28.4.07

Dedicatória (C.I, 7-10)

7
Vós, tenro e novo ramo florecente,
De hüa árvore, de Cristo mais amada
Que nenhüa nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas e deixou
As que Ele pera Si na cruz tomou);

8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando dece o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco Oriental e do Gentio
Que inda bebe o licor do santo Rio:

9
Inclinai por um pouco a majestade
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno Templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto I



I

1. A quem é que Camões dedica Os Lusíadas?

2. Que elogios faz o poeta à personagem a quem dedicou a obra?

3. Que pedido lhe faz o poeta?

4. Tendo em conta o que diz a estrofe 10, indique as razões levam Camões a escrever Os Lusíadas.

5. Diga o que entende por «torpe Ismaelita» e «senhor superno».

6. Explique a formação das palavras florecente, valerosos e inda.

7. Faça a análise formal (estrofe, métrica e rima) da estância número 8.

8. Atente nos seguintes versos: «E julgareis qual é mais excelente, / Se ser do mundo Rei, se de tal gente».

8.1. Divida e classifique as orações.

8.2. Classifique morfologicamente as palavras da segunda oração.

8.3. Faça a análise sintáctica da primeira oração.


II

Numa composição cuidada, procure explicar as razões que levaram Camões a dedicar Os Lusíadas a uma ilustre personagem e que terá ganho o poeta com a protecção da mesma.

23.4.07

O jardim do Ramalhete




Carlos, por fim, conseguiu abrir largamente as duas portadas de uma janela. No terraço morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar puro, ali ficaram de pé, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda por um ou outro espirro retardado.
– Que infernal invenção! – exclamou Carlos, indignado.
Ega, ao fugir com o lenço na face, tropeçara, batera contra um sofá, coçava a canela:
– Estúpida coisa! E que bordoada que eu dei!...
Voltou a olhar para a sala, onde todos os móveis desapareciam sob os largos sudários brancos. E reconheceu que tropeçara na antiga almofada de veludo do velho «Bonifácio». Pobre «Bonifácio»! Que fora feito dele?
Carlos, que se sentara no parapeito baixo do terraço, entre os vasos sem flor, contou o fim do «Reverendo Bonifácio». Morrera em Santa Olávia, resignado, e tão obeso que se não movia. E o Vilaça, com uma ideia poética, a única da sua vida de procurador, mandara-lhe fazer um mausoléu, uma simples pedra de mármore branco, sob uma roseira, debaixo das janelas do quarto do avô.
Ega sentara-se também no parapeito, ambos se esqueceram num silêncio. Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez de Inverno, tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama: uma ferrugem verde, de humidade, cobria os grossos membros da Vénus Citereia; o cipreste e o cedro envelheciam juntos, como dois amigos num ermo; e mais lento corria o prantozinho da cascata, esfiado saudosamente, gota a gota, na bacia de mármore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela marinha nas cantarias dos dois altos prédios, a curta paisagem do Ramalhete, um pedaço de Tejo e monte, tomava naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado, preparado para a vaga, ia descendo, desaparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto: no alto da colina o moinho parara, transido na larga friagem do ar; e nas janelas das casas, à beira da água, um raio de sol morria, lentamente sumido, esvaído na primeira cinza do crepúsculo, como um resto de esperança numa face que se anuvia.

Eça de Queirós, Os Maias, cap. XVIII



I

1. Integre este excerto na estrutura global da obra.

2. Que atitude revelam as personagens perante o espaço que as rodeia?

3. Refira o valor simbólico da descrição do jardim do Ramalhete e da paisagem que dele se observa.

4. Faça o levantamento dos principais recursos de estilo e comente o seu valor expressivo.

5. Considerado romance de família por uns, romance de personagem por outros, romance de espaço por outros ainda, Os Maias são, com certeza, uma obra narrativa cuja acção se centra em torno de uma personagem – Carlos.

5.1. Justifique esta afirmação, tendo em conta não apenas a intriga, mas também a crónica de costumes.


II

Duas estéticas literárias surgem confrontadas em Os Maias, através de personagens que manifestamente as representam. Partindo da caracterização dessas personagens, refira, numa composição cuidada, as características de tais estéticas.



