíope (C.III, 1-4)




1
Agora tu, Calíope, me ensina (1)
O que contou ao Rei o ilustre Gama;
Inspira imortal canto e voz divìna
Neste peito mortal, que tanto te ama.
Assi o claro inventor da Medicina, (2)
De quem Orfeu pariste, ó linda Dama, (3)
Nunca por Dafne, Clície ou Leucothoe (4)
Te negue o amor dívido, como soe. (5)

3
Prontos estavam todos escurtando
O que o sublime Gama contaria,
Quando, despois de um pouco estar cuidando,
Alevantando o rosto, assí dìzia:
"Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
De minha gente a grão genealogia; (6)
Não me mandas contar estranha história,
Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

4
Que outrem possa louvar esforco alheio,
Cousa é que se costuma e se deseja;
Mas louvar os meus próprios, arreceio
Que louvor tão suspeito mal me esteja;
E, pera dízer tudo, temo e creio
Que qualquer longo tempo curto seja;
Mas, pois o mandas, tudo se te deve;
Irei contra o que devo, e serei breve

Luís de Camões, os Lusíadas, Canto III


NOTAS:
(1) Calíope: Musa da eloquência e da epopeia.
(2) O inventor da medicina: Apolo, que presidia à poesia, à música, às artes e à medicina.
(3) Orfeu: filho de Apolo e de Calíope.
(4) Dafne, Clície, Leucothoe: ninfas.
(5) Soe: costuma.



I

1. Como se justifica a invocação a Calíope no início deste canto?

2. Vasco da Gama irá narrar neste canto parte da história de Portugal relativa à primeira dinastia. Como se justifica esta analepse na estrutura do poema?

3. Que receios manifesta Vasco da Gama antes de contar a história de Portugal?

4. O que leva Vasco da Gama a decidir-se a contar a história da sua pátria?

5. Como se dispõe Vasco da Gama a ordenar a sua narrativa?

6. Explique o sentido dos quatro versos finais da estância 20.

7. Que sentimentos deixa transparecer o primeiro verso da estância 21?

7.1. Que desejo é formulado nos versos seguintes da mesma estância?

8. Identifique as figuras de estilo presentes nos seguintes versos:

«Que qualquer longo tempo curto seja» (4, v. 6)
«Acabe-se esta luz ali comigo» (21, v. 4)
9. Os Lusíadas são um poema épico do Renascimento, mas outras epopeias existiram antes. Refira o nome das gregas e da latina.

10. Em quantas partes se dividem Os Lusíadas? Justifique.


II

Numa composição cuidada, fale da importância de Os Lusíadas para a subsistência da identidade cultural dos Portugueses.

4.8.07

Sermão de Santo António


Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!

Oh que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento tão puro, tão claro e tão cristalino como o da água, espelho natural não só da terra, senão do mesmo céu! Lá disse o Profeta por encarecimento, que «nas nuvens do ar até a água é escura»: Tenebrosa aqua in nubibus aeris. E disse nomeadamente nas nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não à água; a qual em seu próprio elemento é sempre clara, diáfana e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!

Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossas mares, me estais respondendo e convindo, que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas e muito maiores e mais perniciosas traições. E sobre o mesmo sujeito que defendeis, também podereis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós a calais, eu também a calo. Com grande confusão, porém, vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois não o posso negar. Mas ponde os olhos em António, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António




I

1. Situe o excerto que acabou de ler no estrutura interna do sermão de Santo António aos Peixes.

2. Explicite as razões que levaram o Padre António Vieira a dar especial destaque ao polvo neste sermão.

3. Explique por palavras suas o significado das expressões «aparência tão modesta» e «hipocrisia tão santa».

4. Diga de que forma o Padre António Vieira distingue o polvo do camaleão.

5. A quem se quererá referir o autor ao falar do polvo? Justifique a sua resposta.

6. O autor refere-se no último parágrafo a «António, vosso pregador». Diga de que António se trata e qual a sua importância para este sermão.

7. Atente na seguinte frase: «E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português».

7.1. Divida e classifique as orações da frase.

7.2. Explique a formação da palavra antigamente.


II

O Padre António Vieira procurou, com este sermão, denunciar os vícios dos homens e levá-los a reflectir sobre a necessidade de mudança de atitudes. Numa composição com o máximo de quinze linhas, reflicta nos vícios da sociedade actual e sugira formas de os corrigir.




