28.12.07

Cesário Verde

Diga se são verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes afirmações:

1. A obra de Cesário Verde, curta devido á morte prematura, é grandiosa e de importância deter-minante no contexto da modernidade.
2. A poesia é, para o parnasiano, um fruto da inspiração.
3. A poesia é, para o parnasiano, um fruto paciente de sabedoria, um reiterado trabalho de perfeição em ritmo e em rima.
4. Na obra de Cesário Verde ressalta a visão plástica de uni "poeta-pintor" atento à realidade quotidiana que o cerca.
5. Cesário é o simples parnasiano imparcial e impassível, que vê e regista a paisagem física do campo e a paisagem humana da sociedade do seu tempo.
6. Cesário Verde (1855-1886) apreende de tudo os pequenos flagrantes, de modo vivo e dinâmico, retratando a realidade…
7. Cesário Verde (1855-1886} capta do campo a vitalidade e a força telúrica; não canta o conven-cionalismo idílico, mas a natureza, os pomares, as canseiras da família durante as colheitas.
8. Em Cesário Verde a cidade surge viva com homens vivos; mas nela há a doença, a dor, a miséria, o grotesco, a beleza e a sua decomposição fatal….
9. Na poesia de Cesário Verde encontramos o "erotismo da humilhação", onde a mulher fatal sobressai, por entre as imagens desfocadas de uma cidade viciada, de "fantasias mórbidas", ao gosto de Baudelaire.
10. Na parte final do poema Contrariedades, Cesário Verde manifesta a revolta do sujeito poético e despreocupação com a situação da vizinha.
11. No poema Contrariedades, Cesário Verde aponta como causas do seu estado de espírito a simplicidade nos usos e nos costumes e as alegrias da vida.
12. No poema Contrariedades, Cesário Verde descreve o estado emocional do sujeito poético, apresentando-o cruel, frenético, exigente, impaciente...
13. No poema Contrariedades, Cesário Verde tece críticas à sociedade, que considera desumana, injusta, decadente, depravada, insensível...
14. No poema Contrariedades, Cesário Verde tece elogios á sociedade, que considera justa e sensível.
15. No poema De Tarde, ao descrever aquele "piquenique de burguesas", Cesário Verde constrói o cenário com objectividade e pormenor.
16. No poema Num Bairro Moderno, os "vegetais" da giga da hortaliceira adquirem as formas de um ser humano masculino e aquele | "retalho de horta aglomerada" acaba por simbolizar a cidade.
17. No poema de Cesário Verde Num Bairro Moderno, identificamos a invasão simbólica da cidade pela vitalidade e pelo colorido saudável dos produtos do campo.
18. No poema de Cesário Verde Num Bairro Moderno, o poeta transfigura o quotidiano numa pintura viva.
19. No poema de Cesário Verde O Sentimento dum Ocidental encontramos um cenário citadino de ruas alegres e cheias de luz...
20. O Parnasianismo caracteriza-se, ao nível do conteúdo, pela atenção ao mundo interior, pelo gosto do pormenor e pelo predomínio da subjectividade.
21. O Parnasianismo é uma escola literária que defende a 'arte pela arte", iniciada em França, em meados do século XIX.
22. O Parnasianismo é uma escola poética que pugna pelo lirismo romântico e ultra-romântico e é contrária à delicadeza e perfeição da forma.
23. O Parnasianismo é uma tendência artística que procura a confecção perfeita através de uma poesia descritiva, baseada, muitas vezes, em temáticas greco-latinas.
24. O Parnasianismo é uma tendência política que procura a igualdade entre os homens.
25. Os poetas parnasianos buscam a perfeição formal, fazendo da poesia algo de escultórico, esculpindo o concreto com nitidez e perfeição.





Fim de tarde na cidade




Àquela hora o trânsito complicava-se. As lojas, os escritórios, algumas oficinas, atiravam para a rua centenas de pessoas, E as ruas, as praças, as paragens dos eléctricos, que tinham sido planeadas quando não havia nas lojas, nos escritórios e nas oficinas tanta gente, ficavam repletas dum momento para t» outro. Nos largos passeios das grandes praças havia encontrões. As pessoas de aprumo tinham de fechar os olhos àquele desacato e não viam remédio senão receber e dar encontrões também e praguejar algumas vezes. Os eléctricos apinhavam-se na linha à frente uns dos outros. Seguiam morosamente, carregados até aos estribos e por fora dos estribos, atrás, no salva-vidas, com as tais centenas de pessoas que saltavam àquela hora apressadamente das lojas, dos escritórios, das oficinas. Além disso, nos dias bonitos como aquele, as ruas da Baixa enchiam-se de elegantes que iam dar a sua volta, às cinco horas, pelas lojas de novidades e pela casa de chá, para matar o tempo de qualquer maneira, ver caras conhecidas, cumprimentar e ser cumprimentadas, e só voltavam a casa à hora do jantar.
A multidão propunha uma confraternização à força. Era preciso pedir desculpa ao marçano que se acabava de pisar, implorar às pessoas penduradas no eléctrico que se apertassem um pouco mais para se poder arrumar um pé, nada mais que um pé, num caminho do estribo, muitas vezes sorrir para gente que nunca se tinha visto antes e apetecia insultar. Os elegantes e as elegantes achavam naturalmente tudo isto muito aborrecido. Sobretudo a necessidade absoluta de seguir naquelas plataformas repletas em que não viajavam só cavalheiros, mas muitos homenzinhos pouco correctos e onde esses mesmos homenzinhos e mulheres vulgares deitavam um cheiro insuportável. Que fazer, no entanto, senão atirar-se uma pessoa também para aquele mar de gente que empurrava, furava, pisava e barafustava até chegar ao carro? Que fazer senão empurrar, furar, pisar e barafustar também?


Mário Dionísio, O Dia Cinzento e Outros Contos


Texto B


CIDADE

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar c as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo.
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes e não vejo
Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de M.B. Andresen, Antologia



I

Lê o texto A e responde às seguintes perguntas:

1. Caracteriza o ambiente na cidade ao fim da tarde.

2. Indica os factores que distinguem os grupos sociais referidos no texto.

3. Explica a frase seguinte: "A multidão propunha uma confraternização à força'

4. O texto fornece uma determinada visão dos meios de transporte públicos,
a) Com base no texto, refere os inconvenientes da sua utilização,
b) Aponta outros riscos a que estão sujeitos os seus utentes.


II

Lê o texto B e responde às questões seguintes:

1. Indica o efeito que a cidade exerce na poetisa.

2. Caracteriza a vida em contacto com a Natureza.

3. "[...] planícies mais vastas/Que o mais vasto desejo."
a) Refere o desejo revelado nestes versos.
b) Identifica os graus dos adjectivos contidos nesses versos.

4. Faz o esquema rimático do poema e classifica os seus tipos de rima.


III

Aponta as ideias comuns aos dois textos apresentados.
Distingue os textos A e B ao nível da forma.



27.12.07

Ah, um soneto...


Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?..

Álvaro de Campos, Poesias, Ed. Ática


I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:

1. A primeira quadra é dominada por uma figura de estilo.
1.1. Identifique-a e clarifique o seu sentido tendo em linha de conta dois tempos:
- o passado;
- o presente.
1.2. Descubra, ao longo do poema, outras duas figuras de estilo e relacione o seu sentido com a primeira que identificou.
1.3. Diga como é que a iteração presente na primeira quadra intensifica o inconformismo do abandono da "profissão do mar".

2. Distinga dois mundos ou domínios:
- o da memória e sensibilidade;
- o do real.
2.1. Refira como se interligam.

3. Comprove que os sentimentos que dominam o sujeito poético remetem para esta identidade: coração/pessoa.

4. Faça o levantamento das expressões de nível popular e refira o papel que desempenham na
comunicação.
5. Explique o título do poema em oposição ao versilibrismo e heteromorfismo da poesia de Álvaro
de Campos.


II

Fernando Pessoa afirma que Álvaro de Campos «é o filho indisciplinado da sensação».
Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática das sensações na poesia heteronímica de Fernando Pessoa.

Cena Onzeneiro




I

Assinala com V ou com F as afirmações que julgues verdadeiras ou falsas.

1. Esta personagem tem o nome de Onzeneiro porque:
a) é a décima primeira personagem que entra em cena;
b) tem onze irmãos;
c) explorou o povo, levando juros exagerados.

