23.2.07

A Torre da Má Hora

O conto que acabas de ler apresenta planos narrativos perfeitamente articulados entre si.

I

Fixa a tua atenção no plano narrativo que se desenrola no «lancil do largo».

1. Identifica as personagens que se encontram nesse espaço.

2. classifica-as quanto ao relevo que lhes é atribuído.

3. Campanelo revela, desde o início, uma técnica especial de contar histórias.
3.1 Em que consiste essa técnica?
3.2 Tendo em conta a reacção dos ouvintes parece-te que Campanelo é um bom contador de histórias? Justifica a tua opinião.

4. Que elementos do espaço físico são observáveis a partir do «lancil do largo»?

5. Situa no tempo o episódio que se desenrola no largo.

6. O tempo e o espaço referidos têm influência nas reacções das crianças? Justifica a tua opinião.


II

A partir deste plano narrativo que estivemos a observar, desencadeia-se um outro de que o «menino do bibe preto» é o protagonista.

1. Delimita no texto:
-o momento de transição para esse outro plano da narrativa;
-o momento em que se retoma o plano inicial.

2. O encaixe desse segundo plano narrativo no anterior é feito através de uma comparação.
21 Entre quem se estabelece a comparação?
2.2 Regista frases que, ao longo do texto, confirmem a tua resposta.

3. Comparando o espaço físico deste plano narrativo com o do anterior, será mais correcto falar em diferença ou alargamento? Fundamenta a tua resposta.

4. Procura caracterizar o espaço social em que se integram as personagens intervenientes.

5. Fixa a tua atenção no comportamento do «menino do bibe preto», nas suas brincadeiras, nas suas distracções diárias e/ ou preferidas.
5.1 Como se revelam:
-o seu gosto pela descoberta;
-a sua atracção pelo desconhecido;
-a sua insatisfação permanente (de que ainda não tem decerto consciência).
5.2 Relê atentamente os elementos, por vezes dispersos, que o narrador te dá sobre a família, as relações familiares as relações com os companheiros, os traços característicos do «menino do bibe preto»..
.Sublinha o que achares necessário, regista as tuas conclusões e por fim redige um texto de apresentação do personagem.

6. Sugere adjectivos que poderias utilizar num texto de caracterização do avô do «menino».

7 .Refere substantivos abstractos que exprimam os sentimentos do menino pelo avô.

8. Caracteriza o narrador dos dois planos narrativos observados, quanto à presença e à posição que assume.


III

Campanelo é o narrador de outra história

1. Quem são os intervenientes na narrativa de Campanelo?

2. A partir dos fragmentos que o texto apresenta, refere a acção dessa história tal como Campanelo a contou.

3. « - Campanelo, onde é a Torre da Má Hora?!...
Sorrindo, o homem aponta ao acaso o largo, as ruas da vila, os campos.
- Sei lá... Em qualquer parte.»
Porque é que Campanelo sorri? Porque aponta ao acaso? Afinal onde fica a Torre da Má Hora? O que é que ela representa?
Reflecte sobre estas e outras questões relacionadas com a história contada por Campanelo e apresenta a tua sugestão sobre o significado simbólico da Torre da Má Hora.


Castelo-Santiago-do-Cacem por jonesbee182.


22.2.07

Oh! Como se me alonga de ano em ano



Oh! Como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo, a ver se inda parece,(1)
Da vista se me perde e da esperança.

Luís de Camões


Nota:
1 – Parece é a forma quinhentista correspondente a aparecer.




I

1. A reflexão sobre a sua vida suscita no poeta sentimentos contraditórios: cansaço de viver e pena de caminhar para o fim. Como se expressa, no discurso, esta oposição de sentimentos?

2. A que recorre o poeta para exprimir, com exactidão, a imagem de uma “peregrinação” cansada?

3. Justifica a angústia do sujeito poético de “caminhar para o fim”, apesar da “peregrinação cansada”. Refere a importância que assume, nesta oposição, o adjectivo “vão”.


21.2.07

A Cidade que me Fez






SOU LISBOETA. O que é que querem que eu saiba de Lisboa? Ninguém conhece bem a própria nuca. Devo ter ido umas três vezes na vida ao Museu Nacional de Arte Antiga e a única em que fui ao Museu dos Coches já tinha idade para estar morto. Até confundo Carnide e Carnaxide. Fujo das multidões e do social-acidental, dos estádios, dos transportes e das bichas: o que é que eu sei da psicologia colectiva desta tribo tão amável que passa tão bem sem mim? Olho o Tejo e tanto me comovo em êxtase e nostalgias de golfinhos, como faço contas ao valor perdido da pobre nafta que maternalmente lhe aconchega as margens.
Apenas sei, ou intuo, que só me resta uma convicção inútil: a de que há mais Lisboas do que lisboetas e ainda mais do que os nossos visitantes nos roubam na avidez do seu olhar rapace. Pergunto-me até se o turista alguma vez apreende a alma do povo que observa, pois duvido que ela resida no very typical massificado. As regras aproximam, mais do que apartam, as civilizações. Não será então a infracção o que melhor retrata um povo? (...)
A minha indefinível Lisboa não é melhor ou pior do que as alheias. É apenas tão pessoal, tão íntima e até tão mutilada como as demais. É um privativo presépio, com figuras sem rosto e talhadas no barro bruto da minha impartilhável memória. Mas eu aceito-a assim e apego-me a ela com a fanática emoção de que são feitas outras irracionalidades, como o patriotismo mais acrítico: my city, right or wrong. Afinal, cada lisboeta caminha pisando a sombra do outro. O que tanto quer dizer segui-lo como negá-lo. (...)
Há nela muito mais alma do que pedra. É um labirinto de lugar e tempo que me fez, para o bem e para o mal.
Como os outros, caminho pisando sombras que não vejo nem conheço. E, ao fazê-lo, deixo as minhas sombras na calçada para que outrem as pise, seguindo-as e negando-as.
Quero prolongar e reinventar na transgressão o espaço que me foi confiado para fazer e viver a minha liberdade. Quero que se não perca a herança dos homens do deserto fazedores de grandes religiões. Quero conhecer trilhos sortidos na areia, pois só assim posso ir ajudando a fazer-me. Mas só os trilhos. Porque conhecer o deserto é perdê-lo.
Se o homem faz a cidade, a cidade faz o homem. E há Lisboas incumpridas, cidades que em nós se fazem.