19.4.07

Antes de Começar



De repente, no silêncio, o Boneco e a Boneca descobrem, maravilhados, que podem comunicar.

1. Por que não tinha o Boneco descoberto há mais tempo que a sua companheira se mexia e falava?

2. E ela, por que razão não tinha feito o mesma descoberta em relação ao amigo?

3. O Boneco tentou «puxar» pela Boneca. Porque não reagiu ela?

4. Mas o Boneca nunca tentou puxar pelo Boneco. Porque não?

5. «Se eu soubesse que lu eras como eu!»
«Se eu soubesse que também lu eras assim!»
5.1.Como interpretas estas falas de ambos as personagens?

6. Sente-se ao longo do diálogo que, embora sendo ambos bonecos, têm traços que os distinguem bastante. Quais?

7. «É por causa do Homem ...Coitado, se ele soubesse que nós mexemos!...»
7.1 Temiam a reacção do Homem se descobrisse que eles mexiam. Mas será que ele não desejava isso mesmo?
7.2 Fundamenta a tua resposta com elementos do texto.

8. Será que não poderíamos atribuir a este fragmento da peça o título: O Desejo e o Medo de Comunicar?. Justifica.

Arrancou como um doido


Espavorido, doído no corpo e na alma, saltou para a moto e arrancou como um doido ou um furacão disposto a cortar a noite ao meio, de um só fôlego, com a moto a descarregar a raiva que ele sentia. A raiva de ter gasto tempo e latim com uma miúda que não merecia, que não O merecia! Que raiva!
Acordou sentindo uma moleza estranha a invadir-lhe todo o corpo. A cama não era a sua. Nem o quarto... Moveu a cabeça lentamente para a direita e percebeu que estava num hospital, provavelmente numa unidade de cuidados intensivos. Não sentia nada. Talvez já nem estivesse vivo, pensou. Que teria acontecido? Fez um esforço de memória, mas nada recordava.
Quando viu entrar uma enfermeira, pôde, de facto, confirmar que não estava nos anjinhos. Estava, isso sim, no purgatório (na melhor das hipóteses, pensou).
- Vais dizer-me o número de telefone de tua casa. Devagarinho, sim? A voz da enfermeira soou-lhe como se viesse de muito longe.
- Que foi que me aconteceu? - inquiriu a custo.
- Não te canses. Tiveste um acidente, mas agora estás entregue. O número...
Ele lá ditou o número de telefone, realmente muito devagar, começando a compreender que não sentia as pernas. O pânico estava a invadi-lo, mas preferiu não fazer perguntas. A enfermeira saiu e foi nesse momento que ele se apercebeu da presença de outro doente, na cama ao lado. Era um homem de idade avançada e parecia estar a morrer. O Ricardo quis levantar-se, fugir dali para bem longe, mas o corpo não lhe obedeceu. Chamou então a enfermeira, que apareceu imediatamente:
- O médico já cá veio ver-te. Está descansado. O doutor Rodrigues deve estar a chegar e ele é que dirá o que vamos fazer. Daqui a pouco já vais ver os teus pais, não te preocupes. Agora tenta dormir. Shhh...
Dormir?! Como?! E daí... Sentia-se exausto, na verdade. Completamente desprovido de forças. Não se reconhecia. Lentamente, fechou os olhos tentando abstrair-se dos gemidos do velhote. Talvez tudo aquilo fosse um pesadelo, pensou. Muito real, era certo, mas demasiado macabro para que não passasse disso mesmo: um pesadelo.
Tentou novamente mexer as pernas, mas em vão. Era com certeza um pesadelo.