2. O Diabo diz que o Onzeneiro é seu parente porque:
a) é seu irmão;
b) é seu amigo, por ter praticado o mal;
c) é seu parente afastado.

3. O Onzeneiro aparece em cena:
a) carregado de dinheiro;
b) com pouco dinheiro, insuficiente para a portagem;
c) sem nenhum dinheiro.

4. Quando inicia o diálogo com o Onzeneiro, o Diabo:
a) usa uma linguagem suavizada;
b) diz abertamente que ele vai para a sua barca;
c) diz que não o quer levar.

5. O Anjo responde ao pedido do Onzeneiro, dizendo:
a) que o leva na sua barca se ele se arrepender;
b) que ele foi pecador e não poderá entrar na sua barca;
c) que ele deverá ir à terra para restituir o que roubou.

6. O Onzeneiro, ao longo da sua actuação:
a) altera a sua atitude de orgulho;
b) não altera a sua atitude;
c) pede perdão dos seus pecados.


II

1. Indica as razões por que o Diabo chama "parente' ao Onzeneiro.

2. O Onzeneiro preparou-se para a morte ou foi apanhado de surpresa? Justifica a resposta.

3. Qual é o primeiro argumento que o Onzeneiro apresenta para não ir na barca do Diabo?

4. O Onzeneiro mostra-se convencido de que se salvará. Em que se fundamenta?

5. Qual é o argumento que o Anjo apresenta para não levar o Onzeneiro?

6. Explica o sentido do verso "Não já no teu coração."

7. De que se lamenta o Onzeneiro diante do Anjo?

8. Quando volta à presença do Diabo, qual é o pedido que lhe faz?
8.1. O que pretende com esse pedido?

9. A que género literário pertence a obra de onde foi retirado este texto? 9.1 . Que outros géneros literários estudaste? Exemplifica e justifica.

10. Se o texto fosse escrito hoje, quem poderia, dentre os elementos da nossa sociedade, desem-penhar o papel do Onzeneiro?

III

1 . Indica sinónimos de "fardar", "faleci', "bater.

2. Indica antónimos de "nunca", "avantagem", "Paraíso", "cá".

3. "Sabe vós no que me fundo?"
3.1. Classifica morfologicamente as palavras desta frase.
3.2. Divide e classifica as orações desta frase.

4. "Ora, entrai, entrai aqui!"
4.1 . Refere a função da linguagem dominante nesta afirmação.
4.2. Explica o sentido dessa (unção.

5. Transforma as duas frases que se seguem numa só, introduzindo entre elas a relação de conse-quência:
5.1. O Onzeneiro estava convencido; não duvidava que ia para o Paraíso.
5.2. O Diabo falou com habilidade; não revelou directamente o lugar para onde ia a sua barca.

6. "E trarei o meu dinheiro."
6.1. Reescreve a frase, substituindo o complemento directo pelo pronome pessoal que desempenha a mesma função.


IV

1 . "Oh! Que gentil recear/e que cousas para mH"; "Ó onzena, como es fea/e filha da maldição!"
1 .1 . Refere, pelo menos, duas figuras de estilo presentes nestes versos.

2. "Ó triste, quem me cegou?"
2.1 . Indica o sentido de "cegou".
2.2. Que figura de estilo está realizada neste verbo?
2.3. Constrói frases em que entre o verbo "cegar" com sentido normal (denotativo) e sentido diferente daquele que tem na frase transcrita (conotativo).


V

"Ganharás o pão cora o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
Com o suor dos outros ganharás o pão."
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Ed. Salamandra

Tendo por referência as palavras de Sophia de Mello B. Andresen, constrói um texto bem estru-
turado, que comprove a verdade dessas palavras.

14.12.07

Alegres campos, verdes arvoredos



Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais1 ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
Compostos em concerto desigual,
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas,
Nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
Regando-vos com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.

Luís de Camões



I

Lê atentamente o texto e responde às seguintes questões:

1. Existe um contraste entre a natureza e o sujeito poético. Explicita o sentido da afirmação anterior.
2. O presente do sujeito poético difere do passado.
2.1. Que sentimento o dominava no passado?
2.2. Diz a causa do seu estado de espírito no presente.
2.2.1. Transcreve o verso que fundamenta a resposta à questão anterior.
3. Identifica as figuras de estilo presentes nas seguintes expressões:
a) «águas que correndo alegres vêm.» (v. 11).
b) «Regando-vos com lágrimas saudosas» (v. 13).
4. Refere a corrente da poética de Camões em que este poema se insere.
4.1 Faz a sua análise formal.

II

1. Explica o significado dos seguintes vocábulos: «silvestres» (v. 5); «ásperos» (v. 5); «deleitosas» (v. 10).
2. Transcreve as formas verbais presentes na última estrofe e classifica-as.
3. Integra as seguintes conjunções na subclasse a que pertencem: «que» (v. 7); «pois» (v. 9); «E» (v. 14).


Natal… Na província neva


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Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
´Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa



I

1. Considera as referências – evocações temporal e espacial contidas no primeiro verso.
1.1. Interpreta a sua expressividade.
1.2. Esclarece o sentido do verso 4.

2. “ Como a família é verdade!” (v.6)
2.1. Explicita os efeitos sugeridos pelo tipo de frase utilizado.

3. Identifica a figura de estilo presente no verso 8 “ ´Stou só e sonho saudade”.
3.1. Refere o seu valor, tendo em conta os sentimentos que dominam o sujeito poético.

4. Relaciona o último verso com a temática pessoana que estrutura o poema.

5. Analisa formalmente a composição poética.


II

“ (…) na suposição de que ser poeta é ter acesso a um novo “estado de graça”, Fernando Pessoa tenta recriar-se, artificialmente, como “criança” e, nela, continuar a infância perdida. Mas a consciência do real atrapalha-lhe o sonho.”

Alfredo Antunes, Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa


Depois de reflectir sobre o excerto transcrito, desenvolva-o num texto expositivo, fundamentando as suas afirmações.




13.12.07

Notícia



Golfinho deu à costa e está a recuperar


Um golfinho deu à costa na sexta-feira à tarde na praia do Seixo, Silveira, na zona de Santa Cruz, tendo sido transportado para um parque aquático do Algarve por um helicóptero do Serviço Nacional de Bombeiros.
Nas acções participaram elementos dos Bombeiros Voluntários de Torre Vedras e da União Zoófila. O mamífero deverá agora recuperar da sua doença nas instalações do parque aquático algarvio até estar em condições de ser devolvido ao seu meio Natural.

In Público, 11/01/98


I


1. Identifica o tipo de texto que acabaste de ler.
1.1. De onde foi retirado?
1.2. Refere a sua estrutura.

2. Transcreve do texto a resposta às quatro questões:
Quem? O quê? Onde? Quando?
2.1. Como se denomina a parte do texto onde se encontram as respostas a essas questões?

3. Delimita o corpo da notícia.

4. Completa as frases.
Comprei hoje um jornal ____________, como faço todos os dias.
A maior parte dos jornais que leio saem de manhã, são jornais _____________. Os jornais, que saíam à tarde, chamavam-se ______________________.

5. Assinala com V (verdadeira) ou F (falsa) as seguintes afirmações, corrigindo as falsas:
a) A notícia deve ter uma linguagem clara, acessível e não pode veicular opiniões.
b) A parte mais importante da notícia é o corpo da notícia.
c) Na redacção de uma notícia é utilizada a técnica da pirâmide invertida.



II

1. Indica o tipo e a forma das frases seguintes:
a) Não estudaste?
b) Não pode ser!
c) Vamos realizar um bom trabalho.
d) Cumpram as regras!

2. Muda para a forma negativa as frases que se seguem:
a) Ele sente-se bem?
b) Empresta-me a borracha.

3. Identifica os adjectivos da frase:
A imagem que está sobre a cómoda da minha avó é considerada milagrosa e poética.

4. Identifica o sujeito e o predicado na seguinte frase:
O homem está cercado de objectos familiares.


III

Os meios de comunicação social são armas poderosas que influenciam diariamente cada um de nós.

Com base nesta afirmação, constrói um pequeno texto sobre os benefícios e prejuízos causados pelos meios de comunicação social.




Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar

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Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, sem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei logo de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calado e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E começo a morrer muito antes de ter vivido.

