6.10.12

Não percebo nada da minha escola nova

Tudo estranho. Desde as coisas grandes, como a língua, às mais pequenas como os horários, as disciplinas, o ambiente nos recreios, o almoço no refeitório, os professores. Estudantes estrangeiros a viver em Portugal contam como é começar de novo.

Cerca de "80 mil alunos provenientes de outras nacionalidades" frequentam estabelecimentos de ensino portugueses. O número foi divulgado pelo Ministério da Educação em 2006 (dados mais recentes não foram fornecidos, apesar de terem sido solicitados pela Pública há meses). Feitas as contas, são 5,6 por cento das crianças e jovens inscritos nas escolas básicas e secundárias do país.
Haverá neste universo uma série de situações distintas, desde logo, crianças que iniciaram a sua escolaridade noutro país e que entretanto passaram a frequentar uma escola portuguesa. Centremo-nos nestas.
À beira de começar mais um ano lectivo, a Pública pediu a vários rapazes e raparigas para contar como é começar de novo, numa escola nova, num país diferente – tantas vezes radicalmente diferente do seu. E para explicar como é que a escola em Portugal os recebeu. Há quem explique que não conteve as lágrimas, que as pernas tremiam, que comunicava com desenhos e gestos ou que a timidez nem isso deixava fazer.
Mas há também quem simplesmente fale da sensação de ser tudo tão estranho. Para muitos, o primeiro dia de aulas terminou com o seguinte pensamento: "A minha escola é esquisita."
Aqui não se iça a bandeira
Peça-se a Yanyan Lin, 17 anos, aluna da Escola Secundária da Ramada, em Odivelas, que diga o que lhe causou mais espanto. E a resposta é esta: "Nesta escola, os rapazes e as raparigas namoram. Na China não se pode namorar na escola."
Yanyan Lin já não tem de entrar às sete da manhã, como acontecia no liceu na província chinesa de Zhejiang onde andava até há pouco mais de dois anos. Em Odivelas também não há o hastear da bandeira logo de manhãzinha, no pátio do liceu. Nem os alunos "se põem em fila, a fazer ginástica, ao som de música, todos de igual", antes de se agarrarem aos livros e aos cadernos.
Descobriu ainda que na escola nova não há o hábito de nomear um colega para vigiar os outros quando a professora sai da sala (colega esse que, de acordo com as regras do liceu em Zhejiang, deveria apontar no quadro os nomes dos que falassem para que pudessem ser devidamente castigados quando a professora regressasse).
Yanyan deixou igualmente de ter 12 horas de aulas por dia – "de manhã, à tarde e à noite". E teve de aprender a dominar o alfabeto latino. Em suma, a pergunta é: o que é que afinal há de parecido entre a escola de Odivelas e a de Zhejiang? E Yanyan sorri: "Nesta escola é tudo diferente." Mas, mesmo assim, o que mais a impressiona mesmo – e a outros colegas chineses a viver em Portugal – são os namoros nos recreios.
A rapariga de sorriso tímido (muito tímido), uma das poucas que nas quatro escolas públicas que visitámos recusaram ser fotografadas, explica tudo isto com dificuldade. A conversa com a Pública é demorada, Yanyan vai pedindo ajuda à irmã mais nova, Qingqing Lin, para encontrar algumas palavras, retorce as mãos, estica os braços, como se explicar tudo o que tem para explicar implicasse um grande esforço. E implica.
Talvez por isso ainda esteja no 7.° ano do ensino básico, quando, com a sua idade, esperar-se-ia que já estivesse no secundário. Não é a única.
Os alunos chineses estão entre os que mais dificuldades revelam em adaptar-se à língua e ao sistema de ensino português, diz Rosa Rocha, professora de Português Língua Não Materna (PLNM).