NUNO BREDERODE SANTOS,
in Expresso Revista, n° 1493, 9 de Junho de 2001



I


1. O autor do texto é lisboeta e afirma não conhecer bem Lisboa tanto na vertente física como na social.
1.1. Refira um exemplo da ausência de conhecimento do espaço físico.
1.2. Transcreva uma expressão elucidativa do seu fraco conhecimento relativamente ao espaço social.
2. “Olho o Tejo e tanto me comovo em êxtase e nostalgia de golfinhos, como faço contas ao valor perdido da pobre nafta que maternalmente lhe aconchega as margens,”
2.1.Que pretende o autor criticar através do período acima transcrito?
2.2. Indique a figura de estilo presente na expressão sublinhada.
3. Explique o sentido da expressão E um privativo presépio, com figuras sem rosto...
4. «Se o homem faz a cidade, a cidade faz o homem.»
4.1. Esclareça o significado desta afirmação.
5. «Mas eu aceito-a assim e apego-me a ela com a fanática emoção de que são feitas outras irracionalidades...»
5.1. Indique, justificando, a função da linguagem presente no excerto transcrito.


II

1. Divida e classifique as orações das frases seguintes:
a) Quando os turistas visitam Lisboa, não apreendem a alma do povo.
b) O lisboeta pisa sombras que não conhece.
e) É preciso que não se perca a herança dos homens do deserto.

2. Há cidades incumpridas. Os homens ainda não terminaram a sua tarefa.
Transforme as duas frases simples numa complexa através de um articulador (conjunção ou locução causal).

3. Tendo presente as noções de hipónimo e hiperónimo, indique o hipónimo de rio que se encontra no texto.


III

“Estar sozinho é óptimo — estar só não.”
Rosie Rushton

Num texto cuidado e bem estruturado, de cem a duzentas palavras, dê a sua opinião sobre a afirmação transcrita, pensando como seria viver sem amigos e quais as consequências que poderiam daí advir na sua vida quotidiana.



18.2.07

O professor de matemática

A mim foi um professor de matemática quem me estragou a infância.
Era um senhor alto, ventrudo, glabro, de lunetas cínicas e feições gelidamente irónicas que olhava para nós como para feras de bibe e calção capazes de, ao mínimo descuido do domesticador, saltarem para o estrado, comererm-no vivo, roubarem-lhe a caderneta, partirem-lhe o ponteiro na calva e escreverem no quadro, a giz, a divisa libertadora: “Abaixo as equações! Viva o jogo da barra!”
Para nos conter em respeito, todos os dias marcava zeros à classe em peso. E quando algum aluno mais palidamente resoluto lhe respondia com assanho, não se enxofrava nem se enfurecia. Pelo contrário, as lunetas luziam-lhe mais cínicas. E, pingante de tranquilidade cruel, pegava no ponteiro e entretinha-se a vergastar o pobre rapaz nos dedos, nos braços, na cabeça, ao mesmo tempo que o supliciava com a sua voz fria, gota a gota, como a prova da água na Inquisição.
Foi esse senhor quem me estragou a infância, repito, impedindo-me de saborear os 14 anos possíveis de paraíso na terra. As suas lunetas, a sua voz cortante, o seu riso agreste, não me permitiam respirar em liberdade a alegria de possuir pul-mões.
A matemática, em vez de dar ordem e harmonia à minha pequena alma dócil, enegrecia-a de raiva e de indisciplina sem aurora.
Vivia aflito humilhado, com uma pedra no peito; olhava para o sol como se fosse uma chaga; a água parecia que alguém tinha batido na terra para a fazer cho-rar.
E, ao invés das crianças de todo mundo que folgam pelo menos uma hora por dia ao ar livre nos pátios de recreio, a admirarem o sol, as árvores, as nuvens, como brinquedos maravilhosos, eu e os meus camaradas do colégio sofríamos a nossa hora diária de penumbra magoada, as nossas férias de tortura, naquela saleta negra, bafienta, com as carteiras riscadas a canivete e um senhor cínico, de ponteiro em punho, a domesticar a nossa palidez de haver matemática!
Por isso, não me espanto quando ouço a minha geração curva, amarelenta e bisonha, falar da "infância estragada".
Todos tivemos um professor assim! Todos frequentámos escolas fúnebres, malcheirosas e feias, com corredores a pingarem mapas de humidade nas paredes.
Todos apodrecemos nesta paisagem deserta de árvores e de flores, a olhar para a caderneta como para o livro dos zeros do Destino.
E todos passámos a infância a imaginar como seria bom residir num mundo à parte, feito à nossa imagem e semelhança, num planeta próprio, pequenino, miniatu-ral, com outra natureza, outras cidades, outras árvores, outros professores de matemática - muito distante da Terra, esse asilo de pessoas ridiculamente crescidas!