Deito aqui onde jazo, só uma brisa que passa.
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fernando Pessoa


I

1. O sujeito poético situa-se na orla da praia.
1.1. Caracterize o espaço sugerido ao longo do poema.
1.2. Considerando o valor semântico dos adjectivos no primeiro verso das estrofes alternadas, mostre que há um valor simbólico associado a esse espaço.

2. Na segunda estrofe, há uma definição da vida.
2.1. Explicite o conceito de vida revelado ao longo do poema.
2.2. Identifique e defina os valores morais que se destacam no conceito de vida.

3. "Por isso" (v. 9) introduz uma conclusão que resulta do sentimento de vida.
3.1. Explicite os sentimentos que o sujeito lírico exprime.
3.2. Determine a conclusão ou projecto de vida que formula.

4. Analise a construção formal do poema, tendo em atenção que há uma segmentação do verso em redondilhas maiores que rimam entre si.


II

Num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, comente as seguintes afirmações do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares:

«A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. [...] Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti.»

«A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror.»

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego de Bernardo Soares (fragmentos)


12.12.07

O meu olhar azul como o céu



O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não se interroga nem se espanta…

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo…

(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol…
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)

Alberto Caeiro




I

1. Apresenta as características do olhar do poeta e justifica-as.
1.1. Interpreta a expressividade das comparações utilizadas.

2. Refere a projecção da interrogação e do espanto na natureza e no sujeito poético.

3. Interpreta o verso 12 “Porque tudo é como é e assim é que é.”.

4. Explicita os conceitos de aceitação e de rejeição do pensamento, considerando as afirmações feitas nos dois últimos versos do poema.

5. Identifica o tema da composição poética.

6. Faz a análise formal do poema.


II

Alberto Caeiro é um intransitivo, isto é, recusa o conhecimento por analogia.
Depois de reflectires sobre o excerto transcrito, desenvolve-o num texto expositivo-argumentativo, fundamentando as tuas afirmações.

10.12.07

O Caldo de Pedra



Um dia um frade andava ao peditório e chegou à porta de um lavrador, onde não lhe quiseram dar nada. O frade estava a cair de fome, e disse:
Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu- lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:
- Se me emprestassem aí um pucarinho?
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasa.
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava um primor.
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso; bem precisava de uma pedrinha de sal.
Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:
- Agora é que com uns olhitos de couve ficava, que os anjos o comeriam.
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço: ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço, depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo. A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Oh, senhor frade, então a pedra?
Respondeu o frade:
- A pedra, lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português


I

1. Identifica as personagens do texto.

2. Caracteriza o frade, tendo em conta o ardil imaginado para atingir o seu objectivo.

3. Os referentes temporais do decorrer da acção surgem traduzidos pela forma verbal da primeira frase do conto. Identifica o verbo e o tempo verbal em que se encontra.

4. Localiza a acção no espaço e no tempo.

5. Quanto à localização no espaço e no tempo, este conto insere-se na literatura de transmissão oral. Justifica.

6. Explica a razão da situação referida na frase transcrita: e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo.
6.1.Como reagiram as personagens presentes?
6.2. Diz o que pensas dessa atitude.

7. Identifica a moralidade que se pode extrair do conto.

8. Escreve no discurso indirecto:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.

9. Identifica a figura de estilo presente na frase: a panela começou a chiar.


II

Dos dois temas a seguir apresentados, escolhe apenas UM.

1- Imagina um diálogo travado entre os donos da casa e o frade, após terem percebido o estratagema usado.

2- Escreve um curto e bem elaborado texto subordinado ao tema: Pobreza.


7.12.07

Canção Breve


Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa



Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- relação entre o passado e o presente;
- valor simbólico das referências espaciais;
- aspectos formais e recursos estilísticos relevantes;
- importância do título na construção do sentido.



5.12.07

Jorge Bucay, Contos para pensar

Um conto para pensar




Um mestre sufi contava sempre uma parábola no final de cada aula, mas os alunos nem sempre entendiam o seu sentido...
- Mestre - perguntou um deles, certo dia - , tu contas-nos contos, mas nunca nos explicas o que significam...
- As minhas desculpas - disse o mestre. - Como compensação, deixa-me que te ofereça um belo pêssego.
- Obrigado, mestre - disse o discípulo, comovido.
- Mais ainda: como prova do meu afecto, queria descascar-te o pêssego. Permites que o faça?
- Sim, muito obrigado - disse o discípulo.
- E, já que tenho a faca na mão, não gostarias que eu cortasse o pêssego em pedaços, para que te seja mais fácil comê-lo?
- Sim, mas não quero abusar da tua generosidade, mestre...
- Não é um abuso; sou eu que me estou a oferecer. Quero apenas agradar-te. Permite-me também que mastigue o pêssego antes de to oferecer...
- Não, mestre! Não gostaria que fizesses isso! - queixou-se o discípulo, surpreendido.
O mestre fez uma pausa e disse:
- Se vos explicasse o sentido de cada conto, seria como dar-vos a comer fruta mastigada.


Jorge Bucay, Contos para pensar
(texto da contracapa)



I

1. Este conto baseia-se no diálogo entre um mestre sufi e o seu discípulo.
1.1. Identifica a razão que levou a esse diálogo.

2. Comenta a forma como o mestre reagiu à interpelação do seu aluno.

3. A forma como ele reagiu despertou no discípulo sentimentos diversificados.
3.1. Identifica esses sentimentos e refere os momentos do diálogo em que surgiram.

4. A mensagem que o mestre quis transmitir ao aluno concentra-se na sua última fala.
4.1. Explica pelas tuas próprias palavras o sentido das palavras do mestre.
4.2. Diz se concordas ou discordas com as palavras do mestre, fundamentando convenientemente a tua resposta.

5. Caracteriza a relação existente entre este mestre e o seu aluno.


II

Baseando-te neste texto e também na tua própria experiência, refere-te aos papéis que professores e alunos devem desempenhar no processo de ensino-aprendizagem.




4.12.07

Ai, dona fea, foste-vos queixar


Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv'en (o) meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus me perdon,
pois avedes (a) tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!


Joan Garcia de Guilhade, CV 1097, CBN 1486


I

1. Explicite o assunto da cantiga que acabou de ler.

2. De que modo é que o trovador se serve da ironia?

3. Contraponha o louvor do trovador à «dona fea» e o louvor de outros trovadores à sua «senhor».

4. Insira esta cantiga no género a que pertence, justificando.

5. Compare a crítica social feita pelos poetas medievais com a crítica social feita por um ou mais autores posteriores.

6. Faça uma análise da estrutura externa desta cantiga.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Luís de Sousa Rebelo:

«Entre nós a sátira abdica da sua função social e correctiva, sendo em número pequeno as composições em que ele aborda assuntos de interesse geral. Renuncia, assim, a orientar uma corrente de opinião, a ser uma arma de luta política, fragmentando-se numa crítica individual e subjectiva».

30.11.07

Cena do Frade


Vem um Frade com ua Moça pela mão e um broquel e a espada na outra, e um casco debaixo do capelo: e. Ele mesmo fazendo a baixa, começou de dançar dizendo:

Fra. Tai-rai-rai-ra; tari-ri-ra;
ta-rai-rai-rai-ra; tn-ri-ri-ra.' ta-La;
ta-ri-rim-rim-ra. Huha!
Dia. Que é isso, padre? Que vai lá?
Fra. Deo gratias! Som cortesão.
Dia. Sabês também o tordião?
Fra Porque não? Como ora sei!
Dia. Pois, entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.
Essa dama, é ela vossa?
Fra. Por minha lá tenho eu,
e sempre a tive de meu.
Dia. Fezestes bem, que é fermosa!
É não vos punham lá grosa
no vosso convento santo?
Fra. E eles fazem outro tanto!
Dia. Que cousa tão preciosa...
Entrai. padre reverendo!
Fra. Para onde levais gente?
Dia. Pera aquele fogo ardente
que nom temestes vivendo.
Fra. Juro a Deos que nom t'entendo!
E este hábito nõ me val?
Dia. Gentil padre mundanal,
a Berzabu vos encomendo!
Fra. Ah Corpo de Deos consagrado!
Pela fé de Jesu Cristo,
que eu nom posso entender isto!
Eu hei-te ser condenado?
Um padre tão namorado
e tanto dado a virtude?
Assi Deos me dê saúde.
que eu estou masvilhado!
Dia. Não curês de mais detença.
Embarcai e partiremos:
tomareis um par de remos.
Fra. Nom ficou isso n'avença
Dia. Pois dada está já a sentença!
Fra. Par Deos! Essa seri’ela!
Não vai em tal caravela
minha senhora Florença.
Como? Por ser namorado
e folgar com ua mulher
se há um frade de perder,
com tanto salmo rezado?
Dia. Ora estás bem aviado!
Fra. Mais estás bem corregido!
haveis de ser cá pingado...
Dia. Devoto padre e marido,

