31.7.07

Nós

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população com um terror de lebre,
Fugiu da capital como a tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!
Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.
(…)
Que de fruta! E que fresca e têmpora.
Nas duas boas quintas bem muradas,
Em que o Sol, nos talhões e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manhã!

O laranjal de folhas negrejantes,
(Porque os terrenos são resvaladiços)
Desce em socalcos todos os maciços,
Como uma escadaria de gigantes.
[.-.]
Entretanto, não há maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!

Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
Seca o rio! Em três meses de estiagem,
O seu leito é um atalho de passagem,
Pedregosíssimo, entre dois lugares.

Como lhe luzem seixos e burgaus
Roliços! E marinham nas ladeiras
Os renques africanos das piteiras,
Que como aloés espigam altos paus! [...]

Cesário Verde, Nós


I

Tendo em atenção os aspectos morfossintácticos, tónicos e semânticos, elabore um comentário ao excerto do poema Nós, de acordo corn os seguintes tópicos:

- cenários apresentados e intenção subjacente á caracterização analisada;
- intenções do Poeta;
- integração do ser humano nos espaços da cidade e do campo;
- sentimentos evidenciados e sensações sugeridas;
- recursos estilísticos utilizados;
- impressionismo e presença da estética parnasiana.

20.7.07

D. Fernando, infante de Portugal



Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem, Ed. Ática


I

Depois de uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- o tema;
- o desenvolvimento do tema;
- a predestinação do sujeito poético;
- a importância do sonho;
- a expressividade da linguagem;
- a integração do texto na estrutura da obra.


II

Num texto bem organizado, de cento e cinquenta a duzentas palavras, e com base em leituras feitas dos poemas de Mensagem, comprove a verdade do verso a seguir transcrito.
«O mito é o nada que é tudo.»
Fernando Pessoa, Mensagem, Ed. Ática


III

Resuma o excerto seguinte, constituído por trezentas e oitenta e três palavras, num texto de cento e dezoito a cento e trinta e oito palavras.

Poderemos afirmar, com João Gaspar Simões, que «a ideia de escrever um livro da índole da Mensagem, posto tivesse surgido na mente de Fernando Pessoa muito cedo, muito tarde se concretiza - à volta de 1928»? Se «concretizar» significa «realizar», a concretização dura muitos anos, até 1934, data da publicação do livro: se quer dizer «delinear mentalmente», arriscado será aventar qualquer hipótese. O próprio João Gaspar Simões nos dá a conhecer «um apontamento escrito pelo punho do poeta que, embora não datado, deve pertencer à mesma época» (1913), e onde se regista, entre outros projectos, o da publicação dum livro intitulado Gládio: «Gládio - (1) Portugal, (2) Prélio, (3) Mística, (?). Ora os títulos das três partes projectadas parecem corresponder ao plano a que viria a obedecer a Mensagem: Portugal a Brasão, definição poética da nobreza essencial de Portugal; Prélio a Mar Português, cujo lema é «possessio maris» por oposição a «bellum sine bello», lema da primeira parte; Mística a O Encoberto, porquanto místico é na ver¬dade o conteúdo profético da terceira parte, a justificar o lema «Pax in excelsis». Por outro lado, o nacionalismo profético, utópico, impregnava já os artigos de 1912 sobre «A nova poesia portuguesa», onde se anunciava um «supra-Camões». Aliás, numa entrevista ao Diário de Lisboa de 14-XII-1934, o poeta declarou que a Mensagem cristalizara no seu espírito na época do Orpheu (1915). O poema À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, inserto no jornal Acção em Fevereiro de 1920, preludia o profetismo da Mensagem / morto Sidónio, «Precursor do que não sabemos, / Passado de um futuro a abrir», Fernando Pessoa antevê nova encarnação do Encoberto, «um novo verbo ocidental / Incarnado em heroísmo e glória». Portanto, é possível que o autor tenha concebido, nas suas linhas gerais, a Mensagem muito antes de 1928. Mas não há dúvida que as datas acima apontadas revelam que a obra nasce principalmente de três períodos criadores: do primeiro, entre 1918, se não antes, e 1922, resulta Mar Português; o segundo são os últimos meses de 1928, em que surgem predominantemente composições de Brasão; o terceiro são os primeiros meses de 1934, que precedem imediatamente a publicação do volume. Nesta última fase terá Fernando Pessoa integrado todas as poesias já escritas na rigorosa arquitectura (de inspiração heráldica, em Brasão em que por fim se fixou.