José Gomes Ferreira, O Mundo dos Outros, 1950


Vocabulário:
glabro – careca
bisonha – acanhada, tímida



I

1. Divide o texto em três partes, apresentando os motivos dessa divisão.

2. O texto de José Gomes Ferreira pode ser considerado um texto literário em virtude da forma criativa como o autor utilizou a linguagem. Faz um breve comentário a esta afirmação.

3. Explica o significado das expressões que se seguem e identifique a figura de estilo presente em cada uma delas.
a) “olhava para nós como feras de bibe e calção”
b) “Vivia aflito, humilhado, com uma pedra no peito”
c) “impedindo-me de saborear os 14 anos possíveis de paraíso na terra.”

4. Há mais amargura do que humor nesta crónica.
Contudo, um sorriso por detrás de algumas (poucas) afirmações do Autor.
Releva do texto uma passagem que pode ter algum efeito cómico, explicando quais os processos que contribuem para que tal aconteça.

5. O texto fala-nos de um professor de Matemática. No entanto, a crítica não se resume toda a essa figura. Qual é, afinal, o objecto alvo da crítica de J.G. Ferreira? Justifica a tua resposta.


II

1. Transforma as duas frases simples numa complexa:
Todos tivemos um professor assim! Todos frequentámos escolas fúnebres.

2. Classifica cada uma das orações da frase complexa que escreveste.

3. Escreve a seguinte frase no futuro:
Foi esse senhor quem me estragou a infância.

4. Escreve 5 palavras do campo lexical de escola.


III

Todos nós recordamos um professor que, de forma positiva ou negativa, marcou a nossa infância ou a adolescência.
Num texto bem estruturado, com cerca de 15 linhas, fala desse professor e das impressões que o mesmo te causava.




17.2.07

Antes de Começar




1. O diálogo que se desenrola ao longo de todo o texto só é possível porque se verificou determinada situação.
1.1. Que situação é essa?
1.2. Sobre que assuntos versa a «conversa»?

2. O título «Antes de Começar» tem a ver com um espectáculo anunciado.
2.1. Que espectáculo é anunciado?
2.2. A quem se destina tal espectáculo?
2.3. Que especiais motivações têm os espectadores?

3. As personagens de Antes de Começar são dois bonecos.
3.1. Caracteriza a Boneca, a partir do seu comportamento e das opiniões emitidas pelo Boneco e por ela própria.
3.2. Caracteriza, agora, o Boneco, recorrendo aos mesmos processos de caracterização.

4. Entre os bonecos e o Homem são apontadas semelhanças e diferenças.
4.1. Faz o levantamento dessas semelhanças.
4.2. Procede, seguidamente, ao levantamento das diferenças.

5. Uma das personagens do texto atribui especial importância à sua origem.
5.1. De que personagem se trata?
5.2. Quem a criou?
5.3. Qual a intenção desse acto criativo?
5.4. Como se desenrolou, no tempo, tal acto?
5.5. Qual o sentimento experimentado pelo criador?
5.6. Que sentimento(s) manifesta a personagem, em relação a quem a criou?

6. Na parte final da peça faz-se uma reflexão sobre o papel que o «coração» desempenha na vida. 6.1. O que significa, neste contexto, a palavra «coração»?
6.2. Qual a importância que lhe é atribuída?
6.3. Diz se concordas ou não com a perspectiva das personagens e porquê.




16.2.07

Fernando Pessoa ortónimo

Assinala as afirmações correctas

□ Para Pessoa, viver é ser feliz.
□ Em Pessoa ortónimo, o fingimento poético é a chave da sua produção poética.
□ Na poesia do ortónimo, o sonho e a infância são os únicos momentos de felicidade para o sujeito poético.
□ Pessoa rompe, formalmente, com o lirismo tradicional.
□ Muitos dos poemas pessoanos revelam a fragmentação do “eu”.
□ Sentir e pensar são opostos que se reconciliam na poesia ortónima.
□ Pessoa considera a emoção a chave da produção poética.
□ A tendência para a abstracção domina a estética de Pessoa.
□ O tédio e a náusea existenciais percorrem muitos dos poemas pessoanos.
□ Em Pessoa, a dor de pensar é fruto de uma consciência muito aguda.
□ A poesia ortónima caracteriza-se por uma extraordinária euforia e por uma linguagem simples, mas carregada de expressividade.
□ É comum, na poesia do ortónimo, o uso de metáforas ricas com grande poder evocador.




15.2.07

Vida e obra de Fernando Pessoa ortónimo

Identifique as afirmações verdadeiras e falsas, convertendo estas últimas em verdadeiras.

a) Fernando Pessoa recebeu uma educação fundamentalmente inglesa.
b) A perda da mãe, quando criança, influenciou a afectividade do poeta.
c) A infância deste foi vivida na companhia de alguns heterónimos.
d) O movimento artístico, divulgado na revista literária Orpheu, inaugurado pela geração de Fernando Pessoa, designa-se Simbolismo.
e) Antes do Orpheu, Fernando Pessoa mantivera-se distante da participação em revistas literárias.
f) O ano de 1914 é um marco importante na obra pessoana: dá-se a explosão heteronímica.
g) O Modernismo representa a inquietude de uma geração.
h) A poesia do Orpheu é caracterizada pela alucinação, pelo choque e pela irreverência, factores que cativaram as grandes elites da época.
i) O futurismo implementa-se na Europa, como movimento estético revolucionário, com o escritor italiano Tommaso Marinetti.
j) O futurismo pretende dar continuidade às tradições, verificando-se, a nível literário, o respeito pela ordem sintáctica e pela pontuação.
k) A morte do companheiro de geração e amigo, Mário de Sá-Carneiro, marcou Pessoa profunda-mente.
l) O poeta concilia frequentemente o sentir com o pensar.
m) A obra poética de Fernando Pessoa reflecte vivências do seu passado.
n) O sonho e a realidade cruzam-se em algumas das suas composições poéticas.
o) Fernando Pessoa revela-se um poeta que transmite uma solidão interior, traduzida nos sentimentos de tédio e melancolia.
p) Fernando Pessoa manifesta dificuldade em lidar com os afectos.
q) A constatação de uma realidade fugaz faz do poeta um ser lutador.
r) A teoria do fingimento poético consiste em representar as emoções de modo abstracto.
s) Fernando Pessoa recorre frequentemente a alguns símbolos para representar algumas realidades.
t) O fingimento poético deve ser visto como uma mentira e não como a intelectualização das emoções.
u) A busca incessante de auto-conhecimento leva à fragmentação do “eu”.
v) A constante racionalização do sentir faz do ortónimo um ser feliz.


