28.6.12

As tramas verbais


Levanta-te da cama, cobarde. Estás a tossir muito, grande vaidoso. Achando todas as virtudes e defeitos bastante arbitrários, ele entretinha-se assim. A desviar os adjectivos dos seus objectivos. A princípio a mulher achava-lhe graça e fingia-se zangada. (...) Depois, foi-lhe exigindo explicações. Ele nunca foi capaz de lhe dizer que aquelas frases com palavras tão estranhamente associadas lhe apareciam na cabeça, sem esforço ou vontade seus; temeu que ela passasse a rondar-lhe os desejos com inquietação, e racionalizou as mais arbitrárias conjunturas: esse desvio que ele impunha às palavras não era assim tão grande, sendo sempre possível explicar tais deslocações objectivais. Por exemplo: o preguiçoso que não se levanta da cama é, de facto, uma pessoa que se recusa a enfrentar a vida e é, portanto, um cobarde; o que não toma banho incomodará os outros pelo seu aspecto e cheiro, e não tendo em conta esse incómodo que aos outros impõe, é egoísta. Et coetera.
(...) Exercitava-se com os seus filhos, com a mulher, também com os colegas de trabalho. Claro que acabas por acertar sempre, dizia-lhe a mulher já remetida para a sisudez do hábito conjugal, as palavras têm muitas margens soltas e no fundo está tudo ligado.
Só os filhos gostavam deste jogo. Divertiam-se muitíssimo. Primeiro riam, com aquelas gargalhadas muito soltas da infância, enquanto o pai chamava presunçoso a alguém que se estatelara no chão, sonhador a quem tinha uma dor de dentes, enfim, enquanto ouviam o pai exercitando as suas pequenas perversões linguísticas. (...)
A mulher interrompia-o quase sempre quando o via junto das crianças, exercendo aquilo que ela achava um desgaste das palavras. Deixa-os, eles têm de ir dormir. Ou: não os ajudes a perder tempo, eles têm que estudar, têm de fazer os trabalhos. Poética senhora, chamava-lhe então o marido, ou corruptora de menores. E muitas vezes, despachadas as crianças, ficavam os dois a discutir, ela acrescentando acusações: não é só desgaste das palavras, não, é uma verdadeira guerrilha vocabular, um terrorismo intelectual, como queres tu que os nossos filhos venham a falar com propriedade, saibam exprimir-se e confiem na palavra dos outros? (...)
No emprego, os colegas também não lhe achavam graça. Desorientavam-se. Que mania a tua, diziam os mais amigáveis. Um dia, você ainda vai ter dissabores, dizia-lhe o chefe. E teve. No dia em que, levado por anos de hábito incontrolado, deu uma palmada nas costas do administrador, no momento, das boas-festas natalícias, dizendo-lhe: quanta amabilidade a sua, seu pelintra. A empresa estava quase falida, e a sobrevivência de todos dependia do êxito com que o administrador conseguisse esconder esse facto perante os seus credores.

Maria Isabel Barreno, "As Tramas Verbais",
in Os Sensos Incomuns, Ed. Caminho



Notas:
arbitrários: dependentes da valorização individual; discutíveis.
conjunturas: situações.
et coetera: expressão latina cuja abreviatura é etc. e significa e outras coisas mais.
presunçoso: vaidoso.
perversões linguísticas: deturpações da língua.
dissabores: desgostos.



1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O homem desviava os adjectivos dos seus objectivos:

por distracção

por brincadeira

de forma incontrolável

1.2. A mulher desviava o marido dos filhos por:

eles poderem vir a falar sem rigor e sem exactidão

ele desgastar as palavras

eles terem de ir dormir

2. O texto pode ser dividido em três partes. Delimita-as e sintetiza a última.

1ª parte: Início do fenómeno de desgaste das palavras com a mulher:

2.a parte: Desenvolvimento do processo com os filhos e colegas:

3.Presta atenção ao primeiro parágrafo.

3.1. Justifica o uso do plural masculino do determinante possessivo na expressão "esforço ou vontade seus".

3.2. O que é que a personagem temeu que a mulher descobrisse?

4. Explica por palavras tuas a inconveniência que ele disse ao administrador.

5. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Quem diz o que quer, ouve o que não quer.