Maria Teresa Maia Gonzalez, Ricardo, o Radical


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O primeiro parágrafo permite-nos caracterizar a personagem como:
a. arrogante e exaltada
b. convencida e impulsiva
c. atarefada e importante

1.2. A expressão "ter gasto tempo e latim" permite-nos saber que a personagem:
a. tentou convencer pela palavra
b. foi paciente
c. falou muito tempo em latim

2. Relê o primeiro parágrafo.
2.1. Transcreve duas palavras homógrafas.
2.2. Na expressão "que não O merecia!", identifica a classe morfológica da palavra "O" e a função sintáctica que exerce.
2.3. Explica o emprego da maiúscula na expressão transcrita na questão anterior

3. Elabora uma frase que estabeleça uma relação de sentido entre o primeiro e o segundo parágrafos.

4. Qual o motivo do pânico de Ricardo? (oitavo parágrafo)

5. O que dava à situação um aspecto macabro? (décimo parágrafo)

6. Reescreve os dois últimos períodos do oitavo parágrafo, iniciando-os por:
Se o Ricardo quisesse…

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase final.

Era com certeza um pesadelo.

17.4.07

O primeiro livro de cada uma das minhas vidas


Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro livro de minha vida. Prefiro falar do primeiro livro de cada uma de minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro fininho que contava a história do patinho feio e da lâmpada de Aladim. Eu lia e relia as duas histórias, criança não tem disso de só ler uma vê?: criança quase aprende de cor e, mesmo quase sabendo de cor, relê com muito da excitação da primeira vez. A história do patinho que era feio no meio dos outros bonitos, mas quando cresceu revelou o mistério: ele não era pato e sim um belo cisne. Essa história me fez meditar muito, e identifiquei-me com o sofrimento do patinho feio — quem sabe se eu era um cisne?
Quanto a Aladim, soltava minha imaginação para as lonjuras do impossível a que eu era cré-dula: o impossível naquela época estava ao meu alcance. A ideia do génio que dizia: pede de mim o que quiseres, sou teu servo - isso me fazia cair em devaneio. Quieta no meu canto, eu pensava se algum dia uni génio me diria: «Pede de mini o que quiseres.» Mas desde então revelava-se que sou daqueles que têm que usar os próprios recursos para terem o que querem, quando conseguem.
Tive várias vidas. Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narízinho. Já contei o sacrifício de humilhações e perseverantes pelo qual passei, pois, já pronta para ler Monteiro Lobato, o livro grosso pertencia a urna menina cujo pai tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se vingara tornando--se sádica e, ao descobrir o que valeria para mim ler aquele livro, fez uni jogo de amanhã venha em casa que eu empresto». Quando eu ia, com o coração literalmente batendo de alegria, ela me dizia: «Hoje não posso emprestar, venha amanhã.» Depois de cerca de um mês de venha amanhã, o que eu, embora altiva que era, recebia com humildade para que a menina não me cortasse de vez a esperança, a mãe daquele primeiro monstrinho de minha vida notou o que se passava e, um pouco horrorizada com a própria filha, deu-lhe ordens para que naquele mesmo momento me fosse emprestado o livro. Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida.
Em outra vida que tive, eu era sócia de uma biblioteca popular de aluguel. Sem guia escolhia os livros pelo título. E eis que escolhi um dia um livro chamado O Lobo da Estepe de Hernan Hesse. O título me agradou, pensei tratar-se de um livro de aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura, sim, mas outras aventuras. E eu, que já escrevia pequenos contos, dos 13 aos 14 anos, fui germinada por Herman Hesse e comecei a escrever um longo conto, imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura.
Em outra vida que tive, aos 15 anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva, porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a autora não era anónima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Kathenne Mansfield.

Clarice Lispector, in Aprendendo a Viver - Crónica Brasileira


I

1. A cronista apresenta-nos o seu percurso de vida, enquanto leitora, até aos quinze anos.
1.1. Explique a expressão "Prefiro falar do primeiro livro de cada uma de minhas vidas», tendo em atenção a leitura global do texto.
1.2. Indique os livros que mais a marcaram na infância.

2. No terceiro parágrafo, a autora da crónica narra um episódio sobre um livro que lhe foi emprestado.
2.1. Explique os obstáculos enfrentados pela cronista para conseguir fruir o prazer da leitura de Reinações de Narizinho.
2.2. Caracterize a dona desse livro.
2.3. Exponha a sua opinião sobre a atitude da mãe da «menina».