14.2.07

Estavam no Loreto...




Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo Sol dourava o lajedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz, A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.
- Isto é horrível, quando se vem de fora! - exclamou Carlos. - Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!...
- Todavia Lisboa faz diferença - afirmou Ega, muito sério. - Oh, faz muita diferença! Hás-de ver a Aveni-da... Antes do Ramalhete vamos dar uma volta à Avenida.
Foram descendo o Chiado. Do outro lado, os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujei¬tos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas ombreiras, com colarinhos à moda. Depois, diante da Livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou no braço de Carlos:
- Olha quem ali está, à porta do Baltreschi!
Era o Dâmaso. O Dâmaso, barrigudo, nédio, mais pesado, de flor ao peito, mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente embrutecido de um ruminante farto e feliz. Ao avistar também os seus dois velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar, refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, achou-se em frente de Carlos, com a mão aberta e um sorriso na bochecha, que se lhe esbraseara.
- Olá, por cá!... Que grande surpresa!
Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo também, indiferente e esquecido.
- É verdade, Dâmaso... Como vai isso?
- Por aqui, nesta sensaboria... E então com demora?
- Umas semanas.

Eça de Queirós, Os Maias


I

Recorde a visão social de Eça de Queirós em Os Maias e faça uma leitura atenta deste excerto. Responda às questões, fundamentando as suas respostas:

1. Situe o texto na estrutura interna da obra.

2. Eça de Queirós, ao longo de Os Maias, desenha a cidade de Lisboa e a necessária integração do homem.
2.1. Faça, distinguindo, o retraio da cidade e das pessoas que Carlos presencia.
2.2. Explicite a integração do homem na cidade.

3. Faça a análise da linguagem, tendo em conta a expressividade de algumas categorias morfológicas (verbos, advérbios, adjectivos...) e dos recursos estilísticos.


II

Construa uma frase complexa que contenha uma proposição relativa e que integre a informação contida nas frases simples que se seguem:
O Pedro está a estudar na Grécia.
A Grécia é berço da civilização ocidental e património da Humanidade.
2. Do grupo de palavras apresentado abaixo, enumere as que podem ser consideradas como cognatas, isto é, como fazendo parte de uma mesma família de palavras.

sal, salmão, salobro, saliente, salutar, salinidade, saldar, salgar, salvamento, salitre, saltitar, salmoura, salmo, saleta

(in Prova Específica de Português, 1995)


III

Escolha um dos temas abaixo enunciados.

A.
O romance Os Maias transmite-nos uma visão magistral de uma época e de um espaço social.
  • Num texto cuidado, refira-se às imagens ou às impressões dominantes que lhe ficaram da leitura do romance, no que diz respeito à sociedade nele representada. Procure documentar sempre a sua resposta com exemplos de personagens-tipo, cenas ou episódios mais significativos.

B.
A literatura apresenta-se como expressão de compromisso que procura intervir na consciencialização do homem, dando-lhe o sentido das injustiças e da revolta.
  • Disserte sobre a afirmação transcrita, recordando a lírica portuguesa desde a época medieval aos nossos dias.

12.2.07

Os dez anõezinhos da Tia Verde-Água

Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fados a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
– Ai, Tia! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.
– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.
E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. Logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer--lhe o favor que lhe fez:
– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
– Ainda não; o que eu queria era vê-los.
– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que são os dez anõezinhos.
A mulher compreendeu a causa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português



I

1. O conto popular que acabaste de ler começa com a referência a um conflito.
1.1. Identifica-o e explica o seu motivo.

2. A mulher pede ajuda. A quem? Porquê?

3. Explica a ajuda prestada.

4. E a harmonia voltou ao lar.
4.1. Sublinha, no texto, as expressões que melhor mostram essa harmonia.

5. Explica qual é a lição ou conclusão que se pode tirar deste texto.

6. O texto remete para um tempo cada vez mais distante em que as mulheres estavam em casa e eram as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas.
6.1. Faz o levantamento das tarefas que a mulher do conto executava.

7. Faz um breve resumo do conto.


II

1. Por ser um conto popular o texto apresenta muitas palavras e expressões populares, ou seja, que correspondem a um uso da fala popular. Substitui-as por palavras e expressões da norma culta.

a. arranjadores
b. luzir
c. apontear
d. não tinha ordem no governo da casa
e. limposa
f. o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando
g. féria
g. à boca da noite

2. As palavras livro, aventura e crime pertencem a campos lexicais diferentes. Para cada uma delas apresenta uma lista de quatro palavras que pertençam a cada um dos campos lexicais.