Descobriu o Frade a cabeça, tirando o capelo, e apareceo o casco, e diz o Frade:

Fra. Mantenha Deos esta coroa!
Dia. Ó padre Frei Capacete!
Cuidei que tínheis barrete!
Fra. Sabê que fui da pessoa!
Esta espada é roloa
e este broquel rolão.
Dia, Dê Vossa Reverença lição
d'esgrima, que é cousa boa
(...)
Tornou a tomar a Moça pela mão, dizendo:

Vamos à barca da glória!
Começou o Frade a fazer o tordião e foram dançando ate' a batel do Anjo desta maneira

Fra. Ta-ra-ra-rai-ra'; ta-ri-ri-ri-ri-ri:
rai-rai-ri; ta-ri-ri-ri: ta-ri-ri-ri.
Huha'!
Deo Gratias! Há lugar cá
pera minha reverença?
E a senhora Florença
polo meu entrará lá!
Joa. Andar, muitieramá
Furtaste o trinchão, frade?
Fra. Senhora. dá-me à vontade
que este feito mal está.
Vamos onde havemos d'ir.
não praza a Deos com a ribeira!
Eu não vejo aqui maneira
senão enfim... concrudir.
Dia. Haveis, padre, de viir.
Fra. Agasalhai-me ii Frorença.
e compra-se esta sentença
e ordenemos de partir.

Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno


I

Presta atenção ao texto que te foi apresentado.
Lê atentamente as afirmações feitas e apaga o que considerares errado.


1. O Frade é uma das personagens escolhidas por Gil Vicente.
Apresenta-se no cais com:
- uma moça; - um bolsão; - uma cadeira; - um casco; - uma espada; - livros; - um bruquel; - um capelo.
1.1. Estes elementos são símbolos cénicos e servem para:
- caracterizar a personagem.
- distrair a personagem na outra vida.

2. Quando chega ao cais, o Frade mostra-se:
- preocupado;
- alegre;
- confiante;
- arrependido.
2.1. Transcreve do texto expressões que comprovem a tua escolha.
2.2. Tendo em conta o estado de espirito com que o Frade entra em cena, escolha as palavras que melhor o caracterizam:
- inconsciente; - consciente;
- sensato; - insensato;
- exuberante; - simples.

3. Nas intervenções do Diabo evidencia-se a incoerência vivida pelo Frade. Assim ele vai sendo acusado de:
- ser devasso;
- viver de acordo com os prazeres da vida mundana; ser humilde e austero.

4. O Diabo não tem duvidas acerca do destino a dar a Frei Babriel:
- " Pera aquele fogo ardente
que nom temestes vivendo."
4.1. Nesta transcrição esta presente:
- um eufemismo.
- uma metáfora.

5. Em relação ao que o Frade afirma acerca da mulher que leva consigo
"e sempre a tive de meu.", o Diabo diz:
"Fezestes bem ,que é fermosa!
E não vos punham lá grosa
No vosso convento Santo?"
5.1. Com base nestas palavras do Diabo, podemos dizer que o seu estado de espirito é de:
- satisfação; - contentamento;
- revolta; - tristeza.
5.2. Selecciona desta fala do Diabo uma expressão que exemplifique a ironia.
5.3. O Frade argumenta dizendo: "E eles fazem outro tanto!
Através desta expressão, Gil Vicente pretendia:
- generalizar a critica a toda a classe do clero. arranjar argumentos de defesa do Frade.

6. O Frade discorda da sentença dada pelo Diabo em relação ao seu destino e dirige-se à Barca do Paraíso. A sua chegada:
- o Anjo recebe-o calorosamente.
- o Anjo despreza-o e é Joane que lhe fala.
6.1. Junto da Barca do Anjo, o Frade:
- apresenta argumentos validos e entra nesta Barca juntando-se ao Anjo e a Joane.
- Reconhece a sua vida dissoluta e regressa final mente para junto do Diabo entrando na sua Barca.
6.1.1.Quando decide concordar com o seu destino o Frade mostra-se:
- resignado;
- revoltado;
- alegre;
- desiludido.

7. Ao criar esta obra, Gil Vicente pretendia:
- distrair apenas as pessoas
- criticar para moralizar a sociedade.




28.11.07

Contrariedades





Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.
Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores. Arte?
Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.
Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
F. a mini, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.
A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

Cesário Verde



I

Relacione a crítica ao Jornalismo que é apresentada no texto com a que está patente no episódio da redacção do jornal A Tarde, de Os Maias.
Comente o retraio da engomadeira.
Reconheça, no texto transcrito, valores do Realismo.


II

Com base no estudo do Livro de Cesário Verde, desenvolva a seguinte afirmação de Hélder Macedo:


"Como a antinomia que mais exemplarmente reflecte, em termos sociais, culturais e políticos, a crise de transição da sociedade no tempo de Cesário é o contraste entre o campo e a cidade, é em volta dela que a sua poesia se vai organizar."

in Nós - uma leitura de Cesário Verde.

Porto Manso



É um rio louco, que abriu caminho em fúria por entre montes gigantes e, obstinado, quis ir ver o mar. R chegou. Cansado, mas chegou.
Em toda a jornada lutou sempre com penhascos e xistos, com fraguedo e granito, dando cara a tudo o que lhe quis barrar o caminho. E os homens das suas margens aprenderam este sentido de luta. Construíram os seus barcos e ofereceram batalha ao rio enlouquecido e raivoso no torvelinho das suas águas traiçoeiras.
Vai por uma estrada tortuosa, retorcida e causticada, passando promontórios, fragões, baixéis e areias. Nunca a natureza lutou tanto com a natureza. E é alucinante e maravilhoso para os homens ir nas mãos da morte — e vencer a morte.
É um caminho de alucinação e de sonho — cansa e conforta.
Por isso os marinheiros se apaixonam por de como por uma mulher de mil feitiços. Dão-lhe tudo — o esforço titânico, o suor que é sangue e o sangue que é vida. Oferecem-lhe a vida a sorrir e o rio nada lhes dá em troca. Não é mais do que uma estrada de mendigos cegos que não podem tomar outro rumo. Cegos como o rio, loucos como ele.
O Douro, porém, chegou cansado para ver o mar, mas chegou.


Alves Redol, Porto Manso


I

1.
a) Caracteriza, por palavras tuas, o rio que é descrito no texto.
b) Identifica um recurso estilístico utilizado na apresentação desse rio e define-o.

2. Explica as frases seguintes:
a) "Nunca a natureza lutou tanto com a natureza."
b) "E um caminho de alucinação e de sonho—cansa e conforta."
c) "O Douro, porém, chegou cansado para ver o mar, mas chegou."

3.
a) Explicita o sentido em que a palavra "suor" está utilizada no texto.
b) Refere um outro sentido para o mesmo termo.
4. Divide o texto em partes e salienta a relação que existe entre elas.


II

Imagina e escreve uma notícia de jornal, inspirando-te na seguinte frase do texto: "É alucinante e maravilhoso para os homens ir nas mãos da morte — e vencer a morte".


27.11.07

Cena do Fidalgo



- Ó poderoso dom Anrique
cá vindes vós? Que cousa é esta?