3. Sinalize, no texto, marcas linguísticas que denotam características da variante brasileira do português.







Um dia

Starfish Art Print by Peter Cade


Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar



I

Depois de uma leitura atenta do poema, elabore um comentário global, centrando-se nos seguintes aspectos:
- a oposição Vida/Morte como expressão da essência e da condição humana;
- os animais e a natureza como símbolos da liberdade;
- o mar como meio de purificação e símbolo da dinâmica da vida;
- a sugestão de comprometimento com a realidade;
- a estrutura lógica do discurso.


II

Tendo em conta a poesia lírica que analisou, ao longo do ano, e apoiando-se em exemplos das leituras feitas, comente a seguinte afirmação:

A vida humana limitada, transitória e frágil provoca, frequentemente, angústia, desespero, um sentimento de injustiça, mas também o de esperança. Os poetas, ao longo dos tempos, são os que melhor souberam exprimir e reflectir sobre esta situação da condição do ser humano.



III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e cinquenta e seis palavras, num texto de cento e dezoito a cento e trinta e oito palavras.


Nestes muitos milénios dos meios como inteligência auxiliar, a única opção que nós, humanos, tivemos para a criação de outras inteligências como a nossa - não de ampliadores da inteligência, mas inteligências em si mesmas - foi o agradável expediente de criar outros seres humanos. O nosso ADN, ao que parece, só nos deixou duas opções: criar assombrosas tecnologias que aumentassem muito a nossa inteligência, mas que não podiam pensar por si próprias, ou criar assombrosas crianças que crescessem, na essência, com os mesmos conjuntos de capacidades cognitivas que os pais. O desenvolvimento deliberado de inteligência nos nossos ajudantes animais, como os cães, talvez seja uma excepção parcial. Mas é verdadeiramente uma excepção limitada, na medida em que mesmo os cães foram educados não para exercitar juízos e pensamento independentes, mas para cumprir ordens mais inteligentemente - isto é, para serem melhores ajudantes.
A ficção científica e até a lenda, antes dela, muitas vezes à frente da curva tecnológica na indicação do que os humanos mais querem da vida e da tecnologia, preencheram o vazio - muitas vezes com terríveis avisos antes do século XX e ao longo dele. [...] Em todos as histórias, que quanto ao resto não são muito parecidas, mantinha-se significativamente a destruição de nós, os criadores humanos que se arriscaram a comportar-se como deuses.
Isaac Asimov [...] também foi vanguardista e ainda mais revolucionário na maneira como tratou os robôs. A partir de 1940, publicou uma série de curtas histórias - culminando em sete das novelas da série de onze livros - em que os robôs eram programados para funcionarem tanto em defesa da humanidade como, em muitos casos, com genuíno discernimento independente. O que torna interessante a leitura das narrativas de Asimov é o facto de elas nem sempre terem êxito na primeira fase do projecto, mas sim na segunda; mas os robôs também tiveram êxito, com frequência, na primeira, e de formas tão originais que fazem das histórias de Asimov não só explorações da «IA» definida como inteligência autónoma e independente, mas também como inteligência que quebrou o modelo do Golem de as nossas próprias criações se virarem contra nós.

Paul Levinson, A Arma Suave, "A Máquina do Mundo"


16.4.07

Fronteira



Range primeiro a porta do Valentim, e sai por ela, magro, fechado numa roupa negra de bombazina, um vulto que se perde cinco ou seis passos depois.
A seguir, aponta à escuridão o nariz afilado do Sabino. Parece um rato a surgir do buraco. Fareja, fareja, hesita, bate as pestanas meia dúzia de vezes a acostumar-se às trevas, e corre docemente a fechadura do cortelho.
O Rala, de braço bambo da navalhada que o D. José, em Lovios, lhe mandou à traição, dá sempre uma resposta torta à mãe, quando já no quinteiro ela lhe recomenda não sei quê lá de dentro.
O Salta, que parece anão, esgueira-se pelos fundos da casa, chega ao cruzeiro, benze-se, e nin-guém lhe põe mais a vista em cima.
A Isabel, sempre com aquele ar de quem vai lavar os cueiros de um filho, sai quando o relógio de Fuentes, longe e soturnamente, bate as onze. Aparece no patamar como se nada fosse, toma altura às estrelas, se as há, e some-se na negrura como os outros.
O Júlio Moinante, esse levanta o gravelho, abre, senta-se num degrau da casa, acomoda o coto da perna da melhor maneira que pode, e fica horas a fio a seguir na escuridão o destino de um que lhe dói. Era o rei de Fronteira. Morto o Faustino nas Pedras Ninhas, herdou-lhe o guião. Mas um dia o Penca agarrou-o com a boca na botija, e foi só uma perna varada e as tripas do macho ã mostra. Quando, naquele estado, entraram ambos em Fronteira, ele e o animal, parecia que o mundo se ia acabar ali. Mas tinha o filho, o João. E agora, enquanto o rapaz, como os mais, se perde nos caminhos da noite, vai-lhe seguindo os passos da soleira da porta.