10.2.07

Tanto de meu estado me acho incerto



Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor1 tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto2;
Da alma um fogo me sai, da vista3 um rio;
Agora4 espero, agora4 desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nua hora acho mil anos5, e é de jeito6
Que em mil anos não posso achar üa hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões



1. ardor - fogo amoroso.
2. desconcerto — absurdo.
3. vista - olhos.
4. Agora... agora - ora... ora.
5. Nua hora acho mil anos — uma hora equivale a mil anos.
6. de jeito — de tal modo.



I

1. Este soneto de Camões apresenta uma estrutura bipartida.
1.1. Delimita as duas partes lógicas que o constituem.
1.2. Resume o conteúdo de cada uma delas.

2. Relê o primeiro verso do soneto.
2.1. Faz o levantamento das antíteses que realçam o carácter contraditório do "estado" em que o sujeito poético se encontra.
2.2. Aponta mais dois recursos estilísticos que contribuem para a intensificação expressiva dos sentimentos do sujeito lírico.
2.3. Copia o verso em que se revela a causa do "desconcerto" do sujeito poético.
2.4. Comenta o valor expressivo do advérbio "só", presente no último verso.

3. Explicita o tema deste soneto.

4. Evidencia as características que conferem a este soneto um pendor claramente petrarquista.

5. Salienta as marcas do discurso pessoal que conferem a este soneto um tom autobiográfico.


II

1. Recordando que a "autobiografia é um género narrativo em prosa em que o autor real, que é simultaneamente o narrador e a personagem principal, relata retrospectivamente a sua vida", vais elaborar, num texto com cerca de 120 palavras, devidamente estruturado, a tua autobiografia (real ou imaginada).

9.2.07

TPCs


Chelsea acordou com uma sensação esquisita na boca, no estômago, e espreitou as horas no relógio da mesa-de-cabeceira. Sete e meia. Fechou os olhos com força e tentou adormecer novamente, mas a ideia de todo aquele trabalho de casa por fazer dentro da pasta fazia-a sentir-se doente. Só faltava uma semana s para os exames de preparação. Era muito bonito Miss McConnell dizer que ela se sairia bem, e que as más notas do período anterior não passavam de um aviso, mas sabia que a professora ficaria aborrecida se ela não fizesse o trabalho de casa marcado para as férias. E mais, os pais viriam logo com previsões muito lúgubres a respeito das filas de desempregados e oportunidades desperdiçadas. O novo período lectivo começava dali a dois dias, e era impossível conseguir fazer tudo, nem mesmo que o seu cérebro finalmente se predispusesse à acção.
Deveria ter deitado mãos à obra ainda antes do Natal. Até nem fizera tenções de ir adiando, só que de cada vez que se sentava para começar, punha-se toda trémula e afogueada e sabia que não ia resultar. Chegara, inclusivamente, a elaborar um horário de trabalho, com uma cor diferente para cada disciplina e um quadrado para pôr uma pica quando a tarefa ficasse concluída.
Evidentemente que a culpa não era toda sua. Os jornais vinham cheios de artigos sobre os efeitos negativos para as crianças pequenas de as mães saírem para trabalhar, mas ninguém se detinha um segundo para considerar os traumas causados aos adolescentes quando o progenitor materno estava em casa. A mãe dela podia ter muitos defeitos, alguns deles tão óbvios que até embaraçavam, mas era brilhante a elaborar dissertações do nada, enquanto punha a mesa ou aspirava a carpete, e era capaz de ditar uma análise dos poetas do período da guerra ou um comentário sobre o humor de Jane Austen, nas calmas. Pelo menos naquele dia era feriado, e a mãe poderia atender às necessidades da filha altamente tensa, em vez de passar o tempo diante do microfone a dar o benefício da sua experiência profissional a perfeitos estranhos.
Era escusado, pensou, saindo relutantemente da cama e enfiando nos pés os chinelos do Bart Simpson. Não podia adiar mais. Talvez se se sentasse de roupão e tentasse escrever os primeiros parágrafos, conseguisse começar a funcionar.
Tirou uma folha de papel do dossier de Sociologia e pegou na caneta. Leu o título. E voltou a lê-lo. Era estúpido - como podia escrever quatro folhas A4 sobre aquilo?
Estava com fome. Era esse o problema. Iria comer uns flocos de cereais e uma banana e depois ficaria em forma.
Ia a descer as escadas quando o telefone tocou.
- Leehampton 5-5-4-9-0-1, fala Chelsea Gee. Não, lamento, ela está a dormir. A dormir, sim. Quem devo dizer que telefonou? Trudie? Oh, olá. Sim, lembro-me. Não, ela disse que já não trabalhava nos feriados...

Rosie Rushton, Por Favor Acabem Com as Confusões



I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Chelsea não tinha feito os trabalhos de casa porque:
a. eram muitos
b. não conseguia começar
c. a mãe não a ajudou

1.2. Para Chelsea a mãe não a ajudava porque:
a. trabalhava fora de casa
b. não sabia Sociologia
c. ajudava estranhos

2. Sintetiza o primeiro parágrafo do texto, contraindo as ideias principais e fixando-as num texto com cerca de quarenta palavras.

3. A personagem principal transparece a vivência de sentimentos intensos. Procura transcrever expressões que confirmem os seguintes:
apreensão
preocupação
aflição

4. Segundo Chelsea, quais eram os defeitos e as virtudes da mãe?

5. No quarto parágrafo podemos encontrar a palavra "microfone". Atribui sentido aos elementos de composição micro- e -fone e escreve outras palavras com cada um destes elementos.
micro-fone

II

Com base no text, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase:

A preguiça é mãe de muitos problemas.