Jacinto do Prado Coelho, A Letra e o Leitor, Moraes Ed. (pp.229-230)



18.7.07

Memórias de viagens





Por onde andaram os portugueses dos séculos XV e XVI? Que caminhos seguiram e que dificuldades encontraram? Que novidades trouxeram ao conhecimento de uma Europa inquieta mas interessada? Eis perguntas que exigem, sem dúvida, esclarecimentos tão completos quanto possível.
Todavia, excluídos os casos das grandes figuras, como a de um Vasco da Gama ou de Pedro Álvares Cabral, só raras vezes é possível conhecer com aproximado rigor os caminhos percorridos por esses navegadores, viajantes e aventureiros; com efeito, isso apenas acontece quando da viagem realizada ficou uma relação que o próprio redigiu, ou quando documentação avulsa dela se ocupa, ou, ainda, quando cronistas ou outros escritores próximos dos acontecimentos a ela se referem; tais casos são, evidentemente, excepcionais, pois enquanto esses testemunhos se contam por dezenas, é certamente de muitas centenas ou de milhares o número de viajantes, navegadores e aventureiros que empreenderam digressões cheias de interesse, pelo inesperado e pelo insólito das situações criadas.
Há várias provas de que assim aconteceu, mas apenas registaremos uma. Por meados do século XVI, D. João de Castro queixava-se, em carta ao rei, de que, de cada cem portugueses que a Coroa mandava anualmente à Índia, só dois ou três ficavam ao serviço real, no Exército, na Marinha ou na Administração: todos os restantes se sumiam, dirigindo-se aos mais variados lugares, alguns deles tão longínquos ou recônditos que, como escreveu pitorescamente o governador, não tiveram deles notícia Ptolomeu, considerado ainda o maior dos geógrafos, nem Plínio, autor romano de uma volumosa enciclopédia em que a geografia não está esquecida. Castro terá exagerado, mas a disseminação de muitos milhares de portugueses por toda a Ásia foi um facto, e cada um deles viveria certamente a sua aventura.
E não só pela Ásia. Espalhados por todos os continentes da Terra então conhecidos, aí lutaram e enriqueceram ou levaram uma vida miserável, enraizando-se nos novos lugares encontrados, quando se supunha ter à mão uma quimera fugaz, e se não era obrigado a uma vida errante, dia a dia à procura de melhor sorte.
De alguns, ainda que poucos, podem-se acompanhar as trajectórias, embora sobre elas fre-quentemente incidam sombras impenetráveis. De outros, ainda em menor número, temos os relatos que, como já se disse, eles mesmos deixaram, escritos quase sempre num sentido narrativo, em que se registavam quotidianamente as experiências vividas, e não raro também as adversidades sofridas, quer pelas asperezas da jornada, quer pela animosidade das gentes com que eram forçados a ter contactos.
Muitos passaram sedes e fomes, foram roubados por quadrilhas que vigiavam desertos e serranias e assaltavam as cáfilas durante as noites passadas em planícies agrestes ou em vale inóspitos; outros foram aprisionados por muçulmanos ou por gentios, e até vendidos como escravos; e alguns não terão sobrevivido às provações que os esperavam. Mas quase todos aprenderam as línguas que à sua volta se falavam, observaram argutamente os meios que os rodeavam, foram imaginativos para ultrapassar as dificuldades que se lhes deparavam, e, à sua maneira, contribuíram para o conhecimento deste planeta em que vivemos.

Luís de Albuquerque, Navegadores, Viajantes e Aventureiros
(Texto Adaptado)


I

Responda às quatro questões que se seguem com um máximo de cinco linhas para cada uma.

1. Qual é, segundo o autor, a origem da dificuldade em se " conhecer com aproximado rigor" os caminhos percorridos pelos navegadores, viajantes e aventureiros de que fala o texto?

2. Considera que, segundo o autor, os " portugueses que a Coroa mandava anualmente à Índia" tiveram todos trajectórias de vida idênticas? Justifique, baseando-se no texto .

3. Pode depreender-se do texto que os portugueses foram sempre bem recebidos pelos povos de que se aproximaram? Justifique.



16.7.07

Mar

Mar!

Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...
Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...
Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!
Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!
Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Miguel Torga, Poemas Ibéricos


I

O texto que acabou de ler faz uma evocação do Mar.
1. O poema desenvolve-se, essencialmente, em dois momentos: o apelo irresistível do Mar e as suas consequências.
1.1. Faça uma delimitação textual desses dois momentos.
1.2. Transcreva o verso que faz a sua articulação.

2. Explique a metáfora presente na primeira estrofe.
2.1. Refira e interprete a sua transformação na estrofe 3.

3. A segunda estrofe sugere um apelo de natureza mais humana. Baseando-se no texto, explique esta afirmação.
3.1. Esse choro apelativo do Mar vem "representado" poeticamente dum modo nega¬tivo na 4ª estrofe. Tendo em consideração a linguagem do texto, documente esta afirmação.

4. Atente nos verbos que se encontram no pretérito imperfeito, no pretérito perfeito e no futuro do indicativo.
4.1. Explicite neste contexto o seu valor semântico.


II

Comente o seguinte texto:

Sem deixar de parte um certo comprometimento social, há em Torga um sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto permite a esperança como conduz ao desespero.
Recordando o estudo que fez da obra de Miguel Torga, elabore uma composição em que apresente as principais linhas de pensamento e de personalidade presentes na sua poesia.