Vem o fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:

Fid. Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
Dia. Vai pera a ilha perdida
e há-de partir logo essa'ora.
Fid. Pera lá vai a senhora?
Dia. Senhor, a vosso serviço.
Fid. Parece-me isso cortiço...
Dia. Porque a vedes lá de fora.
Fid. Porém, a que terra passais?
Dia. Pera o Inferno, senhor.
Fid. Terra é bem sem-sabor.
Dia. Quê? E também cá zombais?
Fid. E passageiros achais
pera tal habitação?
Dia. Vejo-vos eu em feição
pera ir ao nosso cais...
Fid. Parece-me a ti assi.
Dia Em que esperas ter guarida?
Fid. Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
Dia. Quem reze sempre por ti!...
Hi hi hi hi hi hi hi!...
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
porque rezam lá por ti?
Embarcai! Hou! Embarcai,
que haveis de ir à derradeira.
Mandai meter a cadeira,
que aqui passou vosso pai.
Fid. Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?
Dia. Vai ou vem, embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.
Pois que ja a morte passastes
havês de passar o rio.
Fid. Não há aqui outro navio?
Dia. Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que espirastes
me destes logo sinal.
Fid. Que sinal foi esse tal?
Dia. Do que vós vos contentastes.
Fid. A estoutra barca me vou.
- Hou da barca! Pera onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis?
Respondei-me! Houlá! Hou!
(Par Deos, aviado estou!
Cant'a isto é já pior
Que giricocins, salvanor!
Cuidam que sao eu grou?)
Anjo. Que querês?
Fid. Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
Anjo Esta é: que demaindais?
Fid. Que me leixes embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.
Anjo Não se embarca tirania
neste batel divinal.


Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno


I



1. Identifica a figura de estilo presente nas palavras que o Diabo proferiu ao interpelar D. Anrique e explica o seu valor expressivo

2. No excerto transcrito há referência a um elemento que acompanha o fidalgo. Identifica-o e explica como é que um elemento ajuda a caracterizar a personagem.

3. Caracteriza psicologicamente o Fidalgo, com base no diálogo que mantém com o Anjo.
Fundamenta as tuas afirmações e comprova-as com dados textuais.

4. Refere as acusações que o Diabo dirige a D. Anrique.
Usa palavras tuas e comprova com dados textuais.

5. Transcreve uma passagem textual em que esteja presente o cómico de carácter e explica de que modo esse efeito é conseguido.

6. Explica de que forma Gil Vicente consegue dirigir a sua crítica não a um fidalgo mas à nobreza da sua época.

7. "Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai."
7.1. Classifica morfologicamente os vocábulos sublinhados.
7.2. Explica o sentido dos versos transcritos e refere a sua relação com o objectivo da crítica vicentina.

8. Divide e classifica as orações da frase seguinte:
A crítica vicentina é de tal modo divertida que foi bem aceite por aqueles que eram criticados.
8.1. Identifica a função sintáctica dos elementos sublinhados.

20.11.07

Ah, um soneto...


Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...

Álvaro de Campos, Poesias, Ed. Ática

I

Depois de uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- o tema/assunto e seu desenvolvimento;
- os recursos estilísticos na explicitação dos tempos: passado/presente;
- o incorformismo do abandono da "profissão do mar" (v. 2);
- a interligação dos mundos da memória e sensibilidade e o do real;
- os sentimentos dominantes e a identidade entre coração/pessoa;
-o título do poema em oposição ao versilibrismo e heteromorfismo da poesia de Álvaro Campos.


II

Fernando Pessoa afirma que Álvaro de Campos «é o filho indisciplinado da sensação».
Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática das sensações na poesia heteronímica de Fernando Pessoa.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e catorze palavras, num texto de noventa e cinco a cento e quinze palavras.

Na verdade, só lutando consigo próprio, por um esforço de imaginação, foi Álvaro de Campos o cantor whitmaniano, delirante, da Energia e do Progresso. Na «Saudação a Walt Whitman» definiu-se, e bem, pelo tédio: «Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio...» Inércia, tédio são, com efeito, as constantes da sua personalidade desde a fase do «Opiário». Na última fase, em 1926, dirá: «Ah, cansa-te nobremente/E não cantes, como eu, a vida por bebedeira...» (pág. 20). O Campos whitmaniano cantou a vida por bebedeira. As suas sensações desenfreadas, a sua emotividade pânica jamais passaram da esfera da inteligência: «Orgia intelectual de sentir a vida!» (pág. 225). Intelectual, apesar do rótulo de sensacionista, a poesia de Campos é-o tanto como a de Caeiro. Justifica-a o desejo de afogar o tédio de suprimir pela embriaguez a dor de viver, a «angústia no fundo de todos os prazeres», a «saciedade antecipada na asa de todas as chávenas» - expressões da «Passagem das Horas». «Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir» (pág. 124). Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos. Mas o tour de force malogrou-se: depois de 1916, Campos virá a ser o poeta do cansaço, da abulia, do vazio, inquieto e nauseado.
Mesmo nos poemas vincadamente whitmanianos, amplas polifonias, há acordes dissonantes. Na «Ode Triunfal», quando, um crescendo raivoso, estava gritando o seu amor por todas as vidas anónimas e o desespero de não as devassar, abre um parêntese de nove versos para, num tom grave e recolhido, reflectir sobre o mistério do mundo, a fatalidade da morte, a doçura triste da infância que não volta:
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, Pinheirais onde a minha infância era outra coisa Do que eu sou hoje... (pág. 150)
Fechado o parêntese, reaparece a «raiva mecânica», a «obsessão movimentada dos ómnibus», a fúria de ir ao mesmo tempo nos comboios de toda a parte.


Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
Ed. Verbo (pp. 66-68)



16.11.07

Carta ao leitor desconhecido do Diário de Notícias

Meu caro leitor,
Permita-me que lhe escreva esta carta na última edição em que o meu nome figura no cabeçalho do Diário de Notícias.
Quero ressalvar que se trata, apenas, de uma mensagem alinhavada à pressa, por entre reu-niões, telefonemas e despedidas. (...)
Perdoe-me, de qualquer modo, que me dirija a si deste modo tão discreto, sem aviso prévio, mas tenho-o na conta de amigo desta velha casa e isso autoriza-me, creio, esta pequena e, afinal, irrelevante ousadia.
Terá de me relevar, desde logo, a suprema impertinência de imaginá-lo, ao pequeno-almoço, por entre torradas e café com leite, ou no Metropolitano, gozando as delícias da sardinha enlatada, a folhear as nossas páginas (...)..
Mas levo mais longe o à-vontade:
Imagino-o (...)
Trabalhador cansado do seu dia e que tenta descontrair ao ler o jornal, reclinado, à noite no seu sofá.
Cidadão que deseja saber mais sobre o país e sobre o mundo. Procura aumentar a sua cultura e estar actualizado.
(...) estudante que respira liberdade nos espaços que dedicamos aos jovens e à cultura.
Dona de casa que pretende mais moda, mais culinária, mais consultório sentimental, ou técnica que procura a informação de qualidade e o debate de ideias.
Seja qual for o seu rosto, caro leitor, V. é nosso amigo, porque, quer se sinta mais próximo ou mais afastado de nós, encontra, nestas páginas, a "ração" informativa e formativa que o ajuda a com-pletar a "pastilha elástica para os olhos" que a Televisão lhe traz a casa.


Mário Mesquita, Diário de Notícias (28-2-86)
(adaptado)




I

1- O texto que acabaste de ler corresponde a uma carta que Mário Mesquita "escreveu" aos leitores do Diário de Notícias. Indica o motivo que o levou a escrever a carta.

2- Que tipo de relação pretende estabelecer este jornalista com os seus leitores? Justifica a tua resposta dando exemplos do texto.

3- Neste texto e noutro que anteriormente estudaste, são referidos diferentes tipos de leitor. Indica-os.

4- Com base neste texto e no trabalho de grupo que recentemente realizaste, explica a seguinte frase: Os jornais não servem apenas para informar.



II

1- Lê, agora, o texto que se segue, o qual corresponde a uma notícia incompleta.

Uma menina de 7 anos, Cristina Cunha, num rasgo de coragem, salvou, anteontem, na freguesia de Anha, um vizinho de 23 meses, Carlos Tiago de Assunção Camões, de um afogamento certo num pequeno tanque de sua casa.

1.1- A que parte da notícia corresponde este texto? Justifica.

2- Diz quais são as características da linguagem utilizada na notícia.