8.2.07

Empréstimo ou doação


- Não te mete, João.
Foi o conselho que Bel, a mulher de João, deu quando João disse que ia contar ao Gerson que vira sua mulher Mila agarrada com outro homem numa mesa de bar, no fundo, no escurinho.
- Não te mete, João.
- Mas Bel, no fundo, no escurinho.
- Não te mete.
- Agarrada, Bel!
Não adiantou Bel argumentar que podia ser um parente. Um primo. Alguém que a Mila não via há muito tempo.
- Então era há muito tempo mesmo - disse João. - Se beijavam como se não se vissem há vinte anos. Trinta. Na boca, Bel. E a mão dele na coxa dela. Por baixo da saia. Se era parente, era parente muito próximo.
- Você viu a mão dele na coxa dela?
- Não vi mas deduzi. A mão não estava à vista. A mão só aparecia para...
- Espera um pouquinho. Quanto tempo você ficou espiando a Mila?
- Eu não estava espiando. Não havia como não ver.
- Você disse que estava escuro. Podia não ser a Mila.
- Era a Mila.
- E se era só alguém parecido? Você conta para o Gerson, eles brigam, talvez até se matem, e você estava enganado, não era a Mila. E daí?
- Tenho certeza que era a Mila, mulher do Gerson. E tenho que contar para o meu melhor amigo. Ele faria o mesmo por mim.
Não adiantou Bel argumentar que Gerson podia não acreditar nele. Ele acreditaria se o Gerson lhe contasse que vira ela, Bel, num bar, agarrada com outro? João respondeu que não acredita-ria porque sabia a mulher que tinha. E que o que iria dizer ao Gerson era justamente isso: o Gerson não sabia a mulher que tinha. O Gerson precisava saber a mulher que tinha. Não adiantou Bel argumentar que Gerson podia muito bem perdoar a Mila e brigar com o João. Que o João estava pondo em risco sua amizade, além da vida da Mila. Que era melhor para todo o mundo o João não se meter.
Mas João se meteu.
João escolheu a sauna. Por alguma razão, achou que seria mais fácil se os dois estivessem nus. Faziam sauna juntos todas as terças, quando havia menos gente. Pouca gente por perto, os dois reduzidos a apenas isso, dois animais amigos, suando lado a lado. Perfeito. Seria na sauna da terça. João decorou sua fala. O tema seria: a Mila não te merece, você não merece uma mulher como a Mila. Mas João nem conseguiu completar a primeira frase - "Meu amigo, preciso te contar..." - e foi interrompido pelo Gerson, que agarrou seu braço.
- Meu amigo, preciso te contar uma coisa - disse Gerson.
E Gerson despejou o drama que estava vivendo. João não sabia, talvez desconfiasse, mas ago-ra ia saber. Ele, Gerson, estava arruinado. Perdera tudo. Não tinha a quem recorrer. Vendera todo o seu património mas as dívidas só aumentavam. Recorrera ao património da Mila mas não fora o suficiente. Restava uma saída. O crápula do Jailson, seu primo. O que vivia dando em cima da Mila. O crápula tinha dinheiro. O crápula poderia salvá-lo. Mas para isso, era preciso que a própria Mila pedisse. Que a Mila se encontrasse com o crápula e negociasse o empréstimo. Ou a doação, dependendo de como se desenrolasse a negociação. A princípio, Mila resistira. Tinha nojo do Jailson. Nojo. Mas a isto nos impele este sistema asqueroso, cho-ramingou Gerson, quase encostando a testa no ombro suado do perplexo João. A isto nos leva o dinheiro, a fraqueza humana e uma alma enegrecida pela cupidez. Implorei a Mila para que fosse ter com o crápula e conseguisse o dinheiro. Fui mais crápula do que o crápula.
- E ela foi? - perguntou João.
- Foi. Por amor a mim, foi.
- Empréstimo ou doação?
Gerson mal conseguiu falar. Finalmente, com um soluço, disse:
- Doação. Doação!
E:
- Eu não mereço uma mulher assim!
Bel estranhou o laconismo do João, quando este chegou em casa.
- Como é? Contou?
- Ele já sabia.
- Quem era o outro?
- Um primo.
- Um primo? Mas...
João não quis mais falar no assunto. Durante o jantar, ficou pensando: o que a Bel faria por mim, se eu fosse crápula o bastante? A Mila não merece o Gerson. E eu mereço essa mulher? Mereceria a Mila? Concluiu: nenhum homem sabe a mulher que tem, até não merecê-la mais.
- O que você está me olhando desse jeito?
- Nada.

Por Luís Fernando Veríssimo



I

1. Resuma o texto.

2. Faça o levantamento expressões e/ou frases em que se verifique a oralidade no texto.

3. A crónica é escrita em português do Brasil.
3.1. Faça o levantamento de elementos textuais que comprovem esta afirmação.
3.1.1. Substitua-os por elementos linguísticos ou por fragmentos frásicos que caracterizam o português falado em Portugal.
3.2. Anote as diferenças, tendo em conta os níveis lexical e sintáctico.


II

1. Escreva uma crónica sobre um assunto/acontecimento que tenha despertado ou desperte a sua atenção.

ou

2. Escreva uma crónica sobre o pensa acerca do amor.


Hebergeur d'images


7.2.07

Pequena elegia chamada domingo





O domingo era uma coisa pequena,
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa


(1)elegia: poesia de assunto triste ou de lamentação.


I

Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- importância das marcas de tempo;
- valor simbólico dos elementos da natureza;
- recursos estilísticos e aspectos formais significativos;
- traços caracterizadores do estado de espírito do sujeito poético.

