4.4.12

Os meus amigos

Tenho um novo amigo. Chama-se Garrone. É o mais alto e mais forte da aula; tem quase catorze anos, a cabeça grande e os ombros largos. É muito bom, está sempre a rir, mas tem um ar sério de homem.
Agora já conheço bem os meus novos companheiros de classe. Há outro de quem também gosto muito.
É o Corretti, aquele que usa sempre uma camisola castanha e um barrete de pele de gato. Anda sempre satisfeito; é filho de um negociante de madeira que esteve na guerra de 1866, no batalhão do príncipe Humberto; parece que recebeu três condecorações. Há também o Nelli, que é corcunda, coitado, e muito magrinho.
Depois há um rapaz muito bem vestido, e tão preocupado com a roupa que está sempre a sacudir a gola do casaco. Esse chama-se Votini.
Na fila à minha frente fica sentado um rapaz a quem todos chamam «o pedreiro », por causa do ofício do pai dele. Tem a cara redonda como uma laranja, e o nariz parece um berlinde. O pedreiro sabe fazer uma habilidade especial: imita o focinho de um coelho; é muito engraçado. Ao pé dele está o Garoffi, alto e magro, com o nariz aguçado como o de um furão e os olhos muito pequeninos.
O Garoffi está sempre a mexer em dinheiro; traz nos bolsos um verdadeiro arsenal de coisas: gravuras e caixas de fósforos, que vende aos colegas; escreve as lições na mão para as ler quando o professor lhe faz perguntas. Há também um rapaz pequeno chamado Carlo Nobis, que parece ser muito orgulhoso. O lugar dele é entre dois rapazes de quem sou muito amigo. Um é filho de um ferreiro, sempre pálido, como se estivesse doente, e nunca se ri; o outro tem o cabelo avermelhado e é paralítico de um braço. O pai embarcou para a América e a mãe anda a vender flores. Depois há o meu vizinho da esquerda, o Stardi, baixo e atarracado; é muito metido consigo e não fala com ninguém, mas não tira os olhos do professor, e está tão atento à mais pequena coisa que ele diz que até franze a testa, apertando os dentes. Se lhe dirigem a palavra durante a lição, às duas primeiras vezes não responde, à terceira manda um soco! Diante dele está um rapaz chamado Franti, que já foi expulso de outra classe. E a seguir ainda há dois irmãos gémeos, tão parecidos como duas moedas de um soldo, e que vestem de igual. Mas o mais bonito de todos, o mais inteligente, o que vai ser com certeza outra vez o primeiro este ano, é o Derossi; aliás, o professor faz-lhe mais perguntas do que aos outros. Mas de qualquer maneira, quem eu prefiro é o Garrone.

Edmundo de Amicis, Coração, Público, Lisboa, 2005.



1. Completa a grelha indicando um adjetivo referente a cada um dos companheiros Amizade do autor, retirados da lista seguinte:

a. alto
b. magrinho
c. orgulhoso
d. baixo
e. inteligente
f. satisfeito
g. magro
h. preocupado

1. Derossi
2. Garrone
3. Votini
4. Carlo Nobis
5. Corretti
6. Garoffi
7. Stardi
8. Nelli


2. Nas informações que dá sobre Garrone, o narrador indica um contraste. Explicita-o.
2.1 Qual a palavra que serve para indicar esse contraste?

3. Um dos rapazes é caracterizado através de duas comparações. Quem é?
3.1 Transforma a primeira comparação numa metáfora.

4. Na frase: «(…) Carlo Nobis, que parece ser muito orgulhoso.», o narrador exprime uma opinião ou apresenta um facto?

5. No texto encontras vários pronomes pessoais. Identifica-os e indica a que ou a quem se referem.

6. Indica as afirmações verdadeiras (V) e as falsas (F) relativas às frases complexas seguintes. Corrige as falsas.

6.1 Na frase complexa O narrador tem amigos novos e conhece-os todos as orações são coordenadas.
6.2 Na frase complexa Um deles ri-se muito mas, por vezes, tem um ar muito sério as orações são coordenadas adversativas.
6.3 Na frase complexa O Garoffi vende objetos aos amigos quando traz o bolso cheio deles a segunda oração é uma oração subordinada.
6.4 Na frase complexa O pai de um amigo do narrador embarcou para a América porque lá ganhava mais dinheiro a segunda oração é subordinante.
6.5 A segunda oração da frase complexa Ele embarcou para a América para ganhar mais dinheiro exprime um fim, um objetivo.
6.6 A primeira oração da frase complexa Se ele ficasse na sua terra continuaria pobre exprime uma possibilidade.