13.7.07

No Verão



Belo campo, que vejo donde habito!
Um camponês no seu machinho toca;
À porta da choupana, a fiar na roca,
Uma aldeã, de rosto assaz bonito;

Ouve-se ao longe um prolongado apito;
Cerca a ninhada uma galinha choca;
E um negro grilo, ao limiar da toca,
Faz ouvir, incessante, o seu cricrito.

Os alcatruzes duma antiga nora,
A que dá vida um boi, a passo lento,
Jorram a água, que na pia chora.

Vai-a guiando o lavrador atento,
E esta lida não cessa desde a aurora,
Que o sol abrasa, e nem sequer há vento.

João Penha


I

1. Apresenta o quadro que o poeta observa.

2.
a) Além da visão, que sentido é despertado no poeta?
b) Menciona os factores que estimulam esse sentido.

3. Caracteriza a vida no campo.

4. Identifica um recurso estilístico na descrição da vida no campo e refere o seu valor expressivo.

5.
a) Transcreve do poema um verso indicativo do tempo do ano apontado no título,
b) Divide esse verso em sílabas métricas.

6.
a) Classifica o texto quanto à forma. Justifica.
b) Faz o esquema rimático do poema e indica os tipos de rima que ele apresenta.


II

Numa redacção cuidada, descreve uma cena do campo, da praia ou da cidade que tenha despertado a tua atenção.

12.7.07

Aquela triste e leda madrugada



Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dũa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões


I

1. Releve a razão por que a madrugada nos é apresentada como “triste e leda”.

2. O poeta exprime a sua profunda tristeza. Indique as expressões que dão continuidade ao adjectivo “triste”.

3. Atente nos aspectos morfossintácticos e semânticos mais relevantes.
3.1. Faça um levantamento dos adjectivos e dos verbos que servem a personificação da madrugada.
3.2. Associe a repetição do verbo “ver” ao papel que a madrugada desempenha no poema. ´
3.3. Demonstre que a importância da madrugada é reforçada pelo emprego da anáfora.

4. Identifique as seguintes figuras de estilo:
Triste e leda
Lágrimas em fio
Se acrescentaram em grande e largo rio
Viu as palavras
Tornar o fogo frio

10.7.07

No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia


No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia, Ega, que viera cedo com o Vilaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria, que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta numa grande peliça escura, com um véu dobrado, espesso como uma máscara: e a mesma gaze de luto escondia o rostozinho da pequena, fazendo-lhe um laço sobre a touca. Miss Sara, numa ulster clara de quadrados, sobraçava um maço de livros. Atrás o Domingos, com os olhos muito vermelhos, segurava um rolo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto, que levava “Niniche” ao colo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silêncio, ao vagão-salão, que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ela tirou devagar a luva. E muda, estendeu-lhe a mão.
─ Ainda nos vemos no Entroncamento − murmurou Ega. − Eu sigo também para o Norte.
Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao ver sumir-se naquela carruagem de luxo, fechada, misteriosa, uma senhora que parecia tão bela, de ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a portinhola, o Neves, o d’ “A Tarde” e do Tribunal de Contas, rompeu de entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão:
─ Quem é?
Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cair no ouvido, já muito adiante, tragicamente:
─ Cleópatra!
O político, furioso, ficou rosnando: “Que asno! …”. Ega abalara. Junto do seu compartimento, Vila-ça esperava, ainda deslumbrado com aquela figura de Maria Eduarda, tão melancólica e nobre. Nunca a vira antes. E parecia-lhe uma rainha de romance.
─ Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bela mulher! Dá-nos uma bolada, mas é uma soberba praça!
O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de cores sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda furioso, vendo o Ega à portinhola, atirou-lhe de lado, disfarçadamente, um gesto obsceno.
No Entroncamento, Ega veio bater nos vidros do salão, que se conservava fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sara lia a um canto, com a cabeça numa almofada. E “Niniche” assustada ladrou.
─ Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
─ Não, obrigada…
Ficaram calados, enquanto Ega, com o pé no estribo, tirava lentamente a charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a máquina resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com olhares curiosos e já lânguidos para aquela magnífica mulher, tão grave e sombria, envolta na sua peliça negra.
─ Vai para o Porto? − murmurou ela.
─ Para Santa Olávia…
─ Ah!
Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
─ Adeus!
Ela apertou-lhe a mão com muita força, em silêncio, sufocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracolo, que corriam a beber à cantina. À porta do bufete voltou-se ainda, ergueu o chapéu. Ela, de pé, moveu de leve o braço, num lento adeus. E foi assim que ele, pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.

Eça de Queirós, Os Maias


I

1 – Integra o excerto na estrutura da obra a que pertence.

2 – Justifica a presença de Ega neste momento da intriga.

3 – O comportamento evidenciado por Ega neste passo contrasta com o de outros momentos da obra.
3.1 – Indica o sentimento que o domina neste momento, justificando a resposta com referências às atitudes que revelam tal sentimento.
3.2 – Transcreve dois advérbios de modo que salientem esse mesmo sentimento.
3.3 – Justifica a brevidade do diálogo entre ele e Maria Eduarda.