MIGUEL TORGA, Novos Contos da Montanha


I

1. Caracteriza, de maneira argumentada, a actividade que envolve as personagens do texto.

2. Aponta os traços comuns às várias personagens do texto.

3. Comenta o estado de espírito de Júlio Moinante.

4. Caracteriza o espaço em que se desenrola a acção.

5. Explica o sentido das seguintes frases:
a) "Morto o Faustino nas Pedras Minhas, herdou-lhe o guião"
b) "[...] o Penca agarrou-o com a boca na botija [...]"
"[...] quando o relógio de Fuentes, longe e soturnamente, bate as onze."
a) Identifica o recurso estilístico utilizado e refere a intenção do seu emprego.
b) Classifica a oração e analisa sintacticamente os seus elementos.


II


Com base no conhecimento do conto Fronteira, de Miguel Torga, narra, de maneira clara e concisa, a história que envolve as personagens centrais.



13.4.07

Batalha de Aljubarrota




28
Deu sinal a trombeta Castelhana,
Horrendo, fero, ingente e temeroso;
Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
Atrás tornou as ondas de medroso.
Ouviu o Douro e a terra Transtagana;
Correu ao mar o Tejo duvidoso;
E as mães que o som terribil escuitaram
Aos peitos os filhinhos apertaram.

29
Quantos rostos ali se vem sem cor,
Que ao coração acode o sangue amigo!
Que, nos perigos grandes, o temor
É maior muitas vezes que o perigo.
E, se o não é, parece-o, que o furor
De ofender ou vencer o duro immigo
Faz não sentir que é perda grande e rara
Dos membros corporais, da vida cara.

30
Começa-se a travar a incerta guerra:
De ambas as partes se move a primeira ala;
Uns leva a defensão da própria terra,
Outros a esperança de ganhá-la.
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala:
Derriba e encontra, e a terra, enfim, semeia
Dos que a tanto desejam, sendo alheia.

31
Já pelo espesso ar os estridentes
Farpões, setas e vários tiros voam;
Debaxo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam.
Espedaçam-se as lanças, e as frequentes
Quedas co as duras armas tudo atroam.
Recrecem os immigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.



I

1. Situa o episódio na obra a que pertence, referindo:
- o Canto em que se integra;
- o momento da viagem em que surge este episódio;
- o nome do narrador;
- o nome do narratário.

2. Identifica as forças em confronto e os seus chefes.

3. Que ambiente se cria logo após o toque da trombeta castelhana?

4. Relê agora a estância 29.
4.1. Explica o seu sentido.
4.2. Dá a tua opinião sobre os sentimentos aí expressos.

5. Refere, de acordo com o que se afirma na estância 30, o objectivo de cada um dos beligerantes.


II

1. Atenta na estância 28.
Faz um levantamento das expressões que remetem para a força e ferocidade do exército cas-telhano.
Refere-te a partir de exemplos, à função da adjectivação, das hipérboles e das personificações nessa estância.

2. Nas estâncias 30-31, é-nos apresentado o movimento da batalha.
Destaca as sensações aí predominantes.
Indica que sons mais se repetem na estância 31.
2.2.1. Que te sugere esse conjunto de sons?


III

1. Da frase:
"Já pelo espesso ar os estridentes
Farpões, setas e vários tiros voam;"
1.1 Transcreve o sujeito e o predicado;
1.2 Identifica os complementos;
1.3 Classifica morfologicamente a palavra "Já".

