28.8.12

Súbita saudade


O café tem uma montra larga junto da mesa que escolheu. Entre garrafas e grandes caixas de bombons, vê, no outro lado da rua, uma porta de escada, que tem o número 10. Exactamente. Por esse mesmo número 10, saem e entram duas irmãs da mesma idade do que ele. Há quantos anos? Ditinhos, risos, piscadelas de olho. Saem, voltam, cabelos lisos e fofos, muito iguais, a mesma franja direitinha, parece sempre que acabaram de tomar banho, de vestir-se de lavado. O escândalo do sítio. É que andam a aprender bailado. E isso, danças, palcos, perna à vela, a gente sabe como é. E a mãe? Como é que a mãe consente? Estrangeira. Ah é estrangeira, não ponhas mais na carta. O avô atende-a bem, não está ali para outra coisa, mas, com ela, mede as suas palavras. Ele é que não mede coisa alguma. Acha as filhas um deslumbramento, sobretudo a menos alta, mais à sua dimensão, que, por sinal, se chama Gerda. Um nome áspero, de lixa número um. Que vai mal com aquele ar sereno e luminoso, aqueles vestidos muito leves, suspensos dos ombros por laços de fita sedosa e estreita que lhe deixam o colo e os braços nus. Braços brancos, macios, como a pele da cara, levemente rosada, que o faz pensar em porcelana e pétalas de flor.
Passou a ir muito à loja, só para as ver sair, entrar, aguardando um encontro fortuito, uma aproximação, que maluqueira! O que veio a acontecer inesperadamente, como tudo o que mais conta nesta vida. O caixeiro tivera de sair. E o avô, que não queria ali fidalgos, pôs-lhe um embrulho nas mãos: "Vai levar isto à estrangeira. É no segundo andar. Mas não te demores, vê lá!" Num alvoroço, ei-lo a galope pela escada acima, a quatro e quatro. E é a Gerda que abre, meu Deus!, é a Gerda que abre, a própria Gerda ali na sua frente, com a franja fofa e direitinha, os olhos transparentes e toda a sua sedução de sabonetes caros, espuma, transparências. E ele de coração à boca, por causa da emoção e da escada a galope. Fitam-se, enleados. Com a candura própria de crianças, que ambos são. E então passou a inventar toda a casta de pretextos para sair e apanhá-las no regresso a casa. A irmã apressa o passo como quem não quer a coisa, deixa-os para trás a conversar, não é mais nada do que isto: conversar!, até que ela diz "adeus, adeus", desata a correr ou a voar, ele vê-a a voar, apanha a irmã e entram juntas no, como se nada fosse. Neste mesmo número 10. Naquela mesma porta baixa e larga, muito escura lá para dentro e já tão velha como hoje. (...)
Vê disfarçadamente os jovens da mesa ruidosa, que nem dão por ele, é natural. Sobretudo o parzinho que, lá de vez em quando, dá uma beijoca' mais. Observa-os sem censura.

Mário Dionísio, "A Desordem Natural das Coisas",
in Monólogo a Duas Vozes, Publ. Dom Quixote


Notas:
fortuito: casual.
enleados: perturbados; cativados.
candura: inocência; ingenuidade.
casta: espécie.




1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. A expressão "não ponhas mais na carta" significa:

não escrevas mais

não é preciso dizer mais nada

não vale a pena mandar a carta

1.2. Para o narrador; o que é importante na vida acontece quando:

menos se espera

se programa

se deseja

2. Delimita as duas partes do texto, demarcadas pela distância temporal.

Tempo presente:

Tempo passado:

3. Faz o levantamento das expressões que no princípio e na parte final do texto utili­zam o mesmo determinante demonstrativo, realçando a semelhança de situações.

Na parte inicial do texto:

Na parte final do texto:

4. Transcreve expressões caracterizadoras de Gerda relativamente a:

Cor e luz:

Tacto:

Olfacto:

Outras características:

5. Mostra que Gerda e a família se diferenciavam do protagonista e tinham possibili­dades económicas.

6. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Recordar é viver.