5.2.07

Geração de 70-Antero de Quental


[...]As descobertas, que coroaram tão brilhantemente o fim do século XV, não se fizeram ao acaso. Precedeu-as um trabalho intelectual, tão científico quanto a época o permitia, inaugurado pelo nosso infante D. Henrique, nessa famosa escola de Sagres, de onde saíam homens como aquele heróico Bartolomeu Dias, e cuja influência, directa ou indirectamente, produziu um Magalhães e um Colombo. Foi uma onda, que levantada aqui, cresceu até ir rebentar nas praias do Novo Mundo. Viu-se de quanto eram capazes a inteligência e a energia peninsular. Por isso a Europa tinha os olhos em nós, e na Europa a nossa influência nacional era das que mais pesavam. Contava-se para tudo com Portugal e Espanha. [...]
Deste mundo brilhante, criado pelo génio peninsular na sua livre expansão, passámos quase sem transição para um mundo escuro, inerte, pobre, ininteligente e meio desconhecido. Dir-se-á que entre um e outro se meteram dez séculos de decadência: pois bastaram para essa total transformação cerca de cinquenta ou sessenta anos! Em tão curto período era impossível caminhar mais rapidamente no caminho da perdição. [...]
Pelo caminho da ignorância, da opressão e da miséria chega-se naturalmente, chega-se fatalmente, à depravação dos costumes. E os costumes depravaram-se com efeito. Nos grandes, a corrupção faustosa da vida da cone, onde os reis são os primeiros a dar o exemplo do vício, da brutalidade, do adultério: Afonso VI, João V, Filipe V, Carlos IV. Nos pequenos, a corrupção hipócrita, a família vendida pela miséria aos vícios dos nobres e dos poderosos. É a época das amásias e dos filhos bastardos. O que era então a mulher do povo, em face das tentações do ouro aristocrático, vê-se bem no escandaloso processo de nulidade do matrimónio de Afonso VI, e nas memórias do Cavaleiro de Oliveira. Ser rufião é um ofício geralmente admitido, e que se pratica com aproveitamento na própria corte. A religião deixa de ser um sentimento vivo; torna-se uma prática ininteligente, formal, mecânica. [...]
Tais temos sido nos últimos três séculos: sem vida, sem liberdade, sem riqueza, sem ciência, sem invenção, sem costumes. Erguemo-nos hoje a custo, espanhóis e portugueses, desse túmulo onde os nossos grandes erros nos tiveram sepultados: erguemo-nos, mas os restos da mortalha ainda nos embaraçam os passos, e pela palidez dos nossos rostos pode bem ver o mundo de que regiões lúgubres e mortais chegamos ressuscitados! Quais as causas dessa decadência, tão visível, tão universal, e geralmente tão pouco explicada? Examinemos os fenómenos, que se deram na Península durante o decurso do século XVI, período de transição entre a Idade Média e os tempos modernos, e em que aparecem os gérmenes, bons e maus, que mais tarde, desenvolvendo-se nas sociedades modernas, deram a cada qual o seu verdadeiro carácter. Se esses fenómenos forem novos, universais, se abrangerem todas as esferas da actividade nacional, desde a religião até à indústria, ligando-se assim intimamente ao que há de mais vital nos povos - estarei autorizado a empregar o argumento (neste caso, rigorosamente lógico) post hoc, ergo propter hoc, e a concluir que é nesses novos fenómenos que se devem buscar e encontrar as causas da decadência da Península.
Ora esses fenómenos capitais são três, e de três espécies: um moral, outro político, outro económico. O primeiro é a transformação do catolicismo, pelo Concílio de Trento. O segundo, o estabelecimento do absolutismo, pela ruína das liberdades locais. O terceiro, o desenvolvimento das conquistas longínquas. Estes fenómenos assim agrupados, compreendendo os três grandes aspectos da vida social, o pensamento, a política e o trabalho, indicam-nos claramente que uma profunda e universal revolução se operou, durante o século XVI, nas sociedades peninsulares.
[...] Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando francamente esse espírito. O seu nome é Revolução: revolução não quer dizer guerra, mas sim paz; não quer dizer licença, mas sim ordem, ordem verdadeira pela verdadeira liberdade. Longe de apelar para a insurreição, pretende preveni-la, torná-la impossível: só os seus inimigos, desesperando-a, a podem obrigar a lançar mão das armas. Em si, é um verbo só de paz, porque é o verbo humano por excelência.


Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares


I

1. Identifique, a partir dos excertos transcritos, os factores e as circunstâncias que tornaram Portugal numa grande potência mundial.

2. Portugal e a Península sofreram uma profunda transformação nos séculos posteriores aos Descobrimentos.
2.1. Faça a caracterização da situação pós-Descobrimentos.
2.2. Identifique a tese defendida por Antero de Quental neste excerto.

3. Caracterize os Portugueses entre os séculos XVII e XIX.

4. A argumentação mostra que as causas da decadência resultam de alguns fenómenos.
4.1. Identifique as causas e os argumentos utilizados.
4.2. Relacione os fenómenos com a vida nas sociedades peninsulares.

5. Tendo em conta a sequência do texto, construa uma oração subordinada concessiva a partir das frases simples transcritas:
«As descobertas [..,] não se fizeram ao acaso.»(\. 1) «Somos uma raça decaída.» (l. 45)

6. Explique a afirmação de que a Revolução é «um verbo de paz».


II

«Antero de Quental foi uma das almas mais atormentadas pela sede de infinito, pela fome de eternidade. Há sonetos seus que viverão enquanto viver a memória dos homens, porque serão, traduzidos mais tarde ou mais cedo, em todas as línguas dos homens atormentados pelo olhar da Esfinge.»
Escreva um texto expositivo-argumentativo sobre esta afirmação de Miguel de Unamuno.