2. Justifica o uso do Presente do Indicativo.


IV

Das duas questões que se seguem responde a uma:

1. Imagina uma descrição da batalha do ponto de vista de um castelhano.

2. Dá a tua opinião sobre as considerações que o narrador tece sobre a guerra, nas estâncias 43 e 44.


43.
O campo vai deixando ao vencedor,
Contente de lhe não deixar a vida.
Seguem-no os que ficaram, e o temor
Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda despendida,
Da mágoa, da desonra e triste nojo
De ver outrem triunfar de seu despojo.

44.
Alguns vão maldizendo e blasfemando
Do primeiro que guerra fez no mundo;
Outros a sede dura vão culpando
Do peito cobiçoso e sitibundo,
Que, por tomar o alheio, o miserando
Povo aventura às penas do Profundo,
Deixando tantas mães, tantas esposas,
Sem filhos, sem maridos, desditosas.



12.4.07

Um mover de olhos, brando e piedoso

Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ũa pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; ũa brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

Luís de Camões


I

1. Identifica o tema e o seu desenvolvimento.

2 A mudança exerce-se, quer no mundo em que o poeta se inclui quer nele próprio.
2.1 Refere os efeitos dessa mudança no mundo e na natureza. Justifica com frases do texto.
2.2. Identifica as repercussões dessa mudança no sujeito poético e nos seus sentimentos.

3. Atenta nos tercetos.
3.1 Indica os aspectos da linguagem e do estilo que contribuem para a valorização estética deste poema.
3.2. Classifica morfologicamente as palavras destacadas:
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

4. Procede à análise formal do soneto:
4.1. Indica o esquema rimático.
4.2. Classifica as rimas da primeira quadra:
a) quanto à acentuação;
c) quanto às classes gramaticais das terminações ou frequência de uso;
d) quanto aos elementos vocálicos e consonânticos das terminações.
4.3. Faz a escansão do verso 4.
4.4.4 Classifica-o quanto ao número de sílabas métricas e quanto à posição das sílabas tónicas.


II

O tema da mudança é um tema recorrente na literatura.
Produz um texto onde fales sobre a mudança.

Cheios de espessa névoa os horizontes

Do Neoclassicismo ao Pré-Romantismo


Cheios de espessa névoa os horizontes,
Espantosas voragens vem saindo!
Foi-se o Sol entre nuvens encobrindo,
Voltando para o mar os quatro Etontes.

Caio a grossa chuva pelos montes,
Os incautos pastores aturdindo;
E, engrossando, os rios vão cobrindo
Com embate feroz as curvas pontes.

Com medonho estampido, pavorosos,
Os longos ecos dos trovões soando,
A rezar nos pusemos temerosos.

Parou a chuva; correm sussurrando
Os torcidos regatos vagarosos;
Não me atrevo a sair, fico jogando.

Correia Garção


I

1. É notório o pendor descritivo deste soneto. Mostra como a objectividade está presente na descrição:
1.1. da Natureza;
1.2. do estado do tempo.

2. Que reacções são assumidas pelo sujeito-poeta?

3. Delimita os três momentos que estruturam este soneto.

4. A pluralização, o gerúndio e a adjectivação são os principais recursos técnico-expressivos. Evidencia o valor estético de cada um deles.

5. A auto-ironia está aqui sugerida. Selecciona dois momentos e explica o seu significado.


II

Este soneto revela já diferenças em relação à estética barroca. Como já conheces os dados contextuais que envolvem o aparecimento do Neoclassicismo, elabora uma breve dissertação sobre o que este movimento artístico-literário trouxe de novo à cultura literária.





10.4.07

Requiem




Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavradas,
Aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério.
E visitas e flores no dia de finados.

Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado,
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.

Miguel Torga, Antologia



Vocabulário:
Requiem – Música triste; (tocada nos funerais de pessoas importantes).
Letes: Rio do Esquecimento, que corre no Inferno.



I

1. Na 1ª estrofe o sujeito poético traça o ciclo da vida – o nascimento e a morte dos homens.
1.1. Transcreva o verso que apresenta o nascimento.
1.2. Que figura de estilo se destaca nesse verso.
1.3. Transcreva o(s) verso(s) que apresentam a morte.
1.4. Identifique a figura de estilo que aí se destaca.
1.5. Caracterize a vida dos homens que nasciam e viviam na serra.