4 – O luto usado pelas personagens femininas tem uma justificação objectiva mas pode conter uma carga simbólica. Explicita uma e outra.

5 – Confronta a visão de Maria Eduarda que este excerto nos dá com a de outros momentos importantes da intriga.
6 – Atenta na expressão: “véu dobrado, espesso como uma máscara”.
6.1 – Classifica a figura de estilo presente na expressão sublinhada.
6.2 – Dá a tua interpretação pessoal acerca dessa expressão.

7 – Aponta marcas características da linguagem e do estilo queirosianos presentes no texto.

8 – O universo ficcional sugerido pelo título da obra cruza-se, neste como noutros passos, com o universo ligado ao subtítulo. Justifica esta afirmação com base no texto.


II

Atenta na seguinte frase:

A partir da acção fulcral − amores de Carlos e Maria Eduarda − Eça de Queirós pretendeu, em Os Maias, retratar a sociedade portuguesa dos fins do século XIX.

Numa composição cuidada, mostra como a acção central e a comédia de costumes se entrelaçam e se complementam artisticamente de forma a dar à obra uma unidade incontestável.



9.7.07

Escolha Múltipla

TEXTO JORNALÍSTICO em 5 minutos


1. À secção que divulga alguma correspondência chegada ao jornal, chama-mos:
A. ? Ponto da situação.
B. ? Ajuste de Contas.
C. ? Correio do Leitor.
D. ? Ganda Seca!

2. Na escrita jornalística, deve evitar-se:
A. ? termos técnicos, estrangeirismos e calão.
B. ? utilizar a pirâmide invertida.
C. ? usar o corrector ortográfico.
D. ? a concisão e a simplicidade.

3. A entrevista pessoal deve transmitir as sensações de
A. ? sabedoria e experiência do entrevistador.
B. ? coscuvilhice e curiosidade mórbida.
C. ? proximidade e intimidade com o entrevistado.
D. ? perseguição e humilhação do entrevistado.

4. A crónica jornalística pode definir-se como um texto
A. ? de opinião, sobre a actualidade, próxima do texto literário.
B. ? de ocasião, sobre a actualidade, próxima do texto culinário.
C. ? de corrosão, sobre a actualidade, próxima do texto itinerário.
D. ? de ocasião, sobre a banalidade, próxima do texto literário.

5. A reportagem consiste num trabalho de
A. ? análise de relatórios e memorandos.
B. ? investigação policial.
C. ? pesquisa e observação directa.
D. ? abordagem de temas caídos no esquecimento.

6. Uma notícia bem redigida deve responder às questões:
A. ? Quem é ela? Como se chama? De onde é? Tem namorado?
B. ? Quem?. O quê?. Adonde?. Quando? Como? Porquê?
C. ? Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Porquê?
D. ? A quem? O quê? Onde? Quando? Como? Porquê?

7. Na reportagem, o jornalista deve mostrar que:
A. ? não tem medo de nada.
B. ? omitiu todos os factos.
C. ? esteve junto dos fatos.
D. ? esteve junto dos factos.

8. Uma entrevista corre melhor, se
A. ? fizermos perguntas banais.
B. ? houver uma preparação prévia.
C. ? o entrevistado falar várias línguas.
D. ? dermos dinheiro ao entrevistado.

9. Em jornalismo, chamamos breve a
A. ? uma nota musical.
B. ? uma notícia curta.
C. ? uma notícia sobre algo que acontece muito depressa.
D. ? um artigo de análise.

10. O artigo de análise implica
A. ? sempre com o artigo esgotado.
B. ? vontade de implicar.
C. ? uma equipa jornalística muito numerosa.
D. ? um sólido domínio dos temas abordados.

11. A pirâmide invertida consiste em:
A. ? apresentar os factos por ordem irrelevante.
B. ? apresentar os factos por ordem decrescente de importância.
C. ? deixar o Egipto de pernas para o ar.
D. ? apresentar os factos por ordem crescente de importância.

12. A um texto que explana o pensamento ou posição da direcção de um órgão de comunicação social, damos o nome de:
A. ? pasquim ou folha de couve.
B. ? panegírico.
C. ? editorial.
D. ? correio do leitor.

13. Os artigos de opinião são redigidos:
A. ? com base na técnica da pirâmide invertida.
B. ? por jornalistas ou outras pessoas convidadas.
C. ? uma semana antes do fecho de edição, por estagiários.
D. ? exclusivamente por jornalistas.

14. Selecciona o conjunto que corresponde aos três critérios jornalísticos:
A. ? actualidade, interesse e verticalidade.
B. ? actualidade, interesse e significado.
C. ? peixeirada, sexo e coscuvilhice.
D. ? actualidade, interesses e verticalidade

15. Uma notícia tradicional divide-se em:
A. ? Cabeça, tronco e membros.
B. ? título, lead e raiz da notícia.
C. ? título, lead e corpo da notícia.
D. ? título, linda e corpo da notícia.

