28.9.12

O sistema


Toca a insistir, voltar atrás, recomeçar. Sem grandes esperanças, aliás, duma limpeza total. Ou é a tal mania do absoluto que eles sempre censuraram em mim? Ou é ela a não me deixar ver que, no comportamento das pessoas como na limpeza das relvas, só há resultados relativos? (...) Limpar tudo muito bem será apenas deixar tudo um pouco menos sujo? (...)
De qualquer modo, enquanto levanto e puxo o cabo da vassoura, em movimentos precisos, prolongados, tentando suprir com atenção e teimosia a falta de experiência, não desisto de encontrar o sistema. Que há-de haver um sistema (cá estou eu, de acordo, é uma mania). Ir sempre para diante, sem dar muita atenção ao que se escapa, empurrando este escasso monte de folhas que, a bem ou a mal, aqui tenho ido formando, e repassar tudo no fim, na mesma técnica seguida? Linear, como diria um crítico literário para registar o primarismo do processo? Estabelecer, ao contrário, pequenas áreas de acção e na passar à frente sem as ter explorado com minúcia? (...)
Há quem escreva páginas e páginas a fio - quinze ou vinte dum fôlego, que miragem! - numa invejável fogosidade sthendaliana e só emende depois. Para esses, a emenda (ou o recuo) não faz parte do processo interior de criação, é uma vigilância posterior e exterior que evita os excessos e as faltas, conserta o ritmo e a eficácia do discurso. Há, pelo contrário, quem não consiga abandonar um período sem o dar por concluído, enredando-se em cada dificuldade, inventando-as talvez, não podendo de modo algum continuar sem que tudo esteja ali definitivamente resolvido (tudo "limpo"). (...) g Arde-me o sol na nuca. Já com a testa e as costas encharcadas, vejo a meus pés, bem nítida na relva, esta sombra oblíqua dum homenzinho que ergue é baixa o braço, da direita para a esquerda, agarrado ao longo cabo, que poderia ser também o duma enxada ou dum ancinho. É uma sombra nítida mas pouco firme, que tem alguma coisa das figuras canhestras do Van Gogh. Não dói camponeses de Nuenen, onde tudo é sólido e sem sol, mas de O pintor m estrada para Tarascon. (...)
É uma sombra sagaz. Sei lá se irónica. Não me copia os movimentos Exagera-os, critica-os, comenta-os, ri-se deles.
E, entretanto, outra vez - que teimosia! -, a sineta do portão. Ouve-se bem lá isso...
Pois que toque. Era o que mais faltava. Obrigarem-me a abrir. Vai tocando minha filha. Não estás a ver que não te ouço? Estou cá a contas com a vassoura e com a maneira como irei juntar, amontoar, meter na grande lata que foi um bidon de gasolina, estes milhares de pedacinhos de relva que se escapam rebeldes, para todos os lados, misturados com folhas velhas que não cessar de cair das árvores...

Mário Dionísio, "Liberdade, Liberdade",
in Monólogo a Duas Vozes, Publ. Dom Quixote


Notas:
suprir: remediar; minorar
linear: simples.
minúcia: pormenor
miragem: ilusão.
fogosidade: impetuosidade.
sthendaliana: relativa ao escritor Sthendal.
recuo: movimento feito para trás.
nuca: parte posterior e superior do pescoço.
canhestras: sinistras; desajeitadas.
Van Gogh: pintor impressionista (1853-1890).
Nuenen: terra onde viveu Van Gogh e onde contactou com camponeses que lhe inspiraram quadros.
O pintor na estrada para Tarascon: um quadro do pintor
bidon: vasilha metálica de grande capacidade (bidão)


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Limpar tudo muito bem é:

impossível

possível

possível às vezes

1.2. O narrador varre meticulosamente:

para ver a sua sombra

enquanto procura

seguindo o sistema o sistema

2. Para dividir o texto em partes, completa o esquema apresentado,

1ª parte (.......... primeiros parágrafos): Divagações enquanto

2.a parte (........_ últimos parágrafos):

3. Que sistema procurava encontrar o narrador?

4. Quais são as duas hipóteses de actuação para conseguir o sistema perfeito enun­ciadas no segundo parágrafo?

5. Explica como o narrador vê a reprodução dos seus movimentos na sombra (quinto parágrafo).

6. Transcreve do último parágrafo três formas verbais que dão conta de uma acção realizada com a máxima eficiência, ou seja, segundo um sistema.

7. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Aproximações entre varrer e escrever.