2. Na 2ª estrofe, a construção de uma barragem altera a vida da serra.
2.1. Transcreva o verso, que refere o surgimento desse novo elemento, o qual transforma a vida na serra.
2.2. Que aconteceu quando o rio foi represado?
2.3. Por que razão o sujeito lírico compara o rio que atravessa a serra ao Letes?
2.4. Explique o sentido do seguinte verso da última estrofe:
E a morte um segundo nascimento.

3. Destaque os dois momentos que constituem o poema. Resuma muito brevemente o conteúdo de cada um deles.

4. Explique por que razão o poema tem como título – Requiem.

5. Atribua um título diferente ao poema, referindo as razões da sua escolha.

6.4.07

História da Gata Borralheira


Após a leitura atenta do conto "História da Gata Borralheira" de Sophia de Mello B. Andresen, assinala como " Verdadeira" ou "Falsa"cada uma das afirmações.

1. O Baile ocorreu numa noite de Agosto.
2. Do jardim via-se a casa, grande, cor-de-rosa e antiga.
3. Lúcia era uma jovem de dezasseis anos.
4. Lúcia foi ao baile com os pais e irmãos.
5. A filha da dona da casa não apresentou Lúcia às amigas.
6. Lúcia ficou só, ninguém a convidou para dançar.
7. O vestido de Lúcia era de seda azul.
8. Lúcia achou o seu vestido muito bonito.
9. Lúcia sempre sonhara ir a um baile.
10. Lúcia encontrou no sótão uns sapatos rotos.
11. Um rapaz alto e moreno sorriu para Lúcia.
12. Lúcia dançava no meio da sala quando caiu.
13. Com vergonha, Lúcia decidiu ir viver só.
14. Depois Lúcia casou com um homem muito rico.
15. E passaram 15 anos.
16. Numa manhã de Maio Lúcia recebe um convite.
17. Lúcia mandou fazer uns sapatos bordados a ouro.
18. A meio da noite ela voltou à sala onde se escondera há anos atrás.
19. Ao clarear do dia, encontraram Lúcia desmaiada no chão.
20. Lúcia tinha um sapato esfarrapado no pé direito.