16. Numa notícia clássica, os factos mais importantes:
A. ? devem surgir na parte inicial da mesma.
B. ? devem ser relegados para segundo plano.
C. ? devem ser omitidos e obliterados.
D. ? devem ser analisados por especialistas.

17. A uma entrevista colectiva damos o nome de:
A. ? diálogos tripartidos.
B. ? debate.
C. ? conferência de imprensa.
D. ? peixeirada.

18. O leitor médio gasta
A. ? menos de 20 minutos a ler o jornal.
B. ? uma batelada de dinheiro em pipocas.
C. ? mais de 20 minutos a ler o jornal.
D. ? mais de 2 horas a ler o jornal.

19. Num texto jornalístico, a linguagem deve ser
A. ? acessível, corrente e técnica.
B. ? simples, rara e concisa.
C. ? simples, clara e concisa.
D. ? simples, clara e estupidificante.

20. No estilo jornalístico, as frases deverão ter
A. ? 12 a 50 palavras.
B. ? 16 a 30 palavras.
C. ? mais de 10 centímetros
D. ? 2 a 7 palavras.






No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia




No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia, Ega, que viera cedo com o Vilaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria, que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta numa grande peliça escura, com um véu dobrado, espesso como uma máscara: e a mesma gaze de luto escondia o rostozinho da pequena, fazendo-lhe um laço sobre a touca. Miss Sara, numa ulster clara de quadrados, sobraçava um maço de livros. Atrás o Domingos, com os olhos muito vermelhos, segurava um rolo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto, que levava "Niniche" ao colo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silêncio, ao vagão, que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ela tirou devagar a luva. E muda, estendeu-lhe a mão.
- Ainda nos vemos no Entroncamento - murmurou Ega. - Eu sigo também para o Norte.
Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao ver sumir-se naquela carruagem de luxo, fechada, misteriosa, uma senhora que parecia tão bela, de ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a portinhola, o Neves, o d' "A Tarde" e do Tribunal de Contas, rompeu de entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão:
- Quem é?
Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cair no ouvido, já muito adiante, tragicamente:
- Cleópatra!
O político, furioso, ficou rosnando: "Que asno!..." Ega abalara. Junto do seu compartimento, Vilaça esperava, ainda deslumbrado com aquela figura de Maria Eduarda, tão melancólica e nobre. Nunca a vira antes. E parecia-lhe uma rainha de romance.
- Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bela mulher! Dá-nos uma bolada, mas é uma soberba praça!
O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de 30 cores sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda furioso, vendo o Ega à portinhola, ati-rou-lhe de lado, disfarçadamente, um gesto obsceno.
No Entroncamento, Ega veio bater nos vidros do salão, que se conservava fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sara lia a um canto, com a cabeça numa almofada. E "Niniche" assustada ladrou.
- Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
- Não, obrigada...
Ficaram calados, enquanto Ega, com o pé no estribo, tirava lentamente a charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a máquina resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com olhares curiosos e já lânguidos para aquela magnífica mulher, tão grave e sombria, envolta na sua peliça negra.
- Vai para o Porto? - murmurou ela.
-Para Santa Olávia...
- Ah!
Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
- Adeus!
Ela apertou-lhe a mão com muita força, em silêncio, sufocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracolo, que corriam a beber à cantina. À porta do bufete voltou-se ainda, ergueu o chapéu. Ela, de pé, moveu de leve o braço, num lento adeus. E foi assim que ele, pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, gran-de, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.

Eça de Queirós, Os Maias


I


1. Recordando que n'Os Maias se entrelaçam dois níveis diegéticos:
1.1 Indique em que nível diegético se situa este excerto. Justifique.
1.2 Localize este excerto na acção d'Os Maias.

2. Justifique a presença de Ega neste momento da intriga.

3. O comportamento evidenciado por Ega neste passo contrasta com o de outros momentos da obra.
3.1. Indique o sentimento que o domina neste momento, justificando a resposta com referências às atitudes que revelam tal sentimento.
3.2. Justifique a brevidade do diálogo entre ele e Maria Eduarda.
3. Explicite devidamente o valor real e o valor simbólico do luto usado pelas personagens femininas.

4. Confronte a visão que este excerto nos dá de Maria Eduarda com a de outros momentos impor-tantes da intriga.

5. Releia a intervenção de Vilaça neste excerto.
5.1. Indique e comente o registo de língua por ele usado.
5.2. Indique a funcionalidade da sua intervenção neste contexto particular.

6. Atente na linguagem utilizada para caracterizar as atitudes do Neves.
6.1. Aponte e comente os aspectos estilísticos que exprimem a visão crítica do narrador sobre essa personagem.
6.2. Explicite o conteúdo dessa crítica.

7. Relacione este excerto com o universo ficcional sugerido pelo título da obra e com o universo ligado ao subtítulo. Justifique esta afirmação com base no texto.