III
1- Explica o significado dos seguintes vocábulos:
a) cativar
b) elucidar

2- Forma o plural dos seguintes substantivos:
a) anzol
b) réptil
c) cidadão
d) tijolo

3- Classifica morfologicamente cada uma das seguintes palavras. No caso de se tratar de um verbo indica o tempo e o modo.
a) amanhã
b) responsável
c) fala-se
d) sorriam
e) cantasse
f) trabalho






15.11.07

O charlatão

O sítio deles era à entrada da ponte, no Largo Velho.
- Ora aqui temos nós a última descoberta científica do século!
Falava de cima de uma cadeira, em pé, ao lado de uma mesa, sobre a qual estava um grande baú aberto. Passeava-lhe um rato branco pêlos ombros, e era impossível fugir à magia daquela 5 enorme cabeleira, que lhe coroava uma bela fronte de lutador. Só vinha na feira dos vinte e três. Armava a tenda logo pela manhã, e daí a nada já tinha freguesia a beber-lhe as palavras. A sua voz era sugestiva, funda, com quantos tons eram precisos para encantar homens de todas as terras e de todas as raças.
- Façam favor de ver...
E só quem era cego é que não via.
- Vou agora contar-lhes uma anedota.
Os que já faziam parte da roda arrebitavam as orelhas, os que iam no seu caminho paravam e ficavam maravilhados a ouvir. No fim, todos se riam, que a coisa tinha, na verdade, graça.
- Vou agora mostrar a W. Ex.as a autêntica víbora da felicidade!
"Excelências"?! Estava a brincar, ou a falar a sério? Mas ao fim e ao cabo, quem é que não gosta, uma vez na vida, de ser tratado por "excelência"? E um, de Almalaguês, perdeu a cabeça e lá com-prou aquele "talismã da felicidade" por cinco escudos.
- Bem burro! - não se conteve uma criada. Mas estava era com pena de o não ter comprado ela.
Já nova maravilha saía das profundezas do baú.
- Sarna, eczema, impigens, lepra, furúnculos, tudo quanto uma pele humana possa conceber, é enquanto o demónio esfrega um olho! Vejam: pega-se na ulceração, um bocadinho de pomada em cima, ao de leve e pouco, que é para poupar, e não se pensa mais nisso! Cinco tostões apenas! Só a caixa vale quinze! Aproveitem, que numa drogaria custa-lhes dois escudos!


Miguel Torga, Rua
texto com supressões)


I

1. Identifica e caracteriza, do ponto de vista físico e social, o espaço em que decorre a acção.

2. Indica o acontecimento que anima esse espaço social.

3. Classifica as personagens do texto quanto ao relevo ou importância no desenrolar da acção.

4. Que efeito exercia o charlatão sobre o seu auditório?

5. Que factores contribuíam para criar esse efeito?

6. Faz a caracterização física e psicológica do charlatão.

7. "E um, de Almalaguês, perdeu a cabeça e lá comprou aquele 'talismã da felicidade...'".
7.1. Que motivo levou o cliente a perder a cabeça?
7.2. Comenta a reacção da criada que testemunhou a compra.




14.11.07

Enquanto quis Fortuna que tivesse


File:Paolo Veronese 011.jpg

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co'o tormento,
para que seus enganos não dissesse

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são, e não defeitos...
e sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!

Luís de Camões


I

1. Atenta na primeira estrofe.
1.1 Explicita o conceito de «Fortuna».
1.2 De que modo a «Esperança» está associada à «Fortuna».
1.3 Como surgiu o acto da escrita?
2. Indica o factor que «Escureceu» «o engenho» ao sujeito poético.
2.1 Com que objectivo?
3. Transcreve a expressão que identifica o destinatário da mensagem do poeta.
3.1 Segundo o sujeito poético, o que determina o «entendimento» dos seus «versos»?


II

1. Classifica as seguintes frases estabelecendo a correspondência entre a coluna A e a coluna B.

Coluna A
a) «Enquanto quis Fortuna» (v. 1)
b) «Porém (...) Escureceu-me o engenho co'o tormento» (vs. 5-7)
c) «Para que seus enganos não disses-se» (v. 8)
d) «Quando lerdes / Num breve livro casos tão diversos» (vs. 10-11)
e) «segundo o amor tiverdes» (v. 13)
f) «que (...) tereis o entendimento de meus versos» (vs. 13-14)

Coluna B
1. subordinada substantiva completiva
2. subordinada adverbial temporal
3. subordinada adverbial temporal
4. coordenada adversativa
5. subordinada adverbial final
6. subordinada adverbial comparativa

13.11.07

Peregrinação



Logo ao outro dia, pela menhã, nos partimos desta aldeia e fomos velejando ao longo da costa com ventos terrenhos até despois da véspera, que dobrámos os ilhéus de Anchepisão. e servindo-nos inda o vento sueste, inda que algum tanto ponteiro, nos fizemos no bordo do mar o que mais restava do dia c alguma parte da noite. E, sendo já passado pouco mais de meio quarto da prima, nos deu uma trovoada de noroeste (que são os temporais que comummente a mor parte do ano cursam nesta ilha Çarnalra1) que de todo nos teve soçobrados e, ficando a lanchara a árvore seca, sem mastro nem velas, porque tudo o vento nos fez em pedaços, e com três rombos por junto da quilha, nos fomos logo a pique subitamente ao fundo, sem podermos salvar cousa nenhuma, e muito poucos as vidas, porque de vime e oito pessoas que nela íamos, as vinte e três se afogaram em menos de um credo, e os cinco, que escapámos, somente pela misericórdia de Nosso Senhor, c assai feridos, passámos o mais que restava da noite postos sobre os penedos, lamentando com bem de lágrimas o triste sucesso da nossa perdição,
E porque então nos não soubemos dar a conselho, nem determinar-nos no que fizéssemos de nós. nem que caminho tomássemos, por ser a terra toda alagadiça e fechada de mato tão basto que nenhum pássaro, por muito pequeno que fosse, podia passar por antre os espinhos de que o arvoredo silvestre era tecido, estivemos ali três dias postos assi em cócoras, sobre uns penedos, sem comermos em todos eles mais que os limos do mar que, na babujem da água, achávamos.
Passado este tempo, com assaz de confusão e pena, sem sabermos determinar o que fosse de nós, caminhámos ao longo da ilha Çamatra. atolados na vasa até à cinta, aquele dia e. já quase sol posto, chegámos à boca de um rio pequeno, de pouco mais de um tiro de besta em largo que, por ser muito fundo e nós virmos muito cansados, nos não atrevemos a o passar. Ali nos agasalhámos aquela noite, metidos na água até o pescoço, e a passámos com assaz, de tormento e trabalha por parte dos atabões2 e mosquitos do mato que nos atazanavam de tal maneira que não havia nenhum de nós que não estivesse banhado em sangue. E como a menhã foi clara, perguntei aos quatro marinheiros que iam comigo se conheciam aquela terra e se havia ali por derredor alguma povoação, a que um deles, homem já de dias1, e casado em Malaca, me respondeu chorando:
- A povoação, senhor, que tu e eu agora temos mais perto, se Deus milagrosamente nos não socorre, é a morte penosa que temos diante dos olhos, e a conta dos pecados que antes de muito poucas horas havemos de dar. para o qual nos é necessário fazermo-nos prestes muito depressa, como quem forçadamente há-de passar outro muito mor trago que este em que nos agora vemos, tomando com paciência isto que da mão de Deus nos é dado; e não te desconsoles por cousa que vejas, e que o temor te ponha diante, porque, considerado bem tudo, pouco vai em ser mais hoje que a menhã4.
(...)
Determinados todos quatro nisto, roguei eu aos dois deles que fossem diante, e ao outro que fosse junto comigo para me ajudar a sustentar, porque ia já muito fraco; dos dois, se lançou logo um ao rio. e após ele. o outro, dizendo-me ambos que os seguisse e não houvesse medo. E, em chegando eles a pouco mais de meio rio, arremeteram a eles dois lagartos muito grandes e. em muito pequeno espaço, fizeram a cada um deles em quatro pedaços, ficando toda a água cheia de sangue, e assi os levaram ao fundo; de qual vista fiquei eu tão assombrado que nem gritar pude. nem sei quem me tirou fora, nem como escapei, porque neste tempo estava metido na água até os peitos co outro negro que me linha pela mão. o qual estava tão cheio de medo que não sabia parte de si.

Femão Mendes Pinto, Peregrinação



1. Analise o excerto da Peregrinação e, entre outros aspectos considerados pertinentes, desenvolva os seguintes tópicos:
• A localização da acção.
• A descrição da situação.
• Os comportamentos e reacções das personagens.
• O conceito de herói.

