2.5.12

O passeio da fama

Há vinte anos, os jogadores de futebol eram seres já idolatrados mas socialmente desconsiderados.
(...)
A imagem dos futebolistas era a de uns tipos transpirados, analfabetos, vindos quase sempre das classes mais baixas, e que apenas se distinguiam por saberem ciar uns pontapés na bola. Como a sua função era jogar com os pés, os futebolistas não tinham obviamente de ser bonitos. (...)
Hoje, para um jogador ser famoso, já não basta jogar bem à bola.
O que importa, num jogador, já não é só a sua capacidade futebolística - mas aquilo que se pode designar por "potencial mediático".
A imagem dos grandes jogadores é vendida diariamente em todo o mundo nas páginas dos jornais e revistas, nos ecrãs das televisões, na Internet, em vídeos, "posters", cromos, etc.
Ora essas imagens terão tanto mais sucesso quanto melhor for o aspeto dos futebolistas.
(...)
Desde que os clubes se transformaram abertamente em empresas, os futebolistas deixaram de ser apenas futebolistas. São "ativos". E os ativos serão tanto mais rentáveis quanto, a par do seu rendimento em campo, puderem render fora do campo.
Quanto mais mediático for um jogador, maior será o número de camisolas vendidas com o seu nome (e o negócio das camisolas é hoje um importante negócio), o número de contratos publicitários que assina, o número de vezes que aparece em acontecimentos não desportivos.
E tudo isso reverte, também, a favor do clube - cios seus cofres e do seu prestígio.
(...)
Beckham ou Figo até podem estar a jogar mal - mas, continuando as suas imagens a vender-se (ou as imagens dos respetivos casais, bonitos e felizes), eles continuam a ser excelentes negócios.
E, com todas estas mudanças, o lugar dos futebolistas na sociedade também mudou.
A ideia dos jogadores como homens rudes e analfabetos passou - e as portas das festas de sociedade e das revistas de sociedade abriram-se-lhes.
(...)
Claro que isto também é um sinal de que, de há vinte anos para cá, a sociedade mudou muito.
O vazio de valores das sociedades ocidentais conduziu a uma preocupação obsessiva com a fama, o dinheiro e a imagem. Procuram-se desesperadamente pessoas bonitas e famosas e os futebolistas não poderiam escapar à voragem.
Foram reciclados, melhorados, produzidos.
A transformação de homens suados e feios em modelos perfumados e atraentes é a mesma que tende a substituir o mundo real por um mundo de ilusão.
Que acaba por ser, também, de cruéis desilusões.


José António Saraiva, in Expresso, 13.09.2003
(texto adaptado e com supressões)




I

1. Identifica o facto da atualidade que esteve na origem desta crónica.

2. Diz se as afirmações que se seguem são verdadeiras (V) ou falsas (F), tendo em conta o texto:

a. Há duas décadas, os jogadores de futebol eram já considerados ídolos e ocu­pavam um lugar de relevo na sociedade.

b. O "potencial mediático" é a capacidade que um jogador tem de exercer bem a sua profissão.

c. As transformações que os futebolistas sofreram nas últimas décadas relacio­nam-se diretamente com as alterações operadas nos clubes.

d. A crescente valorização social da beleza e da fama é diretamente proporcio­nal ao aumento do vazio de valores da sociedade atual.

3. O texto pode ser dividido em três partes lógicas.

3.1. Delimita-as.

3.2. Redige, para cada uma delas, uma frase complexa que dê conta da ideia-chave aí desenvolvida.


II

1. Relaciona os tempos verbais predominantes nos dois primeiros parágrafos com a expressão temporal que os introduz.

2. Identifica, no texto, os antecedentes dos vocábulos sublinhados no excerto que se segue:

"E tudo isso reverte, também, a favor do clube - dos seus cofres e do seu prestí­gio. "

3. Noutros tempos, os jogadores de futebol eram idolatrados.

3.1. Identifica as funções sintáticas dos constituintes desta frase simples.

4. Considera as duas frases simples:

Os clubes transformaram-se em empresas. Os jogadores passaram a "ativos ".

4.1. Transforma-as numa frase complexa, recorrendo a: a. uma conjunção subordinativa causal; b. uma conjunção subordinativa temporal.

III

Resume o texto informativo a seguir transcrito, constituído por duzentas e quinze palavras, num texto de noventa e cinco a cento e dez palavras.

Futebol

Modalidade desportiva que teve a sua origem em Inglaterra, por volta de 1840, onde era jogado por rapazes estudantes, embora se possam identi­ficar jogos mais antigos, noutros países, com caraterísticas comuns. A uni­formização das suas regras passou, numa primeira fase, pela Universidade de Cambridge, em 1843, e vinte anos depois pela fundação da Associação Inglesa de Futebol, que estabeleceria as regras que hoje conhecemos.

(...) O jogo propagou-se a outros países, que também passaram a organizar campeonatos. Em 1904, surgiu a Federação Internacional de Fute­bol (FIFA), que viria a uniformizar as regras do jogo a nível internacional.

(...) A partir de 1930, a FIFA tornou-se a entidade responsável pela realiza­ção dos Campeonatos do Mundo de futebol, que se realizam de quatro em quatro anos. (...)

Nos nossos dias, o futebol é um desporto fortemente mediatizado e massificado. Aos campos de futebol acorrem milhares de adeptos, que apoiam as respetivas equipas. Em termos económicos, cada jogador ou treinador pode valer milhões. (...) O futebol ultrapassou rapidamente o âmbito do terreno de jogo para ser dirigido por conhecidos empresários ou políticos. As equipas mais importantes são geridas à imagem e semelhança das grandes empresas. Por outro lado, como desporto de multidões que é, o futebol marca presença no imaginário coletivo contemporâneo, sendo um elemento cultural e social a que os estudiosos têm dedicado merecida atenção.