II

«Os Maias são, superficialmente um fresco caricatural da sociedade portuguesa do séc. XIX em forma de crónica de costumes, com fortes características de romance folhetinesco. Retrato vivo e dramático, pintado com paciência, esmero, e um extraordinário sentido das cores e dos contrastes. Sem a vitalidade que a existência real oferece à ficção, o romance seria um monumental fracasso.»

Machado da Rosa, Eça, discípulo de Machado


Evocando a tua experiência de leitura, comenta, num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, o excerto transcrito.


5.7.07

Esteiros


TEXTO A
Devido às copiosas chuvadas que têm caído nos últimos dias, alguns dos afluentes do Tejo, nomeadamente o Alviela e o Rio Maior, aumentaram de caudal.
Assim, são já numerosos os campos que se encontram alagados e, a partir de hoje, ficou cortada ao trânsito, pelas águas do Alviela, a estrada que liga Vale de Figueira ao Pombalinho, no sítio dos Chões.
A manter-se o actual estado é natural que a situação se agrave e o Ribatejo venha a sofrer uma pequena cheia.

O Século, 14/1/73


TEXTO B
As cheias cobriram de água os olhos dos camponeses. Perdidas as margens, o rio fez-se mar—mar de aflições.
Mas ali do Mirante, sobranceiro à casa do Gaitinhas, a gente que veio da cidade, em automóveis, não via angústias, nem olhos rasos de água. Assentou binóculos sobre a lezíria, e as lentes aproximaram telhados de casas submersas, telheiros desmantelados, copas esguias de choupos como dedos de náufrago. Ao longe, dentro da capela bloqueada, a Senhora de Alcamé decerto bradava aos Céus.
— Que formidável espectáculo!
— E não querias tu vir...
— As águas ainda subirão mais? — perguntou alguém. Um homem daqueles sítios disse que sim.
— O cabeço d'água é só depois de amanhã...
Ia-se a torre cimeira da capela. E o sino calado, impotente...

SOEIRO PEREIRA GOMES, Esteiros



I

Lê o texto A e responde às perguntas seguintes:

Refere as consequências do tempo atmosférico que marcou a região mencionada no texto.
Indica a função da linguagem que predomina no texto e aponta as respectivas marcas.


II

Lê o texto B e responde às seguintes questões:

1. O acontecimento descrito no texto é encarado de duas formas diferentes. Justifica.

2. Explica as frases seguintes:
a) "[...] o rio fez-se mar—mar de aflições."
b) "Assentou binóculos sobre a lezíria, e as lentes aproximaram telhados de casas submersas, telheiros desmantelados, copas esguias de choupos corno dedos de náufrago."

3."As cheias cobriram de água os olhos dos camponeses.”
a) Refere o sentido em que está utilizada a palavra sublinhada,
b) Extrai do texto uma frase em que a mesma palavra seja aplicada com outro sentido.

4. "E o sino calado, impotente..."
a) Identifica o recurso estilístico que está presente nesta frase e define-o.
b) Justifica o emprego desse recurso estilístico.


III
1. Menciona as ideias comuns aos dois textos apresentados.