2.8.07

Esteiros

Mãos esquecidas nos bolsos e pés roxos de frio, os garotos cosiam-se com os portais, à espera do caldo ou do sol que pouco aquecia. Senhores das ruas, abandonaram-nas no ímpeto das águas e do vento, vencidos em luta desigual. E lá se foi o mundo imaginário em que brincavam.
O vento correu de lado a lado, em tropelia doida; sacudiu portas e postigos, e deixou tudo desola-do e nu, como as árvores do vale. Depois veio a chuva fazer do rio—carreiro de água negra na valeta—um mar de lama que alagou as ruas. Houve barcos no fundo, castelos desmoronados, jardins emurchecidos... Obras de arte, que eram prodígios de fantasia, perderam-se no dilúvio. Onde fora escarpa pedregosa de monte existia agora lagoa misteriosa, em que se miravam rostos de olhar inquieto, tristonhos.
—Sagui, conta uma história.
—Agora, não.
As histórias contavam-se em noites de Verão, enquanto os fornos lambiam mutanos. Havia estrelas no céu, e o telhai, enluarado, era cenário irreal. Então, os moços ficavam encantados em príncipes, e viviam as histórias que o Sagui contava melhor que um letrado:
—Era uma vez um príncipe...
Agora não havia príncipes, nem estrelas.
—Qualquer dia entro prà fábrica...— pôs-se o Maquineta a sonhar alto.
—É o entras.
—Tenho um pedido...
Todos tinham pedidos para a Fábrica Grande.

SOEIRO PEREIRA GOMES, Esteiros




I

1. Caracteriza, por palavras tuas, os rapazes que são retratados no texto.
a) Distingue as estações do ano apresentadas no texto.
b) Refere as transformações que a paisagem sofreu com a mudança do tempo.
Explica a frase seguinte: "Senhores das ruas, abandonaram-nas no ímpeto das águas e do vento, vencidos em luta desigual".

2. Faz o levantamento dos vocábulos ligados ao "mundo imaginário".
a) Imagina e escreve a continuação da seguinte frase do Maquineta: "Qualquer dia entro prà fábrica..."
b) Classifica sintacticamente os elementos dessa frase.


II

Numa carta dirigida ao director da Fábrica Grande, imagina e escreve o pedido de emprego para o Maquineta.

1.8.07

Cidade




Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sofia de Mello Breyner Andresen, Poesia I


Vocabulário: rumor – sussurro de vozes



I

No poema duas realidades se opõem – a cidade e o mundo das coisas

1. A cidade
1.1. O que a caracteriza?
1.2. A imagem que nos é transmitida dela é de opressão. Justifique com elementos textuais.

2. O mundo das coisas
2.1. Sublinhe os elementos que o integram.
2.2. A imagem que nos é transmitida dele é de perfeição. Justifique com elementos textuais.

3. Refira o processo estilístico utilizado para transmitir essas imagens que se opõem.

4. Saber/Vejo - A combinação dos dois verbos explica a relação do eu lírico com as duas realidades.
4.1. O que sabe o eu lírico?
4.2. E o que vê?
4.3. Que sabe que existe mas não vê?
4.4. Procure descobrir onde guarda o eu lírico as imagens conhecidas, mas não vistas.

5. Que sentimento(s) deixa o eu lírico transparecer? Justifique a sua resposta.

6. Explique este verso A minha alma que fora prometida no contexto da relação do eu lírico com as duas realidades.

7. Aponte os campos semânticos de luz e de sombra.

8. Explique a aspiração – desejo do eu lírico, atendendo aos campos semânticos de luz e sombra criados no poema.

9. Considerando o número de versos da última estrofe, como se designa?

10. Apresente o esquema rimático e refira o tipo de rima da última estrofe.

Encomendação

Alma penada
Condenada
À vida,
Não paro de viver.
Sempre a acender
A luz interrompida,
Perturbo o sono de quem dorme ao lado.
Dia e noite acordado
E ofegante,
Lavro como arado
Obstinado
Os pousios do tempo circunstante.

E, fora de sazão
E de razão,
Sem ouvir os gemidos
Dos sentidos,
Semeio e reverdeço a terra desolada da minha solidão.
Canto com emoção
Desencantada
Versos serôdios que a geada cresta.
Versos sem voz futura.
Mas que são, nesta hora de amargura,
A única certeza que me resta.

Miguel Torga, in Diário XIII



1. Retire do poema as palavras/expressões comprovativas da presença do emissor.

2. Indique a função de linguagem que predomina no texto devido à presença desse emissor.

3. Refira outra função de linguagem que se destaca no texto acima transcrito. Justifique a sua
resposta recorrendo a exemplos textuais.

4. Indique o tema do poema numa frase curta e bem elaborada.

5. Divida o poema em partes e resuma muito brevemente o assunto de cada uma delas.

6. Identifique o(s) sentimento(s) do Eu lírico. Ilustre a sua resposta com elementos textuais.

7. Explique por palavras suas o sentido dos seguintes versos:
Canto com emoção/Desencantada/
Versos serôdios que a geada cresta. VV. 18/19/20.

8. Retire do poema uma metáfora e explique o seu sentido.

9. Divida e classifique as sílabas métricas do seguinte verso:
Os pousios do tempo circunstante. V.12