2.5.12

O célebre caso da não-criação de porcos...

A economia deixou de ter qualquer relação com a realidade para se passar por dentro da cabeça dos economistas que resolvem as grandes crises financeiras à mesa dos seus gabinetes. Julgo que não estou a exagerai: se disser que a economia tende para ser uma realidade virtual. Como dizia o meu querido amigo Millôr Fernandes: "A economia compreende toda a atividade do mundo. Nenhuma atividade do mundo compreende a economia."
Já há para aí trinta anos que descobri uma carta que um senhor americano escreveu ao seu ministro da Agricultura, numa altura em que, perante uma superprodução de porcos, o governo resolveu limitar a sua produção, subsidiando os produtores que não os criassem. A carta é assim:
"Excelentíssimo Senhor Ministro,
O meu amigo Richard Hamilton recebeu este ano um cheque de 1000 dólares porque não criou porcos. Estimulado por este seu êxito decidimos iniciar na nossa propriedade o negócio da não-criação de porcos. O assunto parece-me cheio de interesse, diria mesmo apaixonante, além do muito que nos alegrará sabermos que deste modo estamos a contribuir para o bem-estar de várias pessoas que possamos utilizar nesta exploração e que por esta forma serão outros tantos empregados com ocupação, o que pode vir minorar um atroz problema social. Neste quadro de circunstâncias, pretendíamos. Senhor Ministro, que nos mandasse informar quais são as regiões mais apropriadas para a não-criação de porcos e qual a melhor raça de porcos para não criar. (...)
O que se nos afigura mais difícil nesta exploração é fazer o inventário dos porcos que não criaremos. O meu amigo Richard é muito otimista quanto ao futuro da nossa exploração. Segundo afirma, vem criando porcos há muitos anos, o que lhe permitia em média retirar um lucro anual de 350 dólares e houve mesmo um ano particularmente rentável em que ganhou 400 dólares, enquanto, neste último ano, por não criar porcos ganhou 1000 dólares. (...)
Se é possível receber 1000 dólares por não criar 500 porcos nós poderíamos receber o dobro por não criarmos 1000. Fazíamos tenção de começar modestamente pela não-criação de 2000 porcos que nos daria um lucro de 4000 dólares. Se os nossos planos forem cumpridos dentro das normas de uma sã administração e com uma produtividade sempre crescente esperamos muito brevemente atingir a não-criação de 40 000 porcos, o que nos daria um lucro de 80 000 dólares, podendo nessa altura considerar a empresa dimensionada de modo a constituir um fator de progresso e engrandecimento da nossa região. (...)
Ficar-vos-emos extraordinariamente reconhecidos se nos responder o mais rapidamente possível porquanto julgamos que esta época do ano será a melhor para a não-criação de porcos e, por isso, gostaríamos de começar quanto antes.
Queira V. Exa., Senhor Ministro, receber os protestos da minha maior consideração.


António Alçada Baptista, A Cor dos Dias-Memórias e Peregrinações, Ed. Presença, 2003
(texto adaptado e com supressões)


I

1. Relê o primeiro parágrafo do texto.

1.1. Segundo o autor, a economia "tende para ser uma realidade virtual." porque...

a. passou a ser tratada apenas através das novas tecnologias.

b. os economistas não têm contato direto com a realidade.

c. os economistas só se interessam por grandes crises financeiras.

2. Lê, agora, mais uma vez, a carta reproduzida por Alçada Baptista.

2.1. Explica qual é a sua função relativamente ao assunto do texto.

2.2. Aponta duas razões que, segundo o emissor da carta, terão estado na ori­gem da decisão de iniciar a atividade de não-criação de porcos.

2.3. Indica a meta que a exploração terá de atingir para poder "constituir um fa­tor de progresso e engrandecimento " da região.

2.4. Explica, sucintamente, em que reside o humor desta carta.

II

1. Reescreve a frase "Julgo que não estou a exagerar se disser que a economia tende para ser uma realidade virtual. " de forma a que o enunciado assuma um grau de certeza absoluta.

2. Retoma as palavras de Millôr Fernandes substituindo a forma verbal "com­preende", nas suas duas ocorrências, por um sinónimo adequado ao contexto.

3. Escreve duas frases, simples ou complexas, que permitam distinguir inequivoca­mente a diferença de significado dos seguintes pares de vocábulos:

a. "tenção"/tensão

b. "cumpridos"/compridos

4. Esta carta é dirigida ao ministro da Agricultura americano.

4.1. Faz o levantamento dos elementos que provam que se trata de uma carta formal.

4.2. Reescreve o último parágrafo do texto (antes da fórmula de despedida) ima­ginando que o emissor se expressa no singular e que a relação entre o emis­sor e o destinatário da carta é de grande proximidade.

5. Faz a análise sintática da seguinte frase simples: "Nenhuma atividade do mundo compreende a economia."

III



Transforma a carta que integra a crónica de Alçada Baptista num requerimento. Não te esqueças de deixar bem claro o motivo que está na origem da tua petição e de obedecer às regras formais que um requerimento deve respeitar.