2. Apresenta as características dos textos A e B que os distinguem em termos de literariedade.



2.7.07

Casinhas de prazeres



Moro num 13.º andar, sem prédios do outro lado da rua. Ao longe, vejo a Serra de Sintra. Fm frente, passam aviões e, lá em baixo, distantes, automóveis. Estou na minha torre. Levará muitos anos, suponho, até os estendais cie roupa interior dos vizinhos entrarem na minha intimidade. Imaginava-me, pois, um lis-boeta afortunado. Ate que um amigo mais perspicaz comentou assim: «A tua casa tem um grande defeito. Não consegues ver as casas dos outros. Nunca poderão viver aqui pessoas de idade como a tua mãe ou os teus sogros.» Verdade.
Aqui recuei à infância, na ilha. Cresci num casarão de família, com grande quintal, não sei quantos quartos e janelas sobre a vizinhança. O chá que tomámos em meninos, ou aquilo que se convencionou chamar educação, impedia-nos de espreitar indiscretamente para os territórios vizinhos. Tínhamos pudor em comentar porta a porta a vida alheia e muito menos «bilhardar» - sinónimo ilhéu do verbo mexericar.
Mas, por detrás desta compostura burguesa, todas as janelas da minha rua estavam aparelhadas com tapa-sóis em tabuinhas de madeira, à italiana; os quais possuem ripas centrais móveis, de articulação horizontal, adaptadas ao olhar, de modo a afinar o ângulo discreto da visão aos acontecimentos da vizinhança. E assim se criava um voyeurismo típico da Rear W/wi/oio' de Hitchcock, salvas as devidas proporções. Como nas nossas famílias coabitavam várias gerações, com um excesso de tias-avós solteironas, encontrava-se assim adequada ocupação às tristes donzelas sem outros entreténs para além dos folhetins do Diário de Notícias e dos espectáculos trimestrais dos manos Clodes na Sociedade de Concertos da Madeira.
Sabíamos quem entrava ou saía, a que horas almoçava o senhor Jaime da Botica e até seria possível calcular o volume de negócios do senhor Leonel da Drogaria Insulana, a avaliar pelas vezes que manufacturava, no terraço da sua residência - com toda a assepsia, aliás -, a milagrosa Pomada de São Tomé -esplêndido calicida, anriescrofuloso, contra borbulhas e furúnculos, impigens e outras maleitas da pele.
Esta actividade voyeurista era tão importante que, nos anos, quando o meu avó quis construir a casa em local de fundações fáceis, a meio da propriedade, logo o elemento feminino contestou. Qual nada, teria de ser à beira da Rua Conde Carvalhal, para ver quem passava.
As moradias funchalenses dessa época possuíam curiosos anexos, em mirante, sobre os caminhos, com telhados de colmo ou folha-de-flandres e janelas de tapa-sóis. Chamavam-se «casinhas de prazeres». Mais do que locais para amores fortuitos - aliás, rapidamente detectá-veis -, destinavam-se à arte de bisbilhotar, ao prazer de ver sem ser visto, enquanto se fazia renda, bebendo chazinho com leite ou algum sumo de maracujá.
Nunca tivemos casinha de prazeres. Naturalmente desnecessária, porquanto os andares desafogados sobre a estrada dominavam quanto baste as redondezas. Recordo-me de um episódio, aí por 1957, quando a menina Quintal, nossa vizinha do lado, recebeu a irmã e o cunhado, retornados de África. Pois no dia da chegada, lá estava a minha tia Fernanda, por detrás dos tapa-sóis, no registo dos acontecimentos. E aqui, o suspense.
Depois das malas de porão, desembarcaram caixotinhos com respiradouros em arame de galinheiro, por onde espreitavam dúzias de orelhas, e nem os binóculos-pérola de levar aos concertos do teatro - substituídos mais tarde por prismáticos japoneses adquiridos de contrabando em Canárias - permitiram ™ identificar a fauna enjaulada. Eram simplesmente rafeiros afr-canos, João, José, Luís, Alice, etc., todos com nome de gente, que dormiam dentro de casa, em camas individuais, com cobertas próprias.
Entretanto, não batia a bota com a perdigota. Porque, por muitos apuros contabilísticos, sobrava um cão ou faltava um enxoval. Até se descobrir que o caçula chamado «Bebé» era teúdo e manteúdo no próprio tálamo conjugal dos novéis vizinhos. O Senhor Ministro - petit nonr logo atribuído pela minha tia Fernanda ao africanista, considerando a pose, a indumentá-ria, o chapéu de coco, o discurso palavroso ã lisboeta do Porto Santo... -, dizia eu, quem o vis-se, impante, mandando postas de pescada na esplanada do Golden, nunca imagina- &u ria encontrar-se perante o pai da mais ampla cachorrada.
Costume bárbaro felizmente em desuso, este voyeurismo? Nem tanto. Ignoro completamente o dia-a-dia dos meus condóminos de patamar. Nem sei se têm periquitos em casa. Estamos à vontade. Mas quebrou-se algum espírito de solidariedade e de entreajuda, sedimentado naturalmente nessas pequenas inconfidências secretamente partilhadas. E o certo é que estamos mais sós. Fazia-me falta uma casinha de prazeres.

Ricardo França Jardim, Arsénico e Rendas Velhas, s. d.



Expressão francesa: alcunha só conhecida t utilizada por um círculo restrito de pessoas.



I

1. Divida o texto em partes lógicas, justificando essa divisão.

2. Atente nas expressões:
«com toda a assepsia» (l. 28); «actividade voyeurista» (l. 31); «amores fortuitos» (l. 38); «não batia a bota com a perdigota» (l. 54]; «teúdo e manteúdo» (l. 56); «tálamo conjugal» (l, 56); «mandando postas de pescada» (l. 60); «inconfidências secretamente partilhadas» (II. 65-66).
2.1. Procure esclarecer o seu sentido.
2.2. Identifique os registos de língua utilizados.

3. Segundo a memória evocada no texto, que elementos das famílias funchalenses sentiam mais necessidade de observar a vida dos outras? Porquê? Recolha do texto as expressões que fundamentam as respostas anteriores.

4. O cronista narra-nos um episódio sucedido com a irmã e o cunhado da menina Quintal, retornados de África,
4.1. Reconte esse episódio.
4.2. Mostre que a curiosidade dos observadores era muito forte.

5. «E o certo é que estamos mais sós. Fazia-me falta uma casinha de prazeres.»
Comente a observação final do cronista, discutindo, nomeadamente, se pode haver um lado positivo na curiosidade em relação aos outros.