Nota:
propter hoc1, = a seguir a isto, portanto por causa disto.



3.2.07



Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria,
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá neste labirinto, onde a Nobreza,
Com esforço e saber pedindo vão
Às portas da cobiça e da vileza;

Cá neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da Natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Luís de Camões, Poesia Lírica



1. Babilónia e Sião: são símbolos bíblicos que , aqui, podem ser entendidos como exílio e pátria. Babilónia para o poeta é Goa. No sentido bíblico: Babilónia é símbolo de triunfo passageiro de um mundo material. É ainda o mal presente
2. Mãe: Vénus, símbolo do amor sensual
3. Sião: Símbolo da vida espiritual e do bem da glória passada



I

1. Todo o poema, à excepção do último verso, se ocupa da caracterização de um lugar.
1.1. Metaforicamente, que nome se dá a esse lugar?
1.2. Indique:
- o(s) deítico(s) que introduz(em) a caracterização do lugar;
- a figura de estilo que vem associada ao emprego do(s) deítico(s).
1.3. Inventarie os males atribuídos a esse lugar.
1.4. Refira-se à dupla simbologia de "Babilónia".

2. Quase nada se diz sobre Sião.
2.1. De que forma se tem acesso ao que Sião representa?
2.2. Interprete os últimos dois versos do soneto.

3. Que terá Camões para nos dizer sobre a vida social e política no Oriente, onde se exilou?

4. De que forma este soneto se assemelha a uma página de diário?

Ai flores, ai, flores do verde pino

– Ai flores, ai, flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
ai, Deus, e u é?

Ai, flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
ai, Deus e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado
aquel que mentiu do que mi á jurado?
ai, Deus, e u é?

– Vós me preguntades polo voss' amigo?
E eu ben vos digo que é san' e vivo:
ai, Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss' amado?
E eu ben vos digo que é viv' e sano:
ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é san' e vivo
e seerá vosc' ant' o prazo saido:
ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é viv' e sano
e s(e)erá vosc' ant' o prazo passado:
ai, Deus, e u é?


El-Rei D. Dinis


I

1. Divida esta cantiga em partes e indique o assunto de cada uma.

2. Identifique o sujeito poético e faça a sua caracterização.

3. Comente o papel desempenhado pelas «flores do verde pino» nesta cantiga.

4. Atendendo a todos os elementos externos, caracterize formalmente o poema.

5. Refira a valor documental das cantigas de amigo.


II

Numa composição cuidada, desenvolva a seguinte afirmação:

«Os nossos trovadores foram fortemente influenciados pelos trovadores provençais: nos temas, como a natureza, o morrer de amor, a tensão permanente, o amor aspiração; nas formas – cantiga de mestria, de finda e de atafinda; dobre, mordobre, etc.; e até em certos vocábulos».




A Torre da Má Hora

Castelo de Santiago do Cacém



A - «Campanelo conta a história da Torre da Má Hora. ..»

1. Em que ambiente se passa esta acção de narrar?
2. Quem são as personagens que intervêm nesta sessão de contar histórias?
2.1 Que funções diferentes têm?
2.2 Distingue duas personagens bem individualizadas e uma colectiva, caracterizando cada uma delas.
3. Que tipo de história é esta que se intitula «A Torre da Má Hora»?
3.1 Relaciona o tipo de história com o lugar da acção, os acontecimentos, as personagens.
3.2 Qual é o significado simbólico da «Torre da Má Hora»?


B - «E vem-lhe à ideia [...] que a sua vida é tal qual...»

1 ..Aqui começa a desenrolar-se uma outra história.
1.1 Qual é a sua personagem principal?
1.2 Que novas personagens intervêm nesta história?
1.3 Qual consideras ser o momento culminante da sua acção?
1.4 Por que processo são trazidos ao conto os acontecimentos que constituem esta histó-ria?


C - «E à voz de Campanelo [...] tudo isto se agitara nele.»

1 .A história narrada da Torre da Má Hora e a história evocada do menino do bibe preto têm pontos de contacto.
1.1 Pesquisa no conto momentos em que as duas histórias se cruzam.
1.2 Por que razão se identifica o «menino do bibe preto» com O «menino que ia, pois, andando»?
1.3 Indica dois acontecimentos que se correspondem numa e noutra história.
1.3.1 Esclarece o seu significado comum.


D - «Debaixo das estrelas, sentado no lancil do largo, Campanelo conta a história da...»
1 Quem conta a história de Campanelo que conta a história da Torre da Má Hora que faz lembrar a história do menino do bibe preto?
1.1 É alguém que participa na acção?
1.2 Que grau de conhecimento tem do assunto do conto?
1.2.1 Conhece só os acontecimentos ou também os pensamentos?
1.2.2 Toma partido perante as situações?


E - «no lancil do largo, debaixo das estrelas, na noite quieta.»

1. O autor deste conto, Manuel da Fonseca, conhece bem o ambiente, das histórias do livro de contos intitulado Aldeia Nova, a que este conto pertence.
1.1 Procura na biblioteca da tua escora informação sobre Manuel da Fonseca, investigan-do, especificamente, a região de Portugal a que está intimamente ligado.
1.2 Procura no conto as marcas da presença dessa região.
«Atirou o braço com quanta força tinha.»
«Ai do Nora se avançasse um passo do sítio onde estava!» «se tocares no meu neto [...] mato-te...»
«tu és como o teu avô: hás-de ir e voltar...»


Rua de Santiago Cacem