2.8.12

A bolsa ou a vida




Sofia e Alexandra, gémeas idênticas, são filhas do primeiro casamento da minha mãe. Sofia é mais velha - nasceu cinco minutos antes de Alexandra, e foi sempre muito forte e determinada, uma espécie de segunda mãe para a mais nova. Esta semana, Sofia foi assaltada no Rio de Janeiro. Ou melhor, não chegou a ser assaltada. Sofia tem andado muito deprimida. O namorado pediu-lhe um tempo para pensar. Conhecem a frase, não?! Claro que conhecem. Quando um homem nos pede um tempo para pensar é porque, primeiro, não tem muita imaginação, e depois já pensou em tudo. Só existe uma maneira de enfrentar este terrível lugar-comum sem perder a dignidade: faça das tripas coração, sorria, e diga-lhe que não precisa de pensar mais; confesse, a meia voz, que está apaixonada por outro. Refreie a vontade de o esbofetear e despeça-se dele com um beijo na face. A seguir vá para casa, feche-se no quarto e chore à vontade. Foi o que a minha irmã fez. Chorou muito. Comprou uma minissaia azul, Gianni Versace, com a certeza de que jamais a vestiria. Cortou o cabelo. Comeu uma caixa inteira de chocolates. Na manhã seguinte, porém, acordou ansiosa, com palpitações, uma sensação de desastre iminente, e compreendeu que teria de tomar medidas radicais. Pediu duas semanas de férias e comprou um bilhete para o Rio de Janeiro. Não conhecia ninguém no Brasil. Nunca tinha estado lá. Pareceu-lhe a escolha acertada.
Hospedou-se no Copacabana Palace e logo nessa noite vestiu a minissaia azul, do Gianni Versace, e atravessou a avenida com a intenção de se sentar um pouco na areia, a contemplar o mar. Sentou-se, afundou os olhos nas águas escuras, e nesse instante um jovem alto, moreno, com um brinco no nariz, encostou-lhe uma faca à garganta:
"A bolsa", sussurrou: "A bolsa ou a vida."
O texto gasto, a falta de imaginação, fez com que a minha pobre irmã se lembrasse do namorado e então, coitada!, rebentou ali mesmo num choro incontrolável. Foi isso que a salvou. O assaltante, aflito, enfiou a faca num dos bolsos da bermuda e tentou consolá-la:
"Não chore mais, moça. Mulher triste eu não assalto, dá até azar. É como matar passarinho." Convidou-a a tomar um chope. Sofia achou que era demais - a cerveja. Mas aceitou um cafezinho numa esplanada a dois passos dali, bem iluminada, e quando deu por isso estava a contar ao rapaz toda a sua tragédia íntima. Ele ouviu-a com atenção. Sabia ouvir, o que é raro nos homens, e, mais raro ainda, sabia dar conselhos, sem parecer nem um velho professor entediado nem um sedutor de telenovela. Além disso, tinha um extraordinário sentido de humor. Fez com que ela se risse. Mostrou-lhe o seu próprio mundo - que era um inferno - como se fosse um grande circo, cheio de feras e de monstros, mas também de palhaços e de bailarinas. Finalmente escoltou-a até ao hotel, sempre muito solícito, muito respeitador, recomendando-lhe mais cuidado quando, no futuro, decidisse passear à noite pelas ruas de Copacabana.
Ao regressar a Lisboa, Sofia encontrou o namorado, no aeroporto, com um enorme ramo de flores. A minha irmã agradeceu as flores e pediu um tempo para pensar. Telefonei-lhe há pouco para lhe perguntar se não tinha ficado com o telefone do assaltante. Só eu sei a falta que em certos dias, como hoje, por exemplo, me faz um assaltante assim.

Faíza Hayat, O Evangelho Segundo a Serpente (excerto)


I

1. Atenta nos seis primeiros períodos. "Sofia e Alexandra .. para pensar. "

1.1. Explica a funcionalidade deste excerto em relação à história que é contada.

2. Justifica o recurso sistemático ao modo imperativo na passagem que vai desde "Conhecem a frase, não?! " até "(. ..) e chore à vontade. "

3. Considera, agora, o excerto que vai de "Foi o que a minha irmã fez. " até a "(. . .) pelas ruas de Copacabana. ).

3.1. Esclarece por que razão o Brasil pareceu a Sofia "a escolha acertada "

3.2. Explica o que é que, no momento do assalto, lhe fez lembrar o namorado.

3.3. Enumera as caraterísticas que Sofia encontrou no assaltante que o distinguiam dos outros homens.

4. Comenta a atitude de Sofia em relação ao namorado que a foi esperar ao aeroporto.

5. Propõe um outro título para o texto que, sendo embora apelativo, não desvende ao leitor a história que vai ser contada.

II

1. Na terceira linha do texto, o narrador utiliza a expressão "Ou melhor" para:

a. reformular o seu discurso.

b. exprimir a confirmação da ideia expressa anteriormente.

2. O complexo verbal "tem andado" expressa:

a. a pontualidade da ação narrada.

b. uma situação que se repete regularmente durante um determinado período de tempo.

3. O conetor "porém ":

a. introduz uma conclusão em relação à ideia principal.

b. articula ideias opostas.

4. Indica o antecedente do termo anafórico.

5. Transforma as três frases simples seguintes numa frase complexa, recorrendo a conetores que respeitem o sentido das frases no contexto: "Não conhecia ninguém no Brasil. Nunca tinha estado lá. Pareceu-lhe a escolha acertada.”

6. Passa para o discurso indireto a fala do assaltante.

III

Imagina uma pequena história que surpreenda o leitor pelo insólito dos acontecimentos relata­dos. O teu texto, que deverá ter entre cento e cinquenta e duzentas palavras, deve ser nar­rativo, com recurso à descrição e ao diálogo, e os verbos devem estar predominantemente no pretérito perfeito e no pretérito imperfeito.