Vénus Citereia


Texto A


A casa, depois de arranjada, ficou vazia enquanto Carlos, já formado, fazia uma longa viagem pela Europa; - e foi só nas vésperas da sua chegada, nesse lindo Outono de 1875, que Afonso se resolveu enfim a deixar Santa Olávia e vir instalar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco anos que ele não via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias, confessou ao Vilaça que estava suspirando outra vez pelas suas sombras de Santa Olávia. Mas, que remédio! Não queria viver muito separado do neto; e Carlos agora, com ideias sérias de carreira activa, devia necessariamente habitar Lisboa... De resto, não desgostava do Ramalhete, apesar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter prodigalizado de mais as tapeçarias, os pesados reposteiros e os veludos. Agradava-lhe também muito a vizinhança, aquela doce quietação de subúrbio adormecido ao sol. E gostava até do seu quintalejo. Não era decerto o jardim de Santa Olávia: mas tinha o ar simpático, com os seus girassóis perfilados ao pé dos degraus do terraço, o cipreste e o cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Vénus Citereia parecendo agora, no seu tom claro de estátua de parque, ter chegado de Versalhes, do fundo do Grande Século... E desde que a água abundava, a cascatazinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus três pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucólico, melancolizando aquele fundo de quintal soalheiro com um pranto de náiade doméstica, esfiado gota a gota na bacia de mármore.
O que desconsolara Afonso, ao princípio, fora a vista do terraço - donde outrora, decerto, se abrangia até ao mar. Mas as casas edificadas em redor, nos últimos anos, tinham tapado esse horizonte esplêndido. Agora, uma estreita tira de água e monte que se avistava entre dois prédios de cinco andares, separados por um corte de rua, formava toda a paisagem defronte do Ramalhete. E,todavia, Afonso terminou por lhe descobrir um encanto íntimo. Era como uma tela marinha, encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do céu azul em face do terraço, mostrando, nas variedades infinitas de cor e luz, os episódios fugitivos de uma pacata vida de rio: às vezes uma vela de barco da Trafaria fugindo airosamente à bolina; outras vezes uma galera toda em pano, entrando num favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou então a melancolia de um grande paquete, descendo, fechado e preparado para a vaga, entrevisto um momento, desaparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no pó de ouro das sestas silenciosas, o vulto negro de um couraçado inglês... E sempre ao fundo o pedaço de monte verde¬negro, com um moinho parado no alto, e duas casas brancas ao rés da água, cheias de expressão - ora faiscantes e despedindo raios das vidraças acesas em brasa; ora tomando aos fins de tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros do poente, quase semelhantes a um rubor humano; e de uma tristeza arrepiada nos dias de chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste.



Texto B

Ega sentara-se também no parapeito, ambos se esqueceram num silêncio. Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez de inverno, tinha a melancolia de um retiro esquecido que já ninguém ama: uma ferrugem verde de humidade cobria os grossos membros da Vénus Citereia; o cipreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos num ermo; e mais lento corria o prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gota a gota na bacia de mármore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela marinha nas cantarias dos dois altos prédios, a curta paisagem do Ramalhete, um pedaço de Tejo e monte, tomava naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado, preparado para a vaga, ia descendo, desaparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto; no alto da colina o moinho parara, transido na larga friagem do ar; e nas janelas das casas à beira de água um raio de sol morria, lentamente sumido, esvaído na primeira cinza do crepúsculo, como um resto de esperança numa face que se anuvia.
Então, naquela mudez de saudade e de abandono, Ega, com os olhos para o longe, murmurou devagar:
- Mas tu desse casamento não tinhas a menor indicação, a menor suspeita?
- Nenhuma... Soube-o de repente pela carta dela em Sevilha.
E era esta a formidável nova anunciada por Carlos, a nova que ele logo contara de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraços, em Santa Apolónia. Maria Eduarda ia casar.


Eça de Queirós, Os Maias


I

1. Localize os textos A e B apresentados.

2. Refira, sucintamente, o assunto de cada texto.

3. Faça a caracterização de Afonso da Maia (texto A).

4. Quais os estados de espírito de Ega e Carlos (texto B).

5. Retire duas expressões diferentes (uma de cada texto) que revelem atitudes subjectivas em relação ao jardim.

6. Que afinidades existem entre estes textos.

7. Caracterize, com palavras do texto, os elementos descritos comum aos dois textos e retire as suas próprias conclusões.

8. Qual o modo de expressão dominante em ambos os texto?

9. Que importância atribui ao facto de ambos os textos possuírem semelhante assunto e referência a espaços também comuns?

10. Qual a importância destes textos na economia da obra?

11. Indique os recursos estilísticos presentes nos seguintes exemplos, mencionando a respectiva expressividade:

• “confessou ao Vilaça que estava suspirando outra vez pelas sombras de Santa Olávia”
• “subúrbio adormecido ao sol”
• “o cipestre e o cedro adormecendo juntos como tristes amigos”
• “Era como uma tela marinha”
• “vidraças acesas em brasa”
• “cobertas dos rosados tenros do poente”
• “um raio de sol morria”

12. Insere o autor na corrente literária a que pertence, mencionando as principais características desta.