3.4.07

Reportagem


Violência entre crianças

No rescaldo de três homicídios cometidos por crianças, a opinião pública internacional viu-se obrigada a procurar as causas e a apontar responsáveis. Os culpados até agora encontrados são a família, a sociedade e a televisão. A caixa mágica que revolucionou o mundo parece estar a inspirar alguns actos violentos praticados por crianças. Em Fevereiro de 1993 duas crianças de 11 anos raptaram um bebé de dois anos num centro comercial em Liverpool e espancaram-no até à morte. Em Outubro de 1994, três crianças de seis anos que brincavam no jardim infantil de Trondheim (Noruega) decidiram espancar uma rapariga (com cinco anos de idade) até à morte. Na mesma altura, em Chicago, um grupo de crianças atirou uma outra de um arranha-céus. Coincidências? Em comum todas estas crianças alegaram imitar o que tinham visto na TV. As crianças de Liverpool visionavam com frequência vídeos violentos que o pai de uma delas tinha em casa e as de Chicago disseram que tinham feito o mesmo que as Tartarugas Ninja, que caem e nunca se aleijam...
A TV 7 Dias deslocou-se ao infantário O Ursinho, onde falou com algumas crianças e com a directora do jardim de infância. A educadora Teresa Espírito Santo é peremptória em afirmar que a televisão influencia o comportamento das crianças, tanto mais que tem visto um aumento da agressividade infantil ao longo dos anos em que exerce da profissão. "Os heróis que ele hoje imitam são cada vez mais violentos. Embora haja uma luta contra o mal, o mais importante para eles é ser forte e para isso têm de ser os mais maus. Claro que isso se reflecte nas suas brincadeiras”, refere a educadora. E tal como cada criança tem uma forma própria de mostrar a sua agressividade, também existe uma idade certa para serem influenciadas e entenderem aquilo que captam. A esse propósito a directora de O Ursinho diz que "a idade em que a agressividade mais se revela é entre os quatro e os cinco anos; depois quando vão para a primária começa a haver uma fase em que eles percebem que não é tanto assim, que nem sempre é o mais forte que vence, mas também vence aquele que sabe mais". As imagens que as crianças vêem na televisão interferem na formação da sua personalidade. "Aqui no jardim de infância temos crianças com uma grande carga agressiva. Muita dessa agressividade pode ser justificada pela educação e pela vivência dos miúdos, mas também pelo que eles captam das imagens televisivas", diz Teresa e acrescenta: "tínhamos uma criança extremamente agressiva e quando chegava ao infantário contava-nos que tinha visto filmes de terror. E isso revelava-se no seu comportamento. À menor briga explodia"... Em relação aos desenhos animados que as crianças preferem, a educadora explica que "há crianças a quem o Bambi e a Branca de Neve não dizem nada e preferem as Tartarugas Ninja, enquanto outros gostam de ambos os géneros. Isso tem a ver com a própria natureza das crianças".
O Ursinho tem crianças entre os três e os oito anos de idade, divididas por duas classes. Falá-mos com algumas dessas crianças e ficámos a saber que a sua preferência ia para as Tartarugas Ninja e os Moto-Ratos. O Toninho tem quatro anos e diz que os desenhos animados que prefere são os Flintstones. "Mas eles não batem muito. Às vezes dão pontapés. E eu faço como eles, mas não dou pontapés." O Francisco prefere os Widget e afirma: "Eles não batem muito, só se transformam, mas há uns que são muito maus. Eu quando brinco não bato nos meus amigos, só me transformo; os bons são mais giros. Se eu tivesse que escolher só via desenhos animados com bons." Um dos adoradores das Tartarugas Ninja é o Pedro Miguel, de quatro anos. "Eu gosto mais de ver as Tartarugas Ninja. "Mas elas são boas, batem só nos maus. Eu gosto dos bons e não bato neles quando brinco às Tartarugas Ninja". Os Moto-Ratos são outros dos eleitos. O pequeno Tiago, de cinco anos, diz: "Eu gosto dos Moto-Ratos porque eles são bons e matam os maus. Eu acho bem matar os maus. Quando brinco aos Moto-Ratos também mato os maus e mato-os com a mota. A moto tem tiros e pistolas. Mas se eu pudesse escolher, escolhia só os bons".


In: TV 7 Dias



O texto que acabou de ler é uma reportagem que aborda um assunto que tem sido muito discutido. O assunto do texto divide-se em duas partes.

1. 1. Delimite as partes que constituem o texto e resuma muito brevemente o conteúdo de cada uma delas.
2. 2. Quais são os culpados apontados no texto para os actos violentos praticados pelas crianças?
3. O repórter da revista TV7 Dias desloca-se a um infantário.
3.1Como se chama o infantário?
3.2. Quem ouviu o repórter da revista TV7 Dias no infantário?
3.3. Refira-se, de modo sucinto, à opinião dada pela educadora Teresa Espírito Santo sobre a influência da TV nas crianças.
3.4. Que diferença de comportamento vê nas crianças a directora do infantário
quando têm 4/5 anos e a idade em que frequentam a primária?
4. Atribua um título a esta reportagem e justifique a sua escolha.


II

1. Indique o tipo e a forma da seguinte frase: A TV 7 Dias deslocou-se ao infantário.
1. 1. Reescreva-a na forma negativa e tipo interrogativo.
1.2. Identifique o sujeito e o predicado da frase:
1.3.Identifique os determinantes da frase.
1.4. Diga qual a subclasse a que pertence cada um deles.
2. Identifique os adjectivos da frase: O mais importante para eles é ser forte.


III

Dos dois temas sugeridos escolha apenas um:

A) Os meios de comunicação social são armas poderosas que influenciam diariamente cada um de nós.
Com base nesta afirmação, construa um texto sobre os benefícios e prejuízos causados pelos meios de comunicação social.

B) Expresse, numa redacção cuidada, o seu ponto de vista em relação à polémica responsa-bilização da televisão pela violência entre crianças.