2. Com exemplos do texto transcrito, comprove a afirmação contida na citação seguinte:

"A linguagem de Fernão Mendes Pinto é simples, natural e exuberante, por vezes cheia de belas imagens. As coisas que trata ganham cor, vida e relevo, são de impressionante realismo, vê-se nelas movimento e sente-se todo o seu dramatismo. O vocabulário é frequentemente estranho porque Mendes Pinto foi o escritor que deu maior impulso à literatura exótica entre nós."

A. de Carvalho Costa, in Questões sobre História da Literatura Portuguesa




II

De forma sucinta, não excedendo o limite de 10 linhas, mostre até que ponto a Peregrinação nos oferece uma visão exótica, mas muito humana, do mundo oriental.


III

Dentro da Literatura de Viagens, embora de uma forma muito distinta, também se insere a Carta do Achamento de Pêro Vaz de Caminha.
Numa dissertação bem elaborada, mostre como esta se apresenta como um documento rigoroso e fidedigno da chegada dos europeus ao Brasil.

Da mais alta janela da minha casa

Bay Window Vista II Art Print by Diane Romanello


Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos


I

1. Depois de ler o poema com atenção comprove:
1.1. que a temática do texto gira em torno da criação poética;
1.2. que o poeta revela que o fenómeno cultural se associa ao fenómeno da criação poética.

2. Explicite o sentido da dicotomia: interior/exterior.

3. Localize, no poema, um paralelismo semântico e explique-o.

4. Descubra uma antonímia ao nível dos adjectivos e uma escala de valores ao nível dos substan-
tivos/formas verbais.

5. No último verso está implícita uma regeneração cósmica. Justifique a afirmação anterior.


II

Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática da heteronímia com base nestas frases de Fernando Pessoa:

«Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.»

7.11.07

Orfeu Rebelde





Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do Tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

Miguel Torga


I

Leia atentamente o poema Orfeu Rebelde e responda às seguintes questões:
1. Identifique o assunto do poema.
2. Indique a função do "canto" do sujeito poético.
3. Aponte os processos utilizados para transmitir a noção de tempo e eternidade.
4. Mencione os factores que conferem musicalidade ao poema.
5. Identifique as imagens utilizadas e o seu valor expressivo.


II

Sem deixar de parte um certo comprometimento social, há em Torga um sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto permite a esperança como conduz ao desespero.
Recordando o estudo que fez da obra de Miguel Torga, elabore uma composição em que apresente as principais linhas de pensamento e de personalidade presentes na sua poesia.



2.11.07

Biografia


Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
E por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

Miguel Torga, Orfeu Rebelde



I

1. O título do poema é "Biografia". O que é uma biografia?

2. O sujeito lírico deste texto não gosta da aparência.
2.1. Que versos traduzem esta aversão?
2.2. O que é que se opõe à aparência?

3. Na segunda estrofe, volta a insistir na sua forma de ser.
3.1. Explica o sentido dessa estrofe.
3.2. Explica a relação de sentido entre as duas estrofes

4. As duas primeiras estrofes traduzem uma parte da "biografia1 do "eu".
4.1. Reparando na nossa sociedade, achas que as pessoas estão muito ou pouco preocupadas com a sua aparência? Justifica a resposta.
4.2. E tu, achas muito importante a aparência? Responde de forma completa.

5. De que são fruto os versos do sujeito lírico?
5.1. Há de novo, o recurso às figuras de estilo, quando fala de poesia.
5.2. Identifíca-as transcrevendo as palavras que as realizam.

6. A partir de certo momento do texto, a poesia liberta-se e ganha vida própria.
6.2. Explica o sentido da comparação "Como chispa que salta da fogueira".

7. "Biografia" é um texto em verso. Estudaste, de Luís de Camões, textos/episódios também em
verso.
7.1 . Em que diferem do poema de Miguel Torga?

II

1 . "Sonho, mas não parece. "
1.1. Classifica sintacticamente esta frase.
1.2. Qual a relação que se estabelece entre as duas orações?
1.3. Classifica também o verbo "parecei".

2. Forma substantivos a partir dos adjectivos que te apresentamos.
íntima ->
funda ->
apagado ->
aberta ->

3. Classifica a oração "Que um pastor/Possa sobre ele apascentar o gado.
3.1. Coloca essa oração no condicional.
3.2. Indica as funções sintácticas de "um pastor" e "o gado".

4. Classifica, quanto ao processo de formação, a palavra "queima-roupa".
4.1. Refere outros processos de formação de palavras.


III


Depois de teres estudado o poema de Miguel Torga intitulado "Biografia", podes, também tu, imaginar a biografia de um dos teus heróis.
Elabora, pois, o texto dessa biografia, dando largas à tua imaginação.

28.10.07

Amar!

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Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar ,só por amar: Aqui... alem...
Mais Este e Aquele, o Outro e a toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira ó porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida, ,
Pois se Deus nos deus voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, in Reliquiae


I

1. Identifica o valor semântico do vocábulo amar.

2. Faz o levantamento dos sentimentos e emoções que o poema sugere.

3. Explicita o modo como o sujeito poético tenta uma relação afectiva com o leitor.

4. Mostra como o texto se desenvolve em vários aspectos opostos e distintos.
4. 1. Explica o sentido das oposições.
4.2. Indica as categorias morfológicas em que se expressa esse contraste.

5. Analisa a expressividade da pontuação.

6. Avalia a universalidade do tema.

Os amantes sem dinheiro


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados,
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
15 à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade, Antologia Breve


I

1. O poema de Eugénio de Andrade que acabaste de ler desenvolve-se com base numa repetição.
1.1. Identifica-a.
1.2. Explica de que forma aquela repetição estabelece um contraste aparente entre o poema e o título.
1.3. Indica a função sintáctica que o título - "Os amantes sem dinheiro" - desempenha em relação a todas as frases que se iniciam pela referida anáfora.

2. Comenta o valor contextual do tempo verbal repetido insistentemente ao longo deste poema.

3. Sinaliza no poema:
- uma personificação;
- uma metáfora.
3.1. Explica, por palavras tuas, o sentido dos três últimos versos.

4. Indica o valor do conector que introduz esses três últimos versos do poema.


II

1. O diário é um texto narrativo orientado, tal como o texto lírico, para a expressão do eu, que se caracteriza, entre outras coisas, pelo uso do discurso na 1.a pessoa.
Num texto que contenha entre 120 e 140 palavras, faz o registo dos acontecimentos de um dos dias da passada semana, que tenhas testemunhado ou de que tenhas sido personagem, em forma de diário.




25.10.07

Auto da Barca do Inferno - global

1. Por que razão é que esta peça se intitula Auto da Barca do Inferno?

2. Que função tem o Diabo e o Anjo na peça?

3. Situe a acção da peça no espaço e no tempo.

4. Explicite o assunto do auto.

5. A peça inicia-se com um diálogo entre o Diabo e o seu Companheiro. Que dizem um ao outro?

6. Que grupo social representa o Fidalgo?

7. Que acusações lhe são feitas pelo Diabo e pelo Anjo?

9. De que modo é que o Fidalgo justifica a sua actuação durante a vida?

12. Relacione o que o Fidalgo pensava acerca da sua esposa e aquilo que o Diabo lhe contou.

11. Dê um exemplo de cómico de linguagem e outro de cómico de situação presentes na cena do Fidalgo.

12. No Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente aparecem seres e objectos como símbolos. Diga o que simbolizam o Anjo, o Diabo, as barcas e o rio.