Chad Weaver, 14 anos, EUA
Vivia em Willard, no Ohio. Cheguei em Agosto do ano passado. O mais estranho na escola portuguesa? Não há muito desporto como lá. Na América, depois das aulas, jogamos sempre basquetebol, quase todos os dias. E é na escola, não é num clube. Também jogamos basebol, o meu preferido. Tenho muitas saudades disso. Os almoços aqui também são estranhos. Lá, na escola, comia hambúrgueres com queijo e hot-dog e comíamos num tabuleiro. Aqui, não. No bar da escola não há essa comida. Não gosto da comida aqui. Queria voltar.


Arieli Quiosi, 16 anos, Brasil
O mais esquisito aqui é o horário das aulas. No Brasil, a gente tem aulas só de manhã, ou só à tarde e cada aula tem 45 minutos. Aqui, cada aula tem uma hora e meia e há dias em que temos aulas de manhã e à tarde. Quase não podes fazer mais nada, é como se toda a tua vida ficasse centrada na escola. Por outro lado, acho que as pessoas aqui aprendem mais do que no Brasil, acho que aqui o ensino é mais exigente.


Riana Hossain Asha, 16 anos, Bangladesh
A minha escola em Daca era só para raparigas. Havia budistas, hindus, cristãos e muçulmanos e havia um lugar para orarmos. Na minha religião – sou muçulmana – oramos cinco vezes por dia. Agora, na escola portuguesa, na maior parte das vezes em que devia rezar não posso porque estou na escola. Faço depois em casa. Acho que Deus percebe. Os professores cá têm mais paciência. Lá são mais rigorosos, zangam-se muito


Ana Reutchi, 11anos, Moldávia
Na Moldávia, os alunos levam flores no primeiro dia de aulas. Em Portugal, no primeiro dia de aulas não vim com flores. Vim com lágrimas. Lembro-me que a minha mãe me levou à escola, que foi complicado fazer as inscrições e que já era Novembro, o ano lectivo já tinha começado. E lembro-me que chorei porque não sabia nada de português…


Elsio Pereira Gonçalves, 12 anos, Cabo Verde
A minha escola em Cabo Verde era muito diferente.
Lá, tinha poucas aulas e aqui passo mais tempo na escola. Lá, também havia trabalhos de casa, mas aqui há mais. Lá, pode-se fazer Educação Física sem fato de treino e sapatilhas; aqui, só deixam fazer com sapatilhas.
Estou a gostar de estar cá. Gostava de voltar a Cabo Verde, mas não era para ficar lá.


In "Pública", Texto Andreia Santos



I

Completa cada uma das afirmações com a alínea que esteja de acordo com o sentido do texto.
1. A percentagem de 5,6 alunos a que o texto faz referência corresponde, segundo os últimos dados conhecidos,
a) à totalidade de jovens estrangeiros que vivem em Portugal.
b) ao número de alunos de outras nacionalidades que frequentam as escolas portuguesas nos diversos graus de ensino.
c) ao número de alunos de outras nacionalidades inscritos nas escolas portuguesas, no ensino básico e secundário.

2. Todos os jovens que deram o depoimento para este trabalho de investigação têm em comum
a) a nacionalidade.
b) dificuldades de aprendizagem.
c) o facto de terem iniciado os seus estudos no estrangeiro e continuado, posteriormente, em Portugal.

3. Como facilmente se verifica, todos estes jovens avaliam a escola portuguesa em função
a) das suas vivências anteriores, dos hábitos culturais em que estavam (e estão) inseridos.
b) das pressões familiares.
c) de uma noção preconceituosa que têm sobre Portugal.


II

Lê atentamente cada um dos depoimentos aqui apresentados e, numa só frase, sintetiza o que cada um dos jovens mais estranha na escola (ou na sociedade) portuguesa (por exemplo: vestuário, alimentação, actividades… ).


III

Yanyan Lin, é um dos poucos casos de alunos que prestaram depoimento mas se recusaram a ser fotografados. O seu testemunho, integrado no texto jornalístico, é longo e interessante.
Lê-o atentamente e, sem lhe alterar o sentido mas centrando-te no essencial, transforma-o num registo de 1.ª pessoa, como o dos outros jovens (texto com o limite máximo de 90 palavras).