24.10.12

“Mas já que estamos nas covas do mar..."

Leia, atentamente, o seguinte excerto do Sermão de Santo António, de Pe. António Vieira, para, depois, responder às instruções formuladas com frases completas e contextualizadas:


“Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos dela, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu(1) são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque nem fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros e a primeira traição e roubo que faz é a luz, para que
não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!”
(…) Vejo, Peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossos mares, me estais respondendo e convindo, que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas e muito maiores e mais perniciosas traições. (…) Mas ponde os olhos em António, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano. E sabei também que, para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo.


I

1. Localize este excerto no sermão, justificando a resposta segundo o seu esquema global de construção.

2. O orador focaliza, no primeiro parágrafo, um peixe em particular, sendo este assumido como assunto e como recetor do sermão.
2.1. Delimite, no excerto, o momento em que este peixe é tomado como assunto.
2.2. Aponte as marcas linguísticas que evidenciam a presença deste como recetor do discurso.
2.3. Refira, exemplificando, os tipos de sensações utilizados para a caracterização dos peixes.
2.4. Identifique a tese defendida pelo orador nesse parágrafo.
2.5. Justifique a intencionalidade do orador ao referir-se à “hipocrisia tão santa” desse peixe.
2.6. Indique um sinónimo da palavra sublinhada no excerto, reescrevendo a frase com as alterações que considerar necessárias.

3. Refira duas figuras de estilo utilizadas neste excerto do sermão, explicando a respetiva expressividade.

4. Atente no último parágrafo do excerto.
4.1. Identifique os referentes das palavras destacadas a negrito.
4.2. Demonstre a expressividade de estruturas comparativas presentes neste parágrafo.
4.3. Explicite o valor lógico do articulador/conector apresentado no segmento seguinte:
“… ponde os olhos em António, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura…”

5. Explique a estratégia do sermão proferido por Pe. António Vieira ao dirigir-se aos peixes.


II

Escreva, agora, um texto argumentativo, com cerca de 200-250 palavras, inspirado(a) na ideia proposta.
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”.
Sophia de Mello Breyner Andresen,

in “As Pessoas Sensíveis”, Grades (1970)

Oriente a sua produção de um texto, com introdução-desenvolvimento-conclusão, segundo os tópicos adiantados:
• posição pessoal relativamente à mensagem presente nos versos transcritos;
• defesa (ou não) de uma relação possível entre a mensagem dos versos e o sermão vieirino;
• atualidade das palavras proferidas por Pe. António Vieira, no século XVII.