4.8.12

Uma Esplanada sobre o Mar




A rapariga estava sentada a uma mesa numa esplanada sobre o mar. Vestia de branco e era loura, mas muito queimada do sol. Ao lado da mesa estava montado um guarda-sol giratório de pano azul que o criado veio regular, para acertar bem a sombra. O criado não perguntou nada e inclinou-se apenas e a rapariga pediu um refresco. Era a meio da tarde e o sol batia em cheio no mar, que se espelhava aqui e além em placas rebrilhantes. O céu estava muito azul e o ar era muito límpido, mas no limite do mar havia uma leve neblina e os barcos que aí passavam tinham os traços imprecisos, como se fossem feitos também de névoa. Na praia que ficava em baixo não havia quase ninguém e o mar batia em pequenas ondas na areia. A espuma era mais branca, iluminada do sol, e o ruído do mar era quase contínuo e espalhado por toda a extensão das águas.
A rapariga de vez em quando olhava ao lado a porta que dava para a esplanada e depois olhava o relógio. Voltava então a olhar o mar e ficava assim sem se mover. Tinha os olhos azuis muito brilhantes, contra a pele morena e o traço negro que os contornava. Foi num desses momentos de alheamento que o rapaz entrou. À porta da esplanada deteve-se um momento a orientar-se por entre as H mesas ocupadas, mas logo localizou a rapariga sob o guarda-sol azul. Vestia calça branca e uma camisola amarela de manga curta. E era louro como a rapariga. Quando ela o reconheceu, fez-lhe sinal, mas S» eleja a tinha visto. Sentou-se-lhe ao pé e olhou em volta como se procurasse alguém. As mesas estavam quase todas ocupadas sob guarda-sóis coloridos e uma ou outra ao sol. Era quase tudo gente jovem, vestida de cores claras de praia.
- Desculpa, fiz-te esperar - disse ele.
- Cheguei há pouco, o criado nem trouxe ainda o que lhe pedi. E que é que me querias dizer? O cria-do, com efeito, trazia o refresco para a rapariga, voltou-se para o rapaz a perguntar se tomava alguma coisa.
- Pode ser o mesmo - disse o rapaz.
O sol caía em cheio sobre a praia, iluminava o mar até ao limite do horizonte.
- Que é que me querias dizer? - perguntou de novo a rapariga. Ele sorriu-lhe e tornou-lhe uma das mãos que tinha sobre a mesa.
- Gosto de te ver - disse depois. - Gosto de te ver como nunca. Fica-te bem o vestido branco.
- Já mo viste tanta vez.
- Nunca to vi como hoje. Deve ser do sol e do mar.
- Que é que querias?
- Deve ser dos olhos limpos com que te vejo hoje.

Vergílio Ferreira, In Contos, Uma Esplanada sobre o Mar


1. Localiza a ação no espaço e no tempo.

2. Caracteriza fisicamente a rapariga.

3. Faz o levantamento das expressões que permitem caracterizar fisicamente o rapaz.

4. Classifica o narrador, quanto à presença e quanto à ciência, justificando com expressões do texto.

5. Dá exemplos de narração, descrição e diálogo.

5.1. Realça as características principais da descrição, presentes no primeiro parágrafo.

6. "Quando ela o reconheceu, fez-lhe sinal, mas eleja a tinha visto."

6.1. Trata-se de uma frase simples ou complexa? Justifica.

6.2. Divide e classifica as orações da frase.

6.3. Classifica sintaticamente as orações:

"quando ela o reconheceu"

"mas elea tinha visto"

6.4. Faz a análise morfológica dos elementos que constituem a frase.

6.5. Substitui os pronomes pessoais sublinhados na frase pelos respetivos nomes.

6.5.1. Refere o valor dos pronomes.

7. Este excerto é o início do Conto "Uma Esplanada sobre o Mar", de Vergílio Ferreira.

Dá continuidade à história. Seja a conheces, faz o seu reconto; se não a conheces, imagina a sua continuidade e o seu desfecho e compara-a posteriormente com o texto original.