13. Explique a simbologia da cadeira do Fidalgo e do saco do Onzeneiro.

14. Faça o retrato físico e psicológico do Onzeneiro.

15. Que acusações são feitas ao Onzeneiro?

16. De que modo é que se defende o Onzeneiro das acusações do Diabo?

17. Quem pretende Gil Vicente criticar através da personagem representada pelo Onzeneiro? Justifique.

18. O Parvo é uma personagem de algum modo singular. Porquê?

19. Como poderemos distinguir a actuação do Parvo da das outras personagens?

20. Explique a razão de Gil Vicente ter deixado o Parvo no cais.

21. Justifique a decisão do Anjo em relação ao Parvo.

22. De que recursos é que Gil Vicente se serve para provocar o riso através do Parvo?

23. Que classe social representa o Sapateiro?

24. Explicite as razões da condenação do Sapateiro.

25. De que modo é que se defende o Sapateiro das acusações que lhe são feitas?

26. De que modo é que o Sapateiro reage à sentença?

27. Há uma contradição na vida do Sapateiro. Explique-a.

28. Que símbolos são utilizados para caracterizar o Frade?

29. Que destino foi reservado à Moça que acompanha o Frade?

30. De que é que o Frade é acusado?

31. Que argumentos apresenta o Frade em sua defesa?

32. O Frade gaba-se de ser um bom esgrimista. Que intenção teria Gil Vicente ao pô-lo a dar uma lição de esgrima?

33. Explique o significado das seguintes expressões ditas pelo Diabo em relação ao Frade: «Gentil padre mundanal» e «Devoto padre marido».

34. Quem é Brísida Vaz?

35. Diga quais os elementos que caracterizam Brísida Vaz.

36. Diga o que é uma alcoviteira.

37. Por que razão é que Brísida Vaz se considera uma vítima?

38. Que atitudes toma Brísida Vaz frente ao Diabo e frente ao Anjo?

39. Que objectivos pretende a alcoviteira alcançar ao dirigir-se ao Anjo de um modo aprazível?

40. Que grupo social representa Brísida Vaz?

41. Quem é o Judeu?

42. Qual é o símbolo que o caracteriza?

43. Relacione esse símbolo com a acusação que lhe é feita.

44. Que críticas faz o Parvo ao Judeu?

45. Quem é o Corregedor e o Procurador?

46. Por que razão Gil Vicente terá posto o Corregedor e o Procurador a representarem em simultâneo?

47. Que símbolos caracterizam o Corregedor e o Procurador?

48. Explicite as acusações feitas às duas personagens.

49. De que modo é que ambos se defendem das acusações?

50. Comente a linguagem utilizada pelo Corregedor e pelo Procurador.

51. De que forma é que o Parvo ridiculariza as duas personagens?

52. Qual foi a reacção de Brísida Vaz quando viu entrar o Corregedor?

53. Por que razão Brísida Vaz terá reagido desse modo?

54. Que destino pretendia o Enforcado estar-lhe reservado?

55. Por que motivo o Enforcado acreditava no futuro?

56. Quem pretende Gil Vicente criticar na personagem do Enforcado? Justifique.

57. Explique o significado da palavra «baraço».

58. Em que aspectos é que os quatro Cavaleiros são diferentes das personagens anteriores?

59. Quais são os elementos que caracterizam os quatro Cavaleiros?

60. Relacione a moralidade da cantiga dos Cavaleiros com as concepções religiosas da época.

61. Comente as atitudes do Diabo em relação aos Cavaleiros e às personagens anteriores.

62. Por que razão é que os Cavaleiros tiveram um destino diferente em relação às personagens anteriores? Justifique.







16.10.07

Causas da Decadência dos Povos Peninsulares

O Realismo



Meus Senhores:
A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. (...)
A Península, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, apresenta-nos um quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quanto contrasta dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do papel que desempenhámos no primeiro período da Renascença, durante toda a Idade Média, e ainda nos últimos séculos da Antiguidade. (...)
Nos últimos dois séculos não produziu a Península um único homem superior, que se possa pôr ao lado dos grandes criadores da ciência moderna: não saiu da Península uma só das grandes descobertas intelectuais, que são a maior obra e a maior honra do espírito moderno.
Durante 200 anos de fecunda elaboração, reforma a Europa culta as ciências antigas, cria seis ou sete ciências novas, a anatomia, a fisiologia, a química, a mecânica celeste, o cálculo dife¬rencial, a crítica histórica, a geologia: aparecem os Newton, os Descartes, os Bacon, os Leibniz, os Harvey, os Buffon, os Ducange, os Lavoisier, os Viço - onde está, entre os nomes destes e dos outros verdadeiros heróis da epopeia do pensamento, um nome espanhol ou português? que nome espanhol ou português se liga à descoberta duma grande lei científica, dum sistema, dum facto capital? A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos. A alma moderna morrera dentro em nós completamente.
Pelo caminho da ignorância, da opressão e da miséria chega-se naturalmente, chega-se, fatalmente, à depravação dos costumes. E os costumes depravaram-se com efeito. Nos grandes, a corrupção faustosa da vida de corte, aonde os reis são os primeiros a dar o exemplo do vício, da brutalidade, do adultério: Afonso VI, João V, Filipe V, Carlos IV. Nos pequenos, a corrupção hipócrita, a família do pobre vendida pela miséria aos vícios dos nobres e dos poderosos. É a época das amásias e dos filhos bastardos. O que era então a mulher do povo, em face das tentações do ouro aristocrático, vê-se bem no escandaloso Processo de nulidade de matrimónio de Afonso VI, e nas Memórias do Cavaleiro de Oliveira. Ser rufião é um ofício geralmente admitido, e que se pratica com aproveitamento na própria corte. A religião deixa de ser um sentimento vivo; torna-se uma prática ininteligente, formal, mecânica. (...)


Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos



I

1. Enquadra o excerto apresentado na estrutura global da comunicação/conferência a que pertence.

2. Divide o texto em momentos, sintetizando o assunto de cada um deles.

3. Identifica no texto marcas que comprovam a existência de um orador e de um auditório.
3.1. Relaciona o registo de língua e a função da linguagem predominantes com a alínea anterior.

4. A partir deste excerto e do estudo global da comunicação/conferência explica sumariamente as causas apontadas por Antero de Quental para a decadência dos povos peninsulares.

5. Relembra e refere as soluções apresentadas por Antero para a resolução dos problemas apontados.


II

Tendo em conta o estudo efectuado nas aulas, num texto expositivo, releva o papel da chamada "Geração de 70" no panorama político, social, cultural e literário do século XIX.







15.10.07

O barroco e a literatura seiscentista




Responde a um amigo, que mandava perguntar a vida que fazia em sua prisão1

Casinha desprezível, mal forrada,
Furna2 lá dentro, mais que inferno escura;
Fresta pequena, grade bem segura;
Porta só para entrar, logo fechada;

Cama que é potro3, mesa destroncada,
Pulga que, por picar, faz matadura;
Cão só para agourar; rato que fura;
Candeia nem cos dedos atiçada;

Grilhão* que vos assusta eternamente,
Negro boçal e mais boçal ratinho,
Que mais vos leva que vos traz da praça;

Sem amor, sem amigo, sem parente,
Quem mais se dói de vós, diz: «Coutadinho».
Tal vida levo. Santo prol me faça.

D. Francisco Manuel de Melo


Notas:
1. Torre Velha, onde D. Francisco Manuel de Melo esteve preso de 1644 a 1653.
2. Caverna, cova.
3. Espécie de cavalo de madeira em que se torturavam os condenados.
4. Corrente metálica com que se prendiam as pernas aos acusados.



I

Após leitura atenta do soneto transcrito, responda às seguintes questões:

1. Demonstre que neste poema a descrição está organizada do geral para o particular.

2. Recolha do texto algumas expressões que conferem à descrição uma carga de negatividade.

3. Indique em que medida esta "casinha desprezível" pode ser uma metáfora de "prisão".

4. Justifique a contradição existente nas afirmações do último verso do poema.

5. Proceda à análise formal do soneto:
5.1. Indique o esquema rimático.
5.2. Classifique as rimas da primeira quadra:
• quanto à disposição ou ligação entre os versos;
• quanto à acentuação;
• quanto às classes gramaticais das terminações ou frequência de uso;
• quanto aos elementos vocálicos e consonânticos das terminações.
5.3. Faça a escansão dos dois primeiros versos do soneto.
5.4. Classifique-os quanto ao número de sílabas métricas e quanto à posição das sílabas tónicas


II

Tendo em conta os textos do barroco estudados, demonstre a veracidade da seguinte afirmação:
O barroco é o contrapolo da maneira clássica. O simples e claro dos processos clássicos insinua discreta e lentamente, encantando a inteligência e a alma inteira pela graça inabalável de uma beleza nua; o que o barroco visa, pelo contrário, é a explosão do espanto; é o dom de surpreender e de aturdir o espírito à força de ornamentar e de rebuscar.

António Sérgio, Ensaios, V